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sábado, 27 de junho de 2026

Escrito por em 27.6.26 com 0 comentários

Olimpíadas (XXIX)

É incrível como o tempo passa e não nos damos conta disso. Esse ano, por exemplo, faz 20 anos que eu decidi começar a escrever uma série sobre as Olimpíadas aqui no átomo. Desde que a terminei, sempre tentei atualizá-la conforme mais edições iam se passando. Esse ano já se passaram mais duas desde minha última atualização, de forma que já é possível escrever um novo post. Assim, hoje, mais uma vez, é dia de Olimpíadas no átomo!

Paris 2024

No início dos anos 2000, sediar uma Olimpíada havia se tornado um negócio muito caro: a permissão para a participação dos atletas profissionais levaria a exigências do Comitê Olímpico Internacional para que não somente os estádios, quadras e arenas fossem do mais alto nível, mas também para que as mais modernas técnicas de arbitragem e cronometragem fossem utilizadas, para evitar ao máximo injustiças. O custo para uma cidade-sede aumentaria exponecialmente em relação ao que era gasto no século XX, o que acabaria afastando potenciais candidatas.

A princípio, porém, esse não pareceria ser o caso para as Olimpíadas de 2024. Com a escolha da sede marcada para o congresso do COI que ocorreria em setembro de 2017, cinco cidades decidiriam se candidatar: Paris, Roma, Budapeste, Hamburgo e Boston, esta última escolhida em uma votação interna conduzida pelo Comitê Olímpico dos Estados Unidos (USOC), na qual derrotou Los Angeles, San Francisco e Washington, D.C. Em julho de 2015, entretanto, devido a protestos dos moradores de Boston, que não queriam uma Olimpíada realizada lá, a prefeitura da cidade e o USOC chegaram a um acordo para retirar sua candidatura, substituindo-a pela de Los Angeles. A partir daí, ocorreria um efeito dominó: ao ser noticiado na imprensa mundial que a população de Boston estava contra a Olimpíada por causa dos altos custos, a população de Hamburgo também decidiu se revoltar, o que levou a prefeitura a realizar um referendo, no qual ganhou a oposição à candidatura, com a cidade alemã se retirando do processo em novembro de 2015. Cerca de um ano depois, alegando "dificuldades fiscais", a capital italiana também desistiria. No início de 2017, a população de Budapeste recolheria assinaturas para que lá também fosse reazliado um referendo, o que levou o governo da Hungria a também retirar a candidatura de sua capital, em fevereiro. Faltando menos de sete meses para a escolha, as Olimpíadas de 2024 só tinham duas candidatas: Paris e Los Angeles.

Diante disso, o COI realizaria uma reunião de emergência em junho, na qual seria proposto que o congresso em setembro escolhesse não só a sede de 2024, mas também a de 2028, talvez por medo de ninguém querer se candidatar. Em uma sessão extraordinária realizada na sede do COI em julho, representantes das candidaturas de Paris e Los Angeles seriam chamados, a situação seria explicada, e seria feita uma proposta para que a cidade que não fosse escolhida para 2024 imediatamente fosse declarada sede de 2028. Paris, contudo, fez uma contra-proposta: em 2024, seria comemorado o centenário da última das duas edições dos Jogos Olímpicos realizadas na cidade, em 1924 - a primeira havia sido em 1900, com a capital francesa também se candidatando a sede de 1992, 2008 e 2012, sem sucesso. Devido à data, Paris "preferiria" sediar as Olimpíadas de 2024, deixando, se não houvesse oposição por parte dos norte-americanos, a edição de 2028 com Los Angeles. Devido a um entendimento de que os membros votantes do COI já escolheriam Paris mesmo, a delegação de Los Angeles não se opôs. Assim, em 31 de julho de 2017, Paris seria anunciada como "a única candidata" para 2024, enquanto Los Angeles seria "a única" para 2028, com o congresso de setembro somente oficializando as escolhas de ambas para essas respectivas edições. Curiosamente, assim Paris se tornaria a segunda cidade a sediar três Olimpíadas, depois de Londres (que as sediou em 1908, 1948 e 2012), e, se tudo correr conforme o planejado, Los Angeles será a terceira (já tendo sediado em 1932 e 1984).

Os Jogos de 2024 seriam realizados entre 26 de julho e 11 de agosto, e contariam com a participação de 10.714 atletas, que representariam 204 delegações. A Equipe Olímpica de Refugiados faria sua terceira aparição, dessa vez contando com 37 atletas, 24 homens e 13 mulheres, nascidos em 11 países diferentes, que tiveram de deixar suas pátrias devido à guerra, à fome ou à perseguição étnica, política ou religiosa. A principal novidade seria a delegação dos Atletas Individuais Neutros (AIN), que contava com 32 atletas, 17 homens e 15 mulheres, competindo sob uma bandeira própria, criada pelo COI, e ouvindo um hino próprio, também criado pelo COI, em caso de Medalha de Ouro; diferentemente dos Refugiados, os AIN não tinham direito de desfilar na cerimônia de abertura, de participar da cerimônia de encerramento, e suas medalhas não contariam para o quadro de medalhas oficial dos Jogos.

A criação dos AIN se deu porque Rússia e Belarus teriam sua participação nas Olimpíadas de 2024 vetada pelo COI: proibida até 31 de dezembro de 2022 de utilizar sua bandeira e hino em competições internacionais oficiais devido a um esquema de doping nas Olimpíadas de Inverno de 2014, a Rússia invadiria a Ucrânia durante o período de Trégua Olímpica das Olimpíadas de Inverno de 2022, o que motivaria o COI a ampliar a proibição e excluir a Rússia e Belarus (a quem considerou apoiar sua ação militar) de todas as suas competições até cessarem as hostilidades. Muitas das federações-membros do COI decidiriam estender essa proibição às suas próprias competições, como a World Athletics (novo nome da IAAF, a federação internacional do atletismo) e a FIFA (o que faria com que a Rússia fosse desclassificada das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022), sendo a mais notável exceção a Federação Internacional de Tênis, que segue permitindo que os tenistas da Rússia e Belarus participem de seus torneios, desde que não usem as bandeiras ou hinos de seus países. Os critérios para determinar quais atletas podem competir como AIN são pouco claros, e motivaram protestos do Comitê Olímpico da Ucrânia, e muitas das federações esportivas russas, como as de atletismo, luta olímpica e judô, decidiriam boicotar os Jogos por conta própria, impedindo que seus atletas se inscrevessem para competir como AIN. No fim, a delegação dos AIN contaria com 17 atletas de Belarus e 15 da Rússia.

O Comitê Organizador decidiria realizar quase todas as competições na Grande Paris, com a maior parte dos eventos sendo realizados na capital e nas cidades vizinhas de Saint-Denis, Le Bourget, Nanterre, Versalhes e Vaires-sur-Marne. Além do futebol, que sempre tem mesmo jogos em cidades distantes da sede, as mais notáveis exceções seriam o basquete e o handebol, que teriam jogos em Lille, o tiro, disputado em Châteauroux, e a vela, disputada em Marselha; a mais notável exceção mesmo, entretanto, seria o surfe, disputado na cidade de Teahupo'o, no Taiti, a nada menos que 15.716 km de Paris - superando o recorde de evento disputado em local mais distante da sede estabelecido em 1956, quando as Olimpíadas seriam realizadas em Melbourne, Austrália, mas, devido a uma proibição de se entrar no país com animais, as provas da equitação ocorreriam em Estocolmo, Suécia, a 15.599 km de distância. A realização do surfe no Taiti seria vista com muito entusiasmo pelos surfistas, mas sofreria críticas de jornalistas esportivos, que alegariam que a famosa "piscina de surfe" de Kelly Slater havia sido inventada justamente para ser usada em competições em cidades que não tivessem praia, mas até então as duas sedes olímpicas que poderiam usá-la haviam optado por não fazê-lo.

O Comitê Organizador também optaria por "aproveitar a beleza de Paris" ao escolher os locais de competição, montando, por exemplo, a arena de vôlei de praia em frente à Torre Eiffel, e realizando as provas de equitação e pentatlo moderno nos jardins do Palácio de Versalhes. Mas a decisão mais ousada nesse sentido seria tomada em relação à Cerimônia de Abertura: ao invés de em um estádio, os organizadores decidiriam fazê-la às margens do Rio Sena, sem cobrança de ingressos, com o desfile das delegações sendo feito através de barcos que partiriam da Ponte de Austerlitz e atracariam nos Jardins do Trocadéro, onde seria realizada a parte protocolar do cerimonial; conforme os barcos navegavam, shows de artistas como Lady Gaga, Aya Nakamura e a banda de heavy metal francesa Gojira ocorriam nas margens e pontes, junto a um segmento artístico que mostrava uma figura mascarada levando a Tocha Olímpica por pontos turísticos e locais famosos da capital francesa. Após o acendimento da Pira Olímpica, a Cerimônia seria finalizada com um show de Céline Dion na Torre Eiffel.

O revezamento da Tocha levaria 80 dias e passaria por todas as regiões francesas, incluindo as ultramarinas - Guiana Francesa, Nova Caledônia, Reunião, Polinésia Francesa, Guadalupe e Martinica. Durante a Cerimônia de Abertura, a Tocha seria carregada por convidados internacionais, como a ginasta romena Nadia Comaneci, o tenista espanhol Rafael Nadal e os norte-americanos Carl Lewis e Serena Williams; dentre os atletas franceses, o maior destaque seria Charles Coste, de 100 anos de idade, Medalha de Ouro no ciclismo em 1948, o mais idoso campeão olímpico francês ainda vivo. A honra de acender a Pira Olímpica caberia a Teddy Riner, do judô, e a Marie-José Perec, do atletismo. A pira tinha o formato de um balão, em homenagem aos irmãos Montgolfier, primeiros a pilotar um balão tripulado, em 1783; localizado no Jardim de Tuileries, durante a noite o balão "levantava voo", ficando suspenso a dez metros do chão, preso a uma espécie de conduíte plástico que o alimentava com água e eletricidade, sendo a primeira Pira Olímpica a não ser alimentada por combustíveis fósseis - durante o dia, o balão era recolhido e ficava preso ao solo.

As medalhas seriam criadas pela Joalheria Chaumet e produzidas pela Monnaie de Paris, a Casa da Moeda francesa; em seu verso, cada uma delas trazia uma peça hexagonal feita de sobras do ferro cortado para a construção da Torre Eiffel. O emblema dos Jogos seria criado pelo designer Sylvain Boyer, e trazia Marianne, a representação humana da República Francesa, com o formato de seu rosto, emoldurado por seu cabelo, sendo o da Chama Olímpica, e o formato redondo lembrando o de uma Medalha Olímpica; segundo o presidente do Comitê Organizador, Tony Estanguet, o emblema era uma homanagem aos Jogos de Paris de 1900, os primeiros dos quais mulheres puderam participar. O mascote era um barrete frígio, gorro de feltro com a ponta dobrada que é visto na França como um símbolo de liberdade; com dois grandes olhos azuis, braços e pernas, mãos e pés, ele não tinha nome, sendo conhecido apenas como Phryge ("frígio" em francês).

Os Jogos de 2024 contariam com 329 provas de 39 esportes: atletismo, badminton, basquete, basquete 3x3, boxe, breaking, canoagem, ciclismo, equitação, escalada esportiva, esgrima, futebol, ginástica artística, ginástica de trampolim, ginástica rítmica, golfe, handebol, hóquei, judô, levantamento de peso, luta olímpica, nado artístico, natação, pentatlo moderno, polo aquático, remo, rugby, saltos ornamentais, skateboarding, surfe, taekwondo, tênis, tênis de mesa, tiro com arco, tiro esportivo, triatlo, vela, vôlei e vôlei de praia (clique aqui para ver todas as provas do programa). Novidades do programa incluiriam a participação de homens no nado artístico - fazendo com que o único esporte que não é disputado no masculino e feminino seja a ginástica rítmica - e a estreia do caiaque cross, no qual os atletas, remando em caiaques, têm de superar obstáculos e corredeiras, em baterias de quatro por vez, se classificando para a seguinte ou vencendo a prova quem chegasse primeiro; a inclusão de uma prova de revezamento misto na marcha olímpica; e, na vela, a inclusão da Formula Kite, considerada "a Fórmula 1 das Olimpíadas", que usa uma pequena prancha presa a uma enorme estrutura parecida com um para-quedas, capaz de alcançar mais de 80 km/h. Fora das Olimpíadas, a Formula Kite é regulada pela Associação Internacional de Kiteboarding (IKA), que fez uma parceria com a federação internacional de vela (World Sailing) para sua inclusão no programa; se comprometendo a respeitar todas as regulações da IKA, a World Sailing realizou provas separadas para o masculino e para o feminino, nas quais os atletas puderam escolher entre diferentes equipamentos homologados - diferentemente do que ocorre nas demais classes da vela, nas quais todos competem com barcos idênticos.

Segundo o que havia sido determinado pelo COI para a partir de 2020, o Comitê Organizador poderia sugerir novos esportes para incluir no programa, escolhendo skateboarding, surfe, escalada esportiva, breaking e eSports; os eSports não seriam aprovados pelo COI, mas o breaking faria sua estreia, sendo alvo de críticas não só de quem não o considerava um esporte, mas também de B-Boys e B-Girls que não se classificaram para o torneio olímpico e denunciaram irregularidades nas eliminatórias, que teriam favorecido os B-Boys e B-Girls "preferidos" pelo COI para competir numa Olimpíada. A B-Girl Manizha Talash, da Equipe de Refugiados, seria desclassificada ao competir com uma capa que trazia a inscrição "libertem as mulheres do Afeganistão", sob a alegação de que a Carta Olímpica proíbe manifestações políticas durante os Jogos. Também chamaria a atenção durante a competição a performance da australiana Rachael Gunn, que não usaria as roupas tradicionais do hip hop, competindo de agasalho e boné, e realizaria vários passos desconexos, que a levariam a receber nota zero em todas as suas três apresentações. Raygun, como é conhecida no mundo do breaking, diria em entrevistas em seu país natal que não houve qualquer favorecimento nas eliminatórias para que ela fosse às Olimpíadas, que ela havia sido a líder do ranking australiano em 2020, 2022 e 2023, e consideraria as reações à sua apresentação "alarmantes"; embora ela não tenha falado isso abertamente em lugar nenhum, fontes próximas à B-Girl diriam que ela teria se apresentado mal de propósito, em protesto pelo COI ter maculado a verdadeira essência do breaking.

Outro grande motivo de controvérsia seria o uso do Rio Sena, considerado extremamente poluído, para as provas de maratona aquática e do triatlo. Apesar de o Comitê Organizador e de a Prefeita de Paris terem garantido que as águas do Sena estariam limpas o suficiente durante os Jogos, repetidos testes mostravam que elas estavam com níveis acima dos considerados seguros da bactéria E. Coli, segundo a prefeitura, devido a fortes chuvas que caíram pouco antes da Cerimônia de Abertura. A maratona aquática seria movida para o Estádio Náutico de Vaires-sur-Marne, onde já ocorreriam as provas da canoagem e do remo, e chegou a ser cogitado transformar o triatlo em um duatlo, sem a parte da natação, o que a World Triathlon considerou inaceitável. O triatlo acabaria sendo realizado no Sena após Estanguet, a Ministra dos Esportes da França e mais alguns corajosos nadarem em suas águas para mostrar que estava tudo bem, mas, ainda assim, as provas sofreram sucessivos adiamentos, e os atletas não puderam fazer o reconhecimento das águas, dia no qual nadam sem a obrigatoriedade de fazer tempo, apenas para saber como as águas devem se comportar no dia da prova. Mesmo com todas as garantias da organização, uma atleta da Suíça e uma da Bélgica não puderam competir devido a infecções estomacais, que a imprensa francesa atribuiria a uma virose.

Para terminar a parte das controvérsias, o boxe quase ficaria de fora do programa após o COI suspender a Associação Internacional de Boxe (IBA) em 2022 por irregularidades financeiras, éticas e arbitrais em suas competições. A IBA acabaria desfiliada do COI em 2023, e, para que o torneio olímpico pudesse ser realizado, o próprio COI o organizaria, determinando inclusive novos critérios de classificação olímpica para os atletas. Durante o torneio olímpico, duas atletas, Imane Khelif, da Argélia, e Lin Yu-ting, de Taiwan, seriam acusadas de serem trans; segundo a IBA, ambas haviam sido desclassificadas por não passarem nos testes de testosterona, mas o COI havia permitido que elas competissem mesmo assim. O COI alegaria que a IBA jamais mostraria nenhum desses testes, que testes realizados pelo COI não mostraram nenhuma irregularidade, e que a IBA desejava que as atletas fossem impedidas de competir nas Olimpíadas com base apenas em sua palavra; alguns críticos esportivos veriam a manobra como uma "vingança" da IBA contra o COI por sua desfiliação, com as alegações de que as atletas eram trans sendo feitas apenas para gerar desconfiança e instabilidade.

A situação escalaria, entretanto, após Khelif derrotar a italiana Angela Carini, que, após abandonar a luta com 46 segundos, diria em entrevistas "ter sido acertada com mais força do que nunca na vida", o que faria com que várias pessoas online deduzissem que isso era a prova de que Khelif "era homem". A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, questionaria publicamente o COI, e diria que "mulheres com características masculinas deveriam ser proibidas de competir". O Comitê Olímpico da Argélia - país no qual ser trans é punido com a pena de morte - defenderia Khelif, dizendo que não havia nenhuma prova de que ela havia nascido homem, muito pelo contrário, não faltavam provas de que ela não somente era uma mulher cis, como estava dentro de todos os parâmetros hormonais determinados pelo COI, e criticaria duramente os meios de comunicação que exploraram a história, acusando-os de sensacionalismo e de colocar seus interesses financeiros acima do bem-estar da atleta. A World Boxing, que regula o boxe profissional e não é filiada ao COI, também defenderia Khelif, declarando que a pressão que ela sofria por parte da imprensa e das redes sociais poderia prejudicar sua carreira.

O COI jamais aplicaria qualquer punição nem a Khelif, nem a Yu-ting, com Thomas Bach, presidente do Comitê à época, garantindo que não havia nenhuma prova de que nenhuma das duas era transgênero. Entretanto, o fato de ambas terem ganhado medalhas de ouro em suas categorias - até 66 kg e até 57 kg, respectivamente - faria com que o assunto não esfriasse tão cedo, com alguns meios de comunicação inclusive chamando especialistas para discutir se Khelif era ou não uma mulher de fato - e até hoje canais de extrema-direita usam a argelina como exemplo de que mulheres trans devem ser proibidas de competir no esporte.

Mas vamos passar agora aos destaques positivos, começando pelo francês Leon Marchand, da natação, que não somente levou a Medalha de Ouro nos 200 m Peito, 200 m Borboleta, 200 m Medley e 400 m Medley, mas também, em todas essas quatro provas, quebrou os recordes olímpicos que pertenciam a ninguém menos que Michael Phelps. Marchand ainda levou um bronze no revezamento 4 x 100 m Medley masculino e participou do revezamento 4 x 100 m Medley misto, no qual a França terminou em quarto lugar. No feminino, a maior medalhista de ouro foi Summer McIntosh, do Canadá, vencedora dos 200 m Borboleta, 200 m Medley e 400 m Medley; outros grandes nomes foram a norte-americana Katie Ledecky, em sua quarta Olimpíada, ouro nos 800 m e nos 1500 m Livre, prata no revezamento 4 x 200 m Livre, e bronze nos 400 m Livre; e a sueca Sarah Sjöström, em sua quinta, ouro nos 50 m e nos 100 m Livre.

No atletismo, os maiores destaques foram os heróis improváveis: Letsile Tebogo, de Botswana, ganharia a primeira medalha de ouro da história de seu país, na prova dos 200 m masculino, enquanto Julien Alfred, ouro nos 100 m feminino, e Thea LaFond, ouro no salto triplo feminino, ganhariam as primeiras medalhas da história de Santa Lucia e de Dominica, pequenas ilhas no Caribe de, respectivamente, apenas 184 mil e 72 mil habitantes. A Equipe de Refugiados também ganharia sua primeira Medalha Olímpica na história, um bronze com Cindy Ngamba na categoria até 75 kg do boxe. Outros países que estreariam no quadro de medalhas seriam Cabo Verde, bronze com Daniel Varela de Pina na categoria 51 kg do boxe, e Albânia, que ganharia dois bronzes na luta livre; além disso, a Guatemala ganharia sua primeira medalha de ouro, com Adriana Ruano na prova da fossa olímpica, do tiro.

Outro torneio para o qual os holofotes do mundo se voltariam seria o de tênis, disputado, como não poderia deixar de ser, no saibro de Roland Garros. No masculino, o sérvio Novak Djokovic, mesmo sendo um dos mais vitoriosos do circuito, em sua quinta Olimpíada ainda não tinha Medalha de Ouro, com sua melhor colocação sendo um bronze em 2008; por isso, ele se emocionaria muito após derrotar, na final, a promessa espanhola Carlos Alcaraz - o bronze ficaria com uma surpresa, o italiano Lorenzo Musetti. No feminino, com a ausência das russas, o ouro iria para a chinesa Zheng Qinwen, com a prata ficando com a croata Donna Vekic e o bronze com a mais conhecida das três, a polonesa Iga Swiatek. Nas duplas mistas, ouro para a Tchéquia, prata para China e bronze para o Canadá; nas duplas masculinas, ouro para a Austrália, prata e bronze para os Estados Unidos; e, nas duplas femininas, ouro para a Itália, prata para as russas Mirra Andreeva e Diana Shnaider competindo como AIN, e bronze para a Espanha. Além dessa medalha, os AIN conquistariam outras quatro: um ouro e uma prata na ginástica de trampolim, uma prata no remo e um bronze no levantamento de peso - mas todas por atletas de Belarus.

Um dos momentos mais emocionantes dos Jogos ocorreria em um esporte pouco notado, a luta olímpica: na categoria até 130 kg da luta greco-romana, o cubano Mijain López, de 41 anos, conquistaria sua quinta Medalha de Ouro seguida - feito jamais alcançado por nenhum atleta em nenhum outro esporte individual na história das Olimpíadas. Emocionado, López decidiria retirar as sapatilhas no mat, gesto que simboliza a aposentadoria de um lutador, e carregaria seu técnico nos ombros em triunfo. Outro atleta veterano que chamaria atenção, mas não pelo mesmo motivo, seria o turco Yusuf Dikeç, prata na prova da pistola de ar 10 m do tiro, cuja imagem rodaria o mundo e se tornaria meme: ao invés de usar equipamentos altamente tecnológicos, ócuilos e fones de ouvido especiais e uniformes estilosos, Dikeç competiria com seus óculos de grau normais, fones intra-auriculares, camiseta, calça de moletom e a mão no bolso - segundo alguns, só faltava o cigarro na boca.

Falando em atletas veteranos, Teddy Riner, 35 anos, um dos maiores nomes do judô francês, após perder nas semifinais e ficar com o bronze em Tóquio, ganharia não uma, mas duas medalhas de ouro em Paris, na categoria acima de 100 kg e na prova por equipes, na segunda vez seguida em que a França derrotaria o Japão na final dessa última. Nessa prova, duas equipes de seis judocas cada, cada um de uma categoria, três homens e três mulheres, se enfrentam, com a equipe que ganhar quatro lutas primeiro sendo a vencedora. A França estava perdendo por 3 a 1, mas conseguiu empatar, com o regulamento determinando que a categoria da luta-desempate seja determinada por sorteio. Quando a categoria de Riner foi sorteada, o ginásio veio abaixo, com a torcida comemorando o título antes mesmo da luta - na qual o francês derrotou Tatsuro Saito por ippon e confirmou o ouro da França. Apesar do momento de triunfo, houve quem acusasse o sistema de ter armado para que Riner fizesse a luta desempate, já que a escolha da categoria foi feita por um programa de computador.

A França também conseguria uma enorme proeza ao derrotar a quase imbatível Fiji na final do Rugby Sevens masculino, realizada no Stade de France com a presença de quase 80 mil torcedores; no feminino, não houve surpresa, comk a Nova Zelândia conquistando seu segundo ouro seguido, dessa vez derrotando o Canadá. O Basquete 3x3 também seria disputado em um local icônico, a Place de la Concorde; o ouro no masculino ficaria com a Holanda, que derrotaria a França na final, e o do feminino com a Alemanha. No basquete de quadra, Estados Unidos e França fariam a final tanto do masculino quanto do feminino, com os norte-americanos levando o ouro em ambas. A França, pelo menos, ficaria com o ouro no vôlei masculino, no qual a Polônia ficou com a prata, os Estados Unidos com o bronze, e o Brasil terminou em uma decepcionante oitava posição; no feminino, o ouro foi da Itália, que derrotou os Estados Unidos na final. No futebol masculino, para o qual o Brasil sequer se classificou, o ouro ficou com a Espanha e a prata com a França, mas chamou mais atenção a disputa do bronze entre Marrocos e Egito, com os marroquinos levando a medalha.

O maior destaque do Brasil seria mais uma vez a ginasta Rebeca Andrade, que, após ganhar um ouro no salto e uma prata no individual geral em 2020, se tornaria a maior medalhista brasileira em número de medalhas, após conquistar um novo ouro, dessa vez nos exercícios de solo, uma prata no salto, uma nova prata no individual geral e um bronze na prova por equipes, ao lado de Jade Barbosa, Lorrane Oliveira, Flávia Saraiva e Júlia Soares. A maior oponente de Rebeca seria a norte-americana Simone Biles, que, após ficar fora das Olimpíadas de 2020 para cuidar da saúde mental, retornaria ajudando os Estados Unidos a ganhar o ouro por equipes, e ainda levaria o ouro no individual geral e no salto - mas ficaria com a prata nos exercícios de solo. No masculino, o maior destaque seria o Japão, que levaria o ouro na prova por equipes e no individual geral, com Shinnosuke Oka.

No geral, o Brasil, que pela primeira vez enviaria mais mulheres do que homens, 154 contra 123, faria uma boa participação, com 3 ouros, 7 pratas e 10 bronzes, 20 medalhas no total. Todas as medalhistas de ouro seriam mulheres: além de Rebeca, subiriam ao lugar mais alto do pódio Beatriz Souza, na categoria acima de 78 kg do judô, e a dupla de vôlei de praia Ana Patrícia Ramos e Duda Lisboa. As pratas ficariam com Willian Lima, categoria até 66 kg do judô; Caio Bonfim, na marcha atlética 20 km; Tatiana Weston-Webb, do surfe; Isaquias Queiroz, no C1 1000 m da canoagem; e com o time de futebol feminino, que perderia para os Estados Unidos na final. Os bronzes viriam com Larissa Pimenta, categoria até 52 kg do judô; Rayssa Leal no skateboarding, categoria street; Beatriz Ferreira na categoria até 60 kg do boxe; Gabriel Medina no surfe; Augusto Akio no skateboarding, categoria park; Edival Pontes na categoria até 68 kg do taekwondo; Alison dos Santos nos 400 m com barreiras; com o judô na prova por equipes; e com o time feminino de vôlei, que também perderia para os Estados Unidos, mas na semifinal.

O Brasil terminaria na 20a colocação no Quadro de Medalhas, que, mais uma vez, veria os Estados Unidos em primeiro e a China em segundo - curiosamente, empatados no número de Medalhas de Ouro, 40 para cada, na primeira vez em que isso ocorreu na história das Olimpíadas, mas os Estados Unidos tinham muito mais de Prata, 44 contra 27, e também mais medalhas totais, 126 contra 91. O Japão, se aproveitando do já famoso impulso por ter sediado a Olimpíada anterior, terminaria mais uma vez em terceiro, com 20 ouros e 45 no total, seguido da Austrália e da anfitriã França, que terminou com 16 ouros, 26 pratas e 22 bronzes, sua melhor participação em número de ouros e em total de medalhas desde a primeira vez em que sediou os Jogos, lá em 1900.

Milão-Cortina 2026

Se para sediar uma Olimpíada de Verão as cidades já estavam achando muito caro e perdendo o interesse, imaginem para sediar uma Olimpíada de Inverno, evento considerado mais de nicho, que tem bem menos visibilidade e interesse dentre o público dos países que não contam com esportes de neve e gelo dentre seus tradicionais. Somando a isso, graças ao aquecimento global, um estudo encomendado pelo COI apontaria que não está muito longe o dia no qual apenas uma dezena de cidades no planeta teria condições de realizar uma Olimpíada de Inverno, mesmo recorrendo a neve e gelo artificiais, e que algumas sedes do passado, como Sarajevo, já não conseguiriam fazê-lo hoje.

Para tentar contornar essa situação e aumentar o número de candidatas às Olimpíadas futuras, não somente de Inverno, mas também de Verão, o COI, em uma sessão extraordinária realizada em julho de 2017, mudaria várias das regras para escolha da cidade-sede de cada edição das Olimpíadas; uma dessas mudanças oficializaria que, a partir da escolha da sede para as Olimpíadas de Inverno de 2026, não seria obrigatório que apenas uma cidade se candidatasse, podendo a candidatura conter várias cidades de uma mesma região, província ou estado. Na prática, isso já vinha acontecendo - acabamos de ver que as Olimpíadas de 2024 contariam com provas não somente em Paris, mas nas cidades vizinhas, em algumas mais distantes, e até mesmo no Taiti - mas a oficialização permitiria que o nome de mais de uma cidade, de uma região, província ou estado fossem usados no nome oficial do evento, o que daria um maior senso de identidade às "co-sedes", aumentando o interesse e o apoio popular à realização de uma Olimpíada lá.

Graças a essa alteração, um dia, se Deus quiser, eu estarei escrevendo aqui no átomo sobre Alpes Franceses 2030 e Utah 2034, as duas primeiras edições de Olimpíadas, ambas de Inverno, a não trazer o nome de cidades no nome oficial do evento, mas sim, respectivamente, de uma região da França e de um estado dos Estados Unidos. Mas hoje é dia de falar de 2026, para a qual houve a pré-inscrição de sete candidaturas; como ocorreu para 2024, cinco delas desistiriam ao longo de 2018, duas (Calgary, no Canadá, e Sion, na Suíça) alegando terem feito um referendo no qual a população rejeitou a ideia de uma Olimpíada lá (as outras três foram Erzurum, na Turquia, Graz, na Áustria, e Sapporo, no Japão, que não forneceram motivos oficiais). As duas que sobraram, talvez mostrando que a estratégia do COI era realmente a correta, seriam candidaturas nas quais estariam envolvidas mais de uma cidade, não necessariamente próximas: Estocolmo e Åre, na Suécia, e Milão e Cortina d'Ampezzo, na Itália.

A candidatura italiana, contudo, começaria apenas como Milão 2026: a ideia do Comitê Olímpico Italiano (CONI) era fazer lá as cerimônias de abertura e encerramento e as provas de hóquei no gelo, patinação e curling, enquanto as provas de esqui e trenó seriam realizadas nas cidades vizinhas de Valtellina, Bormio, Santa Caterina di Valfurva e Livigno, que já contavam com resorts dedicados à prática do esqui. Logo no início, a candidatura sofreria um "fogo amigo", quando a prefeita de Turim decidiria que a cidade também seria candidata, para comemorar os 20 anos da última vez em que a Itália havia sediado uma Olimpíada de Inverno, em 2006. O CONI entraria em negociações, e, após o COI permitir as candidaturas conjuntas, decidiria lançar uma candidatura Milão-Turim para 2026. Conforme o planejamento avançava, porém, o CONI decidiria que seria melhor incluir também Cortina d'Ampezzo, que já havia sediado as Olimpíadas de Inverno de 1956, pelo motivo de que lá já havia uma pista de trenó, e reformá-la sairia muito mais barato que construir uma do zero. Só que Turim também já tinha uma pista de trenó, em melhores condições, já que havia sido construída para os Jogos de 2006, e, irritada, a prefeita decidiria retirar sua cidade da candidatura, que acabaria inscrita oficialmente com o nome de Milão-Cortina - o CONI deixaria claro que, querendo, Turim também poderia sediar algumas provas, mas a prefeita jamais quis conversar sobre isso. No fim, em uma votação considerada apertada, a candidatura italiana venceria a sueca por 47 votos a 34.

A Cerimônia de Abertura seria realizada no Estádio San Siro, de Milão, onde mandam seus jogos os dois principais times de futebol da cidade, o Milan e a Internazionale - existindo inclusive uma lenda de que ele só se chama San Siro quando é o Milan que joga lá, recebendo o nome de Giuseppe Meazza quando joga a Inter - enquanto a Cerimônia de Encerramento seria realizada na Arena de Verona, um anfiteatro romano de quase dois mil anos de idade construído na cidade de mesmo nome, e, graças a extensas restaurações realizadas no século XVI, utilizado até hoje para concertos de ópera e shows de artistas italianos e internacionais. Já as competições esportivas seriam divididas em quatro "regiões": a região de Milão contaria com dois estádios de hóquei no gelo, um novo e um reformado, a arena da patinação em velocidade e a arena da patinação artística e patinação em velocidade em pista curta; a região de Cortina teria a já citada pista de bobsled, luge e skeleton, a arena de curling, e receberia as competições do esqui alpino feminino e do biatlo; a região de Valtellina receberia as competições do esqui alpino masculino e do esqui de montanha (ambas na cidade de Bormio), o snowboarding e o esqui estilo livre (ambas na cidade de Livigno); e a região de Val di Fiemme receberia os saltos com esqui (na cidade de Predazzo), o esqui cross-country (na cidade de Tésero) e o combinado nórdico (em ambas).

Pela primeira vez na história das Olimpíadas, haveria duas Vilas Olímpicas, uma em Milão e uma em Cortina, com os atletas se hospedando naquela que ficasse mais próxima dos locais onde cada um iria competir. Também seriam acesas duas piras, com a de Milão sendo acesa pela esquiadora Deborah Compagnoni e pelo patinador Alberto Tomba "La Bomba", e a de Cortina pela esquiadora Sofia Goggia. A Cerimônia de Abertura contaria com shows de Mariah Carey, Laura Pausini e Andrea Bocelli, e com uma novidade no desfile das delegações, com os atletas entrando por vários portais, cada um localizado na cidade onde eles iriam competir, e a possibilidade de mais de um porta-bandeira por delegação. Portais foram instalados em Cortina, Bormio, Livigno, Predazzo e Tésero, nas quais, diferentemente de em Milão, mas semelhante ao que ocorreu em Paris 2024, não foram cobrados ingressos, com a população podendo assistir o "desfile" e um mini-cerimonial montado em Cortina.

As medalhas seriam criadas pelo Istituto Poligrafico e Zecca dello Stato (IPZS), responsável por fabricar o dinheiro, passaportes e selos postais da Itália, Vaticano, San Marino e Malta, e eram formadas por duas metades coladas, simbolizando "a jornada do atleta e o apoio de todos os que o acompanharam no caminho"; infelizmente, a ideia não se mostrou tão boa na prática quanto na teoria, já que as medalhas de vários atletas se quebraram em duas metades apos eles as receberem - nenhuma ao vivo na televisão, pelo menos. O mascote seria um arminho, animal típico da região, e receberia o nome de Tina, em homenagem à cidade de Cortina; Tina seria criada pelos estudantes de uma escola da cidade de Taverna, e escolhida pelo Comitê Organizador dentre mais de duas mil ilustrações enviadas. Junto com suas medalhas, os atletas receberiam bichos de pelúcia não de Tina, mas que representavam flores da espécie galanto, também típicas da região, uma espécie de mascote secundário que receberia o nome de Flo.

Participariam dos Jogos de Inverno de 2026 2884 atletas de 92 delegações, competindo em 116 provas de 16 esportes: biatlo, bobsleding, combinado nórdico, curling, esqui alpino, esqui cross country, esqui de montanha, esqui estilo livre, hóquei no gelo, luge, patinação artística no gelo, patinação no gelo em velocidade, patinação no gelo em velocidade em pista curta, saltos com esqui, skeleton e snowboarding (clique aqui para ver todas as provas do programa). A maior novidade seria o esqui de montanha, no qual os atletas devem subir uma montanha atravessando obstáculos e descê-la esquiando, primeiro esporte novo incluído em uma Olimpíada de Inverno desde o snowboarding em 1998; seriam disputadas três provas, a masculina (ouro para a Espanha, prata para um AIN, bronze para a França), a feminina (ouro para a Suíça, prata para a França, bronze para a Espanha) e a de duplas mistas (ouro para a França, prata para a Suíça, bronze para a Espanha). Falando nisso, assim como os Jogos de 2024, os Jogos de Inverno de 2026 contaria com a delegação dos Atletas Individuais Neutros, formada por 7 atletas de Belarus e 13 da Rússia; pelas regras do COI, a medalha de prata conquistada pelo atleta russo no esqui de montanha, única da delegação, não contou para o quadro oficial do evento.

Para o Brasil, o maior destaque dos Jogos foi a conquista da primeira medalha do país em uma Olimpíada de Inverno - e foi logo uma Medalha de Ouro, com Lucas Pinheiro Braathen, na prova do slalom gigante do esqui alpino. Nascido em Oslo, de pai norueguês e mãe brasileira, e tendo passado sua infância em Campinas, São Paulo, Lucas começou no esqui aos nove anos de idade, e participou de seu primeiro campeonato aos 11. Ele defenderia a Noruega em competições internacionais de 2018 a 2023, e, considerado uma das maiores promessas do esporte, surpreenderia o mundo do esqui quando, após conquistar o título do slalom na Copa do Mundo de Esqui Alpino, anunciou sua aposentadoria, aos 23 anos. No ano seguinte, entretanto, Lucas anunciaria que seguiria competindo como profissional, mas representando o Brasil. Os motivos pelos quais ele tomou essa decisão jamais foram divulgados oficialmente, mas há quem diga que ele sofria discriminação por ser filho de uma brasileira por parte da federação norueguesa, que daria mais vantagens a outros atletas durante as competições. Competindo pelo Brasil, Lucas conseguiria, em etapas da Copa do Mundo de Esqui Alpino, um ouro, uma prata e três bronzes no slalom, e dois ouros e cinco pratas no slalom gigante, prova na qual conquistaria o título em 2026, se tornando a maior esperança do país nas Olimpíadas de Inverno, chegando à Itália como segundo do ranking mundial, atrás apenas do fenômeno suíço Marco Odermatt.

Lucas seria o porta-bandeira do Brasil na Cerimônia de Abertura em Milão, e, uma semana depois, faria um tempo sensacional em sua primeira descida no slalom gigante - no qual cada atleta faz duas descidas, com os tempos sendo somados - precisando apenas confirmar um bom tempo na segunda para garantir a primeira Medalha de Ouro do Brasil, da América do Sul e de um país tropícal em uma Olimpíada de Inverno - e a primeira de um país do Hemisfério Sul que não fosse Austrália ou Nova Zelândia. Odermatt ficaria com a prata, e outro suíço, Loïc Meillard, com o bronze. Lucas ainda competiria no slalom, dois dias depois, mas daria azar: com a prova acontecendo enquanto nevava forte, ele perderia o equilíbrio e cairia durante a primeira descida, o que causa desclassificação - metade dos atletas não conseguiria terminar a primeira descida, com mais quatro não conseguindo completar a segunda. Meillard, que faria um tempo ruim na primeira descida, conseguiria se recuperar na segunda e ficaria com o ouro.

Outros destaques do esqui alpino seriam o suíço Franjo von Allmen, ouro no downhill, no slalom super gigante e na prova por equipes, ao lado de Tanguy Nef; a italiana Federica Brignone, ouro no slalom gigante e no slalom super gigante, e a norte-americana Mikaela Schiffrin, ouro no slalom. Esquiadora mais condecorada da história, com três ouros e uma prata em Olimpíadas e nada menos que 110 medalhas de ouro em etapas da Copa do Mundo, Schiffrin, de 30 anos, se tornaria simultaneamente a norte-americana mais jovem e mais velha ao conquistar um ouro no esqui alpino, já que havia conquistado seu primeiro aos 18. A alegria da equipe norte-americana só não seria maior devido a uma lesão complexa que encerraria a carreira de outra atleta multimedalhista, Lindsey Vohn, de 41 anos, um ouro e dois bronzes em Olimpíadas e 84 ouros em etapas da Copa do Mundo: após sofrer uma lesão no ligamento cruzado anterior direito apenas uma semana antes do início dos Jogos, Vohn, que já havia se submetido a uma cirurgia para substituir o joelho direito por uma prótese, negaria que estaria fora das Olimpíadas de Inverno de 2026, que planejava ser sua última competição como profissional. Ela acabaria certa, mas não da forma como gostaria: após sair da pista durante a prova de downhill, ela precisaria ser levada ao hospital de helicóptero, onde os médicos diagnosticaram que ela fraturou a tíbia em múltiplos lugares, incluindo na ligação com o joelho, e a cabeça da fíbula - detalhe: da perna esquerda.

No outro esqui, o cross-country, o norueguês Johannes Høsflot Klæbo conseguiria a proeza de ganhar o ouro em todas as seis provas - 10 km livre, 20 km skiatlo, 50 km clássico, sprint clássico, revezamento 4 x 7,5 km clássico e sprint livre por equipes. Somando as medalhas das Olimpíadas de Inverno passadas, ele se tornaria o maior medalhista de ouro da história do evento, com 11 - sendo três conquistadas em 2018 e duas em 2022, além de uma prata e um bronze em 2022. No feminino, a Noruega levaria o ouro no revezamento, mas, nas outras provas, o domínio seria da Suécia, com Frida Karlsson ganhando os 10 km livre e os 20 km skiatlo, Ebba Andersson (prata nas duas provas que Karlsson ganhou) os 50 km clássico, Linn Svahn o sprint clássico, e Jonna Sundling e Maja Dahlqvist (prata e bronze no sprint clássico) o sprint livre por equipes - Karlsson, Andersson, Svahn e Sundling também seriam prata no revezamento.

Na patinação artística, o maior destaque seria a norte-americana Alysa Liu, de apenas 20 anos. Filha de um casal de chineses, com seu pai tendo fugido para os Estados Unidos após ter sua prisão declarada por tomar parte nos protestos da Praça da Paz Celestial em 1989, Alysa começaria a competir aos cinco anos de idade, se tornando, aos dez, a atleta mais jovem a ganhar uma medalha de ouro no campeonato norte-americano. Após uma bem-sucedida carreira como juvenil, Liu seria contactada pelo governo chinês, que buscava naturalizar filhos de emigrantes para que eles competissem como chineses nas Olimpíadas de Inverno de 2022, em Pequim. Seu pai seria terminantemente contra, citando violações do governo chinês contra os Direitos Humanos, e ela seguiria competindo pelos Estados Unidos, conseguindo o primeiro lugar na ISU Challenger Series de 2021, o que lhe garantiu a vaga olímpica.

Alysa terminaria em sétimo lugar nas Olimpíadas de Inverno de 2022 e conquistaria uma medalha de bronze no Campeonato Mundial realizado pouco depois, mas, em abril do mesmo ano, anunciaria sua aposentadoria, aos 16 anos. Ela diria em suas redes sociais estar satisfeita com sua carreira e querendo cuidar da vida, mas, a amigos, confidenciaria estar esgotada mentalmente, já não encontrando prazer na patinação. Incentivada por seu pai, ela iria morar com parentes no Nepal, e lá, ao esquiar com amigos, redescobriria o prazer no esporte. Ela retornaria aos Estados Unidos com uma proposta ousada: voltaria a competir profissionalmente, desde que estivesse no controle de tudo - música, roupas, rotina, tudo teria de ser determinado por ela, sem nenhuma interferência da federação norte-americana. A federação bancaria a aposta, e ela voltaria a competir em março de 2024, ganhando uma medalha de ouro já em sua primeira competição após seu retorno, o Challenger Series Budapest Trophy, em outubro. Ela também seria medalhista de ouro no Campeonato Mundial de 2025, desbancando a superfavorita tricampeã Kaori Sakamoto, do Japão.

Nas Olimpíadas de Inverno, Alysa chamaria atenção por seu "cabelo de guaxinim", que alterna anéis descoloridos com sua cor original. Sua primeira prova seria a competição por equipes, na qual terminaria em segundo atrás de Sakamoto, mas, com esse resultado, ajudaria sua equipe a conquistar a Medalha de Ouro. Dez dias depois, ela voltaria ao gelo para a prova individual feminina, terminando o programa curto em terceiro, atrás de Sakamoto e de outra japonesa, Ami Nakai. Então, dois dias depois, no programa livre, ao som de MacArthur Park, de Donna Summer, Alyssa faria uma apresentação primorosa, acertando movimentos difíceis e, principalmente, dando a impressão de que estava se divertindo muito. Ela conquistaria o ouro, deixando Sakamoto com a prata e Nakai com o bronze. Para o mundo esportivo, ela seria mais uma prova de que cuidar da saúde mental é tão ou mais importante que do preparo físico, e que é importante que os jovens voltem a praticar esportes porque gostam, e não pela obrigação de ter bons resultados.

Outro atleta da patinação artística, também dos Estados Unidos, seria favorito ao ouro no masculino, mas, devido um erro, sequer chegaria ao pódio - mas acabaria sendo o centro de uma grande polêmica online: Ilia Malinin, 21 anos, se tornaria conhecido por fazer, no gelo, um salto mortal de costas aterrisando em um pé só, movimento que foi proibido pela federação internacional de patinação artística no gelo (ISU) entre 1976 e 2024, por ser considerado muito perigoso. Esse movimento não vale pontos para a nota técnica, mas pode contar para a nota artística, e havia grande expectativa da plateia sobre se Malinin conseguiria executá-lo e ganhar uma medalha - ele de fato conseguiria a execução, mas perderia a medalha devido a uma queda durante um giro tradicional.

Pois bem, após a imprensa do mundo inteiro começar a noticiar Malinin como o primeiro a tentar a manobra em uma Olimpíada de Inverno após o fim da proibição, começariam a surgir na internet, principalmente em redes sociais, vídeos dizendo que a primeira a conseguir executar o movimento teria sido uma mulher negra, a francesa Surya Bonaly, que teria sido desclassificada nas Olimpíadas de Inverno de 1998, em Nagano, Japão, por executá-lo; segundo esses vídeos, a "propaganda" em torno de Malinin visava "o apagamento de uma mulher negra", colocando um homem branco em seu lugar como o primeiro a realizar a manobra em uma Olimpíada de Inverno. A história real, entretanto, não é bem assim: o primeiro a realizar a manobra em uma Olimpíada de Inverno não seria Malinin nem Bonaly, mas o norte-americano Terry Kubicka, nas Olimpíadas de Inverno de 1976, em Innsbruck, Áustria. Kubicka também é considerado o primeiro a fazê-la em uma competição oficial, o Campeonato Norte-Americano do mesmo ano, mas não pode ser creditado como criador da manobra, já que vários patinadores a faziam fora de competição. Considerando-a muito perigosa, a ISU proibiria sua realização em competições oficiais logo após as Olimpíadas de Innsbruck, e Bonaly só a faria em Nagano como protesto: em sua terceira Olimpíada de Inverno, aos 25 anos de idade e vindo de uma lesão de difícil recuperação sofrida dois anos antes, a francesa faria um excelente programa curto, mas, ainda assim, receberia notas mais baixas que suas adversárias, especialmente a favorita chinesa Chen Lu, que todos os comentaristas concordariam ter feito uma apresentação bem pior. O técnico de Bonaly atribuiria a nota baixa a "etarismo", já que ela era a mais velha das competidoras, e, vendo que, com a nota baixa do programa curto, não tinha mais chance de pódio, ela decidiria executar o mortal, como quem diz "aqui o que eu sei fazer", se aposentando logo após a prova, da qual foi desclassificada.

Outra "polêmica de internet" - essa mais bizarra e mais bem-humorada - envolveria os saltos com esqui: segundo um tabloide inglês, atletas dessa modalidade estariam injetando ácido hialurônico no pênis antes da confecção da roupa, para obter uma vantagem ilegal. Explica-se: a roupa usada nos saltos com esqui é extremamente justa, com as regras determinando que, em qualquer local, só pode haver um "excesso de tecido" de até 4 cm. Acontece que, em qualquer lugar da roupa onde haja excesso de tecido, esse excesso vai produzir arrasto durante o salto, prejudicando o atleta. Exceto no meio das pernas. Nessa área, o excesso de tecido funciona como uma vela, aumentando a aerodinâmica e permitindo que o atleta salte mais longe. Segundo a reportagem, os altetas injetariam a substância antes da confecção da roupa para que, durante a fiscalização, a região estivesse inchada e o excesso de tecido no local estivesse dentro do limite; entre o dia da fiscalização e o da prova, entretanto, o corpo absorveria o ácido hialurônico, o inchaço desapareceria, e o excesso de tecido ficaria maior que os 4 cm permitidos - havendo casos nos quais os atletas coneguiriam até 5 m de distância a mais do que se tivessem feito a roupa com o pênis no tamanho normal. A federação internacional considerou as alegações como absurdas, e não tomou nenhuma providência para fiscalizar se algum atleta tinha mais tecido no meio das pernas do que o permitido, mas a internet entrou em polvorosa, com vários memes e teorias bizarras sobre o assunto sendo discutidas nas redes sociais.

Para fechar as polêmicas, uma nada engraçada ocorreu no curling, no qual o capitão da equipe masculina da Suécia acusou o capitão da equipe masculina do Canadá de trapaça, por empurrar a pedra com o dedo após ela passar pela hog line, o que não é permitido pelas regras. Essa denúncia já havia sido feita no Campeonato Mundial de 2025, realizado no Canadá, mas nenhuma providência foi tomada porque nem os árbitros viram, nem as câmeras oficiais do evento mostraram a trapaça. Em Cortina, onde os jogos do Curling de 2026 foram realizados, antes da partida entre Canadá e Suécia na fase classificatória, a televisão sueca colocaria uma câmera bem apontando para a hog line, e conseguiria capturar o exato momento em que, com a pedra já além da linha, o capitão canadense a empurra com o dedo indicador. O Canadá negaria a trapaça, alegando ser uma ilusão de ótica provocada pelo ângulo da câmera, e mais uma vez nada de oficial pôde ser feito, porque uma imagem de uma rede de TV adversária não serve como prova. O Canadá terminaria a competição com a Medalha de Ouro e a Suécia em nono - a prata seria do Reino Unido e o bronze da Suíça - mas a imagem do capitão trapaceiro correria o mundo.

No curling feminino, a equipe do Reino Unido, pela primeira vez desde 2006, não contaria com Eve Muirhead, uma das principais jogadoras do planeta, que anunciou sua aposentadoria após conquistar o ouro em 2022. O ouro do feminino em 2026 iria para a Suécia, com a prata ficando com a Suíça e o bronze com o Canadá. Nas duplas mistas, havia grande esperança de que a dupla da casa, campeã em 2022, conseguisse um novo ouro, mas eles ficariam com o bronze, após perder nas semifinais para os Estados Unidos, que levariam a prata - o ouro seria mais uma vez da Suécia, com os irmãos Isabella e Rasmus Wraná. No outro esporte coletivo das Olimpíadas de Inverno, o hóquei no gelo, Estados Unidos e Canadá fariam as finais tanto do mascuino quanto do feminino, com os norte-americanos ganhando o ouro em ambas; no masculino, o bronze ficaria com a Finlândia, e, no feminino, com a Suíça - a equipe feminina da Finlândia, uma das favoritas, seria eliminada nas quartas de final, após mais da metade de suas jogadoras ser acometida por uma virose.

A Alemanha faria a limpa no trenó, ganhando ouro, prata e bronze no two-bob masculino, ouro e prata no four-bob masculino (bronze da Suíça), prata no monobob feminino (ouro e bronze para os Estados Unidos), ouro e prata no two-bob feminino (bronze para os Estados Unidos), e todas as pratas e bronzes do skeleton - no qual o ouro do masculino e das duplas mistas ficou com o Reino Unido e o do feminino com a Áustria. No luge, que a Alemanha tradicionalmente domina, porém, eles seriam ouro no simples masculino e feminino e no revezamento por equipes, mas, nas duplas masculinas e femininas o ouro seria da Itália, com a Alemanha sendo bronze no masculino e prata no feminino.

Na patinação em velocidade, a Itália conseguiria dois ouros no feminino, nos 3000 e nos 5000 metros, o primeiro com direito a Recorde Olímpico, ambos com Francesca Lollobrigida, a Lollo, muito criticada por interromper a carreira após as Olimpíadas de Inverno de 2022 para ser mãe; no masculino, os donos da casa levariam o ouro da perseguição por equipes, batendo os Estados Unidos na final, para delírio da plateia. Tirando a perseguição por equipes, na qual o ouro foi para o Canadá, todas as demais provas femininas foram conquistadas pela Holanda, que tradicionalmente domina essa modalidade; a novidade em 2026 foi um domínio da Holanda também na outra patinação em velocidade, a de pista curta, na qual eles levariam cinco ouros - três no masculino, no revezamento 5000 m e com Jens van 't Wout (sim, tem 't solto ali) nos 1000 e 1500 m, e dois no feminino, com Xandra Velzeboer nos 500 e 1000 m.

O Brasil levaria sua maior delegação na história das Olimpíadas de Inverno, com 14 atletas, sendo 10 homens e 4 mulheres, que competiram em 5 esportes - recorde também nesse quesito. Além da medalha do esqui alpino, os maiores destaques foram Nicole Silveira, do skeleton, porta-bandeira da delegação brasileira no desfile em Cortina, que terminou em 11o, mas fazendo excelentes tempos; e a equipe do bobsled, liderada por Edson Bindilatti, em sua sexta Olimpíada de Inverno, que seria 19a no four-bob e 24a no two-bob. Esses números parecem desanimadores quando olhados em separado, mas, em retrospecto, para um país que não tem neve ou gelo naturais capazes de sustentar treinamentos, mostram uma grande evolução, e dão a esperança de mais vitórias em edições futuras.

Série Olimpíadas

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domingo, 11 de setembro de 2022

Escrito por em 11.9.22 com 0 comentários

Olimpíadas (XXVIII)

Em 2006, eu fiz aqui uma série de posts sobre as Olimpíadas. Desde então, sempre que possível, eu a atualizo, normalmente depois de uma Olimpíada de Inverno, porque tem alguma coisa nas Olimpíadas de Inverno que me deixa com vontade de escrever sobre Olimpíadas. Como esse ano teve Olimpíada de Inverno, vocês já devem ter imaginado que o mais novo post da série olímpica é esse aqui. Hoje é dia, mais uma vez, de Olimpíadas no átomo!

Tóquio 2020

Tóquio seria escolhida sede das Olimpíadas de 2020 sete anos antes, em 2013, quando concorreria contra Madrid, na Espanha, e Istambul, na Turquia. Essa seria a terceira vez na qual a capital japonesa seria escolhida para sediar uma Olimpíada, mas a primeira, em 1940, acabaria cancelada por causa da Segunda Guerra Mundial. Os japoneses, portanto, estavam ansiosos para que sua principal cidade se tornasse a primeira cidade asiática a sediar duas edições das Olimpíadas, 56 anos após a primeira, em 1964.

No final de 2019, entretanto, algo inesperado aconteceria: um vírus letal se espalharia pelo mundo, levando a Organização Mundial da Saúde a decretar pandemia global e vários países europeus e asiáticos a fecharem suas fronteiras e adotarem medidas de lockdown, restringindo a mobilidade de seus cidadãos. Diante desse cenário, temeu-se que Tóquio, pela segunda vez na história, fosse ter uma Olimpíada cancelada - e isso faltando poucos meses para a data de abertura do evento, com todas as instalações esportivas que seriam usadas durante os Jogos já estando praticamente prontas. De início, o comitê organizador local (TOCOG) e o Comitê Olímpico Internacional mantiveram as datas previstas para o evento, e alegaram estar trabalhando para que ele pudesse ocorrer normalmente, mesmo em meio à pandemia. Conforme o tempo avançava, contudo, ficava claro que isso seria impossível, e alguns políticos até se aproveitaram para tentar levar as Olimpíadas para seus respectivos países, como Shaun Bailey, candidato a prefeito de Londres, e os deputados do estado norte-americano da Flórida. Em março de 2020, vários países, dentre eles Canadá e Austrália, começariam a anunciar que não enviariam seus atletas caso os Jogos ocorressem nas datas marcadas.

Em 24 de março de 2020, finalmente o TOCOG se renderia, e, após uma demorada reunião com o COI, anunciaria que as Olimpíadas, pela primeira vez em sua história, seriam adiadas para "uma data posterior a 2020, mas não depois do verão (no hemisfério norte, ou seja, entre junho e setembro) de 2021". Após o anúncio do adiamento, começariam as negociações, pois vários dos locais de competição já tinham contratos para serem transformados em outras coisas, ou usados para outros torneios, após a data original do término dos Jogos Olímpicos; até mesmo a Vila Olímpica seria convertida em apartamentos e entregue a cidadãos que os compraram para ajudar a financiar o empreendimento, alguns deles não concordando em ter de esperar um ano além do previsto para receber seus imóveis. Além disso, muitos eventos classificatórios já haviam sido realizados, mas outros tantos haviam sido cancelados justamente por causa da pandemia, e era preciso garantir uma forma de que nenhum dos atletas fosse prejudicado pela mudança - no futebol masculino, por exemplo, os atletas devem ter no máximo 23 anos completados em 1o de janeiro do ano da Olimpíada, mas, com o adiamento em um ano, a FIFA concordaria em elevar essa idade para 24.

O adiamento sequer foi ponto pacífico, e muitas autoridades pediram pelo cancelamento puro e simples, incluindo o ex-primeiro-ministro japonês Yoshiro Mori; em uma pesquisa realizada com a população japonesa em janeiro de 2021, a maioria dos entrevistados diria não concordar com a realização do evento, e ser favorável a seu cancelamento - jornais chegaram a noticiar que o governo japonês teria cancelado os Jogos unilateralmente, o que foi rapidamente desmentido. O TOCOG, principalmente por causa do dinheiro investido, e o COI, não querendo que os atletas perdessem um ciclo olímpico inteiro, se mantiveram firmes quanto à realização, com o presidente do COI, o alemão Thomas Bach, declarando ter confiança nos organizadores japoneses de que eles contariam com a disciplina necessária para que as competições esportivas fossem realizadas seguindo rígidas normas sanitárias e de segurança. Conforme a nova data estipulada para o início dos Jogos se avizinhava, e o número de casos e mortes decrescia, principalmente devido ao avanço da vacinação, parecia ser realmente possível que tudo transcorresse mais ou menos dentro da normalidade.

É claro que medidas sanitárias tiveram de ser aplicadas, a mais lógica, porém mais controversa delas, sendo a proibição de público presente durante as competições - no início pensou-se em proibir apenas os estrangeiros, com os japoneses podendo comparecer desde que a lotação máxima de cada local de competição não excedesse 50% do total, mas, em 8 de julho, foi determinado que nenhum público poderia estar presente em eventos fechados, somente em eventos abertos como a maratona ou o triatlo. Milhares de pessoas que já haviam comprado ingressos tiveram de ser reembolsadas, e vários anunciantes e patrocinadores locais desistiram de seus contratos, já que não poderiam fazer ações junto ao público como planejado; o TOCOG não anunciaria o tamanho do prejuízo causado por esses dois fatos, mas declarou que, se os Jogos tivessem sido novamente adiados ou cancelados, o prejuízo teria sido muito maior, devido aos gastos com a manutenção dos locais de competição e à possível desistência de patrocinadores internacionais.

Outra medida controversa foi a não-obrigatoriedade de vacinação para os atletas, membros de delegações e voluntários, com o COI apenas recomendando que os atletas se vacinassem "caso as vacinas estivessem disponíveis", e alegando não poder exigir obrigatoriedade num momento em que muitos países sequer haviam começado a vacinação, principalmente os mais pobres. Os voluntários receberiam manuais de como se portar durante o evento, com medidas como evitar usar transporte público no caminho para os locais de competição e evitar tocar nos atletas durante os eventos; esses manuais seriam criticados por autoridades da saúde, que diriam que eles não seguiam critérios científicos. Um festival cultural chamado Nippon Festival, que seria realizado em paralelo à Olimpíada, e originalmente apresentaria números de dança, concertos musicais, ópera e um torneio de sumô, acabaria sendo realizado de forma virtual, transmitido pela internet.

Após o início das competições, a opinião pública lentamente mudaria, e uma nova pesquisa revelaria que a maioria dos entrevistados achou que as Olimpíadas foram bem conduzidas, os protocolos sanitários foram bem aplicados, e que manter a realização dos Jogos foi a decisão correta. O número de casos entre as delegações foi irrelevante, e nenhuma morte foi registrada; o número de casos dentre a população japonesa aumentaria drasticamente durante a realização dos Jogos, com o país vivendo seu recorde de casos em um único dia no dia seguinte ao da Cerimônia de Encerramento, mas as autoridades de saúde do país declarariam que isso não teve a ver com as Olimpíadas, e sim com a chegada ao Japão da Variante Delta, mais transmissível. No fim, os Jogos Olímpicos de 2020 foram considerados um grande sucesso pelo TOCOG, pelo COI e pelos meios de comunicação japoneses, e uma prova de que grandes eventos poderiam ser realizados durante a pandemia, desde que usando os protocolos sanitários adequados.

Vocês devem ter reparado que eu falei "Jogos Olímpicos de 2020" (e que coloquei "Tóquio 2020" lá no título dessa seção), mesmo eles tendo sido realizados em 2021. No dia em que foi anunciado o adiamento, o TOCOG e o COI anunciariam que, por razões de marketing, o nome do evento e toda a sua iconografia seriam mantidas, ou seja, mesmo tendo sido realizados em 2021, esses foram os Jogos Olímpicos de 2020, com todas as logomarcas ostentando Tóquio 2020. Com o adiamento, entretanto, essa seria a primeira edição das Olimpíadas a ser realizada em um ano ímpar, a primeira Olimpíada de Verão desde a de 1900 a não ser realizada em um ano bissexto, e a edição com o menor intervalo para a seguinte - já que a Olimpíada de Inverno de 2022 ocorreria menos de seis meses após seu encerramento.

Assim, os Jogos Olímpicos de 2020 seriam realizados entre 23 de julho e 8 de agosto de 2021 - quase um ano exato após sua data de início originalmente marcada, 24 de julho de 2020. Ao todo, participaram 11.656 atletas, recorde para as Olimpíadas, representando 206 delegações - incluindo uma curiosamente chamada Comitê Olímpico Russo. Devido a um escândalo de manipulação de testes anti-doping pelo governo russo durante as Olimpíadas de Inverno de 2014, em Sochi, a Rússia perdeu o direito a participar de qualquer competição esportiva entre 9 de dezembro de 2019 e 31 de dezembro de 2022; os atletas russos que comprovassem jamais terem sido pegos em exames anti-doping, porém, poderiam participar normalmente, desde que não usassem a bandeira russa, o hino nacional russo, ou o nome Rússia - o piloto Nikita Mazepin, por exemplo, correu a temporada de 2021 da Fórmula 1 sob a bandeira da Federação Russa de Automobilismo. Seguindo essa regra, em 19 de fevereiro de 2021, o Comitê Olímpico Russo anunciaria que os atletas russos que se classificassem para as Olimpíadas competiriam usando seu nome (sob a sigla ROC, de Russian Olympic Committee), sua bandeira e um trecho do Concerto para Piano Número 1, de Tchaikovsky, sendo tocado no lugar do hino nacional russo em caso de medalha de ouro. Os Jogos de 2020 também veriam a segunda participação da Equipe Olímpica de Refugiados, composta por 29 atletas, de 10 países diferentes, que tiveram de deixá-los e buscar abrigo em outras nações devido à guerra, à fome ou à perseguição étnica, política ou religiosa. O único país que não enviaria atletas a Tóquio, alegando preocupação com a pandemia, seria a Coreia do Norte.

O revezamento da Tocha Olímpica também seria afetado pela pandemia. O Fogo Olímpico seria aceso na Grécia em 12 de março de 2020, chegando a Atenas no dia 19, quando seria entregue às autoridades japonesas. O plano original era começar o revezamento em solo japonês em 26 de março, mas o fogo teve de ser mantido aceso e seguro durante quase um ano, com o revezamento somente começando em 25 de março de 2021. A honra de acender a Pira Olímpica coube à tenista Naomi Osaka, com a última parte do revezamento, já dentro do Estádio Olímpico, começando com o judoca Tadahiro Nomura e a lutadora olímpica Saori Yoshida, que carregaram a tocha juntos, passando-a para um trio dos maiores jogadores de beisebol do Japão, Sadaharu Oh, Shigeo Nagashima e Hideki Matsui, então para Hiroki Ohashi e Junko Kitagawa, um médico e uma enfermeira que estavam na linha de frente contra a pandemia, para a maratonista cadeirante Wakako Tsuchida, e então para um grupo de estudantes de Fukushima, cidade devastada por um terremoto seguido de um tsunami em 2011, que a passariam a Osaka.

As medalhas seriam criadas através de um programa revolucionário de recolhimento e reaproveitamento de lixo eletrônico, com caixas de coleta sendo distribuídas por todo o país, disponíveis de abril de 2017 a março de 2019, quando a quantidade necessária de materiais foi obtida - todo o bronze, prata e ouro usados nas medalhas foi extraído de aparelhos eletrônicos como televisões, tablets e telefones celulares doados pelos cidadãos que participaram da campanha. Devido aos protocolos sanitários, a cerimônia de entrega das medalhas também foi diferente, com os próprios atletas pegando as medalhas das bandejas e colocando em volta de seus pescoços. O mascote, chamado Miraitowa, seria escolhido em um concurso, que contou com mais de dois mil mascotes inscritos, e no qual poderiam votar alunos das escolas do ensino fundamental japonês. Miraitowa, cujo nome é uma união das palavras mirai ("futuro") e towa ("eternidade"), é um ratinho branco com o mesmo padrão em azul marinho do logotipo dos Jogos, conhecido no Japão como ichimatsu moyo, e que foi muito popular em roupas e decoração de casas no final do Período Edo, entre 1603 e 1867.

O programa olímpico contaria com 339 provas de 41 esportes: atletismo, badminton, basquete, basquete 3x3, beisebol, boxe, canoagem, caratê, ciclismo, equitação, escalada esportiva, esgrima, futebol, ginástica artística, ginástica de trampolim, ginástica rítmica, golfe, handebol, hóquei, judô, levantamento de peso, luta olímpica, nado artístico, natação, pentatlo moderno, polo aquático, remo, rugby, saltos ornamentais, skateboarding, softbol, surfe, taekwondo, tênis, tênis de mesa, tiro com arco, tiro esportivo, triatlo, vela, vôlei e vôlei de praia (clique aqui para ver todas as provas do programa). Além de novas provas para esportes que já faziam parte do programa, como o basquete 3x3, o BMX freestyle, e novas provas mistas no atletismo, natação e triatlo, dentre outras, o programa contaria com seis grandes novidades, presentes graças a uma mudança feita pelo COI: em sua reunião de dezembro de 2014, a entidade determinaria que, a partir da edição de 2020, o programa olímpico não seria mais "baseado em esportes", e sim "baseado em eventos"; na prática, isso quer dizer que cada edição deverá ter esportes "obrigatórios", como o atletismo e a natação, mas que esportes de pouco público ou interesse local podem ficar de fora, enquanto outros de maior relevância podem entrar. Até agora ninguém teve coragem de tirar nenhum, mas os japoneses escolheriam adicionar caratê, surfe, skateboarding, escalada esportiva, beisebol e softbol ao programa - esses esportes não precisam estar na edição seguinte, de 2024, tanto que já foi anunciado que caratê, beisebol e softbol não estarão, sendo substituídos por outros, que não precisam ser necessariamente três. A intenção do COI é promover mais esportes nas Olimpíadas sem criar um programa gigante, dando ênfase àqueles que tiverem o maior interesse do público e da organização.

O basquete 3x3, o surfe, o skateboarding e a escalada esportiva seriam incluídos como parte de uma estratégia do COI para tornar as Olimpíadas mais atraentes para os jovens, já que pesquisas demonstravam que o público dos Jogos vinha "envelhecendo", com as faixas etárias mais baixas preferindo assistir a eventos como os X-Games e os de eSports. Embora pouca gente saiba, o Japão atualmente é muito forte no surfe e no skateboarding, então não foi difícil convencer os organizadores de que esses deveriam ser dois dos esportes novos do programa. A inclusão dos dois também acabaria sendo benéfica para o Brasil, que tem muitos nomes de destaque e chances de medalhas em ambos os esportes; o melhor desempenho dos japoneses, entretanto, motivaria muitas reclamações por parte do público brasileiro, especialmente nas redes sociais, de que estaria ocorrendo favorecimento aos atletas da casa.

Após muita especulação sobre se para o surfe seria usada a piscina de ondas criada pelo surfista Kelly Slater, os organizadores optariam por realizar as provas no mar; como não há mar em Tóquio, elas tiveram de ocorrer na cidade de Chiba, a 40 km da capital. No masculino, o ouro ficaria com o brasileiro Ítalo Ferreira, que derrotaria na final o japonês Kanoa Igarashi; a semifinal entre Igarashi e outro brasileiro, o favorito Gabriel Medina, seria uma das que gerariam maior controvérsia no Brasil, já que muitos acharam que Medina surfou melhor, mas perdeu a vaga por ter enfrentado um japonês. Medina acabaria perdendo também a disputa da medalha de bronze, para o australiano Owen Wright. No feminino, o ouro ficaria com a norte-americana Carissa Moore, a prata com a sul-africana Bianca Buitendag, e o bronze com a japonesa Amuto Tsuzuki; as brasileiras Tatiana Weston-Webb e Silvana Lima seriam eliminadas, respectivamente, nas oitavas de final, para Tsuzuki, e nas quartas de final, para Moore.

No skateboarding, disputado sob um sol de rachar no Parque de Esportes Urbanos de Ariake, o domínio foi total do Japão, que ganhou ouro no street masculino, ouro e bronze no street feminino, e ouro e prata no park feminino - sendo que a medalhista de bronze do park feminino, Sky Brown, também nasceu no Japão e é filha de mãe japonesa, mas compete pelo Reino Unido de seu pai. O Brasil ganharia três medalhas de prata, no park masculino com Pedro Barros, no street masculino com Kevin Hoefler, e no street feminino com Rayssa Leal. Rayssa, de apenas 13 anos, apelido Fadinha, era considerada a mascote da equipe brasileira, mas é também uma das atletas mais talentosas do circuito; ela começaria a andar de skate aos sete anos de idade, após ver na internet vídeos de outra skatista brasileira, Leticia Bufoni, e ganharia o apelido graças a um vídeo no qual aparecia andando de skate com uma saia de balé e asinhas de fada nas costas. A final do street feminino foi outra que gerou muitas acusações de favorecimento às atletas japonesas, que ganhariam notas muito mais altas que as favoritas, que incluíam as brasileiras Bufoni e Pâmela Rosa, que sequer se classificariam para a final, e a norte-americana Alexis Sablone, que terminaria em quarto; especialistas concordariam, entretanto, que as manobras apresentadas pelas japonesas e por Rayssa eram muito mais complexas que as das rivais. Vale dizer também que chamaria atenção a pouca idade das medalhistas no feminino: além de Rayssa e de Brown, a medalhista de ouro no street, Momiji Nishiya, e a de prata no park, Kokona Hiraki, também tinham apenas 13 anos, enquanto o bronze do street, Funa Nakayama, tinha 16, e o ouro do park, Sakura Yosozumi, tinha 18.

A natação seria responsável por certa controvérsia, já que, assim como nos Jogos de Pequim, em 2008, o COI aceitaria um pedido da rede de televisão norte-americana NBC para que as eliminatórias fossem disputadas à noite e as finais pela manhã - dessa forma, por causa do fuso-horário, as finais poderiam ser exibidas em horário nobre nos Estados Unidos. A decisão, porém, causaria muitas reclamações dos canais de TV japoneses, já que a natação é um dos esportes que tem maior audiência naquele país, e eles temiam perder parte dessa audiência com as finais sendo realizadas de manhã. Na falta de um Michael Phelps, os maiores destaques seriam os norte-americanos Caleb Dressel, com cinco medalhas de ouro, e Katie Ledecky, em sua terceira Olimpíada, ouro nos 800 m e nos 1.500 m livre, prata nos 400 m Livre e no revezamento 4 x 200 m Livre. Também chamaria atenção a equipe australiana feminina, que contava, dentre outras, com Ariarne Titmus, de 20 anos, ouro nos 200 m e nos 400 m e prata nos 800 m Livre; Kaylee McKeown, de 19 anos, ouro nos 100 m e 200 m Costas e no revezamento 4 x 100 m Medley; e Emma McKeon, que, em sua segunda Olimpíada, ganharia quatro ouros, incluindo os 50 m e os 100 m Livre e os revezamentos 4 x 100 m Livre e 4 x 100 m Medley, e três bronzes - com McKeon e McKeown, a Austrália também seria bronze no novo revezamento 4 x 100 m Medley misto, com o ouro ficando com o Reino Unido e a prata com a China.

O Brasil ganharia três medalhas na natação, todas conquistadas com muita dedicação e perseverança. Na piscina do Tokyo Aquatics Centre, Bruno Fratus, em sua terceira Olimpíada, após um quarto e um sexto lugar, seria medalha de bronze nos 50 m Livre, mesma cor da medalha de Fernando Scheffer, que bateria o recorde sul-americano dos 200 m Livre, prova na qual o Brasil não subia ao pódio desde Gustavo Borges em 1996. Já nas águas do Odaiba Marine Park, na Baía de Tóquio, onde também seria disputado o triatlo, Ana Marcela Cunha ganharia o ouro na maratona aquática de 10 km. Quatro vezes campeã mundial na distância de 25 km, nadando sua terceira Olimpíada (tendo estreado em 2008 mas optando por não competir em 2012 para se dedicar ao Circuito Mundial), e frustrada após um décimo lugar no Rio de Janeiro em 2016, onde era considerada favorita, Ana Marcela não deu chance para o azar, permanecendo dentre as primeiras colocadas desde a largada, e liderando praticamente toda a segunda metade da prova.

O atletismo, disputado no novíssimo Estádio Olímpico, construído no mesmo local que o original de 1964, derrubado para dar lugar a ele, não teria Usain Bolt, mas teria a jamaicana Elaine Thompson-Herah, que, assim como seu famoso compatriota, venceria os 100 m e os 200 m. Também no feminino, a holandesa Sifan Hassan, nascida na Etiópia, seria ouro nos 5.000 m e nos 10.000 m, e a norte-americana Athing Mu, de apenas 18 anos, filha de imigrantes sudaneses, seria ouro nos 800 m. No masculino, a maior surpresa seria a Itália, que conquistaria seu primeiro ouro nos 100 m com Marcell Jacobs, primeiro europeu a vencer essa prova desde o britânico Linford Christie em 1992 e primeiro atleta branco a vencê-la desde outro britânico, Alan Wells, em 1980; com Jacobs, os italianos também seriam ouro no revezamento 4 x 100 m, com os Estados Unidos se enrolando durante as passagens de bastão e sequer se classificando para a final. O Brasil ganharia duas medalhas de bronze no atletismo, com Alison dos Santos nos 400 m com barreiras, e Thiago Braz, medalhista de ouro em 2016, no salto com vara.

Devido ao grande calor que normalmente ocorre em Tóquio no final de julho, a organização decidiria, ainda em 2019, realizar as provas da maratona e da marcha atlética em outra cidade, Sapporo, ao norte do país e a mais de 1.000 km da capital; curiosamente, no dia da maratona, vencida pelos quenianos Eliud Kipchoge no masculino e Peres Jepchirchir no feminino, a diferença na temperatura entre Sapporo e Tóquio era de apenas um grau. E não podemos encerrar o atletismo sem falar da bielorrussa Krystsina Tsimanouskaya, que, após não conseguir se classificar para a final dos 100 m, foi impedida de participar das eliminatórias dos 200 m pelo Comitê Olímpico de seu próprio país, que ordenou que ela retornasse à Bielorrússia imediatamente. Tsimanouskaya daria entrevistas dizendo que estava sofrendo uma punição por ter colocado nas redes sociais um vídeo no qual criticava as autoridades do atletismo bielorrusso, e que temia por sua vida caso tivesse de retornar; ela acabaria conseguindo asilo político na embaixada polonesa, e viajando para a Polônia, onde atualmente reside, após os Jogos.

O judô seria disputado no Nippon Budokan, originalmente construído para as Olimpíadas de 1964 e um dos maiores templos do judô mundial. O Japão dominaria a competição, ganhando cinco dos sete ouros possíveis no masculino e quatro dos sete no feminino, mas perderia a final da nova prova de equipes mistas para a França; o Brasil ganharia dois bronzes, com Daniel Cargnin na categoria até 66 kg e Mayra Aguiar, que conquistaria sua terceira medalha olímpica seguida, na categoria até 78 kg. O caratê também seria disputado no Budokan, mas, diferentemente do judô, nele os japoneses decepcionariam, conquistando apenas um ouro e um bronze no masculino e uma prata no feminino. O boxe também seria disputado em um dos templos sagrados do esporte japonês, o Ryogoku Kokugikan, onde são realizadas competições de sumô; o Japão surpreenderia e ganharia um ouro e dois bronzes, e o Brasil ganharia uma medalha de cada cor: Hebert Conceição seria ouro na categoria até 75 kg, Beatriz Ferreira seria prata na categoria até 60 kg, e Abner Teixeira seria bronze na categoria até 91 kg.

Um dos grandes destaques do Brasil seria a ginasta Rebeca Andrade, ouro no salto e prata no individual geral, primeira ginasta brasileira a conquistar uma medalha olímpica. Nascida em Guarulhos, São Paulo, mas treinando no Rio de Janeiro, Rebeca, que tem sete irmãos e é filha de uma doméstica, chegou a cogitar abandonar a ginástica após uma lesão em 2015, mas sua mãe a incentivou a continuar competindo. E a maior surpresa do time brasileiro seriam as tenistas Laura Pigossi e Luisa Stefani, bronze no torneio de duplas; as duas não jogam o circuito mundial juntas, a princípio não estavam classificadas para os Jogos, e só pegaram a vaga por desistência de outras duplas - o gerente da Confederação Brasileira de Tênis as inscreveria seguindo um pressentimento. Uma semana antes do início do torneio olímpico, ao receber a notícia de que elas ficaram com a vaga, Luisa estava nos Estados Unidos, onde mora, e Laura estava no Cazaquistão, disputando outro torneio. Houve até um protesto de uma dupla da Geórgia, cujo ranking era melhor - Luisa era a número 23 no ranking mundial de duplas, e Laura a 190 - mas o técnico georgiano não havia feito a inscrição, acreditando que elas seriam chamadas em caso de desistência simplesmente por sua posição no ranking. Contra todos os prognósticos, a dupla recém-criada de Laura e Luisa, apenas no quarto torneio em que jogariam juntas, venceriam todas as adversárias - a confiança nelas era tão pouca que seus três primeiros jogos sequer foram televisionados - até cair na semifinal, diante das suíças Belinda Bencic e Viktorija Golubic, que terminariam com a medalha de prata; na disputa do bronze, as brasileiras derrotariam as russas Veronika Kudermetova e Elena Vesnina de virada, garantindo uma medalha inédita para o país.

O futebol masculino brasileiro conquistaria seu segundo ouro seguido e segundo da sua história, o primeiro fora de casa; o feminino teria o recorde de Formiga, de 43 anos, que, em Tóquio, participaria de sua sétima Olimpíada, se tornando a única jogadora a estar em todas as participações do futebol feminino olímpico, mas seria eliminado, nas quartas de final, pelo Canadá. O vôlei de quadra masculino, em sua primeira participação sob o comando do medalhista de prata em 1984 Renan Dal Zotto, perderia nas semifinais para o Comitê Olímpico Russo e na disputa da medalha de bronze para a Argentina, ficando fora do pódio; o feminino atropelaria todas as adversárias, mas seria derrotada na final por uma atuação impecável dos Estados Unidos, terminando com a prata. O vôlei de praia brasileiro não subiria ao pódio, nem no masculino, nem no feminino, na primeira vez em que isso ocorreu desde que a modalidade foi acrescentada ao programa olímpico, em 1996; após a eliminação, o atleta Alison criticou a falta de investimento no esporte. E o basquete brasileiro, pela primeira vez na história dos Jogos Olímpicos, ficaria totalmente de fora, não participando nem no masculino, nem no feminino, nem na quadra, nem no estreante 3x3 - falando em basquete, nesse esporte os Estados Unidos fizeram a festa, ganhando o ouro no masculino e no feminino na quadra e no feminino no 3x3.

As duas medalhas brasileiras que eu ainda não citei são ambas de ouro, e vieram com atletas que já haviam brilhado no Rio de Janeiro na Olimpíada anterior: Isaquias Queiroz, no C1 1.000 m da canoagem, que somou o primeiro ouro do Brasil nesse esporte às duas pratas e ao bronze que conquistou em 2016; e Martine Grael e Kahena Kunze, que repetiriam o ouro que ganharam quatro anos antes na classe 49erFX da vela. Ao todo, o Brasil enviaria a Tóquio 312 atletas, sendo 153 mulheres, na maior participação feminina proporcionalmente ao número de homens. Terminaria com a melhor campanha de sua história, igualando o recorde de 7 ouros e 6 pratas das Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016, mas ganhando também 8 bronzes (no Rio foram 6, o recorde são 10, em Pequim, 2008), para um total recorde de 21, o que lhe garantiria o 12o lugar no quadro de medalhas, melhor posição do país na história olímpica.

O Catar ganharia a primeira medalha de ouro de sua história de uma forma bastante curiosa: no salto em altura, o catari Mutaz Essa Barshim e o italiano Gianmarco Tamberi empataram na altura de 2,37 m, mesma alcançada por Maksim Nedasekau, da Bielorrúsia, que ficaria com a medalha de bronze por ter precisado de duas tentativas para ultrapassar a altura de 2,35 m, enquanto Barshim e Tamberi ultrapassaram todas as alturas na primeira tentativa. Pelas regras da World Athletics, a federação internacional de atletismo, quando todos os critérios de desempate são esgotados, os atletas empatados devem prosseguir tentando a altura seguinte - no caso, 2,39 m - até que um consiga ultrapassá-la e o outro não; ao invés disso, entretanto, os árbitros decidiriam encerrar a prova e entregar duas medalhas de ouro, deixando a prova sem medalhista de prata - essa última parte sendo praxe quando há empate pelo ouro. O engraçado foi que o árbitro de pista, a invés de comunicar isso aos atletas, perguntou se eles queriam continuar competindo ou se aceitavam cada um ganhar uma medalha de ouro - e aí, evidentemente, ambos concordaram que era melhor cada um ficar com um ouro. A história foi notícia no mundo inteiro, sempre sendo ressaltado que o esporte, mais que competição e superar seus próprios limites, é amizade e companheirismo, mas houve quem criticasse a decisão, alegando "traição aos ideais olímpicos", "desrespeito aos fundamentos do esporte" e outras expressões do tipo.

Outros dois países também ganhariam suas primeiras medalhas de ouro em 2020, ambos com atletas mulheres: Bermuda, que seria ouro no triatlo com Flora Duffy, e as Filipinas, ouro no levantamento de peso, categoria até 55 kg, com Hidilyn Diaz. Burkina Faso (no salto triplo do atletismo), Turcomenistão (também no levantamento de peso feminino) e San Marino (que ganharia logo três, duas no tiro e uma na luta livre) ganhariam em Tóquio suas primeiras medalhas olímpicas de qualquer cor. O topo do quadro de medalhas, porém, contaria com as mesmas figurinhas carimbadas de sempre, com os Estados Unidos liderando e a China em segundo - embora a diferença entre ambos tenha sido apenas de um ouro - seguida do anfitrião Japão, do Reino Unido, do Comitê Olímpico Russo e da Austrália. Ao todo, 93 delegações diferentes conquistariam pelo menos uma medalha, sendo que 65 conquistariam pelo menos um ouro, recorde na história das Olimpíadas.

Pequim 2022

Em 2015, Pequim, capital da China, ganharia a chance de se tornar a primeira cidade a sediar uma Olimpíada de Verão (2008) e uma de Inverno, ao derrotar Almaty, no Cazaquistão, pelo direito de sediar as Olimpíadas de Inverno de 2022. Como já vinha se tornando costume, a escolha não foi tranquila: Estocolmo, capital da Suécia, retiraria sua candidatura pouco após submetê-la, devido a um protesto da população, que alegava haver coisas mais importantes para o governo gastar dinheiro do que uma Olimpíada; Cracóvia, na Polônia, e Lviv, na Ucrânia, também desistiriam, alegando não conseguir parcerias com empresas privadas para cobrir os altos custos; e Oslo, capital da Noruega e favorita a sede, retiraria sua candidatura após a imprensa local acusar os delegados do COI de exigir tratamento luxuoso, que incluía uma faixa exclusiva no trânsito para seu uso e um jantar pago pela Família Real, durante suas visitas à cidade, o que revoltou a população e colocou a opinião pública contra o prefeito. Até mesmo a escolha de Pequim seria cercada de polêmica, já que a cidade não possui neve natural suficiente para a maioria das competições, que teriam de ocorrer em cidades vizinhas e recorrendo a neve artificial. Mas, entre a cidade chinesa e a cazaque, Pequim levou a melhor, e fechou um ciclo de três Olimpíadas seguidas no extremo oriente, após Pyeongchang em 2018 e Tóquio em 2020.

Um dos trunfos da candidatura de Pequim foi reutilizar as instalações originalmente usadas nas Olimpíadas de 2008: das que ficavam efetivamente na cidade, somente a Vila Olímpica e a pista de patinação em velocidade eram novas. As cerimônias de abertura e encerramento ocorreriam no Estádio Nacional, também conhecido como Ninho do Pássaro, palco das inesquecíveis vitórias de Usain Bolt; o curling seria disputado no Centro Nacional de Esportes Aquáticos, vulgo Cubo d'Água, palco das históricas medalhas de Michael Phelps, que seria reformado para que as pistas substituíssem as piscinas, e, durante as Olimpíadas de Inverno, ganharia o apelido de Cubo de Gelo; e o hóquei no gelo se dividiria entre o Estádio Nacional Indoor, apelidado O Leque, originalmente construído para a ginástica artística e o handebol, e a Wukesong Arena, em 2008 sede do basquete. A patinação artística e a patinação em velocidade em pista curta também seriam disputadas em uma instalação já existente em Pequim, o Capital Indoor Stadium, que em 2008 sediou o vôlei, mas que não foi construído para as Olimpíadas, existindo desde 1968.

No distrito de Shijingshan, 17 km a oeste da capital, seria construída a pista batizada de Big Air Shougang, próxima a um famoso parque de diversões e curiosamente à frente das torres de uma usina nuclear, o que tornou o local um dos preferidos dos atletas para tirar fotos; a Shougang é a primeira, e por enquanto única, pista de big air do planeta, e foi usada nas competições dessa modalidade do snwboarding e do esqui estilo livre. A construção da pista geraria muita controvérsia, pois Shijingshan é um distrito industrial distante das montanhas e onde não neva, o que fez com que ela tivesse de contar com um sistema de refrigeração super moderno e super caro para que pudesse estar em condições de competição. Em outro distrito, Yanqing, 90 km a norte de Pequim, seria construída a pista de trenó, usada para o luge, skeleton e bobsleding, permanente e a primeira da China. O esqui alpino também seria disputado em Yanqing, nas montanhas Xiaohaituo; em Yanqing neva, mas em quantidade considerada insuficiente para competição, o que fez com que lá também tivesse de ser usada muita neve artificial - além disso, devido à distância entre Pequim e Yanqing, lá teve de ser construída uma segunda Vila Olímpica, apenas para os atletas do esqui alpino e do trenó.

Todos os outros eventos seriam sediados em um local mais longe ainda, a cidade de Zhangjiakou, na província de Hebei, a 220 km de Pequim - que também teve de contar com sua própria Vila Olímpica, para um total de três. Pelo menos em Zhangjiakou neva satisfatoriamente, tanto que, após o anúncio da escolha de Pequim como sede, o governo chinês construiu lá o primeiro resort de esqui da China, que recebe mais de dois milhões de turistas por ano. O Centro Nacional de Biatlo e o Centro Nacional de Esqui Cross-Country foram construídos para serem permanentes e servirem de local de treinamento para as equipes chinesas, mas a pista de saltos com esqui e as instalações do esqui estilo livre e snowboarding eram temporárias, e foram desmontadas durante esse verão (no hemisfério norte, ou seja, há poucas semanas).

As Olimpíadas de Inverno de 2022 seriam realizadas entre 4 e 20 de fevereiro, coincidindo com as comemorações do Ano Novo Chinês. Participariam 2871 atletas de 91 países, competindo no número recorde de 109 provas de 15 esportes: biatlo, bobsleding, combinado nórdico, curling, esqui alpino, esqui cross country, esqui estilo livre, hóquei no gelo, luge, patinação artística no gelo, patinação no gelo em velocidade, patinação no gelo em velocidade em pista curta, saltos com esqui, skeleton e snowboarding (clique aqui para ver todas as provas do programa). O mascote seria o panda Bing Dwen Dwen, vestido com uma roupa de astronauta feita de gelo, escolhido através de um concurso que contou com a participação de 35 designers chineses residentes em diferentes países.

A cerimônia de abertura contaria com uma grande surpresa: durante o desfile das delegações, as placas que trazia o nome de cada uma, em inglês e chinês, eram em formato de floco de neve e iluminadas por LEDs. Conforme as delegações foram entrando, elas iam sendo montadas no meio do palco no centro do estádio, para formar um floco de neve gigante. Quando a Tocha Olímpica entrou no estádio, começou seu desfile pelas mãos de Zhao Weichang, patinador que foi porta-bandeira na abertura as Olimpíadas de Inverno de 1980, passou por outros quatro atletas, cada um mais jovem que o anterior, até chegar às mãos dos esquiadores Dinigeer Yilamujiang e Zhao Jiawen, que competiriam em 2022. Ao invés de acender uma pira, os dois simplesmente encaixaram a tocha que carregavam no centro do floco de neve gigante formado pelos nomes das delegações participantes, que se elevou até o alto do estádio, ficando aquela tocha acesa durante todo o período dos Jogos.

O Brasil enviaria um total de dez atletas, sendo 6 homens e 4 mulheres. O destaque seria Nicole Silveira, do skeleton, que conquistaria a melhor colocação do país num esporte de gelo, 13a, e a melhor posição de um atleta da América Latina em um esporte de trenó. Sabrina Cass se tornaria a primeira brasileira a participar do esqui estilo livre, mas não se classificaria para a final. Michel Macedo estaria no slalom do esqui alpino, mas também não chegaria à final, e, no bobsleding, o trenó de duplas, com Edson Bindilatti e Edson Martins, ficaria em 29o, enquanto o de quatro ocupantes, com os dois Edsons mais Erick Jerônimo e Rafael Souza, seria o 20o. No esqui cross-country, Manex Silva disputaria todas as quatro provas individuais, tendo como melhor resultado a 58a posição nos 50 km, e Jaqueline Mourão, em sua quinta Olimpíada de Inverno e oitava no total (competiu no mountain biking em 2004, 2008 e 2020), disputaria as provas do sprint, dos 10 km clássico e do revezamento, fazendo dupla com Eduarda Ribera, que também estaria no sprint e nos 10 km, e substituiria Bruna Moura, que se classificou mas não pôde viajar a Pequim por ter sofrido um acidente de carro na Itália, onde treinava, a uma semana da Cerimônia de Abertura.

A Rússia, ainda sob o efeito da punição pelo escândalo de doping em Sochi, competiria mais uma vez sob o nome e a bandeira do Comitê Olímpico Russo, ouvindo um trecho de uma composição de Tchaikovsky ao conquistar uma medalha de ouro - o que ocorreu seis vezes, metade delas com Alexander Bolshunov no esqui cross-country, nos 30 km, 50 km e revezamento. Os maiores destaques russos viriam da patinação artística, na qual Anna Shcherbakova, de 17 anos, seria ouro no individual feminino, e ainda contribuiria para o ouro por equipes; Alexandra Trusova, de 16, seria prata no individual feminino, Nikita Katsalapov e Victoria Sinitsina prata na dança no gelo, e, nas duplas mistas, os russos só não conquistariam o ouro, ficando a prata com Vladimir Morozov e Evgenia Tarasova e o bronze com Aleksandr Galliamov e Anastasia Mishina.

O topo do quadro de medalhas ficaria com a Noruega, que quebraria o recorde de maior número de ouros em uma única edição das Olimpíadas de Inverno, com 16; o destaque negativo ficaria com o Canadá, que, com apenas quatro ouros, ficaria fora do Top 10 pela primeira vez desde 1988. A China anfitriã tinha planos ambiciosos de terminar na primeira posição do quadro de medalhas, mas acabaria em terceiro, com 9 medalhas de ouro, 4 de prata e 2 de bronze - ainda assim, a melhor participação da China em Olimpíadas de Inverno, maior número de ouros de um país asiático em uma só edição, e, ponto de honra, à frente dos Estados Unidos, que viriam em quarto com um ouro a menos. Para alguns, a culpada foi Eileen Gu, filha de mãe chinesa com pai norte-americano e nascida nos Estados Unidos, que, no esqui estilo livre, seria ouro no big air e no halfpipe e prata no slopestyle. A participação de Gu, de apenas 18 anos, que nunca morou na China e até 2019 competia pelos Estados Unidos, gerou grande controvérsia na imprensa norte-americana, e até mesmo algumas acusações de que houve fraude no processo para que ela pudesse competir pela China.

No esqui estilo livre masculino, o maior destaque seria o norte-americano Alex Hall, que, no slopestyle, surpreenderia os jurados ao começar um salto de 1080 graus girando para um lado e, na metade do movimento, começar a girar para o outro, efetivamente fazendo 900 graus em cada direção. O japonês Ayumu Hirano levaria o ouro do halfpipe do snowboarding também com muita ousadia, ao conseguir realizar pela primeira vez em uma competição oficial a dificílima manobra do triple cork - e pela segunda também, já que ele fez uma em cada descida que tinha direito. O irmão de Ayumu, Kaishu Hirano, também no halfpipe, quebraria um recorde ao alcançar a altura de 22 m durante um salto. E, na estreia da competição de equipes mistas do esqui estilo livre, Chistopher Lillis, dos Estados Unidos, garantiria o ouro para seu país ao realizar uma manobra com cinco piruetas e três giros, chamada quintuple twisting triple.

Nos esportes de trenó, o destaque seriam os alemães, que ganhariam simplesmente nove dos dez ouros possíveis. No luge, a Alemanha ganharia todas as medalhas de ouro, no individual masculino, individual feminino, duplas mistas e revezamento, além da prata no individual feminino e nas duplas mistas; a Áustria teria de se contentar com duas pratas, no individual masculino e revezamento, e um bronze nas duplas mistas. No skeleton, eles seriam ouro e prata no masculino (com o bronze indo para a China) e ouro no feminino (com a prata ficando com a surpreendente Jaclyn Narracott, primeira medalha da história da Austrália no trenó, e o bronze com a Holanda). No bobsleding masculino de dois lugares, os alemães fariam o pódio completo, e, no masculino de quatro lugares e no feminino de dois lugares, seriam ouro e prata - somente na estreia do trenó feminino individual, o monobob, é que as alemãs ficariam fora do pódio, com ouro e prata indo para os Estados Unidos (que também seria bronze no feminino de dois lugares) e o bronze indo para o Canadá (que também seria bronze no masculino de quatro lugares). Essas medalhas todas contribuiriam para que a Alemanha terminasse em segundo lugar no quadro.

Devido a uma necessidade de adiar jogos de seu campeonato por causa da pandemia, a NHL, principal liga de hóquei no gelo do mundo, vetou a participação de jogadores que tivessem contrato com seus times, para que eles não ficassem desfalcados, o que causou grande impacto no torneio olímpico. Sem seus principais jogadores, nem Estados Unidos nem Canadá chegariam às semifinais, com a Finlândia ganhando o ouro pela primeira vez ao derrotar o Comitê Olímpico Russo na final, e a Eslováquia ganhando uma inédita medalha de bronze - a Suécia completaria os semifinalistas. No feminino, sem laços com a NHL, nenhuma surpresa, e a final, pela sexta vez em sete Olimpíadas, seria entre Canadá e Estados Unidos, com as canadenses ganhando seu quinto ouro - a Finlândia repetiria seu bronze de 2018, dessa vez derrotando a Suíça.

No curling, a maior surpresa foi a Itália, país sem nenhuma tradição nesse esporte, mas que será a sede da próxima edição das Olimpíadas de Inverno, que conquistaria o ouro nas duplas mistas, deixando os favoritos Noruega e Suécia com a prata e o bronze, respectivamente. No feminino, a escocesa Eve Muirhead, em sua quarta Olimpíada, finalmente conseguiria sua tão sonhada medalha de ouro, quando o Reino Unido que capitaneava derrotou, na final, um surpreendente Japão - o bronze ficaria, mais uma vez, com a Suécia. No masculino, a equipe favorita era a dos Estados Unidos, que acabaria fora do pódio, ficando o ouro com a Suécia, a prata com o Reino Unido e o bronze com o Canadá.

Assim como as Olimpíadas de 2020, as Olimpíadas de Inverno de 2022 seriam impactadas pela pandemia, principalmente porque a China foi um dos países a adotar as restrições mais severas para controle da doença. O protocolo do COI seria o mesmo utilizado em 2021, com a diferença de que foi criada uma "bolha" para os atletas, que só poderiam se locomover dentro dela, e somente poderiam viajar de um local de competição ao outro, enquanto o protocolo estivesse em vigor. Os esportes contaram com público presente, mas apenas residentes da cidade onde a competição estava sendo realizada podiam comparecer, somente por convite, sem que houvesse venda de ingressos, e somente em Pequim e Zhangjiakou, com todos os eventos em Yanqing ocorrendo com portões fechados. Pelo menos dois atletas de peso foram proibidos de participar por terem testado positivo, mesmo assintomáticos, a esquiadora austríaca Marita Kramer, líder do ranking mundial, e o skeletonista russo Nikita Tregubov, medalha de prata em 2018.

No fim, em termos de controle da doença, o evento foi considerado um grande sucesso, sem nenhum caso grave ter sido registrado. Há quem duvide dessa informação, entretanto, por causa do hábito do governo chinês de, digamos, alterar números a seu favor. Um dos exemplos foi a divulgação do orçamento: segundo os números oficiais, as Olimpíadas de Inverno de 2022 custaram 3,9 bilhões de dólares, menos de um décimo do custo das Olimpíadas de 2008, que custaram 43 bilhões; pessoas envolvidas na organização, porém, estimam que o custo verdadeiro foi dez vezes maior, em torno de 38 bilhões.

Série Olimpíadas

Tóquio 2020
Pequim 2022

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