sábado, 21 de outubro de 2006

Olimpíadas (XIII)

E hoje teremos mais um post sobre os Jogos Olímpicos!

Innsbruck 1964


Normalmente, a escolha da sede das Olimpíadas de Verão contava com muitas candidatas, mas a das Olimpíadas de Inverno com apenas umas duas ou três. Em 1964 não foi diferente: as únicas candidaturas apresentadas foram as de Calgary, Canadá; Lahti, Finlândia; Åre, Suécia; e Innsbruck, Áustria, que já havia sido candidata para 1960. Todas eram concorrentes de peso, famosas no mundo dos esportes de inverno e com boas instalações. Como Suécia e Finlândia já haviam sediado Olimpíadas, e não interessava ao COI dois Jogos de Inverno seguidos fora da Europa, Innsbruck acabou sendo a vencedora.

Mas, se existisse macumba na Escandinávia, teríamos uma explicação para um infortúnio que atingiu a pequena cidade tirolesa: bem na época dos Jogos, Innsbruck sofreu com uma falta crônica de neve. Simplesmente não nevou o suficiente para que fosse possível disputar qualquer esporte de inverno. Para não perder o direito a sediar os Jogos, o governo acionou o exército austríaco, que cortou vinte mil tijolos de gelo do topo de uma montanha próxima, e os utilizou para pavimentar as pistas de bobsleding e luge, uma modalidade de trenó no qual o competidor desce deitado de costas, com os pés primeiro (ao contrário do skeleton, onde o atleta desce de bruços com a cabeça primeiro), e que estrearia justamente em 1964. Além desse gelo todo, eles ainda cavaram 40 mil metros cúbicos de neve, e a espalharam pela descida do esqui, para fazer mais volume. Tudo parecia resolvido, mas há 10 dias da Cerimônia de Abertura uma forte chuva bagunçou toda a descida, e o exército teve de ir lá assentá-la, usando pás e suas mãos e pés. Com medo de novos desastres, o exército cavou mais 20.000 m3 de neve e deixou "de reserva", para uma eventual emergência. Só para contrariar, depois disso não choveu mais, e eles não precisaram usá-la.

Além da falta de neve, os Jogos de Innsbruck aconteceram sob a sombra de três acidentes fatais. O primeiro, e mais grave, ocorreu em 15 de fevereiro de 1961, quando o vôo 548 da aviação Sabena caiu em Bruxelas, Bélgica, matando as 72 pessoas a bordo e mais um no solo. Dentre seus passageiros estava toda a delegação da patinação artística dos Estados Unidos, que viajava para participar do Campeonato Mundial daquele ano, em Praga, Tchecoslováquia. Todos os dezoito patinadores norte-americanos morreram, causando uma comoção tão grande que o Mundial acabou cancelado, e as provas da patinação artística em Innsbruck foram cheias de homenagens, sendo o momento mais emocionante quando o norte-americano Scott Allen conseguiu um bronze nas simples masculinas.

Como se esse enorme desastre não tivesse sido o bastante, Innsbruck ainda registrou as duas primeiras mortes de atletas em Olimpíadas de Inverno, a do atleta inglês do luge Kazimierz Kay-Skyszpeski, de 50 anos, e do esquiador australiano Ross Milne, ambos em treinamentos uma semana antes da Abertura. A morte de Milne causou uma certa revolta na Austrália, pois a versão do COI seria a de que ele teria passado por uma pequena subida e batido numa árvore, enquanto delegados australianos diziam que ele só teria batido ao tentar desviar da platéia, muito superior à capacidade do local, e alojada em um lugar impróprio.

Mas nem mesmo tanta tristeza tiraria o brilho das competições. Realizados entre 29 de janeiro e 9 de fevereiro, os Jogos de Innsbruck contaram com a participação de 1.091 atletas, sendo 199 mulheres, que competiram em 34 eventos de 10 esportes: biatlo, bobsleding, combinado nórdico, esqui alpino, esqui cross country, hóquei no gelo, luge, patinação artística no gelo, patinação no gelo em velocidade e saltos com esqui. O eisstockschiessen, variação alemã do curling, mais uma vez foi o esporte de demonstração. A Cerimônia de Abertura foi realizada no monte Bergisel, famoso por sediar uma das etapas da Four Hills, a mais famosa competição de saltos com esqui depois do Mundial e dos Jogos Olímpicos. Innsbruck contou com duas novidades: por determinação do COI, a partir de 1964 a Tocha Olímpica de Inverno também seria acesa em Olímpia, no mesmo local da Olimpíada de Verão; e pela primeira vez os cronômetros das provas de esqui chegaram ao registro dos centésimos de segundo.

Os destaques dos Jogos começam por Lidiya Skoblikova, que conseguiu o ouro nas quatro provas da patinação em velocidade. Ela quebrou o recorde olímpico nos 500, 1.000 e 1.500 metros, e só não o fez nos 3.000 metros porque o gelo não estava em boas condições. Skoblikova é até hoje a recordista de ouros na patinação em velocidade (ganhou mais duas em 1960), e seu feito só seria repetido por um homem em 1980. Falando nisso, dessa vez ninguém empatou em primeiro lugar em uma prova como nos dois Jogos anteriores, mas a prova de 3.000 metros feminina teve um empate no segundo lugar, e a prova dos 500 metros masculina teve um inacreditável tríplice empate pela segunda posição, entre dois atletas soviéticos e um norueguês.

Skoblikova não foi a única a fazer a limpa em sua modalidade: outra soviética, Klavdiya Boyarskikh, ganhou as três provas do esqui cross country, nas distâncias de 5 Km, 10 Km, e no revezamento 3 x 5 Km. No masculino, o finlandês Eero Mäntyranta ganhou duas, nos 15 Km e 30 Km, e ainda levou a prata no revezamento 4 x 10 Km. No hóquei, o ouro foi mais uma vez para a União Soviética; e os dois ouros de simples do luge foram para atletas da Alemanha Oriental, representando a Alemanha Unida, Thomas Köhler no masculino e Ortrun Enderlein no feminino.

Os saltos com esqui pela primeira vez tiveram duas provas, nas distâncias de 70 metros e 80 metros. Curiosamente, os medalhistas foram os mesmos, o finlandês Veikko Kankkonen e os noruegueses Toralf Engan e Torgeir Brandtzæg, com a única diferença de Engan vencer Kankkonen na distância maior. Igualmente curiosa foi a disputa feminina do esqui alpino: no slalom, a vencedora foi a francesa Christine Goitschel, de 20 anos, ficando a medalha de prata com sua irmã Marielle, de 18, e o bronze com a norte-americana Jean Saubert. Dois dias depois, no slalom gigante, foi a vez de Marielle Goitschel ganhar o ouro, deixando Christine e Saubert, empatadas, com a prata.

Para finalizar, foi em Innsbruck que o primeiro atleta da história ganhou a Medalha Pierre de Coubertin, reservada àqueles que cometem atos verdadeiramente honrados em nome do esportismo. A honraria coube ao italiano Eugenio Monti, do bobsleding, duas pratas em 1956. Durante a disputa do trenó de dois lugares, a equipe da grã-bretanha, liderada por Tony Nash, sofreu uma avaria em uma das lâminas, e não tinha uma sobressalente. Monti então retirou uma das lâminas de seu próprio trenó, e as emprestou aos britânicos, que ganhariam o ouro, deixando os italianos com o bronze. Monti foi severamente criticado pela imprensa, à qual respondeu: "Nash não venceu porque eu lhe dei uma lâmina. Ele venceu porque fez a descida mais veloz".

Mesmo com as críticas, Monti ainda foi capaz de mais um ato de altruísmo: durante a disputa do trenó de quatro lugares, a equipe do Canadá teve um eixo danificado, e seria desclassificada. Monti e seus mecânicos correram para ajudá-los, conseguindo consertar o trenó a tempo para a última bateria. Novamente, o Canadá ganhou o ouro, deixando a Itália com o bronze. Monti chegaria ao ouro em 1968, mas sua contribuição para o mundo do esporte foi maior do que qualquer pista de bobsleding.

Tóquio 1964


Tóquio, a capital do Japão, havia sido escolhida pelo COI para ser a sede dos Jogos de 1940. Devido à guerra contra a China, o Japão se viu obrigado a abrir mão deste direito, passando a honra para Helsinque, capital da Finlândia. A Segunda Guerra Mundial, porém, faria com que os Jogos de 1940 fossem definitivamente cancelados. Os finlandeses teriam de esperar doze anos para receber uma Olimpíada; os japoneses, o dobro do tempo.

Foi só na reunião do COI de 1958 que ficou definido que, pela primeira vez, as Olimpíadas seriam realizadas na Ásia, e a vitória de Tóquio veio, surpreendentemente, graças à ajuda dos Estados Unidos. Não havia nada de altruísta em tal ajuda, porém: após ficar atrás dos soviéticos no quadro não-oficial de medalhas por dois Jogos seguidos, os norte-americanos desejavam uma Olimpíada em casa, ou pelo menos fora da Europa, para que seus atletas, devidamente incentivados, pudessem demonstrar sua superioridade em relação aos comunistas. Com o descarte de Detroit, a candidata dos Estados Unidos, os esforços norte-americanos se voltaram para a candidatura de Tóquio, chegando ao ponto de se comprometer a doar ao Japão o dinheiro que este porventura não conseguisse arrecadar para as obras necessárias.

A idéia de uma Olimpíada na Ásia seduziu o COI, e Tóquio venceu, além de Detroit, Buenos Aires, Viena e Bruxelas. A capital japonesa realmente não tinha instalações ao nível de uma Olimpíada, mas o dinheiro norte-americano, aliado à meticulosidade japonesa, fez brotar do chão edifícios administrativos, hotéis para dirigentes, alojamentos para atletas, vias expressas, avenidas, estradas-de-ferro, centrais de TV, e as mais modernas instalações esportivas da época, o Estádio Olímpico, o Nippon Budokan ("centro de artes marciais japonês"), o Ginásio Nacional de Yoyogi, e o Parque Olímpico Komazawa. Em todos eles, a arquitetura combinava concreto e madeira, em um estilo que lembrava as construções xintoístas do passado japonês, transmitindo tranqüilidade e introspecção, unindo passado e futuro, como só os japoneses sabem fazer.

Falando nisso, o Japão não seria o Japão se não tivesse introduzido em 1964 duas inovações tecnológicas, a primeira delas graças a uma ajuda dos Estados Unidos: dois meses antes da Cerimônia de Abertura, os norte-americanos haviam levado ao espaço o primeiro satélite de comunicações geoestacionário do planeta, o Syncom-3. Graças a ele, dezenas de países no mundo inteiro puderam assistir às competições ao vivo, no momento em que eram realizadas, fazendo com que as Olimpíadas de 1964 se tornassem o primeiro programa de televisão transmitido via satélite. Milhares de norte-americanos puderam torcer por seus atletas no conforto de seus lares, mesmo com os Jogos ocorrendo do outro lado do mundo. A segunda inovação tecnológica foi pensada para facilitar a vida dos fiscais e dos repórteres: os japoneses desenvolveram especialmente para os Jogos um supercomputador, capaz de registrar tempos até os centésimos de segundo, analisar fotocharts, e distribuir os resultados das provas à imprensa momentos após o término de cada uma.

A primeira Olimpíada da Ásia foi realizada entre 10 e 24 de outubro, e seu programa contou com 163 modalidades de 22 esportes: atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, equitação, esgrima, futebol, ginástica, halterofilismo, hóquei, judô, luta greco-romana, luta livre, natação, pentatlo moderno, pólo aquático, remo, saltos ornamentais, tiro, vela e vôlei; mais beisebol como esporte de demonstração. Na emocionante Cerimônia de Abertura, adentrou o Estádio Olímpico portando a Tocha o jovem Yoshinori Sakai. Sakai não era um atleta, mas sua presença lá estava carregada de simbolismo: ele havia nascido em 6 de agosto de 1945, o dia em que a bomba atômica caiu sobre Hiroshima. No momento em que Sakai acendeu a pira, dez mil pombas brancas começaram uma revoada, arrepiando as oitenta mil pessoas presentes, e emocionando o Imperador Hirohito, que assistia à Cerimônia de sua tribuna particular. Participaram dos Jogos de Tóquio 5.140 atletas, sendo 683 mulheres, representando 93 nações. O número poderia ter sido maior, se não fosse um incidente diplomático: dois anos antes, haviam sido realizados na Indonésia os Jogos da Ásia, uma espécie de Pan-Americano de lá. Comandada por uma intransigente ditadura militar, a Indonésia havia impedido os páises que não apreciava de participar do evento, o que gerou uma punição do COI, que impediu os indonésios de participar dos Jogos de 1964. Com raiva, em 1963 a Indonésia decidiu organizar uma competição esportiva que chamou de "Ganefo Games", os "Jogos das Novas Forças Emergentes". Para valorizar o evento e afrontar o COI, a Indonésia convidou a China, que não aceitava participar das Olimpíadas devido à presença de Taiwan. Apesar dos esforços indonésios, o único país filiado ao COI que decidiu participar dos Ganefo Games foi a Coréia do Norte, e o resultado deste ato foi que ela também acabou impedida pela entidade de disputar os Jogos de 1964. Além destes dois países, a África do Sul também recebeu uma suspensão do COI, mas por outro motivo, a racista política do apartheid. A África do Sul só retornaria à competição após o fim deste regime, em 1992.

Atendendo a um pedido dos japoneses, o COI incluiu no programa dois dos mais populares esportes de lá, o judô e o vôlei. No judô, os japoneses acreditavam que ganhariam todas as quatro medalhas, das categorias leves, médios, pesados e absolutos. Para sua infelicidade, na dos absolutos, aberta a atletas de qualquer peso, o holandês Anton Geesink venceu na final o maior ídolo do judô japonês da época, Akio Kaminaga, por imobilização. Graças à educação japonesa, na cerimônia de premiação fez-se o maior silêncio da história das Olimpíadas. No vôlei, por outro lado, se viu tudo, menos silêncio. No masculino, o Japão terminaria em terceiro, após perder duas partidas; no feminino, ganharia o ouro, em uma final emocionante diante da União Soviética, durante a qual nada menos que 80% dos lares japoneses com televisão estavam sintonizados na partida, um recorde durante muito tempo não batido. Formado principalmente por trabalhadoras do moinho Nichibo, o time feminino do Japão tinha como treinador Hirofumi Daimatsu, o Bernardinho da época. Totalmente o inverso do que se espera de um japonês, Daimatsu gritava, berrava, insultava, ameaçava suas atletas, e chegava até a chutá-las no bumbum quando erravam. Apesar do metodo pouco ortodoxo, Daimatsu tinha uma visão ampla do esporte: diante das gigantes dos países comunistas, as miúdas japonesas só conseguiriam a vitória se tivessem uma defesa perfeita. Foi ele quem criou o que hoje se chama de "escola oriental", onde as atletas se jogam no chão como se mergulhassem em uma piscina, salvam as bolas com as pontas das unhas, viram cambalhotas e estrelas, tudo para impedir que a bola toque o chão e armar o próximo ataque. Com esta disposição, o Japão venceu todos os seus cinco jogos, sendo campeão do certame de forma invicta. Os métodos de Daimatsu, porém, o levariam a perder o emprego: após a vitória, as meninas do Japão foram convidadas a visitar o Primeiro Ministro Eisaku Sato, e aproveitaram para colocar para fora todas as suas mágoas. A capitã do time, inclusive, queixou-se de que Daimatsu não permitia que elas namorassem, e que deste jeito ela jamais arrumaria um marido. Irritado com esta "insubordinação", Daimatsu entregou o cargo, e foi trabalhar em uma agência de publicidade.

Dos atletas que ganharam seu segundo ouro em Tóquio, dois merecem destaque, a romena Iolanda Balas, do salto em altura, que curiosamente competia com uma sapatilha só, no pé de apoio; e o etíope Abebe Bikila, o primeiro homem a vencer a maratona duas vezes. Mesmo com seu histórico, e desta vez correndo calçado, poucos apostavam em Bikila, pois apenas quarenta dias antes ele havia se submetido a uma cirurgia de apêndice. Durante a prova, porém, Bikila mostrou que não se abalara por tão pouco, permanecendo junto aos líderes até a metade da prova, quando apertou seu passo e se distanciou, até romper a fita de chegada quatro minutos à frente do segundo colocado, o britânico Basil Heatley. A vitória de Bikila foi tão inesperada que os organizadores nem tinham um disco com o hino da Etiópia, e decidiram encerrar a premiação com o hino japonês, o que causou muito constrangimento, pois o atleta da casa, Kokichi Tsuburaya, que a imprensa local dava como vencedor antes da prova, havia chegado apenas em terceiro. Bikila ainda correria a maratona de 1968, a qual abandonaria com uma contusão na coxa, mas teria sua carreira abruptamente interrompida em 1969, quando um acidente automobilístico o deixaria paraplégico. Ele ainda chegaria a praticar o tiro com arco, mas morreria de hemorragia cerebral em 1973.

Ainda no atletismo, a soviética Irina Press se tornaria a primeira campeã do pentatlo, uma espécie de "decatlo light" para as mulheres; sua irmã, Tamara Press, ganharia o ouro no arremesso de peso; o norte-americano Robert Hayes, que mais tarde faria carreira como jogador de futebol americano, venceu os 100 metros rasos com uma arrancada devastadora a partir dos 60 metros, mesmo tendo de esperar mais de dez minutos após seu aquecimento para que os fiscais aplainessem a pista, arruinada pela largada da prova da marcha de 20 Km; e o neozelandês Peter Snell levaria para a sua pátria o ouro dos 800 e dos 1.500 metros. Especialista nas distâncias dos 800 metros e da milha (1.609 metros), Snell não se dava muito bem nos 1.500, mas decidiu disputar a prova justamente em uma Olimpíada pelo "prazer incomparável do risco", em suas próprias palavras. A princípio, ele competiria apenas nesta prova, e acreditava que se daria bem porque os 800 metros seriam disputados antes, e muitos dos corredores eram comum às duas provas. Em seu pensamento, ele, descansado, levaria vantagem. Poucos momentos antes de de se encerrarem as inscrições, porém, Snell decidiu correr também os 800 metros, seja lá por qual motivo fosse. Acabou vencendo a prova, registrando um novo recorde olímpico. Cinco dias depois, nos 1.500 metros, Snell permaneceu junto aos líderes, mas se poupando, até faltararem 300 metros para o fim, quando viu um espaço onde conseguiu arrancar para ganhar mais uma medalha de ouro.

Filho de uma índia Sioux, o norte-americano Billy Mills se tornou o único atleta dos Estados Unidos até hoje a vencer a prova dos 10.000 metros. Desconhecido até então, um dos menos cotados para vencer a prova, Mills nascera em uma reserva, junto com 14 irmãos, e se tornou órfão aos 12 anos. Internado em uma escola no interior do Kansas, se dedicou ao boxe, até que um nocaute em um treinamento o fez se dedicar ao atletismo. Sem resultados expressivos, chegou a abandonar o esporte, mas sua esposa o convenceu a voltar em 1962. Com o incentivo da mulher, Mills se classificou para os 10.000 metros e para a maratona de 1964, mas decidiu correr apenas a primeira prova. No dia da contenda, chovia muito, e o australiano Ron Clarke decidira por uma técnica arriscada, mas aparentemente infalível: alternaria seu ritmo, ora se poupando ora arrancando, para desgastar os adversários. Deu certo: aos 9.000 metros, apenas Mills e o tunisino Mohamed Gammoudi ainda perseguiam Clarke. Disputada sem eliminatórias, porém, a prova contava com 29 corredores na pista, o que transformou seu final em um tumulto. A 200 metros do fim, Clarke e Mills estavam atrás de um retardatário, mas o americano não tinha velocidade para ultrapassá-lo; Clarke, mais rápido, não tinha como passar, e fez um gesto para que Mills chegasse um pouco para o lado, para que ambos passassem. Mills não se moveu, e Clarke tentou passar assim mesmo. O choque entre os dois os desestabilizou pelo momento necessário para que Gammoudi tomasse a primeira posição. Apertando o passo, Clarke alcançou Gammoudi, mas a quantidade de retardatários na pista fez com que eles ficassem se chocando ombro a ombro, sem ter como um passar o outro. Então, a oitenta metros do fim, Mills veio rapidamente de trás, passou por entre os dois, e cruzou a linha de chegada com duas passadas de vantagem, quebrando o recorde olímpico.

Na natação, os protagonistas foram o norte-americano Don Schollander e a australiana Dawn Fraser. Ele, aos 18 anos e em sua primeira Olimpíada, teve uma performance impecável, ganhando o ouro nos 100 metros livre, nos 400 metros livre, e nos revezamentos 4 x 100 metros livre e 4 x 200 metros livre, quebrando o recorde olímpico nas quatro provas e o mundial nas três últimas, só não chegando a um quinto ouro porque seu treinador decidiu poupá-lo no revezamento 4 x 100 metros medley. Ela, em sua terceira participação nos Jogos, ganhou o terceiro ouro seguido nos 100 metros livre, mas protagonizou o episódio mais bizarro dos Jogos de Tóquio: em uma visita ao Palácio Imperial, Fraser, de comportamento rebelde e polêmico, decidiu furtar uma bandeira do Japão, e acabou presa pela polícia japonesa. Em um gesto de tolerância, o Imperador a perdoou pela brincadeira, e a livrou de todas as acusações. Sua delegação, porém, não foi tão tolerante: ao retornar à Austrália, Fraser pegou uma suspensão de dez anos, que encerrou sua carreira ali mesmo, aos 27 anos de idade.

Na ginástica, uma musa se foi, outra surgiu: a soviética Larissa Latynina, 30 anos, fez sua terceira e última participação em Olimpíadas, ganhando mais dois ouros, duas pratas e dois bronzes, para um total de 18 medalhas, sendo nove de ouro, um recorde até hoje não alcançado. Em seu lugar no coração dos fãs ficou a lindíssima tchecoslovaca Vera Caslavska, 22 anos, uma secretária em Praga, dona de uma prata por equipes em Roma, que ganharia três ouros e uma prata em Tóquio, e mais quatro ouros e duas pratas na Olimpíada seguinte.

O Brasil levou ao Japão 70 atletas, sendo apenas uma mulher. Dos homens, 53 faziam parte dos esportes coletivos, nos times de basquete, futebol, pólo aquático e vôlei. Infelizmente, voltou de lá com apenas uma medalha, um bronze do basquete, cuja base do time eram os campeões mundiais de 1963, mas que mais uma vez no quadrangular final perdeu para Estados Unidos e União Soviética. O vôlei, que tinha no time Carlos Arthur Nuzman, atual presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, ficou na sétima colocação, atrás apenas das equipes comunistas e do Japão. Futebol e Pólo Aquático, infelizmente, não foram muito longe, sendo eliminados ainda na primeira fase de seus torneios.

A única mulher da delegação, Aída dos Santos, mesmo sem poder levar seu treinador, conseguiu a melhor colocação de uma atleta brasileira em uma prova individual até hoje, um quarto lugar no salto em altura, a meros quatro centímetros do bronze. O cavaleiro Nélson Pessoa Filho também chegou perto do pódio, terminando em quinto lugar no Prêmio das Nações da equitação, a apenas uma falta do terceiro colocado. Na classe Finn da vela, Joerg Bruder, futuro bicampeão mundial em 1966 e 1968, não teve sorte, e acabou na sétima colocação.

Mesmo tendo sido pontuados por algumas confusões, principalmente nas disputas do boxe, os Jogos de 1964 transcorreram calmos e fluidos, bem ao estilo da harmonia oriental. Mas a Cerimônia de Encerramento ainda reservava uma surpresa: no desfile dos atletas, os mais animados não eram os norte-americanos, soviéticos ou japoneses, mas os neozelandeses, que adentraram o Estádio Olímpico cantando e dançando músicas típicas de sua pátria, e convidando a platéia a dançar com eles. Antes que a segurança se desse conta, dezenas de espectadores invadiram o campo, e se puseram a dançar e confraternizar com os atletas. Tamanha quebra de protocolo seria de infartar qualquer japonês, mas, quando a pira se apagou e no placar eletrônico apareceu a palavra sayonara, o Imperador Hirohito aplaudiu e se despediu de seus visitantes, emocionado. Era a coroação do esforço de seu povo.

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