Post da Semana

Star Wars - a trilogia nova!

De volta ao passado

A trilogia original!

Você se lembra?

A trilogia de "prequências"!

domingo, 24 de maio de 2020

Star Wars (III)

Há muito, muito tempo, mais precisamente em 2007, eu escrevi aqui dois posts sobre Star Wars, um sobre a trilogia "original", outro sobre a trilogia "nova". Que, agora, já não é tão nova assim, pois já temos mais uma. Que eu gostei muito, podem reclamar à vontade. Somando esses três fatores, o resultado é que hoje é, mais uma vez, dia de Star Wars no átomo, para eu poder falar dos três filmes mais recentes.

Mas, antes de começar, um aviso: eu tentei, mas não consegui falar sem dar alguns spoilers, então, se você ainda não viu os filmes, mas pretende, talvez seja melhor deixar para ler esse post depois.

Diz a lenda que, quando criou a história original de Star Wars, George Lucas decidiu fazer três trilogias. Ao apresentar seu projeto para os estúdios, o único que aceitou filmá-lo, a Fox, decidiu que filmaria apenas o Episódio IV, que, para seus executivos, tinha a melhor história e poderia ser visto como um filme fechado, com começo, meio e fim, caso não fizesse sucesso e as outras partes não fossem filmadas. O Episódio IV faria um grande sucesso, os Episódios V e VI seriam lançados, Star Wars se tornaria um dos maiores fenômenos da cultura pop mundial, mas Lucas levaria algum tempo para decidir seguir seu planejamento, lançando os Episódios I, II e III quase vinte anos depois do VI. E aí ele desistiria de fazer os três últimos, considerando sua história como encerrada.

Acontece que, em 2012, Lucas, já desejando se aposentar, decidiu vender sua produtora de filmes, a Lucasfilm, e todos os direitos sobre Star Wars, para a Disney, com a condição de que somente a Lucasfilm pudesse produzir novos filmes de Star Wars. Kathleen Kennedy assumiria a presidência da Lucasfilm, e imediatamente começaria a conversar com a Disney sobre a produção da "trilogia final", que seria composta pelos Episódios VII, VIII e IX. Lucas seria mantido como "consultor especial", apenas para tirar dúvidas sobre o Universo Star Wars; após ele entregar suas ideias originais para os Episódios VII, VIII e IX para Bob Iger, presidente da Disney, e ver que o estúdio havia decidido não usar nenhuma delas, começando do zero, ele decidiria se desligar totalmente do projeto, o que faria com que o Episódio VII se tornasse o primeiro filme de Star Wars sem nenhum envolvimento de Lucas. Depois do desligamento, o filho de Lucas, Jett, declararia em uma entrevista que seu pai estava arrependido de ter vendido os direitos sobre Star Wars, mas que, depois do acontecido, teria decidido não se envolver em mais nada relativo à franquia, pelo resto de sua vida.

Para a direção, a Disney consideraria David Fincher, Brad Bird, Jon Favreau, Ben Affleck e Guillermo del Toro, mas, por sugestão de Steven Spielberg, acabaria fechando com J.J. Abrams, já responsável pela revitalização de Star Trek, que, por sua vez, traria para o projeto seu amigo de longa data, o produtor Bryan Burk; Spielberg também sugeriria que Abrams trabalhasse em conjunto com Lawrence Kasdan, co-roteirista dos Episódios V e VI, e Simon Kinberg, roteirista dos mais recentes filmes da franquia X-Men. A primeira versão do roteiro ficaria a cargo de Michael Arndt (de Toy Story 3), mas ele não entregava a versão final nunca, e, quando o prazo se estourou pela segunda vez, em 2013, a Disney anunciaria sua demissão, com Abrams e Kasdan assumindo o roteiro; apesar de eles terem mudado quase tudo, Arndt ainda seria creditado como um dos roteiristas.

Abrams e sua equipe diriam que, para poder iniciar uma nova trilogia, teriam que "dar dois passos para trás" e reaproveitar alguns elementos dos filmes anteriores, para que os fãs não estranhassem. Isso a princípio desagradou Lucas (declarando em uma primeira entrevista, antes de ver o filme, que isso ia contra o que ele sempre havia tentado, fazer cada filme seguinte o mais diferente possível do anterior), que depois se rendeu (declarando, após ver o filme, que se tratava de um legítimo Star Wars, e que achava que os fãs iriam gostar), e dividiria público e crítica, com alguns argumentando que o filme era "muito parecido" com a trilogia original, o que, segundo eles, era um defeito.

A maior parte das filmagens ocorreria na Inglaterra e Irlanda, as cenas de Jakku seriam filmadas em Abu Dhabi, e cenas adicionais seriam filmadas na Islândia, com apenas algumas poucas cenas sendo filmadas em estúdio nos Estados Unidos; devido ao grande interesse dos fãs e dos sites de fofocas, as filmagens seriam complicadas, com todos os roteiros sendo trancados em um cofre quando não estavam sendo usados pelos atores e a produção tendo de tomar medidas extras quanto ao grande número de drones que tentava filmar ou fotografar alguma coisa durante a preparação dos sets e as filmagens. Durante a gravação de uma cena na Millenium Falcon, uma porta cairia e quebraria o tornozelo de Harrison Ford, o que faria com que Han Solo só pudesse ser mostrado da cintura para cima nas cenas que ele gravaria com o gesso; Abrams fraturaria uma vértebra ao tentar levantar a porta para ajudar o ator, mas manteria isso em segredo até a dor se tornar insuportável. A Disney acabaria multada pelo governo do Reino Unido em 1,95 milhão de dólares por não ter tomado as medidas necessárias para evitar o acidente e por Abrams ter escondido sua condição.

A pedido de Abrams, a maior parte dos efeitos especiais do filme usariam maquetes, modelos e truques de câmera, com os efeitos de computação gráfica somente sendo usados quando absolutamente necessários, para que o filme ficasse o mais parecido possível com a trilogia original; até mesmo o robô BB-8, que muitos acharam ser um efeito de computação gráfica, era um modelo real, operado por uma equipe de técnicos supervisionada por Neal Scanlan, que também foi seu criador. A trilha sonora, mais uma vez, ficaria a cargo de John Williams, que se inspiraria nos temas que criou para os demais filmes da série para criar os novos, mantendo uma identidade ao longo de todos eles.

Com o título de Star Wars: O Despertar da Força (Star Wars: The Force Awakens), o Episódio VII se passa trinta anos após O Retorno de Jedi (que é o Episódio VI); nesse meio tempo, surgiu uma nova organização maligna que faz as vezes de Império Galáctico, chamada Primeira Ordem. Comandada pelo Líder Supremo Snoke (Andy Serkis), a Primeira Ordem faz uso de stormtroopers, destróieres e até uniformes parecidos com os do Império para tentar unificar a galáxia sob seu comando. Para se opor a ela, é criada a Resistência, movimento que corresponde aos Rebeldes da trilogia original, da qual um dos comandantes é a General Leia Organa (Carrie Fisher).

O filme é centrado em quatro personagens: Rey (Daisy Ridley) é uma catadora de sucata que vive no planeta deserto Jakku, e busca descobrir mais sobre seus pais, que a abandonaram ali quando ela ainda era uma criança; Finn (John Boyega) é um stormtrooper que se rebela contra a Primeira Ordem e decide se unir à Resistência; Poe Dameron (Oscar Isaac) é um piloto da Resistência que descobre importantes informações, as confia a seu dróide BB-8, mas acaba separado dele durante um combate; e Kylo Ren (Adam Driver) é um dos principais comandantes da Primeira Ordem, tem treinamento Jedi, e responde diretamente a Snoke - e, na verdade, é Ben Solo, filho de Leia e Han, que se voltou para o lado negro após acreditar que Luke, que o estava treinando, o traiu, e planeja seguir os passos de seu avô, Darth Vader, até superá-lo e se tornar o comandante supremo de toda a galáxia.

A história se põe em movimento quando BB-8 vai parar junto de Rey, que decide levá-lo até a Resistência, e, para isso, rouba uma nave, que é nada menos que a Millenium Falcon. No caminho, ela acaba encontrando Han Solo (Harrison Ford) e Chewbacca (Peter Mayhew), que voltaram a trabalhar como contrabandistas e reconhecem sua antiga nave. Han concorda em levar Rey até Maz Kanata (Lupita Nyong'o), uma aparentemente inocente dona de bar que tem contatos na Resistência, e acaba entregando à moça o sabre de luz de Luke Skywalker (Mark Hamill), que ela decide encontrar a qualquer custo. Ao chegar à resistência, Rey, Han e Chewie acabam se envolvendo em uma missão para deter a nova arma da Primeira Ordem, a Base Starkiller, um canhão gigantesco que drena um sol inteiro para se recarregar (o tipo de coisa que só poderia ter saído da mente de Abrams), e que, evidentemente, eles planejam usar para erradicar a Resistência de uma vez por todas.

Outros personagens do filme são a Capitã Phasma (Gwendolyne Christie), comandante do batalhão de Finn quando ele era um stormtrooper; o General Hux (Domhnall Gleeson), comandante da Base Starkiller, que não confia em Kylo Ren; o piloto da Resistência Snap Wexley (Greg Grunberg); Lor San Tekka (Max von Sydow), um ex-aventureiro aposentado que pode ajudar a Resistência a encontrar Luke; Unkar Plutt (Simon Pegg), comerciante de sucata de Jakku; o Almirante Statura (Ken Leung), da Resistência; e C3-PO (Anthony Daniels), que agora é o assistente pessoal da General Leia. Thomas Brodie-Sangster, Kate Fleetwood e Hannah John-Kamen fazem participações especiais como membros da Primeira Ordem; Billie Lourd (filha de Carrie Fisher) como a Tenente Connix, da Resistência; e Warwick Davis participa como um cliente do bar de Maz Kanata. Daniel Craig (o 007), o compositor Michael Giacchino e o produtor Nigel Goodrich fazem pequenas pontas, sem créditos, como stormtroopers, e Kevin Smith faz uma ponta como figurante - algo que repetiria nos dois filmes seguintes.

É interessante dizer que O Despertar da Força seria o último filme no qual Mayhew, com 71 anos e problemas nos joelhos, interpretaria Chewbacca, passando o papel, a partir do Episódio VIII, para Joonas Suotamo, que seria seu dublê no Episódio VII; por outro lado, Daniels, com 69 anos, faria questão de interpretar C3-PO nos três filmes (se tornando o único ator a participar de todos os nove filmes), mesmo com Abrams sugerindo que ele apenas o dublasse e um dublê vestisse a roupa de robô; para melhor acomodar o ator, e facilitar seus movimentos, seria criada uma nova roupa, bem mais leve e flexível que as usadas nas outras duas trilogias. O parceiro inseparável de C3-PO, R2-D2, também faz uma breve participação no filme, mas como um modelo controlado por técnicos, sem intérprete, com Kenny Baker, que o interpretou nos demais filmes, sendo creditado como "consultor especial". Outros dois personagens da trilogia original são interpretados e dublados pelos mesmos atores de então, Nien Nunb (interpretado por Mike Quiin, com voz de Kipsang Rotich) e o Almirante Ackbar (interpretado por Tim Rose, com voz de Erik Bauersfeld); esse seria o último papel no cinema de Bauersfeld, que faleceria em 2016.

O Despertar da Força estrearia em 14 de dezembro de 2015, batendo um recorde nos Estados Unidos ao estrear em 4134 salas de cinema simultaneamente. A procura por ingressos na pré-venda foi tão grande que muitos dos sites de venda saíram do ar; o filme bateria o recorde de pré-venda nos Estados Unidos, passando um pouco dos 50 milhões de dólares em ingressos antecipados. Com orçamento de 306 milhões de dólares, renderia 936,7 milhões apenas nos Estados Unidos e 2,068 bilhão no mundo inteiro, se tornando o filme que chegou mais rápido à marca de 1 bilhão (12 dias, superado por Vingadores: Ultimato, que, em 2019, levou 11 dias) e o terceiro filme a passar da casa dos dois bilhões (depois de Titanic e Avatar), além de ser até hoje o filme de maior bilheteria da história se forem considerados apenas os Estados Unidos. A crítica, em sua maioria, o receberia extremamente bem, elogiando principalmente o roteiro, as sequências de ação, a direção e as atuações de Ford, Driver, Ridley e Boyega. O filme seria indicado a cinco Oscars (Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som e Melhores Efeitos Especiais), mas não ganharia nenhum; Williams ganharia um Grammy de Melhor Trilha Sonora para Mídia Visual.

Praticamente logo após a estreia do Episódio VII, começaria a produção do Episódio VIII, que ganharia o nome de Star Wars: Os Últimos Jedi (Star Wars: The Last Jedi). Começando quase que imediatamente de onde o filme anterior parou, o novo mostra Rey treinando para se tornar uma Jedi junto a Luke Skywalker, acompanhada por Chewbacca e R2-D2; Poe acompanhando a General Leia, C3-PO e a Almirante Hondo (Laura Dern), que guiam as naves da resistência em uma fuga pela galáxia; Finn partindo com BB-8 e a mecânica Rose Tico (Rose Marie Tran) para um planeta-cassino indicado por Maz Kanata, para desativar um equipamento da Primeira Ordem que permite que eles rastreiem as naves da Resistência; e Kylo Ren disposto a trazer Rey para o lado negro, contrariando ordens de Snoke, que quer vê-la morta, e trazendo a desconfiança de Hux, que acha que Kylo está apaixonado por Rey. O elenco principal conta ainda com Phasma; DJ (Benicio del Toro), um especialista em invadir sistemas de computação; e Yoda (dublado por Frank Oz, mesmo ator que o dublou nos filmes anteriores). Outros personagens antigos que aparecem no filme são Snap Wexley, a Tenente Connix, Nien Nunb e o Almirante Ackbar (com voz de Tom Kane). Justin Theroux faria uma participação especial como o especialista em invadir sistemas que Finn e Rose deveriam encontrar, e Lily Cole faz uma como sua acompanhante. Joseph Gordon-Lewitt e Warwick Davis participam como frequentadores do planeta-cassino. Os Príncipes William e Harry também fazem uma participação, sem créditos, como stormtroopers.

Em 2014, antes mesmo da estreia de O Despertar da Força, Rian Johnson seria confirmado como diretor e roteirista de Os Últimos Jedi, e começaria a conversar com Abrams e com Colin Trevorrow, que então havia sido anunciado como o diretor do Episódio IX, para que a história dos três filmes fosse o mais coesa possível. Seria de Johnson a decisão de separar os três personagens principais e dar a cada um deles um objetivo, ao invés de mostrá-los agindo como um grupo. Ele também teria de fazer uma alteração séria na história quando Carrie Fisher falecesse, em dezembro de 2016, para que o filme pudesse ser finalizado usando apenas as cenas que ela havia deixado gravadas.

Assim como no filme anterior, a maior parte das gravações ocorreria na Inglaterra e Irlanda, o que fez com que a produção atrasasse quase um mês por causa de greves de dois sindicatos do Reino Unido que abrangiam algumas das profissões ligadas à produção de filmes. Cenas adicionais seriam filmadas no México, na Croácia e na Bolívia, com, mais uma vez, apenas algumas poucas cenas de estúdio sendo filmadas nos Estados Unidos. Também como no filme anterior, foi dada preferência a efeitos especiais à moda antiga; todas as raças alienígenas do filme, por exemplo, seriam criadas ou com maquiagem, ou com bonecos ao estilo muppets, com apenas alguns toques sendo dados pela computação gráfica - como, por exemplo, no caso de Yoda, que era um boneco, mas recebeu retoques de computação gráfica porque aparecia no filme como uma projeção da Força. A aparência das raças alienígenas ficaria a cargo de Neal Scanlan, e a trilha sonora, mais uma vez, sob responsabilidade de John Williams.

Os Últimos Jedi estrearia em 15 de dezembro de 2017, com uma grande polêmica: no contrato de distribuição feito para os Estados Unidos, a Disney exigiria que os cinemas que quisessem exibir o filme o mantivessem em exibição, em sua maior sala, por no mínimo quatro semanas (sendo que o normal quando há esse tipo de exigência são duas semanas), e que repassassem à Disney 65% da bilheteria (quando o normal para um blockbuster é entre 55 e 60%), além de conter cláusulas confidenciais que regiam trocas de sala e promoções. Isso fez com que muitos cinemas pequenos desistissem de exibir o filme, principalmente os que tinham uma única sala, que ficariam presos a Star Wars durante quatro semanas, e a esperança da Disney de que o recorde de número de salas fosse batido acabou não se concretizando.

O orçamento do filme não foi oficialmente revelado, mas especialistas calcularam que ficou entre 200 e 317 milhões de dólares; só nos Estados Unidos, ele renderia 620,2 milhões, chegando a 1,333 bilhão no mundo inteiro. Inesperadamente, o filme seria severamente criticado por uma boa parcela do público, que o acusaria de "promover ideais de esquerda", "idolatrar o socialismo" e até mesmo "ódio aos homens"; a personagem Rose Tico seria um alvo direto do ódio desses "fãs", e Tran chegaria a receber ameaças de morte online. Um grupo de fãs mais raivosos chegaria a criar um abaixo-assinado para que o filme fosse refilmado, e muitos acusariam Johnson de ter prejudicado ou atrapalhado uma suposta história da trilogia que Abrams já teria criado.

A crítica, entretanto, receberia o filme extremamente bem, elogiando principalmente o fato de que ele não tentava copiar os filmes anteriores, tendo uma identidade própria. O consenso geral da crítica seria o de que Os Últimos Jedi honrava o legado da saga, trazia boas surpresas e se tornaria uma grande adição ao cânone de Star Wars. Os Últimos Jedi seria indicado a quatro Oscars (Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som e Melhores Efeitos Especiais), mas não ganharia nenhum.

O Episódio IX, Star Wars: A Ascensão Skywalker (Star Wars: The Rise of Skywalker), entraria em produção logo após a estreia do Episódio VIII, já com duas baixas: em setembro de 2017, Trevorrow desistiria de dirigi-lo, alegando diferenças criativas com Kennedy, criadas principalmente porque ela não aprovou a primeira versão do roteiro, escrita por Trevorrow e Derek Connolly, pedindo para que ele fosse reescrito por Jack Thorne. Abrams seria chamado de volta, não somente para dirigir, mas também para escrever o filme, o que fez em parceria com Chris Terrio; Trevorrow, Connolly, Abrams e Terrio acabariam creditados como responsáveis pela história, mas apenas Abrams e Terrio seriam creditados como roteiristas.

Outro problema com o qual a equipe teria de lidar foi o falecimento de Fisher; ela seria um personagem-chave no final de Os Últimos Jedi, que teve de ser alterado após sua morte - segundo Johnson, inclusive, ela seria a tal The Last Jedi (que, em inglês, também serve para o feminino singular, "a última jedi") do título - e ninguém queria que a General Leia morresse fora da tela, entre um filme e outro. A Disney chegou a pedir permissão à família para criar um modelo em computação gráfica de Fisher, o que foi negado; a solução foi usar cenas que a atriz gravou para O Despertar da Força mas não foram ao ar, e uma dublê cujo rosto não ficava aparente nas cenas novas absolutamente necessárias para a história. O rosto de Fisher só seria aplicado ao corpo de uma dublê em uma cena de flashback, na qual seriam usadas como referência cenas de Fisher e Hamill respectivamente em O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi, para mostrá-los ainda jovens durante um treinamento.

Na última parte do que ficaria conhecida como a "Saga Skywalker", é descoberto que o Imperador Palpatine (Ian McDiarmid) ainda está vivo, e é ele quem vem secretamente comandando a Primeira Ordem. McDiarmid é o mesmo ator que interpretou o Imperador nos filmes anteriores, e sua presença no set de filmagens foi mantida em absoluto segredo; sua presença no filme, porém, seria revelada durante o evento Star Wars Celebration, em abril de 2019 - Kennedy alegaria que a equipe de produção decidiria revelar que o personagem estava no filme porque não faria diferença se fosse uma surpresa, e que o importante era que eles descobrissem o papel do Imperador no filme, não sua presença.

Pois bem, o Imperador está vivo, é ele quem manda na Primeira Ordem, e equipa cada destróier da organização com um mini canhão da Estrela da Morte, capaz de destruir um planeta inteiro; ele está muito fraco, porém, e, como não pode deixar o planeta Exegol, onde está se recuperando, ordena que Kylo Ren se torne seu agente, estabelecendo, como sua primeira missão, matar Rey. Enquanto isso, numa base da Resistência, Rey, Poe, Finn, Chewbacca, BB-8 e C3-PO recebem de Leia a incumbência de encontrar uma forma de chegar até Exegol, cuja localização não aparece em nenhum mapa, para deter a Primeira Ordem de uma vez por todas. Outros personagens antigos que aparecem no filme são Luke, Maz Kanata, Hux, Rose, Connix, Wexley, Nunb, R2-D2 e Han Solo, além de Lando Calrissian (Billy Dee Williams), que volta a um filme de Star Wars após ter aparecido pela última vez em O Retorno de Jedi. Os novos personagens são o General Pryde (Richard E. Grant), comandante da frota de destróieres da Primeira Ordem; Zorii Bliss (Kerri Russell), um antigo interesse amoroso de Poe, que pode ajudá-los a encontrar informações valiosas sobre Exegol; Jannah (Naomi Ackie), que, assim como Finn, é uma stromtrooper desertora; Beaumont Kin (Dominic Monaghan), agente da Resistência; e Babu Frik (Shirley Henderson), uma especialista em tecnologia a quem o grupo de heróis recorre para tentar recuperar informações sobre Exegol. Denis Lawson faz uma participação como Wedge Antilles, e Warwick Davis faz uma como Wicket, papéis que haviam interpretado na trilogia original. Terrio faz uma participação como a voz de Aftab Ackbar, filho do Almirante (interpretado por Tom Wilton), e John Williams participa como um barman; as vozes de Andy Serkis (como Snoke) e James Earl Jones (como Darth Vader) também aparecem em flashbacks.

Uma das cenas mais comentadas do filme, aliás, foi a na qual Rey entra em comunhão com a Força e ouve a voz de vários Jedi do passado, para a qual foram gravadas falas por Ewan McGregor (Obi-Wan Kenobi), Hayden Christensen (Anakin Skywalker), Liam Neeson (Qui-Gon Jinn), Frank Oz (Yoda), Samuel L. Jackson (Mace Windu), Ashley Eckstein (Ahsoka Tano), Freddie Prinze Jr. (Kanan Jarrus), Olivia d'Abo (Luminara Unduli) e Jennifer Hale (Aayla Secura), além de ter sido usado um arquivo de uma fala de Alec Guiness (o Obi-Wan Kenobi da trilogia original).

A Ascensão Skywalker estrearia em 16 de dezembro de 2019. Com orçamento de 275 milhões de dólares, renderia 515,2 milhões nos Estados Unidos e 1,024 bilhão no mundo inteiro, o que faria com que ele fosse o filme de menor rendimento da nova trilogia; apesar disso, ele quebraria o recorde de maior número de ingressos vendidos na primeira hora, com quase o dobro de Vingadores: Ultimato. A crítica ficaria dividida, com a maioria elogiando as sequências de ação e considerando que foi um final digno para a saga, mas muitos criticando a falta de imaginação e de ousadia do roteiro. O filme seria indicado a três Oscars (Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Edição de Som e Melhores Efeitos Especiais), mas, mais uma vez, não ganharia nenhum.

Embora não possamos descartar que a Disney pretenda criar uma nova trilogia (Episódios X, XI e XII?) para aproveitar os novos personagens, aparentemente a "Saga Skywalker" está encerrada, e o foco do estúdio passará para filmes fechados ambientados no Universo Star Wars, que mostram eventos de importância para os nove filmes principais - como os já lançados Rogue One, que conta a história da equipe que roubou os planos da Estrela da Morte, que põem em movimento os eventos do Episódio IV, e Han Solo, que mostra a juventude do personagem. Muitos fãs pedem por um filme parecido estrelado por Obi-Wan, mas, com o anúncio de uma série centrada no personagem, em produção para o canal de streaming Disney+, isso agora parece pouco provável.

domingo, 17 de maio de 2020

Renascer

Já falei aqui duas vezes que, até uns dez anos atrás, eu era noveleiro. Nunca tinha tido vontade, porém, de escrever sobre novelas aqui no átomo. Uma vez que a porteira se abriu com Que Rei Sou Eu?, entretanto, logo me vi pensando em quais teriam sido minhas novelas preferidas, com o propósito de avaliar quais eu gostaria de escrever posts sobre. Já pensei em algumas, e, no momento, a que eu estou com mais vontade de abordar é Renascer.

Renascer foi uma novela das oito, exibida quando eu tinha 15 anos - estreou uma semana antes do meu aniversário de 15 anos, pra falar a verdade. Eu poderia dizer "não perdi um capítulo", mas a verdade é que a gente sempre perde alguns, principalmente os de sábado, principalmente quando a gente tem 15 anos. De qualquer forma, foi uma novela que eu gostei tanto, e acompanhei com tanto interesse, que até hoje me lembro de quase tudo - de fato, ao comentar com a minha esposa que iria escrever esse post, enquanto eu dizia pra ela algumas das coisas da trama das quais eu me lembro, ela me interrompeu e perguntou "você se lembra mesmo de tudo isso ou leu agora pra escrever o post?".

Como eu não me lembro de absolutamente tudo, tive de fazer uma certa pesquisa para completar o post - e também para encontrar algumas curiosidades. Como sempre, isso foi bom porque me fez relembrar tantas histórias maravilhosas que essa novela me proporcionou, algumas das quais eu compartilharei agora com vocês. Hoje é dia de Renascer no átomo!

Renascer teve uma primeira fase, de apenas quatro capítulos, que acabaria extremamente comentada, pois o diretor da novela, Luiz Fernando Carvalho, decidiria fazê-la em estilo cinematográfico, com fotografia de Walter Carvalho (que não é seu parente, é apenas coincidência) e efeitos especiais de Bob Clark, contando com cenas grandiosas, grandes planos abertos, muita fantasia e teatralidade, contrastando com a segunda fase, que, mesmo podendo ser considerada uma superprodução para os padrões da época, era mais semelhante às novelas que a Globo costumava exibir no horário. A química entre os protagonistas da primeira fase, Leonardo Vieira e Patrícia França, também surpreenderia e se tornaria uma das maiores marcas da novela, ao ponto de a emissora apostar em ambos como par romântico na novela Sonho Meu, exibida na faixa das seis naquele mesmo ano. Outro ponto marcante da primeira fase foi a atuação de Fernanda Montenegro como Jacutinga, cafetina de um bordel onde os protagonistas se conhecem. De fato, a primeira fase faria um sucesso tão grande que daria origem a um boato, de que ela teria sido encurtada para apenas quatro capítulos pois a Globo temia que tivesse de prolongá-la indefinidamente a pedido do público caso ela durasse mais; na verdade, os quatro capítulos já estavam previstos na sinopse original, e todo o elenco da primeira fase encerrou suas participações bem antes de a novela ir ao ar.

Na primeira fase, José Inocêncio (Leonardo Vieira), rapaz pobre de origem humilde, chega às roças de cacau da cidade de Ilhéus, na Bahia, e crava seu facão ao pé de um jequitibá, que passa a ser a árvore mística que regerá sua vida, prometendo que se esforçará até conseguir realizar todos os seus sonhos, e que não morrerá até que todos os seus objetivos estejam cumpridos. Ele passa a trabalhar em uma fazenda de cacau, onde conhece seus dois melhores amigos, Deocleciano (Leonardo Brício) e Jupará (Gésio Amadeu), cujo apelido é o nome de bichinhos silvestres que saem à noite para comer as amêndoas de cacau. Ao conseguir comprar suas primeiras terras, ele faz também um inimigo, o Coronel Belarmino (José Wilker), que não se conforma por um recém-chegado estar subindo na vida desse jeito, e tem o desejo de ser o dono de todas as terras da região.

Enquanto trabalha arduamente para cumprir sua promessa, José Inocêncio conhece e se apaixona por Maria Santa (Patrícia França), filha de Venâncio (Cacá Carvalho), homem rígido e rústico que se veste de boi na festa do Boi Bumbá (sendo, portanto, chamado por José Inocêncio e seus amigos de Pai Boi), e Quitéria (Ana Lúcia Torre), mulher totalmente submissa ao marido, que vive um casamento infeliz. A irmã mais velha de Maria Santa engravidou do namorado e foi expulsa de casa, então ela seria criada praticamente enclausurada, sem saber nada das coisas da vida; ao ser beijada por José Inocêncio, passa a acreditar que também está grávida, o que leva seu pai ao desgosto e à decisão de mudar de cidade, abandonando-a no bordel de Jacutinga (Fernanda Montenegro). Após a partida dos pais de Maria Santa, José Inocêncio a descobre no bordel e decide se casar com ela - ali mesmo, precisando convencer o Padre Santo (Jofre Soares), que acabaria vindo a se tornar um grande amigo seu, a realizar a cerimônia. Logo depois, Deocleciano e Jupará também se casam com duas moças do bordel, Morena (Cyria Coentro) e Flor (Rita Santana).

José Inocêncio e Maria Santa vivem uma vida apaixonada e de felicidade plena, até que ela engravida de seu quarto filho. Com uma gravidez complicada, Maria Santa acaba morrendo no parto, e José Inocêncio decide rejeitar a criança, a quem considera culpada, entregando-a para Deocleciano criar, já que Morena, que sempre sonhou ser mãe, não pode ter filhos. José Inocêncio, então, se torna uma pessoa amargurada, que só pensa no trabalho, em aumentar suas terras e começar sua própria produção de cacau. A primeira fase termina quando o Coronel Belarmino é morto em uma misteriosa emboscada; obviamente, todos suspeitam, mas ninguém consegue provar, de José Inocêncio, que compra as terras de seu rival e começa a construir seu império.

Na segunda fase, José Inocêncio (Antônio Fagundes) é o homem mais rico da região, um dos maiores produtores de cacau do Brasil, adorado por seus empregados, considerado extremamente justo, e famoso por suas histórias - sendo a mais popular a do dia em que ele foi atacado por jagunços que arrancaram toda a sua pele, que teve se ser costurada com agulha e linha pelo Turco Rachid (Luiz Carlos Arutin), caixeiro viajante que vive na região. Apesar de todo o seu sucesso, José Inocêncio tem duas grandes infelicidades na vida: o fato de jamais ter conseguido viver um novo amor após a morte de Maria Santa, e o de que não consegue se relacionar direito com nenhum de seus quatro filhos - os três mais velhos, todos com formação universitária e morando na cidade grande, são extremamente mimados e acostumados a receber tudo de bandeja devido ao dinheiro do pai, enquanto o caçula continua sendo rejeitado, pois José Inocêncio não consegue evitar se lembrar de Maria Santa quando o vê.

Esse pobre filho mais novo se chama João Pedro (Marcos Palmeira). Criado por Deocleciano (Roberto Bonfim) e Morena (Regina Dourado), foi o único que ficou na fazenda e trabalha na produção de cacau, sendo também o mais parecido com o pai, se não fisicamente, em termos de temperamento e personalidade. Apesar da rejeição, não é um homem amargurado, idolatra o pai, e vive tentando fazê-lo se reconciliar com seu passado. Seu melhor amigo é Zinho Jupará (Cosme dos Santos), filho mais novo de Jupará e único que ficou na fazenda depois da morte do pai, quando Flor decidiu pegar todos os demais e mudar de cidade.

Dos outros três filhos de José Inocêncio, o mais velho se chama José Augusto (Marco Ricca) e é médico, mas fez a faculdade apenas para agradar ao pai, não levando jeito nenhum para a coisa e sendo sustentado pelo dinheiro do cacau. É muito simpático e querido por todos, mas também muito mentiroso, e tem o sonho de morar fora do Brasil, mas não consegue se decidir entre Miami e Lisboa. O segundo se chama José Bento (Tarcísio Filho) e é advogado, mora no Rio de Janeiro, vive com uma colega de faculdade, Valquíria (Cláudia Lira), mas sem ser casado e sem amor, e é ambicioso e apegado aos bens materiais. O menos problemático dos três é José Venâncio (Taumaturgo Ferreira), engenheiro que mora em São Paulo e é o único que consegue se sustentar com o próprio salário, sem depender do dinheiro do pai, mas que vive um casamento infeliz com Eliana (Patrícia Pillar), mulher oportunista e extremamente ambiciosa, que quer sempre mais do que o marido pode lhe dar, e não entende por que ele não se aproveita do dinheiro do cacau como os irmãos.

O sonho de José Venâncio é ser pai, mas Eliana não aceita porque tem medo de estragar o próprio corpo. Ele acaba, então, se apaixonando pela belíssima Buba (Maria Luísa Mendonça), que se tornaria um dos personagens mais famosos da novela. Buba nasceu hermafrodita, sendo registrada com o nome de Alcides (deveria ser Alcebíades, o que justificaria o apelido Buba, mas um erro no texto do roteiro acabou trocando o nome; apesar de ela falar claramente Alcides em todas as cenas - fato do qual eu me lembro claramente porque eu tenho um tio chamado Alcides - muitas fontes hoje creditam o personagem como Alcebíades) e criada como um menino (porque tinha órgãos sexuais masculinos aparentes) até chegar na adolescência, quando desenvolveu corpo feminino. A princípio, José Venâncio ficou chocado com a revelação, mas depois decidiu que a amava e isso não importava; Buba não podia engravidar, mas, sabendo do sonho de seu amado, decidiu adotar uma criança, levando para casa a menina de rua adolescente Teca (Paloma Duarte), que estava grávida de um namorado que morreu, planejando criar o filho como se fosse seu depois que ele nascesse. No meio da novela, Taumaturgo Ferreira brigou com a Globo e quis sair, e José Venâncio acabou morto em uma tocaia planejada para matar José Inocêncio; para que Buba não ficasse sem par romântico (e a história da gravidez de Teca pudesse continuar), ela começaria um relacionamento (que muitos consideraram forçado) com José Augusto.

Pois bem, a história começa quando João Pedro conhece Mariana (Adriana Esteves), e a leva para trabalhar na fazenda do pai. Mariana atenta José Inocêncio até ele se apaixonar por ela e decidir se casar, pois sente por ela o que nunca havia sentido por ninguém desde a morte de Maria Santa - o que aumenta ainda mais o abismo entre pai e filho, já que João Pedro também é apaixonado por ela. Como Mariana é tipo uns trinta anos mais nova que José Inocêncio, os três filhos mais velhos são terminantemente contra o casamento, acreditando se tratar de uma aproveitadora, e viajam todos os três, mais Valquíria, Eliana, e, posteriormente, Buba e Teca, para a fazenda, onde, liderados por José Bento (que teve a ideia), exigem que as terras do pai sejam divididas e entregues a eles antes do casamento, para que a moça não tenha direito a nada. Na verdade, Mariana não é uma aproveitadora, e sim neta do Coronel Belarmino, e se aproxima de José Inocêncio (a quem chama de Painho) por vingança, considerando-o culpado pela morte de seu avô e planejando fazer com que ele perca tudo o que conquistou; após o casamento, porém, ela se apaixona verdadeiramente, e acaba desistindo de seus planos.

Na segunda fase, o principal inimigo de José Inocêncio é outro vizinho, o Coronel Teodoro (Herson Capri), que tem inveja de seu sucesso e vive conspirando para prejudicar sua produção e roubar parte de sua colheita. Teodoro é casado com Yolanda, a quem chama de Dona Patroa (Eliane Giardini), mas a trai sempre que tem oportunidade, com muitas das mulheres da fazenda e da cidade; depois que José Venâncio larga Eliana para se casar com Buba, Teodoro larga Yolanda para se casar com Eliana, que vira sua aliada nas maquinações contra José Inocêncio. Teodoro e Eliana têm uma filha, Sandra (Luciana Braga), que se apaixona por João Pedro - aumentando, mais ainda, o abismo entre pai e filho quando consegue conquistá-lo e os dois decidem se casar.

Outro personagem de extremo sucesso da novela foi Sebastião (Osmar Prado), que, no início da trama, vivia com sua esposa, Joaninha (Teresa Seiblitz), no manguezal, onde catavam caranguejos para sobreviver. Ao saber da trajetória de José Inocêncio, Sebastião decide que será como ele, mas, ingênuo, acredita que o sucesso do fazendeiro advém do fato de que ele tem um caramunhão (espécie de gênio ou demônio) preso dentro de uma garrafa, seguindo um ritual que faz com que a criatura realize todos os seus desejos. De acordo com a lenda, o caramunhão nasceria de um ovo de uma galinha especialmente preparada; para fazer o preparo, Sebastião passa a andar com a galinha pra cima e pra baixo noite e dia, passando a ser conhecido como Tião Galinha, e sua devoção ao ritual acaba destruindo sua vida, sua sanidade e seu relacionamento com sua esposa.

Para piorar a situação, Padre Santo, que peregrina pelas fazendas da região para levar a palavra de Deus, mas já está idoso, recebe um ajudante, o Padre Lívio (Jackson Antunes), que, além de cuidar da paróquia, tenta esclarecer o povo, falando sobre temas como corrupção e reforma agrária, que desagradam os coronéis locais. Padre Lívio consegue um emprego para Tião Galinha na fazenda de Teodoro, mas acaba se apaixonando por Joaninha, o que faz com que ele passe a contestar sua fé e seu merecimento.

Outros personagens que merecem ser citados são Inácia (Solange Couto na primeira fase, Chica Xavier na segunda), empregada que cuida de José Inocêncio e de sua casa desde que ele começou a subir na vida, trata o patrão como se fosse seu próprio filho, ajudou a criar as quatro crianças, é extremamente supersticiosa e costuma ter visões do que vai acontecer com eles; Damião (Jackson Antunes), jagunço contratado para matar José Inocêncio, que se infiltra em seu pessoal, mas depois de conhecê-lo melhor, passa a respeitá-lo e decide trabalhar para ele; Norberto (Nelson Xavier), dono da vendinha local, onde os personagens se encontram para fazer compras, tomar uns gorós e fofocar sobre a vida alheia; Ritinha (Isabel Fillardis), moça que trabalha na casa de José Inocêncio, que tem um caso com José Bento, mas acaba se apaixonando e se casando com Damião; Egberto (José de Abreu), detetive particular contratado por Eliana para descobrir o caso de José Venâncio com Buba; os meninos de rua Neno (Cassiano Carneiro) e Pitoco (Oberdan Junior), amigos de Teca; e a Professorinha Lu (Leila Lopes), responsável pela escola onde estudam os filhos dos empregados das fazendas. Grande Otelo faz uma participação como o Seu Francisco, e Cecil Thiré como o Delegado Olavo, que investiga a morte de José Venâncio. Kadu Moliterno faz uma participação na primeira fase como Rafael.

De autoria de Benedito Ruy Barbosa, com colaboração de Edmara Barbosa e Edilene Barbosa (suas filhas), e direção de Luiz Fernando Carvalho, Emílio di Biasi e Mauro Mendonça Filho, Renascer teve 213 capítulos, exibidos entre 8 de março e 14 de novembro de 1993. O último capítulo teve uma diferença importante em relação ao que era feito com outras novelas da emissora: com 80 minutos de duração (o que, por si só, já era diferente do usual), ele teve de ser dividido em dois, com metade sendo exibida na sexta-feira e metade no sábado, ao invés do que ocorria tradicionalmente, ou seja, o último capítulo sendo exibido na sexta-feira e reprisado no sábado. O motivo da divisão não foi o tamanho do capítulo, porém, e sim o fato de que, na sexta-feira, ocorreria uma rodada decisiva do Campeonato Brasileiro, na qual times como Flamengo e São Paulo disputariam a classificação à próxima fase; como a Globo tinha os direitos de transmissão, imaginava que conseguiria boa audiência devido à importância dos jogos, e estes começariam às 21h30min, acabaria sendo tomada a decisão de dividir o capítulo em dois. Muita gente acha que, por causa disso, não houve a tradicional reprise, mas, na verdade, o último capítulo de Renascer seria reprisado, na íntegra (ou seja, as duas partes seguidas), no domingo, logo após o Fantástico.

Renascer seria reprisada no Vale a Pena Ver de Novo, em versão condensada, com 145 capítulos, entre 14 de agosto de 1995 e 1 de março de 1996; a estreia da reprise menos de dois anos após o término da novela seria um sinal de seu enorme sucesso, e atenderia a vários pedidos que a Globo receberia praticamente desde que o último capítulo foi exibido. A novela também seria reprisada, dessa vez na íntegra, no Canal Viva, entre 7 de novembro de 2012 e 5 de setembro de 2013.

A abertura, criada mais uma vez por Hans Donner, com colaboração do arquiteto Flávio Papi, mostrava um imenso jequitibá que se transformava em um moderno edifício e uma fazenda de cacau cujo chão se abria para revelar uma cidade, fazendo uso de maquetes, computação gráfica e filmagens em chroma key. A música da abertura, Confins, composta por Aldir Blanc, Vítor Martins e Ivan Lins, seria gravada pela banda de percussão Batacotô, com Ivan Lins nos vocais. Falando em músicas, como costumava ocorrer com novelas de temática rural, Renascer não teve trilha sonora internacional, e sim duas trilhas sonoras nacionais, com a segunda sendo utilizada do meio da novela em diante. As trilhas contavam com nomes gigantes da música brasileira, como Roberto Carlos, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Agnaldo Rayol, Guilherme Arantes, Fagner, Ney Matogrosso, Elba Ramalho, Moraes Moreira, Alceu Valença, Nana Caymmi, Tim Maia, e as bandas Roupa Nova e 14 Bis. Duas das músicas de maior sucesso foram Ai Que Saudade de Ocê, de Fábio Jr., e Mentiras, de Adriana Calcanhoto.

Renascer seria a primeira novela de Benedito Ruy Barbosa na faixa das oito na Globo. Ele começaria a trabalhar na história no início dos anos 1970, logo após escrever a novela das seis Meu Pedacinho de Chão, que foi ao ar em 1971. Na época, Barbosa chegou a viajar pelo sertão da Bahia para recolher histórias - dentre elas, a lenda do caramunhão trancado na garrafa, que ele usaria em outra de suas novelas, Paraíso, de 1982 - e fazer anotações sobre a trama, mas que acabariam engavetadas por vinte anos, pois ele não se sentia pronto para escrever a história completa. No final dos anos 1980, Barbosa seria contratado pela Rede Manchete, que planejava criar também uma faixa de novelas das oito, e escreveria Pantanal, exibida em 1990, que se tornaria um dos maiores sucessos da televisão brasileira; seria justamente o sucesso de Pantanal que levaria a Globo a convidar o autor a retornar e lhe oferecer a faixa das oito.

O personagem Damião, um matador de aluguel, seria inspirado em uma pessoa real que Barbosa conheceria durante sua jornada pela Bahia, um ex-matador conhecido apenas como Seu Visita. Já Tião Galinha seria usado como um retrato do povo brasileiro subjugado pelo poder econômico - na época, a economia do país ainda era uma bagunça, e a maior parte dos trabalhadores mais simples sofria com intermináveis planos econômicos e mudanças de moeda, parecendo que a única forma de se livrar da pobreza e ascender na vida seria mesmo através de mágica. Tião se tornaria um dos personagens mais queridos da novela, mas teria um final trágico, deixando uma mensagem a favor da melhor distribuição de renda em suas últimas palavras: "quem trabalha e mata a fome não come o pão de ninguém, quem ganha mais do que come sempre toma o pão de alguém".

Na primeira fase, um dos personagens mais populares seria o Coronel Belarmino, graças a seu bordão "é justo, é muito justo, é justíssimo". Esse bordão, curiosamente, seria criado pelo seu intérprete, o ator José Wilker, em um improviso: durante a gravação de uma cena longa e bastante trabalhosa, Wilker se esqueceria de uma de suas falas, e, para não ficar calado e arriscar ter de repetir a cena, falou essas palavras enquanto tentava se lembrar. Ele acabou se lembrando e a cena continuou, e o diretor de fotografia Walter Carvalho gostou tanto do bordão que convenceu Barbosa a transformá-lo em uma das marcas do personagem.

Renascer seria a estreia de vários atores que depois entrariam para o primeiro time da Globo, como Jackson Antunes, Maria Luisa Mendonça, Marco Ricca, Paloma Duarte e Isabel Fillardis. Seria eleita a melhor novela do ano de 1993 pela Associação Paulista de Críticos de Arte, que ainda premiaria Antônio Fagundes como melhor ator, Osmar Prado como melhor ator coadjuvante, Regina Dourado como melhor atriz e Jackson Antunes como revelação do ano.

domingo, 10 de maio de 2020

Game of Thrones

Game of Thrones é uma das minhas séries preferidas. Eu não sei se vocês já repararam, mas eu não gosto de falar de séries enquanto elas estão no ar, então eu estava só esperando ela acabar para escrever esse post. O motivo pelo qual ele demorou um ano pra sair foi que, assim como muita gente, eu me decepcionei com a última temporada - talvez não pelos mesmos motivos, mas me decepcionei - então decidi deixar a poeira baixar e o distanciamento trazer claridade antes de escrever. De qualquer forma, hoje é dia de Game of Thrones no átomo.

Se é que alguém ainda não sabe, Game of Thrones é a adaptação para a TV de uma série de livros escritos pelo norte-americano George R.R. Martin, coletivamente conhecidos como As Crônicas de Gelo e Fogo (A Song of Ice and Fire no original). Até hoje, Martin já escreveu cinco livros: A Guerra dos Tronos (A Game of Thrones, de onde a série tira seu nome, lançado em 1996), A Fúria dos Reis (A Clash of Kings, lançado em 1998), A Tormenta de Espadas (A Storm of Swords, lançado em 2000), O Festim dos Corvos (A Feast for Crows, lançado em 2005) e A Dança dos Dragões (A Dance with Dragons, lançado em 2011). O sexto livro, The Winds of Winter, está sendo escrito desde então, e há uma grande expectativa quanto ao seu lançamento, ainda sem data definida. O sétimo, A Dream of Spring, segundo Martin, será o último.

A ideia de adaptar os livros para uma série partiria do roteirista e produtor David Benioff. Em 2006, Benioff entrou em contato com o agente de Martin, pesquisando obras que pudesse adaptar, e o agente lhe recomendou As Crônicas de Gelo e Fogo, lhe enviando os quatro primeiros livros, que eram os que haviam sido lançados na época. Benioff leu mais ou menos a metade de A Guerra dos Tronos e ligou para o diretor, produtor e roteirista D.B. Weiss para dividir seu entusiasmo e conversar sobre uma parceria na possível adaptação. Weiss leria o primeiro livro em um dia e meio, e convidaria Martin, que também era roteirista (tendo escrito, por exemplo, para a série da década de 1980 de Além da Imaginação), para uma reunião com eles e com executivos do canal a cabo HBO, que duraria cinco horas, ao fim das quais tudo estaria acertado para que a série entrasse em produção em 2007.

Antes de conversar com Benioff e Weiss, Martin já havia conversado com produtores de vários estúdios, interessados em transformar As Crônicas de Gelo e Fogo em uma série de filmes; o autor jamais ficava satisfeito com as conversas por dois motivos: primeiro, ele considerava impossível cada livro ser adaptado para um único filme, o que faria com que a série provavelmente tivesse uns dez filmes, mais do que qualquer estúdio gostaria de se comprometer com antecedência; segundo, os livros continham muitas cenas de sexo e violência, e nenhum estúdio aceitaria adaptá-las da forma original, tendo que adequar os filmes a todas as idades caso quisessem fazer deles blockbusters, algo com o qual Martin não concordava. Ao ver que a HBO, que já havia produzido séries como Roma e Os Sopranos estava interessada, Martin se animou com o projeto, inclusive se oferecendo para escrever alguns dos roteiros.

De início, ficaria acertado que cada temporada adaptaria um livro inteiro, com Martin escrevendo um episódio por temporada, e os outros ficando a cargo de Benioff e Weiss; durante a produção, Jane Espenson e Bryan Cogman também seriam contratados como roteiristas. Benioff e Weiss também atuariam como produtores executivos, com Martin como co-produtor executivo. Benioff e Weiss entregariam o roteiro do piloto ainda em 2007, mas a HBO não ficaria satisfeita e pediria mudanças; devido a uma greve dos roteiristas, o novo roteiro só poderia ser entregue em 2008, com o piloto só sendo aprovado em novembro, e as filmagens começando em janeiro de 2009. Após exibir o piloto para uma plateia de teste, a HBO ficaria extremamente insatisfeita com o resultado, e exigiria que aproximadamente 90% do episódio fosse refilmado, contando, inclusive, com mudanças de elenco e de diretor. Isso faria com que o piloto de Game of Thrones fosse o mais caro da história da TV, custando cerca de 10 milhões de dólares para ser produzido, e com que a primeira temporada custasse entre 50 e 60 milhões, soma absurda para a época.

Mesmo após a aprovação do piloto, a luz verde para a primeira temporada só seria dada em maio de 2010, com as filmagens começando apenas no segundo semestre daquele ano. Com dez episódios, a primeira temporada estrearia apenas em 17 de abril de 2011, e logo se tornaria um enorme sucesso de crítica e público, batendo recordes de audiência, fazendo a HBO, que é um canal por assinatura, bater recordes de novas assinaturas nos Estados Unidos, e sendo indicada a nada menos que 13 Emmys, dos quais ganharia dois: Melhor Ator Coadjuvante em uma Série de Drama (Peter Dinklage) e Melhor Design de Sequência de Abertura. Dinklage também ganharia um Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante em Série, Minissérie ou Filme para a TV; e, também no Globo de Ouro, Game of Thrones seria indicado a Melhor Série de Drama, mas perderia para Homeland. As filmagens da primeira temporada ocorreriam principalmente na Irlanda do Norte, com algumas cenas adicionais sendo gravadas em Malta.

Uma curiosidade da primeira temporada foi que Benioff e Weiss estavam acostumados com roteiros de cinema, então muitos de seus roteiros resultariam em episódios cerca de 10 minutos mais curtos que o necessário; para completar esse tempo, eles teriam que escrever novas cenas às pressas, que envolviam apenas dois personagens conversando em cada uma delas, pois teriam de ser filmadas com baixo custo após a edição dos episódios. Benioff e Weiss declarariam que muitas de suas cenas preferidas estão dentre essas escritas de última hora, como uma na qual o Rei Robert discute seu casamento com sua esposa, Cersei. Outra curiosidade foi que os dothraki, povo nômade que vive no deserto, falam seu próprio idioma, e a equipe de produção optou por fazer com que apenas os personagens que falassem no "idioma comum" falassem inglês; com isso, o linguista David J. Peterson seria contratado para criar todo um idioma dothraki, baseado apenas em algumas poucas expressões que Martin criou para os livros.

Game of Thrones é ambientado em um mundo medieval fantástico sem nome, no qual está localizado o continente de Westeros, dentro do qual ficam Os Sete Reinos (embora essa nomenclatura seja antiga, e, na época da série, já não seja mais possível identificar quais seriam esses sete reinos com precisão). Durante muito tempo, os Sete Reinos foram governados pela Casa Targaryen, cujos membros vieram de outro continente, Essos (mais precisamente da cidade de Valíria, que foi destruída em um cataclisma jamais explicado), montados em dragões, dominando e subjugando as Casas que governavam os Sete Reinos. Os dragões dos Targaryen eram os únicos conhecidos no mundo, e, após seus mestres se acomodarem como governantes, foram definhando, com cada geração nascendo menor, até que desapareceram por completo. Quinze anos antes da série, houve uma rebelião, durante a qual o Rei Aerys II foi deposto, e o jovem Robert Baratheon tomou o trono, se tornando o primeiro governante não-Targaryen em 300 anos.

A série começa quando o Rei Robert (Mark Addy) vai até a cidade de Winterfell, no Norte, para pedir a seu melhor amigo, Ned Stark (Sean Bean), que lutou a seu lado na conquista do trono, que retorne com ele para a capital, Porto Real, para ser seu principal conselheiro, que, nos Sete Reinos, recebe o título de Mão do Rei. O Mão anterior, Jon Arryn, morreu em circunstâncias misteriosas, e Robert considera Ned como o único capaz de ocupar o cargo e descobrir a verdade sobre o acontecido. Ned é casado com Catelyn, da Casa Tully (Michelle Fairley), e tem cinco filhos: Robb (Richard Madden), que tem um forte senso de justiça e sonha se tornar um Guardião do Norte tão bom como o pai; Sansa (Sophie Turner), que só pensa em roupas, bailes e cerimônias, e está prometida ao Príncipe, sendo seu maior sonho se tornar rainha; Arya (Maisie Williams), que gosta mesmo é de atirar flechas, montar a cavalo, lutar com espada e não se interessa por coisas de menina; Bran (Isaac Hempstead Wright), que é um tanto desobediente e adora viver aventuras; e Rickon (Art Parkinson), que ainda é praticamente um bebê. Além dos cinco, Ned cria dois rapazes, Jon Snow (Kit Harington), seu filho bastardo (todos os bastardos do Norte recebem o sobrenome Snow, "neve" em inglês) com uma mulher desconhecida com quem ele dormiu durante a guerra pela conquista do trono, e Theon Greyjoy (Alfie Allen), filho do governante das Ilhas de Ferro, Balon Greyjoy (Patrick Malahide), que ficou ao lado de Aerys II na guerra pelo trono, sendo derrotado por Ned e Robert, com Theon sendo levado de sua casa como castigo.

Já Robert é casado com a cruel e ambiciosa Cersei, da Casa Lannister (Lena Headey), a casa mais rica de Westeros, com quem tem três filhos: o insuportável, mimado e maldoso Joffrey (Jack Gleeson), prometido de Sansa; a doce Myrcella (Aimee Richardson); e o ingênuo Tommen (Callum Wharry). Cersei tem dois irmãos, o belo Jaime (Nikolaj Coster-Waldau), seu irmão gêmeo, com quem ela tem um caso de amor secreto, que fazia parte da Guarda de Honra do Rei Aerys II e o matou pelas costas, recebendo o apelido de Regicida (kingslayer, o "matador de reis", no original); e Tyrion (Peter Dinklage), que é um anão depravado, mal-educado, beberrão e mulherengo, mas extremamente inteligente, a quem Cersei odeia por considerar que ele matou sua mãe - que morreu no parto. O pai dos três, Tywin Lannister (Charles Dance), por sua riqueza e por ser um grande estrategista militar, é considerado o homem mais poderoso dos Sete Reinos, mais até do que o Rei.

Durante a guerra pelo trono, todos os Targaryen foram mortos, menos dois dos filhos de Aerys II: Viserys (Harry Lloyd) e Daenerys (Emilia Clarke), que fugiram para Essos, para a cidade de Pentos, para morar com um amigo de Viserys, o comerciante Illyrio (Roger Allam). Viserys está disposto a tudo para retornar a Westeros e retomar seu trono, inclusive a vender Daenerys para ser a esposa de Khal Drogo (Jason Momoa), bárbaro rústico que comanda uma horda de dothraki. A promessa de Illyrio é que, em retribuição pelo casamento, Drogo concordará em fazer com seus dothraki lutem por Viserys na reconquista do trono - algo que jamais se concretiza porque ele se apaixona por Daenerys, que descobre que, apesar das aparências, ele é um homem doce, e decide aceitar seu lugar a seu lado como Khaleesi. Também está com os dothraki o cavaleiro Jorah Mormont (Iain Glein), expulso dos Sete Reinos por conduta desonrosa, que passa a atuar como mercenário, mas decide se dedicar a proteger Daenerys após se apaixonar por ela.

Enquanto Ned Stark vai para a capital, Jon Snow ruma para a Muralha, uma construção que delimita a fronteira norte dos Sete Reinos. Construída em tempos imemoriais, a Muralha é guarnecida pela Patrulha da Noite, composta por criminosos, bastardos e outros párias, que nunca podem herdar nem ter filhos, e se comprometem a defender os Sete Reinos de todos os perigos que existem além da Muralha. Durante anos, o maior perigo tem sido os Selvagens, tribos bárbaras que não reconhecem a autoridade do Rei, mas, quando a Muralha foi construída, seu intuito era proteger o restante de Westeros dos Vagantes Brancos, seres mortos-vivos que parecem querer destruir tudo em seu caminho, mas que na época em que a série começa são considerados apenas uma lenda. Outros personagens relativos à Muralha são Jeor Mormont (James Cosmo), comandante da Patrulha da Noite e pai de Jorah; Meistre Aemon (Peter Vaughn - os meistres, nos Sete Reinos, fazem o papel de médico, farmacêutico e historiador); Alliser Thorne (Owen Teale), responsável pelo treinamento dos recrutas, que não vai com a cara de Jon Snow; Sam Tarly (John Bradley), rapaz gordinho e atrapalhado enviado para a Muralha porque seu pai não o considera digno de herdar o comando de sua Casa, e acaba se tornando o melhor amigo de Jon Snow; Benjen Stark (Joseph Mawle), irmão de Ned, que decidiu entrar para a Patrulha da Noite voluntariamente; e os recrutas Ed (Ben Crompton), Pyp (Josef Altyn) e Grenn (Mark Stanley).

Na capital, Ned Stark terá de lidar com o Conselho do Rei, que inclui o eunuco Varys (Conleth Hill), que possui uma rede de informantes e sabe tudo o que se passa nos Sete Reinos e além; Renly Baratheon (Gethin Anthony), o irmão de Robert; o Grande Meistre Pycelle (Julian Glover); e Petyr Baelish (Aidan Gillen), apelido Mindinho, que, na juventude, foi apaixonado por Catelyn, mas hoje é um homem riquíssimo, dono de uma rede de bordéis. Outros personagens da capital são os membros da Guarda Real Barristan Selmy (Ian McElhinney), Janos Slynt (Dominic Carter) e Meryn Trant (Ian Beattie); Ilyn Payne (Wilko Johnson), o carrasco; Beric Dondarrion (David Michael Scott), que já morreu e foi ressuscitado inúmeras vezes por um deus conhecido como Senhor da Luz; Kevan Lannister (Ian Gelder), irmão de Tywin, e seu filho, Lancel (Eugene Simon), que atua como escudeiro de Robert; Loras Tyrell (Finn Jones), membro da influente Casa Tyrell e conhecido como o Cavaleiro das Flores; Gregor Clegane (Conan Stevens), conhecido como "A Montanha que Monta", cavaleiro enorme e extremamente forte, considerado um dos homens mais violentos e cruéis dos Sete Reinos; seu irmão, Sandor Clegane (Rory McCann), conhecido como "O Cão de Caça", que o odeia desde criança, dentre outros motivos por Gregor tê-lo desfigurado, e que atua como guarda-costas de Joffrey; Syrio Forel (Miltos Yerolemou), espadachim contratado por Ned para ensinar sua arte a Arya; Gendry Waters (John Dempsie), filho bastardo de Robert, que trabalha como ferreiro sem que ninguém conheça sua linhagem; e Torta Quente (Ben Hawkey), aprendiz de padeiro que faz amizade com Arya.

Outros personagens de destaque na primeira temporada são Meistre Luwin (Donald Sumpter), meistre de Winterfell; Rodrik Cassel (Ron Donachie), comandante das tropas de Winterfell; Hodor (Kristian Nairn), homem enorme de pouca inteligência (cuja única palavra que consegue falar é o próprio nome), que serve como criado dos Stark; Osha (Natalia Tena), selvagem capturada que se torna criada dos Stark; Ros (Esmé Bianco), prostituta do Norte que decide tentar a sorte na capital; Walder Frey (David Bradley), idoso com dezenas de filhos governante da cidade conhecida como As Gêmeas, passagem mais segura entre o Norte e a capital; Bronn (Jerome Flynn), mercenário que faz amizade com Tyrion; Shae (Sibel Kekilli), prostituta que se torna amante de Tyrion; Lysa Arryn (Katie Dickie), irmã de Catelyn e viúva de Jon Arryn, que desconfia que houve uma conspiração para matar seu marido; seu filho, Robin Arryn (Lino Facioli); os dothraki Qotho (Dar Salim) e Rakharo (Elyes Gabel); as damas de companhia de Daenerys, Irri (Amrita Acharia) e Doreah (Roxanne McKee); e a bruxa Mirri Maz Duur (Mila Soteriou).

Aqui eu vou precisar soltar alguns spoilers, porque é impossível falar sobre o restante da série sem revelar que o Rei Robert morre, em um acidente de caça, e é graças a isso que começa a tal Guerra dos Tronos: por lei, seu herdeiro e sucessor é Joffrey, mas Ned desconfia que o Príncipe, na verdade, seja filho de Cersei e Jaime, e expõe esse fato aos irmãos de Robert, Renly e Stannis (Stephen Dillane), que também se declaram como legítimos sucessores ao trono. Enquanto isso, Robb Stark declara a independência do Norte, sendo proclamado Rei do Norte, e Balon Greyjoy se autodeclara Rei das Ilhas de Ferro. O confronto entre todos esses Reis seria a linha central da segunda temporada, que também acompanharia Daenerys, que planeja usar sua influência como Khaleesi para reunir um exército em Essos e cruzar o Mar Estreito, retomando o trono para os Targaryen - com a ajuda de três dragões recém-nascidos que conseguiu no último episódio da primeira temporada.

A primeira temporada corresponderia exatamente ao primeiro livro, mudando ou omitindo muito pouca coisa; como o segundo livro é bem maior, a partir da segunda temporada muito mais coisas passariam a ser alteradas, com inclusive personagens sendo omitidos, e o plano de fazer cada temporada correspondente a um dos livros acabaria indo por água abaixo - ainda assim, a segunda temporada adaptaria apenas material do segundo livro. A segunda temporada mais uma vez teria dez episódios, estreando em 1 de abril de 2012; ela seria encomendada pela HBO dois dias após a estreia da primeira, de tão animados que os executivos do canal ficariam com a audiência - não somente isso, eles também garantiriam um orçamento 15% maior, para que um dos principais eventos do segundo livro, a Batalha da Água Negra, pudesse ser retratada de forma fiel. A segunda temporada seria indicada a 11 Emmys, ganhando seis, todos técnicos: Melhor Figurino para uma Série, Melhor Direção de Arte para uma Série de Única Câmera, Melhor Maquiagem Não-Prostética para uma Série de Única Câmera, Melhor Edição de Som para uma Série, Melhor Mixagem de Som para uma Série de Drama ou Comédia de Uma Hora de Duração e Melhores Efeitos Visuais. As filmagens da segunda temporada ocorreriam na Irlanda no Norte, Irlanda, Islândia e Croácia - com a Croácia vivendo um boom turístico graças aos fãs da série que queriam visitar os locais onde suas cenas foram gravadas, especialmente a cidade de Dubrovnik, usada para representar Porto Real.

Além de Stannis, que governa Pedra do Dragão, ilha na qual os Targaryen construíram sua primeira fortaleza quando chegaram a Westeros, e onde Daenerys nasceu, novos personagens de destaque na segunda temporada incluem Davos Seaworth (Liam Cunningham), ex-pirata e contrabandista, comandante das tropas de Stannis; Melisandre (Carice Van Houten), sacerdotisa do Senhor da Luz que acredita que é o destino de Stannis se tornar rei; Margaery Tyrell (Natalie Dormer), irmã de Loras, que pretende se casar com Joffrey e se tornar rainha; Qhorin Meia-Mão (Simon Armstrong), membro da Patrulha da Noite que vive dentre os Selvagens; Craster (Robert Pugh), homem que tem filhos com suas próprias filhas, e controla o único local que pode ser usado como posto avançado pela Patrulha da Noite além da Muralha; Gilly (Hannah Murray), filha de Craster que não quer mais essa vida e decide fugir com Sam; Ygritte (Rose Leslie), selvagem por quem Jon Snow se apaixona; Podrick Payne (Daniel Portman), jovem que se torna escudeiro de Tyrion; Brienne de Tarth (Gwendoline Christie), mulher hábil na espada e na luta corporal, apaixonada por Renly, que decide servir como seu guarda-costas; Salladhor Saan (Lucian Msamati), pirata amigo de Davos; Olyvar (Will Tudor), que trabalha em um bordel de Porto Real; Yara Greyjoy (Gemma Whelan), irmã de Theon e sucessora de Balon no trono das Ilhas de Ferro; Talisa Maegyr (Oona Chaplin), moça que luta ao lado dos Stark e por quem Robb se apaixona; Roose Bolton (Michael McElhaton), líder da Casa Bolton, governante de Forte do Pavor, que luta ao lado dos Stark; Jaqen H'Ghar (Tom Wlaschiha), mercenário capaz de mudar de rosto, a quem Arya ajuda a escapar da Partulha da Noite; e Xaro Xhoan Daxos (Nonso Anozie), milionário que quer que Daenerys se case com ele ao invés de tentar retornar a Westeros. Na segunda temporada, Gregor Clegane seria interpretado por Ian Whyte.

A segunda temporada fez um sucesso ainda maior que a primeira, e, cinco dias após a exibição de seu primeiro episódio, que estabeleceu um recorde de audiência para a HBO, o canal renovou a série para uma terceira. Benioff e Weiss decidiriam que a terceira temporada iria adaptar apenas a primeira parte do terceiro livro, que, por ser muito grande, não poderia ter todo seu conteúdo adaptado para uma única temporada, mesmo com as alterações e omissões. A terceira temporada teria mais dez episódios, maiores que os das duas anteriores - até então, a média de duração dos episódios era de 52 minutos, passando para 57 - e estrearia dia 31 de março de 2013, sendo gravada na Irlanda do Norte, Irlanda, Islândia, Croácia e Marrocos. David J. Peterson retornaria para criar mais um novo idioma para a série, o valiriano, idioma original da Valíria natal dos Targaryen, ainda falado por vários povos encontrados por Daenerys em Essos. A terceira temporada seria indicada a mais 16 Emmys, mas ganharia apenas dois: Melhor Maquiagem Não-Prostética para uma Série de Única Câmera e Melhores Efeitos Visuais. Em termos de enredo, a terceira temporada é uma continuação da segunda, com importantes desdobramentos na Guerra dos Reis, e Daenerys aumentando cada vez mais seu exército - e seus dragões ficando cada vez maiores. Outro ponto focal da terceira temporada é que Sansa, Arya e Bran agora estão separados, cada um em uma parte de Westeros, tendo de lidar com diferentes desafios.

Novos personagens da terceira temporada incluem Mance Ryder (Ciarán Hinds), antigo membro da Patrulha da Noite que preferiu se unir aos Selvagens; Tormund, o Terror dos Gigantes (Kristofer Hivju), guerreiro dos Selvagens que se torna amigo de Jon Snow; Orell Skinchanger (Mackenzie Crook), xamã dos Selvagens que tem o poder de transferir sua consciência para animais; Olenna Tyrell (Diana Rigg), avó de Margaery e Loras, e quem realmente manda na família Tyrell; Jojen (Thomas Brodie-Sangster) e Meera Reed (Ellie Kendrick), irmãos que ajudam Bran a fugir para o norte; Ramsay Snow (Iwan Rheon), filho bastardo de Roose Bolton; Myranda (Charlotte Hope), amante de Ramsay; Edmure Tully (Tobias Menzies), irmão de Catelyn; Brynden Tully (Clive Russell), tio de Catelyn, conhecido como O Peixe Negro; Thoros de Myr (Paul Kaye), sacerdote do Senhor da Luz que acompanha Beric Dondarrion (que, a partir da terceira temporada, passa a ser interpretado por Richard Dormer); Meistre Qyburn (Anton Lesser), expulso da ordem por práticas proibidas, mas que acaba sendo readmitido por Cersei; Selyse (Tara Fitzgerald), esposa se Stanis, e sua filha, Shireen (Kerry Ingram); Daario Naharis (Ed Skrein), mercenário que se apaixona por Daenerys e decide se unir a seu exército; Missandei de Naath (Nathalie Emmanuel), intérprete que se une ao exército de Daenerys; Verme Cinzento (Jacob Anderson), líder dos Imaculados, guerreiros escravos libertados por Daenerys que decidem se unir a ela; e o comerciante de escravos Kraznyz mo Nakloz (Dan Hildebrand).

A terceira temporada prepararia o terreno para grandes acontecimentos na quarta, que, com mais dez episódios, estrearia em 6 de abril de 2014. A quarta temporada adaptaria principalmente a segunda metade do terceiro livro, mas Benioff e Weiss decidiriam adiantar e incluir também alguns elementos do quarto e do quinto. As gravações ocorreriam na Irlanda do Norte, Irlanda e Croácia. A quarta temporada seria indicada para nada menos que 19 Emmys, ganhando quatro: Melhor Direção de Arte para uma Série de Fantasia de Única Câmera, Melhor Figurino para uma Série, Melhor Maquiagem Prostética para uma Série e Melhores Efeitos Visuais. Com a quarta temporada, Game of Thrones receberia sua segunda indicação ao Globo de Ouro de Melhor Série de Drama, dessa vez perdendo para The Affair. A quarta temporada introduziria um dos personagens mais populares da série, o Príncipe Oberyn Martell (Pedro Pascal), de Dorne, que quer vingança contra os Lannister, e chega a Porto Real acompanhado de sua concubina, Ellaria Sand (Indira Varma). A partir da quarta temporada, o Príncipe Tommen passaria a ser interpretado por Dean-Charles Chapman (que, na terceira temporada, interpretou um primo de Tommen, Martyn Lannister); Daario Naharis passaria a ser interpretado por Michiel Huisman; e Gregor Clegane passaria a ser interpretado pelo atleta islandês Hafþór Júlíus Björnsson. A quarta temporada costuma ser considerada um ponto de virada na história, com o foco saindo da Guerra dos Reis e com o status quo de vários personagens sendo abalado.

Outros novos personagens da quarta temporada incluem Olly (Brenock O'Connor), menino que fica órfão durante um ataque dos Selvagens e é adotado pela Patrulha da Noite; Yohn Royce (Rupert Vansittart), líder dos Cavaleiros do Vale; Mace Tyrell (Roger Ashton-Griffiths), pai de Margaery e Loras; Tycho Nestoris (Mark Gatiss), banqueiro que faz empréstimos à Coroa; e o mercador Hizdahr zo Loraq (Joel Fry), mais um que quer se casar com Daenerys. Também é na quarta temporada que o Rei da Noite (Richard Brake), líder dos Vagantes Brancos, passa a ser um dos principais antagonistas da série (após ter aparecido durante alguns momentos em um episódio da segunda temporada).

A quinta temporada, de mais dez episódios, que estrearia em 12 de abril de 2015, adaptaria alguns elementos restantes do terceiro livro, material do quarto e quinto livros, e ainda contaria com material inédito, supostamente presente no sexto livro, fornecido pelo próprio Martin. A quinta temporada contaria com um novo roteirista, Dave Hill, mas não contaria com um episódio escrito por Martin, que decidiria se dedicar a escrever o sexto livro - segundo foi divulgado na época, para que ele fosse lançado a tempo de ser adaptado para a série, o que não se concretizou. Essa seria a temporada com o maior número de alterações em relação aos livros, com Benioff e Weiss decidindo aumentar ou diminuir o tempo dos personagens na tela de acordo com sua popularidade ou com o desempenho de seus atores, ao invés de seguir o que estava determinado para eles no texto original. Também seria a temporada com o menor número de personagens novos, e o quarto e quinto livros seriam os que teriam mais personagens que ficariam de fora da série. A maior parte dos novos personagens da quinta temporada seria de Dorne: o governante local, Doran Martell (Alexander Siddig); seu guarda-costas, Areo Hotah (DeObia Oparei); o Príncipe Trystane Martell (Toby Sebastian), prometido em casamento a Myrcella (que, a partir da quinta temporada, passaria a ser interpretada por Nell Tiger Free); e as filhas de Oberyn e Ellaria, Obara (Keisha Castle-Hughes), Tyene (Rosabell Laurenti Sellers) e Nymeria (Jessica Henwick). Outros novos personagens de destaque são a Septã Unella (Hannah Waddingham) e o comerciante de escravos Yezzan zo Qaggaz (Enzo Clienti). Faye Marshay faz uma moça sem nome que treina junto com Arya. As filmagens ocorreriam na Irlanda do Norte, Croácia e Espanha.

Na quinta temporada, além de todos os problemas políticos, surge um problema religioso, quando Cersei decide dar poderes a um sacerdote conhecido como Alto Pardal (Jonathan Pryce), que cria um grupo fundamentalista chamado Fé Militante, dedicado a fazer com que Porto Real siga fielmente os preceitos de sua religião. A quinta temporada seria indicada a 24 Emmys, recorde não só para esta série, mas para qualquer série na história da televisão, ganhando 12: Melhor Direção para uma Série de Drama (David Nutter, pelo episódio A Misericórdia da Mãe), Melhor Roteiro para uma Série de Drama (Benioff e Weiss, pelo mesmo episódio), Melhor Ator Coadjuvante em uma Série de Drama (Peter Dinklage), Melhor Elenco de uma Série de Drama, Melhor Maquiagem Não-Prostética para uma Série de Única Câmera, Melhor Design de Produção para um Programa de Fantasia, Melhor Edição para uma Série de Drama de Única Câmera, Melhor Edição de Som para uma Série, Melhor Mixagem de Som para uma Série, Melhor Coordenação de Dublês para uma Série, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Série de Drama. A quinta temporada também renderia uma nova indicação ao Globo de Ouro de Melhor Série de Drama, dessa vez perdido para Mr. Robot.

A sexta temporada, que estraria em 24 de abril de 2016, com mais dez episódios, seria a última a tentar seguir o que ocorria nos livros, adaptando parte do quinto livro, usando material supostamente presente no sexto, e trazendo muito material inédito, criado por Benioff e Weiss. A temporada termina exatamente onde o quinto livro acaba, e, dos personagens cujas histórias ainda estavam seguindo o que era mostrado nos livros, apenas Arya e Sam ficaram com material restando para ser adaptado nas temporadas seguintes. As filmagens ocorreriam na Irlanda do Norte, Espanha, Canadá, Islândia e Croácia, e essa seria a temporada mais cara de todas, custando mais de 100 milhões de dólares. A sexta temporada seria indicada para 23 Emmys, ganhando mais uma vez 12: Melhor Direção para uma Série de Drama (Miguel Sapochnik, pelo episódio A Batalha dos Bastardos), Melhor Roteiro para uma Série de Drama (Benioff e Weiss, pelo mesmo episódio), Melhor Elenco de uma Série de Drama, Melhor Figurino para uma Série de Fantasia ou Ficção Científica, Melhor Maquiagem Não-Prostética para uma Série de Única Câmera, Melhor Maquiagem Prostética para uma Série, Melhor Design de Produção para um Programa de Fantasia, Melhor Edição para uma Série de Drama de Única Câmera, Melhor Mixagem de Som para uma Série, Melhor Coordenação de Dublês para uma Série, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Série de Drama. No Globo de Ouro, a série receberia duas indicações: Melhor Atriz Coadjuvante em Série, Minissérie ou Filme para a TV (Lena Headey) e Melhor Série de Drama (perdido, dessa vez, para The Crown). Novos personagens da sexta temporada incluem Lyanna Mormont (Bella Ramsay), líder da Casa Mormont; Euron Greyjoy (Pilou Asbæk), irmão de Balon que volta após anos no mar para tomar o trono das Ilhas de Ferro; a família de Sam, composta por seu pai, Randyll Tarly (James Faulkner), sua mãe, Melessa (Samantha Spiro), seu irmão, Dickon (Freddie Stroma), e sua irmã, Talla (Rebecca Benson); Leaf (Kae Alexander), membro das Crianças da Floresta, os habitantes originais de Westeros; e o veterano ator Max Von Sydow como um enigmático sábio conhecido como O Corvo de Três Olhos. A partir da sexta temporada, o Rei da Noite passaria a ser interpretado por Vladimir Furdik. A sexta temporada, mais uma vez, não contaria com nenhum roteiro de Martin.

A partir da sétima temporada, o caldo começaria a desandar: com quase nenhum material dos livros para adaptar, Weiss e Benioff tiveram de criar roteiros originais para todos os episódios. Segundo boatos, Martin se mostrou extremamente insatisfeito com suas decisões, e se afastou da produção. Além disso, a dupla decidiria que a oitava temporada, encomendada pela HBO junto com a sétima, seria a última, e que a sétima temporada serviria principalmente para começar a amarrar as pontas soltas do enredo. Até aí tudo bem, se eles não tivessem tomado outra decisão controversa: ao invés dos dez episódios usuais, a sétima temporada, que estrearia em 16 de julho de 2017, teria apenas sete episódios, alguns deles com mais de uma hora de duração, para que suas histórias não tivessem de ser "quebradas" - até então, o único episódio da série com mais de uma hora havia sido o último da sexta, com 69 minutos; a sétima traria um de 63, um de 71, e seu último teria 81 minutos, mais de uma hora e vinte minutos. As filmagens ocorreriam na Irlanda do Norte, Islândia, Espanha e Croácia.

O maior problema da sétima e oitava temporadas era que a qualidade do texto de Benioff e Weiss não era a mesma do de Martin, principalmente nos diálogos. Isso faria com que várias situações que até faziam sentido para a história fossem consideradas por grande parcela do público como "forçadas", "fan service" ou "irreais". Ainda assim, a sétima temporada manteria o mesmo sucesso das anteriores, com audiência mais alta que a sexta e 22 indicações ao Emmy, ganhando nove: Melhor Ator Coadjuvante em uma Série de Drama (Dinklage), Melhor Figurino para uma Série de Fantasia ou Ficção Científica, Melhor Design de Produção para um Programa de Fantasia, Melhor Maquiagem Prostética para uma Série, Melhor Composição Musical para uma Série de Drama, Melhor Mixagem de Som para uma Série, Melhor Coordenação de Dublês para uma Série, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Série de Drama. A sétima temporada também renderia a Game of Thrones sua última indicação ao Globo de Ouro de Melhor Série de Drama, perdido para The Handmaid's Tale.

O único novo personagem de destaque da sétima temporada seria o Arquimeistre Ebrose (Jim Broadbent), responsável pelo treinamento dos meistres na Cidadela. Na sétima temporada, Daenerys finalmente retorna a Westeros, e começa a planejar sua investida contra Porto Real; Jon Snow, porém, planeja convencer a ela e a Cersei de que os Vagantes Brancos são uma ameaça real, e que precisam ser detidos antes de qualquer outra coisa. Com isso, todos os arcos de história começariam a convergir para a grande conclusão na oitava temporada, que, por decisão de Benioff e Weiss, teria apenas seis episódios, exibidos entre 14 de abril e 19 de maio de 2019, quatro deles com por volta de uma hora e vinte minutos de duração - o terceiro episódio, com 82 minutos, é o maior de toda a série. As filmagens ocorreriam na Irlanda do Norte, Islândia, Croácia e Canadá.

Benioff e Weiss optariam por filmar os seis episódios entre outubro de 2017 e julho de 2018, para pegar tanto o inverno quanto o verão do hemisfério norte; isso faria com que fosse impossível levar a temporada ao ar ainda em 2018, e por isso ela seria adiada para 2019, "pulando" um ano. Esse "ano sabático" chegou a ser considerado como um dos motivos pelo pouco sucesso da temporada entre o público - a oitava temporada seria a de menor audiência da série, e receberia as piores notas em sites de avaliação - mas hoje é quase que uma unanimidade que o público não ficou satisfeito com as decisões criativas dos produtores e roteiristas. Apesar do descontentamento do público, a crítica receberia extremamente bem a oitava temporada, elogiando as atuações, a trilha sonora, a direção e os efeitos visuais. A oitava temporada seria indicada para um absurdo de 32 Emmys, estabelecendo um novo recorde, por muitos considerado inalcançável. Desses 32, a série ganharia 12: Melhor Ator Coadjuvante em uma Série de Drama (Dinklage, pela quarta vez), Melhor Elenco de uma Série de Drama, Melhor Figurino para uma Série de Fantasia ou Ficção Científica, Melhor Maquiagem Não-Prostética para uma Série de Única Câmera, Melhor Composição Musical para uma Série de Drama, Melhor Design de Sequência de Abertura, Melhor Edição para uma Série de Drama de Única Câmera, Melhor Edição de Som para uma Série de Drama ou Comédia de Uma Hora de Duração, Melhor Mixagem de Som para uma Série de Drama ou Comédia de Uma Hora de Duração, Melhor Coordenação de Dublês para uma Série, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Série de Drama. Kit Harrington seria indicado ao Globo de Ouro de Melhor Ator em uma Série de Drama, mas não ganharia.

Mesmo com todos os problemas das duas últimas temporadas, não se pode negar todo o sucesso da série como um todo, e nem o que ela representa para a história da televisão - afinal, foi uma produção cinematográfica em termos de filmagens, efeitos visuais e roteiros, algo raramente visto na TV antes de sua estreia. Por causa desse sucesso, logo após seu final já começariam os planos para criar "séries sucessoras", que, segundo os executivos da HBO, não seriam spin offs no sentido tradicional, e sim "outras histórias ambientadas no mesmo universo" (o que, pra mim é a definição de um spin off, mas tudo bem). Duas dessas séries, House of the Dragon, contando a história da Casa Targaryen, e Bloodmoon, ambientada nos primórdios de Westeros, entrariam em pré-produção, mas, até agora, somente House of the Dragon está confirmada, para estreia em 2022. Martin está envolvido com a produção, mas não se sabe em que capacidade.

Antes de terminar, vale citar uma curiosíssima entrevista que Benioff e Weiss deram pouco após o final da oitava temporada, na qual declararam que, desde o início, "mal sabiam o que estavam fazendo", e que "foi um milagre" tudo ter dado certo e a série ter feito sucesso - o que, talvez, só comprove a qualidade do texto de Martin. Martin, aliás, já declarou inúmeras vezes que algumas coisas dos dois últimos livros serão iguais às mostradas na série, outras serão diferentes, até mesmo por causa da presença de personagens que não foram adaptados para a série. No momento, a maior curiosidade dos fãs é em relação ao final, considerado controverso por muitos, e que já foi confirmado e desmentido várias vezes como sendo, no livro, igual ao da série.

domingo, 3 de maio de 2020

Dom Quixote

Muita gente torce o nariz pros clássicos da literatura. Por mais surpreendente que possa parecer o que eu vou falar agora, em alguns casos elas estão certas. Tem muitos clássicos que são um saco mesmo, e só viraram clássicos porque ficaram velhos. Mas, felizmente para todos nós, é uma pequenina minoria, e a enorme maioria dos clássicos o é assim considerada porque eles são bons mesmo. E, dentre esses que são bons, tem aqueles que são muito bons, tem aqueles que são sensacionais, e tem Dom Quixote.

Embora Dom Quixote não seja meu livro preferido, eu não tenho vergonha nenhuma de dizer que talvez seja o melhor livro que eu já li na vida. É extremamente bem escrito, absurdamente divertido, e surpreendentemente filosófico. O único problema é que é enorme, tipo quase mil páginas, então é meio complicado de indicar para alguém. Por outro lado, quem lê sagas de futuros distópicos em sete volumes pode arrumar tempo e disposição para ler um dos maiores clássicos da literatura universal. Não sei se é seu caso, mas, mesmo que não seja, te recomendo. Leia. Se já leu, tenho certeza de que concorda comigo. De qualquer forma, aproveite que hoje é dia de Dom Quixote no átomo.

Dom Quixote, cujo título completo é O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha (El Ingenioso Hidalgo Don Quixote De La Mancha) é considerado a obra máxima do escritor Miguel de Cervantes, a mais influente obra de todo o cânone de língua espanhola, o primeiro romance moderno, e um dos maiores romances de todos os tempos - muitos críticos, inclusive, o consideram como a maior obra de literatura já escrita, a número 1, melhor do que todas as outras. Originalmente, ele seria publicado em 1605, com uma segunda parte, chamada El Ingenioso Caballero Don Quixote De La Mancha, sendo publicada dez anos depois, em 1615. Hoje, ambas as partes são consideradas uma única obra, com a maioria das edições trazendo ambas, e, aquelas que as trazem separadas, as identificando como Dom Quixote Parte 1 e Parte 2 (ou Tomo I e II, ou Volume 1 e 2, ou qualquer nomenclatura equivalente).

Dom Quixote é um homem alto, magro, relativamente rico, tendo por volta de 50 anos. De tanto ler Romances de Cavalaria, ele passa a acreditar que tudo aquilo era verdade, e decide se tornar, também, um Cavaleiro Andante. Infelizmente, ele não regula muito bem da cabeça, e acredita que tudo o que acontece em seu caminho está relacionado a aventuras de cavalaria - a passagem mais famosa é aquela na qual Dom Quixote ataca um moinho de vento acreditando ser um gigante, mas ele também, por exemplo, ataca um barbeiro e rouba sua bacia de estanho acreditando se tratar do lendário Elmo de Mambrino. Um fazendeiro chamado Sancho Pança, baixinho, gordo e extremamente ingênuo, acompanha o "cavaleiro" de olho na promessa de riquezas, em especial na de que Dom Quixote, assim que receber terras de algum monarca satisfeito com seus valorosos atos, lhe doará uma ilha inteira. Dois personagens sem nome, um barbeiro e um padre, percebem a loucura de Dom Quixote, e o acompanham meio que à distância, algumas vezes enganando-o para tentar fazê-lo retornar para sua aldeia e desistir de ser cavaleiro, outras embarcando em suas narrativas quando isso lhes interessa. Dom Quixote dedica todas as suas aventuras a Dulcineia del Toboso, que, segundo ele, é a mulher mais doce, pura, casta e feminina que já existiu, mas que, na vida real, é uma filha de num fazendeiro, rústica e abrutalhada - e que não faz a menor ideia de que alguém decidiu viver aventuras em seu nome.

Nascido Miguel de Cervantes Saavedra, em 29 de setembro de 1547, na cidade de Alcalá de Henares, Espanha, Cervantes é considerado o maior escritor espanhol de todos os tempos, honra que pode ser notada quando se referem ao idioma espanhol como "a língua de Cervantes" (assim como o português é "a língua de Camões"). Quando jovem, Cervantes teve uma ordem de prisão decretada contra si por ferir um nobre em um duelo, e acabou fugindo para a Itália, onde teve contato com as obras da Renascença. Lá, ele atuaria principalmente como soldado, lutando em várias guerras até 1575, quando decidiria retornar à Espanha, mas, no meio do caminho, seu navio seria atacado pelos turcos, que o mantiveram prisioneiro na Argélia durante cinco anos. Quatro anos após ser libertado e retornar a Madri, já com 37 anos, Cervantes se casaria com Catalina de Salazar y Palacios, 18 anos mais jovem que ele, e passaria a viver uma vida nômade, trabalhando principalmente como recrutador da marinha e coletor de impostos. Foi durante essa época que ele decidiu começar a escrever, publicando seu primeiro romance, La Galatea, em 1585.

La Galatea não faria o sucesso esperado, porém, e ele decidiria se dedicar a escrever peças de teatro, que também não atraíam bom público. Quando começou a escrever Dom Quixote, Cervantes já tinha 55 anos, vivia em situação de extrema pobreza, e havia sido preso por sonegação de impostos. Sua situação financeira melhoraria um pouco com o lançamento da primeira parte, e lhe daria oportunidade de escrever um terceiro livro, Novelas Exemplares, publicado em 1613. Cervantes faleceria aos 68 anos, um ano depois da publicação da segunda parte de Dom Quixote; seu quinto e último livro (se considerarmos que Dom Quixote conta como dois), Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda, seria concluído pouco antes de sua morte, e lançado postumamente em 1617.

A importância de Dom Quixote para a literatura espanhola é tamanha, a ponto de o romance ter ajudado a cimentar o espanhol como é falado hoje: na época em que Cervantes o escreveu, o "idioma padrão" da Espanha era conhecido como Espanhol Médio, hoje também chamado Espanhol Áurico ou Espanhol da Era de Ouro; a maior parte dos romances da época, entretanto, ainda era escrito no idioma conhecido como Castelhano Antigo, perfeitamente compreensível para quem só falava o Espanhol Médio, mas considerado muito rebuscado. Cervantes decidiria usar ambos em sua obra, com Dom Quixote, personagem de maneirismos e trejeitos considerados ultrapassados, falando Castelhano Antigo, e os demais personagens falando Espanhol Médio - o próprio nome do protagonista segue essa regra, já que o uso do x era muito mais comum no Castelhano Antigo do que no Espanhol Médio, no qual ele já havia sido substituído pelo j. O enorme sucesso do romance levaria muitos outros escritores a adotar o Espanhol Médio, o que faria com que o Castelhano Antigo praticamente desaparecesse, e com que fossem abertas as portas para o surgimento do Espanhol Moderno, aquele falado hoje, uma evolução do Espanhol Médio.

Na época de sua publicação, Dom Quixote era considerado uma obra cômica, sem maiores pretensões. O estilo cômico, de fato, está presente não só em muitas das situações, mas também em muitos detalhes do livro, como em sua frase de abertura (Em um lugar de La Mancha, de cujo nome não quero me lembrar..., algo que virou uma espécie de meme da época, repetido por vários autores) e no nome de seus personagens: Dom Quixote, na verdade, se chama Alonso Quixano, e tira seu codinome de uma parte da armadura que cobre a coxa do cavaleiro, o tal quixote; o sobrenome de seu escudeiro é Pança, uma clara referência a ele ser gordo; seu cavalo se chama Rocinante, porque originalmente trabalhava na roça; e sua amada, cujo nome verdadeiro é Aldonça, inapropriado para uma donzela cortejada por um cavaleiro andante, é renomeada, sem que ela saiba, para Dulcineia, já que ela, para ele, é um exemplo de doçura. A própria escolha de La Mancha como região de origem do protagonista teve um viés cômico, pois, na época, La Mancha era uma das regiões mais pobres e menos interessantes da Espanha, o local mais improvável para sair de lá um herói.

Com o passar dos anos, o aspecto cômico deixaria de ser considerado o principal. Na época da revolução francesa, por exemplo, Dom Quixote era visto como um exemplo de que, às vezes, um indivíduo poderia estar certo e o restante da sociedade estar errado. No século XIX, todos os estudiosos concordavam que o romance era uma crítica social, mas não havia consenso sobre "de qual lado Cervantes estava", ou seja, se ele estava defendendo deixar os tempos antigos para trás e abraçar a modernidade, ou manter a inocência mesmo diante dos avanços do progresso. Durante muito tempo, o livro também foi visto como uma tragédia, com Dom Quixote sendo considerado insano e seus ideais inúteis no mundo moderno. Hoje, é consenso que Dom Quixote é uma crítica social e um estudo sobre a condição humana.

Cervantes escreveria o romance como se ele fosse o relato de uma história real - como se Dom Quixote realmente tivesse existido e realizado todas as suas façanhas algumas décadas antes da publicação do livro - algo que era o padrão para romances de aventura na época. Segundo diz o romance, os primeiros capítulos teriam sido retirados de um texto conhecido como "os arquivos de La Mancha", e os seguintes seriam a tradução de um texto em árabe escrito pelo historiador Cide Hamete Benengeli - há, inclusive, uma teoria de que benengeli seria uma corruptela de ibn al-ayyil, "filho do cervo" em árabe, uma clara alusão a Cervantes. Cervantes originalmente escreveria a primeira parte de Dom Quixote para ser publicada em quatro volumes, e o texto faz claras referências quanto a onde um acaba e o seguinte começa; desde sua primeira publicação, porém, pelo editor Francisco de Robles, a primeira parte foi publicada como um livro único, o que fez com que as referências sobre os quatro volumes se tornassem apenas curiosidades.

Dom Quixote é um romance episódico, contando com 126 capítulos, 52 em cada parte. Cada grupo de capítulos narra um episódio, com a primeira parte contendo nove episódios e a segunda contendo quatro - cada episódio tem começo, meio e fim, embora esteja diretamente ligado ao anterior e ao seguinte. Além da história de Dom Quixote, a primeira parte traz várias outras histórias, narradas por personagens encontrados por Dom Quixote e Sancho Pança em suas andanças, como Cardênio, que enlouquece após sua amada Lucinda se casar com seu melhor amigo; Doroteia, que foi iludida por um homem por quem estava apaixonada e, envergonhada, fugiu de casa; e um soldado que passou anos como prisioneiro dos mouros no Norte da África. Uma das histórias mais curiosas (e única com título próprio) é O Curioso Impertinente, que conta a história de Anselmo, que, para saber se sua mulher é fiel, praticamente obriga seu melhor amigo, Lotário, a seduzi-la - essa história não ocorreu com um dos personagens do livro, mas foi encontrada pelo barbeiro em uma estalagem na qual Dom Quixote e Sancho Pança se hospedam, na forma de um manuscrito que ele decide ler para os demais.

Cervantes escreveria Dom Quixote como uma sátira aos chamados Romances de Cavalaria, livros extremamente populares na Espanha, que narravam aventuras fantasiosas - jurando que era tudo verdade - dos chamados Cavaleiros Andantes, heróis que percorriam o país em companhia de seu cavalo, sua lança e seu escudeiro, se envolvendo nas mais variadas aventuras e recebendo como recompensa terras, títulos de nobreza ou a mão de belas donzelas. O principal trabalho referenciado, inclusive como sendo o livro preferido do protagonista, é Amadís de Gaula, que conta as aventuras do cavaleiro de mesmo nome, inicialmente uma história de tradição oral, cujo exemplar publicado mais antigo ainda sobrevivente foi escrito por Garci Rodríguez de Montalvo e publicado em 1508. Outras referências diretas no texto são a Tirant lo Blanch, escrito pelo cavaleiro Joanot Martorell como uma espécie de obra autobiográfica, mas terminado postumamente por seu amigo escritor Martí Joan de Galba, e publicado em 1490; Asinus Aureus, o único romance da Roma Antiga escrito em latim a sobreviver completo até os dias de hoje, que conta a história de um homem que deseja aprender magia para se transformar num pássaro, mas acaba se transformando num asno; e ao poema italiano Orlando Furioso, publicado em 1532, referenciado várias vezes ao longo do texto - O Curioso Impertinente, inclusive, é inspirado em um dos trechos desse poema.

Dom Quixote faria um sucesso tão gigantesco que daria origem a um termo derivado, quixotesco, usado para se referir a alguma situação absurda ou na qual os envolvidos confundem o que realmente está acontecendo com consequências hilárias. Quando o livro foi publicado pela primeira vez em inglês, em 1612, daria origem a outro termo, lotário, originalmente o nome do melhor amigo do Curioso Impertinente, para se referir a um homem que fosse extremamente sedutor. Além disso, em vários idiomas, a expressão "atacar moinhos de vento" é usada quando uma pessoa imagina que está lidando com um problema que, na verdade, não existe.

O sucesso de Dom Quixote também levaria a um dos maiores episódios de demonstração de cara de pau da história da humanidade: não se sabe quando Cervantes começou a escrever a segunda parte, mas, um ano antes de sua publicação, em 1614, seria publicado um livro chamado Segundo Tomo del Ingenioso Hidalgo Don Quijote De La Mancha, de autoria atribuída a Alonso Fernández de Avellaneda - que, desde então, se tornaria conhecido como "o Quixote de Avellaneda". Avellaneda não foi uma pessoa real, e ninguém até hoje sabe quem teria sido o autor do livro, sendo a teoria mais aceita a de que o livro teria sido escrito em conjunto por um grupo de fãs de Lope de Vega, escritor contemporâneo de Cervantes, de quem era considerado o maior rival - e, de fato, "Avellaneda" insulta Cervantes gratuitamente no prólogo do livro, o que é visto como prova de que quem quer que seja que escreveu, preferia de Vega.

Embora haja também uma teoria de que Cervantes teria escrito a segunda parte como resposta a essa canalhice, o mais provável, segundo os estudiosos, é que ele já estava trabalhando nela, mas não ainda a terminado, quando o "livro pirata" foi publicado; o fundamento para ambas estas teorias é o de que Cervantes faz menção ao livro na segunda parte, que traz inclusive um encontro entre Dom Quixote e Avellaneda. Na segunda parte, aliás, Dom Quixote já é um cavaleiro famoso, pois as pessoas leram sobre suas aventuras narradas na primeira parte, em um dos primeiros exemplos de metatexto da literatura. A segunda parte é considerada pelos críticos como melhor que a primeira, principalmente por causa das discussões filosóficas entre Dom Quixote e Sancho Pança. Espelhando o mundo real, a segunda parte começa dez anos após o fim da primeira.

Cervantes venderia os direitos de publicação da primeira parte para de Robles por um valor jamais descoberto, mas supostamente baixo; o editor, acreditando que o livro venderia mais nas colônias da América do que na Europa, colocaria toda a primeira tiragem em um navio, que afundaria no meio do caminho, o que fez com que exemplares da primeira impressão sejam extremamente raros. Contrariando as previsões de de Robles, o livro logo se tornaria um grande sucesso na Espanha, e começaria a ser traduzido para vários outros idiomas, sendo os primeiros o francês, o italiano e o inglês. Como vendeu os direitos, Cervantes não recebeu um centavo por essas traduções, enquanto de Robles ficou milionário. Em 1610, cinco anos após sua publicação, Dom Quixote já seria um fenômeno, tendo vendido mais de 500 milhões de cópias no mundo inteiro - inclusive na longínqua Austrália, para onde foram enviados 1.100 exemplares. Segundo registros, a segunda parte teria o dedo do mecenas Conde de Lemos, e, apesar de publicá-la com o mesmo editor, Cervantes conseguiria um contrato melhor. A segunda parte também seria um grande sucesso, mas, em números brutos, venderia menos que a primeira. Em 1617, dois anos após o lançamento da segunda parte, seria lançada a primeira "edição completa", trazendo o texto integral em um único volume.

Ao longo dos anos, Dom Quixote já foi traduzido para mais 140 idiomas, se tornando o segundo livro mais traduzido da história - atrás apenas da Bíblia - e sendo lançado em praticamente todos os países do mundo. Uma de suas mais famosas edições internacionais foi a lançada na França em 1863, que contava com ilustrações famoso pintor Gustave Doré. Doré criaria uma série de 370 gravuras em metal e xilogravuras, que chamaria de As Aventuras de Dom Quixote, especialmente para a obra. Até hoje, diferentes edições do mundo inteiro selecionam dentre essas gravuras algumas para ilustrar suas edições.

Outra edição internacional famosa seria a lançada em 1700, na Inglaterra, com tradução de Pierre Antoine Motteux - que, apesar do nome, era inglês. A tradução de Motteux é considerada fraca e excessivamente cômica, especialmente nas passagens que envolvem Sancho Pança, mas conta com um fato curioso: na língua inglesa, a frase "a prova do pudim está na colherada", uma espécie de provérbio que significa "para julgar algo propriamente, você deve usá-lo para aquilo para o que foi criado", é atribuída a Cervantes, como sendo uma das falas de Dom Quixote; o original em espanhol, entretanto, não possui tal frase, tendo ela aparecido pela primeira vez na tradução de Motteux - na verdade, Cervantes disse simplesmente "vocês vão ver no frigir dos ovos", no sentido de "esperem e verão".

Sendo uma das obras mais famosas do mundo, é lógico que Dom Quixote seria também uma das mais adaptadas. Ao longo dos anos, seriam montadas diversas peças de teatro, óperas, musicais e espetáculos de balé que adaptavam ou se inspiravam no romance, assim como foram feitos mais de 40 filmes, o primeiro deles, francês, de 1906. Dentre os filmes, merecem ser citados Dom Quixote, dirigido por George Wilhelm Pabst e lançado em 1933, que foi filmado três vezes no mesmo ano com três elencos diferentes, em inglês, francês e alemão, para que pudesse ser lançado em vários países sem o uso de dublagens ou legendas; Don Quijote de La Mancha, de 1947, dirigido por Rafael Gil, primeiro longa-metragem espanhol a adaptar o romance; Dom Quixote, de 1957, dirigido por Grigori Kozintsev, primeiro em widescreen e a cores, uma produção, acreditem ou não, da União Soviética; e Esse Louco Me Fascina (They Might Be Giants), filme de comédia de espionagem de 1971 dirigido por Anthony Harvey baseado em um musical de James Goldman, no qual os dois personagens principais, interpretados por George C. Scott e Joanne Woodward, agem como se fossem Sherlock Holmes e Watson, mas são claramente inspirados em Dom Quixote e Sancho Pança - o título original do filme, inclusive, é uma referência à passagem do livro na qual Dom Quixote ataca os moinhos de vento. Dentre as adaptações para a TV, merecem destaque a minissérie espanhola em quatro capítulos El Quijote de Miguel de Cervantes, de 1991; o anime Don Quixote: Tales of La Mancha, de 1980, produzido pela Toei; Dom Quixote, de 2000, com John Lithgow, Bob Hoskins e Isabella Rossellini; e Monsignor Quixote, de 1991, com Alec Guiness no papel principal, inspirado na obra de mesmo nome, escrita por Graham Greene.

Falando nisso, ao longo dos anos vários outros autores de inspiraram em Dom Quixote para escrever seus próprios livros. Um dos exemplos mais curiosos é O Idiota, de Fiodor Dostoyevski, de 1869, cujo personagem principal é declaradamente inspirado em Dom Quixote - assim como a Emma Bovary de Madame Bovary, de 1856, escrito por Gustave Flaubert, um fã declarado de Cervantes.