domingo, 25 de julho de 2021

Escrito por em 25.7.21 com 0 comentários

Buzkashi

Quando eu completei 500 posts aqui no átomo, fiz um comemorativo do qual gostei muito, mas que tinha uma seção que eu me arrependi de ter escrito. Nela, citei cinco categorias para as quais eu achava que, em breve, já não teria mais assunto, e uma dessas categorias era Esportes. Não bastando a categoria Esportes depois disso ter ganhado mais posts do que nunca, no 500 eu ainda escrevi que não iria escrever sobre buzkashi só para mantê-la com assunto. Pois bem, parece que finalmente essa categoria está ficando sem assunto, porque essa semana eu decidi que hoje vai ser dia de buzkashi no átomo.

Na verdade, já faz algum tempo que eu penso em falar de buzkashi, mais precisamente desde que fiz o segundo post sobre esportes a cavalo, no qual quase o incluí, mas acabei desistindo porque achei que teria assunto suficiente para um post só dele. O motivo pelo qual eu achei que nunca iria querer falar sobre buzkashi é que ele é, digamos, exótico demais: além de ser disputado a cavalo, no lugar de uma bola é usada uma carcaça de cabrito sem cabeça. O buzkashi é tão exótico, aliás, que podem reparar, toda lista de esportes exóticos publicada em qualquer lugar sempre conta com ele - e normalmente na primeira posição. Além de exótico, porém, o buzkashi tem um monte de detalhes interessantes, e foi isso que acabou me motivando a escrever o post.

O buzkashi é um esporte antiquíssimo, daqueles que são tão antigos que ninguém sabe ao certo quando foram inventados. O que se sabe é que ele foi criado por povos nômades que habitavam a Ásia Central, na região hoje ocupada pelo Turcomenistão, e levado tanto para o leste, chegando à Mongólia e à China, quanto para o oeste, chegando ao Irã e ao Afeganistão. Foi nessa região que ele se popularizou: "buzkashi" é uma palavra persa, que significa "arrastar a cabra", e, no Afeganistão, ele é considerado o esporte nacional, contando com campeonatos tão populares e disputados quanto os principais campeonatos de futebol do planeta, e sendo o principal passatempo das tribos que habitam o interior do país. Bons jogadores de buzkashi, no Afeganistão, são tratados como verdadeiras celebridades, e ganham dinheiro suficiente para viver confortavelmente com casas e carros de luxo. Além do Afeganistão e Irã, outros países nos quais o buzkashi é popular são Turquia, Tajiquistão, China (onde, além do buzkashi a cavalo, existe uma versão na qual os jogadores atuam montados em iaques) e Cazaquistão (onde o esporte se chama kokpar). Como não é muito difundido, o buzkashi não possui uma Federação Internacional; os dois principais órgãos responsáveis por regulá-lo são o Comitê Olímpico Afegão e a Associação Nacional de Kokpar do Cazaquistão, que usam praticamente as mesmas regras, apenas com pequenos detalhes sendo diferentes. O buzkashi é um esporte exclusivamente masculino, com jogos femininos de buzkashi não sendo disputados em lugar nenhum.

Vale dizer, porém, que o buzkashi "puro", aquele considerado tradicional, e ainda disputado no interior da Ásia, é um jogo extremamente violento. Mas violento mesmo, a ponto de ser normal jogadores e cavalos morrerem, ficarem aleijados ou perderem braços e pernas durante as partidas - que não têm duração pré-determinada, podendo se estender ao longo de dias. Como disputar um campeonato profissional nessas condições seria impossível, o Comitê Olímpico Afegão, em 1996, criou uma espécie de "versão light" do jogo, que, em 2000, foi adotada também pela Associação Nacional de Kokpar. É essa versão que será comentada nesse post - principalmente porque as regras da "versão original" são cheias de variações regionais, e seria impossível abordar todas elas. Da mesma forma, se eu falar de campo ou uniformes, por exemplo, estou me referindo aos da versão profissional - assim como no futebol, é possível existirem partidas disputadas em quaisquer condições, sendo a diferença, nesse caso, a de que, no buzkashi, as partidas profissionais, seguindo as regras oficiais, são minoria.

A principal característica do buzkashi, podem perguntar pra qualquer um, é que, ao invés de uma bola, como já foi dito, é usado um cabrito morto. Para que o cabrito esteja próprio a exercer sua função, além de morto ele tem sua cabeça e suas entranhas removidas, e, dependendo do caso, as duas patas dianteiras serradas. Para que ele não fique sangrando durante a partida, deve ficar de molho na água gelada durante 24 horas, e ter todos os seus orifícios preenchidos com areia pelo menos uma hora antes do início do jogo. Embora o cabrito seja o mais comum, o animal considerado ideal para uma partida de buzkashi é o bezerro, que é mais resistente e corre menos risco de se desfazer durante a partida; não havendo nenhum dois dois, pode ser usada uma cabra.

De uns anos pra cá, para tornar o jogo mais atraente aos amantes de animais, alguns torneios têm usado "cabritos artificiais", feitos de tecido, madeira, lã e cheios de areia, para ficarem com o mesmo formato, peso e consistência de um cabrito real; jogadores mais tradicionalistas, entretanto, alegam que somente o cabrito real permite a verdadeira experiência, e que matar o cabrito - o que é feito de forma ritualística - é uma parte importante da tradição do buzkashi. Seja real ou fabricado, erguer e transportar o cabrito não é nada fácil, já que ele deve pesar entre 60 e 70 kg; as regras estipulam que uma das mãos do jogador deve sempre estar em contato com o cabrito enquanto ele o transporta, e que é proibido levá-lo sobre a sela ou apoiado no corpo do jogador, mas é permitido levar o cabrito na lateral do cavalo com uma das pernas do jogador por cima, para permitir maior firmeza e dificultar que um oponente o tome.

Jogadores de buzkashi são conhecidos como chapandaz; acredita-se que os melhores chapandaz em atividade são aqueles com por volta de 40 anos, já que possuem a experiência e o condicionamento físico necessários, esculpidos ao longo de anos de prática. É incomum um chapandaz ser dono de seu próprio cavalo - em equipes profissionais, os cavalos normalmente são propriedade da equipe, mas não é incomum cavalos de buzkashi serem de propriedade de pessoas abastadas que se dedicam a treiná-los para estarem sempre no mais alto nível de jogo. Esses proprietários de cavalos sempre buscam ter os melhores chapandaz montando seus animais, pois acredita-se que um bom desempenho do animal na partida traz honra para seu dono; por causa disso, é normal que os melhores chapandaz consigam escolher qualquer animal à disposição antes de um torneio de importância.

Hoje, os principais cavalos de buzkashi do planeta chegam a valer 50 mil dólares cada, e são criados no Cazaquistão e no Uzbequistão especialmente para o esporte - o Afeganistão tinha essa tradição, mas a perdeu após anos de guerra civil. Cavalos de buzkashi são especificamente treinados, se tornando fortes, rápidos e confiáveis; com o treinamento correto, e sem se envolverem em nenhum acidente, podem participar de partidas ao longo de até vinte anos. Diferentemente dos chapandaz, os cavalos não usam nenhuma proteção especial, apenas selas, rédeas, estribos e um enfeite na cabeça. Embora o chapandaz possa se levantar da sela durante a partida, é proibido ele desmontar do cavalo, e um time é desclassificado se o pé de um chapandaz tocar o solo. As regras também exigem que uma das mãos do chapandaz esteja nas rédeas o tempo todo, ou seja, um chapandaz carregando o cabrito estará sempre com suas duas mãos ocupadas.

O uniforme do buzkashi lembra as roupas típicas da Ásia Central, mas é feito para proteger o chapandaz durante a partida - já que choques, encontrões e até mesmo algumas chicotadas são bastante comuns. O uniforme é composto por uma camisa de mangas compridas acolchoada de tecido grosso, aberta na frente e fechada através de uma faixa amarrada na cintura, parecida com a usada no judô, mas com a diferença de que a faixa é costurada às costas da camisa; um capacete acolchoado parecido com o usado por alguns jogadores de rugby, amarrado embaixo do queixo, e que pode ter um chapéu típico, chamado tebetei, encaixado no topo; uma proteção acolchoada especial para as pernas, normalmente usada sob uma calça comprida; e botas de couro de cano alto com um salto especialmente desenhado para se encaixar ao estribo e dar maior sustentação ao chapandaz; joelheiras e caneleiras são opcionais. Completa o uniforme um chicote próprio, com cabo de madeira e uma tira grossa de couro; a principal função desse chicote é "estimular" o cavalo, mas, dentro das regras, ele também pode ser usado contra os oponentes (mas não contra os cavalos dos oponentes), para forçá-los a soltar o cabrito. O chapandaz que está na posse do cabrito deve levar o chicote entre os dentes, já que estará com ambas as mãos ocupadas.

O buzkashi possui duas formas, o tudabarai e o qarajai. O tudabarai é disputado por qualquer número de chapandaz, não tem área de jogo definida, com o "campo" normalmente se estendendo por centenas de metros, e nele o intuito é agarrar o cabrito e fugir em qualquer direção, sendo vencedor aquele que conseguir abrir uma determinada distância ou escapar por um determinado tempo de seus perseguidores. Já o qarajai possui um campo definido, e o objetivo é levar o cabrito até o outro lado e trazê-lo de volta, marcando pontos. O qarajai possui uma versão individual, com entre três e dez chapandaz disputando o cabrito e marcando seus pontos individualmente, e uma por equipes, disputada por dois times de cinco chapandaz cada, que podem, inclusive, passar o cabrito de um colega de equipe para outro, sendo todos os pontos dos chapandaz de uma mesma equipe somados.

O campo do qarajai pode ser gramado ou de terra batida, e tem 300 m de comprimento por 150 m de largura. Em torneios oficiais, ao redor do campo há uma "área de segurança" de 10 m, que não pode conter nenhum elemento. O campo não tem qualquer marcação além de uma bandeira, fincada a 10 m de uma das linhas de fundo, e um círculo de 3 m de diâmetro, traçado a 10 m da linha de fundo oposta, ambos centralizados no sentido da largura. No início da partida, o cabrito é colocado dentro desse círculo, e os chapandaz, que começam com seus cavalos sobre as linhas de lado, disputarão entre si quem consegue pegá-lo e fugir do grupo, levando-o até a bandeira. O chapandaz deve dar a volta na bandeira, retornar com o cabrito e jogá-lo dentro do círculo, quando marcará, então, um ponto. É permitido roubar o cabrito no meio do caminho, mas, se um chapandaz roubar o cabrito de um oponente que esteja voltando, ele deve retornar e dar a volta na bandeira - caso ele roube na "ida", pode seguir em frente para dar a volta na bandeira normalmente. Cada vez que é marcado um ponto, os chapandaz voltam com seus cavalos para a linha de lado e a partida recomeça.

Uma partida de qarajai individual termina quando um dos jogadores consegue marcar três pontos - e, por isso, as partidas costumam ser bastante longas; para tentar reduzir sua duração, alguns torneios usam um sistema de "rounds", com cada partida durando um número determinado de rounds, e cada round tendo seu próprio vencedor, que é aquele que marcar o ponto naquele round, com o vencedor de cada round ganhando um prêmio em dinheiro, e não existindo um "vencedor da partida". A vantagem desse sistema é que uma partida termina mesmo que cada ponto tenha sido marcado por um chapandaz diferente; a desvantagem é que, mesmo que um chapandaz marque três pontos, a partida continua. Torneios profissionais, por exemplo, normalmente usam partidas de 12 rounds, e não é raro um jogador terminar com bem mais de três pontos. Na partida individual não há necessidade de os chapandaz usarem cores diferentes, e normalmente todos usam preto.

Já a partida por equipes dura dois tempos de 45 minutos cada, com um intervalo de 15 minutos para descanso entre eles. Cada equipe possui dez chapandaz, sendo que os cinco que atuarem no primeiro tempo não podem retornar para o segundo. O relógio é contado na decrescente, não para nunca, e o tempo acaba assim que ele chega a zero, não importando em qual ponto do campo estava o chapandaz que carrega o cabrito. Os pontos de todos os jogadores da mesma equipe são somados para determinar o placar final da equipe, com o jogo podendo terminar empatado - caso seja um jogo eliminatório, o segundo tempo não termina empatado, com a partida prosseguindo com o cronômetro zerado até alguma das equipes pontuar. Na partida por equipes, como em outros esportes, todos os chapandaz de uma mesma equipe devem usar uniformes da mesma cor, as equipes deve usar uniformes de cores diferentes uma da outra.

Uma partida de buzkashi é oficiada por um árbitro a cavalo, devidamente identificado, e que pode marcar faltas, como, por exemplo quando um chapandaz bate com o chicote no cavalo do outro, pega nas rédeas do cavalo do outro, força um oponente para fora do campo, ou agride a outro chapandaz ou a seu cavalo fisicamente - dentro das regras, encontrões, empurrões e até chicotadas nas áreas acolchoadas do uniforme são tolerados, mas chicotadas no rosto ou nas mãos do oponente, assim como socos, chutes ou até cabeçadas são considerados agressões físicas. Um jogador que cometa uma falta é excluído do jogo até alguém marcar um ponto; se ele for reincidente, ou se a falta for especialmente grave, ele pode ser excluído pelo resto da partida. Equipes que tenham um jogador excluído, temporaria ou permanentemente, ficam com um a menos. Algumas "faltas leves", como tirar as mãos das rédeas, carregar o cabrito incorretamente, ou se chocar de propósito contra um oponente, resultam apenas em uma advertência, e o chapandaz só é punido se for reincidente. Caso o chapandaz excluído da partida seja o que está carregando o cabrito, o ponto recomeça, com o cabrito retornando ao círculo e os chapandaz às linhas laterais. Falando nisso, é o árbitro quem dá a autorização para a disputa começar a cada ponto, após conferir que tanto o cabrito quanto os chapandaz estão em seus locais corretos.

Somente três países possuem campeonatos profissionais de buzkashi. O Afeganistão já teve um campeonato nacional, mas, estando ainda se reconstruindo após anos de guerra civil - durante a época dos talibãs, inclusive, o buzkashi, considerado imoral, foi proibido - hoje só tem campeonatos regionais. O único desses campeonatos que é disputado no qarajai por equipes é o de Cabul, a capital do país; os demais são todos no qarajai individual, sendo o principal o da cidade de Sheberghan. Já no Tajiquistão, o principal torneio é disputado no tudabarai por 12 chapandaz de cada vez e em sistema de rounds, com o vencedor de cada round ganhando um prêmio em dinheiro.

Mas o torneio de buzakshi - aliás, de kokpar - mais disputado do mundo é o do Cazaquistão. Fundada em 2000, a Associação Nacional de Kokpar começou seu campeonato nacional anual adulto no ano seguinte, 2001, e o campeonato júnior, exclusivo para chapandaz de até 21 anos, em 2005. O Cazaquistão é dividido em 14 regiões (que são como se fossem nossos estados), e todas elas não somente são representadas no campeonato nacional como também possuem seus próprios campeonatos regionais, sendo os mais disputados os do Cazaquistão do Sul, com 32 times, de Jambyl, com 27 times, e de Akmola, com 18 times. A Associação Nacional de Kokpar também é responsável por organizar, a cada quatro anos desde 2013, o Campeonato Mundial de Kokpar, que conta com times da Ásia, da Europa e com os Estados Unidos; ambas as edições realizadas até hoje foram vencidas pelo Cazaquistão.

O buzkashi possui um "parente", um esporte chamado kok boru, que surgiu no Quirguistão. Embora muitos considerem que o kok boru é um derivado do buzkashi, há registros de que ambos os esportes se desenvolveram separadamente; o fato de que ambos sejam disputados a cavalo e usando um animal morto como bola pode ser devido a um ancestral comum. "Kök börü" significa "lobo cinzento", e é uma referência à lenda de que, quando um lobo atacava os rebanhos, um grupo de cavaleiros o atacava, matava e ficava jogando seu cadáver de um para o outro até despejá-lo em um poço - teria sido dessa forma, segundo essa lenda, que o esporte surgiu. O kok boru é tão popular no Quirguistão quanto o kokpar no Cazaquistão, contando com um disputado campeonato nacional, embora em menor escala; outros países nos quais ele é popular são Turquia, Rússia, Uzbequistão, Turcomenistão e Mongólia.

O kok boru possui muitas semelhanças com o buzkashi, mas também muitas diferenças - apesar delas, um time de kok boru não costuma ter muita dificuldade para disputar um torneio de buzkashi, e vice-versa. Assim como o buzkashi, o kok boru é um esporte exclusivamente masculino, mas o kok boru sempre é jogado em equipes e com um campo pré-determinado. Ao invés de um cabrito, no kok boru é usada uma ovelha, que poder ser "natural" (uma ovelha morta, decapitada, sem as entranhas e cheia de areia e serragem) ou "artificial" (feita de tecido, lã, madeira, areia e serragem) - nos Estados Unidos, costuma-se usar uma bola especial, feita de couro e revestida de lã, que tem mais ou menos o mesmo formato da ovelha. A ovelha pesa entre 32 e 35 kg caso o tempo esteja seco, ou entre 27 e 30 kg caso esteja chuvoso ou o campo de jogo esteja enlameado. O uniforme do kok boru também é idêntico ao do buzkashi, mas o tebetei é obrigatório, e os jogadores devem ter números nas costas.

O campo do kok boru é sempre de terra batida, e tem 200 m de comprimento por 70 m de largura. As "linhas de fundo" não são retas, e sim semicírculos, mais ou menos como se fosse uma pista de atletismo; a explicação é que, para popularizar o esporte, ele começou a ser praticado em hipódromos, que também têm esse formato. De cada lado do campo há um "gol", chamado tai kazan, que lembra um pudim. Cada tai kazan tem 1,2 metro de altura, 4,4 m de diâmetro na base, e 3,6 m de diâmetro no topo, que conta com um "buraco" de 2 m de diâmetro e 1,5 m de profundidade; o intuito é que o tai kazan represente o tal poço onde os lobos eram jogados dentro. A distância do centro de um tai kazan para o centro do outro é de 140 m, o que faz com que o centro de cada tai kazan esteja a 30 m do final do campo. Em frente a cada tai kazan, na direção do centro do campo, há um círculo de 10 m de diâmetro; o centro de cada tai kazan fica a 27,2 m do centro de cada círculo, o que faz com que a borda do tai kazan fique a exatos 20 m da borda do círculo. Finalmente, centralizado com o centro do campo, há um círculo central de 10 m de diâmetro, e, na direção de uma das linhas de lado, há um círculo de 3 m de diâmetro, que é onde a ovelha começa a cada ponto; o centro desse segundo círculo fica a 18,5 m do centro do círculo central, o que faz com que a borda desse círculo fique a 15 m da linha de lado.

Uma equipe de kok boru possui 12 jogadores, dos quais quatro estarão em campo de cada vez; assim como no buzkashi, os cavalos pertencem à equipe, não ao jogador, embora cada jogador possa ter seu cavalo "próprio" ou "preferido". Alguns torneios fornecem os cavalos à equipe visitante, para que os animais não tenham de viajar junto com a equipe. Uma partida dura três tempos de 20 minutos cada, com intervalos de 10 minutos entre um tempo e outro, e as equipes mudando de lado a cada intervalo; cada jogador (e cada cavalo) só pode participar de um tempo de jogo, ou seja, todos os 12 jogadores participam de cada partida. A equipe vencedora é aquela com mais pontos ao final do tempo regulamentar, podendo ocorrer empates; em caso de jogo eliminatório que termine empatado, após mais 10 minutos de intervalo é disputada uma prorrogação sem duração definida e com morte súbita, sendo vencedor o time que pontuar primeiro.

No início de cada ponto, a ovelha começa no círculo próprio, e os jogadores em fila na linha lateral do lado oposto do campo; a um comando do árbitro central, todos avançam em direção à ovelha, e passam a ter o objetivo de levá-la até o tai kazan do lado adversário e jogá-la lá dentro, ganhando, assim, um ponto; assim como no buzkashi, cada jogador deve manter uma das mãos nas rédeas do cavalo a todo momento, e o jogador que carrega a ovelha deve ter uma das mãos em contato com ela (tendo de levar, portanto, o chicote entre os dentes), não podendo apoiá-la em seu corpo ou no cavalo, mas podendo usar a perna para segurá-la com mais estabilidade. É permitido passar a ovelha para um colega de time, assim como é permitido roubar a ovelha de um jogador que a esteja carregando. Toda vez que uma equipe marca um ponto, o relógio para, a ovelha volta para o círculo próprio, os jogadores voltam para a fila, e, ao comando do árbitro, o relógio reinicia e um novo ponto é disputado.

O círculo central é usado caso, após dois minutos do comando do árbitro, nenhum jogador conseguiu pegar a ovelha e começar a correr na direção do tai kazan; se isso acontecer, o árbitro interrompe a partida (e o relógio), leva a ovelha para dentro do círculo central, e cada time escolhe um jogador para disputá-la, que, antes do sinal do árbitro, devem ficar com as patas dianteiras de seus cavalos sobre o círculo, cada um de seu lado do campo. Se, após um minuto, nenhum dos dois conseguir a posse da ovelha, o árbitro para o jogo de novo e outros dois jogadores são escolhidos, até que dê certo. Esse mesmo procedimento é adotado caso a ovelha saia de campo, ou caso caia em um lugar onde o árbitro considere que será perigoso se os jogadores a disputarem no chão; nesse caso, porém, ela não é colocada sempre no círculo central, e sim no círculo de 10 m de diâmetro mais próximo de onde ela estava quando o jogo foi interrompido.

Uma outra regra interessante é a do salym, que basicamente diz que o ponto só vale em duas situações: se a ovelha cair totalmente dentro do buraco do tai kazan, ou se dois terços da ovelha estiverem dentro do buraco do tai kazan, em ambos os casos após um jogador jogá-la no tai kazan com intenção de marcar o ponto. Não há salym, ou seja, o ponto não vale, se apenas um terço da ovelha estiver dentro do buraco; se a ovelha caiu dentro do buraco sem intenção de o jogador jogá-la lá dentro, como, por exemplo, durante uma disputa por sua posse; se uma ou mais pernas do cavalo estiverem sobre o tai kazan quando o jogador jogou a ovelha; quando a ovelha fica na borda do tai kazan, sem cair no buraco; ou quando a ovelha cai no buraco mas, por inércia ou por quicar no fundo, sai de lá de dentro e cai do lado de fora, ou com menos de dois terços pra dentro. Se não há salym, a disputa prossegue normalmente, com qualquer jogador podendo pegar a ovelha para tentar marcar o ponto; vale notar que é falta "empurrar" uma ovelha que esteja na borda para dentro do buraco, devendo o jogador erguê-la totalmente antes de tentar pontuar.

Falando em falta, o kok boru é oficiado por três árbitros, um central, que acompanha os jogadores a cavalo, e dois auxiliares, a pé, nas laterais do campo. A maior parte das faltas é punida com exclusão de dois minutos, ou seja, o jogador faltoso deve sair do campo e ir para um local próprio, onde ficará durante dois minutos, durante os quais sua equipe atuará com um a menos. Essas faltas incluem empurrar a ovelha para dentro do tai kazan, entrar em um círculo enquanto dois jogadores estiverem disputando a ovelha por comando do árbitro, atingir um oponente ou seu cavalo com socos ou chutes, chicotear um oponente no rosto ou nas mãos ou seu cavalo em qualquer local, pegar as rédeas do oponente, confundir o cavalo do oponente, bloquear o caminho de um oponente de forma perigosa, atuar sem chapéu (caso ele caia e o jogador não o pegue e o coloque de volta), jogar a ovelha para fora do campo de propósito, carregar a ovelha de forma incorreta, e danificar a ovelha de propósito.

Caso um jogador seja reincidente, ou caso o árbitro determine que sua conduta colocou a vida ou integridade física de outro jogador em risco - desferindo um golpe violento ou fazendo com que ele caia do cavalo ao cruzar seu caminho, por exemplo - o jogador pode ser expulso da partida, com o time tendo de atuar com um a menos até o final daquele tempo; um jogador também pode ser expulso por desrespeitar uma decisão do árbitro ou faltar com o respeito com o árbitro ou com os demais jogadores, e, caso o jogador seja expulso muito próximo ao final do tempo, o árbitro pode determinar que o time jogue com um a menos durante todo o tempo seguinte. Caso a conduta do jogador seja extremamente reprovável, ele pode ser excluído também do jogo seguinte; nesse caso, a equipe pode substituí-lo por um reserva - falando nisso, as equipes costumam ter reservas, para substituir ao longo do torneio jogadores que se machuquem, por exemplo; esses reservas não contam para o limite de 12 por equipe.

Assim como o buzkashi, o kok boru não possui uma federação internacional; as duas principais entidades que o regulam são a Federação Quirguiz de Kok Boru, fundada em 1998 e responsável por organizar o principal campeonato do Quirguistão, a President's Cup, que conta com 18 equipes divididas em duas ligas - na High League atuam seis equipes que representam, cada uma, uma das províncias do país, enquanto na First League atuam 12 outras equipes, divididas em quatro grupos de três por critérios regionais - e a GSDF, a Federação Turca de Esportes Tradicionais, mesma que regula outro esporte a cavalo que já vimos, o jareed, e que é responsável por organizar o campeonato turco, que também é bastante disputado e conta com 12 equipes. A principal competição internacional do kok boru são os Jogos Mundiais Nômades, dos quais ele faz parte desde sua primeira edição; como era de se esperar, o Quirguistão ganhou todas as três medalhas de ouro disputadas até agora.
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domingo, 18 de julho de 2021

Escrito por em 18.7.21 com 0 comentários

Shreya Ghoshal

Quando eu fui fazer o quarto post para encerrar o Mês da Índia, fiquei na dúvida entre duas cantoras, Sunidhi Chauhan e Shreya Ghoshal. Curiosamente, na Índia as duas são tidas como rivais, e seus fãs se envolvem em verdadeiras batalhas para tentar provar que uma é melhor cantora que a outra, incluindo provocações, corridas para comprar os mais recentes lançamentos e até mesmo boicotes aos filmes que tenham músicas da rival. Como eu não sou indiano, e acho isso meio que uma palhaçada, gosto das duas, e acabei optando por Sunidhi por achar que ela tem uma voz mais bonita. Continuei com vontade de falar sobre Shreya, porém, e, como não há nenhuma lei que diga que eu não posso fazer um post sobre uma cantora indiana fora do Mês da Índia, resolvi fazer um sobre ela hoje. Hoje é dia de Shreya Ghoshal no átomo!

Shreya nasceu em 12 de março de 1984 na cidade de Berhampore, no estado indiano de Bengala Ocidental, próxima à fronteira com Bangladesh, mas cresceu em Rawatbhata, no Rajastão, no norte do país, para onde seus pais se mudaram quando ela tinha três anos de idade. Seu pai, Bishwajit Ghoshal, era funcionário da NPCIL, a empresa pública indiana de geração de energia elétrica a partir de usinas nucleares, e foi transferido de cidade ao ser promovido; sua mãe, Sarmistha Ghoshal, era formada em literatura, mas não trabalhava. O casal ainda teve um outro filho, mais novo que Shreya, chamado Soumyadeep Ghoshal.

Shreya começaria a estudar música aos quatro anos de idade, graças a um programa de atividades para filhos de funcionários da NCPIL; graças ao emprego de seu pai, aliás, ela estudaria até a oitava série na Atomic Energy Central School No.4, parte de uma rede apenas para filhos de funcionários da NPCIL. Aos 6 anos, ela faria sua primeira apresentação no palco, e chamaria a atenção de Kalyanji Bhai, cantor da dupla Kalyanji-Anandji, que decidiria ser seu professor de canto por um ano e meio. Em 1995, quando Shreya tinha 11 anos e estudava na sexta série, seu professor de música sugeriu que ela se inscrevesse no All India Light Vocal Music Competition, concurso de jovens talentos realizado em Nova Délhi, o qual ela acabou vencendo. Em 1997, seu pai seria transferido de novo, para Anushakti Nagar, próxima a Mumbai, o que faria com que Shreya concluísse seus estudos na Atomic Energy Central School No.1. Em seguida, ela seria matriculada na Atomic Energy Junior College, para estudar ciências, mas, sem se adaptar, abandonaria o curso e se matricularia na SIES, faculdade de artes, ciência e comércio em Mumbai, onde estudaria artes e língua inglesa.

Enquanto ainda estava no colégio, Shreya seria convidada pela gravadora Sagarika Music, da cidade de Kolkata (anteriormente conhecida como Calcutá), capital de Bengala Ocidental, para gravar a canção Ganraj Rangi Nachato, (a "dança das cores da república"), versão em bengali de uma famosa canção de Lata Mangeshkar. O sucesso da música nas rádios levaria a um convite para gravar um álbum infantil, Bendhechhi Beena (algo como "afinando os instrumentos musicais"), também em bengali, lançado em 1998, quando Shreya tinha 14 anos. No ano seguinte, ela lançaria mais um, Ekti Katha ("uma palavra"), apenas com versões em bengali de famosas canções de filmes de Bollywood, e, em 2000, lançaria dois, Rupasi Raate ("noite bonita"), álbum de covers de famosas canções em bengali, e Mukhor Porag ("pólen oral"), seu segundo álbum de inéditas, esse já voltado para o público adulto. Todos os quatro teriam vendas medianas, mas a crítica já começaria a elogiar a voz e a afinação da garota.

Também em 2000, aos 16 anos, Shreya seria selecionada para participar de uma edição especial do reality show Sa Re Ga Ma Pa, parecido com o The Voice Kids, do canal Zee TV, o principal de Mumbai. Ela seria a vencedora, mas seu principal prêmio seria que uma de suas performances chamaria a atenção do diretor Sanjay Leela Bhansali - ou melhor, da mãe do diretor, que, ao ver Shreya cantando, chamaria o filho para que ele a ouvisse. Bhansali ficaria tão impressionado que a convidaria para seu próximo filme, Devdas; o diretor musical, Ismail Darbar, ficaria ainda mais impressionado com o teste que ela faria para o filme, e decidira dar a ela as canções da personagem principal, interpretada por uma das atrizes mais famosas de Bollywood, Aishwarya Rai. Shreya cantaria nada menos que cinco canções no filme, fazendo duetos com os já famosos Kavita Krishnamurthy, Udit Narayan, Vinod Rathod, Krishnakumar Kunnath e Jaspinder Narula. Uma coisa que chamaria a atenção da equipe seria que, como a época de provas estava se aproximando, Shreya levaria seus livros e cadernos para o estúdio, e estudaria durante os intervalos das gravações.

Devdas seria lançado em 2002, mesmo ano do lançamento de mais um álbum de Shreya pela Sagarika, Banomali Re ("de frente para o céu"), apenas com regravações de músicas religiosas. O álbum não faria muito sucesso, mas o filme catapultaria Shreya para o estrelato, lhe rendendo dois Filmfare Awards, o de Novo Talento Musical e o de Melhor Playback Singer Feminina, pela canção Dola Re ("raio de luz"); outra canção, Bairi Piya ("amada, mas sem coração"), chegaria ao primeiro lugar da parada de sucessos, e lhe renderia um National Film Awards, o principal prêmio do cinema indiano, na categoria Melhor Playback Singer Feminina. O sucesso lhe renderia mais de dez convites para gravar músicas para filmes; ela decidiria aceitar o de Darbar, que lhe deu a primeira chance, e gravar três músicas para Desh Devi ("a deusa local"), também de 2002.

A maior parte dos convites recebidos por Shreya - e, consequentemente, a maior parte das canções gravadas por ela - eram de temática religiosa, o que fez com que ela ficasse com medo de ficar estereotipada e somente ser chamada para esse tipo de trabalho; por isso, em 2003, ela surpreenderia e faria um teste para o filme Jism ("corpo"), dirigido por Amit Saxena, com canções de M.M. Keerevani. Inspirado no filme norte-americano Corpos Ardentes, de 1981, Jism era um thriller erótico com canções repletas de sensualidade, o que causou um rebuliço dentre os fãs de Shreya, na época com 19 anos; em entrevistas, ela diria que o filme "faria com que todos a vissem sob uma nova ótica", e diversificaria os convites, com os que ela provaria ser uma das mais versáteis playback singers de Bollywood. A canção Jaadu Hai Nasha Hai ("é mágico, é um vício") lhe renderia seu segundo Filmfare Award de Melhor Playback Singer Feminina.

Shreya também receberia convites para gravar músicas de filmes gravados fora de Bollywood, nos mais variados idiomas. A partir de 2003, ela passaria a aceitar também convites para cantar em marata, punjabi, tâmil, telugo, urdu, boiapuri, canarês, malaiala, assamês, guzerate, oriá, angica, túlu e até mesmo francês e nepalês. Ela evidentemente não é fluente nessas línguas todas, "só" em inglês, hindi e bengali, mas possui grande facilidade em decorar e pronunciar de forma correta as palavras, o que faz com que ela seja uma das cantoras mais requisitadas do cinema regional indiano.

Em 2003, Shreya aceitaria um convite para trabalhar com o compositor Anu Malik em Saaya ("sombra"), filme no qual faria sua estreia na tela, interpretando uma colegial no número musical da canção Har Taraf ("em todos os lugares"), uma das quatro que ela gravou para a produção. No mesmo ano, ela trabalharia novamente com Malik em nada menos que três outros filmes, Inteha ("limite"), Munna Bhai M.B.B.S. (a versão indiana do sucesso Patch Adams: O Amor é Contagioso) e LOC Kargil. Também em 2003, ela gravaria Tu Hi Bata Zindagi ("me diz como é a vida"), composição do trio Shankar-Ehsaan-Loy para o filme Armaan ("desejos"), que seria aclamada pelos críticos, perplexos com como ela conseguia "cantar uma canção tão difícil sem nenhum esforço".

Ela começaria 2004 gravando três canções para Thoda Tum Badlo Thoda Hum ("um pouco de você muda um pouco de nós"), que seriam consideradas "medianas" pela crítica, mas, em seguida, sua performance em Khakee ("cáqui", a cor), mais uma vez dando voz a uma personagem de Rai, seria considerada "impressionante", e levaria alguns críticos a declarar que ela era a mais apropriada cantora para as atrizes daquela geração. Também em 2004, ela trabalharia com a dupla de compositores Nikhil-Vinay em Dil Bechara Pyaar Ka Maara ("acerte meu coração desamparado de amor"), e com outra dupla, Nadeem-Shravan, em Tumsa Nahin Dekha ("não vi você"). O álbum da trilha sonora de Tumsa Nahin Dekha era praticamente um álbum de Shreya, já que das nove músicas, ela só não cantava uma; segundo Shreya, a experiência permitiu que ela explorasse ao máximo suas habilidades de canto. Finalmente, em 2004 ela voltaria a trabalhar com Malik em Main Hoon Na ("não sou eu"), faria seu primeiro trabalho com Rajesh Roshan em Aetbaar ("confiança"), e gravaria Shikdum para o mega sucesso Dhoom ("entusiasmo") - na primeira vez em que ela e sua "rival", Sunidhi Chauhan, estariam ambas na trilha de um mesmo filme.

Em 2005, Shreya começaria a namorar seu amigo de infância Shiladitya Mukhopadhyaya; os dois sempre mantiveram o relacionamento longe de qualquer escrutínio do público, com ela sempre se recusando a responder a perguntas do tipo "como é namorar alguém que não é uma celebridade?". Os dois namorariam quase dez anos antes de se casarem em uma cerimônia tradicional bengali, em Kolkata, em 5 de fevereiro de 2015, e estão juntos até hoje. Em março de 2021, Shreya anunciaria que está grávida de seu primeiro filho, mas não deu maiores informações, como, por exemplo, se já sabe o sexo da criança ou se já escolheu um nome.

Também em 2005, ela ganharia seu segundo National Film Award de Melhor Playback Singer Feminina, pela canção Dheere Jalna ("queimando lentamente"), do filme Paheli ("charada"). No mesmo ano, ela trabalharia pela primeira vez com o compositor Shantanu Moitra, em duas produções, Parineeta ("o especialista") e Yahaan ("aqui"), gravando três faixas para cada um, sendo uma das de Yahaan em punjabi. O desempenho de Shreya em ambas as trilhas seria elogiadíssimo pela crítica, e a canção Piyu Bole ("ele disse"), de Parineeta, lhe renderia mais uma indicação ao Filmfare Awards de Melhor Playback Singer Feminina - aliás, nessa cerimônia ela concorreria com duas, já que também seria indicada por Agar Tum Mil Jao ("se eu te pegar"), do filme Zeher ("veneno"), mas acabaria perdendo para Alisha Chinai. Segundo Moitra, Shreya não foi sua primeira escolha para Piyu Bole, com ela tendo sido escolhida através de um teste do qual participaram mais de 15 cantoras; a dificuldade na escolha se deu porque o diretor do filme, Pradeep Sarkar, queria uma risada no meio da música, que nenhuma cantora acertava - até que Shreya acertou de primeira, sem esforço nenhum, e ainda repetiu para provar que não havia sido sorte.

Em 2006, Shreya gravaria quatro duetos compostos por Ravindra Jain para o filme Vivah ("casado"), inclusive uma música que era uma conversa entre duas irmãs, dueto com Pamela Jain, absolutamente ovacionado pela crítica, que descreveu seus vocais como "obessessivos". No mesmo ano, ela gravaria So Jaoon Main ("vou dormir"), composição de Roop Kumar Rathod para o filme Woh Lahme ("aqueles momentos"); apesar de ter um pouco mais que seis minutos de duração, considerada longa para as rádios, a música seria uma das mais tocadas do ano, entrando para o Top 10, e elogiadíssima pela crítica. Ela também ganharia mais uma indicação ao Filmfare Award de Melhor Playback Singer Feminina, por Pal Pal Har Pal ("cada momento a cada momento"), do filme Lage Raho Munna Bhai (algo como "siga em frente, irmão Munna"), continuação de Munna Bhai M.B.B.S.; esse ela perderia justamente para Sunidhi Chauhan, que, nesse ano, concorreria com nada menos que três canções. Nessa época, aliás, Shreya e Sunidhi começavam a ser retratadas como rivais, e seus fãs começavam a se estranhar; talvez para tentar afastar essa imagem, as duas gravariam um dueto, Imaan Ka Asar ("efeito da fé"), composição da dupla Salim-Sulaiman para o filme Dor ("porta"), que foi considerado um verdadeiro encontro de titãs pela crítica - as duas já haviam cantado "em grupo", acompanhada por dois ou mais cantores, mas esse seria o primeiríssimo dos três duetos que elas gravariam, sendo o segundo Bollywood Bollywood, do filme Chargesheet, de 2011, e o terceiro Sye Raa, canção de abertura do filme telugo Sye Raa Narasimha Reddy, de 2019.

Também em 2006, Shreya ganharia seu primeiro Filmfare Award South (versão do prêmio dedicado a filmes gravados no sul da Índia, falados nos idiomas locais; o norte quase todo fala hindi) de Melhor Playback Singer Feminina, pela canção Munbe Vaa ("venha mais cedo"), do filme tâmil Sillunu Oru Kaadhal ("a brisa do amor"). Finalmente, junto com Sonu Nigam, Sunidhi Chauhan e Shiamak Davar, Shreya se apresentaria na Cerimônia de Encerramento dos Jogos da Comunidade Britânica em Melbourne, Austrália, como parte de um mini-show que visava promover a edição seguinte do evento, que ocorreria em 2010 em Nova Délhi, capital da Índia; em dueto com Nigam, ela gravaria Haath Se Haath Milaa (algo como "de mãos dadas"), canção cuja renda seria integralmente revertida para uma campanha de conscientização sobre a AIDS.

Em 2007, Shreya se arriscaria a gravar uma canção tradicional indiana no estilo thumri, que possui vocais extremamente complexos e sincronizados com a dança. Chamada Chale Aao Saiyan ("vem a noite") e composta por Moitra para o filme Khoya Khoya Chand ("a lua perdida"), a canção irritaria a alguns puristas, mas cairia nas graças dos críticos, que descreveriam os vocais de Shreya como "diferentes". Ela também gravaria canções em um estilo mais tradicional para o filme Saawariya, deixando de lado o pop que a fez famosa; uma dessas canções, Thode Badmaash (algo como "meio safadinho"), seria seu primeiro trabalho com Sanjay Leela Bhansali, que elogiaria enormemente suas "nuances temperadas" em entrevistas. Também em 2007, ela ganharia seu terceiro National Film Award de Melhor Playback Singer Feminina, pela canção Yeh Ishq Haaye ("oi meu amor"), composição de Pritam para o filme Jab We Met ("quando nos encontramos"), e seu terceiro Filmfare Award de Melhor Playback Singer Feminina, pela canção Barso Re ("raios na chuva"), composição de A.R. Rahman para o filme Guru.

Em 2008, Shreya ganharia nada menos que seu quarto National Film Award de Melhor Playback Singer Feminina, por Pherari Mon ("mente inquieta"), do filme Antaheen ("sem fim"), que não era uma produção de Bollywood, e sim um filme regional bengali, o que tornou o sabor do prêmio ainda maior; na mesma cerimônia, ela ainda concorreria com Jeev Dangla Gungla Rangla Asa ("desentendimento na rebelião da vida"), de Jogwa ("evitar"), que também não era um filme de Bollywood, e sim uma produção regional marata, o que fez com que ela se tornasse a única vencedora do National Film Award de Melhor Playback Singer Feminina a concorrer com duas músicas em dois idiomas diferentes no mesmo ano. Ela também ganharia seu quarto Filmfare Award de Melhor Playback Singer Feminina, pela canção Teri Ore ("para você"), do filme Singh is Kinng (com dois n mesmo, e esse sim um filme de Bollywood). Nesse ano ela também ganharia dois Filmfare Awards South de Melhor Playback Singer Feminina, um por Ninna Nodalenthu ("olhe para você"), do filme canarês Mussanjemaatu ("crepúsculo"), e um por Jagadhananda Karaka ("o aspecto de Jagadananda"), do filme telugo Sri Rama Rajyam ("o reino de Sri Rama").

Em 2009, Shreya teria mais uma indicação ao Filmfare Award de Melhor Playback Singer Feminina por Zoobi Doobi, do filme 3 Idiots, e concorreria contra Sunidhi, mas ambas perderiam para Kavita Seth. No ano seguinte, ela e Sunidhi praticamente dominariam o prêmio, cada uma concorrendo com duas canções (sendo a quinta finalista uma canção de Mamta Sharma); Shreya concorreria com Bahara ("surdo"), de I Hate Luv Stories, e Noor-e-Khuda, de My Name is Khan, mas a vencedora seria Sunidhi. Em 2010, Shreya ganharia mais dois Filmfare Awards South de Melhor Playback Singer Feminina, um por Kizhakku Pookkum ("indo para o leste"), do filme malaiala Anwar, e um por Un Perai Sollum ("diga o seu nome"), do filme tâmil Angadi Theru ("a rua da loja").

Nesses últimos cinco anos, Shreya rapidamente se tornaria a playback singer mais requisitada de Bollywood, gravando nada menos que 438 músicas entre 2005 e 2010. Por causa disso, a partir de 2011 ela passaria a ser mais criteriosa, selecionando melhor os convites e não se inscrevendo mais para testes. Dois de seus maiores sucessos daquele ano seriam Saibo, dueto com Tochi Raina composição da dupla Sachin-Jigar para o filme Shor in the City, e Teri Meri ("seu e meu"), dueto com o paquistanês Rahat Fateh Ali Khan composto por Himesh Resahmiya para o filme Bodyguard; essas duas canções lhe renderiam duas indicações no mesmo ano ao Filmfare Award de Melhor Playback Singer Feminina, mas ela perderia o prêmio para um dueto de Usha Uthup e Rekha Bhardwaj. Em compensação, ela ganharia mais um Filmfare Awards South de Melhor Playback Singer Feminina, por Gaganave Baagi ("dobre o céu"), do filme canarês Sanju Weds Geetha.

Em 2012, Shreya encantaria a crítica mais uma vez com Chikni Chameli ("jasmin suave"), composição da dupla Ajay-Atul para o filme Jatra que era a versão em hindi de uma música deles mesmos em marata, Kombdi Palali; em entrevistas, ela revelaria que "não se sentiu confortável" com alguns "termos vulgares" da letra, e pediu para que os compositores os alterassem. Naquele ano, Shreya concorreria mais uma vez ao Filmfare Award de Melhor Playback Singer Feminina com duas canções, Chikni Chameli e Saans ("respiração"), essa última do filme Jab Tak Hai Jaan ("enquanto houver vida"), mas perderia o prêmio para Shalmali Kholgade. Ela receberia, entretanto, um importante prêmio regional, o Tamil Nadu State Film Award de Melhor Playback Feminina, por Sollitaley Ava Kaadhala ("o amor solitário"), do filme Kumki ("elefante"), além do Filmfare Award South de Melhor Playback Singer Feminina por Paattil Ee Paattil ("a música na música"), do filme malaiala Pranayam ("amor").

No ano seguinte, ela concorreria mais uma vez com duas canções, Sunn Raha Hai ("sentindo-se entorpecido"), do filme Aashiqui 2 ("romance 2"), e Nagada Sang Dhoi ("perfume de lavanda"), do filme Goliyon Ki Raasleela Ram-Leela ("Ram-Leela e a dança das balas"), mas perderia para Monali Thakur. Ambas essas músicas possuem curiosidades: Nagada Sang Dhoi foi composta por Bhansali, que também dirigiu o filme, e Sunn Raha Hai tinha duas versões no filme, uma feminina, cantada por Shreya, e uma masculina, cantada por Ankit Tiwari, que também compôs a música - e que, em entrevistas, declarou que a versão de Shreya era muito melhor que a dele.

Shreya é uma das poucas playback singers indianas a ter feito uma turnê mundial; a dela, no caso, ocorreu em 2013, e começou na Austrália, com shows em Brisbane, Melbourne e Sydney; passou por Auckland, Nova Zelândia; Pailles, nas Ilhas Maurício (com um show cuja renda foi totalmente revertida para as vítimas de uma inundação que ocorreu no país naquele ano); Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos; e terminou em Londres, Inglaterra, com um show no famoso Royal Albert Hall, no qual ela voltaria a se apresentar em 2014. Essa turnê seria parte das comemorações pelos "100 anos de Bollywood" (na verdade, do cinema indiano, já que o termo Bollywood só foi criado nos anos 1970), e nela Shreya cantaria grandes clássicos dos filmes indianos, e não só as canções que foram originalmente interpretadas por ela. Também é interessante mencionar que Shreya é uma das poucas playback singers a terem feito um show nos Estados Unidos, com o dela tendo sido realizado em 2017, em Detroit.

Em 2014, Shreya gravaria Manwa Laage ("atração mental"), dueto com Arijit Singh, composta pela dupla Vishal-Shekhar, com letra de Irshad Kamil, para o filme Happy New Year, que lhe renderia mais uma indicação ao Filmfare Award de Melhor Playback Singer Feminina. Ela não ganharia o prêmio, mas a canção estabeleceria um recorde não batido até hoje, o de ter ultrapassado dois milhões de visualizações no Youtube nas primeiras 48 horas após seu lançamento. Ela também receberia mais um Filmfare Award South de Melhor Playback Singer Feminina por um filme malaiala, How Old Are You?, pela canção Vijanathayil ("desolação"). No ano seguinte, ela ganharia seu quarto prêmio nessa categoria, por Kaathirunnu ("espera"), do filme Ennu Ninte Moideen ("isso é seu, obrigada").

Em 2015, Shreya gravaria canções de A.R. Rahman para o filme tâmil I. Ela não só gravaria a canção principal do filme, Pookkalae Sattru Oyivedungal ("deixe as flores brilharem"), um dueto com o cantor Haricharan, em tâmil, como também a versão em telugo da mesma música, Poolane Kunukeyamantaa (mesmo significado), também com Haricharan, e a versão em hindi, Tu Chale ("você vai"), dueto com Arijit Singh. A versão tâmil foi especialmente elogiada, com uma crítica dizendo que "será preciso criar novos adjetivos para elogiar" a cantora. No mesmo ano, ela faria mais um filme de Bhansali, Bajirao Mastani, para o qual ela também gravaria três músicas em hindi, tâmil e telugo; uma dessas músicas, Deewani Mastani, lhe renderia seu quinto Filmfare Award de Melhor Playback Singer Feminina.

Shreya começaria 2016 gravando Tere Bin ("sem você"), música de abertura do filme Wazir, um dueto com Sonu Nigam, considerado "clássico demais para um filme ambientado na época atual", mas no qual a performance dela foi bastante elogiada. Em um fato inédito, esse seria o primeiro ano desde 2004 no qual nenhuma canção interpretada por ela seria indicada ao Filmfare Awards; no ano seguinte, ela voltaria a estar dentre as finalistas com Thodi Der ("um pouco mais tarde"), do filme Half Girlfriend. Também em 2017 ela surpreenderia mais uma vez ao gravar Aashiq Surrender Hua (algo como "renda-se e deixe a paixão acontecer"), dueto com Amaal Mallik, também compositor da música, para o filme Badrinath Ki Dulhania ("Badrinath, cidadão do mundo"), cantando em um tom muito mais grave do que estava acostumada, mas ainda assim lindamente. Outra música extremamente elogiada de Shreya em 2017 foi Rozana, do filme Naam Shabana ("o nome do plano"), com alguns críticos dizendo que sua voz deixava a canção "hipnotizante".

Shreya também conseguiria uma grande proeza ao colocar nada menos de quatro canções na lista das "dez mais românticas de 2017" do jornal The Times of India: Usire Usire ("respire, respire"), do filme Hebbuli ("paraíso"), Ondu Malebillu ("arco-íris"), do filme Chakravarthy ("o imperador"), Ninna Snehadinda ("sua amizade"), do filme Mugulu Nage ("riso e sorriso"), e Chippinolagade ("dentro das conchas"), do filme Maasthi Gudi ("adeus") - para tornar a proeza ainda mais absurda, todas as quatro eram cantadas em canarês, com as seis outras da lista sendo cantadas em hindi. No mesmo ano, ela também teria a canção número 1 da lista das "dez mais animadas do ano", Blockbuster, do filme Sarrainodu ("para Sarrai") - cantada em telugo.

Em 2018, Shreya gravaria a canção através da qual eu a conheci: Ghoomar, dueto com Swaroop Khan composta por Bhansali para o filme Padmaavat, também dirigido por ele, um épico que conta a história da Rainha Padmaavat, que resistiu à investida de invasores afegãos nos primórdios da história da Índia; a canção era inspirada na música e dança tradicionais das rainhas do Rajastão, e rapidamente se tornaria uma das favoritas das dançarinas indianas, sendo usada em números de dança por todo o país. Ghoomar renderia a Shreya seu sexto, e por enquanto último, Filmfare Award de Melhor Playback Singer Feminina; ela também ganharia o Filmfare Award South de Melhor Playback Singer Feminina por Mandaraa Mandaraa, do filme telugo Bhaagamathle.

Em 2019, Shreya conseguiria suas por enquanto duas últimas indicações ao Filmfare Award de Melhor Playback Singer Feminina, com Yeh Aaina ("este espelho"), do filme Kabir Singh, e Ghar More Pardesiya ("nossa casa em Pardesiya"), um dueto com Vaishali Mhade, trilha do filme Kalank ("borrão"). Em 2020, o cinema indiano seria muito afetado pela pandemia, e Shreya só gravaria nove canções, seu número mais baixo em um ano, empatado com seu ano de estreia, 2002. Em 2021, a produção está lentamente voltando ao normal, e ela já gravou duas músicas para o filme Tuesdays And Fridays e quatro, compostas por Mallik, para Saina; com a gravidez, porém, a tendência é que ela pegue mais leve, e esse seja mais um ano de pouca produção. Mas, com apenas 37 anos e sendo uma das mais respeitadas e requisitadas playback singers, não há dúvida de que Shreya ainda tem uma longa carreira de sucesso pela frente.
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domingo, 11 de julho de 2021

Escrito por em 11.7.21 com 0 comentários

Christopher Lee

Hoje eu encerro minha minissérie sobre meus atores de terror preferidos, com aquele que talvez seja o mais famoso para quem frequenta esse blog. Hoje é dia de Christopher Lee no átomo!

Christopher Frank Carandini Lee nasceu em 27 de maio de 1922, em Londres, mais novo de um casal de filhos de um oficial do exército, o Tenente-Coronel Geoffrey Trollope Lee, com um membro da nobreza italiana, a Condessa Estelle Marie Carandini di Sarzano, descendente do Imperador Carlos Magno. Curiosamente, seu bisavô materno chegou à Inglaterra vindo da Itália como refugiado político, e lá se casou com a cantora de ópera australiana Marie Burgess (que faria carreira como Marie Carandini). Quando os pais de Lee se conheceram, a Condessa era modelo, tendo posado para pinturas de Sir John Lavery, Oswald Birley e Olive Snell, e para uma escultura de Clare Sheridan, enquanto o Tenente-Coronel era um veterano da Guerra dos Bôeres e da Primeira Guerra Mundial.

Infelizmente, o casamento do Tenente-Coronel com a Condessa não durou, com o casal se separando quando Lee tinha apenas quatro anos; sua mãe levaria a ele e a sua irmã, Alexandra, para a cidade de Wengen, na Suíça, e os matricularia em um colégio interno, a Miss Fisher's Academy, na cidade de Territet, onde Lee faria seu primeiro papel teatral, interpretando o duende Rumpelstiltskin na peça de mesmo nome. Quando Lee tinha sete anos, a família voltaria a Londres, pois sua mãe estava de casamento marcado com o banqueiro Harcourt George St-Croix Rose, tio de Ian Fleming, o escritor criador de James Bond. Após o casamento, eles se mudariam para a cidade de Fulham, para uma casa vizinha à do ator Eric Maturin. Um dia, Rose receberia a visita do Príncipe Yusupov e do Grão-Duque Dmitri Pavlovich, os assassinos de Grigori Rasputin; Lee jamais esqueceria essa visita, e contaria essa história em entrevistas após interpretar o bruxo no cinema.

Rose a a Condessa planejavam matricular Lee na Eton College, a mais prestigiada escola do Reino Unido para meninos entre 13 e 18 anos; para isso, quando ele tinha nove, o matricularam na Summer Fields School, em Oxford, uma espécie de curso preparatório, do qual os alunos que se destacavam eram automaticamente encaminhados para Eton. Lee, porém, gostava muito das aulas de teatro, participando de todas as peças montadas na escola, e pouco das de matemática, o que fez com que ele tivesse nota para entrar em Eton, mas não como bolsista - apenas os dez primeiros colocados ganhariam bolsa, e Lee foi o décimo-primeiro. Rose confiava que Lee conseguiria a bolsa, e, sem se programar para desembolsar a vultosa quantia necessária para que ele estudasse pagando, decidiu matriculá-lo na Wellington College, de menor prestígio mas mais barata. Infelizmente, a Wellington não tinha programa de teatro, o que fez com que Lee não pudesse atuar no período; seu padrasto insistia para que ele praticasse esportes para tentar ganhar uma bolsa, mas, apesar de ser considerado razoável por seus professores de raquetes, esgrima e críquete, era péssimo no hóquei, futebol, rugby e boxe, os esportes que conferiam bolsa integral.

No geral, Lee detestava estudar na Wellington; sofria bullying, frequentemente apanhava dos colegas, era acusado pelos professores de fazer corpo mole, e acabava sendo punido por qualquer motivo - uma vez ele foi suspenso por "se envolver em muitas brigas", mas, como nunca era ele quem começava, acabou sendo uma suspensão por "apanhar demais dos colegas". Quando Lee tinha 17 anos, em 1939, faltando apenas um para que ele se formasse, o banco de Rose foi à falência, ele perdeu tudo e ainda ficou devendo 25 mil libras aos credores, a Condessa pediu o divórcio, e Lee teve de sair da escola e arrumar um emprego. Alexandra já trabalhava como secretária, mas, com a Segunda Guerra Mundial já no horizonte, não havia empregos disponíveis em Londres para rapazes de 17 anos. Ficou acertado, então, que Lee iria viajar para a Riviera Francesa, onde Alexandra estava passando férias com amigos, e tentar arrumar um emprego lá.

No caminho, porém, Lee passaria por Paris, e ficaria hospedado na casa do jornalista Webb Miller, amigo de Rose. Lá, ele assistiria à última execução pública por guilhotina conduzida na França, a do assassino serial Eugen Weidmann, e seria encaminhado por Miller para a cidade de Menton, onde moraria com a família Mazirov, membros da nobreza russa exilados após a Revolução Comunista. Ele arrumaria um emprego na companhia de importação e exportação United States Lines, mas, com a Guerra chegando à França, decidiria, quando as férias de Alexandra terminaram, voltar com ela para Londres e se alistar.

Lee seria enviado para a Finlândia, onde um batalhão britânico daria suporte às tropas finlandesas na batalha contra a União Soviética; ele não se envolveria em conflitos, apenas fazendo serviço de guarda a uma distância segura da fronteira entre os dois países. Duas semanas depois, ele seria mandado de volta a Londres e dispensado, voltando a trabalhar para a United States Lines e, depois de algum tempo, para a farmacêutica Beecham's. Em 1940, a Beecham's encerraria suas atividades em Londres, e, acompanhando seu pai, Lee se filiaria à Home Guard, uma milícia voluntária que auxiliava o Exército Britânico. O Tenente-Coronel faleceria de pneumonia no inverno e, querendo lutar na Guerra, mas acreditando não ter vocação para o exército, Lee se alistaria na RAF, a Real Força Aérea Britânica.

Lee faria todo o treinamento na Inglaterra, seria enviado para a Rodésia (hoje Zimbábue) para seu treinamento final, mas, no dia de sua avaliação final, teria dores de cabeça e visão embaçada. Um médico da RAF diagnosticaria falha no nervo ótico, e o proibiria de pilotar pelo resto da vida. Lee ficaria arrasado por todo seu treinamento ter sido em vão, mas, sem querer desistir, se inscreveria para trabalhar com a Inteligência da RAF. Ele seria então "emprestado" à polícia, e atuaria como carcereiro na Prisão de Salisbury, capital da Rodésia; em seguida, seria promovido a aviador-chefe, e enviado para trabalho burocrático em Durban, África do Sul. No final de 1941, ele seria enviado para o Canal de Suez, no Egito, onde trabalharia como espião na cidade de Ismalia. Em 1943, ele seria nomeado líder de um esquadrão que tinha como missão dar apoio às Tropas Aliadas no Norte da África, percorrendo o Egito, Líbia e Tunísia, desbaratando operações inimigas e destruindo campos de pouso do Eixo. Lee fez parte da Invasão Aliada da Sicília, e ajudou as tropas britânicas a tomar a ilha italiana. Ele contrairia malárias seis vezes em um ano, porém, e, na sexta, à beira da morte, acabaria enviado e um hospital em Cartago, na Tunísia, para tratamento.

A retornar, Lee ajudaria a conter um motim que se formava dentre os soldados britânicos na Itália, principalmente pela falta de notícias vindas do front europeu; participaria da Batalha de Monte Cassino, na qual quase foi morto quando o avião onde estava foi derrubado e ele caiu em cima de uma bomba prestes a explodir; e escalaria o Vesúvio apenas três dias antes de o vulcão entrar em erupção. Após ser enviado para Roma, onde conheceu Nicolò Carandini, um primo de sua mãe que lutava na resistência italiana, ele seria promovido a tenente, e participou da preparação dos planos de invasão da fortaleza dos nazistas nos Alpes. Quando a Alemanha se rendeu, ele estava na Áustria, e, como falava francês, alemão e italiano fluentemente, foi encaminhado para o Registro Central de Criminosos de Guerra e Suspeitos de Atentar Contra a Segurança, onde ajudou a localizar e prender criminosos de guerra nazistas, até mesmo participando de interrogatórios e da libertação de campos de concentração.

Lee pediria baixa da RAF em 1946, as 24 anos, quando retornaria a Londres. A Beecham's, recomeçando suas operações na cidade, o ofereceria seu antigo emprego, mas ele recusaria, achando que, depois de tudo o que havia vivido, não conseguiria trabalhar em um escritório. As Forças Armadas também tinham um programa através do qual oficiais podiam se tornar professores universitários, mas Lee também não se interessou. Mais tarde naquele ano, Nicolò seria escolhido para ser Embaixador Italiano em Londres e, durante um almoço com Lee, sugeriu que ele poderia tentar a carreira de ator. Se lembrando com carinho das peças de teatro da época da escola, ele decidiu aceitar se encontrar com Filippo Del Giudice, um advogado amigo de Nicolò que estava trabalhando como produtor para o estúdio Two Cities Films. Com sua aparência considerada exótica e sua voz grave e ressonante, Lee impressionou os executivos do estúdio - exceto um, que disse que Lee, com 1,96 m de altura, era "muito alto para ser ator" - e conseguiu um contrato de sete anos para atuar em produções para o cinema.

Como jamais havia atuado como ator profissional, Lee foi inscrito na "Escola de Charme" da Rank Organisation, dona da Two Cities Films. Isso significava que ele seria escalado para diversos papéis em filmes com envolvimento da Rank, mas sempre com poucas ou nenhuma fala, para "ganhar experiência". Sua estreia no cinema seria no romance Escravo do Passado, de 1947, interpretando um homem que está na mesa do grupo de amigos do protagonista em um clube noturno, e tem apenas uma fala. Entre 1947 e 1957, ele teria papéis em mais de trinta filmes, incluindo um soldado sem falas em Hamlet (1948); um pirata em O Falcão dos Mares (1951), papel que ganhou por saber esgrimar e falar espanhol; um piloto de carruagem em Quo Vadis (1951), sofrendo um acidente e sendo arremessado para fora do veículo; um frequentador do cabaré em Moulin Rouge (1952); o ladrão em The Awakening (1954), inspirado em O Sobretudo, de Nikolai Gogol, e protagonizado por Buster Keaton; e um comandante de submarino em Os Sobreviventes (1955). Entre 1953 e 1956, Lee também teria vários papéis pequenos nas séries de TV Tales of Hans Anderson, The Vise e Douglas Fairbanks, Jr., Presents.

No final dos anos 1950, Lee ficaria noivo de Henriette von Rosen, a quem conheceria em um clube noturno de Estocolmo. Seu pai, o Conde Fritz von Rozen, membro da realeza sueca, era contra o relacionamento, e não somente inquiria constantemente seus amigos londrinos e os amigos de Lee sobre como ele era e se podia confiar nele, como também contratou um detetive particular para seguir o ator dia e noite. Como se isso não bastasse, ele decidiu que só permitiria o casamento se Lee obtivesse uma permissão especial do Rei da Suécia; curiosamente, Lee havia conhecido Sua Majestade Gustavo Adolfo VI durante as filmagens de Tales of Hans Anderson, e não teve dificuldade em entrar em contato com o monarca e obter tal permissão. Lee detestava conviver com a família de sua noiva, porém, e, antes que o casamento fosse efetivamente marcado, ele terminaria tudo, justificando seus atos dizendo que uma moça acostumada com a realeza merecia mais do que se casar com um ator em início de carreira.

A carreira de Lee começaria a decolar por sua participação em um filme de terror, A Maldição de Frankenstein, de 1957, dos estúdios Hammer. Lee seria selecionado para o papel do Monstro pelo dono do estúdio, James Carreras, especificamente por causa de sua estatura e de sua voz grave; durante as gravações, ele conheceria Peter Cushing, intérprete do Barão von Frankenstein, e os dois se tornariam melhores amigos.

A Maldição de Frankenstein seria um dos maiores sucessos da Hammer, o que motivaria Carreras a investir em mais uma regravação de um filme clássico de monstro, Drácula, o Vampiro da Noite, de 1958, mais uma vez com Cushing e Lee em papéis antagônicos - o primeiro como o caçador Van Helsing, o segundo como o vampiro. A interpretação de Lee seria antológica, e é considerada como responsável por estabelecer várias das características de Drácula no imaginário popular, como a de que ele era um homem refinado e sedutor, e até mesmo a de que os vampiros têm presas - muita gente não sabe, mas o primeiro vampiro com presas do cinema apareceria apenas em O Morcego, filme mexicano lançado um ano antes de Drácula, o Vampiro da Noite, e nada menos que 26 anos após o Drácula, de Bela Lugosi; o Drácula de Lee, portanto, seria o primeiro vampiro com presas em um filme de sucesso internacional.

O Drácula de Lee seria considerado o sétimo maior monstro do cinema de todos os tempos pela revista Empire, e o terceiro maior vilão do cinema pela emissora de TV CNN. Com o grande sucesso do filme, a Hammer se apressaria a fazer uma sequência, mas, já com outros projetos, Lee não aceitou, e o segundo filme da série acabou tendo apenas vampiros genéricos, sem Drácula. Ele seria convencido a voltar ao papel, porém, em Drácula: O Príncipe das Trevas, de 1964, no qual não tinha nenhuma fala, apenas mostrava os dentes e fazia chiados - o que deu origem a uma lenda urbana de que os diálogos do filme eram tão ruins que Lee teria se recusado a dizê-los, o que foi desmentido em várias entrevistas tanto por Lee quanto pelo roteirista Jimmy Sangster, que afirmariam que o roteiro realmente não tinha falas para Drácula. Na verdade, as sequências de Drácula feitas pela Hammer eram focadas em personagens tentando impedir que o vampiro voltasse à vida, com as aparições de Drácula sendo poucas e perto do final; Lee detestava fazer esses filmes, mas sempre acabava convencido por Carreras, que vendeu um pacote de múltiplos filmes de Drácula para a distribuidora AIP, e, segundo o ator, fazia chantagem emocional, dizendo que dezenas de profissionais ficariam desempregados se ele não aceitasse o papel.

Ao todo, Lee faria sete filmes de Drácula, os dois já citados e mais Drácula, o Perfil do Diabo (1968), O Sangue de Drácula (1969), O Conde Drácula (1970), Drácula no Mundo da Minissaia (1972) e Os Ritos Satânicos de Drácula (1974). Desses, os três primeiros seriam grandes sucessos de público, mas destroçados pela crítica; os dois últimos, ambientados na época atual e com a presença de Cushing como um descendente de Van Helsing, seriam fracassos de público e crítica. Lee não tinha falas em nenhum, mesmo, em suas palavras, implorando para que os roteiristas lhe dessem algumas; em alguns deles, ele decidiria por conta própria de repente dizer uma fala do livro Drácula, de Bram Stoker, que acabaria entrando na versão final do filme. A Hammer ainda faria mais um filme de Drácula depois de Os Ritos Satânicos de Drácula, mas, com o contrato com a AIP já expirado, e com a carreira de Lee já solidificada, ele se manteria firme e não aceitaria participar; após mais um fracasso comercial e de crítica, a Hammer optaria por encerrar a série.

No mesmo ano em que fez Drácula, o Vampiro da Noite, Lee contracenaria pela primeira vez no cinema com outro dos maiores nomes do horror, Boris Karloff, em Corredores de Sangue - na verdade, seria a segunda vez em que os dois contracenariam, com a primeira tendo sido em um episódio da série para a TV Colonel March of Scotland Yard, de 1954. Aproveitando o sucesso de Drácula, o Vampiro da Noite, ele aceitaria um papel no terrir italiano Meu Tio é um Vampiro, de 1959. No mesmo ano, a Hammer decidiria escalar ele e Cushing mais uma vez para se antagonizarem em outro filme de monstro, A Múmia, no qual Lee interpretava Kharis, sacerdote do Antigo Egito que foi mumificado e trazido de volta à vida com instinto assassino ao ter sua tumba violada em 1895, e Cushing interpretava o arqueólogo John Banning, responsável por detê-lo.

Também em 1959, Lee interpretaria Sir Henry Baskerville, contracenando mais uma vez com Cushing, que interpretaria Sherlock Holmes, em O Cão dos Baskervilles; o próprio Lee interpretaria Holmes em Sherlock Holmes e a Gargantilha Mortal, produção conjunta entre Alemanha Ocidental, Itália e França, falada em inglês, de 1962, e interpretaria o irmão de Sherlock, Mycroft, em A Vida Íntima de Sherlock Holmes, de 1970. Segundo Lee, esse seria o filme que faria com que os produtores parassem de vê-lo como um "ator de terror", permitindo que ele ganhasse papéis mais variados; curiosamente, o primeiro que ele faria depois disso seria mais uma vez um filme de Drácula, não da Hammer, e sim Conde Drácula, co-produção entre Alemanha Ocidental, Espanha e Itália, mais uma vez falada em inglês, dirigida por Jesús Franco e com Herbert Lom e Klaus Kinski no elenco, à época a produção mais fiel ao livro de Stoker.

Em 1961, Lee estaria em Um Grito de Pavor, um dos maiores sucessos da Hammer, e considerado pelo próprio Lee como o melhor do estúdio, embora seu papel tenha sido pequeno e muito criticado, em parte porque ele tentou fazer um sotaque francês que não deu certo. Em 1962, ele protagonizaria Das Rätsel der roten Orchidee ("o enigma da orquídea vermelha"), filme alemão noir filmado em Londres. Ele tentaria um papel no épico de guerra O Mais Longo dos Dias, mas seria rejeitado por não ter "aparência de militar" (o que foi irônico, devido a seu histórico); erroneamente, guias de cinema da época creditaram a Lee um papel nessa produção, e ele passaria o resto da vida lidando com isso, já que frequentemente o perguntavam em entrevistas como foi ter atuado no filme, ou o anunciavam como se tivesse atuado.

Após o término de seu noivado com Henriette von Rosen, Lee seria apresentado por amigos em comum à modelo e pintora dinamarquesa Birgit Krøncke, atualmente conhecida como Gitte Lee. Os dois se casariam em 17 de março de 1961, e teriam uma única filha, Christina Erika Carandini Lee, nascida em 1963 em Lausanne, Suíça. Christina jamais quis seguir carreira artística, e vive uma vida reservada, com pouco sendo sabido sobre sua intimidade.

Em 1963, ele estaria em O Chicote e o Corpo (que no Brasil, para pegar carona em seu sucesso, originalmente se chamaria Drácula, o Vampiro do Sexo, embora não tivesse Drácula nem vampiro), controverso filme dirigido por Mario Bava repleto de cenas de sexo e sadomasoquismo. No ano seguinte, ele estaria em mais uma produção da Hammer, A Górgona, na qual o monstro era uma versão moderna da Medusa, e Lee e Cushing eram cientistas rivais; e em O Túmulo do Horror, interpretando um conde cuja filha está possuída pelo espírito maligno de uma ancestral. Em 1965, ele faria dois filmes da Amicus, estúdio considerado "rival da Hammer", As Profecias do Dr. Terror, composto por cinco episódios, com Lee participando de um como um pintor incapaz de lidar com críticas, e mais uma vez contracenando com Cushing em A Maldição da Caveira. Em 1966, seria a vez de, para a Hammer, Lee interpretar Grigori Rasputin em Rasputin: O Monge Louco; em 1968, estaria naquele que é considerado um dos mais aterrorizantes filmes da Hammer, As Bodas de Satã, inspirado em um livro de Dennis Wheatley, amigo pessoal de Lee; e, no ano seguinte, contracenaria com Vincent Price em O Ataúde do Morto-Vivo, adaptado de um conto de Edgar Allan Poe. Lee também participaria de dois episódios da famosa série de TV britânica Os Vingadores, e, entre 1965 e 1969, faria cinco filmes nos quais interpretaria o vilão chinês Fu Manchu.

Em 1970, como um favor ao produtor Harry Alan Towers, que lhe conseguiu muitos papéis no início da carreira, Lee aceitaria atuar como narrador no filme Eugenie, mas se arrependeria e ficaria furioso com Towers, quase cortando relações. O que ocorreu foi que não disseram a Lee do que se tratava - apenas que era um filme baseado na história do Marquês de Sade - e ele teria que viajar para a Espanha para gravar sua narração. O problema era que Eugenie é um filme erótico, quase pornográfico, cheio de cenas de sexo, e que teve o nome de Lee em letras garrafais nos cartazes e fachadas de cinemas. Ele só descobriria isso depois da estreia do filme, e teria de dar muitas declarações sobre seu envolvimento com a produção.

Lee estava disposto a se livrar da imagem de Drácula e diversificar seus papéis, mas praticamente só recebia ofertas para terror. Ele faria Grite, Grite Outra Vez! (1970), como um agente do governo que investiga um assassino serial; O Juiz Sanguinário (1970), como um caçador de bruxas que acusa mulheres injustamente para se aproveitar delas sexualmente; O Soro Maldito (1971), versão Amicus de O Médico e o Monstro, no qual interpretava ambos; e estaria em um episódio de A Casa que Pingava Sangue (1971), também da Amicus, como um viúvo que se muda para uma casa isolada com uma filha pequena que tem medo do fogo. Em 1972, ele produziria e estrelaria Enigma Fatal, como um investigador tentando solucionar o assassinato de três milionários; essa seria a única experiência de Lee como produtor, já que ele não gostaria da função. Dentre os papéis do início da década de 1970 que não eram de terror, o de maior destaque seria o do Conde de Rochefort em Os Três Mosqueteiros, de 1973, papel que repetiria em A Vingança de Milady, de 1974; embora seu personagem tenha morrido no segundo filme, ele retornaria para fechar a trilogia em A Volta dos Mosqueteiros, de 1989 - que incluía uma explicação de que o ferimento que Rochefort sofreu, ao contrário do que possa ter parecido, não foi fatal.

Em 1973, Lee faria o filme que considerava seu favorito de sua carreira, O Homem de Palha. Lee participaria ativamente do projeto, se reunindo com o roteirista Anthony Shaffer, com o diretor Robin Hardy e com Peter Snell, presidente do estúdio British Lion Films, com a intenção de fazer um filme de horror centrado nas religiões antigas, diferente do horror gótico que dominava o cinema há mais de uma década. Shaffer teria a ideia de adaptar o livro Ritual, e ele e Lee pagariam 15 mil libras ao autor, David Pinner, pelos direitos, mas, após começar a escrever, Shaffer chegaria à conclusão de que uma adaptação fiel não ficaria boa, e fez um filme completamente diferente do livro, apenas mantendo a premissa central - a de que um policial religioso, enviado para investigar um assassinato em uma cidade do interior, se surpreende ao ver que a população local abandonou o cristianismo e voltou a praticar uma religião pagã. O orçamento do filme era absurdamente baixo, e Lee, que interpretava um personagem importante, mas não o policial protagonista, que ficou com Edward Woodward, concordou em atuar de graça, tamanha era sua vontade em participar do filme. O filme seria um sucesso moderado na época de seu lançamento, mas logo se tornaria cult, e hoje é um dos mais famosos filmes de horror de todos os tempos.

Quando o primeiro filme de James Bond, 007 contra o Satânico Dr. No, estava em pré-produção, Ian Fleming, "primo emprestado" de Lee, chegou a convidá-lo para o papel do vilão, mas não obteve sucesso porque Joseph Wiseman já havia sido contratado. Lee não seria mais lembrado para os filmes do agente secreto depois disso, e só teria sua oportunidade de interpretar um vilão de Bond dez anos após a morte de Fleming, no nono filme da série, segundo de Roger Moore, 007 contra o Homem com a Pistola de Ouro, de 1974. No livro no qual o filme se baseia, o tal homem com a pistola de ouro, Francisco Scaramanga, é apenas um valentão indiano, mas Lee decidiria interpretá-lo como "o lado mau de Bond", fazendo dele um vilão charmoso, elegante e refinado, inclusive sugerindo alterações em falas que achava que contribuiriam para a composição do personagem. O filme não seria exatamente um dos mais bem sucedidos da série, mas a interpretação impecável de Lee serviria como base para a de muitos vilões posteriores.

No final dos anos 1970, começariam a surgir boatos ligando Lee ao ocultismo, principalmente devido à sua amizade com Wheatley. Embora ele tenha admitido que possuía "quatro ou cinco" livros de ocultismo em casa, os boatos davam conta de que ele possuía mais de vinte mil - em uma entrevista, ele diria que, se isso fosse verdade, teria de morar em um palácio apenas para poder armazená-los. Boatos também diziam que Lee era satanista, e que participava de cultos pagãos; em entrevistas, ele sempre disse seguir a religião anglicana, e desencorajou jovens a procurar religiões que tivessem a ver com ocultismo ou magia negra, alertando-os de que poderiam "perder sua sanidade".

Depois de O Homem de Palha, Lee passaria a recusar cada vez mais papéis de terror, aceitando apenas atuar em Uma Filha para o Diabo, inspirado em mais um livro de Wheatley, e no terrir Drácula, Pai e Filho, no qual o Senhor dos Vampiros, acompanhando seu filho que quer morar na cidade, luta para se adaptar aos tempos modernos, ambos de 1976. Como no Reino Unido ele recebia poucas ofertas fora do terror, em 1977 Lee decidiria se mudar para os Estados Unidos, buscando construir uma carreira em Hollywood. Logo após chegar lá, ele recusaria o papel do Dr. Loomis, que acabaria ficando com Donald Pleasence, em Halloween, de 1978, justamente por ser um filme de terror, mas, anos depois, confidenciaria ao diretor John Carpenter que esse era o maior arrependimento de sua carreira. Outro arrependimento frequentemente citado por Lee foi o de ter tido de recusar um papel, que acabaria ficando com Jack Nicholson, em Tommy, de 1975, inspirado no álbum de mesmo nome da banda The Who, no caso porque as gravações conflitavam com as do 007.

O primeiro filme de Lee em Hollywood seria Aeroporto 77. Após participações em filmes não muito bem-sucedidos como Invasão dos Extra-Terrestres e Passageiros do Inferno e de participar de três episódios da série How the West Was Won, Lee surpreenderia e aceitaria um convite para participar do humorístico Saturday Night Live. Sua desenvoltura no programa renderia um convite de Steven Spielberg para interpretar um oficial alemão em 1941: Uma Guerra Muito Louca (1979), e um para interpretar o Dr. Barry Rumack em Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu! (1980), o qual ele recusou, com o papel ficando com Leslie Nielsen. Não querendo se dedicar apenas à comédia, ele aceitaria um papel em Perigo na Montanha Enfeitiçada (1978), continuação do grande sucesso da Disney de 1975, e um para interpretar o Príncipe Philip em Charles & Diana: A Royal Love Story, que acabaria estreando somente em 1982, e diretamente na TV.

Aliás, como não surgiam bons convites para o cinema com frequência, Lee acabaria participando de várias produções para a TV, fazendo episódios das séries As Panteras e Teatro dos Contos de Fada, as minisséries Índia: Mistério, Amor e Guerra e Shaka Zulu, e os filmes O Pirata, Era uma Vez um Espião, O Mal Ronda Esta Casa, À Espera de Golias, Massarati and the Brain, A Disputa e Capitão América II, filme de baixíssimo orçamento de 1979 estrelado pelo super-herói da Marvel, no qual Lee interpretaria o terrorista General Miguel. No geral, a carreira de Lee nos anos 1970 e 1980 teria poucos destaques, os maiores deles sendo o musical The Return of Captain Invincible, de 1983, escrito por Richard O'Brien (de The Rocky Horror Picture Show) no qual Lee cantaria duas músicas; o terror Grito de Horror 2, de 1985; e a minissérie A Volta ao Mundo em 80 Dias, de 1989.

No início dos anos 1990, Lee voltaria a interpretar Sherlock Holmes em dois filmes para a TV, Sherlock Holmes and the Leading Lady, de 1991, e Sherlock Holmes: Incidente em Victoria Falls, de 1992; no mesmo ano, ele participaria de um episódio da série O Jovem Indiana Jones. Antes disso, em 1990, ele estaria no filme para a TV A Ilha do Tesouro, inspirado no livro de Robert Louis Stevenson, e interpretaria um cientista em Gremlins 2 - diz a lenda que Lee não foi avisado de que o filme era uma comédia, e atuou como se fosse um terror. Em 1994, ele faria um oficial russo em Loucademia de Polícia 7: Missão Moscou, e, no ano seguinte, estrearia em nada menos que três séries de TV, The Tomorrow People, Street Gear e Tales of Mystery and Imagination, além de interpretar o Faraó Ramsés no filme para a TV Moisés. Com cada vez menos convites para o cinema, ele aceitaria interpretar Lucas de Beaumanoir na minissérie Ivanhoé, Tiresias na minissérie A Odisseia, um aristocrata em As Novas Aventuras de Robin Hood, e dublar a morte na minissérie Soul Music e em sua continuação Wyrd Sisters.

Um dos papéis preferidos de Lee viria dessa tão profissionalmente complicada década de 1990, o de Muhammad Ali Jinnah, fundador do Paquistão, no filme Jinnah, de 1998. Lee diria em entrevistas considerar essa a melhor atuação de sua carreira, e de ter se sentido honrado por ter interpretado Jinnah, tido com "um homem incorruptível, de grande integridade e visão".

Após três décadas pálidas se comparadas ao início de sua carreira, Lee experimentaria um renascimento improvável através da cultura pop, que começaria quando ele seria sondado para viver o vilão Magneto em X-Men, de 2000. Ele faria o teste e não seria aprovado, perdendo o papel para Ian McKellen, mas isso o motivaria a se oferecer para um papel quando soube da produção de O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (2001). Lee conheceu Tolkien pessoalmente - aliás, foi o único membro do elenco com essa distinção - e, fã dos livros, que, segundo ele, lia pelo menos uma vez por ano, sonhava há anos em interpretar Gandalf - que, curiosamente, também ficaria com McKellen. Dessa vez, entretanto, não seria por uma questão de reprovação no teste, e sim pelo próprio ator conhecer suas limitações: o papel de Gandalf exigia cavalgar, lutar com espadas e correr, e Lee, com quase 80 anos, já não se considerava capaz de exercer essas tarefas, preferindo deixá-las com McKellen, 17 anos mais jovem, e se candidatar ao papel de Saruman, muito menos exigente fisicamente. Lee participaria de todos os três filmes de O Senhor dos Anéis, tendo mais destaque em As Duas Torres, de 2002; suas cenas em O Retorno do Rei, de 2003, seriam cortadas da versão do cinema, mas reincluídas na edição especial estendida.

Um ano depois de O Senhor dos Anéis, Lee seria convidado por George Lucas para, assim como seu amigo Cushing, interpretar um vilão em Star Wars, no caso, o Conde Dookan (Dooku no original em inglês), em Star Wars Episódio II: O Ataque dos Clones (2002). Lee contaria com um dublê para as cenas mais atléticas, mas, na maior parte, faria ele mesmo suas cenas de esgrima; ele também interpretaria o Conde na sequência do filme, Star Wars Episódio III: A Vingança dos Sith (2005), e dublaria o personagem na animação Star Wars: A Guerra dos Clones (2008) - mas somente no longa-metragem, sendo substituído na série animada por Corey Burton.

Lee era um dos atores favoritos do diretor Tim Burton, e trabalharia com ele em cinco ocasiões. A primeira seria praticamente uma participação especial, no papel do burgomestre, em A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (1999); em seguida, ele faria o Dr. Wonka, pai de Willy, em A Fantástica Fábrica de Chocolate, de 2005; no mesmo ano, ele dublaria o Pastor Galswells em A Noiva Cadáver; e, em 2010, mais uma dublagem, a do Jabberwocky em Alice no País das Maravilhas; a última seria mais uma participação especial, como um pescador, em Sombras da Noite, de 2012. Em 2007, ele interpretaria uma das vítimas do barbeiro em Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, cantando uma canção; a cena, porém, seria removida da versão final do filme.

Em 2007, Lee assinaria contrato para participar da série A Bússula de Ouro, mas, como o primeiro filme não fez sucesso, ela acabou cancelada, com ele só atuando em poucas cenas. Em 2008, ele seria convidado pelo diretor Guillermo del Toro para o papel do Rei Balor em Hellboy II: O Exército Dourado, mas teria de recusar devido a compromissos previamente assumidos. No ano seguinte, ele aceitaria retornar a uma produção da Hammer pela primeira vez em 33 anos (o que nem é tão espantoso se considerarmos que o próprio estúdio ficou 29 anos sem lançar nenhum filme), A Inquilina, que seria lançado em 2011; durante as gravações, ele tropeçaria em um cabo de áudio e machucaria as costas, precisando se submeter a uma cirurgia e tendo de recusar um papel de destaque em A Árvore de Palha, também de 2011, continuação de O Homem de Palha. Hardy, que também seria diretor da sequência, o substituiria, mas criaria um pequeno papel para que ele não ficasse de fora do filme; em entrevistas, o diretor diria que o personagem de Lee era o mesmo nos dois filmes, mas o ator negaria. Ainda em 2011, ele faria uma participação em A Invenção de Hugo Cabret.

Em 2012, del Toro faria um novo convite a Lee, para voltar a interpretar Saruman na trilogia O Hobbit (que acabaria sendo dirigida por Peter Jackson, mesmo diretor de O Senhor dos Anéis). O ator se diria empolgado com a possibilidade de retratar Saruman antes da corrupção de Sauron, mas, devido à sua idade avançada, não queria ter de fazer a longa viagem até a Nova Zelândia, onde ocorreriam as filmagens; a equipe do filme, então, daria um jeito para que ele pudesse gravar todas as suas cenas em Londres, para que ele não ficasse de fora do filme. Lee estaria apenas na primeira e na última parte da trilogia, Uma Jornada Inesperada, de 2012, e A Batalha dos Cinco Exércitos, de 2014, já que Saruman não tinha o que fazer em A Desolação de Smaug, de 2013.

A Batalha dos Cinco Exércitos acabaria sendo o último filme de destaque de Lee, que, depois, estaria no dinamarquês The 11th e no independente Angels of Notting Hill, ambos de 2015. Lee gravaria sua última cena para Angels of Notting Hill apenas três semanas antes de sua morte, em 7 de junho de 2015, poucos dias após seu aniversário de 93 anos, quando foi internado às pressas no Hospital de Chelsea e Westminster, em Londres, com problemas respiratórios que levariam a uma parada cardíaca.

Para finalizar, uma informação que pouca gente conhece: além de ator, Lee também era cantor, participando de vários álbuns temáticos de horror e fantasia a partir da década de 1970. Entre 2004 e 2019 (quando uma narração sua não aproveitada seria incluída postumamente em uma das faixas), ele participaria de seis álbuns da banda de heavy metal Rhapsody of Fire. Ele também lançaria quatro álbuns solo, Christopher Lee Sings Devils, Rogues & Other Villains (1998); Revelation (2006), que continha uma versão em rock pesado de Toreador, da ópera Carmen; Charlemagne: By the Sword and the Cross (2010); e Charlemagne: The Omens of Death (2012), quando, aos 90 anos, entrou para o Guiness Book como o vocalista de heavy metal mais velho da história. Também em 2012, ele lançaria um álbum somente com versões em heavy metal de canções de Natal, A Heavy Metal Christmas, que faria dele a pessoa mais velha a emplacar um álbum no Top 20; no ano seguinte, ele lançaria A Heavy Metal Christmas Too, e, em 2014, para celebrar seu aniversário de 92 anos, lançaria o álbum de covers Metal Knight, que incluía uma versão heavy metal de My Way, de Frank Sinatra.
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domingo, 4 de julho de 2021

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Niki Lauda

Escrevendo sobre Alain Prost eu reparei que, quando eu escrevo sobre pilotos de Fórmula 1, tem um nome que sempre aparece: o do austríaco Niki Lauda. Com uma carreira que abrangeu praticamente duas décadas, era até natural que isso acontecesse, já que Lauda esteve na pista junto com os três brasileiros campeões do mundo, Emerson, Piquet e Senna. Como Lauda também tem uma história fantástica, decidi que, mesmo tendo abandonado a ideia de fazer uma série mensal sobre pilotos, pelo menos um post sobre ele eu iria fazer. Hoje, portanto, é dia de Niki Lauda no átomo!


Andreas Nikolaus Lauda nasceu em Viena, capital da Áustria, em 22 de fevereiro de 1949; seu avô paterno, Hans Lauda, foi um dos mais famosos industriais da Áustria, fundador da Federação das Indústrias Austríacas, e dono de uma empresa de fabricação de papel que seu pai herdou. Apesar de sua família ser rica, ela também era totalmente contra Lauda se envolver com automobilismo, de forma que jamais deu um centavo para que ele corresse em qualquer categoria; mesmo assim, desde adolescente ele tinha certeza de que queria ser piloto e, contrariando o desejo de seus pais, em 1968, aos 19 anos, já considerado velho para um estreante, decidiu correr na Fórmula Mini, categoria que usava aqueles pequenos carros de passeio fabricados pela britânica BRC, hoje conhecidos como Cooper Minis.

Lauda seria segundo lugar logo em sua primeira prova com os Minis, e, apesar de não ter mais nenhum resultado de destaque ao longo do ano, seu estilo de pilotagem chamaria a atenção da Volkswagen, que o convidaria para correr no Campeonato Europeu de Fórmula V, categoria de monopostos que usava motores da fabricante alemã, e que estava apenas em sua terceira temporada, tendo feito sua estreia em 1967. Lauda correria a temporada de 1969 da Fórmula V pela equipe Kaimann, conseguindo duas vitórias, na Itália e Hungria, terminando o campeonato em terceiro, apenas 7 pontos atrás do campeão, seu colega de equipe e também austríaco Erich Breinsberg. O dono da equipe, o também austríaco Kurt Bergmann, tinha fé em seu talento e imaginava que ele poderia ser campeão já em 1970, mas, prestes a fazer 21 anos, Lauda queria novos desafios, e, para 1970, ele decidiria se transferir para o Campeonato Francês de Fórmula 3, que considerava mais desafiador, mas onde não conseguiu nenhum resultado expressivo.

Considerando que sua carreira estava estagnada, e que precisava de um empurrão para ir para a frente, Lauda compraria uma vaga na equipe March para o Campenato Europeu de Fórmula 2 de 1971 - compraria mesmo, com dinheiro que ele conseguiu através de um empréstimo bancário de 30 mil libras esterlinas; para convencer o banco a lhe emprestar a quantia, ele faria um seguro de vida, segundo o qual, se morresse pilotando, o banco receberia o dinheiro. Sua família mais uma vez se posicionou absolutamente contra suas atitudes e, desgostoso, Lauda decidiria cortar de vez todos os laços com seus pais.

Lauda correria nove das onze provas, somaria 8 pontos, e terminaria na décima colocação do campeonato. Gostando de seu estilo de pilotagem, a March decidiria dar-lhe uma chance na Fórmula 1, inscrevendo-o como terceiro carro no GP da Áustria, o qual teve de abandonar após 20 voltas com problemas na suspensão. Ele renovaria com a March para o Europeu de Fórmula 2, disputando o campeonato completo, conquistando sua primeira vitória, em Thruxton, Inglaterra, e somando 25 pontos, terminando em quinto lugar. As três provas inglesas do campeonato (Mallory Park, Thruxton e Crystal Palace) valeriam também para o Campeonato Britânico de Fórmula 2, que também contaria com duas provas em Outlon Park; como Lauda também havia conseguido um segundo lugar em Mallory Park, a March decidiria inscrevê-lo, e, com uma vitória na primeira prova em Outlon e um segundo lugar na segunda, ele conquistaria o título, o primeiro de sua carreira, com 31 pontos, apenas 4 à frente de seu colega de equipe, o sueco Ronnie Peterson.

Peterson e Lauda também seriam os dois pilotos da March para a temporada de 1972 da Fórmula 1, na qual o austríaco oficialmente estrearia, correndo todas as 12 provas. Claramente ainda cru para a categoria, Lauda não marcaria nenhum ponto, tendo como melhor resultado um sétimo lugar na África do Sul, abandonando três provas e sendo desclassificado do GP do Canadá por irregularidades com o carro, enquanto Peterson faria 12 pontos, incluindo um terceiro lugar na Alemanha, e terminaria o campeonato na nona posição. Lauda não se deixaria abalar, porém, e, para 1973, conseguiria um segundo empréstimo bancário, se transferindo para a equipe BRM.

A BRM já tinha dois pilotos, o francês Jean-Pierre Beltoise e o suíço Clay Regazzoni, mas estava com sérios problemas financeiros, e não pôde recusar o dinheiro oferecido por Lauda, que foi inscrito como terceiro piloto para todo o campeonato. O austríaco, porém, cometeria um erro de avaliação, e o carro da BRM, apesar de rapidíssimo e fácil de pilotar, se mostraria extremamente pouco confiável, o que faria com que Lauda abandonasse nove das quinze corridas do ano, e sequer conseguisse se classificar para o GP da Áustria; apesar disso, ele conseguiria seus primeiros pontos, com um quinto lugar no GP da Bélgica.

Antes de prosseguir com a carreira de Lauda na Fórmula 1, é preciso fazer um parágrafo para citar que, entre 1970 e 1974, ele participaria de várias provas de turismo e endurance. Sua estreia no endurance seria na prova dos 1.000 km da Áustria, válida pelo Campeonato Mundial de Carros Esporte da FIA, na qual pilotou um Porsche para a equipe Bosch Wien, ao lado do também austríaco Peter Peter, não completando a prova com problemas mecânicos; também em 1970, ele seria campeão de uma prova de turismo em Diepholz, Alemanha, pilotando um Porsche. Em 1971, ele ganharia mais uma prova, dessa vez na Áustria, pilotando um Chevron na Taurenpokal Salzburgring; no mesmo ano, ele participaria das 6 Horas de Nürburgring, na Alemanha, dividindo um BMW com o alemão Ferfried von Hohenzollern e chegando em segundo lugar. Em 1972, ele seria terceiro lugar em duas provas, as 9 Horas de Kyalami, na África do Sul, dividindo um March com o sul-africano Jody Scheckter, e as 4 Horas de Zandvoort, na Holanda, dividindo um BMW com o austríaco Gerold Pankl. Seus últimos resultados de destaque ocorreriam em 1973, quando venceria três provas pela equipe BMW Alpina: a etapa austríaca do Campeonato Europeu de Turismo; as 24 h de Nürburgring, ao lado do alemão Hans-Peter Joisten; e as 4 Horas de Monza, dividindo carro com o australiano Brian Muir; além disso, Lauda também disputaria pela equipe os 1.000 km de Spa Francorchamps, na Bélgica, prova válida pelo Campeonato Mundial de Carros Esporte da FIA, dividindo carro com o alemão Hans-Joachim Stuck, na qual chegaria em sétimo.

Pois bem, no final da temporada de 1973, Regazzoni seria contratado novamente pela Ferrari, onde havia pilotado entre 1970 e 1972, para o lugar do belga Jacky Ickx, que estava indo para a Lotus, e o dono da equipe, o Comendador Enzo Ferrari, querendo substituir também o italiano Arturo Merzario, que não correspondeu às expectativas e acabou desempregado, perguntou o que o suíço achava de Lauda. Regazzoni falou tão bem de Lauda que o Comendador decidiu que o austríaco seria seu segundo piloto e ponto final, inclusive pagando os empréstimos que ele havia feito para correr na March e na BRM. Lauda faria sua estreia pela Ferrari em 13 de janeiro, no GP da Argentina, conseguindo seu primeiro pódio, um segundo lugar, atrás de Denny Hulme, da McLaren. Ele abandonaria as duas corridas seguintes, o GP do Brasil, com um estouro de motor após apenas duas voltas, e o GP da África do Sul, para o qual conseguiu sua primeira pole position, com problemas mecânicos faltando apenas quatro voltas para o final, quando liderava a prova. Na quarta prova da temporada, porém, Lauda conseguiria um hat trick, fazendo a pole position, a volta mais rápida e vencendo a corrida, conquistando a primeira vitória para a Ferrari desde Ickx no GP da Alemanha de 1972. Lauda ainda venceria o GP da Holanda, seria segundo na Bélgica e na França, quinto na Inglaterra e faria seis poles seguidas (para um total de oito no ano) entre a Holanda e a Itália, mas abandonaria as outras sete provas, incluindo as cinco últimas do campeonato, somando 38 pontos e terminando em quarto, atrás do brasileiro Emerson Fittipaldi, da McLaren, de seu colega Regazzoni e de Scheckter, da Tyrrell.

Devido às posições no campeonato, a Ferrari continuaria com o mesmo esquema para 1975, com Regazzoni como primeiro piloto e Lauda como segundo. O austríaco teria um péssimo começo, com um sexto lugar, dois quintos e um abandono - no GP da Espanha, onde faria a pole - mas, no GP de Mônaco, faria uma nova pole e obteria sua primeira vitória no Principado, conseguindo nova pole e vitória na Bélgica, e uma terceira vitória seguida no ano na Suécia; depois disso, os papéis se inverteriam, com Lauda recebendo tratamento de primeiro piloto e a Ferrari apostando em seu título. Na segunda metade da temporada, ele faria a pole em todas as provas exceto no GP da Inglaterra, no qual a posição de honra surpreendentemente ficaria com o galês Tom Pryce, da equipe Shadow; no GP da Alemanha, em Nürburgring, Lauda se tornaria o primeiro piloto a completar uma volta em menos de sete minutos (sim, é isso mesmo, na época a pista era muito mais longa que a usada hoje), mas veria a vitória escapar com um estouro de pneu que praticamente destruiria a asa dianteira de seu carro - e, mesmo assim, ele conseguiria levar o carro para os boxes, trocar o pneu e a asa, voltar para a corrida e terminar a prova em terceiro. Após mais uma vitória na França, Lauda conquistaria seu primeiro título mundial com um terceiro lugar no GP da Itália, prova vencida por Regazzoni, resultado que levaria ao primeiro Mundial de Construtores da Ferrai desde 1964, para delírio total da torcida ferrarista; Lauda venceria, também, a última corrida do ano, o GP dos Estados Unidos, fechando o campeonato com 64,5 pontos (a pontuação do GP da Áustria, no qual Lauda chegou em sexto, foi pela metade, pois a prova foi interrompida por uma tempestade antes que 75% da distância tivessem sido completados), 19,5 pontos a mais que Emerson, seu maior rival naquele ano.

Falando em rival, também seria em 1975 que começaria aquela que seria considerada a maior rivalidade da Fórmula 1 da década de 1970, entre Lauda e o inglês James Hunt - alguns dizem que a rivalidade começou em 1973, ano em que Hunt estreou na Fórmula 1, mas, então, com Lauda na BRM e Hunt na modesta equipe Hesketh, não havia muito o que rivalizar, assim como em 1974, quando Lauda foi para a Ferrari, muito superior à Hesketh. Em 1975, porém, a Hesketh daria um salto de qualidade, que permitiria a Hunt ganhar sua primeira prova, o GP da Holanda, além de conquistar três segundos lugares, na Argentina, França e Áustria, terminando o campeonato em quarto lugar. Várias seriam as provas nas quais ele e Lauda duelaram, mas, ao contrário do que a imprensa pudesse dar a parecer, os dois, na verdade, eram grandes amigos, tendo se conhecido ainda na Fórmula 3, e mantendo o contato quando Lauda subiu antes para a Fórmula 1. Apesar de terem estilos de pilotagem e de vida totalmente diferentes, ambos declarariam que se consideravam iguais, e que não tinham qualquer sentimento negativo um pelo outro em seus duelos, apenas "a gana pela vitória de dois grandes pilotos". Lauda e Hunt seriam amigos até a morte do inglês, em 1993, quando o austríaco declararia que ele estava "dentre os poucos pilotos dos quais eu gostava, e dentre os mais poucos ainda que eu respeitava".

Em 1976, com Emerson indo para sua própria equipe, Hunt assumiria seu lugar na McLaren, e aí sim teríamos uma rivalidade de verdade. Lauda começaria o campeonato arrasador, e parecia que seu bicampeonato seguido, algo até então só conquistado por Jack Brabham em 1959 e 1960, era somente uma questão de tempo. Nas nove primeiras corridas do ano, exceto por um abandono na França, Lauda só faria pódios, obtendo vitórias no Brasil, África do Sul, Bélgica, Mônaco e Inglaterra, segundo lugar no GP dos Estados Unidos Oeste e na Espanha, e terceiro na Suécia, o que fez com que ele tivesse mais que o dobro dos pontos de Hunt, que havia abandonado quatro provas e obtido vitórias na Espanha e França, e Scheckter, considerado seu maior rival na luta pelo título, que havia tido apenas uma vitória, na Suécia.

A décima corrida da temporada, porém, seria o GP da Alemanha, em Nürburgring, onde, como já vimos, Lauda havia passado por maus momentos no ano anterior. Considerando que o circuito não era seguro, principalmente devido à sua extensão, por acreditar que equipes de emergência demorariam a chegar a pilotos acidentados no lado oposto ao dos boxes, Lauda protestou contra a realização da prova, e chegou a pedir que os demais pilotos fizessem um boicote; a maioria deles foi contra, entretanto, e a FIA declarou que, se Lauda não participasse da corrida, seria multado e suspenso das provas seguintes, o que poderia comprometer sua caminhada rumo ao título. Sem opção, ele concordou em correr.

Parecia, porém, que ele estava adivinhando: logo na segunda volta da corrida, Lauda sairia da pista, bateria em uma elevação no terreno, voltaria para o circuito, seria atingido por dois outros carros, a Hesketh do austríaco Harald Ertl e a Surtees do norte-americano Brett Lunger, e explodiria, deixando Lauda envolto em uma bola de fogo. O acidente seria causado, em parte, pelo mau tempo: antes da prova, havia chovido torrencialmente, mas na hora da largada o tempo estava bom, com a pista ainda molhada, o que fez com que vários pilotos, inclusive Lauda, que largou em segundo, com Hunt na pole, decidissem largar com pneus de chuva; após a primeira volta, que durou mais de oito minutos, todos decidiriam parar nos boxes e voltar com pneus para pista seca, que teriam falhado porque o trecho da pista no qual Lauda bateu ainda tinha um bolsão d'água. Segundo os engenheiros da Ferrari, porém, Lauda não teria perdido o controle por estar com pneus inadequados, e sim por uma falha da suspensão traseira.

Seja como for, Ertl e Lunger conseguiram sair de seus carros, mas Lauda ficou preso nas ferragens, e só conseguiu escapar com a ajuda de dois pilotos que pararam seus carros para salvá-lo, Merzario, da Wolf, e o inglês Guy Edwards, da Hesketh. A corrida foi interrompida, e Lauda, como temia, após esperar um longo tempo pelo resgate, foi levado para o hospital entre a vida e a morte. Após a relargada, com os lugares de Lauda, Ertl e Lunger vazios, Hunt venceria a prova com facilidade. O acidente de Lauda seria tão traumático que essa seria a última corrida no circuito original de Nürburgring; no ano seguinte, a Fórmula 1 passaria a correr em Hockenheim, e o circuito de Nürburgring passaria por reformas, que o deixariam menor e mais seguro, inclusive para a famosa prova das 24 Horas - na Fórmula 1, ele só retornaria em 1984, com um traçado 60% mais curto que o original.

Outra coisa que mudaria após o acidente de Lauda seria a política de segurança da FIA em relação a capacetes: o capacete fornecido ao austríaco para a corrida lhe causava desconforto e atrapalhava sua visão, de forma que a equipe fez adaptações, que levaram a, por causa do acidente, a espuma protetora se descolar e expor a lateral da cabeça do piloto ao calor e às chamas; a partir de 1977, todos os capacetes deveriam ser homologados pela FIA, sem poder passar por alterações. Além de sérias queimaduras na cabeça, Lauda inalaria gases tóxicos que queimariam seus pulmões. Seria Merzario quem, praticamente se colocando dentro das chamas, conseguiria soltar seu cinto de segurança e retirá-lo do carro; Lauda estava consciente, e chegaria a lhe perguntar como o italiano havia conseguido salvá-lo, mas depois colapsaria e chegaria ao hospital em coma. Sua situação era tão crítica que um padre foi chamado para dar-lhe a extrema unção.

Lauda ficaria com extensas cicatrizes das queimaduras no lado direito da cabeça, perderia parte do cabelo, parte da orelha direita, a sobrancelha e a pálpebra direitas; ele aceitaria fazer cirurgia reconstrutiva para a pálpebra, mas não para as cicatrizes, para que elas ficassem como uma lembrança da importância da segurança nas corridas - de certa forma, ele, com isso, inventaria os bonés de patrocínio, já que aparecia em entrevistas e outros eventos sempre de boné, para cobrir parte das queimaduras, e seus patrocinadores logo se aproveitariam para expor sua marca, com os dos demais pilotos imitando em seguida. Apesar da gravidade das queimaduras, Lauda teria uma recuperação considerada milagrosa, e ficaria de fora de apenas duas corridas - a primeira previsão dos médicos era de que ele só poderia voltar a correr no ano seguinte. A Ferrari não participaria da prova imediatamente posterior à da Alemanha, o GP da Áustria, em protesto contra o que ela considerava ser um favorecimento da FIA à McLaren, e, na Holanda, correria só com Regazzoni, mas, sem acreditar que Lauda voltaria ainda naquele ano, contrataria o argentino Carlos Reutemann, então na Brabham, para seu lugar; com a recuperação de Lauda, Reutemann só correria uma prova, o GP da Itália, na qual a Ferrari colocaria três carros, ficando, depois, desempregado, já que seria substituído na Brabham pelo australiano Larry Perkins.

Lauda seria quarto na Itália, com Hunt abandonando; nas duas provas seguintes, Canadá e Estados Unidos, Hunt conseguiria a vitória, e Lauda seria, respectivamente, oitavo e terceiro. Isso faria com que Lauda chegasse à última prova, o GP do Japão, apenas três pontos à frente de Hunt. No dia da prova, chovia torrencialmente, e, achando que não teria segurança suficiente para correr, Lauda decidiria abandonar após apenas duas voltas. Hunt lideraria a maior parte da prova, mas, com um furo de pneu, teria de fazer uma parada a mais nos boxes; ainda assim, ele conseguiria chegar em terceiro, e conquistaria seu primeiro e único título com apenas um ponto a mais do que Lauda.

Após Lauda abandonar no Japão, sua relação com a Ferrari, até então boa, começaria a azedar. 1977 já começaria com o caldo desandando, quando a equipe decidiria contratar novamente Reutemann, com quem Lauda não tinha uma boa relação, dessa vez para o lugar de Regazzoni, que decidiria assinar com a Ensign. O austríaco, porém, teria poucas dificuldades para chegar a seu segundo título: Hunt, que começaria o ano com três poles seguidas, e venceria nos Estados Unidos, Inglaterra e Japão, logo pareceria satisfeito com apenas um título, e passaria a se dedicar mais à sua vida de celebridade que à de piloto, não opondo qualquer rivalidade séria a Lauda; Scheckter, esse ano na Wolf, mais uma vez visto como a principal ameaça, venceria a prova de abertura, na Argentina, e a sexta, em Mônaco, abandonando o GP do Brasil e fazendo pódio nas outras três, mas, após sua vitória no principado, abandonaria quatro provas seguidas, o que minaria suas chances, tendo como canto do cisne uma vitória no Canadá; o norte-americano Mario Andretti, da Lotus, faria sete poles e venceria os GPs dos Estados Unidos Oeste, Espanha, França e Itália, mas, no geral seria menos consistente, tendo também sete abandonos. Com apenas três vitórias no ano, na África do Sul, Alemanha e Holanda, mas cinco segundos lugares, um terceiro no GP do Brasil, e não pontuando apenas no GP da Argentina, no qual abandonou, e no GP da Espanha, do qual não pôde participar após quebrar uma costela nos treinos, Lauda chegaria ao bicampeonato ao terminar em quarto no GP dos Estados Unidos, faltando ainda duas corridas para o final do campeonato. Ele somaria 72 pontos, 17 a mais que Scheckter, que foi seguido por Andretti, Reutemann e Hunt, que terminaria apenas em quinto.

Insatisfeito com a Ferrari, Lauda usaria como desculpa o fato de que a equipe italiana planejava colocar o canadense Gilles Villeneuve como terceiro piloto no Canadá e pediria demissão logo após conquistar o título, não participando das duas últimas provas, os GPs do Canadá e Japão, nos quais a Ferrari correria com Reutemann e Villeneuve. Ele então aceitaria uma proposta da Parmalat para ser piloto da Brabham por dois anos, com salário de um milhão de dólares. O carro, que tinha motores Alfa Romeo, entretanto, era pouco confiável, e, em 1978, tanto Lauda quanto seu companheiro de equipe, o irlandês John Watson, sofreriam para conseguir bons resultados. O austríaco só conseguiria duas vitórias, a primeira na Suécia, na qual a Brabham estreou seu revolucionário carro BT46B, que tinha uma espécie de turbina atrás, mas que foi acusado de estar fora do regulamento por outras equipes, e acabou sendo aposentado após apenas uma prova, e na Itália, onde originalmente chegou em terceiro, mas foi beneficiado pela desclassificação de Andretti e Villeneuve. Com 44 pontos, 20 atrás do campeão Andretti, Lauda terminaria o campeonato em quarto lugar.

Em 1979, Lauda seria colega de equipe do brasileiro Nelson Piquet, que estrearia como terceiro piloto na última prova do ano anterior, o GP do Canadá. Apesar de um novo motor V12, o carro seria ainda pior que o do ano anterior, e Lauda abandonaria nada menos que 11 das 13 primeiras provas do ano, só completando os GPs da África do Sul e da Itália, nos quais seria sexto e quarto, respectivamente. Durante os treinos para a 14a prova, o GP do Canadá, Lauda cortaria uma chicane e ouviria de Bernie Ecclestone, o dono da equipe, que teria seu tempo anulado, precisando largar dos boxes; irritado, ele diria pelo rádio que estava se aposentando, e não participaria das duas últimas provas, no Canadá e Estados Unidos, sendo substituído pelo argentino Ricardo Zurino.

Concomitantemente à sua temporada na Fórmula 1, em 1979 Lauda aceitaria um convite da equipe britânica Project Four Racing para correr na primeira temporada na categoria de turismo BMW M1 Procar Championship, que contaria também com a presença de incluindo Andretti, Regazzoni, Reutemann, Emerson e Piquet, além de pilotos de diversas outras categorias do automobilismo. Com três vitórias, em Mônaco, Inglaterra e Alemanha, e um segundo lugar na Itália, Lauda se sagraria campeão da categoria, que só teria mais uma temporada antes de ser desativada, em 1980, sem a presença do austríaco, mas com Piquet, que seria campeão após vencer as três últimas provas do calendário, na Áustria, Holanda e Itália.

Também em 1979, Lauda havia fundado uma companhia aérea, chamada Lauda Air, inicialmente apenas para pequenos voos fretados (os populares "jatinhos"), mas que, em 1985, receberia autorização para se tornar uma companhia de transporte de passageiros usando aviões Boeing para voos nacionais e, a partir de 1990, internacionais. Lauda passaria os anos de 1980 e 1981 se dedicando totalmente à companhia e, em entrevistas, declararia que gerenciar uma companhia aérea era mais difícil que ganhar um título mundial na Fórmula 1. A Lauda Air se tornaria uma subsidiária da Austrian Airlines em 2000, e, em 2012, as duas passariam por uma fusão; a companhia deixaria de existir oficialmente em 2013, sendo substituída pela marca Austrian myHolyday, que não opera voos, apenas vende pacotes de viagem. Lauda ainda seria dono de mais duas companhias, a Niki, fundada em 2003, que se fundiria com a Air Berlin em 2011, e a LaudaMotion, criada após Lauda comprar a falida Amira Air em 2016, e que compraria de volta a marca Niki após a falência da Air Berlin em 2017; em 2018, a LaudaMotion passaria a ser uma subsidiária da Ryanair, e, em 2020, já após a morte do piloto, voltaria a ser uma companhia independente, apenas com o nome de Lauda, que faz voos a partir de Malta para várias cidades europeias. Lauda tinha ele mesmo licença de piloto comercial e, durante muitos anos, atuou como capitão de alguns voos de suas companhias.

O início da década de 1980 foi uma época turbulenta para a Fórmula 1, devido à chamada Guerra FISA-FOCA: em resumo, Ecclestone, que se tornou presidente da Associação dos Construtores (FOCA) discordou de várias mudanças que o comitê da FIA responsável por gerenciar a Fórmula 1 (FISA) havia feito no regulamento, incluindo na distribuição do dinheiro proveniente das cotas de televisão e permissão ou não para as equipes utilizarem inovações tecnológicas em seus carros. A maior parte das equipes ficou ao lado da FOCA, mas Ferrari, Renault, Alfa Romeo e algumas pequenas ficaram ao lado da FISA, e ambos os lados passaram a acusar o outro de favorecimento. Em meio a essa confusão, Ron Dennis, que havia se tornado chefe da equipe McLaren em setembro de 1980, convidaria Lauda para retornar à Fórmula 1 para a temporada de 1982. Dennis havia sido o chefe de equipe da Project Four Racing, e tinha um projeto revolucionário para a McLaren, parte do qual consistia em a equipe não ter primeiro piloto, dando a ambos carros iguais e chances iguais de lutar pelo título. Lauda se interessou, e seu primeiro ato após contratado foi liderar uma greve de pilotos contra mudanças no regulamento da Superlicença, o documento que permite que um piloto corra na Fórmula 1; após quase 24 horas trancados num hotel em Joanesburgo, antes da primeira etapa do ano, o GP da África do Sul, os pilotos foram bem sucedidos, e as mudanças não foram efetuadas.

A temporada de 1982 é hoje tida como uma das mais emocionantes da Fórmula 1 - as 16 provas tiveram 11 vencedores diferentes, sendo que nenhum venceu mais de duas vezes, e o finlandês Keke Rosberg, da Williams, foi campeão graças à sua regularidade, pois teve apenas uma vitória, no GP da Suíça (disputado em Dijon, França) - mas também foi uma das mais trágicas: dois pilotos sofreriam acidentes fatais, Villeneuve durante os treinos para o GP da Bélgica, e o italiano Riccardo Paletti, da Osella, atingido por trás durante a largada do GP do Canadá, além de o francês Didier Pironi, da Ferrari, ter de encerrar sua carreira após um sério acidente nos treinos para o GP da Alemanha. No meio disso tudo, o retorno de Lauda, após dois anos longe das pistas, era visto com desconfiança pelo principal patrocinador da McLaren, a Marlboro, principalmente porque Dennis lhe ofereceria um salário de 3 milhões de dólares, o mais alto da história do esporte até então. Repetindo a dupla que havia feito com Watson na Brabham em 1977, Lauda se sairia relativamente bem, conquistando duas vitórias, nos GPs dos Estados Unidos Oeste e da Inglaterra, mas somaria apenas 30 pontos, 9 a menos que Watson (que também teve duas vitórias, na Bélgica e no GP dos Estados Unidos Leste) e 14 a menos que o campeão Rosberg, terminando o campeonato em quinto lugar.

Em seu retorno à Fórmula 1, Lauda seria um dos primeiros pilotos a trocar a pintura de seu capacete - na época, e até bem recentemente, o capacete na Fórmula 1 era considerado parte da identidade visual do piloto, tornando-se, por assim dizer, sua marca registrada, com o modelo adotado por cada um acompanhando-o por toda a sua carreira. No caso de Lauda, seu capacete de 1970 a 1979 era totalmente vermelho, exceto pelo nome "Niki Lauda" escrito em letras cursivas brancas nas laterais; para a temporada de 1982, Lauda usaria um capacete branco com o L que era o logotipo da Lauda Air nas laterais em vermelho - no ano seguinte, ele inverteria as cores, com o capacete sendo vermelho e o L branco.

Para 1983, a McLaren mudaria de motor, do Ford-Cosworth para o TAG-Peugeot, e teria uma queda sensível de rendimento. Com isso, a equipe só venceria uma prova, com Watson, o GP dos Estados Unidos Oeste, onde Lauda também conseguiria seu melhor resultado do ano, um segundo lugar - Lauda só conseguiria completar cinco provas no ano, sequer se classificaria para o GP de Mônaco, e seria desclassificado do GP da Alemanha por dar ré durante um pit stop, o que faria com que ele só somasse 12 pontos, terminando o campeonato em décimo. Após o GP da Alemanha, ele insistiria para que o projetista da McLaren, John Barnard, já começasse a trabalhar no carro do ano seguinte; Barnard ficaria furioso, mas acabaria concordando, e o carro usado pela equipe na última prova do ano, o GP da África do Sul, já traria algumas bem-vindas modificações - Lauda poderia, inclusive, ter vencido a corrida, mas, com uma pane elétrica, teve de abandonar, enquanto Watson nem correu, desclassificado por ultrapassagem ilegal na volta de apresentação.

O novo projeto de Barnard colheria frutos a partir de 1984, quando Watson seria substituído pelo francês Alain Prost. A princípio, Lauda foi contra a vinda de Prost, que saiu expulso da Renault após declarações controversas sobre a equipe, mas, ao longo do ano, declarou que ter um companheiro de equipe tão rápido fez com que ele se motivasse ainda mais a vencer. A McLaren de Lauda e Prost mostraria desde o início ser o carro a ser batido, vencendo 12 das 16 provas do ano; cinco dessas vitórias foram de Lauda (na África do Sul, França, Inglaterra, Itália e Áustria, na primeira e única vez em que um piloto austríaco venceu em casa), que, apesar de outros seis abandonos, só não foi primeiro ou segundo no GP da Europa, que marcou o retorno de Nürburgring ao calendário da Fórmula 1, prova na qual Lauda chegou em quarto. Mesmo com Prost tendo mais vitórias, os quatro segundos lugares de Lauda fizeram com que ele conquistasse seu tricampeonato com meio ponto de vantagem sobre o francês, graças ao ocorrido no GP de Mônaco, no qual Lauda havia abandonado e Prost liderava, mas, sob uma chuva torrencial, pediu para que a prova fosse cancelada com apenas 28 voltas completadas, o que fez com que os pilotos recebessem apenas a metade dos pontos aos quais tinham direito. O título de Lauda em 1984 seria o primeiro da McLaren desde o de Hunt em 1976, e inauguraria uma sequência de sete quase seguidos - entre 1984 e 1991, somente Piquet, em 1987, pela Williams, seria campeão sem pilotar um McLaren.

Lauda repetiria a dupla com Prost em 1985, mas não faria uma boa temporada, abandonando 11 das 14 provas das quais participou - após quebrar o pulso durante os treinos para o GP da Bélgica, ele não largaria nessa prova e teria de ser substituído por Watson na seguinte, o GP da Europa, realizado em Brands Hatch, Inglaterra. O único pódio de Lauda em 1985 seria também sua última vitória na Fórmula 1, no GP da Holanda; curiosamente, na prova imediatamente anterior, o GP da Áustria, ele avisaria à McLaren, e depois declararia em uma entrevista coletiva, que se aposentaria ao fim da temporada, aos 36 anos de idade. Diferentemente do que fez quando saiu da Ferrari e da Brabham, Lauda cumpriu seu contrato até o final, sendo sua última corrida o GP da Austrália, que estreou no calendário naquele ano.

Após sua segunda aposentadoria, Lauda ficaria quase oito anos se dedicando exclusivamente a sua companhia aérea, até ser convidado pela Ferrari, em 1993, para ser consultor. Em 2001, ele seria convidado para ser chefe da recém-formada equipe Jaguar, mas ficaria no cargo menos de um ano e meio, sendo demitido no final de 2002. Ele retornaria à Fórmula 1 dez anos depois, em 2012, no cargo de presidente não-executivo da equipe Mercedes, sendo um dos responsáveis pela contratação de Lewis Hamilton em 2013.

Ao longo da vida, Lauda escreveria cinco livros, todos editados pelo jornalista austríaco Herbert Volker: The Art and Science of Grand Prix Driving, de 1975, sobre ser um piloto de Fórmula 1; My Years With Ferrari, de 1978, sobre sua época como piloto da Ferrari; The New Formula One: A Turbo Age, de 1984, sobre a mudança ocorrida com a introdução dos motores turbo na Fórmula 1; To Hell and Back, de 1986, sobre seu acidente; e Das dritte Leben ("a terceira vida"), de 1996, sua autobiografia.

Lauda foi casado duas vezes; no início de 1976, ele se casaria com a jornalista austríaca descendente de chilenos Marlene Knaus, cujo apoio considerou fundamental para sua recuperação do acidente; o casal teria dois filhos, Mathias, que também é piloto, atualmente disputando o Mundial de Endurance pela Aston Martin, e Lukas, que atua como empresário do irmão. Lauda e Knaus se separariam em 1991; em 2008, ele se casaria com a aeromoça austríaca Birgit Wetzinger, com quem já namorava há mais de uma década, e que havia lhe doado um rim em 2005 - no ano seguinte, eles teriam um casal de gêmeos, Mila e Max.

Além do transplante de rim, em 2018 Lauda teria de se submeter a um transplante de pulmão. Apesar de bem sucedido, sua saúde nunca mais seria a mesma e, no início de 2019, ele teria de se internar no Hospital Universitário de Zurique, na Suíça. Ele faleceria dormindo, ainda internado, em 20 de maio, aos 70 anos.
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