Eu adoro filmes antigos, principalmente de terror e ficção científica. Isso faz com que eu descubra sem querer umas coisas interessantes, como, por exemplo, que existe uma série de filmes alemães da década de 1960 baseados nos livros de um escritor britânico chamado Edgar Wallace. De fato, eu achei isso tão interessante que decidi pesquisar mais sobre o assunto, e acabei ficando com vontade de escrever um post. Assim, hoje é dia de Edgar Wallace no átomo!
Richard Horatio Edgar Wallace nasceu em 1 de abril de 1875 em Greenwich, Inglaterra. Sua mãe, Mary Jane Richards, cujo sobrenome de solteira era Blair, morava em Londres, vinha de uma família ligada ao teatro, e trabalhou como cenografista, contra-regra, lanterninha e, se necessário, atriz, até se casar com Joseph Richards, um capitão da Marinha Mercante. Mary viveu uma vida boa durante um ano, até que, quando ela estava grávida de seu primeiro filho, Joseph morreu no mar, deixando-a na miséria. Após o nascimento da criança, ela decidiria tentar uma carreira de atriz, usando o nome Polly Richards, e acabaria conhecendo Alice Marriott, dona de um teatro e filha do famoso ator, compositor, músico, dramaturgo, entalhador, optometrista e vendedor de livros James Henry Marriott. Elas se tornariam amigas, e, em 1872, Mary seria apresentada ao marido de Alice, Richard Edgar, e a seus três filhos adultos, Grace, Adeline e Richard Horatio, cada um de um casamento anterior diferente.
Richard Horatio Marriott Edgar também era ator e, durante uma festa após o lançamento de uma peça, ele e Mary tiveram um encontro sexual dentro de um armário do teatro, que resultou em sua gravidez. Envergonhada, ela inventaria um compromisso em Greenwich, e ficaria lá, hospedada em uma pensão, até o filho nascer, quando pediria à parteira que encontrasse uma família para adotá-lo. A parteira a apresentaria a uma amiga, Clara Freeman, de 20 anos de idade, que já tinha dez filhos mas não se importava em ter onze, e, assim, o pequeno Richard Horatio, batizado com o mesmo nome do pai, seria adotado pelos Freeman enquanto Mary retornava a Londres e à carreira de atriz, sem contar ao Richard Horatio pai que ele agora era pai. Mary jamais visitou o filho enquanto ele era criança, mas enviava dinheiro para os Freeman sempre que podia.
George e Clara Freeman, apesar de pobres, sempre fizeram questão de que Richard tivesse a melhor educação possível, e usavam o dinheiro que Mary enviava exclusivamente para isso; ao contrário de seus irmãos adotivos, ele estudaria em uma escola particular, em regime de internato, até os 12 anos de idade. Na adolescência, ele decidiria trabalhar para ajudar seus pais adotivos, conseguindo um emprego como entregador de leite, do qual foi mandado embora por roubar dinheiro. Em seguida, ele trabalharia vendendo jornais, numa fábrica de borracha, como assistente de sapateiro e cozinheiro de um navio, até se alistar no exército, aos 19 anos, dando o nome fictício de Edgar Wallace, obtido combinando o sobrenome de seu pai biológico com o do autor de Ben-Hur, Lee Wallace - nos documentos, seu nome era Richard Horatio Freeman. Ele primeiro seria enviado para servir na África do Sul, em 1896, sendo transferido após um ano para o Corpo Médico, do qual não gostava, usando sua experiência como vendedor de jornais para convencer seus superiores a transferi-lo para a Imprensa Militar.
Enquanto estava na África do Sul, Wallace conheceria o autor Rudyard Kipling, na Cidade do Cabo, em 1898, e decidiria ele também arriscar escrever poemas e canções; seu primeiro livro, The Mission that Failed!, seria publicado ainda naquele ano. Em 1899, após três anos, ele se cansaria da vida militar e pediria baixa para se dedicar integralmente a escrever, conseguindo, novamente graças à sua experiência, um posto como correspondente, primeiro para a Agência Reuters, e, em 1900, para o jornal Daily Mail. Em 1901, ele se casaria com Ivy Maude Caldecott, filha de um missionário que era fortemente contra a união; ela engravidaria pouco após o matrimônio, mas sua primeira filha, Eleanor Clare Wallace, faleceria repentinamente de meningite em 1903. Depois desse evento, o casal decidiria deixar a África e retornar à Inglaterra, se estabelecendo em Londres.
Pouco após o retorno de Wallace à Inglaterra, Mary, aos 60 anos de idade, sofrendo de câncer e vivendo novamente na miséria, ficaria sabendo e procuraria o filho para pedir dinheiro, mas ele, com raiva, a mandaria embora; ela faleceria naquele mesmo ano, na enfermaria de um hospítal público. O Richard Horatio pai ficaria sabendo da existência do filho pouco antes do falecimento de Mary, mas jamais o procuraria nem seria procurado.
Wallace continuaria trabalhando para o Daily Mail, escrevendo histórias de mistério em seu tempo livre para complementar a renda da família, que cresceria rapidamente, com o nascimento de Bryan Edgar Wallace em 1904 e o de Patricia Hellier Wallace em 1908. Entre os dois, ele publicaria The Four Just Men, de 1905; nenhuma editora aceitaria a publicação, e ele convenceria o dono do Daily Mail, Alfred Hamsworth, a lhe emprestar dinheiro para que ele criasse a sua própria, que chamaria de Tallis Press. O livro seria um grande fracasso, o Daily Mail teria um enorme prejuízo, e, em 1907, Wallace se tornaria o primeiro repórter a ser demitido pelo jornal, não conseguindo emprego em nenhum outro devido à sua reputação, com Ivy tendo de vender as joias de sua família para conseguir comprar comida.
Antes de ser demitido, entretanto, Wallace seria enviado como correspondente ao Congo Belga, onde escreveria uma série de reportagens sobre as atrocidades cometidas pelos colonizadores contra o povo local. Em 1910, a editora da revista Weekly Tale-Teller, Isabel Thorne, o convidaria para escrever uma série de histórias inspiradas por essa experiência. Wallace reuniria essas histórias no livro Sanders of the River, publicado em 1911 pela Tallis com um empréstimo de Thorne. Dessa vez, o livro seria um gigantesco sucesso, com sua renda conseguindo pagar não somente o empréstimo, mas também quitar todas as dívidas de Wallace. Ele aproveitaria o momento e escreveria nada menos que 11 outros livros sobre o assunto, o que permitiria que sua família vivesse confortavelmente durante anos.
O sucesso dos livros reabilitaria Wallace como jornalista, e ele coseguiria emprego na revista Week-End e nos jornais Evening News e Birmigham Daily Post, sendo enviado por esse último como correspondente na Primeira Guerra Mundial. Em 1916, nasceria seu terceiro filho, Michael Blair Wallace; se sentindo abandonada pelo marido, Ivy pediria o divórcio e a guarda das crianças em 1918. Wallace se casaria novamente em 1921 com Ethel Violet King, sua secretária no Birmigham Daily Post e filha de um banqueiro; em 1923, nasceria a primeira filha do casal, Margaret Penelope June Wallace, conhecida como Penny. Na época, Wallace já não tinha mais nenhum problema financeiro, e decidiria voltar a escrever histórias de mistério, que considerava sua grande paixão. Ele conseguiria um contrato com a editora Hodder e Stoughton, que faria toda uma campanha promocional na qual ele era chamado de "Rei do Suspense". A primeira coisa que ele compraria com o dinheiro do contrato seria um Rolls-Royce amarelo, que se tornaria uma espécie de marca registrada sua.
A Hodder and Stoughton prometeria publicar tudo o que Wallace escrevesse, e ele escreveria muito - reportagens da época dizem que ele era capaz de escrever um romance de 70 mil palavras em três dias, e que trabalhava em três romances diferentes ao mesmo tempo. Uma pesquisa conduzida em 1928 estimou que um em cada quatro livros lidos no Reino Unido naquele ano havia sido escrito por Wallace. Além das histórias de mistério, ele escreveria ficção científica, peças de teatro e dez volumes de uma obra de não-ficção sobre a Primeira Guerra Mundial - ele só não escrevia histórias de amor, das quais não gostava e que achava não terem apelo junto ao público. Ao todo, ele escreveria 170 romances, 18 peças de teatro e 957 contos, publicados em várias revistas, jornais e coletâneas.
Wallace seria o primeiro escritor de mistério a colocar policiais como protagonistas de suas histórias - até então, todas eram protagonizadas ou por detetives particulares, ou por investigadores amadores no estilo de Sherlock Holmes. Quase todas as suas histórias são independentes, sem sequências ou repetir personagens; quando ele repetia um personagem, jamais fazia a história seguinte dependente das anteriores ou mesmo seguindo uma ordem cronológica, segundo ele, para que nenhum leitor precisasse ler mais nada para entendê-la. Ele também seria o primeiro repórter esportivo do mundo, ao ser convidado pela BBC para falar ao vivo durante o Derby Stakes - as corridas de cavalos, aliás, eram a segunda paixão de Wallace, que durante muitos anos escreveu sobre elas para jornais, se tornando editor dos suplementos de corridas das revistas Week-End e R. E. Walton's Weekly, e mais tarde lançando o Bibury's, um jornal exclusivamente dedicado às corridas de cavalos. Wallace perdeu fortunas apostando nos cavalos, e chegou a ser dono de cavalos de corrida.
Em 1929, as obras de Wallace começariam a ser adaptadas para o cinema, com os direitos sobre 28 delas sendo vendidas apenas naquele ano. Um dos livros de maior sucesso, The Ringer, seria adaptado pela British Lion Film, que, em agradecimento por ele ter dado preferência para que eles adquirissem os direitos, o nomearia Presidente de Honra, com direito a salário mensal, uma quantidade substancial de ações da empresa e uma larga fatia da arrecadação de quaisquer filmes que a British Lion produzisse baseados em suas obras; Wallace também convenceria a British Lion a contratar Bryan, seu filho mais velho, como editor de filmes. No ano seguinte, ele seria apontado Presidente de Honra do London Press Club, que, até hoje, oferece, anualmente, o Prêmio Edgar Wallace de Excelência na Escrita.
Em 1931, Wallace compraria o jornal Sunday News, que estava à beira da falência, passando a escrever ele mesmo uma coluna sobre teatro; ele não conseguiria evitar o pior, entretanto, e o jornal faliria após seis meses. No mesmo ano, ele se candidataria ao Parlamento pelo Partido Liberal, mas não conseguiria se eleger. Enquanto estava em campanha, ele escreveria o roteiro para a adaptação da Gainsborough Pictures de O Cão dos Baskervilles, lançado em 1932, sua primeira experiência como roteirista de cinema.
No final de 1931, ele decidiria aceitar um convite para ser revisor de roteiros do estúdio RKO, indo morar em Los Angeles, Estados Unidos. Um de seus sonhos era que uma de suas obras fosse adaptada por um estúdio de Hollywood, e ele mesmo escreveria os roteiros de The Four Just Men e Mr. J.G. Reeder, mas não conseguiria convencer a RKO a filmá-los. Ele decidiria, então, escrever uma peça de teatro ambientada nos Estados Unidos, mais especificamente na Chicago da Lei Seca; On the Spot seria seu maior sucesso no teatro, é até hoje considerada uma das melhores peças de teatro do início do século XX, e lançaria a carreira de Charles Laughton, ator que interpretava Tony Perelli, o equivalente de Al Capone na peça. Durante a produção, Wallace conheceria por acaso seu meio-irmão por parte de pai, o poeta, dramaturgo e comediante George Marriott Edgar.
Em dezembro de 1931, Wallace assinaria contrato para trabalhar em King Kong. No início de 1932, porém, ele começaria a se queixar de fortes dores de cabeça, sendo diagnosticado com diabetes, com sua condição se deteriorando rapidamente. Violet chegaria a comprar passagem em um navio que fazia a linha de Southhampton a Los Angeles, mas, enquanto ela estava a caminho, Wallace entraria em coma e faleceria, aos 56 anos, em 10 de fevereiro de 1932, em um hospital em Beverly Hills. Ela levaria o corpo de volta à Inglaterra, onde ele seria sepultado em Buckinghamshire. Violet faleceria em abril de 1933, aos 33 anos, apenas 14 meses após o marido, segundo muitos, de desespero ao não conseguir lidar com gigantescas dívidas deixadas por ele - apesar de todo o dinheiro que recebia pelas vendas e adaptações de suas obras, após sua morte se descobriria que Wallace estava profundamente endividado, e que sua viagem aos Estados Unidos havia sido uma cartada final para tentar obter dinheiro e saldar essas dívidas.
De todos os seus filhos, somente Penny Wallace se interessaria por manter viva a obra do pai, se tornando ela mesma uma bem sucedida autora de mistério e fundando, em 1969, junto com seu marido, George Halcrow, com quem se casou em 1955, a Edgar Wallace Society, dedicada à preservação e gerenciamento do espólio literário de seu pai. Atualmente, a Edgar Wallace Society possui membros e escritórios em 20 países, e é presidida, desde 1997, ano de falecimento de Penny Wallace, por sua filha, Penelope Halcrow, com os direitos sobre todas as obras de Edgar Wallace pertencendo à agência A.P. Wyatt, de Londres.
Ao longo dos anos, mais de 160 filmes seriam feitos adaptando as obras de Edgar Wallace para o cinema; as que nos interessam, entretanto, são as produzidas na Alemanha Ocidental entre 1959 e 1972. Esses filmes ficariam conhecidos coletivamente como Krimi, abreviação de Kriminalfilm, algo como "filmes de criminosos", em alemão.
Os primeiros filmes alemães baseados nas obras de Wallace seriam produzidos ainda na época do cinema mudo, com o primeiro de todos, Der große Unbekannte, baseado no romance The Unknown, sendo filmado em 1927. As histórias de Wallace seriam consideradas "fáceis de filmar", pois sua trama principal poderia ser reduzida a poucos personagens e todos os cenários poderiam ser reproduzidos em estúdio, sem a necessidade de externas; isso faria com que, nos anos seguintes, vários estúdios alemães se interessassem em adquirir os direitos, com o próprio Wallace visitando os sets de filmagem da produção seguinte, Der rote Kreis (adaptação de The Crimson Circle), lançada em 1929, que também ganharia intertítulos em inglês e seria exibido em Londres. Pelo menos outros cinco filmes seriam produzidos nos anos seguintes, com o primeiro com som sendo Der Zinker (adaptação de The Squeaker), de 1931; em meados da década de 1930, porém, filmes envolvendo crimes perderiam popularidade na Alemanha, o que levaria a um hiato de 25 anos sem filmes baseados nas obras de Wallace após Der Doppelgänger (adaptação de The Double), de 1934.
Somente em meados da década de 1950, já na época da Alemanha Ocidental, a recém-fundada distribuidora Constantin Film entraria em contato com Penny Wallace e se diria interessada em voltar a fazer adaptações das obras de Edgar Wallace para o mercado alemão; filmes de crime e mistério, entretanto, ainda eram considerados de alto risco naquele país, devido ao baixo público, o que faria com que nenhuma produtora se interessasse em firmar uma parceria com a Constantin. Ainda acreditando que os filmes teriam mercado e seriam um grande sucesso, o dono e um dos fundadores da Constantin, o alemão Waldfried Barthel, decidiria empenhar grande parte de seus bens e abrir seu próprio estúdio - ou quase.
Barthel havia fundado a Constantin Film em 1950 junto com o dinamarquês Preben Philipsen, cujo pai, Constantin Philipsen - por isso o nome da distribuidora era Constantin Film - era dono de um estúdio de cinema em Copenhague, Dinamarca, chamado Rialto Film - cujo nome veio da área central da cidade de Veneza, na Itália, e o simbolo era uma gôndola. Pouco se sabe sobre a história da Rialto, que, na época em que Constantin Philipsen era vivo, produziu apenas filmes mudos, e, após sua morte, permaneceu aberta por pura inércia, produzindo pouquíssimos filmes que rendiam muito pouco. Em 1955, Preben Philipsen deixaria a Constantin para tentar reerguer a Rialto, e, em 1959, Barthel o procuraria dizendo ter negociado os direitos para adaptar as obras de Wallace, mas não ter nenhum estúdio alemão interessado. Philipsen decidiria embarcar na ideia do amigo, mas não tinha dinheiro, de forma que o próprio Barthel teve de financiar o filme, com a Rialto fornecendo apenas os equipamentos e mão de obra.
Felizmente para os dois, seu primeiro filme de Wallace seria um sucesso tão grande que não somente pagaria as dívidas de Barthel, mas também ajudaria a alavancar a Rialto, com Philipsen em 1960 fechando o estúdio em Copenhague e abrindo um em Frankfurt, o Rialto Film GmbH, para ficar mais fácil produzir filmes para o mercado alemão, do ponto de vista contábil e trabalhista. Nos anos seguintes, a Rialto se tornaria um dos principais estúdios da Alemanha Ocidental, produzindo não somente os filmes de Wallace, mas também uma série de filmes baseados nas obras do autor alemão Karl May, todos dirigidos pelo austríaco Harald Reinl, que ficaria famoso justamente com os filmes de Wallace. A Rialto existe até hoje, produzindo principalmente filmes para o mercado alemão, alguns deles de muito sucesso.
O primeiro filme de Wallace produzido pela Rialto seria Der Frosch mit der Maske (adaptação de The Fellowship of the Frog), de 1959. Dirigido por Reinl e estrelado por Siegfried Lowitz e Joachim Fuchsberger, o filme custaria 600 mil marcos alemães e renderia mais de um milhão, se tornando o filme alemão de maior público desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Apesar de filmado em Copenhague, o filme é falado em alemão, com a totalidade dos atores sendo alemães; o roteiro, por outro lado, é extremamente fiel ao livro, apenas retirando alguns personagens por questões de ritmo da história e adicionando um alívio cômico, interpretado por Eddie Arens, o que significa que a história é ambientada na Inglaterra - com algumas imagens de Londres sendo usadas para ambientação - e os nomes de todos os personagens são em inglês.
Esse seria o padrão em todos os filmes de Wallace produzidos pela Rialto: roteiro fiel ao livro, ambientação na Inglaterra, nomes dos personagens em inglês, mas com elenco alemão e falados em alemão - com, a partir do segundo, Der rote Kreis, de 1960, eles sendo filmados em Frankfurt ou Berlim. Entre 1959 e 1965, seriam produzidos vinte filmes baseados nas obras de Wallace pela Rialto, todos em preto e branco; esses filmes ficariam conhecidos como "Era dos Krimi em preto e branco", pois, além das características em comum entre todos os filmes de Krimi, contavam quase sempre com o mesmo elenco: Fuchsberger normalmente era o protagonista, Arens era sempre o alívio cômico, e a protagonista feminina costumava ser uma das "duas Karins", Karin Baal ou Karin Dor.
Como sempre costuma acontecer, o sucesso dos filmes da Rialto levaria outras produtoras a investir em produções semelhantes; pouco após o lançamento de Der Frosch mit der Maske, a Kurt Ulrich Filmproduktion negociaria os direitos do livro The Avenger, lançando o filme Der Rächer em 1960, pouco depois de Der rote Kreis. Para que isso não voltasse a acontecer, ainda em 1960 a Constantin Film firmaria com Penny Wallace um contrato segundo o qual eles teriam preferência de adaptação sobre todas as obras de Wallace, com ela somente podendo negociar os direitos com outra produtora daqueles que eles especificamente dissessem que não tinham interesse - e eles, obviamente, apesar de não adaptar todos, jamais disseram expressamente que não tinham interesse em algum. Assim, a saída para as demais produtoras era fazer "filmes ao estilo de Wallace", que lembrassem as histórias do escritor, mas fossem roteiros originais, escritos por roteiristas alemães - curiosamente, ainda assim, ambientados na Inglaterra e com o nome dos personagens em inglês, para manter o estilo.
As mais bem sucedidas dessas "imitações" seriam as da CCC Film, do polonês Artur Brauner, que, em meados da década de 1960, chegariam a rivalizar em público com as da Rialto. Além da Kurt Ulrich, a CCC seria a única produtora a conseguir adaptar oficialmente duas obras de Wallace, graças a um acordo com a Constantin Film, que as distribuiria e ganharia uma gorda fatia da bilheteria: Der Fluch der gelben Schlange (adaptação de The Yellow Snake), de 1963, e Der Teufel kam aus Akasava (adaptação de Keeper of the Stone), de 1971, dirigida pelo espanhol Jesús Franco.
A Rialto venderia seus filmes para dublagem e exibição em outros países europeus, e, embora não tenham conseguido repetir o sucesso da Alemanha Ocidental, no Reino Unido eles também teriam bom público. Isso levaria o produtor Harry Alan Towers, dono da Hallam Productions, a procurar a Constatin Film, inicialmente para descobrir se o contrato de exclusividade deles só valeria para a Alemanha Ocidental ou cobriria toda a Europa. A conversa acabaria evoluindo para um acordo segundo o qual a Hallam faria co-produções anglo-germânicas, com elenco predominantemente britânico, de algumas obras de Wallace, que então estreariam tanto no Reino Unido quanto na Alemanha Ocidental, com a Constantin ficando com a renda alemã. Os dois primeiros desses filmes não seriam Krimi, e sim adaptações de Sanders of the River, mas depois eles fariam outros dois que merecem ser citados: o primeiro, de 1966, uma adaptação de Again the Three Just Men, cujo título no Reino Unido era Circus of Fear, e em alemão era Das Rätsel des silbernen Dreieck, se tornaria o mais famoso filme de Wallace nos Estados Unidos, onde foi lançado com o título Psycho-Circus; e o segundo, Five Golden Dragons, de 1967, usava elementos de vários contos de Wallace e foi filmado em Hong Kong, trazendo um elenco estelar que contava, dentre outros, com Rupert Davies, Margaret Lee, que cantava duas canções no filme, e Bob Cummings, em seu último papel antes de falecer.
A partir de 1966, a Rialto inauguraria a "Era dos Krimi a cores", com Der Bucklige von Soho (adaptação de The Hunchback of Soho), dirigido por Alfred Vohrer. Com cores vibrantes e um tom mais cômico que os em preto e branco, os filmes a cores costumavam, após um pequeno trecho para ambientar a história, começar com uma gravação da voz de Wallace que dizia "hallo, ich bin Edgar Wallace" ("olá, eu sou Edgar Wallace"), seguido do som de tiros de metralhadora que formavam a frase "Edgar Wallace's" na tela, antes do título do filme e dos créditos. Ainda contando em sua maioria com Fuchsberger, Arens e as Karins, os filmes a cores também costumavam ter no elenco o famoso ator Klaus Kinski, normalmente no papel de um vilão, e trazer um personagem recorrente (que não estava nos livros), o atrapalhado Sir John, inspetor da Scotland Yard, interpretado por Siegfried Schürenberg, que costumava estar acompanhado por sua muito mais competente e belíssima secretária Miss Finley, interpretada por Ilse Pagé. Ao todo, a Rialto produziria sozinha dez filmes de Wallace a cores entre 1966 e 1971.
"Sozinha" porque, depois que começasse a produção dos filmes a cores, por pura coincidência, o interesse do público alemão em filmes de crime e mistério voltaria a diminuir, com o próprio tom mais cômico dos filmes a cores sendo uma tentativa de atrair mais público. A Rialto, entretanto, repararia que, na Itália, ao contrário do que vinha acontecendo na Alemanha Ocidental, o público dos filmes de Krimi vinha aumentando cada vez mais, e, assim, propôs uma parceria à italiana Colt Produzioni Cinematografiche: os custos da produção seriam divididos entre as duas empresas, mas o rendimento da bilheteria também, e os filmes poderiam ter elenco e profissionais alemães e italianos.
A primeira produção dessa parceria seria A Doppia Faccia, adaptação de Puzzle of Horrors, lançado na Alemanha como Das Gesicht im Dunkeln, em 1969. Dirigido pelo famoso Riccardo Fredda, já em final de carreira, e com roteiro inicialmente desenvolvido por uma lenda do cinema italiano, Lucio Fulci - que, em entrevistas, diria na verdade ter escrito o roteiro, creditado a Fredda e Paul Hengge - o filme era protagonizado pelo alemão Kinski e pela italiana Annabella Incontrera, e seria um grande sucesso, enchendo os caixas da Colt e da Rialto. Infelizmente, durante as filmagens, Horst Wendlandt, produtor da Rialto, se desentenderia com Oreste Coltellacci, produtor da Colt, e o primeiro acabaria sendo também o último filme da parceria. Sua renda permitiria que a Rialto produzisse mais um filme, Die Tote aus der Themse, adaptação de The Body in the Thames, lançado em 1971, mas que, novamente com pouco público, acabaria sendo a última adaptação de Wallace feita na Alemanha Ocidental.
Curiosamente, em 1972 a Rialto seria procurada por duas produtoras italianas, a Italian International Films S.r.l. e a Clodio Cinematografica, que se diriam interessadas em uma parceria para a produção de um filme de Giallo, estilo de suspense muito popular na Itália na época. A Rialto aprovaria o projeto, firmaria a parceria, e até conseguiria um contrato para que o filme fosse distribuído na Alemanha Ocidental pela Constantin. Com o título de O Que Vocês Fizeram com Solange?, Fuchsberger e Baal no elenco, o filme de fato seria lançado na Itália como um Giallo, obtendo grande sucesso - mas na Alemanha seria não somente lançado como um Krimi, mas, por ideia de Constatin, promovido como "um filme de Edgar Wallace". Solange seria um sucesso inesperado, e levaria a Rialto a procurar outra produtora italiana, a Flora Film S.r.l., para fazer outro filme no mesmo estilo, com elenco italiano e alemão, filmado na Alemanha e na Itália, lançado na Itália como um Giallo e na Alemanha como um Krimi.
Penny Wallace, entretanto, não ficaria nada satisfeita com o uso do nome de seu pai para promover um filme de Giallo - estilo no qual uma das características era a sensualidade, com Solange sendo cheio de cenas com mulheres nuas, algo que jamais estava presente nas histórias de Wallace - e romperia o contrato com a Constantin, que decidiria não se envolver no projeto. Assim, Sete Orquídeas Manchadas de Sangue, também de 1972, seria distribuído em toda a Europa pela Variety Distribution - que, mais uma vez, o promoveria como "um filme de Edgar Wallace". Dessa vez, porém, a bilheteria ficaria muito abaixo do esperado, e, talvez não querendo mais confusão com Penny Wallace, a Rialto desistiria dessas parcerias, passando a investir em outros estilos de filme.
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Richard Horatio Edgar Wallace nasceu em 1 de abril de 1875 em Greenwich, Inglaterra. Sua mãe, Mary Jane Richards, cujo sobrenome de solteira era Blair, morava em Londres, vinha de uma família ligada ao teatro, e trabalhou como cenografista, contra-regra, lanterninha e, se necessário, atriz, até se casar com Joseph Richards, um capitão da Marinha Mercante. Mary viveu uma vida boa durante um ano, até que, quando ela estava grávida de seu primeiro filho, Joseph morreu no mar, deixando-a na miséria. Após o nascimento da criança, ela decidiria tentar uma carreira de atriz, usando o nome Polly Richards, e acabaria conhecendo Alice Marriott, dona de um teatro e filha do famoso ator, compositor, músico, dramaturgo, entalhador, optometrista e vendedor de livros James Henry Marriott. Elas se tornariam amigas, e, em 1872, Mary seria apresentada ao marido de Alice, Richard Edgar, e a seus três filhos adultos, Grace, Adeline e Richard Horatio, cada um de um casamento anterior diferente.
Richard Horatio Marriott Edgar também era ator e, durante uma festa após o lançamento de uma peça, ele e Mary tiveram um encontro sexual dentro de um armário do teatro, que resultou em sua gravidez. Envergonhada, ela inventaria um compromisso em Greenwich, e ficaria lá, hospedada em uma pensão, até o filho nascer, quando pediria à parteira que encontrasse uma família para adotá-lo. A parteira a apresentaria a uma amiga, Clara Freeman, de 20 anos de idade, que já tinha dez filhos mas não se importava em ter onze, e, assim, o pequeno Richard Horatio, batizado com o mesmo nome do pai, seria adotado pelos Freeman enquanto Mary retornava a Londres e à carreira de atriz, sem contar ao Richard Horatio pai que ele agora era pai. Mary jamais visitou o filho enquanto ele era criança, mas enviava dinheiro para os Freeman sempre que podia.
George e Clara Freeman, apesar de pobres, sempre fizeram questão de que Richard tivesse a melhor educação possível, e usavam o dinheiro que Mary enviava exclusivamente para isso; ao contrário de seus irmãos adotivos, ele estudaria em uma escola particular, em regime de internato, até os 12 anos de idade. Na adolescência, ele decidiria trabalhar para ajudar seus pais adotivos, conseguindo um emprego como entregador de leite, do qual foi mandado embora por roubar dinheiro. Em seguida, ele trabalharia vendendo jornais, numa fábrica de borracha, como assistente de sapateiro e cozinheiro de um navio, até se alistar no exército, aos 19 anos, dando o nome fictício de Edgar Wallace, obtido combinando o sobrenome de seu pai biológico com o do autor de Ben-Hur, Lee Wallace - nos documentos, seu nome era Richard Horatio Freeman. Ele primeiro seria enviado para servir na África do Sul, em 1896, sendo transferido após um ano para o Corpo Médico, do qual não gostava, usando sua experiência como vendedor de jornais para convencer seus superiores a transferi-lo para a Imprensa Militar.
Enquanto estava na África do Sul, Wallace conheceria o autor Rudyard Kipling, na Cidade do Cabo, em 1898, e decidiria ele também arriscar escrever poemas e canções; seu primeiro livro, The Mission that Failed!, seria publicado ainda naquele ano. Em 1899, após três anos, ele se cansaria da vida militar e pediria baixa para se dedicar integralmente a escrever, conseguindo, novamente graças à sua experiência, um posto como correspondente, primeiro para a Agência Reuters, e, em 1900, para o jornal Daily Mail. Em 1901, ele se casaria com Ivy Maude Caldecott, filha de um missionário que era fortemente contra a união; ela engravidaria pouco após o matrimônio, mas sua primeira filha, Eleanor Clare Wallace, faleceria repentinamente de meningite em 1903. Depois desse evento, o casal decidiria deixar a África e retornar à Inglaterra, se estabelecendo em Londres.
Pouco após o retorno de Wallace à Inglaterra, Mary, aos 60 anos de idade, sofrendo de câncer e vivendo novamente na miséria, ficaria sabendo e procuraria o filho para pedir dinheiro, mas ele, com raiva, a mandaria embora; ela faleceria naquele mesmo ano, na enfermaria de um hospítal público. O Richard Horatio pai ficaria sabendo da existência do filho pouco antes do falecimento de Mary, mas jamais o procuraria nem seria procurado.
Wallace continuaria trabalhando para o Daily Mail, escrevendo histórias de mistério em seu tempo livre para complementar a renda da família, que cresceria rapidamente, com o nascimento de Bryan Edgar Wallace em 1904 e o de Patricia Hellier Wallace em 1908. Entre os dois, ele publicaria The Four Just Men, de 1905; nenhuma editora aceitaria a publicação, e ele convenceria o dono do Daily Mail, Alfred Hamsworth, a lhe emprestar dinheiro para que ele criasse a sua própria, que chamaria de Tallis Press. O livro seria um grande fracasso, o Daily Mail teria um enorme prejuízo, e, em 1907, Wallace se tornaria o primeiro repórter a ser demitido pelo jornal, não conseguindo emprego em nenhum outro devido à sua reputação, com Ivy tendo de vender as joias de sua família para conseguir comprar comida.
Antes de ser demitido, entretanto, Wallace seria enviado como correspondente ao Congo Belga, onde escreveria uma série de reportagens sobre as atrocidades cometidas pelos colonizadores contra o povo local. Em 1910, a editora da revista Weekly Tale-Teller, Isabel Thorne, o convidaria para escrever uma série de histórias inspiradas por essa experiência. Wallace reuniria essas histórias no livro Sanders of the River, publicado em 1911 pela Tallis com um empréstimo de Thorne. Dessa vez, o livro seria um gigantesco sucesso, com sua renda conseguindo pagar não somente o empréstimo, mas também quitar todas as dívidas de Wallace. Ele aproveitaria o momento e escreveria nada menos que 11 outros livros sobre o assunto, o que permitiria que sua família vivesse confortavelmente durante anos.
O sucesso dos livros reabilitaria Wallace como jornalista, e ele coseguiria emprego na revista Week-End e nos jornais Evening News e Birmigham Daily Post, sendo enviado por esse último como correspondente na Primeira Guerra Mundial. Em 1916, nasceria seu terceiro filho, Michael Blair Wallace; se sentindo abandonada pelo marido, Ivy pediria o divórcio e a guarda das crianças em 1918. Wallace se casaria novamente em 1921 com Ethel Violet King, sua secretária no Birmigham Daily Post e filha de um banqueiro; em 1923, nasceria a primeira filha do casal, Margaret Penelope June Wallace, conhecida como Penny. Na época, Wallace já não tinha mais nenhum problema financeiro, e decidiria voltar a escrever histórias de mistério, que considerava sua grande paixão. Ele conseguiria um contrato com a editora Hodder e Stoughton, que faria toda uma campanha promocional na qual ele era chamado de "Rei do Suspense". A primeira coisa que ele compraria com o dinheiro do contrato seria um Rolls-Royce amarelo, que se tornaria uma espécie de marca registrada sua.
A Hodder and Stoughton prometeria publicar tudo o que Wallace escrevesse, e ele escreveria muito - reportagens da época dizem que ele era capaz de escrever um romance de 70 mil palavras em três dias, e que trabalhava em três romances diferentes ao mesmo tempo. Uma pesquisa conduzida em 1928 estimou que um em cada quatro livros lidos no Reino Unido naquele ano havia sido escrito por Wallace. Além das histórias de mistério, ele escreveria ficção científica, peças de teatro e dez volumes de uma obra de não-ficção sobre a Primeira Guerra Mundial - ele só não escrevia histórias de amor, das quais não gostava e que achava não terem apelo junto ao público. Ao todo, ele escreveria 170 romances, 18 peças de teatro e 957 contos, publicados em várias revistas, jornais e coletâneas.
Wallace seria o primeiro escritor de mistério a colocar policiais como protagonistas de suas histórias - até então, todas eram protagonizadas ou por detetives particulares, ou por investigadores amadores no estilo de Sherlock Holmes. Quase todas as suas histórias são independentes, sem sequências ou repetir personagens; quando ele repetia um personagem, jamais fazia a história seguinte dependente das anteriores ou mesmo seguindo uma ordem cronológica, segundo ele, para que nenhum leitor precisasse ler mais nada para entendê-la. Ele também seria o primeiro repórter esportivo do mundo, ao ser convidado pela BBC para falar ao vivo durante o Derby Stakes - as corridas de cavalos, aliás, eram a segunda paixão de Wallace, que durante muitos anos escreveu sobre elas para jornais, se tornando editor dos suplementos de corridas das revistas Week-End e R. E. Walton's Weekly, e mais tarde lançando o Bibury's, um jornal exclusivamente dedicado às corridas de cavalos. Wallace perdeu fortunas apostando nos cavalos, e chegou a ser dono de cavalos de corrida.
Em 1929, as obras de Wallace começariam a ser adaptadas para o cinema, com os direitos sobre 28 delas sendo vendidas apenas naquele ano. Um dos livros de maior sucesso, The Ringer, seria adaptado pela British Lion Film, que, em agradecimento por ele ter dado preferência para que eles adquirissem os direitos, o nomearia Presidente de Honra, com direito a salário mensal, uma quantidade substancial de ações da empresa e uma larga fatia da arrecadação de quaisquer filmes que a British Lion produzisse baseados em suas obras; Wallace também convenceria a British Lion a contratar Bryan, seu filho mais velho, como editor de filmes. No ano seguinte, ele seria apontado Presidente de Honra do London Press Club, que, até hoje, oferece, anualmente, o Prêmio Edgar Wallace de Excelência na Escrita.
Em 1931, Wallace compraria o jornal Sunday News, que estava à beira da falência, passando a escrever ele mesmo uma coluna sobre teatro; ele não conseguiria evitar o pior, entretanto, e o jornal faliria após seis meses. No mesmo ano, ele se candidataria ao Parlamento pelo Partido Liberal, mas não conseguiria se eleger. Enquanto estava em campanha, ele escreveria o roteiro para a adaptação da Gainsborough Pictures de O Cão dos Baskervilles, lançado em 1932, sua primeira experiência como roteirista de cinema.
No final de 1931, ele decidiria aceitar um convite para ser revisor de roteiros do estúdio RKO, indo morar em Los Angeles, Estados Unidos. Um de seus sonhos era que uma de suas obras fosse adaptada por um estúdio de Hollywood, e ele mesmo escreveria os roteiros de The Four Just Men e Mr. J.G. Reeder, mas não conseguiria convencer a RKO a filmá-los. Ele decidiria, então, escrever uma peça de teatro ambientada nos Estados Unidos, mais especificamente na Chicago da Lei Seca; On the Spot seria seu maior sucesso no teatro, é até hoje considerada uma das melhores peças de teatro do início do século XX, e lançaria a carreira de Charles Laughton, ator que interpretava Tony Perelli, o equivalente de Al Capone na peça. Durante a produção, Wallace conheceria por acaso seu meio-irmão por parte de pai, o poeta, dramaturgo e comediante George Marriott Edgar.
Em dezembro de 1931, Wallace assinaria contrato para trabalhar em King Kong. No início de 1932, porém, ele começaria a se queixar de fortes dores de cabeça, sendo diagnosticado com diabetes, com sua condição se deteriorando rapidamente. Violet chegaria a comprar passagem em um navio que fazia a linha de Southhampton a Los Angeles, mas, enquanto ela estava a caminho, Wallace entraria em coma e faleceria, aos 56 anos, em 10 de fevereiro de 1932, em um hospital em Beverly Hills. Ela levaria o corpo de volta à Inglaterra, onde ele seria sepultado em Buckinghamshire. Violet faleceria em abril de 1933, aos 33 anos, apenas 14 meses após o marido, segundo muitos, de desespero ao não conseguir lidar com gigantescas dívidas deixadas por ele - apesar de todo o dinheiro que recebia pelas vendas e adaptações de suas obras, após sua morte se descobriria que Wallace estava profundamente endividado, e que sua viagem aos Estados Unidos havia sido uma cartada final para tentar obter dinheiro e saldar essas dívidas.
De todos os seus filhos, somente Penny Wallace se interessaria por manter viva a obra do pai, se tornando ela mesma uma bem sucedida autora de mistério e fundando, em 1969, junto com seu marido, George Halcrow, com quem se casou em 1955, a Edgar Wallace Society, dedicada à preservação e gerenciamento do espólio literário de seu pai. Atualmente, a Edgar Wallace Society possui membros e escritórios em 20 países, e é presidida, desde 1997, ano de falecimento de Penny Wallace, por sua filha, Penelope Halcrow, com os direitos sobre todas as obras de Edgar Wallace pertencendo à agência A.P. Wyatt, de Londres.
Ao longo dos anos, mais de 160 filmes seriam feitos adaptando as obras de Edgar Wallace para o cinema; as que nos interessam, entretanto, são as produzidas na Alemanha Ocidental entre 1959 e 1972. Esses filmes ficariam conhecidos coletivamente como Krimi, abreviação de Kriminalfilm, algo como "filmes de criminosos", em alemão.
Os primeiros filmes alemães baseados nas obras de Wallace seriam produzidos ainda na época do cinema mudo, com o primeiro de todos, Der große Unbekannte, baseado no romance The Unknown, sendo filmado em 1927. As histórias de Wallace seriam consideradas "fáceis de filmar", pois sua trama principal poderia ser reduzida a poucos personagens e todos os cenários poderiam ser reproduzidos em estúdio, sem a necessidade de externas; isso faria com que, nos anos seguintes, vários estúdios alemães se interessassem em adquirir os direitos, com o próprio Wallace visitando os sets de filmagem da produção seguinte, Der rote Kreis (adaptação de The Crimson Circle), lançada em 1929, que também ganharia intertítulos em inglês e seria exibido em Londres. Pelo menos outros cinco filmes seriam produzidos nos anos seguintes, com o primeiro com som sendo Der Zinker (adaptação de The Squeaker), de 1931; em meados da década de 1930, porém, filmes envolvendo crimes perderiam popularidade na Alemanha, o que levaria a um hiato de 25 anos sem filmes baseados nas obras de Wallace após Der Doppelgänger (adaptação de The Double), de 1934.
Somente em meados da década de 1950, já na época da Alemanha Ocidental, a recém-fundada distribuidora Constantin Film entraria em contato com Penny Wallace e se diria interessada em voltar a fazer adaptações das obras de Edgar Wallace para o mercado alemão; filmes de crime e mistério, entretanto, ainda eram considerados de alto risco naquele país, devido ao baixo público, o que faria com que nenhuma produtora se interessasse em firmar uma parceria com a Constantin. Ainda acreditando que os filmes teriam mercado e seriam um grande sucesso, o dono e um dos fundadores da Constantin, o alemão Waldfried Barthel, decidiria empenhar grande parte de seus bens e abrir seu próprio estúdio - ou quase.
Barthel havia fundado a Constantin Film em 1950 junto com o dinamarquês Preben Philipsen, cujo pai, Constantin Philipsen - por isso o nome da distribuidora era Constantin Film - era dono de um estúdio de cinema em Copenhague, Dinamarca, chamado Rialto Film - cujo nome veio da área central da cidade de Veneza, na Itália, e o simbolo era uma gôndola. Pouco se sabe sobre a história da Rialto, que, na época em que Constantin Philipsen era vivo, produziu apenas filmes mudos, e, após sua morte, permaneceu aberta por pura inércia, produzindo pouquíssimos filmes que rendiam muito pouco. Em 1955, Preben Philipsen deixaria a Constantin para tentar reerguer a Rialto, e, em 1959, Barthel o procuraria dizendo ter negociado os direitos para adaptar as obras de Wallace, mas não ter nenhum estúdio alemão interessado. Philipsen decidiria embarcar na ideia do amigo, mas não tinha dinheiro, de forma que o próprio Barthel teve de financiar o filme, com a Rialto fornecendo apenas os equipamentos e mão de obra.
Felizmente para os dois, seu primeiro filme de Wallace seria um sucesso tão grande que não somente pagaria as dívidas de Barthel, mas também ajudaria a alavancar a Rialto, com Philipsen em 1960 fechando o estúdio em Copenhague e abrindo um em Frankfurt, o Rialto Film GmbH, para ficar mais fácil produzir filmes para o mercado alemão, do ponto de vista contábil e trabalhista. Nos anos seguintes, a Rialto se tornaria um dos principais estúdios da Alemanha Ocidental, produzindo não somente os filmes de Wallace, mas também uma série de filmes baseados nas obras do autor alemão Karl May, todos dirigidos pelo austríaco Harald Reinl, que ficaria famoso justamente com os filmes de Wallace. A Rialto existe até hoje, produzindo principalmente filmes para o mercado alemão, alguns deles de muito sucesso.
O primeiro filme de Wallace produzido pela Rialto seria Der Frosch mit der Maske (adaptação de The Fellowship of the Frog), de 1959. Dirigido por Reinl e estrelado por Siegfried Lowitz e Joachim Fuchsberger, o filme custaria 600 mil marcos alemães e renderia mais de um milhão, se tornando o filme alemão de maior público desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Apesar de filmado em Copenhague, o filme é falado em alemão, com a totalidade dos atores sendo alemães; o roteiro, por outro lado, é extremamente fiel ao livro, apenas retirando alguns personagens por questões de ritmo da história e adicionando um alívio cômico, interpretado por Eddie Arens, o que significa que a história é ambientada na Inglaterra - com algumas imagens de Londres sendo usadas para ambientação - e os nomes de todos os personagens são em inglês.
Esse seria o padrão em todos os filmes de Wallace produzidos pela Rialto: roteiro fiel ao livro, ambientação na Inglaterra, nomes dos personagens em inglês, mas com elenco alemão e falados em alemão - com, a partir do segundo, Der rote Kreis, de 1960, eles sendo filmados em Frankfurt ou Berlim. Entre 1959 e 1965, seriam produzidos vinte filmes baseados nas obras de Wallace pela Rialto, todos em preto e branco; esses filmes ficariam conhecidos como "Era dos Krimi em preto e branco", pois, além das características em comum entre todos os filmes de Krimi, contavam quase sempre com o mesmo elenco: Fuchsberger normalmente era o protagonista, Arens era sempre o alívio cômico, e a protagonista feminina costumava ser uma das "duas Karins", Karin Baal ou Karin Dor.
Como sempre costuma acontecer, o sucesso dos filmes da Rialto levaria outras produtoras a investir em produções semelhantes; pouco após o lançamento de Der Frosch mit der Maske, a Kurt Ulrich Filmproduktion negociaria os direitos do livro The Avenger, lançando o filme Der Rächer em 1960, pouco depois de Der rote Kreis. Para que isso não voltasse a acontecer, ainda em 1960 a Constantin Film firmaria com Penny Wallace um contrato segundo o qual eles teriam preferência de adaptação sobre todas as obras de Wallace, com ela somente podendo negociar os direitos com outra produtora daqueles que eles especificamente dissessem que não tinham interesse - e eles, obviamente, apesar de não adaptar todos, jamais disseram expressamente que não tinham interesse em algum. Assim, a saída para as demais produtoras era fazer "filmes ao estilo de Wallace", que lembrassem as histórias do escritor, mas fossem roteiros originais, escritos por roteiristas alemães - curiosamente, ainda assim, ambientados na Inglaterra e com o nome dos personagens em inglês, para manter o estilo.
As mais bem sucedidas dessas "imitações" seriam as da CCC Film, do polonês Artur Brauner, que, em meados da década de 1960, chegariam a rivalizar em público com as da Rialto. Além da Kurt Ulrich, a CCC seria a única produtora a conseguir adaptar oficialmente duas obras de Wallace, graças a um acordo com a Constantin Film, que as distribuiria e ganharia uma gorda fatia da bilheteria: Der Fluch der gelben Schlange (adaptação de The Yellow Snake), de 1963, e Der Teufel kam aus Akasava (adaptação de Keeper of the Stone), de 1971, dirigida pelo espanhol Jesús Franco.
A Rialto venderia seus filmes para dublagem e exibição em outros países europeus, e, embora não tenham conseguido repetir o sucesso da Alemanha Ocidental, no Reino Unido eles também teriam bom público. Isso levaria o produtor Harry Alan Towers, dono da Hallam Productions, a procurar a Constatin Film, inicialmente para descobrir se o contrato de exclusividade deles só valeria para a Alemanha Ocidental ou cobriria toda a Europa. A conversa acabaria evoluindo para um acordo segundo o qual a Hallam faria co-produções anglo-germânicas, com elenco predominantemente britânico, de algumas obras de Wallace, que então estreariam tanto no Reino Unido quanto na Alemanha Ocidental, com a Constantin ficando com a renda alemã. Os dois primeiros desses filmes não seriam Krimi, e sim adaptações de Sanders of the River, mas depois eles fariam outros dois que merecem ser citados: o primeiro, de 1966, uma adaptação de Again the Three Just Men, cujo título no Reino Unido era Circus of Fear, e em alemão era Das Rätsel des silbernen Dreieck, se tornaria o mais famoso filme de Wallace nos Estados Unidos, onde foi lançado com o título Psycho-Circus; e o segundo, Five Golden Dragons, de 1967, usava elementos de vários contos de Wallace e foi filmado em Hong Kong, trazendo um elenco estelar que contava, dentre outros, com Rupert Davies, Margaret Lee, que cantava duas canções no filme, e Bob Cummings, em seu último papel antes de falecer.
A partir de 1966, a Rialto inauguraria a "Era dos Krimi a cores", com Der Bucklige von Soho (adaptação de The Hunchback of Soho), dirigido por Alfred Vohrer. Com cores vibrantes e um tom mais cômico que os em preto e branco, os filmes a cores costumavam, após um pequeno trecho para ambientar a história, começar com uma gravação da voz de Wallace que dizia "hallo, ich bin Edgar Wallace" ("olá, eu sou Edgar Wallace"), seguido do som de tiros de metralhadora que formavam a frase "Edgar Wallace's" na tela, antes do título do filme e dos créditos. Ainda contando em sua maioria com Fuchsberger, Arens e as Karins, os filmes a cores também costumavam ter no elenco o famoso ator Klaus Kinski, normalmente no papel de um vilão, e trazer um personagem recorrente (que não estava nos livros), o atrapalhado Sir John, inspetor da Scotland Yard, interpretado por Siegfried Schürenberg, que costumava estar acompanhado por sua muito mais competente e belíssima secretária Miss Finley, interpretada por Ilse Pagé. Ao todo, a Rialto produziria sozinha dez filmes de Wallace a cores entre 1966 e 1971.
"Sozinha" porque, depois que começasse a produção dos filmes a cores, por pura coincidência, o interesse do público alemão em filmes de crime e mistério voltaria a diminuir, com o próprio tom mais cômico dos filmes a cores sendo uma tentativa de atrair mais público. A Rialto, entretanto, repararia que, na Itália, ao contrário do que vinha acontecendo na Alemanha Ocidental, o público dos filmes de Krimi vinha aumentando cada vez mais, e, assim, propôs uma parceria à italiana Colt Produzioni Cinematografiche: os custos da produção seriam divididos entre as duas empresas, mas o rendimento da bilheteria também, e os filmes poderiam ter elenco e profissionais alemães e italianos.
A primeira produção dessa parceria seria A Doppia Faccia, adaptação de Puzzle of Horrors, lançado na Alemanha como Das Gesicht im Dunkeln, em 1969. Dirigido pelo famoso Riccardo Fredda, já em final de carreira, e com roteiro inicialmente desenvolvido por uma lenda do cinema italiano, Lucio Fulci - que, em entrevistas, diria na verdade ter escrito o roteiro, creditado a Fredda e Paul Hengge - o filme era protagonizado pelo alemão Kinski e pela italiana Annabella Incontrera, e seria um grande sucesso, enchendo os caixas da Colt e da Rialto. Infelizmente, durante as filmagens, Horst Wendlandt, produtor da Rialto, se desentenderia com Oreste Coltellacci, produtor da Colt, e o primeiro acabaria sendo também o último filme da parceria. Sua renda permitiria que a Rialto produzisse mais um filme, Die Tote aus der Themse, adaptação de The Body in the Thames, lançado em 1971, mas que, novamente com pouco público, acabaria sendo a última adaptação de Wallace feita na Alemanha Ocidental.
Curiosamente, em 1972 a Rialto seria procurada por duas produtoras italianas, a Italian International Films S.r.l. e a Clodio Cinematografica, que se diriam interessadas em uma parceria para a produção de um filme de Giallo, estilo de suspense muito popular na Itália na época. A Rialto aprovaria o projeto, firmaria a parceria, e até conseguiria um contrato para que o filme fosse distribuído na Alemanha Ocidental pela Constantin. Com o título de O Que Vocês Fizeram com Solange?, Fuchsberger e Baal no elenco, o filme de fato seria lançado na Itália como um Giallo, obtendo grande sucesso - mas na Alemanha seria não somente lançado como um Krimi, mas, por ideia de Constatin, promovido como "um filme de Edgar Wallace". Solange seria um sucesso inesperado, e levaria a Rialto a procurar outra produtora italiana, a Flora Film S.r.l., para fazer outro filme no mesmo estilo, com elenco italiano e alemão, filmado na Alemanha e na Itália, lançado na Itália como um Giallo e na Alemanha como um Krimi.
Penny Wallace, entretanto, não ficaria nada satisfeita com o uso do nome de seu pai para promover um filme de Giallo - estilo no qual uma das características era a sensualidade, com Solange sendo cheio de cenas com mulheres nuas, algo que jamais estava presente nas histórias de Wallace - e romperia o contrato com a Constantin, que decidiria não se envolver no projeto. Assim, Sete Orquídeas Manchadas de Sangue, também de 1972, seria distribuído em toda a Europa pela Variety Distribution - que, mais uma vez, o promoveria como "um filme de Edgar Wallace". Dessa vez, porém, a bilheteria ficaria muito abaixo do esperado, e, talvez não querendo mais confusão com Penny Wallace, a Rialto desistiria dessas parcerias, passando a investir em outros estilos de filme.










