sábado, 30 de setembro de 2006

Escrito por em 30.9.06 com 0 comentários

Fórmula 1 (V)

Hoje é dia de Fórmula 1 no átomo!

1990-1999


Sendo a categoria principal do automobilismo, a Fórmula 1 sempre foi dada a inovações tecnológicas. Desde a década de 60, as equipes sempre buscaram novas formas de fazer com que seus carros se tornassem mais velozes sem depender exclusivamente do talento do piloto. Na década de 90, porém, esta obsessão pela tecnologia alcançou seu ápice.

Das três principais inovações tecnológicas da década de 90, duas, na verdade, haviam sido inventadas na década de 80. A suspensão ativa, controlada por computador para que o carro tivesse a menor perda de velocidade possível nas variações de terreno, havia sido introduzida pela Lotus em 1987; e o câmbio semi-automático, que permitia a troca de marchas com o apertar de um botão, pela Ferrari em 1989. Combinado a eles, o controle de tração, que eletronicamente controlava o motor para evitar perda de potência mesmo que o piloto acelerasse demais ou pisasse no freio na hora errada, introduzido em 1991, criaria o "carro invencível" da Williams.

Ayrton SennaMas, para a temporada de 1990, o carro invencível ainda era a McLaren e seu potente motor Honda de 12 cilindros, que havia vencido os dois campeonatos anteriores. O campeonato de 1990, aliás, seria bem parecido com o de 1989: o regulamento, que costumava mudar a cada ano, era praticamente idêntico, com a única mudança sendo uma alteração no tamanho mínimo do cockpit. Além disso, os dois principais candidatos ao título, mais uma vez, eram o brasileiro Ayrton Senna e o francês Alain Prost. Ex-companheiros de equipe na McLaren, Senna continuava correndo pela equipe de Ron Dennis, desta vez na companhia do austríaco Gerhard Berger; enquanto Prost seria o novo parceiro do inglês Nigel Mansell na Ferrari, que estava disposta a gastar quanto dinheiro fosse necessário para acabar com um jejum de dez anos sem títulos. Nelson Piquet, cansado da decadente Lotus, se tranferiu para a colorida Benetton, um dos carros mais promissores da época, equipado com motor Ford, que também estava disposta a fazer o impossível para impedir um novo título da japonesa Honda.

O calendário para 1990 teve 16 provas: Estados Unidos em Phoenix, Brasil em Interlagos, San Marino em Ímola, Mônaco em Monte Carlo, Canadá em Montreal, México na Cidade do México, França em Paul Ricard, Inglaterra em Silverstone, Alemanha em Hockenheim, Hungria em Hungaroring, Bélgica em Spa-Francorchamps, Itália em Monza, Portugal em Estoril, Espanha em Jerez de la Frontera, Japão em Suzuka e Austrália em Adelaide. Foi uma ótima temporada para os brasileiros, com Ayrton Senna chegando ao bicampeonato com seis vitórias, e Piquet, com duas, terminando na terceira posição. Prost foi o vice, com cinco triunfos.

A emoção continuaria na temporada de 1991, considerada por muitos a última das grandes temporadas da categoria. Senna se igualaria a Piquet como mais um brasileiro tricampeão após vencer sete corridas, sem se sentir ameaçado por nenhum rival durante toda a temporada. Piquet teve sua última vitória na Fórmula 1, no GP do Canadá, e terminou o campeonato na sexta colocação, encerrando sua longa e vitoriosa carreira ao final desta temporada. Insatisfeito com a Ferrari, Mansell voltou para a Williams, que havia acabado de instalar o novíssimo controle de tração em seus carros equipados com o poderoso motor Renault, e fez uma excelente temporada, vencendo cinco provas e terminando na segunda colocação. A Ferrari, apesar de todo o investimento, não venceu uma prova sequer, e acabou demitindo Prost no final da temporada. 1991 também foi o ano de estréia daquele que viria a se tornar o maior recordista da história da categoria, o alemão Michael Schumacher. Schumacher foi contratado pela pequena equipe Jordan para substituir o francês Bertrand Gachot, que havia sido preso em Londres por borrifar spray de pimenta no rosto de um taxista durante uma discussão de trânsito. A excelente atuação de Schumacher no GP da Bélgica, considerado um dos mais difíceis do calendário, e onde ele nunca havia corrido, chamou a atenção da Benetton, que o contratou para correr as duas últimas provas da temporada no lugar do brasileiro Roberto Moreno, o que causou a ira de Eddie Jordan, que acusou a Benetton de conduta desleal. O calendário só teve duas alterações, a transferência do GP da França para o novíssimo circuito de Magny-Cours, e do GP da Espanha para Montmeló.

O bom desempenho de Mansell em 1991 era apenas um trailer do que estava por vir em 1992. Aliando um excelente chassis a um excelente motor e à mais moderna tecnologia, a Williams conseguiu um carro imbatível. Com ele, Mansell venceu um recorde de nove corridas, sendo as cinco primeiras seguidas, e se tornou campeão pela primeira vez, com cinco provas de antecedência. Prost, demitido no ano anterior, sequer correu, atuando como comentarista para a TV francesa. A McLaren, mesmo com um carro com problemas de projeto, venceria cinco provas, três com Senna, que terminaria o campeonato em quarto lugar, e duas com Berger. Schumacher venceria sua primeira prova, curiosamente o GP da Bélgica onde ele havia estreado no ano anterior, e terminaria o campeonato na terceira posição. 1992 ainda seria o ano de estréia do brasileiro Christian Fittipaldi, filho de Wilson e sobrinho de Emerson, que correu as temporadas de 1992 e 1993 pela Minardi e a de 1994 pela Footwork, tendo como melhor resultado três quartos lugares, nos GPs da África do Sul de 1993, e do Pacífico e da Alemanha de 1994. 1992 ainda foi o ano em que a última mulher se aventurou a correr na Fórmula 1, com a italiana Giovanna Amati tentando se qualificar para as três primeiras provas com uma Brabham, mas sem sucesso. A única alteração no calendário de 1992 foi a troca do GP dos Estados Unidos pelo da África do Sul, em Kyalami.

Irritado com o fraco desempenho de seu McLaren - que ainda por cima havia ficado sem o motor Honda, pois a montadora japonesa havia decidido "dar um tempo" na Fórmula 1 - Senna, amigo de Frank Williams, tentou se transferir para lá em 1993. No meio da temporada de 1992, porém, a equipe havia contratado Alain Prost. Segundo boatos, Prost teria "embarreirado" a contratação de Senna, para não ter de dividir os holofotes com o rival. Furioso, Senna chegou a chamar Prost de covarde durante uma entrevista.

1993 foi uma temporada de muitas novidades. Para começar, a FISA havia deixado de existir após uma reestruturação da FIA, passando a organização dos GPs e atividades correlatas a esta. Berger se transferiu para a Ferrari, e o novo parceiro de Senna seria o norte-americano Michael Andretti, filho do campeão Mario Andretti. Um novo brasileiro estrearia na categoria, Rubens Barrichello, que, correndo pela Jordan, conseguiu um quinto lugar no GP do Japão. O GP do México deixou o calendário, dando lugar ao GP da Europa, disputado em Donnington Park, Inglaterra. E a novidade mais curiosa foi um carro de número zero, do inglês Damon Hill, filho de Graham Hill, companheiro de Prost na Williams. Explica-se: na Fórmula 1, o carro de número 1 é sempre do atual campeão. O atual campeão, no caso, era Mansell, que havia deixado a categoria e se transferido para a Fórmula Indy. Com isso, a Williams poderia escolher qualquer número para seus carros, exceto o 1. Por alguma razão, eles decidiram que Hill seria o 0, e Prost o 2, o que acabou dando ao piloto inglês o apelido de "Capitão Zero".

A única coisa que não foi novidade em 1993 foi o domínio da Williams. Prost, que chegaria ao seu quarto título mundial, conseguiria sete vitórias, e Hill mais duas. Senna, mesmo com um carro capenga, se aproveitaria de sua extrema habilidade para dirigir na chuva, e conseguiria cinco vitórias, terminando como vice-campeão. A prova restante, o GP de Portugal, seria vencido por Schumacher.

A esta altura, parecia claro que, até que alguém conseguisse fazer um carro melhor, qualquer um contratado pela Williams para ser seu primeiro piloto automaticamente seria o campeão. Isto, evidentemente, não interessava à FIA, que preparou um pacote de mudanças para a temporada de 1994. De uma vez só, a FIA baniu a suspensão ativa e o controle de tração, duas das principais armas da Williams. Além disso, para aumentar a emoção das corridas, ela limitou o tamanho dos tanques de gasolina, tornando o reabastecimento durante as provas obrigatório - até 1982 ele era permitido, mas desde 1959 que as equipes preferiam fazer carros com tanques suficientemente grandes para agüentar até o final da prova, pois parar para reabastecer significava uma perda de tempo enorme; em 1982 a Brabham percebeu que correr com pouco combustível e reabastecer toda vez que ia trocar pneus fazia com que o carro, mais leve, se tornasse mais veloz que seus concorrentes; isto foi considerado por muitos como uma infração de regulamento, e proibido desde então. No calendário, o GP da Europa passou para Jerez de la Frontera, e o GP da África do Sul foi substituído pelo GP do Pacífico, em Aida, Japão.

Sem as inovações tecnológicas, os três carros mais fortes da temporada, no papel, seriam a McLaren, com seu novo motor Peugeot; a Benetton, com Michael Schumacher e um poderoso motor Ford Zetec; e a Williams, que tinha perdido sua eletrônica, mas ainda tinha o motor mais forte, o Renault, e o melhor piloto em atividade, Ayrton Senna, que para lá havia se transferido após a aposentadoria de Prost (o que fez com que Hill fosse o Capitão Zero pelo segundo ano consecutivo). Senna conseguiu a pole position nas três primeiras corridas da temporada, mas abandonou tanto no GP do Brasil quanto no GP do Pacífico.

E então veio o GP da San Marino. Desde o início esta parecia que seria uma corrida atípica. Logo no primeiro dia de treinos, a Jordan de Barrichello deu um vôo após sair da pista, e o piloto teria morrido se não fosse a atuação rápida do Dr. Syd Watkins, o médico da Fórmula 1. Menos sorte teve o austríaco Roland Ratzenberger, que estreava na categoria correndo pela equipe Simtek, e morreu instantaneamente ao se chocar contra um muro ao sair da pista. Senna ficou muito abalado com estes acidentes, e chegou a cogitar não correr, mas momentos antes da prova mudou de idéia. Logo no início da corrida, um acidente entre o português Pedro Lamy, da Lotus, e o finlandês Jyrki Järvi Lehto, da Benetton, fez com que o Safety Car entrasse na pista. Apenas uma volta após a relargada, a barra de direção da Williams se quebrou, e Senna bateu a mais de 215 Km/h na saída da curva Tamburello. Segundo fontes oficiais, Senna faleceu no hospital, mas a quantidade de sangue na pista e a demora no atendimento levaram muitos a crer que ele teria morrido instantaneamente.

A morte de Senna chocou o mundo da Fórmula 1, mas a temporada tinha de continuar. Após mais um grave acidente na corrida seguinte, em Mônaco, que deixou o austríaco Karl Wendlinger, da Sauber, em coma, a FIA decidiu novamente intervir, modificando ainda mais as regras em nome da segurança. As caixas de ar teriam de ser vazadas, para piorar a refrigeração dos motores e limitar os giros máximos; o combustível, uma mistura altamente enriquecida, especial para a categoria, foi substutuído por gasolina comum, usada em qualquer carro de passeio; e uma placa de madeira seria colada ao assoalho do carro, para diminuir o efeito solo.

O campeão de 1994 foi Schumacher, o primeiro título da Alemanha e o primeiro da Benetton. Schumacher seria suspenso por várias corridas, pela FIA entender que seu Benetton violava as novas regras, mas mesmo assim venceu oito provas, duas a mais que Hill, que passou a ser seu maior rival após a morte de Senna. Curiosamente, Nigel Mansell voltou à Williams para correr quatro provas, e venceu o GP da Austrália, após Schumacher jogar seu carro sobre o de Hill para garantir seu título. Barrichello fez uma boa temporada, conseguindo um terceiro lugar no GP do Pacífico.

Para 1995 ainda teríamos mais modificações em nome da segurança: foram banidos os pneus slick, com os carros, mesmo em pista seca, tendo de utilizar pneus com sulcos, e todos os quatro do mesmo tamanho; e o tamanho mínimo do cockpit aumentou, para que fosse mais fácil socorrer um piloto, e diminuísse a chance dele bater com a cabeça em caso de acidente. Além disso, a FIA criou um "modelo", que todas as equipes teriam de seguir se quisesem fazer um carro de Fórmula 1, sem lugar para invenções extravagantes; e aumentou o rigor de seus testes, para garantir que cada pecinha do carro estivesse de acordo com o novo regulamento. Mas a mudança mais significativa foram obras e mais obras nos circuitos, fechando curvas, diminuindo retas e adicionando chicanes - curvas curtas que têm o intuito de reduzir a velocidade dos carros - tudo em nome da segurança e visando diminuir acidentes, mas que, para muitos, acabou com a graça das corridas, reduzindo a quase zero as ultrapassagens, e fazendo com que largar bem e ter uma boa estratégia de parada nos boxes se tornasse mais importante que dirigir com maestria.

Tanto Benetton quanto Williams correram com motores Renault em 1995, e a força dos motores franceses era tanta que estas duas equipes venceram 16 das 17 provas: Schumacher venceria nove, e seu parceiro de Benetton, o inglês Johnny Herbert, mais duas; Hill venceu quatro, e seu companheiro de Williams, o escocês David Coulthard, uma. A única corrida não vencida por um Renault foi o GP do Canadá, onde o campeão foi o francês Jean Alesi, da Ferrari. Com estes resultados, Schumacher conseguiu seu segundo título, e a Benetton foi campeã de construtores sem ser ameaçada por nenhuma outra equipe. Mansell, após tentar sem sucesso correr pela Williams, assinou com a McLaren, que conseguiu motores Mercedes, mas só correu dois GPs antes de se aposentar de vez. Barrichello, apesar de abandonar a maioria das provas, conseguiu um segundo lugar no GP do Canadá. No calendário, o GP da Europa passou para Nürburgring, e foi adicionado o GP da Argentina, em Buenos Aires. 1995 foi o ano de estréia do brasileiro Pedro Paulo Diniz, que correu esta temporada pela Forti Corsi, 1996 pela Ligier, 1997 e 1998 pela Arrows, 1999 e 2000 pela Sauber, tendo como melhor resultado dois quintos lugares, no GP de Luxemburgo de 1997 e no da Bélgica de 1998. Mas o personagem mais pitoresco do ano foi o japonês Taki Inoue, da Footwork, que, durante o GP da Hungria, ao abandonar com um princípio de incêndio, decidiu sair do carro, pegar um extintor, e voltar para ajudar os fiscais a debelar o fogo. No percurso, Inoue foi atropelado pelo carro dos fiscais e quebrou a perna.

Para 1996, a Ferrari, cujo último título havia sido em 1979, decidiu mais uma vez abrir o cofre, contratando os melhores projetistas, os melhores engenheiros, e o melhor piloto, Schumacher. A equipe italiana decidiu fazer um planejamento longo, trabalhando em função do alemão, como se o carro fosse feito especialmente para ele, sabendo que, com seu talento, acabaria colhendo bons resultados. Para conseguir Schumacher, a Ferrari acabou cedendo seus dois pilotos, Berger e Alesi, para a Benetton, e contratou o irlandês Eddie Irvine para ser o "escudeiro" do alemão, ou seja, correr para tentar tirar pontos dos rivais.

Mesmo em sua primeira temporada, e com um carro que ainda tinha muito o que evoluir, Schumacher conseguiu três vitórias, mais do que a Ferrari havia conseguido nos últimos cinco anos. Sem ele, a Benetton desceu de nível, e seus pilotos não fizeram uma boa temporada. As provas foram mais uma vez dominadas pela Williams, que tinha o carro mais consistente, e venceu 12 das 16 provas, quatro com o canadense Jacques Villeneuve, filho de Gilles, e mais oito com Hill, o primeiro filho de campeão da Fórmula 1 a se tornar ele mesmo também campeão. A corrida que sobrou foi um GP de Mônaco atípico, com tantas quebras e acidentes que apenas sete pilotos completaram a prova, vencida pelo francês Olivier Panis, da Ligier. Barrichello, em sua última temporada pela Jordan, terminou o campeonato em oitavo lugar, sem conseguir nenhum pódio. Outros dois brasileiros estrearam na categoria neste ano: Ricardo Rosset, que correu pela Footwork, e depois em 1998 pela Tyrrell, tendo como melhor resultado dois oitavos lugares, nos GPs da Hungria de 1996 e do Canadá de 1998; e Tarso Marques, que correu as temporadas de 1996, 1997 e 2001 pela Minardi, conseguindo dois nonos lugares, nos GPs do Brasil e Canadá de 2001. O calendário voltou a ter 16 provas, com a saída do GP do Pacífico, e a transferência do GP da Austrália para Melbourne.

A partir de 1996, a FIA cedeu todos os direitos comerciais sobre a Fórmula 1, por um prazo de 14 anos, para a FOA (Formula One Administration, ou Administração da Fórmula 1), que, por sua vez, definiu que a geração das imagens para a TV, até então de responsabilidade de uma das emissoras do local onde ocorreria a corrida, caberia a uma subsidiária sua, a FOM (Formula One Management, ou Gerenciamento da Fórmula 1). O presidente da FOA era Bernie Ecclestone, ex-presidente da FOCA, o que gerou alguns protestos de McLaren, Tyrrell e Williams, e levou à assinatura de um novo Pacto de Concórdia, que valeria do primeiro dia de 1997 ao último de 2007.

Além de um novo Pacto, a temporada de 1997 começou com um movimento inusitado: insatisfeito com a Williams, Hill se transferiu para a Arrows, uma equipe pequena e sem a menor chance de vitórias, e que talvez jamais pensasse um dia ter um carro número 1. Com isso, o caminho para o título ficou aberto para Villeneuve, que venceu sete provas. Mas o caminho de Villeneuve não foi fácil, com Schumacher, que venceu cinco provas, sempre muito próximo, e as McLaren, pilotadas por Coulthard e pelo finlandês Mika Häkkinen, que conseguiram uma vitória cada, em constante evolução. Villeneuve só conseguiu garantir o título na última prova, o GP da Europa. Assim como em 1994, Schumacher jogou o carro em cima de seu rival, o que, se tivesse funcionado, teria dado o tricampeonato ao alemão. Desta vez, porém, Schumacher se deu mal: seu carro foi avariado, mas Villeneuve seguiu na corrida e terminou em terceiro lugar. Pior que isso, a FIA considerou a atutude de Schumacher antidesportiva, e o desclassificou, fazendo com que ele perdesse todos os pontos conseguidos durante o ano - sem afetar a pontuação dos demais pilotos, o que poderia causar caos na pontuação final. O calendário mais uma vez teve 17 provas, com a saída do GP de Portugal e a entrada do GP da Áustria, em Spielberg, e do curioso GP de Luxemburgo, na verdade disputado em Nürburgring, Alemanha, o que levou o GP da Europa para Jerez de la Frontera. Barrichello se transferiu para uma nova equipe, a Stewart, do tricampeão Jackie Stewart, mas abandonou todas as provas menos três, uma delas o GP de Mônaco, onde conseguiu um segundo lugar.

Em 1998 a Renault decidiu se ausentar da Fórmula 1, deixando Williams e Benetton, respectivamente, com os desconhecidos motores Mechachrome e Playlife, na verdade versões modificadas de motores Renault de 1997. Com isso, o motor mais forte passou a ser o Mercedes, que impulsionava a McLaren, que desde o ano anterior já mostrava ser capaz de levar um de seus pilotos mais uma vez ao título. E isso foi comprovado após a excelente temporada de Häkkinen, que venceu oito provas e se sagrou campeão 14 pontos à frente de Schumacher, que venceu seis, mostrando que a Ferrari também estava evoluindo, e que logo começaria a dar trabalho aos rivais. Barrichello conseguiu completar seis provas, terminando o campeonato em 12o lugar. E o calendário voltou para 16 provas, com a saída do GP da Europa.

A temporada de 1998 foi um passeio de Häkkinen, mas o finlandês teria muito mais dificuldades para conquistar seu bicampeonato em 1999. Após tanto trabalho, a Ferrari começou a colher seus frutos, com o primeiro carro verdadeiramente competitivo em muito tempo. Schumacher tinha tudo para ser o campeão, mas ao tentar uma ultrapassagem sobre Irvine, no GP da Inglaterra, bateu de frente e quebrou a perna, ficando de fora das seis corridas seguintes, e tendo mais uma vez que adiar seu tricampeonato. Irvine também teve a chance de acabar com o jejum da Ferrari, mas acabou o campeonato apenas dois pontos atrás de Häkkinen, com quatro vitórias contra cinco do finlandês. Dizem as más línguas que um Irvine campeão não interessava após tanto esforço a favor de Schumacher. Verdade ou mentira, este foi o último ano do irlandês na escuderia. Barrichello, também em seu último ano na Stewart, conseguiu três terceiros lugares, terminando o campeonato em sétimo; e mais um brasileiro, Ricardo Zonta, estreou na Fórmula 1, correndo as temporadas de 1999 e 2000 pela nova equipe BAR, a de 2001 pela Jordan, e algumas provas de 2004 e 2005 pela Toyota, conseguindo três sextos lugares em 2000. No calendário de 1999, o GP de Luxemburgo mudou de nome para GP da Europa, e o GP da Malásia, em Sepang, entrou no lugar do GP da Argentina.

Breve, a conclusão desta história!

Série Fórmula 1

1990-1999

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domingo, 24 de setembro de 2006

Escrito por em 24.9.06 com 2 comentários

Changeling: The Dreaming

Há mais ou menos uns dois anos eu falei aqui sobre dois de meus RPGs preferidos, Mage: the Ascension e Werewolf: the Apocalypse. Ambos foram lançados pela editora White Wolf como parte de um cenário maior, conhecido como Mundo das Trevas, do qual também faziam parte outros títulos, sempre centrados em seres sobrenaturais, sendo Vampire: the Masquerade o mais famoso. Quando eu fiz estes dois posts, eu não planejava falar sobre os outros títulos da série, pelo simples motivo de que eu já tinha falado dos dois que eu mais gostava, e pra mim estava bom. Havia um outro, porém, que apesar de não ser dos meus favoritos, tinha uma história que me despertava grande simpatia, e que, das poucas vezes que o joguei, achei bastante divertido. Essa semana eu estava revendo os posts antigos em busca de uma inspiração, e decidi que seria legal fazer um post sobre esse RPG também. Não, não é Vampire. O tema de hoje é Changeling: the Dreaming.

Assim como todos os títulos do Mundo das Trevas original, Changeling também já foi cancelado. Na verdade, ele foi cancelado um ano antes do "final oficial" da série, sem nem ter direito a uma edição revisada, como seus três primos mais famosos tiveram. Isto porque o jogo tinha três problemas que o afastavam dos fãs tradicionais do Mundo das Trevas: era considerado muito complicado, muito infantil e "muito colorido" se comparado aos demais. Jogadores menos radicais não se incomodaram com estas três "desvantagens", e Changeling até ganhou uma numerosa legião de fãs, mas não teve jeito: vendeu pouco e acabou assim mesmo. Changeling será atualizado para o novo Mundo das Trevas, como já aconteceu com Vampire, Werewolf e Mage, no ano que vem, mas ninguém sabe ainda como ele ficará se alguém decidir "resolver" esses três problemas.

Certo, mas do que se trata o livro? Todo mundo sabe o que é um vampiro, um lobisomem e um mago, mas o que pipocas é um changeling? Bem, no folclore europeu, principalmente no escandinavo, um changeling é um bebê de uma criatura fantástica, como um troll ou elfo, que foi trocado de lugar com um bebê humano. Os motivos que levariam o troll, elfo ou coisa que o valha a fazer isso são obscuros, mas provavelmente seria porque ele quer um escravo humano. Acredita-se que as lendas sobre changelings surgiram para explicar porque algumas mulheres, mesmo sendo "saudáveis", tinham filhos com deformidades físicas ou doenças como a Síndrome de Down. Como ainda não haviam explicações científicas, era perfeitamente plausível que um troll tivesse passado por ali, deixado o filho dele e levado o meu.

No cenário de Changeling, os jogadores fazem o papel justamente de changelings. Mas, assim como os lobisomens de Werewolf são diferentes daqueles das lendas de antigamente, estes são changelings diferentes, pessoas comuns com alma de trolls, sátiros ou outros seres aqui coletivamente conhecidos como fadas. As fadas são criaturas feitas de magia, e tiram sua vitalidade de uma força conhecida como Glamour, algo como a inocência dos seres humanos. As fadas não são originárias da Terra, mas de uma "outra dimensão" conhecida como Sonhar (o tal Dreaming do título), onde o Glamour abunda e seus poderes são mais fortes. Antigamente, quando a humanidade era pura de coração, existiam muitas áreas selvagens, e a magia era presente, as fadas transitavam livremente entre a Terra e o Sonhar, mas a partir da Renascença, quando tudo começou a ter uma explicação científica, surgiu em nosso mundo uma poderosa força, a Banalidade, oposta ao Glamour, e capaz até de matar as fadas. Conforme o nível de banalidade foi crescendo, mais e mais fadas passaram a abandonar a Terra, morando definitivamente no Sonhar. Mas nem todas puderam fazer a viagem, e é aí que entram os personagens jogadores.

Resumindo de forma simplista, as fadas "nobres" fugiram para o Sonhar, enquanto a "plebe" não conseguiu, ou não teve como. Para não serem extintas, as fadas que ficaram para trás arranjaram um jeito para que seus descendentes sobrevivessem em meio à Banalidade: de vez em quando, um humano nasce com alma de fada. Em sua infância, ele será um humano normal, mas, pouco antes da adolescência, passará por uma transformação conhecida como Crisálida, e a partir daí passará a existir simultaneamente na Terra e no Sonhar, se tornando um changeling. Basicamente, isto significa que humanos continuarão a vê-lo como humano, mas criaturas sobrenaturais o verão como fada. Essa dualidade é um dos pontos mais criticados do jogo. Afinal, quando um lobisomem se transforma, ele existe no mundo normal como lobisomem. Um changeling, por outro lado, só existe como changeling para outras fadas, e é difícil para alguém que está conhecendo o jogo encontrar alguma vantagem nisso. Outro ponto criticado é a ausência de um "vilão": enquanto lobisomens combatem a Wyrm, e magos têm de fugir da Tecnocracia, o principal inimigo das fadas é uma força invisível que aumenta de poder conforme as pessoas perdem a inocência - algo não muito fácil de ser combatido.

Mas uma coisa legal do jogo é que ele oferece diversas opções de fadas para o jogador interpretar. Assim como os lobisomens estão divididos em tribos e os magos em tradições, as fadas de changeling são divididas em kiths, sendo cada kith um tipo de fada de alguma mitologia. O livro básico traz nove kiths diferentes: os Boggans, semelhantes aos gnomos, fadas do lar ligadas ao trabalho e companheirismo; os Eshu, viajantes e contadores de histórias da mitologia iorubá; os Nockers, semelhantes aos kobolds do folclore alemão, especialistas em construir máquinas fantásticas e dados a sair consertando tudo o que vêem quebrado pela frente; os brincalhões Pooka, criaturas com traços animais originárias do folclore celta, que adoram mentir e pregar peças, embora não façam isso por maldade; os violentos Redcaps, baseados nos hobgoblins, e que parecem estar sempre de mau humor; os Sátiros da mitologia grega, que se apaixonam facilmente e adoram cantar, dançar e beber; os nobres Sidhe, do folclore irlandês, lindíssimos e de aura nobre, que lembram os elfos dos jogos de fantasia medieval; os reclusos, esquálidos e sussurrantes Sluagh, baseados nas lendas do bicho-papão; e os Trolls da mitologia nórdica, com sua grande força, igualmente grande lealdade e maior ainda teimosia. Cada fada tem poderes, vantagens e desvantagens diferentes, que afetam inclusive a interpretação do jogador, e este é o principal argumento dos fãs: você não precisa se parecer com uma fada para agir como uma, portanto, não interessa se, no jogo, outros humanos o verão como humano; por dentro, você é fada e pronto.

Changelings podem viajar livremente entre a Terra e o Sonhar - onde aparecem para todos em sua "forma de fada" - mas isso não quer dizer que lá eles estejam seguros. Por terem nascido como humanos, eles são naturalmente carregados de Banalidade, o que faz com que se tornem párias na sociedade das fadas "puras". Além disso, por serem forasteiros, não estão acostumados com os perigos de lá, como quimeras monstruosas, feitas de puro Glamour, e caminhos que mudam constantemente, sem estarem presos às leis da realidade, e que podem fazer com que um changeling fique perdido para sempre. Do lado de cá, as coisas não são mais fáceis: uma vez que passe pela Crisálida, um changeling não se sente mais humano, e só encontra conforto quando junto aos seus iguais. Além do mais, a Banalidade cresce a cada dia, e certas pessoas, como o Povo do Outono (tradução da minha cabeça, Autumn People no original), possuem um nível de Banalidade tão alta que sua simples presença é um perigo a qualquer changeling. O mote do jogo está justamente nesta dualidade, em viver em dois mundos sem pertencer a nenhum.

Assim como os demais títulos do Mundo das Trevas, antes de ser cancelado Changeling ganhou um caminhão de livros complementares. Para os que não estavam satisfeitos com apenas nove tipos de fadas, praticamente cada um deles traz fadas novas, totalizando quase 60 fadas diferentes à disposição dos jogadores - desde que o Mestre autorize seu uso, evidentemente. Um dos meus preferidos é o livro The Shadow Court ("a corte das sombras"), que, além de dicas para jogar com personagens, digamos, menos certinhos, ainda traz as fadas da pá virada, permitindo que se jogue com Beasties, Boggarts, Bogies, Goblins e Ogros, os "primos maus" dos Pooka, Boggans, Sluagh, Nockers e Trolls, respectivamente. O Player's Handbook ("livro do jogador") vai ainda mais longe e traz os Nunnehi, treze novos tipos de fada inspirados na mitologia indígena norte-americana; em Shadows on the Hill ("sombras na colina") você encontra os seis Menehune, do folclore do Havaí; e Denizens of the Dreaming ("cidadãos do Sonhar") traz os Adhene, sete tipos de fadas do folclore da Ilha de Man. Quem quiser jogar no estilo oriental pode encontrar os Shinma, o mais perto que se pode chegar de fadas do oriente, no livro Land of the Eight Million Dreams ("terra dos oito milhões de sonhos"), que traz os cinco Kamuii, ligados aos cinco elementos (fogo, terra, água, madeira e metal) e os cinco Hirayanu, ligados aos animais. Alguns livros trazem um único kith novo, como os Clurichauns em Court of All Kings ("corte de todos os reis"), um livro que fala sobre a Irlanda; os meio-focas Selkies em The Toybox ("a caixa de brinquedos"), ambientado na cidade de São Francisco; e as dríades Ghille Dhu em Isle of the Mighty ("ilha dos poderosos"), que fala da Grã-Bretanha. Sereias e seus primos maus Murduachas estão em Blood Dimmed Tides ("marés manchadas de sangue"); os nômades e cleptomaníacos Piskies e seus primos maus Spriggans em Fool's Luck ("sorte dos tolos"); os Oba, baseados nos gênios, e seus primos maus Aithu no livro dedicado aos Eshu; e temos até uma Bruxa do Lago no livro dedicado aos Redcaps. E não vamos nos esquecer dos Inanimae, sete fadas do livro de mesmo nome, cujas almas estão ligadas a seres inanimados como árvores e pedras, ao invés de a humanos.

Enfim, Changeling era colorido não só em suas páginas, mas por toda esta variedade, e rotulá-lo de infantil só porque tem fadas foi uma grande injustiça. Mas de qualquer forma o Mundo das Trevas foi todo cancelado mesmo, e eu não estou indo muito com a cara do novo, de forma que é melhor guardar o antigo na memória. E na estante para jogar se surgir uma oportunidade.
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domingo, 17 de setembro de 2006

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Olimpíadas (XI)

E hoje é dia de Olimpíadas no átomo!

Cortina d'Ampezzo 1956


Após duas tentativas frustradas, a bela Cortina d'Ampezzo, situada nos alpes italianos, finalmente teve sua chance de sediar uma edição dos Jogos de Inverno. Contra ela concorreram a insistente Lake Placid e a novata Colorado Springs, ambas nos Estados Unidos, e a canadense Montreal, que curiosamente se candidatou tanto para as Olimpíadas de Inverno quanto para as de Verão de 1956. Pesou a favor da cidade italiana a fama de seus hotéis e lojas, e o fato de já ter sediado muitas competições de esqui, tendo instalações que precisavam de poucas reformas.

Os Jogos de Inverno de 1956 aconteceram entre 26 de janeiro e 5 de fevereiro. Deles participaram 821 atletas, sendo 134 mulheres, representando 32 nações em 24 provas de 8 esportes: bobsleding, combinado nórdico, esqui alpino, esqui cross country, hóquei no gelo, patinação artística no gelo, patinação no gelo em velocidade e saltos com esqui (clique aqui para ver todas as provas do programa). Na cerimônia de abertura, duas delegações chamaram a atenção: a União Soviética, participando pela primeira vez dos Jogos de Inverno; e a Equipe da Alemanha Unida (Deutchland gemeinsames Team), na verdade uma delegação conjunta dos atletas das Alemanhas Ocidental e Oriental, que disputaram os Jogos sob uma mesma bandeira, com as mesmas cores da Alemanha, mas com os Anéis Olímpicos na cor branca na faixa central. O Presidente do COI, o norte-americano Avery Brundage, era terminantemente contra a participação da Alemanha Oriental no evento, e considerava a formação da Alemanha Unida uma vitória pessoal, chegando a imaginar que esta delegação conjunta poderia ser o primeiro passo para uma unificação alemã. Infelizmente, a Alemanha Unida só duraria mais duas Olimpíadas, e a unificação teria de esperar mais de trinta anos.

Além destas duas delegações, e do discurso da esquiadora Giuliana Minuzzo, a primeira mulher a fazer o juramento do atleta, o grande destaque da Cerimônia de Abertura foi a Tocha. Para as Olimpíadas de Verão, a Tocha Olímpica deveria sempre ser acesa na Grécia, como mandava a tradição. Nos Jogos de Inverno, porém, ninguém era muito rígido quanto a isso, tanto que, nos Jogos anteriores, duas vezes a Pira foi acesa com fogo comum, pela organização, e, no primeiro com o revezamento da Tocha, ela havia sido acesa na Noruega, na lareira da casa de Sondre Nordheim, o pioneiro do esqui esportivo. Aproveitando-se de que os Jogos seriam disputados na Itália, os organizadores decidiram acender a Tocha em Roma, fazendo um revezamento composto exclusivamente por italianos, até o Estádio Olímpico, onde a tocha seria acesa pelo patinador Guido Caroli, que patinaria da entrada do Estádio até ela. Talvez os deuses gregos tenham se ofendido com a afronta de acender a Tocha logo em Roma, pois Caroli levou um senhor tropeção em um cabo de televisão, transmitido para o mundo inteiro. Felizmente, ele não deixou o fogo se apagar, se levantou como se nada tivesse acontecido, e foi acender a pira, sob aplausos da platéia. Falando nisso, os Jogos de Inverno de 1956 foram os primeiros transmitidos pela televisão.

O maior destaque dos Jogos de Inverno de 1956 foram os atletas da União Soviética, que já em sua primeira participação resolveram botar pra quebrar, ganhando mais medalhas que qualquer outra nação, quase o dobro de ouros da Áustria, que ficou em segundo no quadro não-oficial de medalhas. Além de ver seu time tirar o ouro do hóquei no gelo do Canadá, os soviéticos ganharam três das quatro provas da patinação em velocidade, sendo que nos 1.500 metros houve um inacreditável empate entre Yevgeny Grishin e Yuri Mihaylov, ambos cruzando a linha de chegada com o exato mesmo tempo. Sem que as regras da época previssem como proceder neste caso, o COI decidiu premiá-los com uma medalha de ouro cada. Pavel Kolchin foi o primeiro não-escandinavo a ganhar uma medalha no esqui cross country, um bronze nos 15 km, que ele repetiria nos 30 km. Ainda no cross country, a atleta Lyubov Kosyreva conquistaria o ouro nos 10 km, e a equipe masculina venceria o revezamento 4 x 10 km.

No esqui alpino, dois atletas apropriadamente dos alpes se destacaram: o austríaco Anton Sailer se tornou o primeiro homem a vencer as três provas em uma mesma edição dos Jogos, sendo que sua margem de vitória sobre o segundo colocado no slalom gigante, mais de 6 segundos, foi a maior da História do esporte, e tanto no slalom quanto no downhill ele quebrou o recorde da prova; e a suíça Madeleine Berthod, que no dia de seu aniversário de 25 anos completou o downhill com um tempo fantástico, quase cinco segundos à frente da segunda colocada. Nos saltos com esqui, os atletas da Finlândia, ouro e prata, inventaram um novo método, colando os braços ao corpo e se curvando para a frente, para melhorar a aerodinâmica, e que se mostrou tão eficiente que acabaria sendo adotado por todos os competidores deste esporte. E na patinação artística, pela primeira vez nos Jogos de Inverno disputada em um rinque coberto, houve um amplo domínio dos Estados Unidos, cujos atletas ganharam as três medalhas no masculino, mais ouro e prata no feminino.

Aliás, a medalha de ouro no feminino, Tenley Albright, merece destaque. Filha de um cirurgião, Albright começou a patinar aos 11 anos, após contrair uma forma branda de poliomielite, que não deixou suas pernas paralisadas, mas comprometeu sua força. Aos 17 ela participou das Olimpíadas de Inverno de Oslo, onde ganhou medalha de prata. Aos 21, era uma das favoritas para os Jogos de 1956 quando, durante um treinamento, apenas duas semanas antes do início das competições, passou por cima de um sulco no gelo. Ao cair, seu patim esquerdo cortou seu tornozelo direito. O corte foi tão violento que abriu a bota, passou pela carne, rompeu uma veia e danificou o osso. Albright foi medicada rapidamente, mas provavelmente ficaria fora dos Jogos. Ela decidiu então chamar seu pai, que chegou dois dias após o acidente, e a operou. A operação foi tão perfeita que, mesmo com dor, Albright conseguiu uma apresentação impecável, ganhando nota máxima de dez dos onze jurados. Emocionada, após os Jogos ela decidiu estudar medicina em Harvard, e se tornou ela mesma uma cirurgiã.

Graças às modernas e confortáveis instalações, os Jogos de Inverno de 1956 foram um espetáculo. A única frustração foi a da torcida local, que, após tanta espera, viu seus atletas ganharem apenas três medalhinhas, um ouro e duas pratas, todas no bobsleding - ouro e prata na categoria dois ocupantes, prata na categoria quatro ocupantes. Os Jogos de Inverno ainda não eram a disputa ferrenha entre capitalismo e comunismo que as Olimpíadas de Verão haviam se tornado, mas a União Soviética, com grande parte de seu território gelado, viu ali mais uma excelente oportunidade para provar sua supremacia. Por um lado, isto foi bom, pois elevou o nível da competição. Por outro, restringiu ainda mais a lista dos países que ganhariam medalhas nos esportes de inverno, que já era pequena. Para o COI estava tudo bem. Afinal, os Jogos são uma disputa entre atletas, não entre nações.

Melbourne 1956


O mundo do pós-Guerra era bem mais complicado, e grande parte desta complicação advinha do dinheiro, escasso naquela época. Para que as cidades escolhidas como sedes tivessem tempo suficiente para arrecadar dinheiro e se preparar para hospedar os Jogos, portanto, o COI decidiu escolhê-las com bastante antecedência: a sede dos Jogos de 1952 fora escolhida na reunião de 1947; a sede para 1956, com antecedência ainda maior, na reunião do COI de 1949. Por algum motivo, nesta reunião ficou claro que o COI queria fazer jogos fora da Europa, os primeiros desde 1932, pois quase todas as candidatas aprovadas eram das Américas: Buenos Aires, Cidade do México, Montreal, Chicago, Los Angeles, Filadélfia, Mineápolis e São Francisco. A única candidata não-americana era Melbourne, capital da província de Victoria, na longínqua Austrália. Surpreendentemente, Melbourne acabou justamente sendo a escolhida, por 21 votos contra 20 dados a Buenos Aires.

No início, houve certa preocupação quanto a esta escolha. Afinal, se todo mundo já acha que a Austrália fica longe hoje em dia, imaginem em 1949 - muitas das nações sequer teriam dinheiro para pagar por esta longa viagem. Além disso, uma Olimpíada no Hemisfério Sul teria que ser disputada em outra época que não os meses de julho e agosto, quando a Austrália estaria passando pelo inverno. Pode parecer bobagem, mas todos os atletas do Hemisfério Norte estavam mais do que acostumados a treinar no inverno e competir no verão, e ter que inverter esta lógica poderia resultar não apenas em baixo desempenho, mas também em contusões. Mesmo com todas estas preocupações, o COI, acreditando na capacidade dos australianos de organizar bons Jogos, e crendo que até 1956 soluções práticas seriam encontradas, manteve sua escolha.

De fato, houve uma imensa boa vontade dos participantes. Nações mais ricas, como Estados Unidos, União Soviética e Grã-Bretanha, gastaram verdadeiras fortunas para enviar seus mais fortes atletas, se esmerando para não diminuir o brilho do certame. Nações mais pobres, como as da África e da América do Sul, enviaram delegações reduzidas, mas ainda assim fizeram questão de embarcar todos os seus atletas de ponta. Os australianos também se prepararam para receber a maior competição esportiva do mundo de braços abertos, embora problemas governamentais quase tenham posto tudo a perder: nos sete anos entre a escolha de Melbourne como sede e o efetivo início da Olimpíada, se sucederam no poder os partidos Conservador e Trabalhista, cada qual com sua própria visão de como o dinheiro para a realização dos Jogos deveria ser gasto. Faltando pouco menos de dois anos para a abertura do evento, a província de Victoria declarou que o dinheiro havia acabado, e que não tinha como concluir as obras. O Primeiro-Ministro, do partido oponente, se recusou a liberar mais dinheiro. O impasse só foi resolvido com uma visita de inspeção do COI, em abril de 1955, quando ficou decidido um empréstimo de 4,5 milhões de dólares pelo Governo-Geral. Mesmo com o dinheiro chegando, as obras estavam muito atrasadas - a construção da Vila Olímpica, a primeira na história dos Jogos que iria abrigar homens e mulheres em um só local, sequer havia começado - e Brundage chegou a considerar uma troca de sede, levando os Jogos de 1956 para Roma, que havia sido escolhida para sediar os de 1960, e já estava com suas obras bem mais adiantadas. Somente após muitos apelos do povo australiano esta idéia foi posta de lado, mas até o último momento os Jogos de 1956 perigaram ser adiados. O principal estádio da competição, o Melbourne Cricket Ground, foi totalmente reformado em uma correria jamais vista - daquelas que a gente até fica com medo de que caia tudo por ter ficado mal-feito - sendo que a pintura das tribunas de honra só foi concluída horas antes da Cerimônia de Abertura, submetendo os Chefes de Estado convidados a um constrangedor cheiro de tinta. Os atletas tiveram de se hospedar em uma Vila Olímpica ainda em construção, que só ficou totalmente pronta após o início de algumas competições. Felizmente, apesar de apressadas, as obras foram bem executadas, e uma vez começados, os Jogos não sofreram mais com elas.

Muito pior que este atraso, porém, foi o curioso episódio envolvendo a equitação: na época, a Austrália tinha leis rígidas quanto à entrada de animais estrangeiros em seu território, pois suas autoridades temiam que doenças ainda não existentes em solo australiano poderiam ser trazidas com eles. O Governo-Geral não estava disposto a abrir exceções nem para as Olimpíadas, e informou ao COI que todos os cavalos que fossem competir teriam de ficar em quarentena, passando por rigorosos exames, separados de seus cavaleiros. Nenhum atleta aceitou tal imposição, e a Federação Equestre Internacional também não aceitava ver seu esporte fora do programa. Pressionado, o COI acabou por tomar uma decisão inusitada: os eventos da equitação ocorreriam em Estocolmo, capital da Suécia, entre os dias 10 e 17 de junho de 1956. Para todos os efeitos, tais competições contaram como parte das Olimpíadas, mesmo tendo sido realizadas cinco meses antes, e a meio mundo de distância.

Mas o principal problema de 1956, verdade seja dita, não foi culpa da Austrália, mas do mundo turbulento da época. Em 1954, eclodira a guerra da independência da Argélia. No início de 1956, o Egito decidiu nacionalizar o Canal de Suez, o que deu início a uma guerra contra Israel, que terminou quando Grã-Bretanha e França bombardearam o local e tomaram posse do Canal. A poucos dias do início da Olimpíada, o exército da União Soviética invadiu a Hungria para acabar com uma rebelião de estudantes. A conseqüência? Boicotes. Egito, Líbano e Iraque exigiram que o COI impedisse Israel de participar, e, diante da recusa, resolveram eles mesmos não enviar seus atletas. Espanha, Holanda e Suíça também decidiram não enviar seus atletas, em protesto contra a invasão da Hungria. Sob pressão da opinião pública, o governo da Suíça voltou atrás, mas seus atletas, com os treinamentos interrompidos, não fizeram uma boa campanha, ganhando apenas uma medalha de bronze. A delegação da Hungria, que já estava no meio da viagem quando seu país foi invadido, foi recebida calorosamente e apoiada durante toda a competição pelos australianos, o que lhe deu um ânimo a mais para vencer suas pelejas, principalmente as que eram disputadas contra soviéticos. O último boicote foi o da China: o vôo que levava seus atletas já estava na metade do caminho quando o governo chinês exigiu que o COI proibisse a participação de Taiwan, até hoje considerada pela China continental como uma província rebelde, e não um país independente. Diante da recusa do COI, a China não somente mandou seu vôo retornar, como também se desfiliou do COI, não participando de nenhuma Olimpíada até 1984. Neste cenário turbulento, muitos foram os que imaginaram que os Jogos seriam cancelados, mas Brundage foi firme em sua posição de que os Jogos são uma disputa entre indivíduos, e não entre nações. Tão firme que chegou a declarar publicamente: "eu não permitirei que nenhum governo do mundo use os Jogos para propósitos políticos".

Graças a esta posição firme, mesmo com todos estes contratempos, os Jogos de Melbourne, realizados entre 22 de novembro e 8 de dezembro, foram um sucesso, e acabaram ganhando o apelido de "Jogos da Amizade". Deles participaram 3.342 atletas, sendo 384 mulheres, competindo em 151 provas de 19 esportes: atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, equitação, esgrima, futebol, ginástica artística, hóquei, levantamento de peso, luta olímpica, natação, pentatlo moderno, polo aquático, remo, saltos ornamentais, tiro esportivo e vela, além de beisebol e futebol australiano como esportes de demonstração (clique aqui para ver todas as provas do programa). Mesmo com os boicotes e a imensa distância, 67 nações enviaram delegações, entre elas a Alemanha Unida, em sua primeira participação em uma Olimpíada de Verão.

Como era impossível levar a Tocha Olímpica da Grécia para a Austrália a pé, foi encontrada uma solução alternativa: o fogo da Tocha foi usado para acender um lampião, que atravessou o oceano em um avião da companhia australiana Qantas, sendo novamente usado para acender uma Tocha já em solo australiano. A honra de acender a pira coube ao corredor Ron Clarke, que entre 1963 e 1968 ganharia quase todas as provas de meio-fundo e fundo que disputasse - ironicamente, exceto em Olimpíadas. Detalhe curioso: enquanto carregava a tocha, um vazamento de querosene pôs o braço de Clarke em chamas, mas mesmo assim ele não parou até cumprir sua missão.

Clarke ainda era uma promessa em 1956, mas isso não significa que os donos da casa não tenham brilhado: ao todo, a Austrália conseguiu 13 medalhas de ouro, oito delas apenas na natação. No masculino, Murray Rose se tornou o primeiro atleta a ganhar mais de um ouro no estilo livre desde Johnny Weissmuller em 1924; no feminino, surgiu uma verdadeira lenda das piscinas, Dawn Fraser, de apenas 19 anos. Nadadora excepcional, Fraser crescia ainda mais quando competia contra sua compatriota Lorraine Crapp, de apenas 17 anos, a quem odiava com todas as suas forças. Nos 100 metros livre, Crapp e Fraser quebrariam os recordes olímpico e mundial várias vezes durante as eliminatórias, até o ouro ficar com Fraser. Nos 200 metros foi a vez de Crapp ganhar, novamente quebrando o recorde olímpico. E no revezamento 4 x 100 metros livre, com as duas na piscina, a Austrália não tomou conhecimento das rivais, ganhando o ouro e batendo os recordes olímpico e mundial, dois segundos à frente das norte-americanas. A alegria pela conquista foi tanta que Fraser e Crapp até se abraçaram no pódio. Curiosidade: em 1956 finalmente foi incluída na natação a categoria borboleta, até então uma variação do nado peito, inventada pela brasileira Maria Lenk.

Outras quatro medalhas de ouro australianas vieram do atletismo, três delas com Betty Cuthbert, nos 100 metros, 200 metros, e no revezamento 4 x 100 metros. Nesta última, Betty, de apenas 18 anos, fez parte da mesma equipe de Shirley Strickland, 31 anos, que também ganhou o ouro dos 80 metros com barreiras. Caso alguém aí esteja curioso, o ouro que falta na conta da Austrália veio no ciclismo, 2.000 metros tandem, categoria disputada naquela curiosa bicicleta onde duas pessoas pedalam ao mesmo tempo, com Joey Browne e Tony Marchant.

Voltando ao atletismo, novos ídolos surgiram, enquanto antigos tentaram manter seus primados. Emil Zatopek, já com 34 anos, decidiu se dedicar exclusivamente à maratona, planejando se aposentar com uma vitória na prova. Seu maior rival, o francês Alain Mimoun, também teve a mesma idéia, acreditando que, se dedicando apenas à maratona, teria chances de vencer Zatopek. Talvez devido a um acentuado aclive no percurso, Zatopek não conseguiu aplicar sua arrancada destruidora, e terminou apenas em sexto lugar. O aplicado e supersticioso Mimoun, que notou que um francês ganhava o ouro na maratona a cada intervalo de 28 anos - Michel Théato em 1900, Boughèra El Ouafi em 1928 - finalmente conseguiu seu tão sonhado ouro.

Nos 5.000 metros e 10.000 metros, Zatopek teve um substituto à altura, o soviético Vladimir Kuts, que possuía a curiosa tática de disparar com um sprint monumental logo após o tiro de largada, apenas conservando a distância obtida durante o restante da prova, aumentando-a com novas arrancadas se necessário. O estilo de Kuts era tão inusitado que ninguém conseguia acompanhá-lo. O britânico Roger Bannister certa vez comentou sobre ele que "é impossível vencer um homem em quem a natureza resolveu implantar dois motores nos pés". Bannister não sabia, mas o vigor de Kuts não vinha de motores nos pés, mas de um programa atlético experimental desenvolvido pelos médicos da marinha soviética. Através apenas de exercícios físicos, a capacidade cardíaca de Kuts foi elevada ao extremo, o que lhe proporcionava uma oxigenação fantástica, e permitia suas arrancadas impressionantes. Estes exercícios, porém, cobraram um alto preço: seu coração crescera de forma descomunal, e, em 1960, aos 33 anos de idade, Kuts teve um infarto fortíssimo, que o deixou com sérios problemas de pressão, respiração e locomoção. Ele ainda teria mais três infartos até 1975, quando teve um fulminante. Até hoje, Kuts é citado como exemplo dos detratores da política esportiva comunista, onde os resultados importavam mais do que os atletas.

Falando em comunismo, no futebol a Hungria não pôde enviar seu fabuloso time dos Jogos anteriores, a esta altura já exilado na Espanha. Somando isso à ausência de seleções de prestígio como Suécia, Itália, Uruguai e Argentina, o torneio de 1956 foi dominado pelo Leste, com União Soviética, Iugoslávia, Bulgária e seus amadores de fachada ficando com as três medalhas. A Hungria poderia se vingar de seus invasores soviéticos no Pólo Aquático, em uma semifinal sangrenta - não apenas no sentido figurado. Após muitas agressões subaquáticas, o soviético Valentin Prokopov acertou o olho do húngaro Ervin Zador, que começou a sangrar na piscina. A platéia, que já estava vaiando os soviéticos por causa da invasão à Hungria, começou a ameaçá-los verbalmente, e daí para que começasse uma briga de torcidas que se alastrou para um combate entre os jogadores foi um pulo. A questão só se resolveu com a chegada da tropa de choque da polícia de Melbourne. Sem condições de terminar a partida, os juízes deram a vitória para a Hungria, que já estava ganhando por 4 a 0. A Hungria acabou ficando com o ouro, ao derrotar a Iugoslávia na final por 4 a 2.

Mas nem tudo entre Hungria e União Soviética foi porrada. A húngara Agnes Keleti, 35 anos, ganhou três ouros na ginástica, nas barras assimétricas, equilíbrio na trave e nos exercícios de solo. Sua maior rival, a soviética Larissa Latynina, de apenas 21, ganhou o ouro no salto sobre o cavalo, e dividiu com Keleti o ouro do solo, graças a um empate. Keleti, no pódio, fez questão de dar um caloroso abraço em Latynina. Elas eram de países inimigos, mas amigas entre si, como ditava o ideal olímpico.

Outra bela história neste estilo envolveu o norte-americano Harold Connolly, do arremesso do martelo, e a tchecoslovaca Dana Fitokova, do arremesso do disco. Ele, um atleta singular, que possuía o braço esquerdo mais curto que o direito devido a uma complicação no parto, competia calçado com enormes sapatilhas de balé - que, segundo ele, ajudavam no lançamento - e fazia questão de paquerar todas as moças bonitas da Vila Olímpica, não importando sua nacionalidade. Ela, uma bailarina que havia se interessado pelo esporte para melhorar sua capacidade pulmonar, muito bonita para os padrões dos esportes de arremesso, que gostava de prender os cabelos com maria-chiquinhas, usar shorts mais cavados que o convencional, e treinar ao som de Richard Strauss. Ambos ganharam o ouro em suas modalidades, e, durante uma troca de olhares na Vila, se apaixonaram. Ele não falava tcheco, ela não falava inglês, mas mesmo assim eles conseguiam burlar a vigilância das delegações e se encontrar para namorar. Fitokova teve várias chances para fugir de sua delegação, mas temia represálias a seus parentes. Após os jogos, eles continuaram a se corresponder, e Connolly decidiu pedir uma permissão ao Governo da Tchecoslováquia para se casar com ela. Apoiado pelo Departamento de Estado dos EUA e pela imprensa internacional, que adorou a história, em 1957 ele finalmente conseguiu o visto, e no dia 27 de março eles se casaram em Praga, tendo Dana e Emil Zatopek como padrinhos. Fitokova se naturalizou americana, se mudou para Boston, e teve quatro filhos. Infelizmente, com o tempo o casamento começou a ter problemas, e eles se divorciaram em 1974.

Do atletismo também viria o primeiro ouro da Grã-Bretanha desde 1932, com Christopher Brasher nos 3.000 metros steeplechase. Pouco cotado para vencer a prova, Brasher ganhou a prova ao se espremer entre o norueguês Ernst Larsen e o húngaro Sandor Rozsnyoi para pular uma barreira de madeira. Graças a esta atitude, os juízes decidiram desclassificá-lo, sob a alegação de que tinha atrapalhado Larsen, e dar o ouro para Rozsnyoi. Em um gesto de esportividade, tanto Larsen quanto Rozsnyoi procuraram os juízes, alegando que não se sentiram nem um pouco prejudicados com a manobra de Brasher. Ainda assim, os juízes só anunciaram a vitória de Brasher após uma reunião de três horas.

O Brasil trouxe de Melbourne uma única medalha, de ouro, de Adhemar Ferreira da Silva no salto triplo, o primeiro brasileiro bicampeão olímpico. Com uma delegação reduzida, de apenas 48 atletas, o país até que obteve boas colocações, mas não tão boas quanto nos Jogos anteriores. José Telles da Conceição, decidindo competir nos 200 metros do atletismo, chegou em sexto lugar, a quatro décimos do bronze; Severino Pereira, no tiro, modalidade carabina atirador deitado, também chegou perto, ficando em oitavo, mas apenas a um acerto do bronze; e nos 1.000 metros do ciclismo, Anésio Argenton perdeu nas oitavas-de-final. No basquete, o Brasil novamente caiu, na segunda fase, no mesmo grupo de Estados Unidos e União Soviética, o que acabou causando sua eliminação do torneio. Este time, pelo menos, revelaria jogadores como Wlamir e Amaury, que seriam campeões do mundo em 1959.

Outro brasileiro que merece destaque, mesmo sem ter ganho medalha, é o pugilista Éder Jofre, que perdeu nas quartas-de-final da categoria galo para o chileno Claudio Barrientos, em uma controvertida decisão dos jurados. Jofre, no futuro, se tornaria um dos maiores ídolos do boxe brasileiro, sendo campeão mundial dos galos em 1960, unificando o cinturão em 1963, e sendo campeão dos penas, a categoria imediatamente superior, dez anos depois, em 1973. Hoje, Jofre é considerado por muitos como o maior boxeador que o Brasil já teve.

Por fim, um dos momentos mais marcantes dos Jogos de 1956 foi a Cerimônia de Encerramento. Atendendo à sugestão de uma carta enviada por John Ian Wing, um jovem australiano aprendiz de marceneiro e descendente de chineses, o desfile das delegações não ocorreu como na Cerimônia de Abertura, com cada delegação marchando alinhada após sua bandeira. No encerramento, todos os atletas entraram no Cricket Ground misturados, sem obrigação de bandeira, marcha ou uniforme, em uma verdadeira festa, onde eles eram os homenageados principais. Dizia a carta: "Durante os jogos, existe apenas uma nação. Guerras, política e nacionalidades são esquecidas. O que mais poderia qualquer um querer se o mundo todo se fizesse em uma só nação?". Faz sentido. Tanto que até hoje o Encerramento é assim, com todos os atletas misturados em uma só nação.

Série Olimpíadas

Cortina d'Ampezzo 1956
Melbourne 1956

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segunda-feira, 11 de setembro de 2006

Escrito por em 11.9.06 com 0 comentários

Quarteto Fantástico (I)

Em primeiro lugar, eu gostaria de pedir desculpas pelo atraso no post dessa semana. Além de um fim de semana prolongado, tive um problema que me deixou sem internet até agora há pouco. Em segundo lugar, gostaria de anunciar que o tema de hoje é o Quarteto Fantástico. Simples assim, sem texto introdutório. Já há um bom tempo que eu venho querendo fazer um post sobre o Quarteto, mas nunca encontrava um bom motivo. Então vai sem motivo mesmo.

Muita gente não sabe, mas estes quatro super-heróis foram os primeiros Heróis Marvel como os conhecemos - o Capitão América e o Príncipe Submarino já existiam antes, mas a Marvel ainda se chamava Timely, e eles eram bem diferentes da noção de Heróis Marvel que temos hoje. O Quarteto surgiu em 1961, para enfrentar a Liga da Justiça na incrível batalha das vendas, à época acirrada pelo repentino aumento de vendas das revistas de super-heróis, que ultrapassaram até mesmo as de piratas e de faroeste, preferidas do público até então. Diz a lenda que, em 1961, o editor da Timely, Martin Goodman, e o da DC Comics, Jack Liebowitz, estavam jogando golfe, e Liebowitz se gabava das boas vendas de Liga da Justiça. Goodman, querendo investir neste filão, mudou o nome de sua editora para Marvel - um nome mais apropriado para super-heróis - e pediu ao seu editor e roteirista Stan Lee, na época já com 38 anos, para que criasse o primeiro grupo de super-heróis Marvel, para competir com a Liga.

Stan Lee, na verdade, já estava cansado de trabalhar na indústria de quadrinhos, que considerava restrita e repetitiva. Em seu tempo livre, ele escrevia artigos para propaganda em rádio, TV e jornais. Sua esposa então lhe aconselhou que, já que ele teve uma boa oportunidade, concentrasse toda sua criatividade neste novo projeto. Que criasse os novos heróis da maneira que bem entendesse, e que, se Goodman não gostasse e o demitisse, azeite, ele já estava querendo sair mesmo.

Naquele tempo, os super-heróis tinham duas características marcantes. A primeira é que eles tinham uma "função social". Supervilões existiam, é verdade, mas o super-herói típico combatia meliantes comuns, bandidos, ladrões e outras mazelas da sociedade. Super-Homem e Capitão América chegaram até a dar porrada no Hitler, durante a Segunda Guerra. Isto era importante para aproximar os heróis das "pessoas comuns", para que os leitores acreditassem que aqueles seres fantásticos viviam em nosso próprio mundo. E era necessário por causa da segunda característica dos super-heróis: eles eram inatingíveis. Como os deuses da mitologia grega, estavam muito acima dos pobres mortais. Não tinham problemas familiares, de relacionamento com os amigos, de grana, nada dessas procupações mundanas. Super-Homem e Capitão América, apenas para voltar ao exemplo, eram fortes, bonitos, bem-sucedidos em suas carreiras. Stan Lee decidiu fazer exatamente o inverso: heróis que lutassem contra ameaças cósmicas, alienígenas, vilões de grande poder - mas que tivessem problemas de família, estivessem sempre precisando de dinheiro e brigando uns com os outros pelos motivos mais bestas. Eles nem tinham identidades secretas, sendo conhecidos por todo mundo como os heróis que eram. Seu argumento para esta mudança radical foi o mais simples possível: ele queria fazer histórias que ele mesmo gostasse de ler.

Lee então chamou um amigo, o fenomenal desenhista Jack Kirby, pôs as mãos à obra, e apresentou seu trabalho a Goodman, que o publicou. Ele estava crente que iria ser despedido quando os números das vendas chegassem, mas, surpreendentemente, a revista foi um megassucesso, vendendo como nunca nenhuma história de super-heróis havia vendido. Isso teve três conseqüências: a Marvel assumiu o primeiro lugar entre as editoras de super-heróis, de onde não mais saiu; Lee continuou com seu emprego, e pôde criar muitos outros heróis, como o Homem de Ferro e o Homem Aranha; e, mais importante, o gênero de super-heróis foi totalmente redefinido, se tornando o mais popular dos quadrinhos, e criando toda uma cultura própria.

Assim como a imensa maioria dos Heróis Marvel, o Quarteto Fantástico também teve sua origem na ciência. O cientista Reed Richards, querendo estudar uma nuvem de raios cósmicos que se aproximava da Terra, criou um foguete experimental, que seria lançado ao espaço com quatro tripulantes: ele mesmo; seu melhor amigo, o piloto Ben Grimm; sua namorada, Sue Storm; e o irmão adolescente de Sue, Johnny Storm. Durante a viagem, o foguete é atingido pelos tais raios cósmicos, e ao retornar à Terra os quatro descobrem que ganharam incríveis poderes. Reed então decide usar estes poderes para o bem, transformando os quatro em uma "família de super-heróis", pronta para defender a Terra em momentos de necessidade.

A mutação de Reed fez com que ele ficasse com o corpo maleável, como que de borracha. Este poder foi inspirado em um antigo herói da Timely, chamado Thin Man, embora Reed tenha ficado muito mais parecido com o Homem-Borracha da DC. Como líder do Quarteto Fantástico, Reed escolheu o nome Sr. Fantástico. Sue ganhou o poder de ficar invisível quando quisesse, e, por isso mesmo, adotou o codinome de Mulher Invisível (Garota Invisível, Invisible Girl, no original). Johnny, com o poder de transformar seu corpo em chamas, lançar bolas de fogo e voar, decidiu se chamar o Tocha Humana - na verdade, uma "reinvenção" de Lee de um antigo herói da Timely, que também se chamava Tocha Humana e tinha os mesmos poderes, mas era um andróide. Finalmente, o pobre Ben foi o que, de certa forma, ficou com o pior poder: ele se transformou em um monstro de pedra, de enorme força e praticamente invulnerável, mas proporcionalemente pesado, e grande demais para vestir roupas - e o que é pior, o único que não conseguia voltar à sua forma original quando quisesse. Por esta estranha condição, Ben decidiu se chamar simplesmente de Coisa. Curiosamente, há quem encontre um paralelo entre o Quarteto Fantástico e os Quatro Elementos, sendo o Tocha evidentemente ligado ao Fogo, o Coisa à Terra, Sue ao Ar, e Reed, por sua maleabilidade e mutatividade, à Água. Muitos também acreditam que o Quarteto como um todo tenha sido inspirado em um trabalho anterior de Kirby, os Challengers of the Unknown (algo como "Desafiadores do Desconhecido") da DC, que também eram quatro e viajavam pelo planeta resolvendo mistérios ligados à ciência e paranormalidade.

Inicialmente, o Quarteto Fantástico tinha sua sede no Edifício Baxter, onde Reed realizava experimentos científicos e criava incríveis instrumentos tecnológicos. De vez em quando, estes instrumentos, bem como os poderes dos quatro, serviam para defender a Terra, ou simplesmente a cidade de Nova Iorque, de alguma ameaça espacial, científica ou supervilão. O primeiro supervilão do Quarteto foi o Dr. Destino, na verdade Victor von Doom, um antigo colega de faculdade de Reed, de intelecto igual ou superior ao dele, que, após ser desfigurado em um acidente, usou de sua inteligência e força para dominar a Latveria, um fictício país da Europa Oriental onde Doom nascera. Como governante da Latveria, Destino planeja se vingar de Reed, a quem culpa pelo experimento que o desfigurou ter dado errado, e um dia dominar o mundo. Apesar de não possuir poderes, sua inteligência o tranforma em um dos piores vilões do Universo Marvel, e, assim como Reed, ele a usa para criar aparatos tecnológicos, em seu caso usados para o mal. O principal destes aparatos é sua armadura, equipada com armas e outros mecanismos de defesa, e que permite que ele lute em igualdade de condições com o Quarteto. E ele ainda possui robôs que são cópias idênticas de sua armadura, para enganar os heróis. Destino ainda tem uma vantagem excepcional, uma grande sacada de Stan Lee: imunidade diplomática. Mesmo sendo um supervilão, ele é o governante da Latveria, e deve ser tratado como tal. Na vida real provavelmente a coisa não funcionaria desta forma, mas nos quadrinhos é uma vantagem e tanto. Por tudo isso, Destino se tornou o principal vilão da Marvel, tendo enfrentado quase todos os outros heróis da editora.

Ao longo do tempo, o Quarteto passou por muitas aventuras, sempre tendo a ciência como foco. Stan Lee e Jack Kirby criaram conceitos como a Zona Negativa, as moléculas instáveis e o Microverso, que seriam reaproveitados em muitos outros títulos da Marvel. A exploração espacial também era constante, com o surgimento de raças alienígenas como os Inumanos, os metamorfos Skrull, e seus eternos inimigos, os Kree, raça da qual fazia parte o Capitão Marvel. Uma das mais famosas histórias do Quarteto envolvia justamente dois seres do espaço: Galactus, o Devorador de Mundos, e seu arauto, o Surfista Prateado, que fez tanto sucesso que acabou se tornando mais um super-herói.

Mesmo com tantos problemas de ordem cósmica, as iterações familiares do grupo jamais foram deixadas de lado. O Coisa começou a namorar a escultora cega Alicia Masters, Reed e Sue se tornaram o primeiro casal de super-heróis a se casar, e Sue foi a primeira heroína a dar a luz, quando teve Franklin Richards em 1968. Sue, aliás, aprendeu a controlar melhor seus poderes, usando-os para criar campos de força e tornar outros objetos invisíveis, e após algum tempo mudou seu nome de Invisible Girl para Invisible Woman (embora aqui no Brasil a mudança não tenha tido muito efeito, já que elea era Mulher Invisível desde o início). Esta fase foi escrita e desenhada por John Byrne, que começou sua carreira no Quarteto, e depois se tornou um dos mais respeitados artistas do ramo. Além de mudar o comportamento de Sue, Byrne deu uma sacudida em seu casamento, e fez com que Johnny se casasse com Alicia, o que levou o Coisa a deixar a equipe, sendo substituído pela Mulher-Hulk. A equipe mudaria novamente quando Byrne foi substituído por Steve Englehart, que trouxe o Coisa de volta, mas tirou Reed e Sue do grupo, sob o argumento de que eles queriam criar Franklin como uma criança normal, e os substituiu pela nova namorada do Coisa, Sharon Ventura, e pela Inumana Cristalys, ex-namorada de Johnny. Após algum tempo, Ventura se tornou uma versão feminina do Coisa, e o próprio Coisa sofreu uma mutação, ficando com uma aparência espinhenta. Englehart foi sucedido por Walt Simonson, que trouxe Reed e Sue de volta, e fez com que o Coisa perdesse seus poderes, voltando a ser apenas Ben Grimm.

Tentando arrumar essa bagunça, o roteirista seguinte, Tom DeFalco, inventou que Johnny não havia se casado com Alicia, mas com uma Skrull de nome Lyja, que assumira sua forma. O Quarteto então partiu em uma aventura para salvar a verdadeira Alicia, que estava captiva dos Skrulls. Depois disso, Ben voltou a ser o Coisa, Ventura deixou o grupo, e começou uma Era de Confusões que eu acho que só perde para a Saga dos Clones do Homem-Aranha. Até Reed e Doom foram mortos e depois ressucitados.

A verdade é que, no auge da popularidade de outros Heróis Marvel, como o Homem Aranha e os X-Men, o Quarteto não estava vendendo bem. Por isso a Marvel selecionou o título para fazer parte de sua linha Heroes Reborn, lançada em 1996, que mostrava como os heróis seriam se tivessem ganho seus poderes nos dias de hoje. O Quarteto ficou a cargo de Jim Lee, um dos mais badalados desenhistas da época. A própria série Heroes Reborn não fez muito sucesso, porém, e acabou cancelada no final de 1997, com o Quarteto voltando à cronologia normal. Depois disso, famosos roteiristas como Scott Lobdell, Chris Claremont, Mark Waid e J. Michael Straczynski (de Babylon 5) levaram o título até um relativo sucesso, embora ainda longe do que os heróis desfrutaram quando de seu lançamento.

Fora dos quadrinhos, o Quarteto também teve uma bem sucedida carreira, começando por uma série animada de 1967 que podia ser assistida no Boomerang, e que aqui no Brasil ganhou o título de "Os Quatro Fantásticos". Esta série teve apenas 20 apisódios de 22 minutos cada, e foi produzida pela Hanna Barbera. Dez anos após seu cancelamento, em 1978, a Marvel resolveu apostar em uma nova série, desta vez produzida pela DePatie-Freleng. Esta segunda série animada, curiosamente, não trazia o Tocha Humana, substituído pelo simpático robozinho H.E.R.B.I.E.. Tal substituição acabou criando uma daquelas "verdades" sobre a TV: a de que o Tocha não estava na série porque os executivos da televisão não queriam que as crianças ateassem fogo às próprias vestes para imitá-lo. É claro que a produtora nega, e é claro que ninguém acredita. Seja como for, esta série foi ainda mais curta, com apenas 13 episódios.

No meio dos anos 90, quando os novos desenhos do Homem Aranha e dos X-Men, produzidos pela própria Marvel, estavam fazendo sucesso, também foi lançada uma nova série do Quarteto, que dividia um bloco de uma hora chamado The Marvel Action Hour com o do Homem de Ferro. Este foi o mais bem sucedido desenho do grupo, com duas temporadas de 13 episódios cada, exibida aqui na falecida Fox Kids, e que hoje podem ser encontrados inclusive em DVD. Uma nova série já está em produção, desta vez pela MoonScoop (de Code Lyoko), e deve estrear ainda esse mês nos EUA.

Além dos desenhos, o Quarteto também teve dois filmes. Isso mesmo, dois. O primeiro foi completado em 1994, dirigido por Roger Corman, o mestre dos filmes B, e jamais viu a luz do Sol. Além de um elenco sofrível, o filme tinha efeitos especiais paupérrimos, com o Tocha Humana se transformando em um desenho animado toda vez que ficava em chamas. De tão ruim, o filme teve sua distribuição proibida pelo próprio Stan Lee, mas apesar de nunca ter passado nos cinemas nem lançado em video, pode ser encontrado perdido por aí na internet, em uma versão pirateada por alguém que tinha acesso aos rolos.

O segundo filme foi lançado em 2005, dentro da onda de novos filmes Marvel para o cinema. A princípio, houve algum descontentamento dos fãs pela escolha do diretor Tim Story, que só tinha feito quatro filmes até então, sendo que um deles foi o Taxi de Gisele Bündchen; e por Jessica Alba ter sido escolhida para interpretar Sue Storm. Apesar disso e das críticas extremamente desfavoráveis, o filme foi extremamente bem sucedido, e já tem uma continuação prevista para o ano que vem, Fantastic Four and the Rise of Silver Surfer. Além de Alba, fazem parte do elenco Ioan Gruffud como Sr. Fantástico, Chris Evans como o Tocha Humana, Michael Chiklis (da série The Shield) como o Coisa, e Julian McMahon (de Nip/Tuck) como o Dr. Destino.

E, para finalizar este post, como já é quase de hábito, uma curiosidade: ao criar o Quarteto, Lee e Kirby queriam que os heróis ficassem o mais próximos possível das pessoas comuns. Um ponto chave neste projeto foi ambientar suas histórias em Nova Iorque, e não em uma cidade fictícia como Metrópolis ou Gotham City. Ambientação feita, eles decidiram ir ainda mais longe: nas primeiras histórias, ficava subentendido que o Quarteto realmente existia no mundo real, e havia "licenciado" os direitos sobre suas aventuras, para a Marvel, que as retratava em quadrinhos! Acreditem ou não, em várias edições os personagens compravam o último número do Quarteto Fantástico nas bancas, e em uma delas o Homem Impossível chegou a invadir o prédio da Marvel para obrigar a editora a fazer uma revista contando suas aventuras. No final da década de 60 essa idéia foi abandonada, sendo ressucitada em 1984 por John Byrne, que desenhou uma história onde ele mesmo era cobrado pelo editor quanto a uma edição atrasada, e argumentava que não pôde terminá-la porque não teve como contactar o Quarteto Fantástico. Depois disso, alguém deve ter achado que essa idéia era meio ridícula, e o conceito foi abandonado.
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domingo, 3 de setembro de 2006

Escrito por em 3.9.06 com 0 comentários

Fórmula 1 (IV)

E vamos a mais um post sobre a História da Fórmula 1!

1980-1989


A década de 80 já começou com uma confusão: desde sua criação, a Federação Internacional de Automobilismo sempre foi o órgão máximo deste esporte, mas desde 1922 a FIA não participava diretamente da organização das corridas, este papel cabendo a uma entidade autônoma ligada à federação, conhecida como CSI, Comission Sportive Internationale, ou Comitê Esportivo Internacional. Em 1979, se valendo do grande prestígio da Fórmula 1, o CSI se reestruturou, mudando seu nome para FISA, Fédération Internationale du Sport Automobile, ou Federação Internacional do Esporte Automotor. Seu presidente, Jean Marie Balestre, entendia que a FISA, além de organizar as corridas, tinha autoridade para legislar sobre assuntos como distribuição do dinheiro proveniente das cotas de televisão e permissão ou não para as equipes utilizarem inovações tecnológicas em seus carros. Tal posicionamento, evidentemente, ia contra os interesses das equipes representadas pela FOCA, Formula One Constructors Association, a Associação dos Construtores da Fórmula 1, então presidida pelo dono da equipe Brabham, Bernie Ecclestone. Este conflito de interesses acabou evoluindo até o que ficou conhecido como a Guerra FISA-FOCA, que se alastrou por praticamente toda a década.

Nelson PiquetNa temporada de 1980, a Guerra ainda era apenas uma escaramuça, que não afetou muito o desempenho das equipes. Ainda assim, a categoria começava a se dividir, com as equipes mais fortes, como Ferrari, Renault e Alfa Romeo, se posicionando do lado da FISA, enquanto praticamente todas as demais equipes se filiaram à FOCA. O calendário contou com 14 provas: Argentina em Buenos Aires, Brasil em Interlagos, África do Sul em Kyalami, Estados Unidos Oeste em Long Beach, Bélgica em Zolder, Mônaco em Monte Carlo, França em Paul Ricard, Inglaterra em Brands Hatch, Alemanha em Hockenheim, Áustria em Österreichring, Holanda em Zandvoort, San Marino em Ímola, Canadá em Montreal, e Estados Unidos em Watkins Glen. O campeão foi o australiano Alan Jones, piloto da Williams, que conseguiu cinco vitórias. O brasileiro Nelson Piquet, correndo pela Brabham, faria uma temporada excelente, conseguindo três vitórias, o terceiro brasileiro a vencer na história da categoria. A morte visitou mais uma vez a Fórmula 1, quando o francês Patrick Depailler, piloto da Alfa Romeo, saiu da pista sofrendo ferimentos na cabeça após uma quebra de suspensão em um treino para o GP da Alemanha. E as mulheres também voltaram à categoria, com a sul-africana Desiré Wilson participando da sessão de qualificação para o GP da Inglaterra pilotando uma Williams, embora sem conseguir tempo suficiente para a largada.

1980 foi a última temporada na Fórmula 1 de Emerson Fittipaldi. A equipe Fittipaldi havia perdido o patrocínio da Copersucar, e correu neste ano patrocinada pela Skol. Além disso, Wilson Fittipaldi havia comprado o que restara da falida equipe Wolf, e contratado o finlandês Keke Rosberg, ex-piloto da Wolf, para ser parceiro de Emerson. O carro da Fittipaldi para 1980, portanto, era uma versão modificada do carro de 1979 da Wolf, projetado por Adrian Newey, que mais tarde viria a se tornar um dos melhores projetistas da Fórmula 1. Com este bom carro, Rosberg conseguiu um terceiro lugar logo na abertura da temporada, no GP da Argentina, e Emerson conseguiria mais um terceiro no GP dos Estados Unidos Oeste. Infelizmente, a equipe não conseguiria manter o bom desempenho nas provas seguintes. Ao final da temporada, Emerson pararia de correr e passaria a administrar a equipe, retornando às pistas em 1984 na Fórmula Indy.

A temporada de 1981 começou movimentada: revoltada com o gerenciamento da FISA, a FOCA conclamou suas equipes a montar seu próprio campeonato, concorrente com a Fórmula 1. Uma corrida chegou a ser realizada na África do Sul, vencida pelo argentino Carlos Reutemann, mas o campeonato paralelo logo foi abandonado por falta de interesse do público e de cobertura da imprensa, e todas as equipes da FOCA acabaram disputando o campeonato regular. Melhor para Nelson Piquet, que a bordo de seu Brabham e com três vitórias se tornou o segundo brasileiro campeão da Fórmula 1, um ponto a frente de Reutemann. Três também foi o número de vitórias conseguidas por Alain Prost, piloto francês da Renault, enquanto Reutemann e Jones, da Williams; o canadense Gilles Villeneuve, da Ferrari; e o francês Jacques Lafitte, da Ligier conseguiram duas cada. A Fittipaldi teve uma temporada péssima, perdendo o patrocínio da Skol e correndo a maioria das provas com carros antigos adaptados. Rosberg só conseguiria completar três provas, e seu novo parceiro, o brasileiro Chico Serra, que estreava na categoria naquele ano, duas.

A maior inovação tecnológica de 1981 foi introduzida pela McLaren, em sua primeira temporada dirigida por Ron Dennis: o chassis de fibra de carbono. A princípio, houve um temor de que ele se despedaçaria em caso de acidente, mas ao longo do tempo ele se provou até mais resistente que o de alumínio utilizado até então, além de bem mais leve. Tais vantagens fizeram com que, a partir do meio da década, todas as equipes passassem a utilizar chassis deste tipo. 1981 também foi o ano da assinatura do primeiro Pacto de Concórdia - que recebeu este nome por ter sido assinado na Praça da Concórdia, em Paris - um documento de teor majoritariamente secreto, que teoricamente selaria a paz entre a FISA e a FOCA, determinando, entre outras coisas, que a FOCA seria a responsável por televisionar as corridas e ficar com o lucro decorrente desta atividade. Este primeiro Pacto expiraria em 1987, quando seria feito outro. No calendário de 1981, com 15 provas, o GP da França passou para Dijon-Prenois, o da Inglaterra para Silverstone, o do Brasil para o Rio de Janeiro, voltaram os GPs da Espanha, em Jarama, e da Itália, em Monza, saiu o da África do Sul, e o GP dos Estados Unidos em Watkins Glen foi substituído pelo GP de Las Vegas. Como o GP de San Marino na verdade é realizado na Itália (onde fica a cidade de Ímola), Itália e EUA ficaram com dois GPs cada, o que deu início a uma lenda de que o GP de San Marino teria sido criado para agradar à Ferrari.

O número de provas aumentaria para 16 em 1982, com a volta do GP da África do Sul. Os "GPs itinerantes" de França e Inglaterra voltariam para Paul Ricard e Brands Hatch, o GP da Espanha seria substituído pelo GP da Suíça, em Dijon, e o da Argentina daria lugar ao GP dos Estados Unidos Leste, em Detroit, fazendo com que os EUA tivessem três GPs em uma mesma temporada. Keke Rosberg, que se transferiu para a Williams, seria o campeão, apesar de vencer apenas uma corrida. Os franceses dominaram a temporada, com Alain Prost e René Arnoux, da Renault, e Didier Pironi, da Ferrari, vencendo duas corridas cada, e Patrick Tambay, também da Ferrari, mais uma. Nelson Piquet conseguiu uma vitória, no GP do Canadá. Chico Serra, a bordo de um Fittipaldi, conseguiria seu melhor resultado, um sexto lugar no GP da Bélgica. Ao final da temporada, Serra se transferiria para a Arrows, onde correria a temporada de 1983. A Fittipaldi não resistiria além deste ano, e fecharia suas portas, encerrando o sonho de uma equipe brasileira de ponta na Fórmula 1. A Fittipaldi saiu, dois brasileiros entraram: Raul Boesel correu a temporada de 1982 pela March e a de 1983 pela Ligier, tendo como melhor resultado um sétimo lugar no GP dos Estados Unidos Oeste de 1983. Roberto Pupo Moreno teria uma carreira mais longa, correndo o GP da Holanda de 1982 pela Lotus, as duas últimas corridas de 1987 pela AGS, a temporada de 1989 pela Coloni, a de 1990 pela Eurobrun, os dois últimos GPs de 1990 e a temporada de 1991 pela Benetton, os GPs da Itália e Portugal de 1991 pela Jordan, o GP da Austrália de 1991 pela Minardi, a temporada de 1992 pela Moda e a de 1995 pela Forti Corsi. Seu melhor resultado foi um segundo lugar no GP do Japão de 1990.

A temporada de 1982 também foi marcada por um boicote: as equipes da FISA já usavam motores turbo, introduzidos pela Renault no final da década de 70. Os carros da FOCA, incapazes de competir com eles com seus motores Cosworth, começaram a buscar brechas no regulamento, e acabaram encontrando a oportunidade perfeita: o regulamento dizia que fluidos de freio e refrigeração eram incluídos no peso mínimo e máximo do carro durante a pesagem, mas não diziam nada sobre eles terem de estar ali durante a corrida. Para a corrida do Brasil, portanto, os carros da FOCA apareceram com "freios refrigrados a água", e dois enormes tanques de água supostamente usada para refrigerar os freios. Na verdade, essa água seria expelida dos tanques nas primeiras voltas da prova, o que fazia com que os carros da FOCA corressem abaixo do peso mínimo, se tornando muito mais velozes que os da FISA. Antes da pesagem pós-corrida, as equipes encheram os tanques de água novamente, e foram aprovadas. A corrida foi vencida por Piquet, com Rosberg em segundo, ambos pilotando carros da FOCA (Brabham e Williams). A equipe Renault, da FISA, decidiu pedir impugnação do resultado, alegando má-fé, para que seu piloto Prost ganhasse os pontos da vitória. A FIA aceitou o argumento, e desclassificou Piquet e Rosberg, embora mantendo os resultados dos demais carros que usaram o tal freio refrigerado a água, já que ninguém havia reclamado deles.

Brabham e Williams recorreram, e enquanto o recurso estava sendo analisado, houve o GP dos Estados Unidos Oeste. Talvez querendo mostrar onde as coisas iriam parar se todos explorassem falhas do regulamento, a Ferrari apareceu para correr com duas asas traseiras, uma bem do ladinho da outra, ambos do tamanho máximo permitido. Ao ser questionada, a equipe disse que não era uma asa do dobro do tamanho permitido, mas duas asas de tamanho permitido, uma ao lado da outra, e não havia nada no regulamento que proibisse isso. A FIA achou aquilo um absurdo e, além de negar o recurso de Williams e Brabham, ainda desclassificou a Ferrari daquela corrida, onde Villeneuve havia chegado em terceiro. Revoltado com a desclassificação de Piquet e Rosberg, Ecclestone conclamou as equipes da FOCA a boicotar o GP de San Marino. Isto deixaria a corrida com apenas as três equipes da FISA, mas Tyrrell, Osella, ATS e Toleman alegaram obrigações contratuais e correram. Ironicamente, estas quatro equipes acabaram punidas pela FOCA, mas, após o boicote, as hostilidades entre FISA e FOCA se reduziram bastante, principalmente porque os carros da FOCA passaram a contar com motores turbo, preferindo gastar um pouco mais de dinheiro do que perder corridas.

Além do boicote, 1982 teve três tragédias: na corrida do boicote, tudo ia se encaminhando para a vitória de Villeneuve, mas, na última volta, Pironi, seu companheiro de equipe, o ultrapassou e venceu. Villeneuve ficou tão furioso que prometeu jamais falar com Pironi novamente. Nos treinos para a corrida seguinte, na Bélgica, Villeneuve sofreu um acidente fatal enquanto ultrapassava o alemão Jochen Mass, da March. O acidente foi tão impressionante - Villeneuve foi ejetado para fora do carro no meio da pista - que marcou para sempre a categoria, e fez com que a Ferrari desistisse de correr a prova. Pironi ficou de certa forma perturbado após o acidente, pois muitos diziam que ele só acontecera porque Villeneuve ainda estava furioso, e, na largada para o GP do Canadá, acabaria ele também sofrendo um acidente: a luz verde da largada demorou para acender, e Pironi, na pole position, deixou o motor de sua Ferrari morrer. Quando a luz acendeu, muitos carros tiveram que desviar de Pironi, mas o italiano Riccardo Paletti, da Osella, o acertou em cheio. Paletti sofreria múltiplos ferimentos no peito, e morreria no hospital. O calvário de Pironi se completaria quando, durante os treinos para o GP da Alemanha, ele sofreria um acidente quase idêntico ao que vitimou Villeneuve, ao tentar ultrapassar a Williams do irlandês Derek Daly. Ao invés de bater e ser ejetado do carro, Pironi acertou em cheio a Renault de Prost. Ele sobreviveu, mas os ferimentos em suas pernas fariam com que ele não retornasse mais à Fórmula 1. Pironi morreria em 1987, em um acidente durante uma corrida de lanchas, que também vitimou seus co-pilotos.

Talvez o efeito solo não tenha sido a causa de tantos acidentes fatais, mas mesmo assim a FIA decidiu que, de 1983 em diante, ele sofreria severas limitações. Saias plásticas e partes abaixo do carro que encostassem no chão, por exemplo, estavam proibidas, e todos os carros teriam de ter no mínimo 6 cm entre a pista e o fundo do carro. Ainda assim, graças aos motores turbo, a velocidade não parava de aumentar. A temporada de 1983, inclusive, foi a primeira vencida por um piloto com um carro equipado com turbo, Nelson Piquet, a bordo de seu Brabham, se igualando a Emerson como bicampeão mundial. Piquet conseguiu três vitórias, mesmo número de Arnoux, agora na Ferrari, e uma a menos que Prost, mas sua regularidade durante a temporada lhe garantiu o título, com dois pontos de vantagem. No calendário, o GP da Bélgica passou para Spa-Francorchamps, o da Inglaterra voltou para Silverstone, os da Suíça e de Las Vegas foram retirados, e foi criado o GP da Europa, em Brands Hatch, fazendo com que Itália, EUA e Inglaterra tivessem dois GPs cada, em um total de 15.

Sempre preocupada com o aumento da velocidade, a FIA decidiu limitar a capacidade dos motores para a temporada de 1984. Pouco adiantou. A McLaren, com um poderoso motor Porsche turbo, dominou o campeonato, iniciando um reinado que duraria até 1991. O campeão foi Niki Lauda, que voltou da aposentadoria para vencer o campeonato com cinco vitórias. O parceiro de Lauda, Alain Prost, conseguiu sete vitórias, mas perdeu o campeonato por apenas meio ponto, o recorde de menor diferença na história da Fórmula 1. Curiosamente, os meio-pontos foram distribuídos no GP de Mônaco, que terminou antes da metade devido a uma forte chuva, por decisão do diretor de prova, Jackie Ickx, empregado da Porsche. Esta corrida foi a primeira grande atuação do brasileiro Ayrton Senna, que, correndo pela fraca equipe Toleman, chegou ao segundo lugar, e estava se aproximando de Prost com chances de ultrapassá-lo quando a prova foi interrompida. Senna, em sua primeira temporada, somou 13 pontos, terminando em décimo lugar. Piquet, com duas vitórias, terminou em quinto. O calendário viu as transferências dos GPs da França, Bélgica, Inglaterra e Europa para Dijon, Zolder, Brands Hatch e Nürburgring. O GP dos Estados Unidos Oeste virou só GP dos Estados Unidos, disputado em Dallas, e o GP de Portugal, no Estoril, aumentou o número de provas mais uma vez para 16.

Prost pode ter deixado o título escapar em 1984, mas não o fez em 1985, tornando-se o primeiro (e até hoje único) francês campeão da Fórmula 1. Com quatro vitórias, Prost assegurou o título com uma enorme vantagem de 23 pontos sobre o italiano Michele Alboreto, da Ferrari. Nesta mesma temporada, Senna, já correndo pela Lotus, se tornou o quarto brasileiro a vencer uma prova de Fórmula 1, ao subir no lugar mais alto do pódio nos GPs de Portugal e da Bélgica. Senna terminaria o campeonato em quarto lugar, e Piquet, que venceu o GP da França, em oitavo. 1985 também viu as duas primeiras vitórias do inglês Nigel Mansell, piloto da Williams que viria a se tornar um grande rival dos brasileiros. No calendário, os GPs da França, Inglaterra, Alemanha, Bélgica e Europa passaram para Paul Ricard, Silverstone, Nürburgring, Spa-Francorchamps e Brands Hatch; e o GP dos Estados Unidos foi substituído pelo GP da Austrália, em Adelaide, a primeira corrida de Fórmula 1 realizada na Oceania.

1986 foi um ano cheio de novidades. Para começar, o calendário não teve os GPs da Holanda, Europa e África do Sul, sunstituídos pelos da Espanha em Jerez de la Frontera; México na Cidade do México; e o novo GP da Hungria, em Hungaroring; além das mudanças dos GPs da Inglaterra e Alemanha para Brands Hatch e Hockenheim. Além disso, Piquet trocou a Brabham pela Williams, equipada com um poderoso motor Honda, onde seria parceiro de Mansell. A Williams dominou a temporada - Mansell venceu cinco provas e Piquet quatro - mas a competição entre os pilotos fez com que nenhum dos dois conseguisse um número de pontos suficiente para bater Prost, que se tornou bicampeão também com quatro vitórias, a decisiva no último GP da temporada, quando os pilotos da Williams tiveram problemas de pneu. Piquet terminaria o campeonato em terceiro lugar, e Senna, que venceu duas provas, em quarto.

Todos os carros da temporada de 1986 usavam motores turbo, que nesta época já estavam conseguindo potências impressionantes com pouco consumo de combustível. Preocupada com a segurança, a FIA decidiu restringir a pressão máxima e a capacidade de combustível dos motores turbo, ao mesmo tempo que aumentou a capacidade de combustível permitida para os atmosféricos, que começaram a retornar à categoria. Ainda assim, os carros equipados com motores turbo de 1987 foram os mais potentes de toda a história do automobilismo, quase passando de mil cavalos de força. Foi com um motor destes que a Williams dominou mais uma vez a temporada, conseguindo a única interrupção na seqüência de sete títulos da McLaren. Mansell venceu seis provas, mas foi Piquet, com três vitórias, que se tornou o primeiro brasileiro tricampeão da Fórmula 1, graças à sua maior regularidade nas demais provas. Senna também fez uma temporada memorável, conseguindo duas vitórias e terminando no terceiro lugar do campeonato. As outras cinco corridas do calendário foram vencidas por Prost (três) e pelo austríaco Gerhard Berger, piloto da Ferrari (duas). Falando em calendário, o de 1987 só teve duas mudanças: a volta do GP da Inglaterra para Silverstone, e a troca do GP do Canadá pelo do Japão, realizado em Suzuka.

A boa temporada de Senna na Lotus no ano anterior rendeu ao piloto um contrato com a McLaren para 1988. E este não foi o único trunfo da equipe de Ron Dennis, que também conseguiu os motores Honda, que até então equipavam a Williams. Com o trio Senna-Prost-Honda, a McLaren conseguiu um domínio jamais visto, vencendo 15 das 16 provas da temporada, um recorde até hoje ainda não superado. Senna conseguiu o recorde de oito vitórias, se tornando o terceiro brasileiro campeão da Fórmula 1, enquanto Prost teve outras sete. A única prova não vencida por uma McLaren foi o GP da Itália, conquistado por Berger, para delírio da torcida da Ferrari, após Prost abandonar com uma quebra de motor e Senna se envolver em um acidente. Piquet, que trocou a Williams, que correria com motor Judd, pela Lotus, que ainda tinha motores Honda, conseguiu três terceiros lugares e terminou o campeonato em sexto. 1988 ainda foi o ano de estréia de mais um brasileiro, Maurício Gugelmin, que correu as temporadas de 1988 e 1989 pela March, 1990 e 1991 pela Leyton House, e 1992 pela Jordan. Seu melhor resultado foi um terceiro lugar no GP do Brasil de 1989. A única alteração no calendário de 1988 foi a saída do GP da Áustria para a volta do GP do Canadá.

E assim chegamos a 1989, uma das temporadas mais disputadas da Fórmula 1, graças, em parte, à proibição da FIA aos motores turbo, valendo a partir deste ano. Todas as grandes equipes voltaram a correr com motores aspirados, enquanto algumas das pequenas insistiram com atmosféricos. Os que achavam que o domínio da McLaren iria acabar por causa disso se enganaram, pois Senna e Prost foram mais uma vez os destaques da temporada. O brasileiro conseguiu seis vitórias contra quatro do francês, mas os resultados das demais provas fizeram com que Prost ficasse com o título. Esta temporada ficou famosa pelo incidente no GP do Japão, quando Prost supostamente bateu em Senna de propósito para tirar os dois da corrida e assegurar seu título. Senna conseguiu voltar para a pista e vencer a prova, mas foi desclassificado por ter recebido ajuda dos fiscais para fazê-lo. Piquet, com uma Lotus capenga, não conseguiu resultados expressivos, e terminou o campeonato na oitava posição. No calendário, a única mudança foi o GP dos Estados Unidos Leste, que passou a se chamar simplesmente GP dos Estados Unidos, e a ser disputado em Phoenix.

Ok, o fim está próximo! A seguir, a década de 1990!

Série Fórmula 1

1980-1989

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