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domingo, 16 de junho de 2019

Kiss

Confesso que eu não conheço muitas músicas do Kiss - umas quatro ou cinco, se muito. A mística da banda, entretanto, parece que vai muito além da sua música, principalmente por causa das suas internacionalmente famosas maquiagens. Essa semana, eu conversava sobre isso com um colega, e acabei ficando com vontade de fazer um post. Graças a essa vontade, hoje é dia de Kiss no átomo!


As origens do Kiss remontam a 1970, quando, na cidade de Nova Iorque, Estados Unidos, foi formada a banda Rainbow. Dentre os membros dessa banda estavam o baixista Chaim Witz, que se apresentava com o nome artístico Gene Klein, e o vocalista e guitarrista Stanley Eisen. Em 1971, a Rainbow conseguiria um contrato com a Epic Records para gravar seu primeiro álbum, e seus membros decidiriam por várias mudanças: Witz decidiria mudar seu nome artístico para Gene Simmons, Eisen decidiria adotar o nome artístico de Paul Stanley, e a própria banda mudaria de nome para Wicked Lester. O álbum gravado pela Wicked Lester, porém, jamais seria lançado, e, em 1972, insatisfeitos com o estilo musical da banda, Simmons e Stanley decidiriam dispensar os demais integrantes e refundá-la.

No final de 1972, Simmons e Stanley veriam um anúncio colocado na revista Rolling Stone pelo baterista Peter Criss, ex-integrante das bandas Lips e Chelsea, que também buscava formar uma banda nova. A dupla decidiria assistir a um show solo de Criss em um clube noturno de Nova Iorque, ao fim do qual o convidaria para sua nova banda. Ainda usando o nome Wicked Lester, o trio se dedicaria a um estilo de rock muito mais pesado que o tocado pela banda anteriormente, e experimentaria tocar com fantasias e maquiagens. O trio chegaria a agendar uma apresentação para a Epic Records, que não gostaria de seu estilo musical e decidiria não investir neles. Em janeiro de 1973, imaginando que seu som ficaria melhor com um guitarrista dedicado, que deixasse Stanley livre para apenas cantar, o trio contrataria Ace Frehley, que responderia a um anúncio e os impressionaria durante seu teste. Algumas semanas após a entrada de Frehley, surgiria, oficialmente, a banda Kiss.

Existem muitas lendas sobre o significado do nome Kiss, todas elas envolvendo o fato de que esse nome, na verdade, seria um acrônimo. As primeiras delas seriam motivadas pelo fato de que, no logotipo da banda, as duas letras S, em formato de raios, se assemelham ao logotipo da SS, a polícia da Alemanha nazista. Esse fato foi apenas uma coincidência, já que foi Frehley quem criou o logotipo, usando uma canetinha hidrocor e uma régua, e ele teve a ideia de fazer os S semelhantes a raios porque, na primeira vez que desenhou o logotipo, o fez para cobrir o nome da Wicked Lester em um cartaz, e o S de Lester lembrava um raio. Graças à semelhança entre os logotipos, quando a banda começasse a fazer sucesso surgiriam boatos de que seu nome era um acrônimo para Kinder SS (a "SS gentil" em inglês, ou "SS infantil" em alemão), que a banda teve muita dificuldade para desmentir - até hoje, inclusive, na Alemanha, Áustria, Israel e outros países que proíbem a exibição pública de símbolos nazistas, a banda tem de usar um logotipo diferente, no qual os SS se parecem com ZZ espelhados, para evitar problemas jurídicos.

A lenda de que o nome Kiss teria a ver com a SS nazista perderia força após alguns anos, mas ainda rola por aí até hoje; ela seria substituída, em força, porém, por outra, motivada pelas apresentações, digamos, exóticas de Simmons: a de que Kiss seria um acrônimo para Knights in Satan's Service, os "cavaleiros a serviço do demônio" - até mesmo publicações dedicadas a música já publicaram essa informação algumas vezes. Na verdade, entretanto, a origem oficial do nome Kiss é bastante inocente: enquanto Stanley e Criss iam a um ensaio, o vocalista expressou seu desejo de mudar o nome da banda, e a dupla começou a imaginar algumas opções possíveis. Criss mencionaria já ter feito parte de uma banda chamada Lips ("lábios" em inglês), ao que Stanley perguntaria: "que tal Kiss?" ("beijo" em inglês). Ambos gostaram da sonoridade do nome, o sugeriram aos outros dois, que também gostaram, e a banda estava batizada.

O primeiro show do Kiss ocorreria em 30 de janeiro de 1973, para uma plateia de três pessoas em um clube noturno de Nova Iorque. Em março do mesmo ano, eles fariam seu primeiro show já usando suas icônicas maquiagens. Cada membro da banda teve o direito de criar sua própria maquiagem, que representaria um personagem que ele interpretaria no palco: Stanley era o filho das estrelas(Starchild); Simmons era o Demônio (Demon); Frehley, inicialmente, o homem do espaço (Spaceman), depois trocando para o ás do espaço (Space Ace), em referência a seu próprio nome, mas mantendo a mesma maquiagem; e Criss era o homem-gato (Catman). As quatro maquiagens foram registradas no Escritório de Patentes dos Estados Unidos em nome de Stanley e Simmons (originalmente, a maquiagem de Frehley foi registrada em nome dele mesmo, mas na década de 1980 ele vendeu o registro para os outros dois), e não podem ser usadas sem autorização da dupla, que ainda recebe royalties pelo seu uso por terceiros. Originalmente, a base branca era feita com óxido de zinco comum, comprado em farmácias, e as partes pretas com delineador Maybeline, e a maquiagem frequentemente tinha de ser retocada durante os shows, pois saía com o suor dos músicos; depois do sucesso, eles passariam a usar maquiagem própria para cinema e TV, produzida pela Stein e pela Max Factor, mais cara mas mais durável e de resultado melhor.

A banda conseguiria seu primeiro contrato com uma gravadora, a Casablanca Records, ainda em 1973, e, antes do fim do ano, já estava gravando seu primeiro disco. No dia 31 de dezembro de 1973 eles fariam seu primeiro show "profissional", abrindo para o Blue Öyster Cult na Academia de Música de Nova Iorque. Na época, o Kiss já realizava em seus shows várias das proezas pelas quais se tornaria internacionalmente conhecido, como erguer a bateria no ar, disparar fogos de artifício pelos cabos das guitarras, e vários efeitos pirotécnicos, dentre eles um no qual Simmons cuspia fogo; nesse show de abertura, ele acidentalmente faria com que seu próprio cabelo ficasse em chamas, o que acabaria fazendo um enorme sucesso com a plateia, que pensou que ele o havia feito de propósito. Para aproveitar a onda, Simmons estudaria uma forma de poder fazer isso propositalmente sem se ferir, e repetiria o feito em diversas de suas apresentações seguintes. Outra de suas loucuras características, vomitar sangue (falso) durante o show, seria criada mais para o final da década.

O Kiss sairia em sua primeira turnê em 8 de fevereiro de 1974, tocando em várias cidades dos Estados Unidos e Canadá; treze dias após o início da turnê, seria lançado seu primeiro álbum, Kiss, que teria como principal música de trabalho Nothin' to Lose. O álbum não faria sucesso a princípio, e a Casablanca Records, que estava em seu início e não podia perder dinheiro, pediu para que a banda, após os shows em Los Angeles de sua turnê, tirasse um tempo para gravar um segundo álbum, Hotter than Hell, que seria lançado em outubro de 1974, trazendo a faixa Let Me Go, Rock 'n' Roll. Mais uma vez, o álbum não teria o desempenho esperado - embora os shows e as aparições na TV da banda fossem grandes sucessos - e, diante do prejuízo certo, a Casablanca decidiria tomar medidas drásticas, colocando a banda para trabalhar o mais rápido possível em seu terceiro álbum, e designando um produtor para modificar levemente o estilo de suas canções, para tentar torná-las mais comerciais.

Esse terceiro álbum, Dressed to Kill, lançado em março de 1975, hoje é um grande clássico, e traz talvez a canção mais famosa do Kiss, Rock and Roll All Nite; ainda assim, na época de seu lançamento ele teve um desempenho apenas modesto, o que fez com que a Casablanca quase fosse à falência. Já imaginando que não teria mais nada a fazer senão aceitar o triste fato, o presidente da Casablanca, Neil Bogart, decidiria, para pelo menos tentar não sair com uma mão na frente e a outra atrás, gravar alguns shows da turnê e lançá-los na forma de um álbum ao vivo. E seria essa jogada que mudaria a história da banda.

Mesmo sem vender bem seus álbuns, o Kiss era uma banda de grande sucesso, com seus shows sempre lotados e tendo ingressos esgotados poucos dias após iniciarem as vendas. Esse fato se valia não somente das maluquices que a banda fazia no palco, mas da energia que ela transmitia durante suas apresentações, algo que com certeza não estava presente nos álbuns de estúdio. Lançado em setembro de 1975, Alive!, o primeiro álbum ao vivo da banda - que, ainda por cima, era duplo - conseguiu com maestria levar essa energia para dentro da casa dos ouvintes, se transformando no primeiro grande sucesso comercial do Kiss. O desempenho de Alive!, aliás, seria tão bom que, além de ganhar um Disco de Ouro ele mesmo, ele ainda alavancaria as vendas dos três álbuns anteriores, fazendo com que todos os três ganhassem Discos de Ouro também. O álbum seria gravado durante shows da banda nas cidades de Detroit, Cleveland e Wildwoood, e esse show de Detroit, realizado em maio de 1975, seria tão apoteótico que faria com que muita gente passasse a pensar que a banda era originária de lá, e que estava tocando tão bem por estar satisfeita de estar tocando em casa - até hoje, acreditem ou não, há fontes que dizem que o Kiss é de Detroit.

Alive! seria o primeiro álbum do Kiss a entrar no Top 10 da Billboard, chegando à nona posição, e traria a versão mais famosa de Rock and Roll All Nite, com arranjo levemente diferente da versão do álbum e um solo de guitarra, que seria lançada em single, selecionada para tocar nas rádios, e chegaria à 12ª posição do Top 100 da Billboard; essa versão se tornaria tão famosa que seria a escolhida para virar clipe na Mtv, e a preferida de quem quer fazer covers, como a banda Poison, que lançou um em 1987, com a versão original hoje praticamente só sendo conhecida pelos fãs.

Evidentemente, para seu próximo álbum de estúdio, a banda tentaria repetir o sucesso de seu álbum ao vivo. Trabalhando com Bob Ezrin, que havia sido produtor de Alice Cooper, o Kiss embarcaria em um projeto ousado e grandioso, que incluía músicas com acompanhamento de orquestras e corais, algo totalmente diferente do som cru dos três primeiros álbuns. O resultado seria Destroyer, lançado em março de 1976, que renderia à banda mais um Disco de Ouro. Destroyer era um projeto tão ousado que sua capa não seria uma foto, e sim uma ilustração criada por Ken Kelly, conhecido por seus trabalhos retratando Tarzan e Conan, o Bárbaro. Curiosamente, a música mais famosa de Destroyer quase não entrou no álbum: Beth, uma balada cantada por Criss, foi composta por ele na época em que ele ainda fazia parte da banda Chelsea, e os demais membros não somente foram contra sua inclusão - o que só ocorreu porque sem ela o álbum tinha menos de 30 minutos de duração - como também não quiseram estar no estúdio enquanto ele a gravava - Criss é acompanhado por um piano e uma orquestra, o que faz com que a música destoe ainda mais do repertório do Kiss. Originalmente, Beth sequer seria escolhida como música de trabalho, mas, ao ser lançada como lado B no single de Detroit Rock City, fez tanto sucesso e foi tão pedida nas rádios que o single acabaria relançado com os lados invertidos - sendo Beth a canção principal. Após esse relançamento, Beth se tornaria a primeira canção do Kiss a entrar para o Top 10 da Billboard, alcançando a sétima posição.

O sucesso de Destroyer motivaria a Casablanca a lançar um novo álbum o mais rápido possível: Rock and Roll Over, de novembro de 1976, cuja principal música foi Hard Luck Woman, se aproveitaria do momento criado por seu antecessor e se tornaria o primeiro álbum da banda a conquistar Disco de Platina. O segundo seria o seguinte, Love Gun, de junho de 1977, seguido pelo terceiro, Alive II, mais um álbum ao vivo duplo (na verdade 1,5x, já que metade das faixas do segundo disco era de inéditas de estúdio), lançado em outubro de 1977. Eleita a banda mais popular da América por uma pesquisa do Instituto Gallup em 1977, e em meio à sua primeira turnê internacional, que contou com cinco shows totalmente esgotados no Japão, o Kiss também já começava a se sedimentar como um fenômeno de mídia, estando disponíveis para a compra inúmeros itens de merchandising relacionados à banda, que iam desde as tradicionais camisetas e máscaras de Halloween até máquinas de pinball e jogos de tabuleiro.

Em maio de 1977, a banda faria uma participação especial nas edições 12 e 13 da revista Howard the Duck, e faria tanto sucesso que a Marvel decidiria transformá-los em super-heróis e lançar uma edição especial chamada Marvel Comics Super Special, em setembro de 1977, na qual eles interagiam com personagens famosos da editora como os Vingadores, o Homem-Aranha e o Quarteto Fantástico, e ainda enfrentavam o Dr. Destino - bem ao estilo da banda, sangue seria colhido de cada um dos quatro integrantes e misturado à tinta usada para imprimir a edição, para torná-la ainda mais especial. A Marvel Comics Super Special acabaria se tornando uma publicação regular, com 41 edições lançadas até novembro de 1986, a maioria delas contendo adaptações para os quadrinhos de filmes como O Império Contra Ataca e Blade Runner; o Kiss ainda estrelaria uma segunda edição, a 5, lançada em outubro de 1978, mas sem sangue na tinta nem tanto estardalhaço.

Em setembro de 1978, seriam lançados quatro álbuns simultaneamente. Não seriam álbuns do Kiss, entretanto, e sim álbuns-solo de cada um de seus integrantes, cada um deles com o nome do integrante em questão. Os álbuns seguiam todos o mesmo padrão estético - todas as capas consistiam no rosto do integrante desenhado pelo artista Eraldo Carugati - e foram lançados todos no mesmo dia - na primeira e única vez em que todos os membros de uma banda lançaram álbuns-solo no mesmo dia - mas nem de longe tinham o mesmo estilo musical: Paul Stanley era o que mais se aproximava do som habitual do kiss, Ace Frehley tinha um rock mais melódico, Peter Criss contava com várias baladas de R&B, e Gene Simmons era o mais eclético, trazendo rock pesado, pop chiclete, uma balada, um cover de When You Wish Upon a Star (do desenho Pinóquio, da Disney, e adotado como o tema oficial do estúdio) e até mesmo um dueto com Cher, que na época era namorada do baixista. Nenhum dos quatro álbuns vendeu especialmente bem, sendo o de Frehley o mais bem sucedido. Na época, a versão oficial para o lançamento dos álbuns-solo foi que os integrantes estavam brigando muito entre si e precisavam cada um de um tempo sozinho, mas, na verdade, o relacionamento entre os quatro nunca esteve tão bem, e o lançamento desses álbuns já estava previsto no contrato que a banda renovou com a Casablanca em 1976, logo após o lançamento de Alive!.

Em 1978 a banda também se envolveria em mais um projeto ambicioso: um filme de cinema que os transformaria em super-heróis. Infelizmente, nem tudo saiu conforme o planejado, o roteiro foi reescrito várias vezes, as filmagens se arrastaram durante meses, e o resultado, ao invés de um filme de ação, foi uma comédia involuntária - em entrevistas posteriores, os membros da banda se declararam insatisfeitos com o filme, que os retratou mais como palhaços que como super-heróis. Kiss e os Fantasmas (Kiss Meets the Phantom of the Park) acabaria estreando na NBC em 28 de outubro de 1978; nos cinemas, ele só seria exibido fora dos Estados Unidos, a partir de 1979, com o título Attack of the Phantoms. No filme, os membros do Kiss têm super poderes, e devem impedir o cientista louco Abner Devereaux (Anthony Zerbe) de conquistar o mundo usando animatonics. Pois é.

Voltando à música, em maio de 1979 seria lançado o mais novo álbum do Kiss, Dynasty, que traria um dos maiores sucessos da banda, I Was Made for Lovin' You, e renderia mais um Disco de Platina. Pouco antes de as gravações começarem, Criss sofreria um acidente de carro que o impossibilitaria de tocar bateria, ficando esse instrumento a cargo de Anton Fig. Apesar do bom desempenho do álbum, a turnê que o acompanhou teve os piores números da carreira da banda, com vários shows não alcançando sua lotação máxima; curiosamente, cada vez mais nas plateias havia adolescentes e pré-adolescentes, a maioria maquiados como a banda, muitos acompanhados pelos pais (que estavam, às vezes, eles mesmos maquiados). Stanley e Simmons decidiriam abraçar esse novo público, criando fantasias cada vez mais coloridas, que tornavam os membros da banda mais parecidos com desenhos animados do que com as figuras de ficção científica que originalmente encarnavam. Bizarramente, o aumento do interesse jovem na banda fez com que eles começassem a planejar um parque temático, chamado Kiss World, que jamais sairia do papel devido, principalmente, aos altos custos da empreitada.

Após o lançamento de Dynasty, começaria a crescer uma tensão entre Criss, Simmons e Stanley. Mesmo após se recuperar do acidente, o baterista não retornou à sua antiga forma, e durante vários shows da turnê tocou fora de ritmo ou parou antes de a música acabar. Isso foi irritando Stanley, que decidiu que ele, embora ainda aparecesse na capa, não participaria das gravações do álbum seguinte da banda, Unmasked, sendo mais uma vez substituído por Fig, que não seria creditado. Logo após as gravações se concluírem, Criss anunciaria sua saída da banda, e Fig seria demitido por Simmons e Stanley, que consideravam que ele não estava à altura do que suas canções exigiam. Lançado em maio de 1980, Unmasked não conseguiria manter o mesmo padrão dos álbuns anteriores, mas ainda renderia um Disco de Ouro.

Para o lugar de Criss, após dezenas de testes (incluindo um com Tico Torres, que acabaria se tornando baterista do Bon Jovi), Stanley e Simmons escolheriam Eric Carr, que faria seu primeiro show com a banda em julho de 1980, e depois sairia com eles em turnê pela Austrália e Nova Zelândia. Carr sequer cogitou usar a mesma maquiagem que Criss, e criou uma nova, com uma águia desenhada em seu rosto - que Stanley rejeitou dizendo que se parecia mais com uma galinha. Ele então decidiu usar uma maquiagem que imitava os padrões negros na face de uma raposa, sendo seu personagem simplesmente "o raposa" (The Fox).

O álbum seguinte do Kiss seria bastante alardeado pela imprensa, que anunciaria um retorno ao rock pesado do início da carreira da banda; ao invés disso, Music from "The Elder", lançado em novembro de 1981, seria um álbum conceitual, usando instrumentos como sintetizadores, harpas, e até mesmo uma tuba medieval. O álbum seria definido pela banda como "a trilha sonora de um filme jamais lançado", e suas músicas, teoricamente, contavam a história do filme; ele teria a pior performance de toda a carreira da banda, não conseguindo sequer Certificação.

Frehley ficaria extremamente decepcionado com a mudança de estilo da banda, e se recusaria a ir ao estúdio junto com os outros membros para gravá-lo; eles acabariam chegando a um acordo segundo o qual ele gravava suas participações em seu estúdio particular e as enviaria pelo correio para o empresário da banda, com a gravadora unindo suas gravações às demais durante a mixagem. Frehley também se declararia insatisfeito com o fato de que, após a saída de Criss, como Carr não tinha direito a voto no tocante às decisões da banda, ele sempre acabava sendo voto vencido, já que Simmons e Stanley sempre decidiam tudo juntos. Após votar contra e ser derrotado, ele se recusaria a ir a uma apresentação especial da banda no Studo 54 de Nova Iorque. Depois disso, Frehley negociaria sua saída da banda, o que ocorreria em dezembro de 1982; ele continuaria dono dos direitos sobre sua maquiagem e parceiro de negócios de Simmons e Stanley em vários merchandisings associados da banda até 1985.

Assim como ocorreu com Criss, Frehley ainda apareceria na capa do álbum seguinte do Kiss, Creatures of the Night, lançado em outubro de 1982 - embora o guitarrista durante as gravações tivesse sido Vinnie Vincent, que não seria creditado. Bogart morreria de câncer durante as gravações, e o Kiss dedicaria o álbum a ele; tensões crescentes com os novos donos da Casablanca fariam com que Creatures of the Night fosse o último álbum da banda por essa gravadora, com eles preferindo romper o contrato e assinar com a Mercury Records no início de 1983. O álbum renderia à banda mais um Disco de Ouro, e traria a faixa I Love it Loud - co-escrita por Vincent, mas com Frehley, que ainda era oficialmente membro da banda, aparecendo no clipe.

O lugar de Frehley no Kiss seria bastante cobiçado: assim que soube que havia uma vaga, Eddie Van Halen, que estava insatisfeito com o vocalista David Lee Roth e querendo acabar com a banda Van Halen, se candidatou para a posição, sendo convencido por seu irmão Alex e por Simmons a permanecer e, ao invés disso, forçar o vocalista a sair. Dentre os que fizeram o teste estavam Ritchie Sambora, que no ano seguinte fundaria o Bon Jovi; Doug Aldrich, ex-Whitesnake, que no ano seguinte entraria para o Dio; e Yngwie Malmsteen, hoje considerado um dos maiores guitarristas de todos os tempos. Simmons e Stanley, entretanto, acabariam preferindo continuar com Vincent, e Stanley até mesmo criaria seu personagem, que chamaria de The Wiz (algo como "o bruxo"); a maquiagem de Vincent trazia um ankh egípcio no meio do rosto, e, por isso, acabaria mais conhecido como "o guerreiro do ankh egípcio" (The Egyptian Ankh Warrior). Vincent seria o único dos membros maquiados da banda a jamais aparecer como seu personagem em nenhuma capa de álbum, usando sua maquiagem apenas em shows, pois jamais se deu bem com os demais membros da banda, e acabou demitido ao final da turnê de Creatures of the Night; ele seria recontratado para o álbum seguinte, Lick It Up, porque Stanley não conseguiu um guitarrista de aluguel a tempo de começar as gravações, mas demitido novamente após o fim da turnê desse álbum, o único no qual ele foi creditado como membro do Kiss.

A razão pela qual, mesmo tendo sido recontratado, Vincent não apareceu maquiado na capa de Lick It Up foi que, no início de 1983, Stanley e Simmons acharam que estava na hora de uma mudança que recolocasse o Kiss em voga, e decidiriam que essa mudança seria passar a se apresentar sem maquiagem. A primeira aparição da banda de cara limpa se daria em um especial da Mtv em setembro de 1983, no mesmo dia do lançamento de Lick It Up, o primeiro álbum no qual eles apareceriam sem maquiagem na capa, e o primeiro show da turnê mundial desse álbum, em Portugal, seria a primeira apresentação do Kiss sem maquiagem em mais de dez anos. Lick It Up seria o primeiro álbum do Kiss lançado pela Mercury, e sua faixa-título se tornaria um dos grandes sucessos da banda. O álbum renderia um Disco de Platina, o primeiro do Kiss desde Dynasty, mas a plateia dos shows continuaria a minguar, sem nenhuma apresentação da turnê atingir lotação máxima.

Após a demissão de Vincent ao fim da turnê de Lick It Up, Stanley e Simmons contratariam como guitarrista Mark St. John, que era guitarrista de aluguel e professor de guitarra. Com ele, a banda gravaria Animalize, álbum que seria lançado em setembro de 1984, que traria a faixa Heaven's on Fire e renderia à banda mais um Disco de Platina. Pouco antes do início da turnê de Animalize, St. John teria uma crise de artrite reativa, e não teria condições de participar de muitos dos shows, sendo substituído por Bruce Kulick. St. John acabaria pedindo para sair da banda, sendo substituído por Kulick em definitivo, em dezembro de 1984. Apesar de ser o quarto guitarrista da banda em três anos, Kulick ficaria com o Kiss por mais doze, se tornando o terceiro membro mais longevo da banda, atrás apenas de Stanley e Simmons; apesar disso, como sua participação na banda começaria logo após eles decidirem deixar a maquiagem de lado, e terminaria antes que eles decidissem readotá-la, ele jamais criaria um personagem para si - St. John e Kulick, aliás, seriam os únicos membros do Kiss a jamais usar maquiagem durante os shows.

O primeiro álbum do Kiss com Kulick, Asylum, de setembro de 1985, renderia mais um Disco de Platina, mas dividiria a crítica, que chamaria o estilo do álbum de glam metal. A banda passaria o ano de 1986 apenas fazendo shows, e retornaria em outubro de 1987 com Crazy Nights, que se sairia melhor com a crítica e renderia mais um Disco de Platina. Após mais um ano somente de shows, eles encerrariam a década com Hot in the Shade, que, com uma capa engraçadinha (a Esfinge de óculos de sol), não agradaria tanto nem à crítica, nem ao público, rendendo Disco de Ouro, mas cuja faixa Forever, co-escrita por Stanley e Michael Bolton, se tornaria um dos maiores sucessos da banda, alcançando o oitavo lugar na parada da Billboard e se tornando a segunda canção do Kiss a entrar para o Top 10.

Pouco antes de a banda voltar ao estúdio para gravar seu álbum seguinte, em 1991, Carr descobriu que tinha um tumor no coração, e eles decidiram adiar as gravações até que ele concluísse o tratamento. Ele chegou a ser declarado como livre de câncer pelos médicos, mas, alguns meses depois, sofreu duas hemorragias cerebrais, entrou em coma e acabou falecendo - no exato mesmo dia em que Freddy Mercury também faleceu. Após o luto, Stanley chamaria para a banda o veterano baterista Eric Singer, que o havia acompanhado durante a turnê de seu álbum solo no final da década de 1970. Com Singer, o Kiss lançaria Revenge, em maio de 1992, que renderia mais um Disco de Ouro tendo um som mais pesado que o que vinham fazendo ultimamente, e, surpreendentemente, com Vincent como co-autor de algumas faixas, incluindo a principal música de trabalho, Unholy. No ano seguinte, a banda lançaria mais um álbum ao vivo, Alive III, e ganharia uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood.

Em 1995, a banda lançaria o livro Kisstory, com 440 páginas dedicadas à história da banda; logo depois, eles embarcariam em uma turnê diferente, a Worldwide Kiss Convention Tour, na qual cada parada, além de um show, contava com uma convenção, com direto a figurinos antigos em exibição, palestras e entrevistas com os membros da banda, e venda de vários tipos de merchandising - um dos shows dessa turnê contaria com Criss na bateria, 16 anos após sua saída. Ainda em 1995, eles seriam convidados para tocar no Mtv Unplugged, o programa conhecido por aqui como Acústico; ao invés de comparecer com sua formação da época, Simmons e Stanley decidiram chamar Criss e Frehley, para que a banda se apresentasse com sua formação original. Isso levaria a várias especulações de que a formação original retornaria, mas, como as gravações do álbum seguinte já estavam em andamento, foi a formação com Stanley, Simmons, Kulick e Singer que figurou em Carnival of Souls: The Final Sessions.

Animados pelo bafafá que um possível retorno da formação original havia causado, porém, Stanley, Simmons, Criss e Frehley começaram a negociar como poderia ocorrer esse retorno, e, após chegar a um acordo mútuo, decidiram que o anúncio ocorreria em grande estilo, em um show surpresa durante a cerimônia do Grammy, em fevereiro de 1996. Dispostos a causar a maior surpresa possível, os quatro ainda se apresentaram de figurino completo e maquiagem, algo que não acontecia desde 1982. O show foi absurdamente comentado, e, em abril, os quatro decidiriam sair em uma turnê mundial para comemorar o retorno da formação original; essa turnê, a Kiss Alive Worldwide Tour começaria em junho, contaria com 192 shows, e, como nos áureos tempos da banda, muitas vezes os ingressos se esgotariam com meses de antecedência e a plateia teria lotação máxima - de fato, a média de público da turnê foi a mais alta da carreira da banda, e o sucesso dos shows levou a crítica a eleger o Kiss como a banda mais popular de 1996.

Restou um problema, porém: Carnival of Souls estava previsto para ser lançado em fevereiro de 1996, justamente o mês no qual ocorreu o retorno da formação original no Grammy, e, por causa disso, acabou sendo sucessivamente adiado, só sendo efetivamente lançado em outubro de 1997. Isso fez com que várias versões piratas do álbum, compiladas graças a pessoas pouco honestas que tiveram acesso a ele antes do lançamento, surgissem ao longo de 1996 e 1997. Além disso, o som do álbum era bastante diferente daquele com o qual os fãs do Kiss estavam acostumados, sendo mais próximo do grunge, que estava em seu auge na época de sua gravação. Somando esses três fatores - a formação do álbum não ser a original, as versões piratas e o som grunge - as vendas seriam bastante prejudicadas - o álbum não conseguiria sequer Certificação - o que faria com que a Mercury optasse por lançar apenas uma música de trabalho, Jungle, antes de colocar a banda para trabalhar em seu álbum seguinte.

Esse álbum seria Psycho Circus lançado em setembro de 1998, cuja faixa-título seria responsável pela primeira e única indicação ao Grammy da carreira do Kiss, na categoria Melhor Performance de Rock Pesado (perdido para Most High, de Jimmy Page e Robert Plant). Apesar de ser anunciado como um álbum com a formação original da banda, e trazer fotos de Criss e Frehley por todo o encarte, a participação dos dois foi mínima, com a bateria na maioria das faixas ficando a cargo de Kevin Valentine e a guitarra com Tommy Thayer - em uma das faixas, inclusive, a guitarra ficaria a cargo de Kulick. Frehley e Criss, porém, estariam na turnê de divulgação do álbum, que teve o primeiro show na história a exibir imagens em 3D em um telão. Psycho Circus renderia "apenas" um Disco de Ouro, mas chegaria ao terceiro lugar na parada da Billboard. O sucesso do álbum transformaria os membros da banda novamente em personagens de quadrinhos com o lançamento de Kiss: Psycho Circus, que teve 31 edições mensais produzidas pela Todd MacFarlane Productions e lançadas pela Image Comics, que por sua vez acabaria dando origem a um game de tiro em primeira pessoa (tipo Doom) chamado Kiss: Psycho Circus: The Nightmare Child, lançado para Windows e Dreamcast em 2000.

Entre 1998 e 2009, o Kiss focaria apenas em shows, sem lançar nenhum álbum novo. No início de 2001, alegando divergências na hora de acertar seu salário, Criss sairia novamente da banda, sendo substituído por Singer, que passou a usar sua maquiagem de homem-gato, o que causou uma certa controvérsia entre os fãs mais antigos. Logo depois do retorno de Singer, o Kiss sairia em uma turnê chamada the Farewell Tour ("a turnê do adeus"), dando a entender que seria sua última; mas esse adeus seria adiado ano após ano, com novas turnês sendo iniciadas após a suposta última, e Frehley, após uma turnê conjunta do Kiss e do Aerosmith em 2003, anunciaria sua aposentadoria, sendo substituído por Thayer, que passaria a usar sua maquiagem de ás do espaço. A formação com Stanley, Simmons, Thayer e Singer permaneceria a mesma até hoje. Deste período sem álbuns vale citar também o lançamento em 2001 do Kiss Kasket, considerado por muitos como o item de merchandising mais bizarro já lançado por qualquer banda, um caixão decorado para que os fãs pudessem ser enterrados com referências à sua banda preferida; o lançamento do segundo álbum-solo de Stanley, Live to Win, em outubro de 2006; e o lançamento de uma nova série em quadrinhos, Kiss 4K: Legends Never Die, que teve dez edições lançadas pela Platinum Comics entre maio de 2007 e agosto de 2008.

A decisão de passar mais de dez anos sem lançar um álbum novo viria de Stanley e Simmons, que, no final de 2008, mudariam de ideia, anunciando um álbum com "o verdadeiro som do Kiss dos anos 1970". Esse álbum seria Sonic Boom, lançado em outubro de 2009 pela gravadora Roadrunner, que alcançaria o segundo lugar da parada da Billboard, mas não conseguiria vender bem o suficiente para obter Certificação. Sonic Boom seria um álbum triplo, com um disco contendo inéditas, um contendo grandes sucessos da carreira da banda, e um sendo uma gravação de um show realizado em Buenos Aires, Argentina - ou seja, um de inéditas, uma coletânea e um ao vivo.

O por enquanto e talvez provavelmente último álbum do Kiss, Monster, seria lançado em outubro de 2012 - o vigésimo álbum de estúdio da banda no total. Gravado totalmente de forma analógica, para capturar ainda mais o estilo dos anos 1970, ele mais uma vez não conseguiria Certificação, mas alcançaria o terceiro lugar na parada da Billboard. Em 2013, o Kiss seria eleito para entrar para o Hall da Fama do Rock.

Em janeiro de 2019, Simmons e Stanley anunciariam que, finalmente, iriam se aposentar - com ambos já beirando os 70 anos, sua energia no palco já não é a mesma, e Stanley seria acusado até mesmo de usar playback em alguns shows, o que foi negado com veemência pela banda. Naquele mês, eles embarcariam na End of the Road World Tour, a última turnê da carreira do Kiss - que, em alguns shows dos realizados até agora, contou com a participação de Frehley na guitarra. Por enquanto, a data escolhida para o último show do Kiss é 3 de dezembro de 2019, mas essa data pode ser adiada ou antecipada devido a vários eventos. Embora Simmons, em entrevistas, tenha dado a entender que eles possuem canções novas e devem lançar mais um álbum antes do fim, Stanley negou, então ninguém sabe se será o caso. Após mais de 45 anos de carreira, parece que o filho das estrelas, o demônio, o ás do espaço e o homem-gato finalmente vão pendurar as fantasias.

domingo, 9 de junho de 2019

Xadrez

Depois que eu falei sobre o Jogo Real de Ur, reparei uma coisa: eu nunca falei aqui no átomo sobre os dois jogos de tabuleiro mais famosos do planeta: xadrez e damas. Não porque eu não goste, mas porque nunca me veio uma vontade. Depois de perceber isso, decidi que seria legal se eu falasse, então hoje começarei. Hoje é dia de xadrez no átomo!


O xadrez é um dos jogos de tabuleiro mais populares do mundo, e grande parte dessa popularidade vem de sua simplicidade: não existem elementos de sorte como dados, objetivos ocultos nem casas especiais, mas há muito, muito espaço para estratégia - um bom jogador, se estiver perdendo, sempre terá a chance de virar o jogo apenas com sua inteligência, sem precisar da "ajuda" de nenhum fator externo; da mesma forma, se estiver ganhando, apenas ele mesmo será responsável por assegurar sua vitória.

Um conjunto completo de xadrez é composto de um tabuleiro e 32 peças, 16 para cada jogador. Em partidas oficiais, um jogador sempre usa peças brancas e o outro sempre usa peças pretas; em jogos para crianças ou temáticos as peças podem ter outras cores, mas é essencial que se possa diferenciar as peças de cada jogador a qualquer momento, pois durante a partida elas ficarão misturadas no tabuleiro. Em partidas oficiais, o jogador que controla as peças brancas sempre começa o jogo, e, por isso, é sempre determinado aleatoriamente qual jogador vai ficar com qual cor; em jogos "amistosos", pode-se determinar quem começa através de qualquer método.

As regras oficiais do xadrez são publicadas pela Federação Internacional de Xadrez (FIDE, da sigla em francês; o E, no caso, é de "xadrez", que, em francês, é échecs), fundada em 1924, sediada em Atenas, Grécia, e que conta com 185 membros, dentre eles o Brasil. Vale dizer que a FIDE é reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional, o que faz com que o xadrez não somente seja considerado um esporte, como também que ele está apto a fazer parte do programa das Olimpíadas, o que já vem sendo pleiteado há algum tempo. As regras são frequentemente revisadas pela FIDE para garantir que os jogadores - chamados enxadristas - não se aproveitem de detalhes técnicos para levar vantagem; a mais recente versão revisada das regras é de 2017. A partir de agora, eu vou falar sobre essas regras, e, como de costume, as regras que vou citar aqui são as oficiais da FIDE, podendo haver divergências com as de jogos vendidos no mercado, principalmente aqueles para crianças.

Existem seis tipos de peças diferentes, que seguem uma temática medieval; cada jogador tem um Rei, uma Rainha (também conhecida como Dama), dois Bispos, dois Cavalos (que, na verdade, representam cavaleiros), duas Torres e oito Peões. O tabuleiro do xadrez é composto por 64 casas, organizadas em oito linhas (identificadas pelos números de 1 a 8) e oito colunas (identificadas pelas letras de a a h, em minúsculas); a identificação das linhas e colunas traz mais facilidade na hora de especificar as posições da peças (por exemplo, "o Peão que está na a2") e seus movimentos (por exemplo, "o Cavalo vai da g8 para a f6"). As casas do tabuleiro se alternam em claras e escuras; a posição correta para o jogo é com ambos os jogadores tendo mais próxima de si uma linha cuja última casa à direita é clara (h1 para quem joga com as brancas, a8 para quem joga com as pretas).

Na posição inicial para começar o jogo, cada jogador utiliza as duas linhas mais próximas de si (1 e 2 para as brancas, 7 e 8 para as pretas). Cada jogador deve colocar sua Rainha na casa central da mesma cor de suas peças, na fila mais próxima de si (Rainha branca em uma casa clara, d1; Rainha preta em uma casa escura, d8), e o Rei a seu lado (e1 para as brancas, e8 para as pretas). Na mesma linha do Rei e da Rainha, de fora para dentro ficam as Torres (nas colunas a e h), os Cavalos (nas colunas b e g) e os Bispos (nas colunas c e f). Na fila imediatamente à frente dessas peças (2 para as brancas, 7 para as pretas) ficam os oito Peões.

Cada tipo de peça possui regras próprias para seu movimento. Um Peão só pode se mover uma única casa na vertical, e somente para a frente (sempre indo em direção ao adversário, nunca voltando para seu próprio lado), de cada vez, com duas exceções: se ele estiver saindo de sua posição inicial (da linha 2 para as brancas ou da linha 7 para as pretas), pode se mover duas casas na vertical para a frente ao invés de uma, e, se estiver capturando uma peça do oponente (veja adiante), pode se mover uma casa na diagonal para a frente ao invés de na vertical. O Rei também só pode se mover uma casa de cada vez, mas em qualquer uma das oito direções. A Torre pode se mover na vertical ou na horizontal, mas quantas casas quiser de cada vez. O Bispo também pode se mover quantas casas quiser de cada vez, mas somente na diagonal - o Bispo que começa o jogo na casa clara só pode andar pelas casas claras, e o que começa na casa escura só pode andar pelas casas escuras. A Rainha pode se mover nas oito direções, e quantas casas quiser de casa vez, sendo, por isso, considerada a peça mais poderosa do tabuleiro.

O Cavalo eu deixei por último porque é o que tem o movimento mais complicado: segundo as regras, o Cavalo "deve sempre terminar seu movimento na casa mais próxima que não seja de sua mesma linha, coluna ou diagonal"; na prática, isso significa que ele anda desenhando uma letra L - sempre duas casas na vertical então uma na horizontal, ou duas na horizontal então uma na vertical. O Cavalo também pode se mover em qualquer uma das oito direções (ou seja, duas casas pra frente então uma pro lado, duas pro lado então uma pra frente, duas pro lado então uma pra trás, ou duas pra trás então uma pro lado), o que faz com que um Cavalo no meio do tabuleiro tenha oito casas possíveis para encerrar seu movimento. Finalmente, o Cavalo é a única peça que pode "pular por cima" das demais peças - se houver uma casa ocupada no caminho do movimento de uma Torre, Bispo ou Rainha, essas peças devem interromper seu movimento na casa imediatamente antes da ocupada, ou capturá-la se a casa estiver ocupada por uma peça do oponente; já o Cavalo pode ignorar essa peça e terminar seu movimento normalmente. Isso faz com que o Cavalo seja a única peça, além dos Peões, que pode se mover no primeiro movimento de um jogador, pulando por cima do peão que está imediatamente à sua frente.

Os jogadores fazem seus movimentos alternadamente (primeiro o branco, então o preto, então o branco etc.), e, a cada movimento, só podem mover uma única peça (com apenas uma única exceção, que veremos adiante). Caso o jogador tenha um movimento válido possível, ele é obrigado a realizá-lo, jamais podendo passar a sua vez; um movimento é válido quando termina ou em uma casa que não estiver ocupada, ou em uma casa que esteja ocupada por uma peça do oponente. Quando um jogador termina o movimento de uma de suas peças em uma casa que esteja ocupada por uma das peças do oponente, ele a captura, removendo-a do jogo. Não é considerado válido um movimento com o qual o jogador colocará seu próprio Rei em xeque, ou seja, em uma casa na qual o oponente conseguirá capturá-lo em seu movimento imediatamente seguinte; da mesma forma, se um Rei está em xeque, seu jogador é obrigado a tirá-lo dessa posição em seu movimento imediatamente seguinte, só sendo considerados movimentos válidos aqueles que ele puder fazer com o Rei ou com peças que possam capturar ou bloquear a peça oponente que está deixando o Rei em xeque.

O xadrez possui três jogadas especiais. A primeira delas se chama roque, e consiste em trocar o Rei de lugar com a Torre. Cada jogador só pode fazer um roque (cujo nome é uma corruptela do nome da peça da Torre em inglês, Rook) por jogo, e somente se as seguintes condições estiverem presentes: nem o Rei nem a Torre tiverem se movido ainda desde o início do jogo, não houver nenhuma peça entre o Rei e a Torre, e se o Rei não estiver em xeque nem ficará em xeque como resultado do roque. Durante o roque, o Rei se move duas casas na direção da Torre, e a Torre passa por ele se se posiciona na casa imediatamente a seu lado. O Rei pode fazer roque com qualquer uma das duas Torres - usando como exemplo as peças brancas, caso o Rei faça roque com a Torre da direita, encerrará a jogada na casa g1, e a Torre na f1; caso faça com a da esquerda, encerrará na casa c1, e a Torre na d1.

As outras duas jogadas especiais envolvem os Peões. A primeira se chama en passant ("de passagem" em francês), e funciona da seguinte forma: se um Peão andar duas casas ao sair de sua casa de partida, e encerrar seu movimento ao lado de um Peão oponente, o Peão oponente poderá se mover diagonalmente para a casa pela qual esse Peão passou (efetivamente ficando atrás dele); caso faça isso, o Peão oponente será capturado, como se o movimento tivesse se encerrado na casa ocupada por ele. A captura en passant deve ser feita no movimento imediatamente seguinte após o Peão sair de sua posição inicial, ou não poderá ser feito mais. A segunda se chama promoção: caso um Peão consiga cruzar todo o tabuleiro (um Peão branco chegue na linha 8, ou um Peão preto chegue na linha 1), ele poderá ser trocado por uma Rainha, Bispo, Cavalo ou Torre - mesmo que todas as peças do tipo escolhido ainda estejam no tabuleiro, ou seja, é possível um jogador ficar com duas damas ou três Cavalos, por exemplo. O ideal é substituir o Peão pela peça escolhida, mas, caso não haja essa possibilidade, é importante arrumar uma forma de identificar esse Peão para que ele não seja confundido com os demais pelo restante da partida.

Assim que um jogador não possui movimentos válidos em sua vez de jogar, o jogo termina. Se o jogo terminou com o Rei em xeque, ocorrerá o xeque-mate, e o oponente do jogador que tem o Rei em xeque será o vencedor. Caso o jogo termine sem um rei em xeque, é declarado um empate. Também há empate caso o jogo entre em loop, ou seja, se todos os movimentos válidos fizerem os jogadores repetirem seus três últimos movimentos indefinidamente, sem possibilidade de movimentos diferentes; caso após 50 movimentos nenhum peão tenha se movido e nenhuma peça tenha sido capturada; ou caso os jogadores não tenham peças suficientes pra dar xeque-mate no oponente - um jogador só tem o Rei e o outro só tem o Rei e um Cavalo, por exemplo. Um jogador também pode desistir a qualquer momento, derrubando seu próprio Rei no tabuleiro e dando a vitória a seu oponente - o que normalmente ocorre quando um jogador vê que não conseguirá escapar de um xeque-mate, e decide abreviar a duração da partida ao invés de continuar jogando até lá. Curiosamente, um jogador também pode propor o empate ao oponente ao invés de desistir; caso o oponente aceite, o jogo termina empatado - para evitar abusos, a FIDE só permite que um jogador proponha o empate após ele ter feito no mínimo 30 movimentos, e somente se não há possibilidade de ele sofrer um xeque-mate nos três movimentos do oponente imediatamente seguintes.

Em torneios oficiais, cada jogador possui um tempo-limite para realizar seus movimentos. Esse tempo é controlado por um relógio especial posicionado ao lado do tabuleiro, que possui dois mostradores e dois botões, um de cada para cada jogador; toda vez que um jogador conclui seu movimento, ele pressiona seu botão, o que interrompe a contagem de seu tempo e inicia a contagem do tempo do oponente. Relógios de xadrez podem ser analógicos (que soam um alarme quando o tempo-limite é atingido) ou digitais (que mostram o tempo em minutos, segundos, décimos e centésimos, e contam de trás para a frente, soando o alarme quando atingem o zero); relógios de torneios oficiais da FIDE sempre são digitais. Quando o tempo de um jogador se esgota, a vitória é dada ao oponente, exceto se for considerado que o oponente não teria chance clara de alcançar o xeque-mate, caso no qual o jogo termina em empate. Em todos os torneios da FIDE, exceto o Candidates e o Mundial, o tempo para cada jogador é de 90 minutos para os primeiros 40 movimentos e 30 minutos para o restante do jogo, com cada jogador ganhando 30 segundos a mais cada vez que faz um movimento (ou seja, cada vez que aperta o botão); no Candidates e no Mundial o tempo é de 100 minutos para os primeiros 40 movimentos, 50 minutos para os 20 movimentos seguintes, e 15 minutos para o restante do jogo, mais uma vez com cada jogador ganhando 30 segundos a mais cada vez que faz um movimento.

O xadrez como conhecemos hoje surgiu na Europa no século XV, mas é descendente de um jogo muito mais antigo, que, segundo os historiadores, surgiu na Índia entre os anos de 280 e 550, e se chamava chaturanga, nome que significa "quatro patentes", e fazia referência aos quatro tipos de peças usadas no jogo, infantaria, carruagens, cavalos e elefantes, que evoluiriam, respectivamente, para se tornar o Peão, o Bispo, o Cavalo e a Torre. O chaturanga sairia da Índia pelas mãos de mercadores e, no século VI, chegaria à Pérsia, onde seu nome seria corrompido para chatrang. Com a conquista islâmica da Pérsia, ocorrida entre os anos de 633 e 644, o chatrang se espalharia pelos países muçulmanos, onde teria alterados não somente seu nome, que passaria a ser al-shahtranj, mas também suas regras, ganhando duas novas peças, o Rei (shah em persa, por isso o novo nome) e o vizir. Com a invasão da Espanha pelos mouros, que começou no ano 711, o al-shahtranj chegaria à Península Ibérica, onde seu nome seria corrompido, em espanhol, para ajedrez, e, posteriormente, corrompido de novo, em português, para xadrez.

Apenas uma pequena pausa para dizer que "corrompido", em idiomas, não é necessariamente uma coisa ruim ou nociva, como a corrupção no governo ou em histórias de super-heróis nas quais "o herói foi corrompido pelo vilão". Quando dizemos que uma determinada palavra foi corrompida, estamos querendo dizer que alguém não entendeu direito essa palavra quando outra pessoa falou, saiu espalhando o que entendeu, e essa versão espalhada foi a que pegou. Mais ou menos como se um espanhol perguntasse "qual o nome desse jogo?", um árabe respondesse "al-shahtranj", e ele dissesse "ah, sim, legal, ajedrez", e saísse contando pra todo mundo que o nome do jogo era ajedrez. Talvez tenha sido isso mesmo o que aconteceu, jamais saberemos. Fim da pausa.

Pois bem, após chegar à Espanha, o xadrez se espalharia para outros países da Europa, e, a partir do ano 1200, várias modificações começariam a ser feitas em suas regras, principalmente na Espanha e na Itália, para que o jogo ficasse mais de acordo com o gosto dos jogadores locais; a principal dessas modificações seria a substituição da peça do vizir, figura praticamente desconhecida nas cortes europeias, pela Rainha, o que parecia mais sensato, já que o jogo já tinha um Rei. Em 1475, seria publicado na Espanha e na Itália um conjunto de modificações pesadas nas regras, que tornariam o jogo bastante parecido com o que jogamos hoje; seria nessa publicação, por exemplo, que apareceriam pela primeira vez a regra de que o Peão pode andar duas casas ao sair de sua posição inicial, o roque, o fato de que o Bispo pode andar livremente, mas apenas em diagonal, e o de que a Rainha pode andar livremente em qualquer uma das oito direções, transformando-a na peça mais poderosa do jogo. Por causa dessa característica, nos primeiros anos esse conjunto de regras seria considerado não como o oficial do xadrez, mas como o de uma variação, conhecida como "xadrez da Rainha louca". Rapidamente, entretanto, o "xadrez da Rainha louca" suplantaria todas as outras formas de xadrez da Europa em popularidade; no final do século XV, praticamente todo mundo só jogava de acordo com suas regras, com as demais sendo consideradas meras variações e restritas a grupos pequenos de jogadores.

As regras do xadrez permaneceriam praticamente sem mudanças até o início do século XIX, quando alterações feitas na França, na época o centro cultural da Europa, começariam a ser exportadas para outros países. São dessa época a padronização das regras para o empate - até então, cada grupo de jogadores tinha suas próprias regras para determinar se um jogo terminou empatado - e para que o jogador que controla as brancas comece o jogo. Essas também seriam as últimas alterações significativas nas regras; desde então, todas as alterações são técnicas, como o estabelecimento do limite de 30 movimentos para poder se propor um empate, ou de 50 para encerrar o jogo caso nenhuma peça tenha sido capturada.

Também no século XIX começariam a surgir as primeiras organizações voltadas à prática do xadrez, como os clubes de xadrez, as editoras especializadas em livros sobre xadrez, e os jornais e revistas dedicados exclusivamente ao xadrez. Os primeiros "problemas de xadrez", que apresentavam um tabuleiro já com um jogo em andamento e convidavam o jogador a descobrir quais movimentos seriam necessários para se obter o resultado desejado (por exemplo, "Torre captura o Cavalo em três movimentos") também começariam a ser publicados em periódicos dessa época. O primeiro torneio de xadrez seria realizado em Londres, em 1851, organizado por Howard Staunton, um dos mais importantes jogadores de xadrez da Inglaterra, e vencido pelo alemão Adolf Anderssen, que viria a ser considerado o primeiro mestre enxadrista. Em 1886, o austríaco Wilhelm Steinitz se autoproclamaria o primeiro campeão mundial de xadrez, após derrotar todos os principais jogadores em atividade na época.

No início do século XX. quase a totalidade dos jogadores consideravam o xadrez como um esporte, e não como um mero jogo de tabuleiro ou passatempo; imitando o que ocorria com os demais esportes, os clubes de xadrez decidiriam se unir e fundar um órgão que padronizasse o xadrez em todo o mundo, cuidando também para que ele se tornasse cada vez mais popular. Assim, em 1924, surgiria a FIDE, que se tornaria responsável por organizar os mais importantes torneios de xadrez do planeta, por publicar as regras oficiais do xadrez, e por incentivar a abertura de clubes, oficinas e programas de xadrez em todo o mundo, para garantir a continuidade do esporte. A FIDE também reconhece a habilidade e importância dos principais jogadores de xadrez do planeta, conferindo a eles títulos como os de Mestre e Grande Mestre.

O torneio de maior prestígio da FIDE é o Campeonato Mundial, que, em sua forma atual, existe apenas desde 1950. O primeiro campeão mundial após a fundação da FIDE seria o cubano José Raúl Capablanca y Graupera, campeão de 1921 a 1927, mas a FIDE também reconhece dois campeões oficiais antes dele: Steinitz, campeão de 1886 a 1894, e o alemão Emanuel Lasker, campeão de 1894 a 1921. Entre 1886 e 1950, o título do xadrez era disputado da mesma forma, por exemplo, que o do boxe, com qualquer jogador podendo desafiar o atual campeão, que aceitava o desafio ou não; ganhando, o campeão mantinha o título, mas, perdendo, havia um novo campeão. Sob esse sistema, o russo naturalizado francês Alexander Alekhine tirou o título de Capablanca em 1927, o perdeu para o holandês Max Euwe em 1935, o recuperou em 1937, e o manteve até sua morte, em 1946. A FIDE, então, decidiria organizar um campeonato entre os principais jogadores do mundo em 1948, no qual sagrou-se campeão o soviético Mikhail Botvinnik. Depois desse torneio, ao invés de manter o sistema de desafios, a FIDE criaria um sistema classificatório, do qual o vencedor teria o direito de enfrentar o atual campeão. Pelas regras originais, o atual campeão teria direito a uma revanche no ano seguinte, com cada ciclo classificatório durando três anos; esse sistema, entretanto, seria abolido em 1961.

Botvinik daria início a uma verdadeira dinastia soviética: até a dissolução da União Soviética em 1991, apenas um jogador não-soviético seria campeão mundial de xadrez, o norte-americano Bobby Fischer, campeão de 1972 a 1975 - Botvinnik perderia o título para Vasily Smyslov em 1957, o recuperaria no ano seguinte, o perderia para Mikhail Tal em 1960, o recuperaria novamente no ano seguinte, e o perderia para Tigran Petrosian em 1963, sendo sucedido por Boris Spassky em 1969, Fischer em 1972, Anatoly Karpov em 1975 e Garry Kasparov em 1985. Em 1993 ocorreria um racha, e os principais jogadores, incluindo Kasparov, sairiam da FIDE e fundariam a Associação dos Jogadores Profissionais de Xadrez (PCA), que organizaria seu próprio Mundial até 2006, quando se fundiria mais uma vez com a FIDE. A PCA só teria dois campeões, Kasparov de 1993 a 2000 e o russo Vladimir Kramnik de 2000 a 2006; enquanto isso, na FIDE, Karpov seria campeão em 1993, o russo Alexander Khalifman em 1999, o indiano Viswanathan Anand em 2000, o ucraniano Ruslan Ponomariov em 2002, o uzbeque Rustam Kasimdzhanov em 2004, e o búlgaro Veselin Topalov em 2005. Após a fusão, Kramnik seria campeão pela FIDE em 2006, Anand retomaria seu título em 2007, e o perderia em 2013 para o atual campeão, o norueguês Magnus Carlsen.

Pelo sistema estabelecido pela FIDE em 1950, o Mundial se divide em três etapas: os torneios classificatórios, o torneio Candidates, e o Mundial propriamente dito. Os classificatórios são uma série de torneios realizados em vários países, que vão classificando seus vencedores para etapas cada vez mais concorridas, até chegarem às etapas de maior prestígio, nas quais os mais bem colocados se classificam para o Candidates; atualmente, os dois torneios que classificam para o Candidates são a Copa do Mundo de Xadrez, realizada a cada dois anos desde 2005, e o FIDE Grand Prix, realizado em intervalos irregulares (segundo as más línguas, "sempre que a FIDE quer") desde 2008, sendo possível ambos serem realizados no mesmo ano. Desde 2009, o Candidates é disputado pelos oito principais jogadores vindo desses dois torneios, com o campeão do Candidates se classificando para enfrentar o atual campeão no ano seguinte. Essa partida entre o vencedor do Candidates e o atual campeão é que se chama Campeonato Mundial.

Desde 1927, a FIDE também organiza o Campeonato Mundial Feminino de Xadrez, que, ao contrário do masculino, tem regras muito simples: as principais jogadoras do mundo se classificam para o Mundial através de vários torneios classificatórios disputados ao redor do planeta, se enfrentam em um sistema de mata-mata igual ao usado, por exemplo, em um torneio de tênis, até que só restem as duas finalistas, que disputarão o título em uma melhor que quatro jogos mais um tie-break (com tempo mais curto, 25 minutos mais 10 segundos após cada movimento) caso cada uma ganhe dois. Atualmente, o Mundial Feminino é disputado por 64 jogadoras.

A primeira campeã no feminino foi a russa naturalizada tcheca Vera Menchik, que manteve o título de 1927 a 1944; entre 1944 e 1950 não houve Mundial Feminino, por causa da Segunda Guerra, e, após seu retorno, começou uma dinastia soviética: Lyudmila Rudenko em 1950, Elisaveta Bykova em 1953, Olga Rubtsova em 1956, Bykova de novo em 1958, Nona Gaprindashvili em 1962 e Maia Chiburdanidze em 1978. Chiburdanidze só perderia o título em 1991, para a chinesa Xie Jun, que o perderia para a húngara Susan Polgar em 1996 e o recuperaria em 1999. Depois de Jun seriam campeãs a chinesa Zhu Chen em 2001, a búlgara Antoaneta Stefanova em 2004, a chinesa Xu Yuhua em 2006, a russa Alexandra Kosteniuk em 2008, a chinesa Hou Yifan em 2010, 2013 e 2016, as ucranianas Anna Ushenina em 2012 e Mariya Muzychuk em 2015, e a chinesa Tan Zhongyi em 2017. A atual campeã é outra chinesa, Ju Wenjun, que conquistou o título em 2018.

domingo, 2 de junho de 2019

Universo Cinematográfico Marvel (I)

Esse é um post - ou melhor, uma série de posts - que eu já venho querendo escrever há algum tempo, mas, evidentemente, tinha de esperar toda a história se concluir para que a série ficasse completa. Cheguei a pensar em fazer alguns posts após cada Fase, mas depois concluí que o melhor mesmo seria começar só depois que a Fase 3 acabasse. Quando finalmente comecei a escrever, também pensei que poderia ter começado antes, para que o último não ficasse tão distante da conclusão da Fase 3 nos cinemas, mas, começando agora, pelo menos, quando os últimos posts forem publicados, terão menos spoilers. A justificativa para essa série é, no mínimo, desnecessária: eu adoro os heróis Marvel desde a infância, e vê-los interagindo uns com os outros na tela do cinema foi um sonho realizado. E, agora que a primeira parte desse sonho chegou ao final, nada mais justo que homenageá-la aqui. Hoje é dia de Universo Cinematográfico Marvel no átomo!

Aliás, só hoje, não. Como seria impossível falar de forma minimamente decente de 23 filmes em um único post, é claro que será uma série, como eu inclusive já falei no parágrafo anterior. E essa série, evidentemente, não será sequencial, para que quem não gosta dos filmes do MCU (sigla do nome em inglês, Marvel Cinematic Universe, que eu vou usar ao longo da série porque é mais popular e mais simpática que UCM) não precise fugir daqui e só voltar quando a série tiver terminado. A partir de hoje, portanto, quando vocês menos esperarem, teremos mais uma parte dessa série, intercalada com outros assuntos - até que chegue o post que vai falar sobre Homem-Aranha: Longe de Casa, encerrando-a. Tudo explicadinho, comecemos!

O Início

Os super-heróis começaram a aparecer no final da década de 1930, com o Super-Homem e o Batman. Sua transição dos quadrinhos para o cinema se deu muito rápido: já na década seguinte, serials estrelados por esses dois personagens seriam produzidos pela Columbia Pictures. Serials, porém, não eram longa-metragens, sendo mais parecidos com séries de TV, com uma história dividida em diversos episódios exibidos com alguma distância temporal entre eles. Como na época não havia televisão, os serials eram exibidos nos cinemas, com o preço do ingresso sendo mais barato que o de um longa-metragem, já que sua duração também era mais curta.

O primeiro longa-metragem estrelado por um super-herói dos quadrinhos seria lançado em 1951, estrelando o Super-Homem. Não era um "filme verdadeiro", entretanto, e sim o piloto da série de TV As Aventuras do Super-Homem, estrelada por George Reeves e exibida entre 1952 e 1958 em syndication (vários canais diferentes por todo o país), para um total de seis temporadas e 104 episódios; esse piloto seria lançado nos cinemas justamente para chamar atenção sobre a série, que faria um grande sucesso. O segundo filme de super-heróis dos quadrinhos para o cinema também seria da DC, estrelaria o Batman, e estrearia em 1966. Mais uma vez, todavia, não seria um "filme verdadeiro", e sim uma espécie de episódio especial da série Batman, estrelada por Adam West e Burt Ward, e exibida pela ABC entre 1966 e 1968, para um total de três temporadas e 120 episódios de enorme sucesso. Esse filme também foi exibido na TV, e acabou indo parar nos cinemas para que a Fox, sua produtora, ganhasse mais alguns trocados com seu sucesso.

O terceiro filme para o cinema dos super-heróis dos quadrinhos mais uma vez seria da DC, e, esse sim, poderia ser considerado "verdadeiro": produzido pela Warner Bros. e com orçamento de 55 milhões de dólares, o que fez com que ele fosse o filme mais caro de todos os tempos até então, Superman, estrelado por Christopher Reeve, Gene Hackman, Margot Kidder e Marlon Brando, e dirigido por Richard Donner, estrearia em 10 de dezembro de 1978, seria um imenso sucesso, rendendo mais de 300 milhões de dólares e sendo indicado a três Oscars, e é hoje considerado um dos maiores filmes de ação de todos os tempos. Poucos novos filmes de super-heróis, porém, viriam em seu rastro, sendo os dois principais motivos para essa escassez o de que eles eram muito caros e os personagens, com raras exceções, não eram considerados de grande apelo popular - fora as sequências de Superman, o filme seguinte estrelado por um super-herói da DC seria Batman, de Tim Burton, com Michael Keaton e Jack Nicholson, lançado praticamente dez anos depois, em 1989, e, fora suas sequências, o seguinte seria Aço, com Shaquille O'Neal, de 1997 - ou seja, um herói novo a cada década.

Mas não é a DC que interessa para esse post, e sim a Marvel, que nasceu em novembro de 1961, com a publicação da Fantastic Four número 1. Se, para a DC, que tinha os super-heróis mais famosos do mundo e desde 1967 pertencia à Warner, era difícil conseguir contratos para a produção de filmes, imaginem para a Marvel - hoje em dia, isso pode parecer impossível, mas, durante anos, os personagens da Marvel, com poucas exceções, eram famosos apenas dentre os fãs de quadrinhos, não sendo considerados ícones da cultura pop como, por exemplo, o Super-Homem, o Batman e a Mulher Maravilha. O resultado foi que o primeiro filme para cinema estrelando um super-herói Marvel chegaria às telas somente em 1998 - e sequer seria um dos super-heróis, digamos, Classe A. Blade, estrelado por Wesley Snipes, começaria a ser produzido em 1992, quando o rapper LL Cool J procuraria a Marvel se dizendo interessado em interpretar o personagem, e a editora começaria a procurar um estúdio parceiro. Eles acabariam fechando com a New Line Cinema, que não se interessaria em LL Cool J, convidando Snipes, que estrelaria um total de três filmes do personagem - os outros dois lançados em 2002 e 2004.

É importante registrar que, antes do filme de Blade, tivemos algumas tentativas, a primeira sendo um serial do Capitão América que estreou nos cinemas em 1944, mas não conta porque, na época, a Marvel ainda nem existia, e o personagem pertencia à Timely Comics. Mais de quarenta anos depois, em 1986, estrearia Howard, o Super-Herói, mas Howard, o Pato, apesar de ser um personagem Marvel (e do que o subtítulo de seu filme em português dissesse) não era um super-herói. Em 1989, antes até do filme do Batman, seria lançado um filme do Justiceiro, estrelando Dolph Lundgren, mas, nos Estados Unidos, ele seria lançado diretamente em vídeo, só estreando nos cinemas em alguns outros países, dentre eles o Brasil, onde só chegou em 1991. O mesmo ocorreria com Capitão América, de 1990, lançado direto em vídeo nos EUA mas estreando nos cinemas em alguns outros países - dessa vez, não no Brasil. E, é claro, temos o exemplo mais famoso, o filme do Quarteto Fantástico, de 1994, dirigido por Roger Corman, jamais lançado em nenhum tipo de mídia (segundo alguns, porque era ruim demais). Homem-Aranha, Hulk, Capitão América, Dr. Estranho, Nick Fury e a Geração X também ganhariam filmes feitos para a TV, alguns relacionados às suas respectivas séries, outros sendo pilotos de séries jamais lançadas.

Na década de 1990, a Marvel conseguiria um acordo com a Saban Entertainment para lançar não um filme, mas sim uma série animada para a TV, que acabaria se tornando um marco: X-Men, que estrearia na Fox em outubro de 1992. Já existiam planos para a realização de um filme para o cinema dos X-Men desde 1984, primeiro através de um contrato com a Orion Pictures, que desistiu em 1989 por estar passando por graves problemas financeiros, depois através de um acordo com James Cameron, segundo o qual sua então esposa, Katheryn Bigelow, dirigiria o filme, estrelado por Bob Hoskins como Wolverine e Angela Basset como Tempestade, e que azedaria em 1992, quando Stan Lee não concordaria que um filme do Homem-Aranha estrelado por Tom Cruise fosse dirigido por Cameron como parte do pacote. O sucesso da série animada motivaria a Fox a reabrir negociações com a Marvel, que, mal das pernas financeiramente, decidiria, então, fazer uma espécie de leilão de seus personagens, que seriam distribuídos por vários estúdios.

Ao estabelecer as regras para o licenciamento, a Marvel dividiria seus personagens em três grupos, com os do grupo dos principais (os que eu chamei ainda há pouco de Classe A) sendo mais caros, e os menos famosos, mais baratos. Quem estava mais disposta a abrir o bolso foi a Fox, que licenciou os X-Men, o Quarteto Fantástico e o Demolidor (fazendo também um filme da Elektra, que estava no pacote do Demolidor); a Sony ficaria com o Homem-Aranha (incluindo outros personagens originários de suas histórias, como o Venom), Thor e o Motoqueiro Fantasma; a Lionsgate com o Justiceiro e o Homem-Coisa; a Universal ficaria com o Hulk e com Namor (único dessa lista que acabou não ganhando filme); e a New Line, que já tinha Blade, com o Homem de Ferro. O Capitão América acabou não podendo ser licenciado, devido a uma disputa jurídica entre a Marvel e Joe Simon, co-criador do personagem, que queria controle total sobre ele. Se vocês estão estranhando o Homem de Ferro e Thor nessa lista, saibam que os direitos de ambos acabaram revertendo para a Marvel antes de 2005, por motivos que eu vou explicar quando falar de seus primeiros filmes. Demolidor, Justiceiro, Homem-Coisa, Namor e Motoqueiro Fantasma também acabariam voltando para a Marvel; os demais licenciamentos valem até hoje.

O primeiro filme dessa nova leva de super-heróis foi X-Men, de 2000, um grande sucesso de crítica e público. Em seguida viria Homem-Aranha, de 2002, um sucesso maior ainda. X-Men 2, de 2003, e Homem-Aranha 2, de 2004, elevariam ainda mais o padrão, mas os demais heróis Marvel falhariam em manter o mesmo nível, com Demolidor e Hulk, de 2003, O Justiceiro, de 2004, e Elektra e Quarteto Fantástico, de 2005, sendo todos bombardeados pela crítica e tendo desempenho abaixo do esperado nas bilheterias. O Homem-Coisa, também de 2005, acabou sendo lançado diretamente em vídeo. Todos esses filmes foram co-produzidos pela Marvel em parceria com os estúdios que licenciaram seus personagens; a participação da Marvel, porém, era mínima, praticamente se limitando a ceder os personagens ao estúdio. Isso, evidentemente, fazia com que a Marvel tivesse pouco (ou nenhum) controle artístico ou criativo sobre os filmes, e com que seu retorno financeiro também fosse muito baixo - a Fox, portanto, lucra muito mais com cada filme dos X-Men do que a Marvel, que só recebe um valor a título de copyright pelo uso dos personagens, sem, por exemplo, porcentagem nas bilheterias.

Em 2005, aproveitando que, mesmo com os recentes insucessos, os filmes de super-heróis estavam em alta, e que a Marvel ainda tinha uma penca de personagens que ninguém quis licenciar, Avi Arad, presidente da divisão de cinema da editora (e produtor executivo de todos os filmes do parágrafo anterior), decidiria dar um passo além, e fundar um estúdio próprio da Marvel. Produzindo seus próprios filmes, a Marvel não somente teria uma parcela maior nos lucros, mas também maior controle criativo sobre o material que chegaria às telas - Arad, inclusive, disse que uma das razões que o levou a criar um estúdio próprio foi o fato de que ele gostou muito de Homem-Aranha 1 e 2, mas detestou os demais filmes, achando que eles não foram fiéis à essência dos personagens nos quadrinhos. Após fechar um contrato de distribuição com a Paramount, com quem a Marvel já havia feito parcerias no passado (como, por exemplo, para publicar uma versão em quadrinhos de Jornada nas Estrelas), Arad anunciaria, oficialmente, a criação dos Marvel Studios, escolhendo Kevin Feige, então um jovem produtor de 31 anos, como seu segundo em comando.

Ao perceber que a Marvel detinha os direitos do Homem de Ferro, do Capitão América e de Thor, Feige teve uma ideia ousada: sendo fã declarado de Stan Lee e Jack Kirby, ele tentaria fazer nos cinemas o que essa dupla fez nos quadrinhos: um universo coeso, no qual os super-heróis não existem de forma independente, e sim convivem uns com os outros, se ajudando e se enfrentando com regularidade. Feige traçou um plano segundo o qual seriam lançados três filmes, um estrelado por cada um desses super-heróis, e, então, um filme dos Vingadores, no qual os três agiriam juntos para formar a equipe. A cúpula da Marvel deu luz verde para o projeto, e, para poder realizá-lo, os Marvel Studios pegaram um empréstimo de 525 milhões de dólares com o banco Merrill Lynch. Arad foi instrumental para que o banco aprovasse o projeto - afinal, ele havia sido produtor executivo de todos os filmes de super-heróis Marvel lançados nos anos 2000 - mas, pessoalmente, não acreditava que ele fosse dar certo, e, citando divergências criativas, em 2006 pediria demissão da Marvel para fundar sua própria empresa, a Arad Productions.

Após a saída de Arad, a Marvel, que decidiu bancar o projeto de Feige (afinal, já tinha pedido o empréstimo mesmo), criou uma comissão formada por pessoas com profundo conhecimento dos quadrinhos da editora, para garantir que os filmes fossem o mais fiéis possível ao que era visto nas revistas. Essa comissão era composta por Feige; Louis D'Esposito, que assumiu a presidência dos Marvel Studios após a saída de Arad; Dan Buckley, então editor da Marvel Comics; o roteirista e desenhista Joe Quesada, então chefe do departamento criativo da editora; o roteirista Brian Michael Bendis; e o então presidente da Marvel Entertainment, Alan Fine. Esse sexteto seria o responsável por fazer uma sinopse de como se desenrolariam os eventos dos filmes do que seria posteriormente conhecido como Fase 1. Feige daria a sugestão de chamar o projeto de Universo Cinematográfico Marvel (já que o dos quadrinhos é amplamente conhecido como Universo Marvel), e, em 2007, aos 33 anos, seria escolhido por Fine para liderar o projeto.

Antes de começar a falar sobre o primeiro filme desse projeto, vale citar rapidinho os demais filmes envolvendo personagens Marvel (os lançados desde 2005) e que não fazem parte do MCU. A maioria deles foi de grandes fracassos, alguns foram relativos sucessos, mas nenhum deles chegou perto de repetir o que fizeram X-Men 1 e 2 ou Homem-Aranha 1 e 2. Foram eles: X-Men: O Confronto Final (2006), Motoqueiro Fantasma, Homem-Aranha 3, Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado (os três de 2007), O Justiceiro em Zona de Guerra (2008), X-Men Origens: Wolverine (2009), X-Men: Primeira Classe, Motoqueiro Fantasma: Espírito da Vingança (ambos de 2011), O Espetacular Homem-Aranha (2012), Wolverine: Imortal (2013), O Espetacular Homem-Aranha: A Ameaça de Electro, X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (ambos de 2014), Quarteto Fantástico (2015), Deadpool, X-Men: Apocalipse (ambos de 2016), Logan (2017), Deadpool 2, Venom (ambos de 2018), e X-Men: Fênix Negra (2019).

Homem de Ferro
Iron Man
2008

A primeira vez em que a Marvel resolveu fazer um filme do Homem de Ferro, acreditem ou não, foi em 1990, quando a Universal fechou um contrato de licenciamento. O filme jamais passou da pré-produção, e, em 1996, a Fox comprou os direitos diretamente da Universal. Um roteiro chegou a ser escrito, com altas doses de ficção científica e MODOK como vilão, Nicolas Cage e Tom Cruise expressaram o desejo de interpretar o herói, e, pasmem, Quentin Tarantino se ofereceu para dirigi-lo, mas, talvez felizmente, quando conseguiu os direitos dos X-Men e do Quarteto Fantástico, a Fox abriu mão dos do Homem de Ferro, que foram adquiridos pela New Line. Mais uma vez um roteiro foi escrito, no qual o vilão seria Howard Stark, pai de Tony Stark, que, no final, enfrentava o filho usando a armadura do Máquina de Combate. Nick Cassavettes foi contratado para dirigir, mas, como o filme mais uma vez não saía da pré-produção, a New Line desistiu, e os direitos do Homem de Ferro voltaram para a Marvel no início de 2005. Após a criação dos Marvel Studios, Feige decidiria descartar essas ideias todas e recomeçar do zero, fazendo o personagem mais fiel à sua versão original dos quadrinhos.

Logo nas primeiras reuniões do sexteto dos Marvel Studios, ficaria definido que o primeiro filme do MCU seria o do Capitão América - as razões pelas quais isso não ocorreu estarão no próximo post dessa série - e que o do Homem de Ferro seria o segundo. O método pelo qual se chegou a essa conclusão foi, no mínimo, pouco ortodoxo: grupos de crianças foram formados, e a elas foram oferecidos bonecos do Thor, do Hulk e do Homem de Ferro para saber com qual deles elas gostariam mais de brincar, sendo o Homem de Ferro o vencedor. Talvez a principal característica que fez com que o Homem de Ferro fosse o preferido das crianças, entretanto, também seria a causadora da maior dificuldade da Marvel na pré-produção do filme: ele se parecia com um robô.

Acontece que o Homem de Ferro não era tão popular dentre os que não conheciam os quadrinhos Marvel quanto, por exemplo, o Homem-Aranha ou o Capitão América, e, através de uma pesquisa, a Marvel descobriu que a maioria das pessoas achavam que ele era um robô, e não uma pessoa usando uma armadura. Isso fez com que fosse extremamente difícil para a Marvel conseguir um roteirista interessado em escrever um roteiro fiel aos quadrinhos, pois a maioria deles nem sabia como era o personagem nos quadrinhos, e não estava disposto a ler histórias de um personagem obscuro para descobrir. Segundo o produtor associado Jeremy Latham, mais de trinta roteiristas recusaram o convite da Marvel, que preferiu, então, adotar outra estratégia pouco ortodoxa: criou grupos de trabalho para convencer as pessoas de que o Homem de Ferro não era um robô, lançou três curta-metragens animados para que o personagem se tornasse mais conhecido, e contratou o diretor antes de ter um roteiro.

Antes de sair da Marvel, Arad conversou com Jon Favreau, que havia conhecido durante as filmagens de Demolidor (no qual Arad foi produtor executivo e Favreau interpretou o personagem Foggy Nelson, melhor amigo de Matt Murdock, o Demolidor), e o convidou para dirigir Homem de Ferro. Favreau, que até então tinha mais experiência como ator do que como diretor, só tendo dirigido três filmes (Crime Desorganizado, Um Duende em Nova Iorque e Zathura: Uma Aventura Espacial), todos com um toque de comédia, aceitaria na hora, e declararia que seu intuito era fazer um filme com um quê de espionagem e intriga internacional, misturando elementos de Tom Clancy, James Bond e Robocop. Segundo ele, seria a jornada de um homem que tem de se redescobrir e se reinventar após descobrir que o mundo é muito mais complicado do que ele acreditava.

Favreau optaria por manter a origem e a jornada do Homem de Ferro o mais próxima possível dos quadrinhos originais da década de 1960, mas, como o filme seria ambientado na época atual, substituiria a Guerra do Vietnã pela do Afeganistão. Ele chamaria uma equipe de pesos-pesados dos roteiros da Marvel, composta por Mark Millar, Brian Michael Bendis, Joe Quesada, Tom Brevoort, Axel Alonso e Ralph Macchio, para garantir que o roteiro tivesse fidelidade aos quadrinhos, e contrataria duas duplas de roteiristas (Art Marcum e Matt Holloway, Mark Fergus e Hawk Ostby) para escrever dois roteiros diferentes, com John August juntando ambos e fazendo um roteiro só.

Uma parte complicada do roteiro foi escolher o vilão do filme. Favreau não acreditava que o Mandarim, arqui-inimigo do Homem de Ferro, seria um vilão plausível para o tipo de filme que ele estava escrevendo, já que seus anéis seriam um elemento por demais fantasioso em um filme que deveria ter um tom futurista, mas realístico. Nas primeiras versões do roteiro, o vilão seria o Dínamo Escarlate, e Obadiah Stane, que nos quadrinhos é o vilão Monge de Ferro, seria apenas um coadjuvante, não chegando a usar sua armadura no filme. Mas, quando Jeff Bridges aceitou o papel de Stane, Favreau decidiu promovê-lo a vilão, dando a ele, também, uma armadura, como nos quadrinhos - é interessante notar que, no filme, Stane jamais usa o nome Monge de Ferro, exceto em uma piada; também vale citar que o nome do personagem em inglês, Iron Monger, traduz para algo como "industrial de ferro", ficando a parte do monge por conta de muita criatividade na tradução dos quadrinhos de quando ele apareceu pela primeira vez no Brasil. Após decidir que Stane seria o vilão, Favreau pediria para que o Mandarim fosse "uma presença maligna" no filme, mais ou menos como Sauron em O Senhor dos Anéis ou o Imperador Palpatine em O Império Contra-Ataca, pensando em utilizá-lo em uma possível sequência do filme.

Favreau também seria responsável por escolher pessoalmente o ator que interpretaria Tony Stark, o homem que criou e veste a armadura do Homem de Ferro. Inicialmente, ele declararia estar atrás de um ator desconhecido, pois, em sua opinião, as estrelas dos filmes de super-heróis são os super-heróis, não importando muito quem os interprete, inclusive citando os exemplos de Hugh Jackman, o Wolverine de X-Men, e de Tobey Maguire em Homem-Aranha, na época nenhum dos dois parte do primeiro time. Em setembro de 2006, entretanto, ele surpreenderia e anunciaria que Robert Downey, Jr. havia sido escolhido para o papel. Hoje, Downey é quase uma unanimidade, e parece ter sido uma escolha perfeita, mas, na época, esse anúncio foi extremamente controverso: após ficar muito famoso com comédias nos anos 1980, Downey teria um problema sério com drogas nos anos 1990, e passaria a ser considerado uma aposta de alto risco pela maioria dos estúdios. Favreau justificaria sua escolha comparando a jornada pessoal de Downey com a de Stark: assim como o herói dos quadrinhos, o ator teve seus melhores e piores momentos testemunhados pelo público, e teve de superar obstáculos que iam muito além de sua vida profissional.

O único outro ator que Favreau escalaria seria ele mesmo no papel de Happy Hogan, o secretário pessoal de Stark. Terrence Howard como o Coronel da Aeronáutica James Rhodes, melhor amigo de Stark; Gwyneth Paltrow como Pepper Potts, que nos quadrinhos é interesse romântico de Happy, mas no filme seria interesse romântico de Stark; e Shaun Toub como Yinsen, cientista que ajuda Stark a criar sua primeira armadura, seriam escalados pela direção de elenco dos Marvel Studios, assim como Bridges para o papel de Stane. Completam o elenco Paul Bettany como a voz de Jarvis, a inteligência artificial que atua como "mordomo" de Stark, e Clark Gregg como Phil Coulson, agente da S.H.I.E.L.D., uma organização de segurança global que deseja interrogar Stark sobre o tempo que ele passou em cativeiro.

Outra opção de Favreau seria não fazer as armaduras do Homem de Ferro e do Monge de Ferro completamente em computação gráfica, para que elas fossem mais realísticas - assim como evoluir a armadura do Homem de Ferro em etapas, para dar a ideia de um trabalho contínuo. Stan Winston, um dos maiores especialistas em efeitos especiais de Hollywood e fã dos quadrinhos do Homem de Ferro, seria escalado para fazer versões em metal e em borracha de todas as armaduras, algumas, inclusive, com funções de animatronics, ficando os estúdios Industrial Light & Magic, The Orphanage e The Embassy a cargo da computação gráfica. A armadura que daria mais trabalho seria a do Monge de Ferro, com um modelo em escala sendo criado para ser usado nas cenas de sua construção, e um enorme animatronic de 3 m de altura e 360 kg sendo usado na maioria das cenas, com a computação gráfica só assumindo nas cenas de luta, para as quais o animatronic não tinha mobilidade.

A primeira armadura do Homem de Ferro, apelidada Mark I, teria uma aparência propositalmente rústica, já que seria feita de peças sobressalentes no meio do deserto; ela pesaria 41 kg (o que causou preocupação quando o dublê que a vestia tropeçou e caiu; felizmente ninguém se feriu), seria muito mais bem trabalhada na parte da frente que na de trás, já que Stark precisaria de mais proteção pela frente, e era composta apenas pela parte de cima, sendo a parte da cintura para baixo feita de alumínio e tecido. A segunda armadura, prateada, apelidada Mark II, tinha uma versão "real" de pouca mobilidade, sendo usada computação gráfica nas cenas em que ela aparece voando ou em movimento. A armadura final, Mark III, tinha um pouco mais de mobilidade, mas, mesmo assim, em quase todo o filme é usada computação gráfica, com Downey efetivamente vestindo a armadura em poucas cenas. A aparência das armaduras do Homem de Ferro ficaria a cargo do artista da Marvel Adi Granov, com o ilustrador Phil Saunders fazendo as modificações necessárias para que elas se tornassem mais realísticas. A primeira versão do roteiro previa ainda uma armadura Mark IV, que seria cheia de armas como a do Máquina de Combate, e usada pelo Homem de Ferro em sua luta final contra o Monge de Ferro; para cortar custos e dar mais agilidade ao roteiro, essa quarta armadura seria descartada ainda na pré-produção.

Também foi opção de Favreau colocar as Indústrias Stark e a casa de Tony Stark na Califórnia, na Costa Oeste, ao invés de no estado de Nova Iorque, na Costa Leste, como nos quadrinhos; segundo ele, já havia muitos filmes de super-heróis ambientados em Nova Iorque, e estava na hora de fazer algo diferente. Nenhuma cena seria filmada no Afeganistão; a caverna na qual Stark passa seu tempo cativo foi totalmente construída em estúdio, e as cenas externas seriam filmadas nas Dunas de Olancha, na Califórnia. Apenas o interior da casa de Stark era real, construído em estúdio, tendo sido o exterior criado em computação gráfica e adicionado digitalmente à praia de Point Dume, em Malibu. Uma característica curiosa do filme foi que, quando as filmagens começaram, o roteiro ainda não estava concluído, então os atores tiveram de improvisar muitas falas - Favreau, inclusive, estimulava o improviso, dizendo que os diálogos ficariam mais naturais. Dentre as cenas improvisadas estariam a apresentação do míssil Jericó, e a coletiva de imprensa na qual Stark fala sentado no chão comendo um hambúrguer.

Um dos elementos mais surpreendentes e comentados do filme, a cena pós-créditos, na qual Nick Fury (Samuel L. Jackson) convida Stark para fazer parte dos Vingadores, também seria gravada quase de improviso: Bendis escreveria três páginas de opções de diálogos, e Downey e Jackson escolheriam a melhor momentos antes da filmagem - que ocorreria com uma equipe mínima, que contava apenas com o pessoal absolutamente necessário, para evitar que sua existência fosse divulgada à imprensa. Mesmo com todo o segredo, rumores sobre a existência da cena surgiriam na internet dias após sua gravação, o que levaria Feige a ordenar que ela fosse retirada das versões de avaliação do filme, para que eles não se confirmassem e a surpresa do público nos cinemas não fosse estragada.

Homem de Ferro estrearia nos Estados Unidos em 2 de maio de 2008, após várias pré-estreias pelo mundo. Ainda preocupadas com a baixa popularidade do personagem, Marvel e Paramount fariam uma campanha de marketing maciça, que incluía um comercial exibido no intervalo do Super Bowl (o horário mais caro para qualquer comercial na TV norte-americana). No fim, felizmente, tudo deu certo: com orçamento de 140 milhões de dólares, o filme renderia quase 320 apenas nos Estados Unidos, além de ter a segunda melhor bilheteria da história deu um dia de estreia para um filme que não fosse uma sequência (atrás apenas de Homem-Aranha). A crítica também receberia muito bem o filme, com quase todos os críticos lhe dando a nota máxima em suas avaliações. Homem de Ferro ainda seria indicado a dois Oscars técnicos, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Edição de Som, mas não ganharia nenhum dos dois.

Ah, sim, a história do filme: Tony Stark é um industrial milionário do ramo armamentista, que parece satisfeito em viver a vida esbanjando dinheiro, se comportando como um playboy irresponsável e sem querer saber das consequências de seus atos. Um dia, durante uma viagem para o Afeganistão para divulgar uma nova arma, ele é sequestrado por um grupo terrorista, que quer obrigá-lo a construir uma arma para eles. Durante o sequestro, estilhaços de uma bomba se alojam próximos ao coração de Stark, que morreria se não fosse pela intervenção de seu "colega de cela" Yinsen, que constrói um eletro-imã que impede que os estilhaços cheguem ao coração.

Ao invés de construir a arma para os terroristas, Stark bola um plano: construindo um novo aparelho que não somente afasta os estilhaços de seu coração mas também gera energia, ele cria uma armadura que permite que ele fuja de seu cativeiro. Ao voltar para os Estados Unidos, ele decide mudar sua vida, passando a investir em energia renovável e abandonando de vez a fabricação de armas - algo com o qual seu sócio, Obadiah Stane, não concorda. Além disso, ele passa a fazer várias modificações no projeto da armadura que construiu no Afeganistão, tornando-a mais leve e fácil de usar. Ao perceber que ele pode usá-la para fazer a diferença em um mundo destroçado pela guerra, ele decide se transformar no Homem de Ferro, e enfrentar os terroristas em seu próprio campo. Stark não sabe, porém, que há uma ameaça muito maior bem debaixo de seu nariz...

Para terminar, cada filme do MCU tem uma participação mais do que especial de Stan Lee, em algum pequeno papel, e eu pretendo listar todas. Em Homem de Ferro, Lee aparece como um convidado de uma festa, a quem Stark confunde com Hugh Hefner, o criador da revista Playboy.

O Incrível Hulk
The Incredible Hulk
2008

Diferentemente dos outros filmes da Fase 1 do MCU, esse não foi distribuído pela Paramount, e sim pela Universal, que, até hoje, detém os direitos para o cinema do Hulk. Ao contrário do que muitos pensam, porém, ele foi sim produzido pelos Marvel Studios, e não pela Universal, que só o distribuiu. A crença vem do fato de que, de todos os filmes do MCU, ele é o menos "conectado" com os demais, com praticamente nada do que acontece nele sendo refletido nos outros filmes - até mesmo o ator que interpreta Bruce Banner, a identidade não tão secreta do Hulk, seria trocado antes do filme dos Vingadores. Essa característica faz com que muitos considerem que O Incrível Hulk não precisa ser considerado como parte integral da história do MCU, podendo ser, por exemplo, "pulado" em uma maratona de todos os filmes. Ainda assim, ele é parte oficial do MCU, e, por isso, está sendo abordado aqui.

Ao contrário do que ocorria com o Homem de Ferro, o Hulk sempre foi um dos heróis mais populares da Marvel. O fato de ele ter sido protagonista de uma série de TV exibida pela CBS entre 1977 e 1982, estrelada por Bill Bixby, Jack Colvin e Lou Ferrigno, com um total de cinco temporadas, 80 episódios e cinco filmes para a TV também contribuiu para que ele fosse bastante conhecido do púbico em geral, não só dos fãs de quadrinhos. Quando a Marvel anunciou que licenciaria seus personagens para o cinema, portanto, o Hulk foi o primeiro a ser licenciado, ainda em 1992, para a Universal. A produção do primeiro filme do Golias Esmeralda, porém, foi bastante turbulenta, com várias versões de roteiro sendo escritas e rejeitadas, incluindo uma na qual o vilão seria um presidiário capaz de se transformar em um besouro gigante. Até mesmo J.J. Abrams chegou a escrever uma versão do roteiro, numa época em que Jonathan Hensleigh (que viria a ser o diretor do filme do Justiceiro de 2004) estava no projeto como diretor. Quando a previsão do orçamento chegou a 100 milhões de dólares, a Universal cancelou tudo, e suspendeu o projeto por tempo indeterminado.

O sucesso do filme dos X-Men, entretanto, levaria a Universal a desengavetar o projeto, dessa vez com Ang Lee na direção. Estrelando Eric Bana, Jennifer Connelly, Sam Elliott e Nick Nolte, Hulk estrearia em 2003, e, apesar de ter recebido algumas críticas positivas, foi um fracasso doméstico de bilheteria, rendendo 132 milhões de dólares contra um custo de 137 milhões - embora os rendimentos internacionais tenham quase dobrado essa quantia. A Universal chegou a planejar uma sequência, com data de lançamento prevista para 2005, mas problemas para encontrar um roteiro satisfatório fariam com que ela fosse adiada. Quando os Marvel Studios foram criados, Arad convenceu a Universal a passar o controle criativo da sequência para a Marvel, e, quando o MCU entrou em cena, Feige achou melhor desconsiderar tudo o que havia acontecido no filme de Ang Lee - que, oficialmente, ocorre em um "universo paralelo" - e fazer um reboot, que realmente introduzisse o Hulk no MCU. Assim surgiria O Incrível Hulk.

Quando soube que a Marvel estava produzindo Homem de Ferro, Louis Leterrier se ofereceu para dirigi-lo, sem saber que Arad já havia fechado com Favreau. Arad, então, lhe ofereceu dirigir O Incrível Hulk. Fã da série dos anos 1970, Leterrier tinha muito interesse, mas, achando que se tratava de uma sequência, expressou estar preocupado em não conseguir manter o mesmo estilo de Ang Lee, só aceitando quando a Marvel lhe garantiu que era um reboot, e ele poderia fazer da forma que quisesse. O diretor, então, decidiria fazer o filme baseado na minissérie Hulk: Gray, de Jeph Loeb e Tim Sale, que recontava a origem do Hulk, adicionando alguns elementos que fizessem referência à série de TV, como a origem do personagem, através de uma pesquisa com raios gama, como na série, e não de uma bomba, como nos quadrinhos. Leterrier, aliás, optaria por não fazer um "filme de origem": Banner já começa o filme como Hulk, e sua origem é mostrada apenas rapidamente, em flashbacks ao longo do filme - segundo o diretor, o filme é ambientado cerca de cinco anos após Banner se transformar em Hulk pela primeira vez.

O roteiro ficaria a cargo de Zak Penn, co-roteirista de X-Men 2 e X-Men: O Confronto Final, que havia escrito um dos roteiros rejeitados para o primeiro filme do Hulk, em 1996. Penn usaria esse roteiro como base, fazendo as alterações que Leterrier havia determinado. Logo no início da pré-produção, Edward Norton seria contratado para interpretar Bruce Banner, e, por alguma razão, negociaria para ser também o roteirista do filme. Norton, porém, não escreveria um roteiro do zero, apenas alterando quase todos os diálogos escritos por Penn. Apesar disso, a Guilda dos Roteiristas da América (o órgão de classe dos roteiristas dos Estados Unidos) determinaria que apenas Penn poderia ser creditado no filme como roteirista, já que Norton não havia alterado o enredo, a estrutura, nem os personagens, apenas suas falas.

No início do filme, Banner está se escondendo no Rio de Janeiro, cidade na qual as filmagens aconteceram durante 88 dias, nos bairros da Lapa, Santa Teresa e Rocinha e na Floresta da Tijuca, com a participação da atriz brasileira Débora Nascimento; a participação de Stan Lee se dá no papel de um homem que compra um suco produzido na fábrica na qual Banner e a personagem de Débora trabalham. Outra cidade fora dos EUA na qual ocorreram gravações foi Toronto: o Prefeito de lá na época, fã dos quadrinhos do Hulk, se ofereceu para fechar qualquer rua da cidade pelo tempo que fosse preciso para que pudesse ser gravada a batalha final do filme, com a condição de que tudo fosse consertado depois; apesar de explodir vários pedaços do asfalto e de deixar vários carros (cenográficos) capotados e em chamas, a equipe de filmagens conseguiria deixar tudo em ordem apenas 20 minutos após o final das gravações. Aproveitando que o Hulk é verde, a equipe de filmagens também se esforçou para fazer o filme o mais ecologicamente possível, usando o máximo de materiais recicláveis e o mínimo de emissões de carbono.

Para vilão do filme, Leterrier escolheria o Abominável, que, nos quadrinhos, foi criado pelos raios gama como o Hulk, mas não consegue retornar à forma humana, o que faz com que ele seja ainda mais revoltado que o herói; para o papel do homem que acabaria se transformando no Abominável, o fuzileiro naval Emil Blonsky, seria escolhido Tim Roth, que já tinha experiência em interpretar personagens não-humanos graças à sua participação em O Planeta dos Macacos, de Tim Burton. O arqui-inimigo do Hulk, entretanto, não é o Abominável, e sim o General Thaddeus "Thunderbolt" Ross, militar que devota sua vida a capturar o herói, que ele considera como um monstro; para o papel do General Ross, seria escolhido o veterano ator William Hurt. Para desgosto de Ross, sua filha, Betty, interpretada no filme por Liv Tyler, era namorada de Banner antes do acidente, e continua apaixonada por ele, seguindo o Hulk pelo país e o ajudando a escapar do pai. Outros personagens dos quadrinhos do Hulk a aparecer no filme, mas sem poderes adquiridos pelos raios gama, são o psiquiatra Leonard Samson, interpretado por Ty Burrell, que começa um relacionamento romântico com Betty enquanto Banner está desaparecido; e o geneticista Samuel Sterns, interpretado por Tim Blake Nelson, que se corresponde a distância com Banner para tentar achar uma cura para sua transformação em Hulk - nos quadrinhos, Sterns é o vilão Líder, e, durante muito tempo, era certeza que ele seria o vilão da sequência do filme, que acabaria jamais realizada. Lou Ferrigno, que interpretava o Hulk na série de TV, faria a voz do Hulk no filme, além de ter uma pequena participação como um segurança; Robert Downey, Jr. também faria uma pequena participação, na cena pós-créditos, como Tony Stark.

Os efeitos de computação gráfica do filme ficariam por conta do estúdio Rhythm and Hues. Leterrier chegou a pensar em fazer animatronics do Hulk e do Abominável, para que eles não fossem de CG em todas as cenas, mas desistiria - o único animatronic no filme acabaria sendo uma cabeça de Sterns usada em uma cena em seu laboratório. Ele também optaria por fazer o Hulk mais musculoso e menor que o do filme de Ang Lee, para torná-lo mais realístico; a transformação de Banner em Hulk seria inspirada na da série (com os olhos de Banner mudando de cor primeiro) e na do personagem principal de Um Lobisomem Americano em Londres - segundo Leterrier, para demonstrar o quão dolorosa era a transformação para Banner. O Abominável, como o próprio nome sugere, seria muito mais grotesco que o Hulk, mas não teria a mesma aparência reptiliana dos quadrinhos, para não confundir a audiência; ele também seria maior que o Hulk, e andaria de forma mais desengonçada, como se ainda não estivesse acostumado com sua transformação. Os movimentos do Hulk e do Abominável foram filmados usando a mesma técnica de captura de movimentos usada com Andy Serkis para o Gollum de O Senhor dos Anéis e o Kong de King Kong, usando Norton e Roth para maior veracidade, e dublês para as cenas mais complexas.

No filme, Banner é um cientista contratado pelo exército dos Estados Unidos que tenta usar raios gama para repetir a experiência que transformou o Capitão América em um supersoldado, mas, graças a um acidente, passa a se transformar no Hulk toda vez que os níveis de adrenalina em seu sangue se elevam. Depois do acidente, Banner passa a ser considerado propriedade do exército, que quer transformá-lo em uma arma, e, para não ser encarcerado, decide fugir pelo mundo, se escondendo enquanto busca uma cura para sua condição. Após ser descoberto no Brasil, Banner decide voltar aos Estados Unidos, se reencontrar com sua antiga namorada, Betty Ross, e realizar um experimento para tentar se curar. Mas o comandante da força-tarefa responsável por capturar o Hulk, Emil Blonsky, está disposto a fazer qualquer coisa para alcançar seu objetivo, inclusive abrir mão de sua humanidade.

Durante a edição, haveria uma certa discussão quanto à duração do filme: Norton e Leterrier queriam uma versão final com por volta de 135 minutos, enquanto os produtores queriam que o filme tivesse menos de duas horas; os produtores acabariam vencendo, e a versão final teria 112 minutos, o que teria dado origem a um boato de que Norton teria se recusado a participar da promoção do filme com essa duração, desmentido várias vezes pelo ator durante as entrevistas. Mais de 70 minutos de filmagens, incluindo uma abertura alternativa e várias cenas da origem do Hulk, seriam descartados durante a edição, sendo muitas dessas "cenas extras" incluídas no lançamento do filme em DVD e Blu-ray, mas algumas permanecendo inéditas até hoje; na abertura alternativa, Banner está no ártico, e, durante cerca de um segundo, é possível ver o corpo do Capitão América congelado em uma geleira.

O Incrível Hulk estrearia em 8 de junho de 2008, cerca de um mês após Homem de Ferro. Com orçamento de 150 milhões de dólares, renderia 135 milhões nos Estados Unidos, mas, graças a outros 128 milhões arrecadados em outros países, e ao fato de que as expectativas da Universal para o filme eram bem mais baixas que as em relação ao Hulk de Ang Lee, acabaria sendo considerado um sucesso. A crítica ficaria dividida, elogiando as cenas de ação mas considerando o roteiro fraco; muitos críticos também considerariam que o filme sofreria por ser comparado com Homem de Ferro, bastante superior em termos de roteiro e ainda fresco na memória de quem assistiu aos dois.

O Incrível Hulk seria, por enquanto e muito provavelmente, o primeiro e último filme solo do Hulk no MCU. Seguindo um padrão adotado pela Marvel de contratar os atores para múltiplos filmes, Roth, Hurt e Tyler assinariam contrato para três filmes, mas Norton preferiria assinar "filme a filme"; quando chegasse a hora de assinar o contrato para o filme dos Vingadores, ele se recusaria, alegando não desejar mais interpretar Banner "em nome da diversidade", para "não ficar marcado por um único papel". Mark Ruffalo, que era o ator preferido de Leterrier para o papel antes de a Marvel escolher Norton, acabaria sendo contratado para interpretar Banner nos filme dos Vingadores e nos futuros filmes do MCU. Leterrier expressaria mais de uma vez seu desejo de dirigir uma sequência de O Incrível Hulk, mas, após o filme dos Vingadores, que encerrou a Fase 1, a Marvel lhe diria que não havia filme do Hulk previsto para a Fase 2, e que a próxima aparição do personagem se daria apenas no segundo filme dos Vingadores.

O maior obstáculo à realização de um novo filme do Hulk é que a Universal ainda detém os direitos de distribuição do personagem, os quais a Marvel ainda não conseguiu recuperar. Trocando em miúdos, a Universal não pode dizer nada caso a Marvel queira usar o Hulk em filmes dos Vingadores ou de outro de seus heróis (como em Thor: Ragnarok), mas, caso a Marvel faça um novo filme estrelado pelo Hulk, a Universal é que deverá distribuí-lo, fato que não agrada à Disney, atual distribuidora dos filmes dos Marvel Studios. Até que esse obstáculo seja transposto, Hulk será apenas um convidado de luxo nos filmes do MCU, nunca sua estrela principal.