sábado, 28 de fevereiro de 2026

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Alhambra

Hoje eu vou falar sobre um dos primeiros jogos de tabuleiro que eu comprei quando decidi que iria comprar esses novos. Hoje é dia de Alhambra no átomo!

Alhambra (que tem um H mudo, sendo pronunciada "alambra") é o nome de uma fortaleza localizada na cidade de Granada, Espanha, construída no século XIII a mando de Abu Abdullah Muhammad ibn Yusuf ibn Nasr, fundador do Emirado de Granada e primeiro emir da Dinastia Nasrid, que governou parte da Península Ibérica durante a invasão dos mouros. Declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO em 1984, Alhambra contém um dos mais bem preservados palácios da arquitetura islâmica, e atrai milhares de visitantes todos os anos. O jogo de tabuleiro é ambientado durante a construção da fortaleza, que será feita pelos jogadores.

Alhambra é uma criação do alemão Dirk Henn, nascido em 1960 na pequena cidade de Bendorf, que vinha de uma família com a tradição de jogar jogos de tabuleiro, e sempre achou interessante que os adultos gostavam de jogar entre eles, e não somente com as crianças. Em 1979, ele se mudaria para Aachen para estudar ciência da computação, e conheceria vários outros jovens que também tinham interesse em jogos de tabuleiro, começando a desenvolver com eles seus próprios jogos. No final da década de 1980, ele conheceria Barbara, que se tornaria sua namorada e posteriormente sua esposa; ela acharia muito interessantes suas ideias para jogos, e decidiria ajudá-lo a fazer protótipos, com Dirk ficando responsável pelas regras e Barbara pelas artes. Eles mostrariam esses protótipos em várias feiras de jogos da Alemanha, mas não conseguiriam contrato com nenhuma editora para lançá-los.

Depois de algum tempo, porém, Dirk e Barbara começariam a receber cartas de pessoas que os conheceram nessas feiras, gostaram de seus protótipos e estavam interessados em comprá-los. Quando eles respondiam que ainda não tinham um contrato com uma editora para um lançamento oficial dos jogos, os interessados respondiam que tudo bem, se contentavam em comprar os protótipos do jeito que estavam mesmo - sem caixa e com materiais de qualidade inferior aos lançados por editoras, por exemplo. Dirk e Barbara, então, decidiriam investir um dinheiro para criar sua própria editora, que chamariam de db-Spiele (db sendo as iniciais de Dirk e Barbara, e Spiele sendo "jogo" em alemão), e venderiam seus jogos sob encomenda, ao invés de colocá-los no mercado. Durante as feiras de jogos, eles produziriam uma quantidade maior dos jogos e as levariam para vender diretamente, e seria assim que eles chamariam a atenção da Queen Games, uma das maiores editoras de jogos de tabuleiro da Alemanha.

O jogo que chamaria a atenção da Queen Games se chamava, originalmente, Premiere, e, nele, os jogadores eram promotores de espetáculos, tendo a missão de montar os shows mais variados usando cartas que representavam atores de diferentes especialidades e habilidades. Originalmente lançado em 1995, Premiere seria o sétimo jogo da db-Spiele, e acabaria relançado em 1996 pela Queen Games com o nome de Showmanager, alcançando um grande sucesso e sendo indicado ao Spiel des Jahres, o mais importante prêmio da indústria dos jogos de tabuleiro.

Mas o jogo que nos interessa para esse post é o primeiríssimo da db-Spiele, chamado Al Capone, lançado em 1992. Inspirado no famoso Rummikub, Al Capone colocava os jogadores no papel de mafiosos brigando pelo controle de uma cidade, devendo usar cartas de influência para conseguir que locais como a Destilaria, a Lavanderia Chinesa e a Casa de Apostas paguem por sua proteção e dividam com eles seus lucros. Ao longo do jogo, em momentos determinados por certas situações, os pontos dos jogadores serão contados, e aquele com a maior pontuação após a terceira contagem será o vencedor.

A Queen Games se interessaria pela mecânica de Al Capone, mas não gostaria do tema, e pediria para que Dirk o mudasse para um jogo de compra e venda de ações, para aproveitar o sucesso de dois outros jogos parecidos, Airlines, de 1990, e Union Pacific, de 1998. Assim, Dirk manteria as regras, apenas com pequenas alterações, mas mudaria a temática do jogo para que os jogadores fossem acionistas de uma grande empresa, negociando suas ações em dólares, euros, rublos e ienes, buscando se tornar o que tem a carteira de ações mais valiosa após a terceira contagem de pontos. Esse jogo seria lançado em 1999 com o nome de Stimmt So!, e seria o terceiro de Dirk e Barbara lançado pela Queen Games, depois de Carat, de 1997, um jogo abstrato no qual os jogadores usam peças de diferentes cores para cercar e capturar pontos em um tabuleiro.

Ao contrário de Showmanager, porém, nem Carat, nem Stimmt So! fariam sucesso, tendo baixas vendas e não sendo indicados ao Spiel des Jahres. Em uma pesquisa de opinião, a Queen Games descobririam que os jogadores acharam seus componentes pobres e sua arte de baixa qualidade, não se interessando em comprá-los só pelas regras. A editora ainda considerava as regras dentre as melhores criadas pelo designer, porém, de forma que, em 2003, após lançar três outros jogos criados por Dirk de grande sucesso, Metro (2000), Atlantic Star (2001) e Wallenstein (2002), todos indicados ao Spiel des Jahres, eles fariam uma proposta para um relançamento de Stimmt So!, com uma nova arte e componentes da mais alta qualidade. Dirk, contudo, não gostava do tema de compra e venda de ações, e considerava que esse também pudesse ter sido um fator determinante para o insucesso nas vendas. Assim, ele mudaria mais uma vez algumas regras, colocaria os jogadores no papel de arquitetos, e apresentraria a ideia de Alhambra à Queen Games.

As mudanças feitas por Dirk fariam tanto sucesso que não somente Alhambra (cujo nome original em alemão é Der Palast von Alhambra, "O Palácio de Alhambra") ganharia o Spiel des Jahres de 2003 como se tornaria o jogo mais vendido da história da Queen Games e passaria a ser o produto principal de seu catálogo. Em 2004, a editora pediria para que ele "alhambrizasse" também Carat, o que resultaria em Die Gärten der Alhambra ("Os Jardins de Alhambra") e, em 2006, seria lançado Alhambra: Das Würfelspiel ("o jogo de dados"), no qual são usados apenas dados, em uma mecânica similar à de Yahtzee. Além disso, apesar de ser uma evolução de Stimmt So!, Alhambra tem muitos outros componentes além das cartas, o que levaria, em 2007, ao lançamento de uma versão mais parecida com a original, chamada Alhambra: The Card Game, que faria tanto sucesso que ganharia três versões temáticas nos anos seguintes, cada uma substituindo Alhambra por outra cidade (Bonn, Nova Iorque ou Amsterdam); essa ideia viria graças ao sucesso de Troisdorf, de 2005, versão de Alhambra que substitui a fortaleza espanhola pela cidade alemã onde fica a sede da Queen Games.

Entre 2004 e 2008, Alhambra também ganharia cinco expansões (na época chamadas de "extensões"); em 2009, o jogo base e as cinco expansões seriam reunidos em uma únca caixa, chamada Alhambra Big Box. Em 2013, em comemoração aos dez anos do lançamento do jogo base, seria lançada uma sexta expansão, e, em 2014, uma Alhambra Big Box: Special Edition, contendo o jogo base e as seis expansões. Em 2019, Alhambra ganharia uma Segunda Edição, com regras revisadas e nova arte em todos os componentes, que seria lançada no Brasil pela Devir (e foi essa que eu comprei, e cujas regras vou descrever nesse post). As expansões para a segunda edição jamais seriam lançadas separadamente, mas foram reunidas ao jogo base em uma Alhambra Big Box Second Edition, em 2021. O mais recente lançamento da linha é Alhambra: Family & Friends Edition, de 2024, uma edição compacta e com regras simplificadas, que já vem com as quatro primeiras expansões. Dirk Henn segue lançando novos jogos pela Queen Games, como Powerline (2022) e Moonlight Market (2024), mas são os direitos de Alhambra os responsáveis pela maior parte de sua renda.


Alhambra é um jogo para de 2 a 6 jogadores. Seus componentes são 6 peças iniciais (uma para cada jogador), cada uma mostrando a Fonte do Leão, parte central da fortaleza; 54 peças de edifícios (divididos em pavilhões, haréns, arcadas, aposentos, jardins e torres), cada uma podendo ter de 1 a 3 muros; 1 tabuleiro de jogo; 1 tabuleiro de pontuação; 6 marcadores de pontuação (um para cada jogador, nas cores amarela, azul, branca, laranja, verde e vermelha); 6 tabuleiros de provisão de peças com tabela de pontos (um para cada jogador); 108 cartas de dinheiro, divididas em dinares (azuis), dirames (verdes), ducados (laranja) e florins (amarelos), com valores que vão de 1 a 9; 2 cartas de pontuação; e 1 torre dispensadora de peças.

Durante a preparação, o tabuleiro de jogo é colocado no centro da mesa, com o tabuleiro de pontuação a seu lado. Cada jogador escolhe uma cor e recebe sua peça inicial, colocando-a à sua frente, e seu marcador de pontuação, colocando-o na casa 0/100 do marcador de pontuação; cada jogador recebe também um tabuleiro de provisão, que coloca próximo à sua peça inicial. As peças de edifício são embaralhadas e colocadas na torre; as quatro de cima são retiradas e colocadas nos quatro espaços do Mercado de Edifícios do tabuleiro, começando pelo espaço 1.

As cartas de dinheiro são embaralhadas para formar um monte de compras, usado nos próximos passos. O primeiro é dar a cada jogador seu dinheiro inicial: cada jogador recebe, um por vez, uma carta, que deve poder ser vista por cada um dos outros jogadores, com seus valores sendo somados (sem importar suas cores) até que cheguem a ou ultrapassem 20; quando isso ocorrer, o jogador recolhe suas cartas, que deverão ser mantidas em segredo dos demais jogadores até o fim da partida. O jogador com a menor quantidade de cartas (independentemente dos valores expressos nelas, ou de seu valor total) será o que começará o jogo, com os demais seguindo no sentido horário.

Após todos os jogadores receberem seu dinheiro inicial, as quatro cartas do topo do monte de compras são colocadas nos espaços correspondentes do tabuleiro. Finalmente, o monte de compras é dividido em cinco montes menores, aproximadamente todos do mesmo tamanho (não é necessário que todos tenham exatamente o mesmo número de cartas). A carta de pontuação marcada como "primeira pontuação" deve ser inserida no segundo monte, e a marcada como "segunda pontuação" inserida no quarto monte. O monte de compras então é reconstituído, com o quinto monte por baixo, o quarto por cima dele, então o terceiro, o segundo e o primeiro no topo; quando for repor o dinheiro do tabuleiro, se um jogador comprar uma carta de pontuação, ocorrerá uma pontuação naquela rodada. O monte de compras é então colocado no local indicado do tabuleiro.

Em sua vez de jogar, um jogador poderá escolher uma dentre três ações, realizá-la e então passar a vez para o jogador seguinte. A primeira das três ações possíveis é Tirar Dinheiro, que também é a mais simples: o jogador escolhe uma das cartas de dinheiro que estão abertas no tabuleiro, pega e coloca na sua mão. Um jogador pode pegar mais de uma carta de uma só vez, desde que a soma de seus valores não ultrapasse 5 - nesse caso, as cores das cartas não importam. Antes de passar a vez ao seguinte, o jogador deve comprar cartas do topo do monte de compras e colocá-las nos lugares onde estavam as cartas que pegou; caso o monte de compras tenha terminado, o monte de descartes é reembaralhado para formar um novo monte de compras.

A segunda ação possível é Comprar uma Peça de Edifício; para isso, o jogador deve escolher uma das quatro peças disponíveis no Marcado de Edifícios, e pagar por ela uma ou mais cartas que somem o valor expresso na peça. Cada um dos espaços do Mercado requer uma cor de dinheiro diferente, e todas as cartas de dinheiro usadas pelo jogador devem ser dessa cor - note que cada tipo de edifício também tem uma cor diferente, sendo que a cor que vale é a do tabuleiro, não a da peça: em uma peça de jardim, o valor das cartas estará impresso dentro de um círculo verde, mas, se a peça estiver no espaço correspondente aos dinares, as cartas usadas pelo jogador deverão ser azuis, não verdes. As cartas usadas pelo jogador são colocadas em um monte de descartes, no local indicado no tabuleiro. Não existe troco: se o jogador usar cartas que ultrapassem o valor requerido, ele perde o excedente. Caso um jogador use o valor exato para comprar a peça, porém, ele ganha direito a um novo turno, podendo realizar qualquer uma das três ações possíveis novamente. Antes de passar a vez ao seguinte, o jogador deverá repor as peças que comprou com novas do topo da Torre.

Uma peça comprada por um jogador não é imediatamente incorporada a seu Alhambra, e sim colocada à sua frente. No fim de seu turno em que comprar uma peça, antes de passar a vez ao seguinte, o jogador deverá Posicioná-la, colocando-a em seu Alhambra ou em seu tabuleiro de provisão - não há limite para quantas peças um jogador pode ter em seu tabuleiro de provisão, com elas sendo empilhadas no espaço correspondente, mas peças lá não valem pontos, somente no Alhambra. Se for colocar a peça em seu Alhambra, o jogador deve seguir cinco regras: todas as peças devem estar na mesma orientação (com todos os telhados apontando para cima, e todos os custos nos cantos inferiores direitos), todos os lados adjacentes devem ser iguais (muro encosta em muro, lado aberto encosta em lado aberto), cada peça deve estar ligada a outra por um lado inteiro (e não apenas por um canto), não se pode deixar um espaço vazio completamente rodeado de peças, e a mais importante: deve ser possível, saindo da fonte, visitar todos os edifícios "a pé", sem que um visitante imaginário tenha que saltar um muro ou atravessar um espaço sem peças.

A terceira ação possível é Redesenhar seu Alhambra, o que pode ser feito de três formas: pegando uma peça de seu tabuleiro de provisão e colocando-a em seu Alhambra, pegando uma peça de seu Alhambra e colocando-a em seu tabuleiro de provisão, ou trocando uma peça de seu Alhambra por uma de seu tabuleiro de provisão. As cinco regras do parágrafo anterior devem ser obedecidas, e não é permitido remover ou trocar sua peça inicial.

Uma partida possui três rodadas de pontuação; toda vez que um jogador receber pontos, ele deverá avançar seu marcador no tabuleiro de pontuação um igual número de casas. As duas primeiras rodadas de pontuação ocorrem quando um jogador compra uma carta de pontuação quando for repor o dinheiro do tabuleiro; a carta é colocada à sua frente, o restante do dinheiro é reposto e, antes de o jogador seguinte começar seu turno, é feita a pontuação, com a carta sendo removida do jogo ao final. Na primeira pontuação, o jogador que tiver em seu Alhambra a maior quantidade de cada um dos seis tipos de edifício recebe os pontos descritos na carta (por exemplo, quem tiver o maior número de aposentos ganha 4 pontos); na segunda, ganham pontos o jogador com mais daquele edifício e também o que ficar em segundo lugar (por exemplo, quem tem mais aposentos ganha 11 pontos, o segundo que tiver mais aposentos ganha 4), sendo que um jogador que não tenha nenhum de um determinado tipo de edifício não se qualifica para receber a pontuação. Em ambas as pontuações, cada jogador também ganha 1 ponto por cada carta de muro contínuo que circunde seu Alhambra, não sendo considerados muros internos.

A partida termina quando um jogador tiver de repor as peças do Mercado de Edifícios, mas não houver mais nenhuma peça na torre. Nesse momento, os jogadores revelam seu dinheiro restante, e cada peça ainda no Mercado vai para o jogador que tiver a maior quantidade da cor correspondente, mesmo que não seja o suficiente para pagar por seu custo. Cada jogador que receber uma peça a Posiciona de acordo com as regras normais; depois disso, ocorre a terceira e última rodada de pontuação, na qual cada jogador receberá pontos por seu muro e os três jogadores com a maior quantidade de cada edifício em seu Alhambra receberão os pontos descritos no tabuleiro de provisão (que também tem os pontos das duas primeiras pontuações, para ajudar). Depois que todos os pontos tiverem sido somados, o jogador com mais será o vencedor, sendo possível o jogo terminar empatado.

Alhambra não tem um modo solo, mas vale citar que as regras para dois jogadores são na verdade uma partida para três jogadores contando com um "jogador fantasma" chamado Dirk (na versão brasileira ele se chama Rui, que é o nome do tradutor, Rui Ferrão). Dirk não tem um turno, não constrói um Alhambra nem Tira Dinheiro, mas recebe 6 peças de edifício no início do jogo, mais 6 após a a primeira pontuação, e um terço das peças restantes na torre, arredondado para baixo, após a segunda; além disso, ao Posicionar uma Peça, ao invés de colocá-la em seu Alhambra ou em seu tabuleiro de provisão, um jogador, se quiser, poderá dá-la para Dirk. Dirk nunca pontua pelo muro, mas pontua pela quantidade de edifícios normalmente.

Em 2023, para comemorar os vinte anos do lançamento do jogo original, seria lançada Alhambra: The Red Palace, através de um financiamento no Kickstarter, que trazia um novo elemento, os guardas, simbolizados por ícones presentes nas peças de edifício. Guardas presentes no muro mais longo de um jogador valem pontos extras durante a pontuação final, e peças com guardas podem ser descartadas ao Redesenhar o Alhambra, garantindo ações extras. Mas a principal característica de The Red Palace (que também tem esse nome no original alemão) são 89 miniaturas de madeira para simbolizar os edifícios: nessa versão do jogo, as peças não possuem as figuras dos edifícios, com fichas que têm essas figuras sendo sorteadas de uma bolsa e colocadas sobre elas quando estiverem no Mercado; quando um jogador compra a peça, descarta a ficha e a substitui pelo edifício correspondente.

As "extensões" de Alhambra seriam criada por Dirk Henn e Wolfgang Panning; cada uma delas traria quatro módulos, que poderiam ser adicionados ao jogo separadamente ou em qualquer combinação, sendo possível, inclusive, combinar módulos de expansões diferentes. A primeira, de 2004, seria Die Gunst des Wesirs ("o favor do vizir"), na qual o primeiro módulo trazia um Vizir para cada jogador, que poderia ser usado para comprar uma peça de edifício fora de seu turno, desde que o jogador tivesse a quantia exata para pagar por seu preço, e recuperado gastando a ação do turno do jogador; o segundo adicionava cartas especiais ao baralho que permitiam que o jogador combinasse cartas de dinheiro de cores diferentes para pagar por edifícios; o terceiro trazia cartas distribuídas aos jogadores no início do jogo que lhes confeririam bônus na pontuação caso eles tivessem determinados edifícios em seu Alhambra; e o quarto trazia cabanas de construtores que podiam ser posicionadas sobre as peças de edifício do Alhambra gastando a ação do turno do jogador, e contavam como um edifício extra do mesmo tipo presente na peça.

A segunda expansão seria Die Tore der Stadt ("os portões da cidade"), também de 2004, na qual o primeiro módulo traria portões e cartas de portão que deveriam ser adicionadas ao baralho; um jogador, ao pegar uma carta de portão, poderia colocar um portão sobre um de seus muros internos, o que fazia com que as duas peças fossem consideradas conectadas para um caminho a pé como se o muro não existisse. O segundo trazia cartas de diamantes, também adicionadas ao baralho, que serviam como curingas, podendo ser usadas para pagar por preços de qualquer cor, mas não podiam ser combinadas com cartas de dinheiro de outras cores. O terceiro trazia peças de campos, que somavam pontos por edifícios adjacentes a eles e podiam ser compradas e posicionadas no Alhambra como qualquer edifício, mas seguindo duas regras especiais: deveriam ser separados do restante da Alhambra por um muro, e não poderiam ser adjacentes a outros campos. O quarto trazia cartas de personagens, que deveriam ser adicionadas ao baralho, e, assim que uma fosse comprada, leiloada, garantindo uma habilidade especial ao jogador que pagasse o maior preço por ela.

A terceira, de 2005, seria Die Stunde der Diebe ("a hora do ladrão"), na qual o primeiro módulo adicionava ao baralho cartas de muro; um jogador que comprasse uma poderia adicionar um muro a uma peça de seu Alhambra que não tivesse uma, mas ele não poderia ser removido até o fim do jogo nem ganhar um portão. O segundo trazia 12 cartas de ladrão, distribuídas aos jogadores durante a preparação; entre os turnos de dois oponentes, um jogador poderia descartar um de seus ladrões para pegar do tabuleiro uma carta de dinheiro da mesma cor que ele. O terceiro adicionava moedas, recebidas como troco quando um jogador pagasse um valor maior que o necessário, e que podiam ser usadas para pagar por edifícios normalmente. E o quarto trazia mercadores, que podiam ser posicionados no Alhambra do jogador seguindo regras bem específicas e valendo pontos no fim do jogo conforme sua quantidade.


A quarta, de 2006, seria Die Schatzkammer des Kalifen ("o tesouro do califa"), e seu primeiro módulo adicionava baús de tesouro que poderiam ser comprados por um jogador fora de seu turno e colocados em seu Alhambra em peças de edifícios da cor correspondente, valendo pontos extras no fim do jogo por sua quantidade; o segundo trazia cartas de construtores, distribuídas aos jogadores durante a preparação, que podiam ser descartadas para comprar peças de edifício ou para mudar uma peça de edifício de lugar no Alhambra; o terceiro trazia peças de bazar, colocadas ao lado das quatro do tabuleiro quando retiradas da torre, que podiam ser compradas pelo valor exato da peça de mesma cor no Mercado, posicionadas no Alhambra pelas regras normais, e que valiam pontos no fim do jogo pelo número de edifícios da mesma cor do bazar adjacentes a ele. E o quarto trazia cartas de invasor, adicionadas ao baralho, e de batedor, distribuídas ao jogador; cartas de batedor poderiam ser descartadas para ver com antecedência qual era a carta de invasor seguinte, e, quando uma carta de invasor fosse comprada, os jogadores perdiam pontos por cada peça de edifício em seu Alhambra sem um muro apontado na direção especificada.

A quinta, Die Macht des Sultans ("o poder do sultão"), de 2008, trazia em seu primeiro módulo cartas de caravana, que tinham um custo variável de acordo com os tipos de edifício no Alhambra do jogador; cada jogador poderia comprar até duas durante seus turnos, e cada carta fornecia uma "renda" a cada turno subsequente após comprada. O segundo trazia marcadores de cultura, com cada jogador ganhando um sempre que construísse dois edifícios da mesma cor; em seu turno, gastando sua ação, o jogador poderia usá-los, ganhando pontos pelo número de edifícios da mesma cor que o marcador. O terceiro traria cartas de pontuação alternativas, com valores diferentes para cada tipo de edifício. O quarto trazia cartas de sultão e um dado especial; as cartas podiam ser compradas pelo jogador durante seu turno, com o dado sendo rolado e o jogador podendo pegar de graça o próximo edifício com o valor que saísse no dado quando ele aparecesse no Mercado, descartando o sultão.

A sexta expansão, Die Falkner ("os falcoeiros"), seria lançada em 2013, e traria em seu primeiro módulo falcoeiros que podiam ser comprados pelos jogadores e colocados nas interseções entre quatro edifícios de seu Alhambra, valendo pontos extras no fim do jogo; o segundo trazia portais que poderiam ser usados para pontuar muros que não fossem o maior contínuo; o terceiro trazia cartas especiais que permitiam que o jogador comprasse edifícios pela metade do valor, mas com a desvantagem de que esses edifícios só pontuariam no fim do jogo; e o quarto trazia cartas de certificado, que o jogador ganhava ao pagar por um edifício um valor maior que o listado, que podiam ser usados para comprar novos edifícios seguindo regras específicas.

Além das seis expansões oficiais, Alhambra também teria duas expansões promocionais. A primeira adicionaria seis "edifícios mágicos" ao jogo, que valiam pontos extras quando posicionados no Alhambra de acordo com os edifícios "normais" adjacentes a eles. A segunda trazia 9 peças de medina, que podiam ser compradas e posicionadas no Alhambra seguindo as regras normais; em cada pontuação, os jogadores com a menor quantidade de medinas perdiam pontos. Finalmente, em 2019, uma campanha no Kickstarter financiaria uma edição especial do jogo chamada Alhambra: Designer's Edition, que trazia o jogo base e nada menos que 16 novos módulos, criados por Dirk Henn, Emanuele Ornella, Klaus-Jürgen Wrede, Marco Ruskowski & Marcel Süsselbeck, Michael Schacht, Michael Rieneck, Mike Elliott, Rüdiger Dorn, Stefan Feld (todos criadores de jogos de tabuleiro famosos na Alemanha) e por dois jogadores selecionados através de um concurso. Como essa foi uma edição limitada que não está mais à venda, vou me abster de falar sobre esses módulos e encerrar por aqui.
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sábado, 21 de fevereiro de 2026

Escrito por em 21.2.26 com 0 comentários

Universo Cinematográfico Marvel (XVI)

E hoje seguiremos com a série de posts sobre a Fase 5 do MCU!

Invasão Secreta
Secret Invasion
2023

Nos quadrinhos, Invasão Secreta foi uma saga da Marvel que durou todo o segundo semestre de 2008, cuja história principal transcorreu em uma minissérie com roteiro de Brian Michael Bendis e arte de Leinil Francis Yu, enquanto histórias secundárias eram publicadas em quase todas as revistas mensais da editora. Nela, é descoberto que, durante anos, como parte de um plano para se vingar da derrota na Guerra Kree-Skrull, skrulls substituíram alguns dos principais heróis da Terra, revelando agora sua verdadeira identidade para colocar esse plano em movimento. Além de ter de lidar com a decepção de descobrir que aparentes aliados eram na verdade inimigos, os heróis Marvel passariam a agir com extrema desconfiança, já que qualquer um poderia ser um skrull disfarçado.

Com a introdução dos skrulls no MCU em Capitã Marvel, de 2019, a ideia de fazer um filme baseado em Invasão Secreta ganharia força dentre os executivos dos Marvel Studios. Em setembro de 2020, o roteirista e produtor Kyle Bradstreet declararia em entrevistas estar trabalhando em uma série para o Disney+ estrelada por Nick Fury, que, em dezembro, Kevin Feige confirmaria ser Invasão Secreta. Fury foi um dos personagens cujos direitos foram adquiridos pela Paramount, que, inicialmente, planejava fazer um filme estrelado por ele, com Andrew W. Marlowe, da série de TV Castle, sendo contratado para escrever um roteiro em 2006. Quando o MCU começou a tomar forma, e Fury foi escolhido para ser seu fio condutor, reunindo os heróis que formariam a equipe dos Vingadores, essa ideia foi engavetada indefinidamente, até Feige decidir que uma série estrelada por Fury traria mais oportunidades para desenvolver o personagem que um filme, já que ele já havia aparecido em tantos outros. Ainda segundo Feige, assim como a saga dos quadrinhos, a série de Invasão Secreta seria um crossover event, reunindo eventos de várias produções anteriores do MCU e definindo rumos para as seguintes.

Ainda em dezembro de 2020, seria anunciado que Ben Mendelsohn estaria na série, repetindo o papel do skrull Talos, e sendo co-protagonista ao lado de Samuel L. Jackson, que interpretaria Fury possivelmente pela última vez. Bradstreet trabalharia nos roteiros durante cerca de um ano, até ser substituído por Brian Tucker, que assumiria como chefe da equipe dos roteiristas e showrunner em abril de 2021; os roteiros do primeiro e do último episódio seriam de Bradstreet e Tucker, com dois sendo apenas de Tucker (um deles a partir de uma sinopse de Brant Englestein) e outros dois sendo de Tucker em parceria com, respectivamente, Roxanne Paredes e Michael Bhim. Também em abril de 2021, seria anunciado que Thomas Bezucha e Ali Selim dirigiriam três episódios cada, mas Bezucha acabaria deixando a série durante refilmagens devido a um conflito de agenda, e Selim seria creditado como o único diretor de todos os seis episódios.

As filmagens começariam em setembro de 2021 e aconteceriam simultaneamente às de As Marvels, com Jackson começando a filmar suas cenas na série somente após concluir todas as suas cenas do filme. As filmagens ocorreriam integralmente na Inglaterra, com as internas sendo filmadas nos Estúdios Pinewood, e as externas em Londres, West Yorkshire, Leeds, Huddersfield e Halifax. As filmagens se encerrariam oficialmente em abril de 2022, mas refilmagens começariam em junho, após uma "batalha criativa" entre os roteiristas e os executivos dos Marvel Studios. O ator Christopher McDonald diria que as mudanças tornariam a série ainda melhor, proporcionando uma profundidade que ela não tinha antes, e daria a entender que elas foram escritas por um novo roteirista, não creditado. Jackson gravaria suas novas cenas entre junho e agosto, e Emilia Clarke, que interpreta a filha de Talos, gravaria as suas no final de setembro, após muitos membros da equipe serem demitidos ou substituídos - o produtor executivo Chris Gary receberia um aviso de que poderia seguir supervisionando a série, mas deveria deixar o estúdio imediatamente após sua conclusão. Essa bagunça levaria o executivo Jonathan Schwartz a ter de se envolver pessoalmente, devido ao risco de alguns atores do elenco não estarem mais disponíveis devido a compromissos previamente assumidos. O orçamento inicial não seria divulgado, mas sabe-se que ele foi estourado, com a série custando 211,6 milhões de dólares por uma duração de cerca de 4 horas e meia somando todos os seis episódios; como a série não tinha cenários enormes nem efeitos visuais numerosos, esse custo final foi considerado absurdo, com as refilmagens sendo apontadas como as principais responsáveis pelo estouro.

Outra polêmica envolvendo a série viria do fato de que a abertura seria criada pelos Method Studios usando inteligência artificial generativa, com a série sendo lançada durante a greve dos roteiristas de 2023, na qual o uso de IA para substituir profissionais do cinema era um dos assuntos mais discutidos. Os Method Studios divulgariam uma nota dizendo que "nenhum de seus profissionais havia sido substituído por inteligência artificial" e que a própria equipe selecionada para a criação da abertura decidiria usar um programa criado especificamente por ela para alcançar o resultado desejado, com todo o material usado para alimentar o programa tendo sido criado por artistas ligados ao estúdio - para afastar uma das principais críticas à IA, a de que ela se alimenta do trabalho alheio sem pagar por isso. Ainda segundo os Method Studios, o uso da IA foi pensado não só para aproveitar um momento no qual ela estava em voga, mas também para "conseguir um visual alienígena" que combinasse com o tema da série. Mesmo com esses argumentos, os artistas responsáveis pelos storyboards e efeitos especiais da série manifestaram publicamente seu descontentamento com a aprovação dos Marvel Studios para a abertura de IA.

Além dos Method Studios, os efeitos especiais seriam criados pela Digital Domain, FuseFX, Luma Pictures, MARZ, One of Us, Zoic Studios e Cantina Creative. Selim tentaria manter os efeitos especiais em nível mínimo, praticamente só os usando com os skrulls. A batalha final, descrita por alguns críticos como uma "luta de videogame" e apelidada por alguns fãs de "batalha de CG" (computação gráfica) seria mais um ponto polêmico, considerado um encerramento bizarro para uma série de espionagem e paranoia, como se tivesse sido incluída apenas para deixar claro que, apesar de tudo, Invasão Secreta ainda era uma série de super-heróis.

Após os eventos de Capitã Marvel, Fury prometeria aos skrulls os ajudar a encontrar um novo planeta. Anos se passariam, porém, e a maioria dos skrulls ainda estava vivendo na Terra, metamosfoseados como humanos e sendo considerados refugiados. Um grupo dissidente, liderado por Gravik e baseado em uma usina nuclear abandonada na Rússia - o esconderijo perfeito, já que os skrulls são imunes a radiação ionizante, que mataria qualquer humano que decidisse entrar lá - decide então por em prática um plano ousado: substituir figuras-chave dos governos mundiais por skrulls, desencadeando uma série de eventos que levaria aos skrulls se tornarem a raça dominante do planeta, podendo viver aqui em suas verdadeiras formas sem a interferência dos humanos. Talos ainda mantém a fé de que Fury vai ajudá-los a migrar para outro planeta, mas sua própria filha, G'iah, decepcionada por Fury não ter cumprido sua promessa, também está dentre os dissidentes. Quando a S.H.I.E.L.D. descobre o plano de Gravik, a agente Hill chama Fury, que está vivendo no espaço desde os eventos de Ultimato, para que eles trabalhem com Talos para tentar deter os skrulls renegados antes que seja tarde demais - o que se mostrará extremamente difícil, já que eles não têm como saber em quais de seus aliados podem confiar.

O elenco conta com Samuel L. Jackson como Nick Fury; Ben Mendelsohn como Talos; Kingsley Ben-Adir como Gravik; Emilia Clarke como G'iah; Olivia Colman como Sonya Falsworth, agente do MI6 e amiga de longa data de Fury; Don Cheadle como James Rhodes, agora conselheiro do Presidente dos Estados Unidos; Cobie Smulders como Maria Hill; Martin Freeman como Everett K. Ross; O-T Fagbenle como Rick Mason; Killian Scott como Pagon, segundo em comando de Gravik; Dermot Mulroney como o Presidente dos Estados Unidos; Richard Dormer como Prescod, agente da S.H.I.E.L.D. que descobre o plano de Gravik e passa a ser um alvo dos skrulls; Christopher McDonald como o repórter de TV Chris Stearns; Katie Finneran como Rosa Dalton, cientista que os skrulls substituem para trabalhar em um projeto secreto de Gravik; Samuel Adewunmi e Ben Peel como os skrulls Beto e Brogan; Tony Curran como o diretor do MI6; e Charlayne Woodard como a esposa de Fury, Priscila Davis.

Soren, esposa de Talos e mãe de G'iah, é interpretada em sua forma humana por Charlotte Baker e em sua forma skrull por Kate Braithwaite - em Capitã Marvel e Homem-Aranha: Longe de Casa, ela era interpretada por Sharon Blynn, que não pôde repetir o papel por conflitos de agenda. Também vale citar que, originalmente, As Marvels estrearia antes de Invasão Secreta, mas, devido a atrasos na produção do filme, a série estreou primeiro, o que criou uma certa confusão na cronologia, já que os eventos do filme ocorrem antes dos eventos da série.

A saga dos quadrinhos seria um evento gigantesco, envolvendo quase todos os personagens do Universo Marvel; durante as filmagens, Feige declararia que a série de TV não tentaria imitá-la, já que isso resultaria em um elenco maior que o de Vingadores: Ultimato, sendo centrada em Fury e Talos explorando os elementos de "paranoia política" dos quadrinhos, com "todas as reviravoltas que isso proporcionou". Tucker diria ter se inspirado em séries como Homeland e The Americans e nos romances de espionagem de John le Carré, e Selim diria que a série alternaria momentos de film noir e western. Também durante as filmagens, Smulders diria que a série era "bastante pé no chão", e que lidaria com relações humanas e confiança, e Jackson declararia que a série abordaria eventos transcorridos durante o Blip. No início de 2023, Feige diria que a série serviria como "uma continuação ambientada nos dias atuais" de Capitã Marvel, mas que teria estilo bastante diferente do filme.

Assim como nos quadrinhos, um aspecto importante da série era não saber há quanto tempo os personagens substituídos eram skrulls. Feige escolheria pessoalmente James Rhodes para ser um dos substituídos, e conversaria com Cheadle durante a pré-produção para saber o que ele achava, com o ator declarando ter agradecido a oportunidade de "mostrar um lado de Rhodes que não havíamos visto antes". Feige diria que a inclusão de Rhodes permitiria uma nova experiência aos fãs, a de assistir os filmes anteriores para tentar descobrir se ele já era um skrull ou não, com Selim e a maioria do público achando que Rhodes foi substituído após os eventos de Capitão América: Guerra Civil.

Invasão Secreta estrearia no Disney+ em 21 de junho de 2023, com um episódio sendo lançado por semana até 26 de julho. O primeiro episódio teria uma pré-estreia no cinema El Capitan Theater, em Los Angeles, em 13 de junho, e os três primeiros estariam disponíveis no streaming Hulu entre 21 de julho e 17 de agosto, para tentar atrair mais assinantes para o Disney+. A série seria a produção original mais assistida no streaming no primeiro semestre, e fecharia 2023 como a terceira mais assistida do ano. A crítica ficaria dividida, elogiando as performances de Jackson e Clarke e a ousadia de se produzir um material mais sombrio e maduro para o MCU - que alguns críticos chamariam de "Marvel sem piadinhas" - mas criticando o ritmo lento dos episódios e as cenas de ação pouco empolgantes. No planejamento original, Invasão Secreta teria uma sequência direta, Armor Wars, estrelada por Rhodes, atualmente adiada por tempo indeterminado.

Eu Sou Groot
I Am Groot
2ª temporada
2023

O sucesso da primeira temporada de Eu Sou Groot levaria o chefe do departamento de streaming, televisão e animação dos Marvel Studios, Brad Winderbaum, a encomendar mais cinco curtas à diretora e roteirista Kristin Lepore, que seriam exibidos um ano depois, como uma segunda temporada. Para a primeira temporada, Lepore havia separado 30 ideias, das quais aproveitaria somente cinco; ela diria, porém, que nem todos os episódios da segunda temporada usariam ideias descartadas da primeira, e que, se a Marvel quisesse seguir com a série, a "escassez de ideias" era algo com o qual eles não precisavam se preocupar.

A segunda temporada continuava acompanhando Groot conforme ele crescia, trazendo lições de paternidade, a importância da higiene, de não mexer com o que não se está preparado para lidar, e colocando Groot em seu caminho para se tornar um herói. Lepore diria que o primeiro episódio seria "autobiográfico", espelhando sua própria experiência após ser mãe e se ver tendo de cuidar de um bebê, e que ficaria surpresa pela Marvel ter selecionado o segundo, que, segundo ela, tinha a ideia mais estranha de todas. O último episódio, inspirado nos filmes de Indiana Jones, conta com a presença do Vigia, e teve como consultor o roteirista Ryan Little, que trabalhou em What If...?; Lepore se diria satisfeita por a Marvel ter selecionado essa ideia, pois isso significava que eles viam Eu Sou Groot como de fato parte do MCU.

Mais uma vez, os curtas seriam produzidos pela Luma Pictures, mas agora as histórias também colocavam Groot em planetas alienígenas, ao invés de acompanhá-lo apenas dentro da nave; a neve e o gelo do terceiro episódio ficariam a cargo de uma outra empresa, a Trixter. A abertura seria criada pela Perception, e seria um update da abertura da primeira temporada, na qual Groot usa um controle remoto para acelerar a introdução das produções Marvel, com a fanfarra e o logotipo dos Marvel Studios; na primeira temporada, a aceleração era feita como um fast forward de videocassete, mas, na segunda, imitava a tela que o Disney+ mostra quando o espectador está acelerando uma produção - no dia da estreia da segunda temporada, a abertura da primeira seria substituída por essa nova. O jogo de videogame que Groot joga no segundo episódio seria criado pelo animador e designer gráfico Jon Davies.

Vin Diesel seria mais uma vez o único membro do elenco, gravando vários "eu sou Groot" novos para os episódios; Bradley Cooper, Fred Tatasciore e Dee Bradley Baker seriam creditados como "vozes adicionais", e Jeffrey Wright dubla o Vigia, repetindo seu papel de What If...?, no último episódio. Diferentemente do que ocorreu na primeira temporada, James Gunn não seria creditado como produtor. Todos os cinco episódios seriam disponibilizados no Disney+ em 6 de setembro de 2023, sendo aclamados pela crítica, mas sem conseguir a mesma repercussão entre o público; a segunda temporada seria novamente indicada aos Emmys de Melhor Programa em Formato Curto para Crianças e Melhor Mixagem e Edição de Som para um Programa Animado, mas, dessa vez, não ganharia nenhum dos dois. Até o momento, não há notícias sobre se uma terceira temporada será desenvolvida.

Loki
2ª temporada
2023

A princípio, Loki seria uma série limitada, com uma única temporada, mas, durante as filmagens de seu terceiro episódio, o roteirista Mike Waldron comentaria com o produtor Kevin Wright que ainda havia tanto a explorar dentro do universo que ele havia criado que ele estava pensando em fazer um final aberto, que permitisse a produção de mais uma temporada caso a cúpula dos Marvel Studios concordasse. Wright comentaria sobre isso com o ator Tom Hiddleston, e os dois passariam horas conversando sobre quais rumos a série poderia tomar caso uma segunda temporada fosse mesmo autorizada. Wright e Hiddleston levariam suas ideias a Kevin Feige, que se mostraria bastante empolgado, convencendo a cúpula dos Marvel Studios a autorizar uma segunda temporada, cuja pré-produção começaria já em novembro de 2020, antes mesmo da estreia da primeira. Em janeiro de 2021, Waldron assinaria uma extensão de seu contrato, para ser roteirista-chefe e showrunner da segunda temporada; após a estreia da primeira, entretanto, ele declararia que seu envolvimento com a segunda ainda estava em aberto.

A diretora Kate Herron, que dirigiu todos os episódios da primeira temporada, por outro lado, não quis assinar para a segunda, alegando não querer se envolver com um projeto de longo prazo. A Marvel não teria pressa para encontrar um substituto, e somente em fevereiro de 2022 conversaria com Justin Benson e Aaron Moorehead, que haviam dirigido dois episódios de Cavaleiro da Lua; a série ainda nem havia estreado, mas Feige gostaria tanto do trabalho da dupla que marcaria uma reunião entre os dois, Wright e Hiddleston, após a qual ficaria acertado que eles dirigiriam "a maioria dos episódios" da segunda temporada - de fato, eles dirigiriam o primeiro e os três últimos episódios, com o segundo ficando com Dan DeLeeuw, que havia sido supervisor de efeitos especiais de vários filmes do MCU, e o terceiro com Kasra Farahani, o designer de produção da primeira temporada, a quem Feige já vinha querendo dar oportunidades de direção.

Também em fevereiro de 2022, Waldron confirmaria que atuaria apenas como showrunner e produtor executivo, não tendo qualquer envolvimento com os roteiros. Eric Martin, que havia escrito o quarto episódio da primeira temporada e co-escrito o último com Waldron, seria contratado para escrever todos os seis episódios da segunda, mas o cargo de chefe dos roteiristas ficaria com Farahani. Martin escreveria sozinho os dois primeiros episódios e os dois últimos, co-escreveria o quarto com Katharyn Blair, e o terceiro teria roteiro de Martin, Farahani e Jason O'Leary a partir de uma sinopse de Martin. Waldron declararia que a segunda temporada concluiria a história da primeira, mas com um foco muito maior na história da Autoridade de Variância Temporal (AVT) e na relação de cada personagem com ela. Ainda segundo ele, a temporada não teria heróis ou vilões, com todos os personagens estando na "zona cinzenta", tomando decisões que ajudem a descobrir seu lugar dentro da história e do mundo.

Um dos episódios contaria com cenas ambientadas em um McDonald's em 1982, onde Sylvie "se esconde" após os eventos da primeira temporada; a ideia era passar uma sensação de nostalgia, já que, para muitas crianças americanas, o McDonald's era o lugar onde elas iam após um evento esportivo ou para comemorar um aniversário, coisa que Sylvie jamais teve a oportunidade de fazer. Essa cena seria escrita antes que a autorização para a inclusão da marca fosse obtida, o que levaria Wright a temer que o McDonald's visse a inclusão como um deboche ao invés de uma homenagem, mas o McDonald's, que já tinha um contrato de merchandising com os Marvel Studios, estava mesmo buscando uma forma de incluir seus produtos sem ser em esquema de product placement, quando eles aparecem como parte do cenário ou na mão de um dos personagens, e adorou a ideia, com o diretor de marketing da marca declarando que fazia sentido Sylvie procurar um local que "oferecia conforto e familiaridade". A unidade escolhida por Sylvie é a da cidade de Broxton, Oklahoma, o que foi uma espécie de fan service, já que, nos quadrinhos, essa era a cidade natal da segunda Encantor, em quem Sylvie é parcialmente inspirada, e foi lá que a Cidade de Asgard foi construída nas histórias do final dos anos 2000.

Além de diretor e roteirista, Farahani seria mais uma vez designer de produção, adotando uma estética baseada na tecnologia dos anos 1950 para os novos locais da AVT mostrados na segunda temporada, já que, segundo ele, esses locais eram mais antigos que os mostrados na primeira, tendo sido construídos antes. O diretor de fotografia Isaac Bauman descreveria os cenários como "o brutalismo soviético encontra o modernismo do pós-guerra". Bauman e Farahani também criariam um set gigantesco, o maior de toda a série, para reproduzir a Feira Mundial de Chicago de 1893, durante a qual um dos episódios é ambientado. Bauman criaria um documento de 700 páginas somente descrevendo como tudo na série deveria se parecer, usado como referência por diversos profissionais envolvidos na produção; ele também tentaria emular as técnicas de filmagem dos anos 1960 e 1970, para que a série tivesse uma aparência atemporal.

Após assistir a uma sessão privada de Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, a diretora de elenco Sarah Halley Finn sugeriria que Ke Huy Quan deveria ter um papel na segunda temporada de Loki; Martin escreveria um personagem especialmente para o ator, e Feige o convidaria antes mesmo da estreia do filme, imaginando que ele receberia muitos convites depois. Feige prepararia todo um discurso para convencer Quan a aceitar, sem saber que ele era fã da Marvel e do MCU e havia adorado a primeira temporada de Loki, praticamente aceitando o convite antes que Feige começasse a falar. Quan pediria à figurinista Christine Wada para que seu uniforme da AVT tivesse vários patches, uma referência ao personagem Dado, que ele interpretou em Os Goonies.

As filmagens começariam em junho de 2022 nos Estúdios Pinewood, em Londres; assim como na primeira, a gigantesca maioria das cenas seria filmada em estúdio, com as únicas duas exceções sendo algumas cenas do episódio ambientado na Londres dos anos 1970, filmadas na Chatham Historic Dockyard, em Kent, e as do McDonald's, filmados em uma antiga unidade desativada nos arredores de Londres. A matriz do McDonald's nos Estados Unidos enviaria para a Inglaterra itens reais de 1982, como caixas registradoras e porta-canudos, para que fossem usados nas filmagens, e o prédio seria todo reformado pela Marvel para ficar com a cara de um McDonald's dos anos 1980, incluindo a adição de um drive thru, que essa unidade em específico não tinha, mas todas as unidades "de rua" dos Estados Unidos tinham desde 1975. Ao contrário do que foi divulgado por algumas fontes, após o fim das gravações tudo foi desmontado, e essa unidade não voltou a funcionar.

A segunda temporada de Loki seria uma das poucas produções dos Marvel Studios a não precisar de refilmagens nem da gravação de cenas adicionais. Durante a pós-produção, começariam os problemas com a justiça de Jonathan Majors, que tinha um papel central na história; ao ser perguntado se pediria refilmagens para reduzir a participação do ator, Wright responderia que isso seria prematuro, já que não se sabia qual seria o desfecho das acusações. Os muitos efeitos especiais ficariam a cargo da Framestore, Trixter, Industrial Light & Magic, Rising Sun Pictures, FuseFX e Cantina Creative.

Na segunda temporada, Loki descobre que toda a manipulação das linhas do tempo ocorrida na primeira levou a uma instabilidade que pode destruir o Tear Temporal, mecanismo criado pela AVT que controla as relações entre todas as diferentes realidades, que, se seguir sobrecarregado, pode explodir e aniquilar tudo o que existe. Para impedir que isso ocorra, Loki e o agente Mobius precisam da ajuda de Ouroboros (apelido OB), técnico que trabalha no setor de reparos da AVT, responsável por construir ele mesmo ou saber como reparar todas as tecnologias da organização, e de Victor Timely, uma variante de Aquele que Permanece (e, por consequência, de Kang, o Conquistador) que, no final do século XIX, desenvolveu teorias sobre o multiverso que levariam à criação da própria AVT.

O elenco conta com Tom Hiddleston como Loki; Sophia Di Martino como Sylvie; Owen Wilson como Mobius B. Mobius; Jonathan Majors como Victor Timely; Ke Huy Quan como Ouroboros; Gugu Mbatha-Raw como Ravonna Renslayer; Tara Strong como a voz da Srta. Minutos; Wunmi Mosaku como B-15, que assume o cargo de diretora da AVT; Eugene Cordero como Casey; Rafael Casal como X-5, agente da AVT que decide desertar e viver como o famoso ator Brad Wolfe em uma das muitas realidades do Multiverso; Kate Dickie como a General Dox, que quer a captura de Sylvie e o expurgo de todas as realidades que não sejam a Linha do Tempo Sagrada; Liz Carr como a Juíza Gamble, braço-direito de Dox; Neil Ellice como o agente D-90; e Richard Dixon como Robber Baron, industrial que compra as invenções de Timely em 1893.

A segunda temporada de Loki estrearia no Disney+ em 5 de outubro de 2023, com um episódio sendo lançado por semana até 9 de novembro. Os dois primeiros episódios seriam exibidos em uma pré-estreia no cinema El Capitan Theatre, em Los Angeles, em 2 de outubro. O episódio de estreia seria o segundo mais assistido do Disney+ em 2023, atrás apenas do da terceira temporada de The Mandalorian; a série seria a original mais assistida do streaming no mês de outubro, e a segunda mais assistida do ano de 2023, atrás apenas de The Mandalorian - o que fez com que as três séries mais assistidas em streaming no ano fossem do Disney+. A crítica seria amplamente positiva, considerando a segunda temporada inferior à primeira, mas elogiando o arco de personagem de Loki, que a termina como um verdadeiro herói. A temporada seria indicada a três Emmys: Melhor Figurino para uma Produção de Fantasia ou Ficção Científica, Melhor Mixagem de Som para uma Série de Uma Hora, e Melhores Efeitos Especiais para uma Temporada de Série ou Filme. Com final fechado, a segunda temporada é definitivamente a última, mas Hiddleston se diz aberto a novas participações de Loki em outras produções do MCU.

Série Universo Cinematográfico Marvel

•Invasão Secreta
•Eu Sou Groot
(2ª temporada)
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(2ª temporada)

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sábado, 7 de fevereiro de 2026

Escrito por em 7.2.26 com 0 comentários

Nádia e os Mistérios do Mar

Enquanto estava escrevendo os posts sobre as produções do Studio Ghibli, me lembrei de um outro anime que eu assisti há alguns anos, do qual gostei, mas sobre o qual eu nunca escrevi um post. Não querendo fazer dois posts sobre anime no mesmo mês, já que eles andam raríssimos por aqui, decidi que primeiro iria finalizar a série do Studio Ghibli antes de escrevê-lo. Esse anime, como vocês devem ter deduzido pelo título do post, é Nádia e os Mistérios do Mar, e é o tema de hoje.


Lançado no Japão em 1990, Nádia e os Mistérios do Mar, cujo nome original em japonês é Fushigi no Umi no Nadia, "Nádia do Mar Misterioso", ganharia notoriedade nos Estados Unidos, onde foi lançado com o título Nadia: The Secret of Blue Water, após a Disney lançar Atlantis, em 2001. Na época, várias pessoas que assistiram tanto o anime quanto o filme da Disney, no Japão e nos Estados Unidos, começaram a acusar a Disney de plágio, apontando várias semelhanças entre as duas obras - eu mesmo, inclusive, só decidiria assiti-lo após escrever meu post sobre Atlantis para a série dos Clássicos Disney, para ver se era tão parecido assim. Nenhuma medida formal jamais seria tomada, já que a Gainax, estúdio que produziu Nádia, não poderia processar a Disney sem a anuência da NHK, canal de televisão japonês que o transmitiu, e, segundo um dos empregados da Gainax, "nem mesmo o canal de televisão nacional do Japão tem coragem de enfrentar os advogados da Disney". A Disney jamais se posicionou oficialmente sobre a questão, mas Kirk Wise, um dos diretores de Atlantis, postaria online que jamais ouviu falar de Nádia até as acusações começarem, e atribuiria as semelhanças ao fato de ambas as obras serem inspiradas em Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne. Os espectadores, entretanto, alegam que as semelhanças entre as duas obras são específicas demais, e diferentes demais do que está na obra de Verne, para ser esse o caso. Seja como for, como jamais houve um processo, o caso acabou virando uma anedota, e fica a cargo de cada um que assiste decidir se houve plágio ou não - eu já acho que Atlantis é plágio de Stargate, mas isso é outra história.

A origem de Nádia remonta à década de 1970, quando Hayao Miyazaki, que ainda nem pensava em fundar o Studio Ghibli, seria contratado pela Toho para criar um anime para ser exibido na televisão. A ideia original era que esse anime combinasse elementos de duas obras de Júlio Verne, Vinte Mil Léguas Submarinas e A Volta ao Mundo em 80 Dias, e tivesse como protagonistas dois órfãos procurando um tesouro, que seriam perseguidos por vilões e acabariam dando a volta ao mundo a bordo do Nautilus, ajudados pelo Capitão Nemo. Miyazaki chegaria a traçar uma sinopse, mas o anime jamais seria produzido, com a Toho retendo os direitos sobre a história e Miyazaki reutilizando alguns de seus elementos em obras futuras como O Castelo no Céu.

No final da década de 1980, o canal de televisão NHK estava procurando um novo anime para levar ao ar, e entraria em contato com o Group TAC, estúdio especializado em produzir animações para outros estúdios - em outras palavras, um estúdio qualquer, como a Gainax, desenvolvia um projeto e entregava ao Group TAC para que seus profissionais produzissem parte dos desenhos necessários para concluí-lo - para saber se eles sabiam de algum anime que estivesse sendo produzido no momento. O Group TAC não sabia de nenhum, mas entraria em contato com a Gainax, que futuramente ficaria conhecida por Neon Genesis Evangelion, que costumava contratar seus serviços com frequência, para saber se eles tinham. Quem atendeu a ligação foi o vice-presidente da Gainax, Hiroake Inoue, que, alguns anos antes, tinha tomado conhecimento do projeto de Miyazaki com a Toho, e, em segredo, contratado Yoshiyuki Sadamoto e Mahiro Maeda para desenvolvê-lo. Inoue aproveitaria a oportunidade e faria uma apresentação sobre o projeto para a NHK, sem informar Toshio Okada, o presidente da Gainax - que, ao saber, ficaria extremamente insatisfeito, pois o projeto seria caríssimo e resultaria em prejuízo para o estúdio.

Sem ter nada a ver com isso, a NHK adoraria o projeto, e tentaria convencer Okada a autorizá-lo, o que ele falou que só faria caso Inoue não fizesse parte da equipe. Irritado, Inoue deixaria a Gainax, que escolheria Sadamoto para dirigir o projeto. Hadamoto chegaria a ocupar a função durante algumas semanas, mas pediria para sair e ficar encarregado somente da animação; Okada, então, escolheria para substituí-lo Hideaki Anno, que, alguns anos depois, viria a ser justamente um dos criadores de Evangelion, e acabaria creditado como criador de Nádia. Seria de Anno a ideia de fazer referências no anime não somente às obras de Verne, mas também a outros anime famosos, como Patrulha Estelar, Macross e Time Bokan.

Nádia é ambientado no final do século XIX, em um universo alternativo no qual monstros marinhos ameaçam as viagens maritmas, o que levaria a uma verdadeira corrida de inventores para criar uma máquina voadora capaz de substituir os navios. Um desses inventores é o jovem Jean Roque Lartigue, de 14 anos e órfão, com sua mãe tendo falecido quando ele era criança e seu pai, um oficial da marinha mercante, tendo sido dado como morto após um ataque dos monstros. Jean mora com os tios em Le Havre, França, e, desde criança, sempre teve talento para invenções, decidindo, com a ajuda do tio, se inscrever em um concurso de máquinas voadoras que ocorrerá em Paris.

Durante o concurso, Jean acidentalmente conhece Nádia La Arwall, de 14 anos e órfã como ele, que trabalha como acrobata em um circo para sobreviver, e está sempre acompanhada de King, um filhote de leão albino. De pele morena e olhos amendoados, Nádia não conhece sua verdadeira origem, mas imagina que seja natural da África, tendo como maior sonho conhecer o continente africano. Quando Jean e Nádia se conhecem, ela está sendo perseguida por Grandis Granda, uma mulher belíssima e riquíssima de ascendência italiana, cujo objetivo é obter a Blue Water, uma misteriosa joia que Nádia traz no pescoço, mas também não sabe de onde veio. Grandis tem dois capangas, o alto, forte e belo Samson e o baixinho, gordinho e extremamente inteligente Hanson, ambos apaixonados por ela, e um veículo chamado Gratan, criado por Hanson e pilotado por Samson, que pode assumir várias formas diferentes - tanque, helicóptero, submarino etc.

Após várias desventuras, Jean, Nádia, King, Grandis, Samson e Hanson se tornam aliados, e descobrem que os monstros marinhos na verdade são submarinos de uma organização criminosa chamada Neo Atlantis, chefiada pelo misterioso Gargoyle, que segue as ordens do Imperador Neo. Descendentes dos habitantes da mítica ilha de Atlântida, que na verdade eram alienígenas que chegaram a nosso planeta milhares de anos atrás, os Neo Atlantis conseguiram recuperar parte da tecnologia atlante, e planejam usá-la para dominar o mundo e escravizar a raça humana, que eles consideram inferiores. Durante um ataque dos Neo Atlantis, os seis personagens são resgatados pelo Capitão Nemo, que combate os vilões usando seu submarino, o Nautilus, e passam a navegar com ele para tentar impedir os planos malignos de Gargoyle - que, para completar sua principal arma, a fortaleza voadora Red Noah, precisa, adivinhem do quê, isso mesmo, da Blue Water.

Outros personagens de grande destaque são Marie, menina francesa que se une a Jean e Nádia, se tornando companheira inseparável de King, após seus pais serem mortos por um ataque dos Neo Atlantis à vila onde moravam, em Cabo Verde; Electra, que também ficou órfã após um ataque dos Neo Atlantis, sendo resgatada pelo Capitão Nemo, que fez dela a primeiro-oficial do Nautilus; e Ayerton, inglês que originalmente é o oficial de ciências de um navio norte-americano que resgata Jean e Nádia quando eles ainda estão sendo perseguido por Grandis, e mais adiante na série é regatado de uma ilha deserta e se une aos heróis contra Neo Atlantis, se apaixonando por Grandis e fazendo de tudo para chamar sua atenção.

A série teria um total de 39 episódios, exibidos pela NHK entre 13 de abril de 1990 e 12 de abril de 1991. Como uma novela, a série seria produzida enquanto estava indo ao ar, o que faria com que alguns episódios do meio sejam bem diferentes em tônica e enredo que os demais, e que os do final tragam muitas mudanças para alguns personagens, já que a Gainax estava tentando emular o que fazia sucesso na época para que Nádia fosse igualmente bem-sucedido. Para cortar custos, alguns episódios seriam animados na Coreia do Sul, pelo estúdio Sei Young Animation, e têm uma aparência levemente diferente dos demais. A série seria lançada em home video em duas versões, uma igual à exibida na TV e uma conhecida como Nautilus Story, que seria uma "versão do diretor", editada pessoalmente por Anno, lançada no Japão em 1991 e inédita no ocidente.

Conforme previsto por Okada, a Gainax perderia 80 milhões de ienes com o projeto, e sequer teria os direitos sobre a obra, que ficariam com a NHK - por isso eles precisavam da anuência dela para processar a Disney - e quase iria à falência. De fato, o estúdio só não faliu porque a NHK abriu mão dos rendimentos de um game produzido pela Namco em 1991 para o Famicom (o NES japonês), no estilo JRPG, que seria recordista de vendas na época entre os games inspirados em anime, mangá ou tokusatsu, rendendo tanto dinheiro que não somente cobriria o rombo deixado pela produção do anime, mas também equilibraria o caixa da Gainax, que criaria sua própria divisão de games para lançar uma sequência, também para o Famicom, em 1992, que teria versões lançadas para os consoles Mega Drive e PC Engine e para os computadores Sharp X68000, NEC PC-9801 e FM Towns - nenhuma delas jamais lançada no ocidente.

Antes do lançamento do game, para tentar cobrir o rombo causado pelo anime, a Gainax se envolveria com diversos projetos de outros estúdios dos quais receberia parte dos rendimentos; essa prática acabaria destacando inúmeros problemas dentro do estúdio, muitos deles de hierarquia e insubordinação. Há quem diga que foi a operação de saneamento conduzida pelos executivos do estúdios após a descoberta desses problemas que modernizaria a Gainax, transformando-a em um dos estúdios mais bem sucedidos do Japão na década de 1990, e em um dos mais famosos hoje.

Também para tentar cobrir o rombo, a Gainax aceitaria um adiantamento de 50 milhões de ienes do Group TAC para a produção de um filme para o cinema de Nádia. Anno se recusaria a dirigir o filme, alegando ainda não estar recuperado do estresse de dirigir a série. Sadamoto seria novamente convidado e a produção começaria, mas após eles já terem gastado todo o adiantamento, ao ver que precisariam de muito mais dinheiro se quisessem concluir o filme, a produção seria interrompida. O filme só seria concluído graças a uma parceria entre a Gainax e a Sei Young Animation, com roteiro do sul-coreano Yu Ko e dirigido pelo japonês Sho Aono. Lançado em 29 de junho de 1991, o filme é ambientado três anos após os eventos da série, e acompanha os principais personagens enquanto eles tentam retomar suas vidas.

Tendo de dividir os rendimentos do filme com a Sei Young, a Gainax acabaria fazendo um acordo com o Group TAC segundo o qual pagaria o adiantamento assim que produzisse uma nova série de sucesso - que viria a ser, justamente, Evangelion. Aliás, Anno pensaria em Evangelion como uma continuação para Nádia, com os robôs gigantes sendo criados para destruir seres criados em Atlântida que ameaçam o restante do planeta; a história teria de ser mudada já durante a produção, e todos os 26 roteiros reescritos, porque a Gainax não conseguiu chegar a um acordo com a NHK quanto aos direitos sobre Nádia - que, hoje, são divididos entre NHK e Toho, com a Gainax ainda não podendo fazer nada com os personagens que ela mesma criou.

Nos Estados Unidos, inicialmente Nádia seria lançado em VHS pela Streamline Pictures, que lançaria um total de oito fitas, cada uma contendo um único episódio, com áudio dublado em inglês, entre março de 1992 e agosto de 1993 antes de acabar o dinheiro. O presidente da Streamline planejava usar o dinheiro das vendas dos oito primeiros episódios para lançar os demais, e, quando não conseguiu, ofereceu a série para vários canais de TV, que não aceitaram exibi-lo devido a elementos considerados adultos - por exemplo, embora nunca dê pra ver nada de mais, Nádia, que, lembremos, tem 14 anos, costuma ficar frequentemente pelada, com um episódio inclusive mostrando ela e Grandis tomando banho juntas. Em 1996, a Streamline conseguiria um contrato com a Orion Pictures, que relançaria os oito primeiros episódios em duas fitas, mas, devido às baixas vendas, não se interessaria em dublar e lançar os demais. Durante toda a década de 1990, fãs da série só poderiam assisti-la completa através de fansubs, fitas VHS copiadas de originais japonesas com legendas em inglês criadas por seus próprios produtores - que não pagavam direitos aos estúdios japoneses. A série completa só ficaria disponível oficialmente no ocidente em 2001 (por pura coincidência, mesmo ano do lançamento de Atlantis), quando a ADV Films a lançaria em DVD nos Estados Unidos; nesse mesmo ano, ela seria exibida no Brasil, no canal Locomotion. O filme também seria lançado pela ADV em DVD, em 2002.

No Japão, Nádia seria um grande sucesso, ganhando em 1991 o prêmio de Melhor Anime da revista Animage, que, dez anos depois, em 2001, o colocaria na posição 72 de sua lista dos 100 melhores anime de todos os tempos - também é interessante notar que, todos os anos, a Animage faz uma eleição dentre os leitores do personagem masculino e da personagem feminina mais populares dos anime, com Nádia sendo a primeira a conseguir destronar Nausicäa, antes disso eleita por seis anos consecutivos. Após o lançamento de Evangelion, a crítica compararia as duas séries, dizendo que em ambas o público sabe que "um destino terrível aguarda os personagens", mas mesmo assim simpatiza com eles. Embora Nádia não seja tão adulta quanto Evangelion - não chega nem perto - a série seria extremamente elogiada por romper com vários padrões e convenções dos anime dos anos 1980, com sua carga emocional sendo considerada sem paralelos na televisão japonesa até seu lançamento.
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sábado, 31 de janeiro de 2026

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Jornada nas Estrelas: Discovery

Eu procuro seguir duas regras ao falar de séries de TV. A primeira é não falar sobre séries que ainda não foram encerradas nem canceladas, para não precisar fazer outro post depois complementando com as temporadas lançadas depois que eu escrevi. A segunda é não falar sobre séries que eu estou assistindo sem ter visto todos os episódios. Por causa disso, só hoje eu vou poder falar sobre Jornada nas Estrelas: Discovery, já que eu assiti a primeira temporada antes da pandemia, mas só ano passado consegui assistir as outras. Antes tarde do que nunca.

E eu sei que o nome oficial "em português" é Star Trek: Discovery, mas eu sou da época em que todo mundo chamava Star Trek de Jornada nas Estrelas, e, além disso, todos os meus outros posts sobre as séries de Jornada estão com o nome... antigo? tradicional? original? enfim, vai ficar assim para eu manter um padrão. Hoje é dia de Jornada nas Estrelas: Discovery no átomo!

Discovery foi criada especialmente para celebrar os cinquenta anos da série original de Jornada nas Estrelas, hoje conhecida como Série Clássica, que estreou na televisão norte-americana em 1966. O anúncio de sua produção seria feito pela CBS, canal de TV dos Estados Unidos ligado à Paramount, o estúdio que possui os direitos sobre Jornada nas Estrelas, em novembro de 2015; na época, a CBS estava apostando em um serviço de streaming chamado All Access, e seus executivos acreditavam que uma nova série de Jornada nas Estrelas seria o produto ideal para aumentar o número de assinantes e catapultar o All Acess à categoria de um dos principais streamings dos Estados Unidos, o que não era uma tarefa nada fácil, ainda mais porque havia a um pequeno problema legal: devido a termos assinados em um contrato com a Viacom, de quem foi parceira por muitos anos, o mais cedo que a CBS poderia estrear uma nova série de Jornada nas Estrelas seria 1 de janeiro de 2017, o que faria com que Discovery chegasse atrasada nas comemorações do cinquentenário. Ainda assim, mostrando que os executivos estavam certos e que Jornada nas Estrelas ainda era uma franquia de grande renome, ao saber da produção da série, a Showtime, a Netflix e a Amazon ofereceram fortunas pela exclusividade de transmissão, com a CBS preferindo se ater ao plano original e fazer de Discovery uma série exclusiva do All Access.


Para conduzir a empreitada, a CBS escolheria Alex Kurtzman, co-roteirista dos filmes Star Trek, de 2009, e Star Trek: Além da Escuridão, de 2013, e a produtora Heather Kadin. Em fevereiro de 2016, a CBS anunciaria que Kurtzman e Bryan Fuller, roteirista das séries Deep Space Nine e Voyager, seriam os showrunners da série, com Nicholas Meyer, diretor e co-roterista de Jornada nas Estrelas 2: A Ira de Khan, de 1982, e Jornada nas Estrelas 6: A Terra Desconhecida, de 1991, atuando como consultor, e Rod Roddenberry, filho do criador de Jornada nas Estrelas, Gene Roddenberry, e Trevor Roth como produtores executivos, o que, segundo os executivos do canal, daria autenticidade e garantiria que a nova série respeitasse o universo de Jornada nas Estrelas.

Fuller era um dos maiores defensores do retorno de Jornada nas Estrelas à televisão, alegando que a série causava um impacto positivo sobre grupos minoritários. Ao ser chamado para conversar sobre a nova série, ele descobriria que a CBS não fazia ideia de qual seria sua história ou tema, e sugeriria uma série de antologia, com cada episódio contando com um elenco diferente e uma história diferente, ambientadas em diversos pontos da cronologia de Jornada nas Estrelas, com um episódio podendo ocorrer durante a época da Série Clássica, outro durante a da Nova Geração, e até mesmo um ambientado num futuro extremamente distante, que nenhuma série jamais havia abordado. Ele prepararia uma sinopse de um episódio ambientado dez anos antes do início da Série Clássica, que seria o primeiro dessa série, e os executivos da CBS gostariam tanto que pediriam para que ele criasse uma série inteira ambientada nessa época e partindo dessa premissa.

Fuller, então, prepararia o esqueleto de uma série de dez episódios, depois aumentada para 13 a pedido da CBS, a qual chamaria de Discovery ("descoberta"), o mesmo nome da nave tripulada por seus protagonistas. Ele optaria por ambientar a série na Linha do Tempo da Série Clássica, sem levar em consideração nenhum dos eventos ocorridos nos filmes; em entrevistas, ele diria que isso daria mais liberdade às equipes criativas, já que a equipe de produção de Discovery não precisaria se inteirar sobre nada do que ocorresse nos filmes, assim como as equipes dos futuros filmes não precisariam se preocupar com nada que ocorresse em Discovery. Em julho de 2016, a CBS anunciaria que o orçamento da série seria de entre 6 e 7 milhões de dólares por episódio, e integralmente pago graças a um acordo fechado com a Netflix, que teria exclusividade de exibição da série em países que não contassem com o All Access (basicamente todos, exceto Estados Unidos e Canadá).

Um mês depois, entretanto, os executivos da CBS começariam a se estressar com Fuller, que seguidamente estourava o orçamento dos episódios e estava bastante atrasado com a produção, por insistir em supervisionar todos os seus aspectos; o que mais irritava os executivos, entretanto, foi que Fuller havia também aceitado ser showrunner de outra série, Deuses Americanos, do canal a cabo Starz, e estava trabalhando em ambas simultaneamente, com a CBS achando que ele deveria se dedicar exclusivamente a Discovery. Para tentar diminuir o estresse, Fuller delegaria "poderes de showrunner" a Gretchen J. Berg e Aaron Harberts, com quem ele já havia trabalhado em Pushing Daisies; mesmo assim, a produção estaria constantemente atrasada, já que a CBS insistia que a estreia deveria ser em janeiro de 2017. Em setembro de 2016, vendo que cumprir esse prazo seria impossível, Fuller e Kurtzman convenceriam a CBS a adiar a estreia para maio de 2017, para que eles "conseguissem atender às altas expectativas que estavam sendo criadas sobre a série".

A CBS aceitaria, mas, em outubro de 2016, demitiria Fuller e faria de Berg e Harberts os showrunners, com Kurtzman ficando apenas como produtor executivo. Fuller ainda seria creditado como produtor executivo, mas sem nenhum envolvimento com a produção, com Kurtzman chamando Akiva Goldsman, com quem ele havia trabalhado em Fringe, para ser seu co-produtor executivo. A CBS prometeria que Berg e Harberts desenvovleriam a história com base no que Fuller havia criado, mas logo seria confirmado que elementos "mais pesadamente alegóricos e complexos" da história foram abandonados quase que imediatamente após ele deixar a série.

Em janeiro de 2017, Ted Sullivan se uniria à equipe como produtor, e confirmaria que o número de episódios seria aumentado novamente, para 15. Maio chegaria e acabaria sem que a série estivesse pronta para estrear, e somente em junho a CBS confirmaria que a data de estreia havia sido alterada para setembro. No mesmo mês, Kurtzman confirmaria que a série teria mais de uma temporada, e que havia discutido seu futuro com Fuller antes de sua saída, garantindo que as principais ideias sobre a série, seus eventos e seus personagens haviam partido de Fuller e seriam respeitadas no decorrer da série mesmo sem seu envolvimento. Em agosto, Goldsman declararia que as temporadas seguintes da série teriam um "estilo de antologia", cada uma trazendo uma história diferente e completa e "uma mistura de personagens novos e familiares", e Kurtzman diria que o sucesso de Discovery poderia levar à produção de mais séries de Jornada nas Estrelas.

Enquanto estava envolvido com a produção, Fuller diria querer se aproveitar que Discovery seria exibida em um serviço de streaming para fazer dela a primeira série de Jornada nas Estrelas na qual uma única história é contada através de todos os episódios, ao invés de uma história com começo, meio e fim a cada semana - esse formato já havia sido tentado timidamente em Deep Space Nine, Voyager e Enterprise, com alguns arcos compridos tendo repercussão em vários episódios, mas ainda assim uma história completa em cada um. Ele também queria que Discovery fosse uma espécie de ponte entre Enterprise e a Série Clássica - que são separadas por mais de cem anos - e escolheria a guerra entre a Federação e o Império Klingon, frequentemente mencionada mas jamais mostrada, para ser o plano de fundo da primeira temporada.

Fuller conseguiria convencer a CBS a abrir mão de uma regra não-escrita criada por Roddenberry, de que membros da Frota Estelar não poderiam ter conflitos sérios uns com os outros, já que desejava que a protagonista da série fosse uma pária, que caiu em desgraça por desrespeitar ordens diretas de seus superiores, algo jamais permitido nas séries anteriores. Assim, pela primeira vez, o protagonista de uma série de Jornada nas Estrelas não seria o capitão da nave (ou estação espacial), e sim um mero tripulante, a Tenente-Comandante Michael Burnham. O nome masculino, ao contrário do que muitos divulgariam, não era uma crítica aos papéis de gênero, com Fuller tendo esse hábito de colocar nomes masculinos em personagens femininas - havia uma George em Dead Like Me e uma Chuck em Pushing Daisies - e, embora seja raro, de fato existem mulheres chamadas Michael nos Estados Unidos; de qualquer forma, não é impossível que, no futuro, Michael seja um nome predominantemente feminino, assim como hoje o são Kelly e Ashley, ambos originalmente nomes masculinos.

Mas ter um nome masculino nem era a característica mais singular de Michael: humana, ela seria criada em Vulcano, após perder seus pais em um ataque klingon a uma estação espacial, por ninguém menos que Sarek e Amanda - o que faz com que ela seja irmã adotiva de Spock. Isso geraria reclamações de alguns fãs, principalmente porque, em nenhuma outra produção de Jornada nas Estrelas era sequer mencionado que Spock tinha uma irmã humana - havendo também quem comparasse a situação à revelação de que Spock tinha um meio-irmão por parte de pai, Sybok, feita no filme Jornada nas Estrelas 5: A Fronteira Final. Outro detalhe que causaria muita discussão entre os fãs era que a USS Discovery contava com um "Motor de Esporos" experimental, que permitia que ela se locomovesse usando a Rede Micelial, uma espécie de dimensão paralela à nossa - na prática se teletransportando pela galáxia, desaparecendo de um lugar para aparecer instantaneamente em outro toda vez que o Motor de Esporos era usado. Não somente tal tecnologia jamais havia sido sequer mencionada em Jornada nas Estrelas como também representaria uma gigantesca vantagem tática para qualquer povo que a possuísse, com várias explicações tendo de ser criadas pelos roteiristas como desculpa para ela não ter sido amplamente adotada pela Frota Estelar.

Finalmente, tendo em mente sua ideia de que Jornada nas Estrelas influenciava minorias, Fuller faria questão de que os personagens fossem o mais diversos possível - Michael é negra, assim como vários tripulantes importantes da Discovery; a capitã Philippa Georgiou tem nome europeu mas é asiática; e o engenheiro e o médico da nave, ambos homens, são um casal. Aproveitando que em 2016 a maquiagem e os efeitos de computação estavam mais avançados que em 1966, Fuller também decidiria que Discovery contaria com muito mais alienígenas não-humanos que as séries anteriores de Jornada nas Estrelas, com até mesmo os klingons ganhando uma aparência mais bestial que suas representações pregressas. Ele também queria que os uniformes e equipamentos da Discovery fossem idênticos aos da Série Clássica, mas com um visual mais tecnológico, impossível de obter nos anos 1960, mas isso seria descartado após seu desligamento.

As filmagens de Discovery ocorreriam em Toronto, no Canadá, e em cidades próximas da província de Ontário. Kurtzman queria que o visual da série justificasse ela ser o carro-chefe de um serviço de streaming, e pediria para que o diretor do piloto, David Semel, o fizesse "o mais cinematográfico possível", filmando-o em aspecto 2,39:1 e utilizando lentes anamórficas, normalmente reservadas a produções de cinema - o restante da primeira temporada seria filmado em aspecto 2:1 com lentes de TV tradicionais, mas o 2,39:1 anamórfico se tornaria o padrão a partir da segunda temporada. A maioria dos efeitos visuais ficaria a cargo da Pixomondo, com as empresas Spin VFX, Ghost VFX, Mackevision, Crafty Apes, DNEG, The Mill e FX3X também tendo trabalhado na série; alguns cenários eram totalmente feitos de computação gráfica, como o hangar das naves auxiliares, e a pós-produção de alguns episódios chegaria a levar dez meses, devido à quantidade de efeitos visuais presentes.

A abertura ficaria a cargo da empresa Prologue, e mostraria vários ícones de Jornada nas Estrelas, como o comunicador, a insígnia da Frota Estelar e o cumprimento vulcano, junto a elementos introduzidos em Discovery, todos como se mostrados através de projetos ou diagramas esquemáticos. Originalmente, ela seria em preto e branco, mas foi considerada muito "fria", e refeita em um tom sépia. A cada temporada a abertura seria levemente modificada para remover elementos que não fariam sentido para aquela temporada e incluir novos que seriam introduzidos nela.

A primeira temporada estrearia em 24 de setembro de 2017, com o piloto sendo exibido na TV aberta pela CBS e estando disponível no All Access; a partir de então, os outros 14 episódios (para um total de 15) seriam liberados no All Acess um por semana, até 11 de fevereiro de 2018. O sucesso seria instantâneo, com o All Access mais que dobrando seu número de assinantes enquanto a temporada estava no ar. A primeira temporada seria indicada a dois Emmys, ambos "técnicos", de Melhor Maquiagem Prostética para uma Série, Série Limitada, Filme ou Especial para Televisão, e de Melhor Edição de Som para uma Série de Comédia ou Drama de Uma Hora.

A primeira temporada começa com Michael Burnham (Sonequa Martin-Green) como primeiro-oficial da USS Shenzhou, junto à Capitã Philippa Georgiou (Michelle Yeoh). Ao investigar uma estranha ocorrência, Michael acaba inadvertidamente causando a morte de Georgiou e dando início a uma guerra entre o Império Klingon e a Federação dos Planetas Unidos, sendo submetida à Corte Marcial e condenada a prisão perpétua.

Seis meses depois, entretanto, enquanto está sendo transferida de prisão, uma emergência faz com que o transporte em que Michael está tenha de ser recolhido pela USS Discovery, com o Capitão Gabriel Lorca (Jason Isaacs) decidindo suspender temporariamente sua sentença para que ela use seus cohecimentos como xenobióloga para auxiliar a tripulação em sua missão atual: investigar um ataque de um alienigena desconhecido a outra nave, a USS Glenn. Apesar da resistência inicial do primeiro-oficial da nave, o Comandante Saru (Doug Jones), da raça dos kelpianos, Michael logo mostra seu valor à tripulação, composta pelo engenheiro Paul Stamets (Anthony Rapp); seu namorado, o médico Hugh Culber (Wilson Cruz); a alferes Sylvia Tilly (Mary Wiseman), colega de quarto de Michael; o oficial de segurança, Ash Tyler (Shazed Latif), com quem Michael chega a ter um romance; a piloto Keyla Detmer (Emily Coutts); a navegadora Joann Owosekun, apelido Owo (Oyin Oladejo); o oficial tático Gen Rhys (Patrick Kwok-Choon); a oficial de ciências Airiam (Sara Mitich), uma ciborgue que recebeu várias modificações cibernéticas após um acidente na Terra; e o oficial de operações Ronald Bryce (Ronnie Rowe Jr.).

Enquanto isso, a Federação segue em guerra contra os klingons, cuja frota é comandada por Kol (Kenneth Mitchell). A principal klingon da série é L'Rell (Mary Chieffo), que busca unificar as nove casas klingon para fortalecer o Império, mesmo com os patriarcas se opondo por considerar que ela não entende nada sobre governar um Império; extremamente inteligente, L'Rell consegue infiltrar um espião na Discovery, e maquina para usar os eventos da guerra a seu favor. Outros personagens de destaque da primeira temporada são a Almirante Katrina Cornwell (Jayne Brook), a quem Lorca responde diretamente; Sarek (James Frain) e Amanda (Mia Kirshner); e o trambiqueiro Harry Mudd (Rainn Wilson), personagem que originalmente apareceu em dois episódios da Série Clássica. Vale citar também que (SPOILER), no final da temporada, a Discovery faz uma visita ao Universo-Espelho, trazendo de lá a versão terrana de Georgiou - que, naquele universo, é ninguém menos que a Imperatriz da Terra.

Pouco antes da estreia da primeira temporada, em agosto de 2017, Berg e Harberts diriam já terem delineado um esqueleto de uma segunda e uma terceira temporadas, e que o piloto de Discovery havia custado 8,5 milhões de dólares, fazendo com que ela fosse uma das séries mais caras da história da televisão norte-americana. No final, o orçamento total da primeira temporada excederia o valor pago pela Netflix, mas a CBS cobriria a diferença confiando que esse valor seria reposto pelo aumento do número de assinantes do All Access. A segunda temporada receberia luz verde da CBS pouco após a estreia da primeira, em outubro de 2017, com Kurtzman declarando que, para evitar uma pressão semelhante à que a equipe sentiu trabalhando na produção da primeira temporada, a CBS não estabeleceria uma data de estreia para a segunda, mas que ele estava confiante de que ela ficaria pronta para estrear em 2019. Goldsman e Meyer não retornariam para a segunda temporada, o primeiro por se desentender com os roteiristas, o segundo alegando que jamais foi procurado pela CBS para renovar seu contrato. Em janeiro de 2018, Berg e Harberts também seriam demitidos pela CBS, com Kurtzman se tornando o único showrunner para a segunda temporada.

Querendo deixar para trás qualquer influência de Fuller na história, os roteiristas decidiriam encerrar a guerra entre a Federação e os klingons no final da primeira temporada, e começar uma história totalmente nova na segunda - que, apesar de manter um arco que permeava todos os episódios, ainda buscava ter uma história mais ou menos completa em cada um, para tornar a série mais parecida com as demais de Jornada nas Estrelas. A segunda temporada estrearia em 17 de janeiro de 2019, e teria mais 14 episódios, o último sendo disponibilizado em 18 de abril; seria indicada a quatro Emmys, de Melhor Sequência de Abertura, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Edição de Som para uma Série de Comédia ou Drama de Uma Hora, e Melhor Maquiagem Prostética para uma Série, Série Limitada, Filme ou Especial para Televisão, ganhando esse último.

A segunda temporada seria uma espécie de crossover com a Série Clássica, introduzindo a tripulação da USS Enterprise - da versão presente no piloto jamais exibido na TV e depois editado para se tornar o episódio A Coleção. Assim, Spock (Ethan Peck) tem um papel central na história; o Capitão Christopher Pike (Anson Mount) assume o comando da Discovery no lugar de Lorca; e alguns episódios contam com a presença da Número Um (Rebecca Romijn) e de Vina (Melissa George). A intenção dos roteiristas era fechar quaisquer pontas soltas e tapar quaisquer buracos de continuidade causados pela primeira temporada, para cimentar Discovey no cânone de Jornada nas Estrelas; eles fariam isso criando o Controle, uma inteligência artificial que se rebela e quase destrói toda a humanidade, cujo objetivo é se apoderar de um banco de dados alienígena que acaba acidentalmente em poder da Discovery.

A história da segunda temporada envolve o Anjo Vermelho, uma entidade que pode ter ligação com sete estranhos sinais que surgiram no espaço; Spock estava estudando esses sinais e quase enlouqueceu, e a Enterprise quase foi destruída ao tentar descobrir sua origem, de forma que as ordens de Pike são usar o Motor de Esporos da Discovery para seguir com a investigação. Além de Pike e Spock, novos personagens da segunda temporada incluem a engenheira Jett Reno (Tig Notaro), originalmente da USS Hiawatha, mas que se une à tripulação da Discovery após ser salva de um naufrágio; a chefe de segurança da Enterprise, Nhan (Rachael Ancheril), que também se une à tripulação da Discovery; Leland (Alan Van Sprang), comandante da Seção 31, braço da Federação que conduz operações sigilosas; e a mãe de Michael, Gabrielle Burnham (Sonja Sohn), que não morreu, mas sim foi transportada para centenas de anos no futuro durante o ataque dos klingons.

A maquiagem de Airiam estava causando problemas de pele em Mitich, então ela seria substituída no papel por Hannah Chessman; para que Mitich não tivesse de deixar a série, a Discovery ganharia uma nova tripulante, a Tenente Nilsson (cujo primeiro nome nunca foi divulgado). Outro novo tripulante de destaque seria o alienígena reptiliano Linus (David Benjamin Tomlinson), que sempre tinha uma tirada engraçada, estava no lugar errado na hora errada, ou divertia os colegas contando fatos pitorescos de sua raça.

Discovery mudaria radicalmente a partir da terceira temporada: para encerrar de vez as discussões sobre "por que isso nunca foi citado antes", e para ter mais liberdade ao escrever os roteiros, não tendo que se preocupar com como suas histórias afetariam ou seriam afetadas por tantas outras histórias de Jornada nas Estrelas escritas antes delas, os roteiristas tomariam uma decisão radical, fazendo com que, para escapar do Controle, no último episódio da segunda temporada, a tripulação e a USS Discovery viajassem para 930 anos no futuro - fazendo com que, ao invés de a segunda série cronologicamente falando, Discovery se transformasse na última, explorando um período da história jamais mostrado em Jornada nas Estrelas.

Quando a USS Discovery chega ao futuro, a Federação está em frangalhos e quase não existe mais, com um dos culpados tendo sido a Queima, um evento misterioso que ocorreu cerca de cem anos antes e destruiu quase todas as naves com capacidade para dobra espacial. Saru assume como capitão da Discovery, e oferece seus serviços à Federação, com Michael fazendo de sua missão pessoal descobrir as causas da Queima, para que ela não se repita, e reconstruir a Federação, trazendo de volta membros que a abandonaram, como a Terra e Vulcano - que, no futuro, se chama Ni'Var. O maior problema desse plano é a Corrente Esmeralda, uma união tênue entre os órions e os andorianos, que governa grande parte da galáxia como uma família mafiosa, e não tem interesse em ver a Federação forte novamente.

Jogar a série para um futuro distante traria não só mais oportunidades aos roteiristas, mas também à equipe de produção, que poderia criar novas naves e equipamentos jamais vistos em Jornada nas Estrelas - o principal deles sendo a Matéria Programável, um monte de cubinhos que se reconfigurava para criar qualquer material que os engenheiros quisessem usar. Outra novidade criada pelos roteiristas foi o teletransporte pessoal: através de um comando em sua insígnia, os membros da Frota Estelar podiam se teletransportar à vontade, sem precisar ir até uma sala própria com um operador próprio. Telas que flutuavam e hologramas também passariam a ser lugar comum em todos os episódios, com a Discovery sendo reformada para acrescentar as novas tecnologias, mas mantendo seu "visual retrô" em relação às naves construídas no futuro.

A partir da terceira temporada, Michelle Paradise seria co-showrunner ao lado de Kurtzman, e a astrofísica Erin Macdonald seria contratada como consultora, para que a série se mantivesse dentro do escopo da ficção científica, sem descambar para a fantasia. Macdonald estaria presente na sala dos roteiristas e ouviria todas as suas ideias sobre novas tecnologias, dando sua opinião sobre quais seriam possíveis com a tecnologia do futuro e quais somente seriam possíveis com magia; ela também participaria da pós-produção, para que planetas, galáxias, buracos negros e outros elementos do espaço fossem mostrados de forma realística através dos efeitos visuais.

O principal novo personagem da terceira temporada é Cleveland Booker, apelido Book (David Ajala). Nascido no planeta Kewijan, com o poder de se comunicar empaticamente com animais e plantas, e tendo adotado o nome de seu mentor, que era da Terra, Book trabalha como courier, transportando cargas de um lado para o outro da galáxia, encontrando itens raros para quem estiver disposto a pagar, e negociando no mercado negro objetos obtidos nem sempre de forma legal - aparentemente uma profissão muito comum nesse futuro sem Federação e governado por mafiosos. Book foi a primeira pessoa que Michael encontrou quando chegou ao futuro, os dois tiveram um romance, e ela trabalhou como courier ao lado dele até ela reencontrar a tripulação da Discovery, com quem ele passaria a viajar, sem entretanto se tornar um tripulante oficial.

Outro personagem de grande destaque seria a Alferes Adira Tal (Blu del Barrio). Adolescente, não-binárie e um prodígio para sua idade, Adira é o primeiro humano a se tornar hospedeiro de um simbionte Trill, o que ocorreu após um acidente que vitimou seu namorado, Gray Tal (Ian Alexander). Também merecem ser mencionados o Almirante Charles Vance (Oded Fehr), comandante da Frota Estelar no futuro; Osyraa (Janet Kidder), órion que comanda com mão de ferro a Corrente Esmeralda; o Dr. Kovich (David Cronenberg), principal cientista da Federação; T'Rina (Tara Rosling), presidente de Ni'Var; o kelpiano Su'Kal (Bill Irwin), que vê Saru como uma figura paterna; e Zora (Annabelle Wallis), entidade resultante da combinação do banco de dados alienígena com o computador da Discovery.

A terceira temporada seria toda filmada antes de as restrições causadas pela pandemia entrarem em vigor, com apenas a pós-produção sendo feita durante a pandemia; ela teria 13 episódios, que estreariam entre 15 de outubro de 2020 e 7 de janeiro de 2021, e seria indicada a quatro Emmys, de Melhor Maquiagem Prostética, Melhor Maquiagem Não-Prostética para uma Obra de Época ou Fantasia, Melhor Edição de Som para uma Série de Comédia ou Drama de Uma Hora, e Melhores Efeitos Especiais Visuais em um Único Episódio, ganhando esse último. Antes mesmo de sua estreia, em janeiro de 2020, Discovery seria renovada para uma quarta e uma quinta temporadas, com Kurtzman planejando filmar as duas back to back, ou seja, como se fossem uma única temporada, mas as restrições causadas pela pandemia acabariam cancelando esses planos.

Na quarta temporada, uma anomalia espacial ameaça vários planetas; após ser descoberto que ela não é natural, e sim fabricada, a Presidente da Federação, Laira Rillak (Chelah Horsdal) defende que se descubra sua origem e se inicie negociações diplomáticas para que ela seja interrompida, mas o cientista Ruon Tarka (Shawn Doyle) pretende usar uma arma proibida para destruí-la, o que pode trazer consequências para todo o futuro das viagens espaciais, ou pior, mergulhar a Federação em uma guerra contra uma espécie desconhecida. Na quarta temporada, a Discovery ganharia mais um tripulante de destaque, o tenente Christopher (Orville Cummings), que, devido a compromissos assumidos previamente por Rowe, aos poucos substituiria Bryce em suas funções. O maior destaque da quarta temporada, entretanto, seria que Michael finalmente assume como capitã da Discovery, tendo Saru como seu Imediato. A quarta temporada teria mais 13 episódios, que estreariam entre 18 de novembro de 2021 e 17 de março de 2022, e seria a primeira a não ser indicada a nenhum Emmy.

Em março de 2021, o All Access mudaria de nome para Paramount+, e a CBS anunciaria que o alcance do serviço passaria a ser internacional; isso levaria a uma batalha jurídica contra a Netflix, que queria continuar exibindo Discovery fora dos Estados Unidos e Canadá, mas se viu obrigada a tirar as três primeiras temporadas do catálogo dias antes da estreia da quarta. Como nem todos os países que tinham Netflix já tinham Paramount+ na ocasião (e muita gente não queria assinar um novo streaming), muitos fãs ficaram revoltados, o que levaria a CBS a negociar a exibição dos episódios on demand em seu site e a fechar um contrato para a exibição gratuita da quarta temporada na Pluto TV para países que ainda não tivessem Paramount+. Essa bagunça não afetaria a produção da quarta temporada, mas acabaria atrasando a quinta, que estrearia somente em 2024.

Durante a produção da quarta temporada, tendo em vista o grande número de cancelamentos de séries devido à pandemia, Kurtzman chegaria a demonstrar preocupação, declarando que Discovery ainda tinha muitas histórias para contar, e citando que A Nova Geração, Deep Space Nine e Voyager tiveram sete temporadas cada, considerando esse o número ideal para uma série de Jornada nas Estrelas. Em janeiro de 2022, a Paramount pediria que a quinta temporada de Discovery tivesse somente 10 episódios, para ficar de acordo com outras séries do Paramount+, e, em março de 2023, anunciaria que a quinta temporada seria a última, o que pegaria toda a equipe e elenco de surpresa, já que a expectativa era de uma renovação, talvez até mesmo para a sexta e sétima temporadas. O motivo alegado para o cancelamento foi a necessidade de cortar custos na produção de séries originais do Paramount+.

A quinta temporada tem como antagonistas Moll (Eve Harlow) e L'ak (Elias Toufexis); ela, uma courier renegada, ele, um alienígena de uma raça desconhecida, ambos um casal que se apaixonou, se envolveu em uma baita encrenca, passou a sobreviver fazendo roubos ousados, e se viu acidentalmente na posse de um diário que pode comprar a liberdade de ambos. O problema é que esse diário leva até um experimento dos Progenitores, a raça que séculos atrás criou toda a vida na galáxia, e, se cair em mãos erradas, pode representar o fim da Federação e o início de um império no qual os Breen governariam com mão de ferro. A Discovery, então, se vê numa corrida contra Moll e L'ak para obter as partes de um mapa que levará ao segredo dos Progenitores, enquanto a Federação tenta impedir que os Breen descubram o que está em jogo. Além disso, Saru decide aceitar um convite para um posto diplomático, o que leva Michael a escolher para seu novo imediato o Capitão Rayner (Callum Keith Rennie), que é irascível e arrogante, mas tem experiência prévia perseguindo Moll e L'ak.

Os dois primeiros episódios da quinta temporada estreariam no Paramount+ em 4 de abril de 2024, e depois um por semana até 30 de maio. A temporada já estava em produção quando ocorreu o cancelamento, mas Kurtzman e Paradise convenceriam a Paramount a filmar um encerramento para a série; como a Paramount não permitiu que esse encerramento fosse um décimo-primeiro episódio, o último episódio da série teria uma hora e meia de duração, com mais ou menos dois terços sendo dedicados à conclusão do arco de história de Moll e L'ak e o terço final sendo o encerramento.

Antes de terminar, vale citar que Discovery teve um spin-off, o filme para TV Star Trek: Section 31, escrito por Craig Sweeny e dirigido por Olatunde Osunsanmi, ambos também responsáveis por alguns episódios da série. Ambientado cerca de um ano após a Discovery viajar para o futuro, o filme é protagonizado pela Imperatriz Philippa Georgiou (Michelle Yeoh), que é "convidada" para fazer parte de uma equipe liderada pelo agente da Seção 31 Alok (Omari Hardwick), e que conta com o cameloide Quasi (Sam Richardson), metamorfo que pode assumir várias formas diferentes; o microscopico Fuzz, da raça dos nanokins, que pilota um corpo cibernético com a aparência de um vulcano (Sven Ruygrok); o ciborgue Zeph (Robert Kazinsky), que usa um exoesqueleto lotado de armas; a irresistível deltana Melle (Humberly González); e a tenente da Frota Estelar Rachel Garrett (Kacey Rohl), que, no futuro, será a capitã da Enterprise-C. Sua missão é recuperar um artefato roubado, que Georgiou logo identifica como sendo de origem do Universo-Espelho, construído por ela mesma e extremamente perigoso, podendo levar à destruição de toda a galáxia. O elenco conta ainda com San (James Hiroyuki Liao), antiga paixão de Georgiou no Universo-Espelho; Dada Noe (Joe Pingue), traficante de armas responsável pela entrega do artefato; e Jamie Lee Curtis como a comandante da Seção 31. Section 31 estrearia no Paramount+ em 24 de janeiro de 2025 e não faria muito sucesso, tendo baixa audiência e críticas negativas - alguns diriam ser a pior produção de toda a história de Jornada nas Estrelas. Ainda assim, seria indicado a um Emmy, de Melhor Edição de Som para uma Série Limitada ou de Antologia, Filme ou Especial para Televisão.

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