domingo, 7 de agosto de 2022

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Pastelzinho Frito

Hoje teremos mais um conto que eu escrevi para o Crônicas de Categoria. Depois de dois "tristes", um engraçadinho.




Pastelzinho Frito

Era uma tarde quente de domingo. Neuziane estava em sua sala, brigando com um ventilador de teto que não funcionava, quando ele chegou: um cheiro de pastelzinho frito que adentrou sua casa, deixando-a com água na boca. Sem conseguir resistir, Neuziane calçou um chinelo e se dirigiu à padaria, de onde o delicioso aroma com certeza estava vindo.

E foi assim que Neuziane conheceu Francieldo, o novo rapaz que a padaria tinha contratado para fritar seus pasteizinhos. Francieldo era gordo, caolho e não falava muito bem, mas tudo o que ele fazia, fazia com amor, e esse era o diferencial em todos os lugares onde ele trabalhava. Nunca aqueles pasteizinhos haviam cheirado tão bem.

Neuziane pediu meio quilo, e não pôde deixar de notar o carinho com o qual Francieldo colocou os pasteizinhos no pacote e os pesou. Decidiu soltar os cabelos, presos numa chuca no alto da cabeça, antes de recompensá-lo com um sorriso. O rapaz percebeu o gesto e quis desejá-la um bom dia, mas, como ele não falava muito bem, ela também não entendeu o que ele disse. De qualquer forma, foi pra casa feliz com sua nova aquisição.

E assim surgiu uma bela amizade. Todo domingo, quando Neuziane sentia o cheiro dos pasteizinhos, ia à padaria comprar meio quilo e ver Francieldo. Ela até conversaria com ele, se entendesse o que ele dizia. Mas ela gostava de passar aquele pedacinho da sua tarde com uma pessoa que colocava tanto amor no que fazia.

Um dia, porém, Neuziane não sentiu o cheiro dos pasteizinhos. Preocupada, ela calçou seu chinelo e foi até a padaria, saber se tinha acontecido alguma coisa com Francieldo. Em seu lugar, encontrou um rapaz alto, forte, lindo e tatuado, mas seus pasteizinhos não tinham gosto de nada. Pareciam feitos de papel. Neuziane decidiu perguntar ao dono da padaria onde estava Francieldo, e descobriu que ele havia voltado à sua cidade de origem para se casar.

Neuziane comprou cem gramas, e voltou para casa pensativa. Enquanto comia os pasteizinhos com gosto de papel, não pôde deixar de sentir um pouquinho de inveja da noiva de Francieldo. Essa pelo menos comeria pasteizinhos gostosos à vontade.


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domingo, 31 de julho de 2022

Escrito por em 31.7.22 com 0 comentários

A Família Addams

Faz muito tempo já, coisa de uns dez ou doze anos, que eu penso em fazer um post sobre a Família Addams, da qual eu gosto desde criança, mas sempre acabo desistindo por um motivo ou outro. Depois de escrever o post sobre o Super Mouse, decidi que dessa vez não desistiria. Graças a isso, hoje é dia de A Família Addams no átomo!

A Família Addams foi uma criação do cartunista Charles Samuel Addams, que assinava Chas Addams. Nascido em 7 de janeiro de 1912 em Westfield, Nova Jérsei, Estados Unidos, Addams começaria a desenhar ainda no ensino médio, sendo responsável pelas charges do jornalzinho da Westfield High School, a escola onde estudava, chamado Weathervane. Ele começaria a faculdade de belas artes na Universidade de Colgate em 1929, mas, no ano seguinte, conseguiria uma transferência para a Universidade da Pensilvânia, e, em 1931, decidiria largar tudo e ir estudar desenho na Grand Central School of Art, em Nova Iorque. Em 1932, ele enviaria um cartum para avaliação da revista The New Yorker, que gostaria, publicaria, e perguntaria se ele tinha mais. Ele então se tornaria um colaborador frequente da revista, que publicaria mais de 1300 de seus cartuns, até sua morte, aos 76 anos, em 29 de setembro de 1988, após sofrer um infarto enquanto estacionava seu carro. Addams jamais seria contratado pela New Yorker, sendo freelancer toda sua vida, e também trabalharia fazendo ilustrações para capas e páginas internas de livros e revistas de várias editoras.

A criação mais famosa de Addams apareceria pela primeira vez em na edição 711, de julho de 1938, da New Yorker. Nos Estados Unidos, até hoje, embora a partir da década de 1990 essa prática tenha perdido popularidade, é comum revistas trazerem esse tipo de cartum, composto por um único quadro, normalmente no canto inferior de uma página; alguns desses cartuns são "mudos", e os que têm falas não usam balões, mas o texto escrito abaixo do desenho, usando aspas ou travessões. Esses cartuns também não costumam ter título; quando muito, usam o nome de seu criador. Todos os 58 cartuns estrelados pela Família Addams publicados pela New Yorker entre 1938 e 1964 teriam esse formato, e, por causa disso, uma peculiaridade: não somente a família não tinha nome, como nenhum de seus membros tinha; "Família Addams" seria um apelido dado pelos leitores devido ao simples fato de que os cartuns eram assinados por Chas Addams.

Addams sempre gostou de histórias com humor negro e temática macabra, e criaria a Família Addams como uma sátira às famílias aristocráticas norte-americanas: extremamente ricas, levemente excêntricas, antigas ao ponto de se considerarem um clã, vivendo em casas vitorianas decrépitas do tamanho de palácios, e incompreendidas pelo restante da população, não se importando ou não percebendo que eram consideradas estranhas. É claro que ele daria um toque levemente exagerado a isso, fazendo dos Addams amantes do macabro e cheios de hábitos soturnos, como o costume de sempre vestir preto e o de adotar estranhos animais de estimação. Chas Addams se inspiraria nas famílias aristocráticas de sua própria Westfield natal, cheia de mansões vitorianas e cemitérios barrocos; a inspiração para a casa da Família teria vindo do College Hall, prédio em estilo vitoriano da Universidade da Pensilvânia.

Parêntese. De uns tempos pra cá, surgiu a "explicação" de que a Família Addams seria uma sátira à forma como as famílias norte-americanas imaginavam que seria uma família latina; dentre as "evidências", o fato de que o pai se chama Gomez, ele e Mortícia dançam tango, e que eles vivem no esquema que, nos Estados Unidos, é conhecido como "família estendida", com um tio e uma avó morando na mesma casa, característica comum nas famílias latinas, mas rara nas norte-americanas. Não há nenhum indício de que Chas Addams conhecesse qualquer família latina na qual se inspirar; pelo contrário, em entrevistas, sua posição oficial sempre foi a de que ele estava satirizando uma família aristocrática norte-americana, tendo declarado por mais de uma vez que "eles pertencem a um ramo pouco conhecido do clã Addams". Há indícios, inclusive, de que a família originalmente podia ter origens judaicas, já que Mortícia frequentemente chamava Gomez de bubbeleh, palavra de origem ídiche. Fecha parêntese.

O grande sucesso dos cartuns da New Yorker faria com que Addams conseguisse contratos para publicar seus desenhos em livros. O primeiro com a Família Addams seria seu oitavo, Dear Dead Days: A Family Album, lançado em 1959 pela G.P. Putnam & Sons, que, além de republicações de vários cartuns da New Yorker, trazia ilustrações inéditas, como se fosse um álbum de fotografias. Essa seria a primeira publicação a trazer a Família Addams na capa, e, apesar de seu sucesso, seria o único livro da Família lançado enquanto Addams era vivo.

Um dos motivos foi que o sucesso do livro levaria Nat Perrin, da produtora Filmways, a conseguir os direitos de adaptação da Família para uma série de TV, criada e produzida por David Levy e Donald Saltzman, filmada em preto e branco e exibida no canal ABC. O editor da New Yorker, William Shawn, que dizia acreditar que os leitores da revista eram "mais refinados do que quem assistia televisão", se recusaria a publicar quaisquer cartuns da Família Addams - embora ainda aceitasse publicar outros cartuns de Chas Addams - enquanto a série estivesse no ar; por isso, os últimos cartuns da Família Addams na New Yorker são do ano de 1964, o da estreia da série. Como estava ganhando dinheiro com os royalties da série - e de diversos outros produtos que viriam em sua esteira - Chas Addams não se opôs, e decidiu concentrar seu trabalho em outros personagens, deixando a Família de lado.

Os produtores também decidiriam dar uma amenizada na família, para que a série fosse apropriada para espectadores de todas as idades; por causa disso, na série os Addams são mais excêntricos do que macabros, e os episódios não têm piadas de humor negro, sendo centrados nos hábitos estranhos da família e nas reações dos que visitam sua mansão - localizada na Cemetery Lane, número 0001. Como seria impossível fazer uma série com personagens sem nome, em 1964 finalmente os membros da Família Addams seriam batizados; Chas Addams participaria da escolha dos nomes, e somente dois dos sugeridos por ele não seriam aceitos: para o pai da família ele queria Repelli, inspirado em "repelente", mas os produtores não gostaram e colocaram Gomez, nome que Addams achou "totalmente sem sentido"; já para o filho mais novo, Addams queria Pubert, mas os produtores tiveram medo de ter problemas com a censura, e acabaram optando por Pugsley, o qual Addams aceitou de bom grado. Também seria na série que ficaria estabelecido que o nome de solteira de Mortícia era Frump, e que o Tio Fester era irmão de sua mãe, o que fazia com seu sobrenome não fosse Fester Addams, o que seria alterado no futuro para que ele também pudesse ter o sobrenome da família.

A protagonista da série, aliás, aquela cujo nome aparecia primeiro na abertura, era Mortícia, interpretada pela lindíssima Carolyn Jones. Sofisticada e prendada, Mortícia tricota, borda, pinta, toca shamisen (aquele instrumento de cordas presente em canções tradicionais japonesas), cultiva rosas (embora corte fora as flores e faça arranjos com os caules espinhentos) e está sempre elegantemente vestida com seu justíssimo vestido longo negro cuja barra da saia se parece com tentáculos. Mortícia está sempre calmíssima, não importa por qual situação esteja passando, e possui uma paciência de Jó, no máximo achando graça quando algo não sai conforme o que ela esperava; na série ela também tem vários bichos de estimação, como uma planta carnívora, um casal de piranhas (chamadas Tristão e Isolda), um abutre, e o principal, o leão Kit Kat, que "não gosta de carne humana".

O único outro ator a ser creditado na abertura era John Astin, que interpretava o marido de Mortícia e patriarca da família, Gomez Addams. Advogado aposentado descendente de espanhóis (o que pode ter dado força ao mito que eu citei há pouco), Gomez é riquíssimo, sendo dono de empresas e ações do mundo inteiro - as quais acompanha através de um computador especial instalado no meio da sala - e sempre tendo uma enorme reserva de dinheiro vivo em casa, mas, ao contrário de outros personagens ricos da ficção (como, por exemplo, o Tio Patinhas), também é muito altruísta, frequentemente dando dinheiro a quem precisa ou a instituições de caridade. Gomez é completamente apaixonado por Mortícia, e faz questão de demonstrar seu amor sempre que possível; ele costuma chamá-la de querida (em espanhol) ou cara mía, e fica enlouquecido de paixão se ela responde em francês - absolutamente qualquer frase em francês, sendo essa uma das piadas recorrentes da série. Gomez também é extremamente proficiente em vários esportes, tem como hobby construir e criar acidentes com modelos de trens no estilo Ferrorama, gosta de ler o jornal de cabeça para baixo (ele, não o jornal), e está sempre impecavelmente vestido com um terno risca-de-giz e gravata, quase sempre com um charuto na mão ou na boca - Astin sugeriria esse traço por ser ele mesmo fumante, mas, após o cancelamento da série, decidiria parar de fumar.

Mortícia e Gomez têm dois filhos, cujas idades na série são trocadas em relação aos cartuns. A mais nova é a menina Vandinha (Wednesday, "quarta-feira" em inglês, no original), interpretada por Lisa Loring, que tem por volta de 6 anos e é uma versão-mirim de Mortícia, de hábitos estranhos mas coração doce, que tem como bichos de estimação uma tarântula e um lagarto, e como brinquedo preferido uma boneca decapitada chamada Maria Antonieta. Já o mais velho é o menino Feioso (Pugsley no original), interpretado por Ken Weatherwax, que tem por volta de dez anos, é gorduchinho, bastante esperto, e não segue a maioria das excentricidades da família, gostando de passatempos mais normais - fazendo parte, inclusive, dos Escoteiros, para desgosto de Gomez. Feioso tem dois bichos de estimação, o jaguar Fang e o polvo Aristóteles, que era o único presente nos cartuns, mas lá era o animal de estimação de Vandinha.

Completam a família o Tio Fester (também chamado no Brasil de Tio Chico ou Tio Funéreo), interpretado por Jackie Coogan, totalmente careca e sempre vestido com um sobretudo preto, apaixonado por dinamite e por explodir coisas, que gosta de dormir numa cama de pregos e aplicar aparelhos de tortura em si mesmo por diversão, e consegue fazer acender uma lâmpada a colocando na boca; a Vovó (Grandmama Addams no original), mãe de Gomez, interpretada por Blossom Rock, uma bruxa com caldeirão, poções e bola de cristal, apaixonada por armas brancas e mestra no arremesso de facas; o mordomo Tropeço (Lurch no original), interpretado por Ted Cassidy, que não é da família mas é tão estranho quanto eles, que se comunica principalmente através de grunhidos (you rang?, "você chamou?", uma das poucas frases que ele fala, quando Gomez ou Mortícia puxam a cordinha que toca um sino para chamá-lo, se tornou um bordão da TV norte-americana), toca piano e vive passando um espanador na casa; e Mãozinha (Thing, "coisa", no original), uma mão sem corpo que costuma sair de uma caixa ao lado do sofá da sala, mas pode sair de qualquer recipiente ou buraco, normalmente para entregar alguma coisa da qual algum membro da família esteja precisando, que, segundo Gomez, é "seu amigo de infância" - Cassidy também "interpretaria" Mãozinha, exceto nas cenas em que ele e Tropeço contracenavam, quando o "papel" ficaria com o diretor-assistente Jack Voglin; nos créditos, Mãozinha era creditado como Itself ("ele mesmo"). Os principais personagens criados especificamente para a série eram o Primo Itt (Felix Silla), primo de Gomez, um monte de cabelo usando óculos e um chapéu-coco, que fala em um ritmo super-rápido que só os Addams conseguem compreender; Ophelia Frump (também interpretada por Carolyn Jones), irmã mais velha de Mortícia, hippie e avessa às excentricidades da família; e Hester Frump (Margaret Hamilton), mãe de Mortícia e Ophelia.

A série estrearia em 18 de setembro de 1964, com uma temporada de 34 episódios de meia hora cada, o último exibido em 21 de maio de 1965, e seria renovada para uma segunda temporada, de mais 30 episódios, que estrearia em 17 de setembro de 1965. Um declínio na audiência da segunda temporada faria com que a ABC não se interessasse em renovar para uma terceira, com o último episódio indo ao ar em 8 de abril de 1966. A música de abertura da série, chamada simplesmente The Addams Family Theme, criada pelo compositor de Hollywood Vic Mizzy, se tornaria um dos maiores sucessos da TV norte-americana, principalmente pelo estalar de dedos que a acompanhava. A música ficou tão famosa que a ABC decidiu lançá-la em formato single, pela gravadora RCA Victor, imaginando que teria boas vendas; infelizmente, ela não vendeu tanto quanto o esperado.

Após o cancelamento da série, como os cartuns não estavam mais sendo publicados, a Família Addams ficaria sumida até 1972, quando a ABC decidiria gravar o piloto para uma nova série, chamada The Addams Family Fun-House. Curiosamente, essa nova série seria um musical, e traria seus próprios criadores, Jack Riley e Liz Torres, como Gomez e Mortícia - além de, no papel de Feioso, Butch Patrick, que tinha interpretado Eddie Munster na série Os Monstros, que, para muitos, foi inspirada na Família Addams, mas que, na verdade, era inspirada nos monstros clássicos da Universal, e estreou uma semana depois, na CBS. O piloto chegou a ir ao ar, mas não fez sucesso, e a série não chegou a ser gravada.

Também em 1972, a Hanna-Barbera decidiria incluir a Família Addams no terceiro episódio, exibido em 23 de setembro pela CBS, de The New Scooby-Doo Movies, cuja característica era ter um "convidado especial" resolvendo mistérios junto com a turma do Scooby-Doo em cada episódio. Os personagens da Família Addams seriam desenhados seguindo instruções do próprio Chas Addams, para que ficassem parecidos com os dos cartuns, e não com os atores da série. Jones, Astin, Coogan e Cassidy retornariam a seus papéis, a convite da Hanna-Barbera, que sempre tentava usar os atores ou dubladores originais de cada convidado especial. Após a exibição do episódio, a Hanna-Barbera começaria a receber várias cartas de fãs pedindo por mais aventuras animadas da Família Addams, e negociaria a produção uma série animada estrelando os personagens.

Assim surgiria o primeiro desenho da Família Addams, que estrearia na NBC (o que faria com que eles tivessem tido programas nos três principais canais dos Estados Unidos) em 8 de setembro de 1973, com um total de 16 episódios de meia hora cada, o último indo ao ar em 22 de dezembro. Os personagens tinham a mesma aparência do desenho do Scooby-Doo, mas apenas Coogan e Cassidy aceitariam repetir seus papéis, com Gomez e Mortícia sendo dublados por dois veteranos da Hanna-Barbera, Lennie Weinrib e Janet Waldo - vale citar também a presença no elenco da hoje consagrada atriz Jodie Foster, na época com dez anos de idade, no papel de Feioso (é normal nos Estados Unidos mulheres e meninas dublarem personagens meninos; Bart Simpson, por exemplo, é dublado por uma mulher, Nancy Cartwright). Bizarramente (se é que algo pode ser considerado bizarro em se tratando de Família Addams), o desenho não trazia os Addams em sua mansão, e sim viajando pelos Estados Unidos, em um motorhome de aparência vitoriana. Seria para esse desenho que o parentesco do Tio Fester mudaria para irmão de Gomez, sendo também alterado o parentesco da Vovó, que passaria a ser a mãe de Mortícia.

Em 1977, a NBC decidiria fazer um Especial de Halloween, chamado Halloween with the New Addams Family, que iria ao ar dia 30 de outubro, com todo o elenco original da série de 1964, exceto Rock, que, apesar de ainda viva, estava muito doente, e foi substituída por Jane Rose. No especial, a família está recebendo a visita do irmão de Gomez, Pancho (Vito Scotti), e recordando histórias de Halloweens passados; enquanto isso, um criminoso (Parley Baer) tenta invadir a casa e roubar a fortuna dos Addams.

Embora a Família Addams tenha ficado fora da TV por toda a década de 1980, eles já haviam se tornado parte da cultura pop norte-americana, estando presentes nos mais diversos objetos de merchandising, como roupas, material escolar, brinquedos, e até mesmo caixas de cereal; vários canais regionais também exibiam regularmente tanto a série de 1964 quanto a animada em reprises, o que fazia com que os personagens ainda fossem bastante conhecidos pelo público em geral. No final da década de 1980, a Orion Pictures começaria negociações para fazer um reboot da série de TV, que foram interrompidas pela morte repentina de Chas Addams. A 20th Century Fox tinha planos de adaptar a Família para o cinema, mas esbarrava no problema dos direitos, que, então, estavam parte com a Orion, parte com a viúva de Addams.

Em 1990, a Orion finalmente conseguiria o total dos direitos, mas, em dificuldades financeiras, ao invés de fazer a série, decidiria embarcar na ideia da Fox e fazer um filme. A produção seria extremamente tumultuada, com o roteiro sendo reescrito diversas vezes, vários membros da equipe de produção ficando doentes, a maquiagem de Mortícia e da Vovó levando horas para ser aplicada e causando desconforto nas atrizes, e o orçamento do filme estourando em 5 milhões de dólares o que a Orion havia reservado. Para tentar fazer um pouco de caixa, no meio da produção a Orion venderia os direitos de distribuição internacional para a Columbia; como nem isso adiantou, ela venderia toda a produção do filme para a Paramount, que ficaria responsável também pela distribuição nos Estados Unidos. A equipe de produção sequer ficaria sabendo da venda, que ocorreria faltando poucos dias para o final das filmagens, descobrindo através de um jornalista durante uma sessão de entrevistas.

O filme seria a estreia na direção de Barry Sonnenfeld, que, até então, era diretor de fotografia, e assumiria após Tim Burton, o preferido da Orion, desistir por estar envolvido com as filmagens de Batman Returns; durante a conturbada produção de A Família Addams, o diretor de fotografia original, Owen Roizman, pediria demissão, e seria substituído por Gale Tattersall, que seria hospitalizado após poucas semanas, com Sonnenfeld tendo de acumular as funções de diretor e diretor de fotografia. O roteiro seria creditado a Caroline Thompson e Larry Wilson, que escreveriam sua primeira versão, mais tarde reescrita por pelo menos cinco outras pessoas, incluindo o produtor Scott Rudin e o roteirista Paul Rudnick. Os efeitos especiais, todos à moda antiga, com maquiagem, truques de câmera e animatronics, ficariam a cargo de Tony Gardner. A música-tema, chamada Addams Groove, seria gravada por MC Hammer, que estava na crista da onda na época - mas seria muito criticada pelos fãs da série e pelo público em geral.

O elenco conta com um trio estelar da época: Raul Julia como Gomez, Anjelica Huston como Mortícia, e Christopher Lloyd como Fester; Christina Ricci, em início de carreira, faria Vandinha, que, assim como nos cartuns, é mais velha que Feioso, interpretado por Jimmy Workman. A família se completaria com Judith Malina como a Vovó, Carel Struycken como Tropeço, John Franklin como o Primo Itt, e o mágico Christopher Hart como Mãozinha - que, diferentemente da série, não aparecia apenas dentro de objetos, andando para lá e para cá, algumas vezes como um efeito especial, outras como um animatronic. Na história, Fester está desaparecido há 25 anos, e Gomez não se conforma. Ao saberem disso, seu advogado, Tully Alford (Dan Hedaya) e sua esposa Margaret (Dana Ivey), que estão devendo dinheiro à agiota Abigail Craven (Elizabeth Wilson), bolam um plano: como o filho da agiota, Gordon, é parecido com Fester, ele vai fingir que é o Addams desaparecido, enquanto ela finge que é uma psicóloga que precisa acompanhá-lo em todos os momentos, pois apenas recentemente ele recuperou a memória; com isso, eles pretendem roubar a fortuna dos Addams. Vale citar também a presença de Paul Benedict como um juiz e de Mercedes McNab (que mais tarde faria as séries Buffy, a Caça-Vampiros e Angel) como uma Bandeirante que tenta vender biscoitos para os Addams.

A Familia Addams estrearia em 22 de novembro de 1991; com orçamento de 30 milhões de dólares, renderia 113 milhões apenas nos Estados Unidos e 191,5 milhões considerando a bilheteria do mundo inteiro, se tornando um dos maiores sucessos do ano - se a Orion soubesse, talvez não o tivesse vendido, pois isso seria mais do que suficiente para ela equilibrar seu caixa. Curiosamente, a crítica não ficaria tão empolgada quanto o público, considerando o roteiro confuso e as piadas fracas. O filme seria indicado para o Oscar de Melhor Figurino, e renderia a Huston uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Atriz em um Filme Musical ou de Comédia.

O sucesso do filme levaria à criação de um novo desenho da Hanna-Barbera, inspirado na série de 1964, com os Addams estando sempre em casa, vivendo situações inusitadas e recebendo visitas, mas mantendo as características do filme (Fester é irmão de Gomez, a Vovó é mãe de Mortícia, Vandinha é mais velha que Feioso); os personagens seriam redesenhados para ganhar um visual mais moderno, mas ainda lembrariam os originais de Chas Addams. Astin aceitaria dublar Gomez, mas seria o único ator da série a retornar; Fester e a Vovó seriam dublados por dois atores famosos, Rip Torn e Carol Channing, com os demais tendo vozes de dubladores recorrentes da Hanna-Barbera. Duas curiosidades desse desenho são que os Addams possuem apenas um bicho de estimação, o crocodilo Snappy, que frequentemente tenta comer Fester, e têm vizinhos, a Família Normanmeyer, uma típica família de classe alta norte-americana, que se revolta por ter vizinhos tão estranhos e quer expulsá-los do bairro. O desenho seria exibido pela ABC, e teria duas temporadas: a primeira teria 13 episódios exibidos entre 14 de setembro e 22 de dezembro de 1992, a segunda teria 8, exibidos entre 18 de setembro e 6 de novembro de 1993. Os episódios tinham meia hora cada, mas alguns eram compostos por três histórias independentes de 10 minutos cada.

O sucesso do primeiro filme também levaria a uma continuação, dessa vez produzida e distribuída pela Paramount, chamada The Addams Family Values (simplesmente A Família Addams 2 no Brasil), título que fazia uma piada com um discurso feito em 1992 pelo então candidato a vice-presidente Dan Quayle, que culpou a "falta de valores familiares" por uma série de revoltas que ocorreu em Los Angeles naquele ano. Sonnenfeld retornou à direção, o roteiro ficou a cargo de Rudnick, e quase todo o elenco principal retornou, com Julia, Huston, Lloyd, Ricci, Workman, Struycken, Franklin e Hart repetindo seus papéis; McNab também está no filme, dessa vez como uma menina popular que odeia Vandinha, assim como Ivey, que volta a interpretar Margaret, que se separou do advogado e se casou com o Primo Itt. O papel da Vovó ficaria com Carol Kane, pois Malina, revoltada por ter de ficar 12 horas se maquiando por dia, não aceitaria voltar ao papel. Esse seria o último filme lançado enquanto Julia ainda estava vivo; o ator faleceria menos de um ano após seu lançamento.

Mais uma vez, Fester é o centro das atenções, agora porque decide se casar com Debbie Jellinsky (Joan Cusack), que, na verdade, é uma aproveitadora que planeja matá-lo e ficar com a fortuna dos Addams. Fester leva Debbie para morar na mansão, e ela logo vira a vida da família de pernas para o ar, inclusive mandando Vandinha, que descobre seus planos, e Feioso para um acampamento de verão, comandado pelos superalegres Gary (Peter MacNicol) e Becky (Christine Baranski), onde Vandinha conhecerá Joel (David Krumholtz), menino tímido e meio nerd que se apaixona por ela. Enquanto isso, Gomez e Mortícia estão envolvidos com o nascimento de seu terceiro filho, Pubert, e não percebem as reais intenções de Debbie. O filme conta com vários atores famosos em pequenas pontas, como Cynthia Nixon como uma candidata a babá de Pubert, e Tony Shalhoub como um marinheiro para quem Debbie conta seus planos em um bar.

Com A Família Addams 2 ocorreria o contrário do primeiro filme: a crítica seria extremamente positiva, elogiando o humor negro do filme, o entrosamento entre os atores e exaltando a atuação de Ricci, mas o público pareceria menos entusiasmado do que da primeira vez: com orçamento de 47 milhões de dólares, renderia 48,9 milhões nos Estados Unidos e 111 milhões quando considerada a bilheteria do mundo inteiro; isso, mas a morte repentina de Julia, enterrariam os planos da Paramount de fazer uma trilogia. O filme renderia mais uma indicação a Huston para o Globo de Ouro de Melhor Atriz em um Filme Musical ou de Comédia, e receberia uma indicação ao Oscar de Melhor Direção de Arte.

Em 1996, a Saban (dos Power Rangers) adquiriria os direitos sobre a Família Addams, e planejaria lançar uma nova série, mas voltada para crianças, sem qualquer traço de humor negro. Para tentar viabilizar essa série, ela encomendaria um novo filme, que acabaria sendo lançado diretamente em vídeo, pela Warner Bros., em 22 de setembro de 1998. Chamado The Addams Family Reunion (O Retorno da Família Addams no Brasil), o filme traz Tim Curry como Gomez, Daryl Hannah como Mortícia, Patrick Thomas como Fester, Nicole Fugere como Vandinha, Jerry Messing como Feioso, Alice Ghostley como a Vovó, Phil Fondcaro como o Primo Itt, e Struycken e Hart repetindo os papéis de Tropeço e Mãozinha. O intuito da Saban era fazer o filme baseado na série de 1964, mas Curry se inspiraria na atuação de Julia para interpretar Gomez, fazendo-o tão bem que muita gente achou que esse filme era uma continuação dos dois anteriores.

No enredo, os Addams recebem um convite para uma reunião de todos os membros da Família Adams em um hotel seis estrelas - não, eu não escrevi errado, o convite era para todos os membros da Família Adams, com um "d" só, e os Addams recebem o deles por engano. Evidentemente, seu jeito próprio de ser causará muita confusão. Ao ler a sinopse, o diretor Dave Payne viu várias oportunidades para fazer um filme ao melhor estilo Família Addams, mas a Saban fincou o pé em sua exigência de que o filme deveria ser para crianças, o que limitou muito as opções dos roteiristas Rob Kerchner e Scott Sandin, e fez com que o filme fosse universalmente criticado - com a atuação de Curry sendo considerada a única coisa que ele tem de bom.

Mesmo com o insucesso do filme, a Saban produziria a série, chamada The New Addams Family, que seria filmada em Vancouver, no Canadá, e estrearia no canal canadense YTV em 19 de outubro de 1998, mais tarde sendo também exibida nos Estados Unidos no canal a cabo Fox Family Channel. A maioria dos episódios seriam remakes dos da série de 1964, mas atenuados para que a série se tornasse apropriada para crianças; a única atriz do filme a repetir seu papel seria Fugere, com Glenn Taranto interpretando Gomez (imitando o estilo de Astin), Ellie Harvie como Mortícia, Michael Roberds como Fester, Betty Phillips como a Vovó (que voltaria a ser mãe de Gomez e Fester, e cujo nome seria Eudora), Brody Smith como Pugsley, John DeSantis como Tropeço, David Myrlea como o Primo Itt (cuja voz era feita por Paul Dobson) e Steven Fox como Mãozinha. Meredith Bain Woodward fazia participações especiais como Hester Frump, Lisa Calder como Ophelia Frump, e a série traria de volta o leão Kit Kat; mais para o final, Astin também passaria a fazer participações especiais como o Vovô, pai de Gomez e Fester. A série teria uma única temporada de 65 episódios, com o último indo ao ar em 28 de agosto de 1999.

Após o cancelamento de The New Addams Family, a Família Addams ficaria toda uma década na encolha. Em 2010, começariam negociações para que um filme de animação stop motion fosse produzido pela Universal, com Tim Burton como diretor, mas, após três anos de pré-produção, o projeto seria engavetado. Também em 2010, em março, estraria na Broadway um musical inspirado na série de 1964, que ficaria em cartaz até dezembro de 2011, com um total de 757 apresentações. E 2010 também seria o ano de lançamento do livro The Addams Family: An Evilution, pela Pomegranate Press, que continha mais de 200 cartuns, incluindo todos os anteriormente publicados, e texto originalmente escrito por Chas Addams, em sua maioria descrevendo os personagens para os produtores da série de TV; esse seria o quarto livro da Família Addams, sendo os outros dois romances, ambos lançados em 1965 pela Pyramid Books e inspirados na série de TV: o primeiro, chamado simplesmente The Addams Family, escrito por Jack Sharkley, conta o primeiro dia dos Addams em sua então nova mansão, tenta explicar a origem de Mãozinha e termina com a Família descobrindo que será tema de uma série de TV, enquanto o segundo, The Addams Family Strikes Back, de W.F. Miksch traz Gomez tentando entrar para o Conselho da escola onde estudam Vandinha e Feioso, para redimir a imagem do traidor Benedict Arnold.

O lançamento seguinte para os cinemas ocorreria apenas em 2019, um desenho em computação gráfica produzido pela MGM e distribuído pela Universal, dirigido por Conrad Vernon e Greg Tiernan, com roteiro de Matt Lieberman, que mostra os Addams às voltas com vizinhos enfurecidos que querem expulsá-los da cidade para construir uma comunidade-modelo. O filme estrearia em 11 de outubro, teria uma recepção morna da crítica, mas seria um gigantesco sucesso de público - com orçamento de 24 milhões de dólares, renderia quase 204 milhões, sendo 100 milhões apenas nos Estados Unidos - o que motivaria a MGM a produzir uma continuação, também dirigida por Vernon e Tiernan, com roteiro de Dan Hernandez, Benji Samit, Ben Queen e Susanna Fogel, chamada A Família Addams 2: Pé na Estrada (somente The Addams Family 2 no original), na qual a família decide sair em uma road trip pelos Estados Unidos, nos moldes da série animada de 1973. Com estreia em 1 de outubro de 2021, o filme seria massacrado pela crítica, mas se sairia relativamente bem nas bilheterias - com orçamento de 20 milhões de dólares, renderia 56,5 milhões nos Estados Unidos e quase 120 milhões no mundo inteiro - com a MGM considerando que a pandemia pode ter sido um fator para o filme ter rendido menos. Por enquanto, ainda é incerto se haverá um terceiro filme ou não.

Ambos os filmes contam com elencos estelares, e quase todos repetiriam seus papéis em ambos: Oscar Isaac como Gomez, Charlize Theron como Mortícia, Chloë Grace Moretz como Vandinha, Nick Kroll como Fester, o rapper Snoop Dogg como o Primo Itt, e a lenda do cinema Bette Midler como a Vovó, além de o diretor Vernon dublando Tropeço; somente Feioso teria dubladores diferentes em cada filme, com Finn Wolfhard fazendo sua voz no primeiro e Javon Wanna Walton no segundo. O primeiro filme conta ainda com Allison Janney como a repórter que inicia a campanha para expulsar os Addams e Martin Short como o pai de Mortícia, enquanto o segundo traz Bill Hader como um cientista que alega ser o verdadeiro pai de Vandinha e Wallace Shawn como seu advogado.

A mais recente produção envolvendo a Família Addams é Wednesday, série protagonizada por Vandinha, mas que conta com a participação de toda a família, anunciada em 2021 mas ainda sem data de estreia definida. Tim Burton fará sua estreia como diretor de uma série de TV e finalmente terá sua oportunidade de dirigir os Addams, e o elenco trará Jenna Ortega como Vandinha, Luis Guzmán como Gomez, Catherine Zeta-Jones como Mortícia, e Gwendolyne Christie em um papel ainda não divulgado; Ricci também foi confirmada na série como membro do elenco regular, mas também ainda não se sabe qual seria seu papel.
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domingo, 24 de julho de 2022

Escrito por em 24.7.22 com 0 comentários

Ursula K. Le Guin

Hoje é dia de Ursula K. Le Guin no átomo! Porque já faz um tempo que ela está dentre as minhas escritoras preferidas e, incapaz de escolher só um livro para fazer um post, decidi fazer um sobre toda a carreira dela.


Ursula K. Le Guin nasceu Ursula Kroeber, em Berkeley, Califórnia, Estados Unidos, em 21 de outubro de 1929. Seu pai, Alfred Louis Kroeber, era antropólogo, lecionava na Universidade de Berkeley, foi diretor do Museu de Antropologia da Califórnia, e estudava os povos originários norte-americanos; sua mãe, Theodora, era formada em psicologia, mas, após os 60 anos, decidiria se tornar escritora, sendo seu livro de maior sucesso Ishi in Two Worlds, de 1961, a biografia de Ishi, indígena norte-americano considerado o último representante da tribo Yahi, dizimada na época da colonização, e que se tornou amigo de Alfred enquanto ele estudava a história da tribo. Ursula era a mais nova de quatro irmãos, sendo os três mais velhos todos homens; a família dividia seu tempo entre uma casa em Berkeley na qual moravam durante o ano letivo e uma em Napa Valley onde passavam o verão e os feriados, e onde recebiam vários acadêmicos de prestígio conhecidos de Albert, dentre eles J. Robert Oppenheimer, um dos inventores da bomba atômica.

Desde criança, ela se interessaria por ler fantasia e ficção científica, especialmente as revistas Thrilling Wonder Stories e Astounding Science Fiction, além das obras de Lord Dunsany e Lewis Padgett; ela também seria fã de mitologia, especialmente a nórdica, e das lendas indígenas que seu pai lhe contava. Aos nove anos, ela escreveria seu primeiro conto de ficção científica, e, dois anos depois, aos 11, enviaria um para análise e publicação na Astounding Science Fiction; o conto, porém, seria rejeitado, e, com vergonha, ela decidiria não tentar novamente.

Ela se formaria pela Berkeley High School (mesma escola onde estudou Philip K. Dick, na mesma época, embora os dois não tenham se conhecido lá) e seria aceita na tradicional Universidade de Harvard, mais especificamente para o Radcliffe College, que oferecia cursos a mulheres, já que, na época, Harvard era uma universidade exclusivamente masculina. Ela ficaria em dúvida entre cursar biologia ou literatura, mas, por ser fraca em matemática, acabaria optando pela segunda, se formando Bacharel em Artes com Foco em Literatura Italiana e Francesa da Renascença em 1951. No ano seguinte, ela ingressaria em uma pós-graduação na Universidade de Columbia, obtendo um Mestrado em Língua Francesa. Suas boas notas fariam com que ela recebesse um convite para fazer doutorado na França, onde ficaria por dois anos, 1953 e 1954.

Durante a viagem, que era feita de navio, ela conheceria e se apaixonaria pelo historiador francês Charles Le Guin, com quem se casaria em Paris em dezembro de 1953, quando ela passaria a usar também seu sobrenome. O casal retornaria aos Estados Unidos em 1954, para que ele concluísse seu doutorado na Universidade de Emory, na Geórgia, mais tarde fazendo um PhD na Universidade de Idaho. Enquanto isso, ela dava aulas de francês, trabalhava como secretária, e daria à luz duas filhas, Elizabeth, em 1957, e Caroline, em 1959. Também em 1959, Charles seria contratado como professor pela Universidade Estadual de Portland, no Oregon, e a família se mudaria para lá, onde nasceria seu terceiro filho, Theodore, em 1964. Le Guin e o marido viveriam em Portland pelo resto de suas vidas, exceto por dois períodos curtos nos quais ela foi estudar em Londres, em 1968 e 1975.

No final da década de 1940, Le Guin criaria um país fictício chamado Orsinia, onde ambientaria cinco romances escritos entre 1951 e 1961. Localizado na Europa Central, Orsinia, cujo nome foi inspirado no da própria autora (tanto Ursula quanto Orsinia têm raízes na palavra "urso"), foi uma monarquia independente até o século XIX, quando passaria a integrar Império Austro-Húngaro, se tornando uma república independente após a Primeira Guerra Mundial e um país comunista após a Segunda, passando ao capitalismo com suas primeiras eleições livres, em 1989 - todas as histórias ambientadas em Orsinia ocorrem entre 1150 e 1989, então não se sabe o destino do país depois disso. Le Guin ofereceria os romances a várias editoras, sendo sempre recusada com a desculpa de que eles eram "inacessíveis", ou seja, os leitores não conseguiriam compreender a história.

Após os Le Guin se mudarem para Portland, Charles a convenceria a voltar a enviar contos para avaliação e publicação, ao invés de tentar publicar os romances. A estratégia daria certo e, no mesmo ano, ela, já aos 30 anos de idade, conseguiria finalmente publicar seu primeiro poema, Folk Song from the Montayna Province, com apenas duas estrofes de quatro versos cada, no periódico Prairie Poet; dois anos depois, em 1961, ela publicaria seu primeiro conto, An die Musik, na revista Western Humanities Review. Tanto o poema quanto o conto seriam ambientados em Orsinia, e Le Guin não seria paga por nenhum dos dois, o que aceitou porque imaginava que, tendo finalmente trabalhos publicados, mais revistas e editoras aceitariam suas histórias.

Diferentemente do que Le Guin imaginava, ter trabalhos publicados não facilitou em nada sua vida; mas, após ouvir de várias editoras que o mercado estava em busca de histórias de ficção científica, ela decidiria deixar Orsinia um pouco de lado e investir nesse gênero. Seu primeiro conto de ficção científica publicado, e o primeiro pelo qual ela seria paga, inaugurando sua carreira de escritora profissional, seria April in Paris, na revista Fantastic Science Fiction, em 1962. O conto faria sucesso, e, nos três anos seguintes, ela conseguiria publicar outros sete; dentre eles, estariam The Word of Unbinding, primeira história ambientada no mundo de fantasia de Terramar, publicado em 1964 na Fantastic Science Fiction, e The Dowry of Angyar (também conhecido como Semley's Necklace), primeira história do que hoje é conhecido como Ciclo Hainiano, também conhecido como Ciclo de Hain ou Ciclo de Hainish (Hainish Cycle, em inglês), também publicado em 1964, mas na Amazing Stories. Em entrevistas posteriores, Le Guin diria que seu principal problema com as histórias de ficção científica da época era a de que todas elas tinham como tema "homem branco conquista o universo", e que ela tentava escrever histórias diferentes disso.

Desde a publicação de Folk Song from the Montayna Province, Le Guin usaria seu nome completo com o do meio abreviado, ou seja, Ursula K. Le Guin; a única ocasião na qual uma história sua não seria publicada sob esse nome seria em 1968, quando a revista Playboy se interessaria por publicar seu conto Nine Lives, mas, acreditando que seus leitores não gostariam de saber que foi escrito por uma mulher, pediriam para que ele fosse atribuído a U.K. Leguin. Na época ela não veria importância nisso e permitiria, mas, em entrevistas posteriores, declararia que foi a única vez em que sofreria qualquer forma de preconceito por ser uma autora mulher; em republicações posteriores, bem como na publicação de novas histórias suas, a Playboy usaria seu nome completo, mas jamais chegaria a se retratar.

Em 1966, Le Guin finalmente conseguiria publicar seu primeiro romance, Rocannon's World, também parte do Ciclo Hainiano. As histórias do Ciclo são ambientadas em um futuro distante, no qual a Terra faz parte de uma confederação de planetas chamada Ekumen, estabelecida pelos hainianos, os habitantes do planeta Hain, que, séculos atrás, conduziram um experimento de colonização em diversos planetas da galáxia, mas, depois, cessaram suas viagens espaciais, somente as retomando agora, quando decidiriam entrar em contato com seus descendentes e propor que todos se unam - segundo essa história, portanto, os seres humanos não teriam surgido na Terra, e sim em Hain, sendo nós os descendentes dos colonos hainianos que estiveram aqui na aurora dos tempos. Devido às diferentes características dos planetas, cada colônia desenvolveria características físicas e psicológicas diferentes, mas ainda sendo essencialmente todos humanos. As histórias do Ciclo Hainiano normalmente envolvem exploração espacial e diplomacia, e costumam contar com enviados de Hain travando contato com os habitantes de algum outro planeta para convencê-los a se unir ao Ekumen ou avaliar se estão prontos para conhecer outros povos através de viagens espaciais. Curiosamente, a própria Ursula detestava o nome "Ciclo Hainiano", criado pela Ace Books, argumentando que, embora todas as histórias compartilhassem a mesma ambientação, não eram uma saga, não tinham uma ordem cronológica de acontecimentos, e não formavam uma história coerente - algo que ela faria de propósito, para não ter que se preocupar com o que já teria ocorrido nas demais histórias quando fosse escrever uma nova.

Seja como for, Rocannon's World seria o primeiro romance do Ciclo Hainiano, publicado em 1966 pela Ace Books como parte de sua série Ace Double, no qual cada edição trazia duas histórias, cada uma com sua própria capa (naquele esquema de que você vira o livro de cabeça pra baixo para ler a história publicada do outro lado); o romance que compartilhava o livro com Rocannon's World era The Kar-Chee Reign, segundo de Avram Davidson. Rocannon's World é parte ficção científica e parte fantasia, e acompanha o etnólogo Gaverel Rocannon, nascido na Terra, que estuda um planeta chamado Fomalhaut, no qual convivem cinco raças inteligentes: os Gdemiar, que se parecem com anões, os Fiia, que se parecem com elfos, os Kiemhrir, que se parecem com ratos antropomórficos, os assustadores Alados, e os mais semelhantes aos humanos, os Liuar. Graças a uma campanha do próprio Rocannon, Fomalhaut está sob um "embargo exploratório", que impede que ele seja colonizado ou explorado, permitindo que seja apenas estudado. Evidentemente, isso não interessa a um grupo poderoso, que sabota a nave de Rocannon para tentar matá-lo; ele sobrevive, mas naufraga no planeta, sem ter como voltar e tendo de aprender a sobreviver em um mundo e uma sociedade completamente alienígenas.

Rocannon's World seria um grande sucesso, e motivaria a Ace Books a lançar mais um romance de Le Guin na Ace Double ainda em 1966, Planet of Exile, que dividiria o livro com Mankind Under the Leash, romance de estreia de Thomas M. Disch. Planet of Exile é ambientado no planeta Werel, onde um ano corresponde a 60 anos terrestres, e onde coexistem duas raças, os teravans, nativos do planeta, e os humanos provenientes da Terra, que tentaram estabelecer ali uma colônia. Embora ambos tenham um ancestral comum (os hainianos), eles não conseguem se reproduzir entre si, e um grupo é desconfiado do outro, estabelecendo contato mínimo e jamais interagindo por vontade própria. Mas o longo inverno se aproxima, e uma visita da curiosa Rolery, adolescente teravan e protagonista da história, à colônia humana pode levar a mudanças irreversíveis na estrutura social do planeta.

Planet of Exile também seria um grande sucesso, e aí a Ace Books ofereceria a Le Guin um livro inteiro, sem dividir com ninguém. Esse livro seria City of Illusions, publicado em 1967, ambientado na Terra em um futuro muito distante, no qual a população humana foi reduzida e vive em pequenas comunidades rurais ou tribos nômades. Os responsáveis por essa redução foram alienígenas chamados Shing, que possuem poderes telepáticos, atacaram o planeta 1200 anos antes do início da história, e ainda o governa. O protagonista é um humano que estava voltando de uma viagem espacial, sem saber do destino da Terra, foi capturado pelos Shing, teve sua mente completamente apagada e foi abandonado na floresta; salvo pelos habitantes de uma pequena comunidade, ele deve tentar sobreviver no mundo onde nasceu, mas que agora é completamente desconhecido por ele. Embora as três histórias não sejam ligadas, o fato de elas claramente envolverem os hainianos levaria a Ace Books a, em uma jogada de marketing, anunciá-los, inclusive em republicações posteriores, como "A Trilogia Hainiana", termo que mais tarde, com o lançamento de mais livros, seria substituído por Ciclo Hainiano.

A Trilogia Hainiana faria um grande sucesso dentre os leitores, mas passaria em branco dentre a crítica, que sequer chegaria a avaliá-la. O livro seguinte de Le Guin, porém, seria um surpreendente sucesso de crítica (e de público), ganhando resenhas nas principais revistas especializadas, destaque nas livrarias e rendendo a ela convites para entrevistas. Tudo começaria ainda em 1967, quando a editora Parnassus Press a procuraria e perguntaria se ela estaria interessada em escrever para adolescentes - já que seus três livros publicados haviam sido classificados como para "jovens adultos". Le Guin aceitaria, e optaria por escrever uma história de jornada do herói e passagem à maioridade ambientada no mundo de fantasia de Terramar, no qual ela já havia ambientado os contos The Word of Unbinding e The Rule of Names.

Assim surgiria O Feiticeiro de Terramar (A Wizard of Earthsea), publicado em 1968, que acompanha o jovem Ged, nascido numa comunidade extremamente pobre, mas que, por demonstrar afinidade com a magia, é levado para a principal escola de magos de seu mundo para ser treinado. Terramar, apropriadamente para seu nome, é um gigantesco arquipélago, com as viagens entre uma ilha e outra feitas por barcos e navios; a magia é bastante presente e os magos são considerados valiosos, pois nem todos conseguem dominá-la - cada comunidade costuma ter um mago residente que, dentre outras coisas, cuida para que saqueadores não a ataquem, as colheitas não se percam, e para que os ventos levem os barcos mais rapidamente a seus destinos. Le Guin faria a história propositalmente sem guerras, que ela considerava um clichê da fantasia e "muito masculinas".

No ano seguinte, Le Guin lançaria o mais famoso de seus livros, aquele que a colocaria definitivamente na lista dos maiores escritores de ficção científica e fantasia de todos os tempos: A Mão Esquerda da Escuridão (The Left Hand of Darkness), publicado pela Ace Books em 1969. O protagonista da história é Genly Ai, nascido na Terra e enviado como emissário ao planeta Gethen, para convidá-los a se unir ao Ekumen. A principal dificuldade é que Gethen possui duas nações dominantes, que não vão com a cara uma da outra, mas o principal detalhe da história é que os nativos de Gethen não possuem gênero, sendo todos assexuados exceto por um curto período a cada mês durante o qual podem se reproduzir, quando cada um assume o sexo masculino ou feminino dependendo de fatores como afinidade e predisposição. O livro toca em temas como feminismo, papel do gênero na cultura e sociedade, e até mesmo xenofobia e religião, e seria o primeiro romance não só da ficção científica, mas da literatura como um todo, a trazer personagens andróginos.

A Mão Esquerda da Escuridão ganharia os dois principais prêmios da literatura de ficção científica, o Hugo e o Nebula, ambos em 1970, e, em 1987, seria considerado pela prestigiada revista Locus o segundo maior romance de ficção científica de todos os tempos, atrás apenas de Duna. Ainda assim, o livro não escaparia de críticas, por não mostrar personagens andróginos em papéis tradicionalmente femininos, com todos sendo políticos, militares ou sacerdotes, papéis tradicionalmente masculinos; pelo fato de que todos os andróginos mostrados no livro possuem relacionamentos heterossexuais (todos os casais são compostos por um no papel de homem e outro no papel de mulher); e por utilizar apenas pronomes masculinos (ele/dele) ao se referir aos personagens andróginos.

Le Guin não planejava escrever uma sequência para O Feiticeiro de Terramar, mas o sucesso do livro acabaria fazendo com que a Atheneum Books, que controlava a Parnassus Press, a convencesse a mudar de opinião. Assim surgiriam As Tumbas de Atuan (The Tombs of Atuan), publicado em 1971, e The Farthest Shore, publicado em 1972, que traziam mais viagens de Ged por Terramar, e fechavam uma trilogia. Le Guin aproveitaria, mais uma vez, embora de forma mais comedida, já que o público-alvo era de uma faixa etária menor, para explorar temas como religião, ética e o papel do gênero na sociedade - a protagonista de As Tumbas de Atuan é uma menina, Tenar, com Ged sendo um coadjuvante de luxo. Ambos seriam grandes sucessos de público e crítica, e The Farthest Shore ganharia o National Book Award de Melhor Livro Infantil, além de ser adaptado em 2006 para o filme de animação Tales of Earthsea, do Studio Ghibli.

Entre os dois livros de Terramar, Le Guin lançaria A Curva do Sonho (The Lathe of Heaven), em 1971, pela Scribner's Books. Ambientado em 2002, quando a Terra está sendo assolada pela instabilidade climática e pela superpopulação, o livro acompanha George Orr, que descobre que seus sonhos têm o poder de alterar a realidade, e passa a ser manipulado por seu psiquiatra, que quer usar esse poder em benefício próprio. A Curva do Sonho ganharia o Locus Award de Melhor Romance em 1972, e seria uma das poucas obras de Le Guin a ser adaptada para a TV, primeiro em 1980, pelo canal PBS, depois em 2002, pelo canal A&E.

Le Guin voltaria ao Ciclo Hainiano com Floresta é o Nome do Mundo (The Word for World is Forest), novela originalmente publicada em 1972 na antologia Again, Dangerous Visions, da Doubleday, e, em 1976, como um livro separado, pela Berkley Books. A história é ambientada no pacífico planeta Athshe, totalmente tomado por uma floresta, que é invadido e colonizado à força pela Terra, que instaura no local um governo militar que trata os nativos, extremamente pacíficos e que não conheciam a guerra, de forma severa - até um deles decidir se revoltar e montar um grupo para expulsar os colonizadores. Le Guin declararia ter sido motivada a escrever a história, que contém uma forte crítica anti-colonialista e anti-militarista, pela Guerra do Vietnã. Floresta é o Nome do Mundo ganharia o Hugo Award em 1973, e seria um dos primeiros romances de ficção a abordar temas ecológicos e a ligação entre linguagem e cultura.

O romance seguinte do Ciclo Hainiano, Os Despossuídos (The Dispossessed), seria publicado pela Harper & Row em 1974. A história é ambientada de forma intercalada no planeta Urras e em seu satélite, Anarres; cerca de 150 anos antes de seu início, os odonianos, equivalentes aos comunistas de Urras, se mudaram todos para Anarres, onde fundaram uma sociedade totalmente cooperativa, sem governo, moeda ou leis, na qual cada um trabalha com o que quiser, da forma como quiser, e a única coisa que impede a ruína da sociedade é o senso de coletividade, que faz com que todos os anarrestis façam suas escolhas levando em conta o bem comum, e não seu próprio bem-estar. O protagonista da história é o físico Shevek, que cria uma teoria revolucionária, mas, ao perceber que a sociedade de Anarres não está interessada em suas ideias, decide se tornar o primeiro anarresti a viajar de volta para Urras, para oferecer seu trabalho ao Conselho de Governos Mundiais - pois Urras, ao contrário de Anarres, é dividida em várias nações, sendo as principais A-Io, mais ou menos equivalente aos Estados Unidos, Thu, mais ou menos equivalente à União Soviética, e Benbili, mais ou menos equivalente à China. Em Urras, porém, Shevek passará por um verdadeiro choque cultural, se sentido perdido em meio a uma sociedade capitalista, hedonista e cheia de convenções de hierarquia e política.

Os Despossuídos também ganharia os prêmios Hugo e Nebula, o que faria com que Le Guin se tornasse a primeira pessoa a ganhar os dois prêmios com dois livros diferentes, além do Locus Award de Melhor Romance em 1975. Embora, no início do livro, pareça que ele será um elogio ao comunismo, logo ele se torna uma grande crítica social, abordando questões relacionadas ao anarquismo, capitalismo, sociedades utópicas, propriedade privada, à importância da ciência para a sociedade, e até mesmo ao taoísmo, além de tocar mais uma vez em questões de gênero - as mulheres de Anarres são consideradas equivalentes aos homens, podendo exercer qualquer profissão, inclusive se tornando cientistas, enquanto as de Urras são consideradas inferiores e inaptas ao trabalho.

Entre A Mão Esquerda da Escuridão e Os Despossuídos, Le Guin também publicaria três contos pertencentes ao Ciclo Hainiano: A Winter's King, que tratava dos efeitos no corpo humano da viagem espacial próxima à velocidade da luz, seria publicado em 1969 no volume 5 da antologia de ficção científica Orbit, publicada pela G.P. Putnam's Sons; Vaster than Empires and More Slow, de 1971, que acompanha uma nave da Terra enviada para investigar um planeta recém-descoberto e aparentemente desabitado, e seria publicada no primeiro volume da coletânea New Dimensions, da Doubleday Books; e The Day Before the Revolution, que acompanha um dia na vida de Odo, a mulher que fundaria o movimento odoniano em Urras, e é considerado um prelúdio para Os Despossuídos, tendo sido publicado em 1974, simultaneamente ao lançamento do livro, na revista Galaxy Science Fiction. The Day Before the Revolution também ganharia um Nebula Award de Melhor Conto.

Esses três contos, bem como Semley's Necklace, The Word of Unbiding, The Rule of Names, Nine Lives e outros dez, estariam presentes na coletânea The Wind's Twelve Quarters, lançada em 1975 pela Harper & Row. Um dos maiores destaques dessa coletânea é The Ones Who Walk Away from Omelas, ambientado em uma cidade utópica cuja prosperidade está diretamente relacionada à miséria de uma única criança, publicado em 1973, no terceiro volume da New Dimensions, e que ganharia o Hugo Award de Melhor Conto.

No ano seguinte, 1976, seria lançado Very Far Away from Anywhere Else, pela Atheneum Books. Uma das pouquíssimas histórias escritas por Le Guin que não são de ficção científica, ficção histórica, nem de fantasia, o livro, voltado para jovens adultos, acompanha Owen, um menino de 17 anos introvertido, de poucos amigos e com dificuldades na família, que sonha em estudar no MIT, a prestigiada instituição universitária norte-americana voltada à ciência e tecnologia. Um dia, ele conhece Natalie, menina extrovertida de sua idade e para quem a música é tudo na vida, e essa amizade improvável acabará alterando o destino de ambos. O livro toca em temas como os efeitos da vida em sociedade, o conflito entre expectativa e realidade, e, evidentemente, o amadurecimento, mostrando a difícil transição entre a adolescência e a vida adulta.

1976 também seria o ano do lançamento de Orsinian Tales, pela Harper & Row, que continha 11 contos que Le Guin havia escrito ambientados em Orsinia, cinco deles anteriormente publicados: An die Musik, Imaginary Countries (1973, The Harvard Advocate), Brothers and Sisters (1976, The Little Magazine), A Week in the Country (1976, The Little Magazine) e The Barrow (1976, The Magazine of Fantasy & Science Fiction). O relativo sucesso dessa coletânea motivaria a Berkley Books a perguntar a Le Guin se ela tinha mais histórias de Orsinia, o que faria com que ela finalmente conseguisse publicar Malafrena, o primeiro romance que ela escreveu no cenário (devidamente revisado e atualizado), em 1979. Mais um conto ambientado em Orsinia, Two Delays on the Northern Line, seria publicado na revista New Yorker, também em 1979.

Antes disso, em 1978, seria a vez do lançamento de The Eye of the Heron, originalmente como parte da antologia Millenial Women, mas mais tarde, no mesmo ano, como um livro em separado, ambos pela Delacorte Press. A história começa 100 anos após a colonização do planeta Victoria, que não tem nenhuma comunicação com a Terra, e para onde foram enviadas duas naves de presidiários e uma de exilados políticos, e mostra o ponto de vista de diversos personagens quanto à colonização e à vida que eles levam no novo planeta. Embora Le Guin, em entrevistas, tenha declarado que "pode ser que The Eye of the Heron faça parte do Ciclo Hainiano", ele não é oficialmente assim considerado.

Na década de 1980, Le Guin decidiria investir em histórias para leitores mais jovens, lançando, inclusive, 11 livros infantis, quatro deles parte da série Catwings, cujos protagonistas eram filhotes de gato que, inexplicavelmente, nasceram com asas. Seu primeiro livro após tomar essa decisão seria The Beginning Place, lançado em 1980 pela Harper & Row, que, assim como Os Despossuídos, alterna seus capítulos entre dois cenários, a Terra e o mundo fantástico de Tembreabrezi. Voltado para jovens adultos, o livro acompanha dois adolescentes norte-americanos, Hugh Rogers e Irene Pannis, que descobrem uma passagem secreta para Tembreabrezi, onde se sentem mais em casa do que em suas próprias casas.

Mas sua principal obra do período seria Always Coming Home, lançado em 1985 também pela Harper & Row, que acompanhava Pandora, uma antropóloga nascida em um povo chamado Kesh, que habita a Terra em um futuro muito distante, centenas de anos após o colapso da sociedade moderna. Always Coming Home contrasta a vida e sociedade dos Kesh com a nossa, estudada por Pandora, e daria origem ao quarto universo criado por Le Guin (após Orsinia, Terramar e o Ciclo Hainiano), no qual também seriam publicados três contos: The Trouble with the Cotton People (1984, The Missouri Review), The Visionary (1984, na revista Parabola) e Time in the Valley (1985, The Hudson Review). As histórias ambientadas em Kesh também trazem poemas, rascunhos e esboços de animais e plantas, como se fossem um registro feito por Pandora.

Em 1990, Le Guin decidiria retornar a Terramar com Tehanu, quarto volume da série, lançado pela Atheneum Books, que acompanha mais uma vez Tenar. Segundo Le Guin, ela teria ficado insatisfeita com o papel da moça em As Tumbas de Atuan, pois, mesmo sendo a protagonista, ainda dependia muito dos homens, principalmente de Ged, e quis escrever uma nova história na qual ela fosse uma protagonista real. Tehanu seria considerado mais adulto que a trilogia original de Terramar, por ser mais sombrio e introspectivo, e renderia a Le Guin mais um Locus Award e mais um Nebula Award de Melhor Romance, o que faria com que ela se tornasse a primeira pessoa na história a ganhar três Nebulas nessa categoria.

No mesmo ano, Le Guin também retornaria ao Ciclo Hainiano, com o conto The Shobies' Story, publicado no primeiro volume da antologia Universe, da Ace Books. Em 1993, um novo conto do Ciclo, Dancing to Ganam, seria publicado na revista Amazing Stories, e, em 1994, mais um, Another Story, seria publicado na revista Tomorrow Speculative Fiction. Esses três contos ficariam conhecidos como "a trilogia de churten", já que todos tratam do mesmo tema, a viagem interestelar mais rápida que a luz, apelidada de churten - que também é usado como verbo, com uma nave "churtenando" (ou coisa assim) ao viajar de um planeta para outro em velocidade superior à da luz - em homenagem ao cientista que criou a teoria que a tornou possível, cujo nome era Churten. The Shobies' Story conta a história da tripulação da nave Shoby, que compartilha entre si suas experiências após o churten, Dancing to Ganam acompanha uma segunda viagem de dois membros da Shoby, dessa vez até o planeta Ganam, cuja sociedade ainda é pré-industrial, e Another Story, inspirada na lenda japonesa de Urashima Taro, acompanha um cientista que vai viajar do planeta O até Hain usando o churten, e se preocupa que, devido à dilatação temporal, perderá o contato com todos os seus entes queridos. Todas as três histórias estariam presentes, junto com outras cinco que não fazem parte do Ciclo Hainiano, na coletânea A Fisherman of the Inland Sea, lançada em 1994 pela Harper Prism.

Depois disso, Le Guin aparentemente se animaria e publicaria cinco histórias seguidas do Ciclo Hainiano: The Matter of Seggri (1993, revista Crank!) é ambientada no planeta Seggri, onde existe uma rigorosa segregação por gênero, e composta por cinco relatos de cinco pessoas diferentes, três mulheres e dois homens; Unchosen Love (1994, Amazing Stories) é ambientada no planeta O (de Another Story), no qual cada casamento é composto por quatro pessoas; Solitude (1994, The Magazine of Fantasy & Science Fiction) em um no qual a sociedade preza o isolamento ao invés da vida em comum; Coming to Age in Karthide (1995, antolgia New Legends, Legends Books) acompanha um habitante de Gethen passando pela adolescência e descobrindo a sexualidade pela primeira vez; Mountain Ways (1996, revista Asimov's Science Fiction) retorna ao planeta O, para acompanhar uma mulher que se envolve em um relacionamento proibido; e Old Music and the Slave Woman (1999, antologia Far Horizons, Avon Eos), acompanha o chefe de inteligência da embaixada do Ekumen no planeta Werel, onde a sociedade é escravagista e sexualmente reprimida, fazendo um relatório a seus superiores sobre a estupidez de um de seus subordinados. Todas essas histórias seriam reunidas, com mais quatro, na coletânea The Birthday of the World and Other Stories, lançada em 2002 pela Harper Collins, cuja história principal, The Birthday of the World, originalmente publicada em 2000 na The Magazine of Fantasy & Science Fiction, que acompanha uma criança durante as comemorações do aniversário de seu planeta, "pode ou não" ser do Ciclo Hainiano, segundo a própria Le Guin.

A principal publicação do Ciclo Hainiano na década de 1990, entretanto, seria Four Ways to Forgiveness, lançado em 1994 pela Harper Collins. Trata-se de uma coletânea de quatro histórias inéditas: Betrayal acompanha uma cientista e um militar com visões opostas sobre a integração de seu planeta, Yeowe, ao Ekumen, mas que acabam se tornando amigos; Forgiveness Day acompanha uma mulher nascida na Terra enviada para analisar o planeta Werel; A Man of the People acompanha um homem nascido em Hain e enviado para analisar Yeowe; e A Woman's Liberation acompanha uma mulher nascida escrava em Werel. Curiosamente, após o lançamento do livro, todas as quatro seriam publicadas em revistas, Betrayal na Blue Motel, ainda em 1994, as outras três na Asimov's Science Fiction, em 1995; A Woman's Liberation também faria parte da coletânea A Woman's Liberation: A Choice of Futures By and About Women, publicada em 2001 pela Hachette. Também em 2001, o livro seria relançado como Five Ways to Forgiveness, com o acréscimo de Old Music and the Slave Woman.

A última história do Ciclo Hainiano seria The Telling, romance publicado em 2000 pela Harcourt. A protagonista, Suki, é uma mulher descendente de indianos nascida na Terra, que viaja até o planeta Aka para atuar como observadora. Ao estilo cyberpunk (mas sem os demais elementos do gênero), Aka é governado pela Corporação, uma empresa privada capitalista que faz o papel de Estado, e proibiu todos os costumes e crenças relacionados à cultura de seus povos. O livro é como se fosse o relatório de Suki ao Ekumen, com suas observações sobre o conflito entre a Corporação e um grupo de nativos que resiste a abandonar suas tradições. The Telling tem como temas política, religião e preservação da cultura através das tradições orais, e renderia a Le Guin mais um Locus Award de Melhor Romance.

Em 2001, seria lançado, pela Harcourt, Tales of Earthsea, coletânea de seis contos ambientados em Terramar, dois deles previamente publicados: Dragonfly (1998, revista Legends) e Darkrose and Diamond (1999, The Magazine of Fantasy & Science Fiction). No mesmo ano, seria publicado, também pela Harcourt, o quinto e último romance de Terramar, The Other Wind, cujo protagonista, Alder, é um feiticeiro responsável pela proteção de um vilarejo que decide partir em uma jornada para tentar descobrir a origem de estranhos sonhos que está tendo. Le Guin ainda escreveria dois contos ambientados em Terramar, The Daughter of Odren, lançado exclusivamente em formato digital pela Harcourt em 2014, e Firelight, publicado em 2018 na revista The Paris Review. Também em 2018, a editora Saga Press lançaria The Books of Earthsea, coletânea que trazia todos os contos e romances ambientados em Terramar. Em 2004, o canal Sci Fi produziria uma minissérie em dois episódios inspirada nas histórias de Terramar, chamada Tales from Earthsea; Le Guin, porém, ficaria extremamente decepcionada, dizendo que a Terramar da minissérie não tinha absolutamente nada a ver com a que ela tinha imaginado para os livros.

Também em 2004, Le Guin criaria seu último universo ficcional, Annals of the Western Shore, que contaria com três romances: Gifts (2004), Voices (2006) e Powers (2007), todos lançados pela Harcourt. As histórias são ambientadas em cidades-estado localizadas no litoral ocidental de um reino medieval; a primeira tem como protagonistas Gry e Orrec, dois jovens pobres que descobrem ter habilidades psíquicas, tendo de aprender a lidar com elas; a segunda é protagonizada por Memer, menina que vive em uma cidade ocupada pelo brutal povo do deserto, que tenta impedir seus habitantes originais de preservar sua própria cultura; e o terceiro é centrado em Gavir, escravo que descobre ter o dom da premonição e é treinado para se professor de um jovem de família rica. Gry e Orrec fazem uma participação especial no segundo livro, e os dois e Memer são personagens importantes no terceiro. Powers renderia a Le Guin seu quarto Nebula Award de Melhor Romance, transformando-a na recordista da categoria.

Além de uma autora de sucesso, Le Guin também seria uma figura central na luta pelos direitos dos autores: em 1977, ela recusaria um Nebula Award de Melhor Conto por The Diary of the Rose, em protesto contra a revogação da filiação de Stanislaw Lem pela Associação dos Escritores de Ficção Científica da América, alegando que não fazia sentido ela receber de um grupo que pratica a intolerância política um prêmio por uma história que critica a intolerância política; em 2009, ela se desfiliaria da Guilda dos Autores da América, em protesto contra o apoio do órgão ao projeto do Google de digitalização de livros, que, em sua opinião, seria maléfico aos autores; e, em 2014, durante o National Book Awards, criticaria duramente a Amazon por sua influência sobre as editoras, em um discurso que ficaria famoso e seria reproduzido por várias emissoras de TV e rádio. Outro de seus discursos, na abertura do ano letivo da universidade Mills College, em Oakland, Califórnia, em 1983, seria considerado um dos 100 maiores discursos do século XX, e escolhido para preservação pela sociedade American Rethoric.

Le Guin faleceria em sua casa, em Portland, em 22 de janeiro de 2018, aos 88 anos de idade. Seu filho declararia que ela já estava com a saúde debilitada há meses, e que provavelmente havia tido um ataque cardíaco. Ela é hoje considerada uma das maiores autoras de ficção científica de todos os tempos, tendo influenciado toda uma geração de autores, dentre os quais podem ser citados Neil Gaiman, Jo Walton, Orson Scott Card e Salman Rushdie. Sem contar os que pertencem ao Ciclo Hainiano (17), Terramar (10), Orsinia (5) e Kelsh (3), ela publicaria nada menos que 67 contos entre 1962 e 2018, o que a torna uma das autoras norte-americanas com mais contos publicados. Em 2000, ela receberia o título de Lenda Viva pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, e, em 2016, entraria para um grupo seleto de autores cujas obras completas foram publicadas pela Library of America.
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domingo, 17 de julho de 2022

Escrito por em 17.7.22 com 0 comentários

Super Mouse

Esses dias eu estava pensando por onde anda o Super Mouse, que era bem popular quando eu era criança, mas, diferentemente de outros personagens da mesma época, como o Pica-Pau, parece ter sido esquecido. Enquanto tentava solucionar o mistério de seu desaparecimento, achei que seria um bom assunto para um post. Assim, hoje é dia de Super Mouse no átomo!

O Super Mouse foi criado em 1942 por Isidore Klein e Paul Terry, que trabalhavam para o estúdio Terrytons, fundado em 1929 por três sócios - sendo Terry um deles, por isso o estúdio tem seu nome - e se dedicava a produzir desenhos animados de curta metragem para exibição nos cinemas. Klein era um dos animadores do estúdio, e daria a ideia de produzir um desenho que seria ao mesmo tempo uma homenagem e uma paródia do Superman, que havia ganhado uma série de curtas animados para o cinema no ano anterior, produzidos pelos estúdios Fleischer. Klein faria o esboço de uma mosca vestida com o uniforme do Superman e apresentaria a Terry, que gostaria da ideia, mas sugeriria que o personagem fosse um rato, e não um inseto.

A estreia do Super Mouse seria em 16 de outubro de 1942, no curta The Mouse of Tomorrow - "o rato do amanhã", outra piada com o Superman, que tinha o apelido de "o homem do amanhã". Nesse desenho, os ratos da cidade de Mouseville viviam um reinado de terror causado pelos gatos, até que um jovem rato faminto decidiu enfrentar a morte certa para chegar ao supermercado. Lá, ele nadou numa tigela de super sopa, tomou banho com super sabonete, roeu um super aipo e comeu um super queijo, se transformando no Super Mouse. Com seus novos poderes, ele derrotaria os gatos, levando todos eles para a Lua, e traria a liberdade a seus amigos ratos.

Além de ter essa origem esquisita, o Super Mouse original era uma cópia exata do Superman, com os mesmos poderes que o Homem de Aço tinha na época, e um uniforme bastante parecido - camisa de mangas compridas e calças compridas na cor azul, sunga vermelha por cima da calça, capa e botas vermelhas e um cinto dourado, sendo as únicas diferenças luvas brancas ao estilo Mickey e um prendedor dourado no pescoço, para segurar a capa. Sua aparência, assim com a dos demais ratos de Mouseville e a dos gatos, era a característica de animais de desenhos animados da década de 1940, que parecem estar sempre meio despenteados e são predominantemente de cor preta. A principal diferença entre o Super Mouse e o Superman era que seus poderes não eram permanentes, com o ratinho tendo de passar por todo o ritual que lhe dava os poderes a cada novo desenho.

O desenho faria sucesso entre o público, mas não entre a crítica, que o consideraria debochado demais e muito dependente da paródia com o Superman. Por causa disso, a Terrytoons decidiria investir no personagem, mas trabalhar para que ele se tornasse mais independente: no segundo desenho, de novembro de 1942, seus poderes seriam reduzidos a superforça, invulnerabilidade e habilidade de voar, e no quarto, de junho de 1943, a origem de seus poderes mudaria, com o ratinho se transformando em Super Mouse após ingerir um frasco de "Vitaminas de A a Z". Ao todo, seriam produzidos sete desenhos do Super Mouse, o último estreando em 12 de novembro de 1943, e sendo a "versão Super Mouse" da fábula do ratinho e do leão.

No início de 1944, o Super Mouse passaria por mais uma reformulação. Esteticamente, ele simplesmente passaria a ter formas mais arredondadas e simpáticas - perdendo o bigode, por exemplo - mas essa reformulação também mudaria seu nome original em inglês, que passaria a ser Mighty Mouse (o "rato poderoso"; no Brasil, essa mudança jamais aconteceu, e o personagem continua sendo conhecido como Super Mouse até hoje). A razão oficial para a mudança foi que Terry descobriu que a revista Coo-Coo Comics, publicada pela editora Standard Comics, iria ganhar um personagem chamado Super Mouse, que não tinha nada a ver com o desenho, e, querendo evitar uma batalha na justiça pelo uso do nome, teria decidido mudá-lo; à boca pequena, entretanto, se comentava que, conforme o sucesso do desenho aumentava, crescia também o temor de Terry em ser processado pela DC Comics, o que o teria motivado a criar um nome sem qualquer relação com algum herói já existente.

O sucesso de The Lion and the Mouse, último no qual o personagem teve o nome de Super Mouse, faria com que a Terrytoons investisse em mais adaptações de clássicos da literatura, com o primeiro desenho de Mighty Mouse, The Wreck of the Hesperus, de 11 de fevereiro de 1944, sendo inspirado no poema homônimo de Henry Wadsworth Longfellow, e o terceiro, Mighty Mouse Meets Jeckyll and Hyde Cat, sendo inspirado no romance O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson. Dentre outros, também seriam adaptados O Flautista de Hamelin, As 1001 Noites, Cachinhos Dourados e os Três Ursos, A Família Robinson, O Galinho Chicken Little, e até mesmo fatos históricos, como a queda da cidade de Troia ou a Enchente de Johnstown, ocorrida na Pensilvânia em 1889. Algumas histórias também eram ambientadas em outras épocas, como a década de 1930, o Velho Oeste, a Guerra Civil Norte-Americana e até mesmo a Idade Média e a Pré-História.

O quarto desenho de Mighty Mouse, Eliza on Ice, de 16 de junho de 1944, inspirado em A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe, traria mais uma reformulação na aparência do personagem, que ficaria bem parecido com o que é hoje, mas com as cores trocadas: uniforme vermelho, com capa, sunga e botas amarelas. A partir desse desenho, o Super Mouse também deixaria de ser um rato comum que ganha poderes por qualquer motivo, passando a ser (assim como o Superman, diga-se de passagem) um alienígena, que vive entre as estrelas e voa correndo para a Terra toda vez que alguém precisa de sua ajuda. A reformulação final do personagem, feita pelo animador Connie Rasinski, ocorreria no oitavo desenho, Sultan's Birthday, de 13 de outubro de 1944, quando o Super Mouse ganharia a aparência e as cores que o acompanhariam pelo resto da carreira. É importante dizer que todos os desenhos do Super Mouse são autocontidos, ou seja, não produzem consequências para os seguintes nem sofrem as dos anteriores.

Ao todo, seriam produzidos 81 desenhos para o cinema, sendo 74 de Mighty Mouse, o último estreando em 31 de dezembro de 1961 - embora tenha havido dois longos hiatos sem o lançamento de nenhum, o primeiro e maior entre 1 de janeiro de 1955 e 1 de novembro de 1959, o segundo entre 1 de novembro de 1959 e 15 de dezembro de 1961. Em quase todos eles, os vilões são gatos, mas há um ou outro no qual os vilões são outros animais, e alguns raros nos quais o vilão é um ser humano - sendo o primeiro The Champion of Justice, o segundo após o personagem mudar de nome para Mighty Mouse, no qual Super Mouse enfrenta um homem que quer impedir que os ratos recebam uma herança deixada para eles por um casal de idosos sem família. Normalmente cada vilão só participava de um desenho, mas houve dois recorrentes: Julius "Pinhead" Schlabotka, um gato enorme, estúpido, mas tão forte quanto o Super Mouse, que participou de dois desenhos, um em 1949 e um em 1950, e Oil Can Harry, um gato industrial milionário que participou de 14 desenhos entre 1947 e 1953.

Os desenhos com Oil Can Harry, aliás, são parte de uma série, na qual o Super Mouse sempre tem de salvar de suas garras a mocinha Pearl Pureheart, inspirada em um outro desenho da Terrytoons, Fanny Zilch, produzido entre 1933 e 1937, que, por sua vez, era uma paródia do seriado The Perils of Pauline, lançado em 1914. Em cada um dos episódios, Fanny era sequestrada por uma versão humana de Oil Can Harry, que queria se casar com ela, e salva por seu namorado, J. Leffingwell Strongheart. Os desenhos do Super Mouse seguiam a mesma fórmula, incluindo números musicais cantados e uma recapitulação do episódio anterior - que não existia, com a recapitulação servindo apenas para justificar por que o desenho já começava com Pearl sequestrada e tendo de ser salva. Terry teria a ideia de parodiar sua própria criação graças ao sucesso de três desenhos anteriores de Super Mouse que tinham números musicais e uma mocinha em perigo salva pelo herói; um deles, Gypsy Life, de 3 de agosto de 1945, inclusive, receberia uma indicação ao Oscar de Melhor Curta-Metragem.

Os poderes do Super Mouse nos desenhos de Mighty Mouse são bastante inconsistentes; embora ele sempre tenha superforça, invulnerabilidade e voe, em alguns desenhos ele demonstra possuir um poder que viria bem a calhar em outro, no qual ele age como se não o tivesse. Esses poderes vão dos "normais", como visão de raios-x e supersopro, passando por telecinese e a habilidade de fazer o tempo correr ao contrário, até os verdadeiramente absurdos - no desenho Krakatoa, de 14 de dezembro de 1945, o Super Mouse pega o rastro que deixou no ar por voar e o molda como se fosse um objeto sólido. Também é comum o Super Mouse ser nocauteado por um vilão (mesmo sendo invulnerável), somente para acordar no último momento e salvar o dia. Uma piada recorrente nos desenhos mais recentes era o Super Mouse realizar algum feito quase impossível, o que levava o narrador a exclamar "what a mouse!" ("que rato!").

Em 1955, Terry decidiria se aposentar, e venderia a Terrytoons para a CBS, que pegaria os 78 desenhos até então existentes e os dividiria em 25 episódios de meia hora cada do desenho Mighty Mouse Playhouse. Exibido primeiro em preto e branco, depois em colorido (por uma questão puramente técnica dos aparelhos de TV, já que todos os curtas do cinema eram coloridos), Mighty Mouse Playhouse ficaria no ar, nos sábados pela manhã, de 10 de dezembro de 1955 a 2 de setembro de 1967, e seria o verdadeiro responsável pela popularidade do Super Mouse, já que seria graças a essa série que a maioria das crianças ficaria conhecendo o personagem - a maior parte do público que via os desenhos nos cinemas era de jovens adultos, que, apesar de acharem o personagem engraçado, não o viam como um verdadeiro super-herói como as crianças. A música de abertura do desenho, chamada Here I Come to Save the Day, escrita e composta por Marshall Barer e creditada a "The Terrytooners, Mitch Miller and Orchestra", também se tornaria um gigantesco sucesso, sendo inclusive lançada em formato single. A "fanfarra do Super Mouse", como ficaria conhecida, logo entraria para a cultura pop norte-americana, sendo inclusive referenciada em outras obras - até mesmo o famoso comediante Andy Kaufmann a incluiria em um dos seus esquetes, no qual ele ficava imóvel durante toda a música, exceto quando era cantado here I come to save the day, frase que interpretava com grande entusiasmo.

A popularidade de Mighty Mouse Playhouse animaria a CBS a encomendar a finalização de três desenhos do Super Mouse que estavam em pré-produção quando a Terrytoons foi vendida; esses desenhos também estreariam nos cinemas, um em 1959 e dois em dezembro de 1961, mas depois seriam reunidos em um 26o episódio da série. Por alguma razão, porém, depois desses a CBS não se animou a fazer mais - mesmo com a Terrytoons produzindo vários outros desenhos para o canal, como The Mighty Heroes e Deputy Dawg - e, após quase 12 anos de reprises no ar, é claro que a audiência da série começaria a cair, o que levaria o canal a retirá-la de sua grade. E assim o Super Mouse interromperia sua carreira pouco após os 25 anos de sua criação, ficando pela primeira vez em um quarto de século sem nenhum desenho sendo exibido no cinema ou na TV. Cinco anos depois, em 1972, a CBS decidiria fechar o estúdio Terrytoons definitivamente, com os direitos de todos os desenhos criados pelo estúdio passando para a Viacom International.

O exílio do Super Mouse duraria até 1979, quando o estúdio Filmation (responsável, dentre outras produções, pelo desenho do He-Man) negociaria com a Viacom a produção de um novo desenho para a TV. Como parte do acordo, a Filmation teria também de produzir novos desenhos de outros dois personagens da Terrytoons, os corvos Faísca e Fumaça (que se chamam, em inglês, Heckle e Jeckle); assim, ela decidiria criar um desenho dividido em segmentos, estrelados pelo Super Mouse, por Faísca e Fumaça, e por um novo personagem inventado pela própria Filmation, o Conde Quácula (que não deve ser confundido com o Conde Pátula, um desenho britânico que estrearia bem depois, em 1988), chamado The New Adventures of Mighty Mouse and Heckle & Jeckle.

The New Adventures of Mighty Mouse and Heckle & Jeckle estrearia na CBS em 8 de setembro de 1979; cada episódio teria uma hora de duração (incluindo os comerciais), dividido em seis segmentos de mais ou menos dez minutos cada, intercalados por vinhetas curtas educativas estrelando Super Mouse, Faísca e Fumaça. Em cada episódio, um dos segmentos era estrelado pelo Conde Quácula, dois por Faísca e Fumaça, e três pelo Super Mouse, sendo que, desses três, um sempre contava com a participação de Pearl Pureheart (que, na versão dublada, por algum motivo, se chamava Nelly) e Oil Can Harry, e um era sempre um episódio de um épico espacial em 16 partes chamado The Great Space Chase. Ao todo, 16 episódios seriam produzidos, o último indo ao ar em 22 de dezembro de 1979; em 1980, porém, o desenho ganharia uma "segunda temporada", com 32 episódios de meia hora cada, que, na verdade, eram os mesmos segmentos, mas arrumados de forma diferente - sempre um de Super Mouse, um de Faísca e Fumaça, e um terceiro que podia ser ou do Conde Quácula ou um dos episódios de The Great Space Chase. Em 1982, os 16 episódios de The Great Space Chase seriam editados e lançados nos cinemas como um filme de 80 minutos chamado Mighty Mouse in the Great Space Chase: The Motion Picture, que estrearia em 10 de dezembro.

A mais recente série do Super Mouse foi Mighty Mouse: The New Adventures, criada pelo animador Ralph Bakshi, que iniciou sua carreira na Terrytoons, e trabalhou nos três últimos curtas do personagem produzidos pelo estúdio em 1959 e 1961. Bakshi havia fundado, junto com o produtor John W. Hyde, uma empresa chamada Bakshi-Hyde Ventures, e estava oferecendo alguns de seus desenhos à CBS, que não se mostraria animada com nenhum deles, e perguntaria o que mais ele tinha. Sem saber o que mais oferecer, ele inventaria que tinha os direitos do Super Mouse, e a CBS se mostraria extremamente empolgada com a proposta, dando luz verde para que ele produzisse uma nova série do herói. Só que Bakshi não fazia a menor ideia de quem tinha os direitos, e, ao pesquisar, descobriu que era a própria CBS, que, aparentemente, também não sabia disso. Sem dizer nada sobre o assunto à emissora, ele se pôs a produzir a série.

Bakshi produziria 13 episódios de meia hora cada, cada um deles dividido em dois segmentos autocontidos. Para supervisionar o projeto, ele contrataria o diretor John Kricfalusi, que estava extremamente insatisfeito com a forma como os desenhos animados eram feitos na década de 1980 e decidiria dar liberdade total tanto aos roteiristas quanto aos animadores; o resultado foi que cada episódio tem um ritmo e um estilo diferentes, algo que foi considerado revolucionário para a época. O estilo usado para os traços dos personagens, a paleta de cores e o tipo de humor das piadas - apesar de o desenho ser para crianças, ele era cheio de piadas de duplo sentido e de paródias que talvez somente os adultos entenderiam - também seriam considerados à frente de seu tempo, e influenciariam toda uma geração de animadores que daria o tom dos desenhos animados dos anos 1990 - o próprio Kricfalusi seria o criador de Ren & Stimpy, e, dentre os que mais tarde diriam ter sido influenciados por Mighty Mouse: The New Adventures estariam Bruce Timm (produtor da série animada do Batman), Jim Reardon (roteirista de Tiny Toons), Tom Minton (roteirista de Animaniacs), Lynne Naylor (que trabalhou em As Meninas Superpoderosas e A Vaca e o Frango), Rich Moore (diretor de animação de Futurama) e até mesmo Chris Savino (criador de The Loud House), que declarou que foi esse desenho do Super Mouse que fez com que ele decidisse se tornar um animador.

Apesar de os roteiristas terem carta branca, Bakshi estabeleceria alguns parâmetros para deixar o Super Mouse mais de acordo com as convenções dos desenhos de super-heróis; assim, ele ganharia uma identidade secreta, a do trabalhador da construção civil Mike Mouse, um parceiro mirim, o ratinho órfão Scrappy, e colegas super-heróis, como Bat-Bat e a Liga dos Super-Roedores. Pearl participa de alguns episódios, mas não é mais a única mocinha em perigo da série, e Oil Can Harry não é mais o único vilão recorrente, com o Super Mouse tendo agora como arqui-inimigos Petey Pate, Big Murray, Madame Marsupial e o Vaca. Alguns outros personagens da Terry Toons, como os Mighty Heroes (criados pelo próprio Bakshi), Deputy Dawg, Gandy Goose e Faísca e Fumaça também fazem participações especiais em alguns episódios. Para cortar custos, alguns episódios também traziam "flashbacks" e "sequências de sonhos" que, na verdade, utilizavam cenas de antigos desenhos da Terrytoons produzidos para o cinema. A música de abertura, por outro lado, seria regravada, em uma versão a capella, e com a letra levemente modificada.

Mighty Mouse: The New Adventures (As Novas Aventuras do Super Mouse no Brasil) estrearia na CBS em 19 de setembro de 1987, com a primeira temporada sendo exibida até 1 de dezembro daquele ano. Seria um grande sucesso, o que faria a emissora encomendar uma segunda temporada, que estrearia em 18 de setembro de 1988. Por alguma razão, entretanto, mesmo com a audiência ainda sendo boa, a CBS desistiria da produção após apenas seis episódios, o último indo ao ar em 22 de outubro de 1988, para um total de 19 episódios (e 38 segmentos). Todos os 19 episódios seriam reprisados na Fox Kids em 1992, na última vez em que o Super Mouse esteve na tela da TV.

Além de no cinema e TV, o Super Mouse também foi astro de várias histórias em quadrinhos, as primeiras sendo publicadas em 1945 na revista Terry-Toons Comics. No início, a revista era publicada pela Timely Comics (uma das antecessoras da Marvel), que, em 1946, também lançaria uma revista chamada Mighty Mouse, mas, em 1947, o contrato da Terrytoons com a Timely se encerraria, e Terry decidiria, ao invés de renovar, fazer um com a St. John Publications, que assumiria tanto a Terry-Toons Comics quanto a Mighty Mouse, publicando-as com numeração que considerava a da Timely (com a Terry-Toons Comics começando da 60 e a Mighty Mouse da 5). Em 1951, a St. John decidiria renomear a Terry-Toons comics para Paul Terry's Comics, mantendo a numeração, e, em 1955, manteria nela apenas as histórias do Super Mouse e mudaria seu nome para The Adventures of Mighty Mouse, mas ainda mantendo a numeração. Em resumo, pela Timely, o Super Mouse estaria em 22 edições da Terry-Toons Comics (38 a 59, de 1945 a 1947) e 4 da Mighty Mouse (1 a 4, 1946), enquanto pela St. John ele estaria em 26 da Terry-Toons Comics (60 a 85, de 1947 a 1951), 40 da Paul Terry's Comics (86 a 125, de 1951 a 1955), 3 da The Adventures of Mighty Mouse (126 a 128, 1955) e 63 da Mighty Mouse (5 a 67, de 1947 a 1955).

Em 1953, a St. John também colocaria histórias do Super Mouse na Three Dimension Comics, a primeira revista em quadrinhos em 3D do mercado (que vinha com um daqueles óculos de papel com uma lente vermelha e uma verde); apesar de custar 25 cents, mais que o dobro de uma revista em quadrinhos comum da época, a Three Dimension Comics 1 venderia nada menos que 1,2 milhões de cópias, número considerado absurdo ainda hoje. A Three Dimension Comics teria ao todo três edições, todas com histórias do Super Mouse e todas lançadas em 1953, mas apenas a primeira seria bem-sucedida, o que levaria a seu cancelamento.

Em 1955, após adquirir a Terrytoons, a CBS decidiria rever todos os contratos assinados por Terry, e rescindiria o da St. John, passando as publicações do Super Mouse para a Pines Comics, com quem já tinha um contrato. Por questões legais, a Pines só poderia começar a usar o Super Mouse em 1956; como as últimas revistas da St. John haviam sido publicadas em maio de 1955, isso causou o primeiro hiato na publicação dos quadrinhos de Super Mouse desde 1945. A Pines relançaria a Mighty Mouse (inicialmente com o nome de Paul Terry's Mighty Mouse) e a The Adventures of Mighty Mouse, ambas mantendo a numeração da St. John; assim, pela Pines, o Super Mouse apareceria em 4 edições da Paul Terry's Mighty Mouse (68 a 71, 1956), 12 da Mighty Mouse (72 a 83, de 1956 a 1959) e 16 da The Adventures of Mighty Mouse (129 a 144, de 1956 a 1959).

Em 1959, a Pines seria comprada pela Western Publishing Company, que cancelaria a Mighty Mouse, mas passaria a The Adventures of Mighty Mouse para sua parceira Dell Comics, que manteria a numeração. Seriam 12 edições (144 a 155, de 1959 a 1961), até que a Western decidisse, em 1962, criar sua própria editora de quadrinhos, a Gold Key Comics, que assumiria a The Adventures of Mighty Mouse, publicando mais 5 edições (156 a 160, de 1962 a 1963). Se sentindo prejudicada, a Dell recorreria à justiça e ganharia o direito de voltar a publicar a revista, lançando mais 12 edições (161 a 172, de 1964 a 1968), até a CBS decidir não renovar o contrato, pois já ia fazer um ano que o Super Mouse estava fora da TV, e ela não via sentido em seguir com os quadrinhos.

O Super Mouse retornaria aos quadrinhos quase vinte anos depois, em 1987, em uma minissérie em quatro edições, também chamada Mighty Mouse, publicada pela Spotlight Comics. Com o sucesso de Mighty Mouse: The New Adventures, a CBS decidiria fazer um contrato com a Marvel, que, em 1990, lançaria mais uma revista chamada Mighty Mouse, mas inspirada na série de Bashki, que teria 10 edições, publicadas em 1990 e 1991, a maioria delas parodiando grandes clássicos dos quadrinhos, como Crise nas Infinitas Terras. A mais recente aparição do Super Mouse nos quadrinhos foi uma minissérie em cinco edições publicada entre 2017 e 2018 pela Dynamite Entertainment. Todas essas têm numeração própria (começando do 1), desconsiderando a numeração das lançadas entre 1945 e 1968.

Desde 2004, a Paramount, que é uma espécie de parceira da CBS, tenta fazer um filme do Super Mouse, misturando atores e personagens de computação gráfica, mais ou menos como em Stuart Little. As mais recentes notícias sobre esse filme datam de antes da pandemia, em 2019, quando Jon e Erich Hoeber foram contratados para escrever um roteiro. A atual situação do projeto é desconhecida.
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