domingo, 8 de outubro de 2006

Olimpíadas (XII)

E hoje é mais um dia de Olimpíadas!

Squaw Valley 1960


Em 1955, quando Squaw Valley foi escolhida para sede dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1960, houve uma certa controvérsia, porque Squaw Valley não era uma cidade. Para falar a verdade, Squaw Valley não era absolutamente nada além de um vale nevado a 1.900 metros de altuitude, localizado a noroeste da cidade da Tahoe, Califórnia, a 300 Km de San Francisco. Ainda assim, seu único habitante e dono do lugar, Alexander Cushing, conseguiu convencer o Comitê Olímpico norte-americano a lançar o vale como candidato. O COI - cujo presidente era norte-americano, vale lembrar - se fascinou com a idéia de uma cidade inteira construída especialmente para os Jogos, e justo na Califórnia, de forma que Squaw Valley acabou batendo a cidade austríaca de Inssbruck, e as recorrentes Sankt Moritz e Garmish-Partenkirchen.

Realmente Squaw Valley foi construída do zero especialmente para hospedar os Jogos. Entre 1955 e 1960 foram abertas estradas levando ao local, e erguidos hotéis, restaurantes, pontes, a Vila Olímpica, um rinque de patinação, um estádio para o hóquei, uma pista para a patinação em velocidade, trilhas de esqui, teleféricos, e a rampa para os saltos com esqui. Tudo com a mais avançada tecnologia de construção e cronometragem, incluindo um computador da IBM especialmente desenvolvido para calcular os resultados das provas, visando o máximo conforto para atletas e platéia, além de deixar bastante espaço para o televisionamento. Como é comum entre os norte-americanos, se desejava que os Jogos de Inverno de 1960 fossem um espetáculo jamais visto. A única mancha neste projeto foi a ausência de uma pista para o bobsleding, pois os organizadores, argumentando que apenas nove trenós haviam demonstrado interesse em competir, decidiram cancelar a prova e empregar o dinheiro destinado à construção da pista em obras mais úteis, o que fez com que 1960 tenha sido a única ocasião em que o bobsleding não fez parte do programa dos Jogos de Inverno. O estacionamento também sofreu um pequeno problema, pois havia sido construído sobre uma planície alagada e congelada que chuvas fora de hora fizeram questão de degelar poucos dias antes da abertura do evento, arruinando as obras. O exército dos Estados Unidos foi chamado e reconstruiu tudo em um local próximo, em tempo recorde.

Os Jogos de Squaw Valley foram realizados entre 18 e 28 de fevereiro, e contaram com a participação de 665 atletas, sendo 144 mulheres, representando 30 nações em 27 eventos de 8 esportes: biatlo, combinado nórdico, esqui alpino, esqui cross country, hóquei no gelo, patinação artística no gelo, patinação no gelo em velocidade e saltos com esqui. As cerimônias de abertura e encerramento ficaram a cargo de ninguém menos que Walt Disney, que encomendou a seu artista John Hench um novo desenho para a Tocha, que acabou se tornando o mais famoso de todos. Como em Oslo, 1952, a Tocha foi acesa em Morgedal, na lareira de Sondre Nordheim, o pioneiro do esqui esportivo. Assim como em Melbourne, 1956, o fogo foi usado para acender um lampião, que viajou de avião até os Estados Unidos, onde uma nova Tocha foi acesa e levada em revezamento até a Califórnia, onde foi utilizada para acender a pira pelo patinador Ken Henry. Ao contrário de todas as demais edições dos Jogos, porém, a pira não foi apagada ao final das comeptições, e está até hoje queimando lá em Squaw Valley, que hoje em dia é um resort para esportes de inverno.

Após algumas aparições como esporte de demonstração, o biatlo, uma combinação de esqui cross country em um trajeto de 20 Km com uma disputa de tiro, fez sua estréia em 1960 para não mais sair do programa. Com as regras unificadas e uma Federação para zelar por elas, estavam afastadas as controvérsias que ocorreram em 1924 e que mantiveram este esporte, bastante popular por sinal, fora dos Jogos de Inverno até então. A medalha de ouro do evento ficou com o sueco Klas Lestander, que fez um tempo pior que seus oponentes diretos na corrida, mas não errou um tiro sequer. Outro esporte a estrear como "oficial" em 1960 foi a patinação em velocidade feminina, com quatro eventos, três deles vencidos por soviéticas, sendo que nas provas de 1.500 metros e 3.000 metros o ouro foi para Lidia Skobilikova.

Outro soviético, Yevgeny Grishin, também da patinação em velocidade, conseguiu um feito absolutamente inacreditável. Ele até bateu um recorde mundial nos 500 metros, mas o que ele conseguiria depois seria ainda mais fantástico. Para quem não se lembra, Grishin havia conquistado duas medalhas de ouro em 1956, sendo que uma delas, a dos 1.500 metros, ele dividiu com seu compatriota Yuri Mihaylov, pois ambos haviam terminado a prova com o exato mesmo tempo. Em 1960, Grishin também ganhou dois ouros, um deles nos já citados 500 metros. O outro foi novamente nos 1.500 metros. E, acreditem ou não, novamente empatado com outro atleta, desta vez o norueguês Roald Aas. O evento foi considerado tão absurdo que virou notícia em vários lugares do mundo, principalmente porque, mesmo já tendo ocorrido na edição anterior dos Jogos, ainda não haviam regras para resolver este empate.

O finlandês Veikko Hakulinen também entrou para a história dos Jogos, mas sem precisar empatar duas vezes. De qualquer forma, seu feito foi igualmente incrível: competindo no esqui cross country, além de um ouro em 1952 e de um ouro e duas pratas em 1956, Hakulinen já tinha uma medalha de prata, nos 50 Km, e uma de bronze, nos 15 Km, quando entrou na pista para defender sua pátria no revezamento 4 x 10 Km. Hakulinen era o último homem da equipe, e partiu para o último trecho 20 segundos após a saída do líder Haakon Brusveen, da Noruega. Nos 100 metros finais, porém, Hakulinen conseguiu uma arrancada fantástica, e venceu a prova por apenas um metro.

Ainda no esqui cross country, a União Soviética levou pra casa as três medalhas dos 10 Km, mas ficou com a prata no revezamento de 3 x 5 Km. Os Estados Unidos ganharam os dois ouros individuais da patinação artística, com David Jenkins e Carol Heiss, mas nas duplas mistas não passou do bronze. O maior destaque dos donos da casa foi o time do hóquei no gelo, que, em uma apresentação memorável, ganhou o ouro de forma invicta, batendo, inclusive, os superfavoritos Canadá e União Soviética. E o francês Jean Vuarnet, ouro na descida do esqui alpino, foi o primeiro campeão a usar esquis de metal, ao invés dos de madeira preferidos até então.

Resumindo, além de um belo espetáculo, os Jogos de Squaw Valley trouxeram muitas novidades. A maior delas, porém, pouca gente sabe que foi criada aqui: no esqui alpino masculino, modalidade slalom, os fiscais ficaram na dúvida se um dos competidores havia passado por dentro ou por fora do "portão" - aquelas duas bandeirinhas que marcam os lugares onde os esquiadores devem passar durante a descida - pois seus esquis haviam levantado muita neve durante a passagem. Para dirimir a dúvida, eles perguntaram à CBS, a rede de televisão responsável pela transmissão do evento, se a cena havia sido filmada, e se eles poderiam revê-la em câmera lenta. Estava criado o replay instantâneo, adotado pela CBS durante todo o resto da competição, e por todas as redes de televisão do mundo em transmissões esportivas a partir de então.

Roma 1960


Grécia, França, Grã-Bretanha, Suécia, Bélgica, Holanda, Alemanha, Finlândia. Todas estas nações européias haviam tido o direito de sediar pelo menos uma Olimpíada. Aos olhos dos fãs dos esportes, porém, faltava uma, a Itália. Roma já havia sido escolhida para sediar o evento de 1908, mas uma erupção do Vesúvio forçou o governo italiano a desistir da tarefa, passando-a para Londres. E, quando a capital italiana se declarou candidata a sede dos Jogos de 1960, todos sabiam que seria uma vitória fácil. Afinal, a Itália era famosa não só por sua boa comida e pelo bom humor de sua gente, mas também tinha atletas de ponta, um dos torneios de futebol mais importantes do planeta, e um governo empenhado a realizar a Olimpíada mais fantástica de todos os tempos - talvez ironicamente, justo na cidade que destruiu Olímpia na antigüidade.

Roma não enfrentou percalços para ser escolhida, vencendo Bruxelas, Budapeste, Lausanne, Detroit, Cidade do México e Tóquio quase que por unanimidade. E o comitê organizador se pôs a trabalhar já no dia da escolha, para que nada saísse errado. A principal fonte de recursos foi a loteria do futebol italiano, a Totocalcio, que destinou parte de sua renda ao Comitê Olímpico italiano. Fanáticos por esportes, os italianos apostaram como nunca, e a arrecadação foi de mais de 30 milhões de dólares, mais do que suficiente para construir ou reformar todas as instalações necessárias. O Stadio Olimpico, sede dos times de futebol Roma e Lazio, inaugurado em 1937, passou por uma reestruturação completa. A seu lado, uma pista de atletismo construída durante o governo de Benito Mussolini foi totalmente revitalizada, sendo equipada com uma das pistas mais modernas, e um eficiente sistema de cronometragem. O charme especial da pista eram sessenta esculturas de mármore localizadas à sua volta, representando todos os deuses esportivos de que se tinha notícia. No mesmo complexo, os italianos ergueram o Stadio del Nuoto, sede dos esportes aquáticos, com uma moderníssima piscina coberta, especialmente projetada para que os atletas não tivessem nenhum obstáculo a mais em sua busca pela quebra de recordes. Do outro lado da cidade, construíram o Palazzo e o Palazzeto dello Sport, obras da mais moderna engenharia, construídos em alumínio e concreto protendido, idealizados pelo arquiteto Pierluigi Nervi. As lutas livre e greco-romana seriam realizadas na Basílica de Maxientius; a ginástica nas ruínas das Termas de Caracalla, destruídas pelos bárbaros por volta do ano 400; e a maratona passaria pelas históricas Via Appia e Via Aurelia. Enfim, o encontro perfeito entre antigüidade e modernidade, o cenário perfeito para uma disputa olímpica.

Os Jogos de Roma reuniram 5.275 atletas, sendo 537 mulheres, competindo em 150 modalidades de 20 esportes; atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, equitação, esgrima, futebol, ginástica, halterofilismo, hóquei, luta greco-romana, luta livre, natação, pentatlo moderno, pólo aquático, remo, saltos ornamentais, tiro e vela; entre 22 de agosto e 11 de setembro. No dia 24 de agosto, o Papa João XXIII reuniu todos os atletas e dirigentes que iriam participar do evento para uma bênção ecumênica na Praça São Pedro, no Vaticano, em uma cerimônia que nem mesmo o Barão de Coubertin poderia imaginar: gente de todas as raças, todas as etnias, todas as religiões esqueceu suas diferenças, e por alguns breves momentos formou a nação única do esporte, idealizada pelo jovem John Ian Wing nos Jogos de 1956. Talvez a energia positiva do momento tenha influenciado até mesmo a Cerimônia de Abertura, realizada no dia seguinte: após acesa a pira, os organizadores libertaram cinco mil pombos brancos, que se puseram a voar pelas galerias do Stadio Olimpico. De repente, todas as igrejas da cidade se puseram a soar seus sinos em uníssono, comemorando a abertura dos Jogos. Como se soubessem o que fazer, todos os pombos imediatamente deixaram o Stadio Olimpico e rumaram para a Praça São Pedro, pousando magicamente em seu centro. Detalhe: os Jogos de 1960 foram os primeiros a ser transmitidos para 37 países, via microondas, alguns deles podendo assistir às competições, inclusive, a cores.

A maratona de 1960 é tida como a mais bela e sensacional de todos os Jogos. Realizada à noite, para poupar os competidores do calor que castigava a Itália naquele verão, e com seu trajeto passando por vários locais da Roma histórica, pela primeira vez a maratona contou com atletas africanos efetivamente defendendo seus países, e não seus colonizadores. E foi precisamente um deles, Abebe Bikila, da Etiópia, que conquistaria o ouro, correndo descalço, uma cena que ficaria registrada para sempre nas mentes dos amantes do esporte. Nascido em uma favela da capital etíope, Bikila era um cabo na guarda palaciana do Imperador Haile Selassie, e nas horas de folga gostava de correr nas montanhas de Mout, a 2.470 metros acima do nível do mar. O terreno íngreme e a altitude fortaleceram suas pernas, seu coração e seus pulmões, e fizeram de Bikila um corredor extraordinário, que chamou a atenção do finlandês Omni Niskanen, que havia sido contratado pelo Imperador para estimular o atletismo entre os jovens da Etiópia. Mesmo já tendo 28 anos, Bikila foi convencido por Niskanen a competir a sério. Após seis meses de treinamento, Bikila ganhou sua primeira maratona. Após ganhar a segunda, garantiu o direito de competir em Roma.

Mas Niskanen não queria confiar apenas no talento natural de seu pupilo: assim que desembarcaram na capital italiana, os dois pegaram um táxi, e fingindo-se de turistas pediram para o motorista fazer precisamente o trajeto da maratona. Niskanen e Bikila anotaram todas as curvas, subidas, sinais geográficos e pontos de referência. 1.500 metros antes da chegada, eles encontraram o marco perfeito, o Obelisco de Axum, trazido justamente da Etiópia dois mil anos antes. Logo após o Obelisco, começava uma subida. Dali, Bikila começaria sua arrancada rumo à vitória.

Enganados pelo frescor da noite, os atletas menos experientes ampliaram as passadas e a velocidade. Bikila permaneceu em seu ritmo, seguro de sua tática. Durante os primeiros 15 Km, ele apenas perseguiu o favorito, o soviético Sergei Popov. Quando percebeu que Popov mudara a respiração do nariz para a boca, Bikila arrancou e o deixou para trás, trazendo com ele o marroquino Rhadi Ben Abdesselem. Ambos aumentaram o ritmo e permaneceram quase juntos, até o Obelisco de Axum, quando Bikila, em mais uma arrancada, abriu uma distância de 200 metros sobre o marroquino. A esta altura, o público já estava enlouquecido com sua performance, e com o fato dele correr descalço, tanto que um romano distraído, que o acompanhava de lambreta, perdeu a direção e quase o atropelou a 50 metros da chegada. Bikila driblou o obstáculo sorrindo, e rompeu a fita com um novo recorde mundial, ganhando a primeira medalha de ouro de um negro africano nas Olimpíadas. Retornando à sua pátria, Bikila seria promovido a sargento, e ganharia do Imperador um fusquinha.

Outros dois destaques de 1960 viriam dos Estados Unidos, a começar por Wilma Rudolph, a Gazela Negra. Vigésima entre 22 irmãos, nascida em uma família paupérrima do Tennessee, Wilma nasceu com apenas 2 Kg, teve pneumonia dupla, escarlatina, e uma doença rara que causou a descalcificação dos ossos de suas pernas, obrigando-a a usar aparelhos para manter as pernas firmes. Segundo ela, aprendeu a correr para chegar antes dos irmãos à mesa do jantar e colocar mais comida no prato. Aconselhada a praticar esportes para fortalecer as pernas, Wilma optou pelo basquete, mas aos 14 anos foi descoberta por um treinador de atletismo, que acreditava que ela possuía o físico perfeito para uma velocista. Em dezoito meses de treinos, Wilma já não precisava mais dos aparelhos, e em 1956 conseguiu uma vaga na equipe que disputou os Jogos de Melbourne. Lá ela só conseguiu um bronze no revezamento 4 x 100 metros, mas a partir de então sua carreira teria uma ascenção fulminante, quebrando vários recordes. Favorita absoluta em Roma, Wilma parecia não se importar com a pressão, e chegava a dormir ao lado da pista enquanto esperava o início da prova. Acabou conquistando três ouros, nos 100 metros, 200 metros e revezamento 4 x 100 metros, além da admiração da imprensa italiana, que lhe concedeu o apelido pelo qual seria conhecida pelo resto da vida.

O outro destaque de 1960 também era negro, veio do boxe, e atendia pelo nome de Cassius Clay. Nascido no Kentucky, filho de um defensor dos direitos dos negros, e apelidado "o tagarela da Louisville", Clay era o personagem mais popular da Vila Olímpica, o atleta mais entrevistado e fotografado. Venceu todas as suas lutas de maneira incontestável, e só não nocauteou o polonês Zbigniew Pietrzkowski na final porque não quis. De volta aos EUA, teve uma recepção de herói, e se profissionalizou, patrocinado por dez milionários, todos brancos. Mas nem toda esta glória o livrou do racismo: certo dia, ao entrar em uma lanchonete com um amigo, Clay ouviu da garçonete que lá não serviam negros. Ele lhe mostrou a medalha de ouro, que carregava para tudo o que é lugar. Ainda assim, o dono da lanchonete argumentou que não interessava quem ele fosse, ele ainda era um negro, e não seria servido ali. Com raiva, Clay jogou sua medalha no rio Ohio, pois, se ela não servia para lhe trazer respeito, não serviria para mais nada.

Mesmo sofrendo com o racismo, Clay teve uma carreira brilhante, e é hoje considerado o maior boxeador de todos os tempos. Aos 25 anos, já era campeão dos peso pesados, vencendo 41 lutas, 32 por nocaute, sem nenhuma derrota. Então, foi convocado para servir no Vietnã. Clay alegou objeção de consciência, algo que a lei americana permitia, mas mesmo assim foi processado por violar regulamentos do serviço militar, e teve seu cinturão cassado. Enquanto lutava nos tribunais, converteu-se ao islamismo, e mudou seu nome para Muhammad Ali. Após quatro anos impedido de competir por causa do processo, Ali finalmente foi inocentado, e em 1971 retomou sua carreira. Fora de forma, porém, sofreu sua primeira derrota, para Joe Frazier.

Mas Ali não se abalou. Retomou os treinamentos disposto a recomeçar sua carreira do zero. Após uma escalada de três anos, retomou o título de Frazier. Em 1975, na África do Sul, na primeira luta de boxe transmitida ao vivo e a cores para todo o planeta, massacrou George Foreman. Em 1978 ele perderia novamente, para o campeão da Olimpíada de 1976, Leon Spinks. Sem se abalar, no mesmo ano recuperaria o título, e só abandonaria os ringues aos 37 anos, em 1979, detentor de nove títulos, 61 vitórias, 37 nocautes, apenas 5 derrotas. Pouco depois, foi diagnosticado como portador do Mal de Parkinson. Nem mesmo a doença o parou: Ali se pôs a viajar pelo mundo, como exemplo para os jovens negros, e modelo de coragem e determinação. Em 1996, Ali emocionou o mundo ao ser escolhido para acender a pira das Olimpíadas de Atlanta. Como prêmio por sua gloriosa carreira, Ali recebeu uma nova medalha, para repor a que ele havia jogado fora. Praticamente um pedido de desculpas.

Grandes nomes do esporte se consolidaram em 1960: o dinamarquês Paul Elvstrøm, da vela, classe Finn, se tornou o primeiro atleta a ganhar quatro ouros em quatro Olimpíadas seguidas em provas individuais, feito que, oito anos mais tarde, seria igualado pelo norte-americano Al Oerter, do lançamento do disco, que em Roma ganhou seu segundo ouro consecutivo. O sueco Gert Fredriksson, da canoagem, foi ainda mais longe, ganhando seu sexto ouro em quatro Olimpíadas, três no caiaque individual 1.000 metros, dois no caiaque individual 10.000 metros e, em Roma, no caiaque duplo 1.000 metros. Fredriksson perdeu em uma medalha para o húngaro Aladár Gerevich, que, competindo desde 1932 na esgrima, categoria sabre, chegou ao seu sétimo ouro, todos por equipes, exceto um individual em 1948. E o italiano Sante Gaiardoni se tornou o único atleta a vencer as provas de velocidade scratch e corrida contra o relógio do ciclismo em uma mesma edição dos Jogos. Também merecem destaque as meninas soviéticas da ginástica, que ganharam 15 das 16 medalhas possíveis, e a equipe masculina de ginástica do Japão, que conquistou seu primeiro de cinco ouros consecutivos.

Episódios bizarros também marcaram o evento: o finlandês Vilho Ylönen, categoria rifle livre três posições, em um dos tiros se confundiu e acertou a mosca do alvo do atirador vizinho. Terminou em quarto lugar; tivesse acertado a do seu, ganharia a prata. Na prova de estrada do ciclismo, o dinamarquês Knut Jensen, logo após completar a prova, caiu desmaiado e fraturou o crânio, o segundo atleta a morrer durante uma Olimpíada, depois do português Francisco Lázaro em 1912. Imediatamente, a delegação da Dinamarca culpou o calor excessivo que fazia no dia da prova; a autópsia, porém, revelaria que Jensen correu dopado, sob o efeito de Ronicol, e desfalecera devido ao remédio. Mas o episódio mas absurdo ocrreu na natação, prova dos 100 metros estilo livre: a prova foi vencida pelo norte-americano Lance Larson, com o tempo de 55"1. Inexplicavelmente, porém, os fiscais deram o ouro ao australiano John Devitt, cujo computador acusava o tempo de 55"2. Após numerosos protestos, os fiscais levaram meia hora analisando os videotapes e fotocharts, e resolveram a questão. Só que, ao invés de dar o ouro para Larson, corrigiram seu tempo para 55"2, alegando que Devitt havia tocado com a mão primeiro na borda da piscina.

Sem tantas bizarrices, o decatlo de 1960 é tido como um dos mais emocionantes de todos os Jogos, uma disputa entre dois amigos, o norte-americano recordista mundial e medalha de prata em 1956 Rafer Johnson, e seu colega da Universidade da Califórnia em Los Angeles, Chuan Kwang Yang, representando Taiwan. Ambos batalharam pelo ouro até a última prova, os 1.500 metros, quando Yang venceu, mas o tempo de Johnson, aliado aos seus demais resultados, lhe garantiram a vitória. Ao final da prova, ambos se abraçaram calorosamente, em uma demonstração do espírito olímpico. Depois de Roma, Johnson abandonaria o esporte para se tornar ator de cinema; Yang continuaria competindo, quebrando o recorde mundial, e forçando a Federação de Atletismo a reformular a tabela dos pontos, pois em uma prova do salto com vara em 1963 ele conseguiria a marca de 4m82, e a tabela terminava em 4m57.

Os esportes coletivos também merecem destaque: no Pólo Aquático, o Setebello da Itália surpreendeu os analistas esportivos ao ganhar o ouro, batendo os favoritos Hungria e União Soviética. Seu estilo de jogo rápido, com os jogadores sabendo onde estavam seus companheiros mesmo de costas, fez com que este fosse considerado pelos fãs do esporte como o melhor time de todos os tempos. No basquete, os Estados Unidos ganharam seu quinto ouro consecutivo, com uma seleção de universitários também considerada a melhor de todos os tempos, sem contar o Dream Team de 1992, formado por profissionais. No hóquei, o Paquistão acabou com uma seqüência de seis ouros e trinta vitórias seguidas de sua mega-rival Índia, ao derrotá-la na final pelo mínimo placar de 1 x 0. E no futebol, a Iugoslávia, com seus amadores de fachada, chegaria ao ouro após um inusitadíssimo episódio nas semifinais, justamente contra os donos da casa: o jogo terminara 1 x 1, e o regulamento previa não prorrogação ou pênaltis, mas um simples sorteio. Jogada a moedinha, a Iugoslávia avançou para enfrentar a Dinamarca, e a Itália, espraguejando o regulamento até hoje, acabou perdendo da Hungria e ficando em quarto lugar.

O Brasil trouxe duas medalhas de Roma, ambas de bronze. Uma com o nadador Manoel dos Santos Júnior, que na controversa prova dos 100 metros livre liderava a até bem perto dos 90 metros, quando foi ultrapassado por Larson e Devitt. A outra veio com a seleção de basquete, campeã mundial em 1959, que passou pela primeira e segunda fases invicta, vencendo inclusive a União Soviética, e no quadrangular final só perdeu para esta, por dois pontos, e para os Estados Unidos. Dois outros brasileiros caíram nas quartas-de-final: José Telles da Conceição, em sua terceira Olimpíada, nos 200 metros do atletismo devido a uma distensão muscular; e o ciclista Anésio Argento, na velocidade scratch, perdendo para o campeão Gaiardoni. Mas o momento mais emocionante de um atleta brasileiro não foi um pódio, mas a despedida de Adhemar Ferreira da Silva, aos 33 anos, que mesmo sem conseguir se classificar para a final do salto triplo, foi aplaudido de pé tanto por seus oponentes quanto pela platéia.

No fim, para se fazer um resumo perfeito dos Jogos de 1960, basta dizer que foram vinte dias emocionantes, pontuados por algumas bizarrices. E até a Cerimônia de Encerramento manteve este padrão: na contagem não-oficial de medalhas, a União Soviética mais uma vez terminou à frente dos Estados Unidos. Apesar disso, os atletas destes países entraram para o misturado encerramento com seus agasalhos trocados, um país vestindo as cores do outro, como se mandando um recado para seus governantes de que todos podemos ser irmãos. A organização, porém, quase transformou este lindo momento em um inferno: alguém teve a idéia de jerico de distribuir cem mil tochas feitas de papel de jornal, que seriam acesas pela platéia ao final, iluminando o Stadio Olimpico, que teria todas as suas luzes apagadas. Apesar do enorme risco inerente, por milagre nada de pior aconteceu. Mas no vizinho Monte Mario, uma salva de tiros de canhão e toneladas de fogos de artifício se fizeram ouvir quando a pira se apagou. Os fogos incendiaram as árvores, que por sua vez transformaram dezenas de carros que estavam estacionados sob elas em bolas de fogo. Se alguém planejou uma homenagem a Nero, foi bastante bem sucedido.

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