quarta-feira, 30 de abril de 2008

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Johnny Depp

Nas aberturas dos meus posts, eu costumo repetir muitas coisas que já disse em outros posts, e hoje não será exceção: eu não sou muito ligado em atores. Ok, talvez eu não tenha dito isso exatamente dessa forma, mas, em outras palavras, isso significa que eu não costumo ver um filme só porque um ator ou atriz está em seu elenco (a não ser que seja o Schwarzenegger), nem fico reparando nas interpretações para criticar (a não ser que seja algo extremamente bisonho). Na minha opinião, é até perfeitamente possível existir um filme bom com atuações ruins (desde que o roteiro seja bom), algo que eu já reparei que a maioria da população do mundo discorda de mim - se as interpretações são ruins, o filme é ruim e pronto.

Mas enfim, digressionei de novo, não era nada disso que eu ia falar. O que interessa é que, assim como todo mundo, eu também tenho meus atores preferidos, e hoje é dia de falar de um deles. Hoje é dia de falar de Johnny Depp.

John Christopher Depp II nasceu em Owensboro, Kentucky, Estados Unidos, no dia 9 de junho de 1963, filho da garçonete Betty Sue Wells e do engenheiro civil John Christopher Depp. Durante sua infância, sua família mudava muito de endereço devido a contratos firmados por seu pai, o que fez com que Johnny e seus três irmãos mais novos, Danny, Christie e Debbie, tivessem mais de vinte endereços diferentes até a família se instalar definitivamente na cidade de Miramar, Flórida, em 1970.

A princípio, Johnny não pensava em ser ator, e sim músico, preferência esta alimentada pelo presente que ganhou de sua mãe em seu aniversário de 12 anos, uma guitarra. Precoce, no início de sua adolescência ele já tocava com várias bandas de garagem da região, e até tinha uma namorada, chamada Meredith, em homenagem à qual tentou criar uma banda com este nome. Ao contrário do que possa parecer, porém, Depp era um adolescente introvertido e inseguro, que começou a fumar e beber antes dos 13 anos, e sua vida mudou drasticamente quando, em 1978, seus pais decidiram se divorciar. Atormentado com as reviravoltas pelas quais sua vida passava, Depp se entregou à prática da autolesão, se cortando com uma gilete para que a dor física fizesse com que ele superasse a dor emocional. Ainda hoje, ele carrega oito cicatrizes desta época.

Um ano após o divórcio de seus pais, Depp largou a escola para se dedicar integralmente à sua banda de rock. Porém, sem conseguir tocar em nenhum lugar de respeito, e de certa forma chantageado pelos pais, que disseram que se ele era bom o suficiente para ficar sem ir à escola ele também seria bom o suficiente para se sustentar sem seu auxílio financeiro, ele voltou atrás e decidiu abandonar a banda e voltar para a escola apenas duas semanas depois. Mas o diretor, surpreendentemente, disse que ele deveria perseguir seu sonho e insistir em ser músico, e assim, pouco tempo depois, Depp conseguiu o cargo de guitarrista na banda The Kids, que alcançou um moderado sucesso na região de Miramar. Animados com a perspectiva de se tornarem astros do rock, em 1981 os Kids se mudaram para Los Angeles, mudaram de nome para Six Gun Method, e passaram a procurar uma gravadora que os aceitasse.

Quando finalmente eles estavam próximos do contrato, porém, Depp tomou uma decisão que acabou fazendo com que ele desse dois passos para trás: se casou. Na véspera de Natal de 1983, Depp, então com 20 anos, e a maquiadora Lori Anne Allison, cinco anos mais velha e irmã do vocalista da Six Gun Method, decidiram contrair matrimônio, algo que não foi bem aceito pelos demais membros da banda, que praticamente o expulsaram do grupo - que logo depois assinou contrato com uma pequena gravadora e lançou seu primeiro disco. Sem a banda, Depp passou a fazer vários bicos para não depender exclusivamente do salário de maquiadora da esposa para sobreviver, dentre os quais vender canetas por telemarketing. A vida de Johnny só começou a mudar quando sua esposa conheceu o ator Nicolas Cage durante uma sessão de maquiagem e o apresentou ao marido. Cage aconselhou Depp a desistir da música e tentar uma carreira de ator, e, como não custava nada mesmo, ele decidiu arriscar.

Cage apresentou Depp à sua agente, que conseguiu para ele um teste para o novo filme do diretor Wes Craven. Se saindo bem no tal teste, ele finalmente consguiu seu primeiro papel no cinema, no filme A Hora do Pesadelo, de 1984, onde interpretou o personagem Glen Lantz, namorado da protagonista, e que é engolido por uma cama assassina em uma das cenas mais famosas do filme.

Em 1985, Johnny conseguiu um novo papel, na comédia adolescente Férias do Barulho, e no ano seguinte ele interpretaria o soldado Gator Lerner no aclamadíssimo Platoon. Aparentemente, sua carreira iria deslanchar, mas sua vida pessoal parecia andar na contramão de seus projetos: ainda em 1985, Johnny e Allison se separaram, e durante um bom tempo ele tentou retomar sua carreira de músico, colaborando com a banda Rock City Angels, também originária do sul da Flórida, e até chegando a co-escrever a música Mary, que entrou para seu primeiro álbum. Por insistir em se dedicar à música, porém, Depp não conseguia bons papéis, e depois de Platoon só fez duas pequenas participações especiais em seriados de TV inexpressivos.

Mas, de certa forma ironicamente, seria a TV que iria salvar sua vida: No final de 1986, Depp foi procurado por executivos da Fox, que estavam criando uma nova série de TV voltada ao público adolescente, na qual jovens policiais se infiltrariam em escolas disfarçados de alunos para combater a delinqüência juvenil. Depp achou a idéia horrível e recusou, mas, voltando a ser procurado, optou por aceitar, já que precisava do dinheiro. Assim, em 1987, ele estrou em Anjos da Lei no papel do policial Tom Hanson, ao qual costuma ser associado por muitos até hoje.

Ao assinar o contrato, Depp não levava muita fé na série, e imaginava que logo ela seria cancelada. Para seu horror, porém, não somente a série se tornou extremamente popular e durou quatro temporadas, como também Hanson se tornou seu personagem mais famoso, o que alçou Johnny ao posto de ídolo adolescente, namoradinho da América, alvo de centenas de fãs-clubes e de dez mil cartas de adolescentes apaixonadas por mês. Depp abominava isso tudo, rejeitava todos os títulos, e só permaneceu na série por causa do salário de 45 mil dólares por episódio, prometendo a si mesmo que, quando seu contrato expirasse, jamais faria um papel que o colocasse em posição semelhante novamente.

Sem saber o que se passava na cabeça de seu ídolo, milhares de fãs se chocaram quando ele aceitou protagonizar o estranhíssimo filme Cry-Baby, um musical de 1990, paródia de filmes como Grease, e dirigido pelo excêntrico John Waters, que tinha no elenco o astro do rock Iggy Pop e a ex-atriz pornô Traci Lords. Embora hoje em dia tenha se tornado de certa forma um cult, Cry-Baby não fez muito sucesso, mas pelo menos serviu para que Depp chamasse a atenção de um diretor que mais tarde se tornaria seu grande amigo, Tim Burton.

Notando o talento de Depp, Burton decidiu convidá-lo para o complexíssimo papel-título de Edward Mãos-de-Tesoura, também de 1990, onde o ex-símbolo sexual adolescente interpretaria um ser artificial, de cabelos desgrenhados, face marcada por cicatrizes, enormes tesouras no lugar das mãos, e sérios problemas de relacionamento social. Edward não somente ajudou Depp a soterrar Hanson de vez, como também provou que ele era um dos mais talentosos atores de sua geração, e lhe rendeu um romance com sua companheira de elenco Winona Ryder.

Ryder não foi a primeira atriz com quem Depp se relacionou - antes ele já tinha namorado Sherilyn Fenn, de Twin Peaks, e tido um caso com Jennifer Grey, de Dirty Dancing, mas o romance dos dois foi bombástico: durante três anos, todos os holofotes das revistas de fofocas se viraram para o casal, principalmente depois que ele decidiu tatuar "Winona Forever" em seu braço direito. De tão bombástico, o relacionamento durou apenas até 1993, e, curiosamente, embora durante o tempo em que namorava Winona Depp não tenha sido convidado para nenhum filme, após o fim do romance sua carreira deslanchou de vez.

Apenas em 1993, Depp conseguiu papéis de destaque e aclamados em três filmes, Gilbert Grape: Aprendiz de Sonhador, Benny & Joon: Corações em Conflito e Arizona Dream: Um Sonho Americano. Sempre interessado em música, durante a década de 90 Depp fez participações em clipes de bandas como Lemonheads e Concrete Blonde, e chegou a montar uma banda chamada P, que lançou um disco em 1995. Mais uma vez, porém, sua vida pessoal parecia ir na contramão da profissional, e rumores de que Johnny havia se entregado ao vício do álcool e das drogas começaram a surgir em todo lugar. Como se isso já não bastasse, River Phoenix, um dos atores mais famosos da época, morreu de overdose no The Viper Rooms, um clube de Los Angeles de propriedade de Depp. Em 1994, Depp começou um turbulento romance com a modelo Kate Moss, e foi preso por praticamente destruir o quarto do hotel onde se hospedara em Nova Iorque. Poucos apostavam que ele construiria uma carreira de sucesso, e muitos até apostavam que ele nem viveria para gastar o dinheiro que havia ganho até então.

Tim Burton, porém, não fazia parte deste time, e decidiu convidar Johnny para protagonizar seu filme sobre a vida do incompreendido cineasta Ed Wood. Sua brilhante interpretação fez com que os produtores ignorassem seus problemas pessoais e o convidassem para mais três filmes de sucesso que seriam lançados em 1995, Don Juan de Marco, o faroeste Dead Man, e o suspense em tempo real Tempo Esgotado. Aos poucos, a cabeça de Depp parecia voltar ao lugar, e em 1997 ele não somente conseguiria mais um papel aclamado em Donnie Brasco como também dirigiria seu primeiro filme, O Bravo, no qual também atua.

Em 1998, os rumores sobre a decadência de Depp começaram a cessar, e ele terminou seu relacionamento com Moss para se unir à cantora francesa Vanessa Paradis, a quem conheceu durante as filmagens de O Último Portal, e com quem teve dois filhos, Lily-Rose Melody e Jack (cujo nome verdadeiro é John Christopher Depp III). O casal se mudou para a França, onde residem até hoje, e, desde o casamento, Johnny se deu o direito de escolher muito bem os papéis que iria interpretar, o que o levou a recusar o papel principal de dois grandes sucessos, Velocidade Máxima e Lendas da Paixão, e até mesmo o do vampiro Lestat em Entrevista com o Vampiro, o que lhe rendeu uma fama de quem só interpreta personagens exóticos, como o jornalista Raoul Duke em Medo e Delírio em Las Vegas (1998), o especialista em livros raros obcecado por um exemplar escrito pelo próprio demônio em O Último Portal (1999) e o astronauta possuído por uma força alienígena em Enigma do Espaço (1999).

Ainda em 1999, Depp retomou sua vitoriosa parceria com Tim Burton em A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, onde, apesar de ter sido criticado por alguns por "insistir em adicionar elemenos cômicos ao papel", foi considerado o ator perfeito para o estilo de filme soturno de Burton. No Cavaleiro sem Cabeça, Depp contracenava com Christina Ricci, e com ela também seria seu filme seguinte, Por Que Choram os Homens, uma produção de época franco-americana lançada em 2000. Ainda em 2000 ele participaria de Chocolate, onde contracena com Juliette Binoche, e de Antes do Anoitecer, biografia do poeta homossexual cubano Reinaldo Arenas (interpretado por Javier Bardem), onde interpreta dois papéis, uma drag queen e um policial violento.

No ano seguinte, Depp estaria nas telas em Do Inferno, adaptação de uma história em quadrinhos de Alan Moore, onde ele interpreta um policial que investiga os crimes de Jack, o Estripador; e com Profissão de Risco, onde contracena com Penélope Cruz e interpreta um jovem de classe alta que se envolve com drogas e se torna traficante. Em 2001 ele também experimentou uma nova profissão ao dirigir alguns clipes de sua esposa. Depp passaria o ano de 2002 inteiro sumido, mas retornaria em 2003 com talvez seu maior sucesso, Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra. No papel do pirata Jack Sparrow, Depp rouba todas as cenas, foge de todos os clichês de pirata, e tem uma atuação tão magistral que várias falas foram incluídas de última hora para comentar os trejeitos do personagem, que deveria ser sério e atormentado, mas por uma opção de Depp acabou se tornando cômico. Baseado em um brinquedo da Disneylândia, Piratas do Caribe não prometia nada na época de seu lançamento, mas acabou rendendo mais de 300 milhões de dólares só nos Estados Unidos, e uma indicação ao Oscar de Melhor Ator para Johnny Depp, que infelizmente não ganhou.

A razão pela qual Depp ficou fora das telas em 2002 foi que dois filmes que deveriam ter sido lançados este ano acabaram adiados: Era uma Vez no México, de Robert Rodriguez, terceira parte da trilogia estrelada por Antonio Banderas no papel de um mariachi vingativo, lançado em 2003; e Em Busca da Terra do Nunca, que conta a vida do escritor escocês J. M. Barrie, que criou um dos livros infantis mais famosos do mundo, Peter Pan. No papel de Barrie, Depp mais uma vez tem uma interpretação magistral, que lhe rendeu uma nova indicação ao Oscar em 2004 - o filme ficou dois anos engavetado para não concorrer com a ótima versão para cinema dirigida por P. J. Hogan, que estreou em 2003. Ainda em 2004, Depp retornaria ao suspense com Janela Secreta, no qual interpreta um atormentado escritor acusado de plágio por um homem misterioso, e faria o papel título de O Libertino, que conta a vida do poeta inglês John Wilmot.

Em 2005 Depp atuaria em mais um filme de Tim Burton, desta vez a nova versão para o clássico A Fantástica Fábrica de Chocolate, onde faz uma interpretação única do dono da fábrica, Willy Wonka. No mesmo ano, Depp seria convidado para emprestar sua voz a um dos protagonistas do novo projeto de Burton, A Noiva Cadáver, filme de animação stop-motion baseado em uma lenda do folclore russo. 2006 e 2007 teriam novas aparições de Jack Sparrow em Piratas do Caribe: O Baú da Morte e Piratas do Caribe: No Fim do Mundo, filmados juntos mas lançados separados, e que, apesar das críticas à fraqueza dos roteiros e das acusações de terem sido feitos apenas para capitalizar sobre o sucesso do primeiro, trazem Depp mais uma vez inspirado. Finalmente, Depp voltaria a ser dirigido por Burton no musical Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, versão para o cinema de um grande sucesso da Broadway, onde mais uma vez interpreta o papel principal, e que lhe rendeu sua terceira indicação ao Oscar de Melhor Ator.

Novos filmes com Depp só deverão ser lançados em 2009: Public Enemies, de Michael Mann, onde interpreta um ladrão de bancos que põe a polícia norte-americana de sobressalto no início da década de 30; e The Imaginarium of Doctor Parnassus, de Terry Gilliam, último filme de Heath Ledger, onde Depp, Jude Law e Colin Farrell interpretarão "versões alternativas" do personagem de Ledger, que morreu durante as filmagens. Depp também está reservado para duas produções baseadas em livros homônimos, Shantaram e The Rum Diary, ambos envolvidos em problemas com orçamento, produção e troca de diretores, e que ninguém sabe quando vão sair. Ele também foi convidado por Robert Rodriguez para atuar nas partes 2 e 3 de Sin City, e deve começar a filmar em breve.

Aparentemente, depois do casamento com Paradis, Depp tomou jeito, e sua vida pessoal parece não ser mais empecilho para a profissional. Sem dúvida alguma, ele já se tornou um dos maiores e mais versáteis atores de todos os tempos, ainda que escolha interpretar apenas personagens incomuns e deslocados - ou talvez exatamente por causa disso.
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quarta-feira, 23 de abril de 2008

Escrito por em 23.4.08 com 1 comentário

Danica Patrick

Pouca gente reparou, mas no último domingo foi escrito mais um capítulo da História: a norte-americana Danica Patrick, 26 anos, se tornou a primeira mulher a vencer uma prova de automobilismo que não fosse de uma categoria de acesso, turismo ou arrancada. Falando assim parece pouca coisa, mas se você levar em conta o pequeno número de mulheres que já conseguiram correr na Fórmula 1 e na Fórmula Indy, só para citar as duas mais conhecidas, foi uma senhora proeza.

Eu assumo: eu torço por Danica Patrick. Talvez não tanto quanto pelos brasileiros, mas, assim como ela, eu esperava por essa vitória há tempos. Devo confessar que me emocionei quando a vi recebendo a bandeirada, e até senti um impulso de imediatamente escrever alguma coisa aqui no átomo para comemorar o feito. Depois, pensei melhor: eu ia pular o dia de hoje por causa do feriado, mas, como eu fiquei por aqui, não custa nada colocar um post hoje também. E, como não custa nada colocar um post hoje, também não custa que ele seja sobre Danica Patrick! Assim sua conquista não passa em branco.

Danica Sue Patrick nasceu em 25 de março de 1982, na cidade de Beloit, Wisconsin, Estados Unidos, filha do ex-piloto de motocross T.J. Patrick, que conheceu sua mãe, Bev, durante uma corrida de snowmobiles, aquelas motos próprias para andar na neve, onde T.J. iria correr e Bev seria a mecânica da moto de um amigo. Acostumada às corridas desde pequena, Danica começou a correr em karts aos dez anos de idade, ganhando sete títulos regionais e quatro nacionais entre 1994 e 1997, e estabelecendo um recorde de 39 corridas vencidas em 49 possíveis em 1996. Aos 16 anos, buscando aprimorar suas habilidades como piloto, Danica se mudou para a Inglaterra, onde estreou na Fórmula Vauxhall em 1998. Sempre que possível, ela voltava aos Estados Unidos para competir no kart, e se matriculou em uma escola própria para pilotos da Fórmula Ford no Canadá. Tantas atividades simultâneas fizeram com que ela não se destacesse em nenhuma delas, mas em 1999, em sua primeira temporada completa na Vauxhall, terminou em nono lugar no campeonato. No ano seguinte, ela se transferiu para a Fórmula Zetek, e correu algumas corridas pela Fórmula Ford inglesa, inclusive a Brands Hatch Festival, onde terminou em segundo, melhor colocação de um piloto norte-americano na história do evento.

Em 2001, Danica correu mais uma temporada na Fórmula Zetek, mas decidiu que era hora de retornar à sua América natal. Após testes em várias categorias, ela conseguiu um contrato de cinco anos com a equipe do ex-piloto Bobby Rahal, tricampeão da Fórmula Indy, fazendo sua estréia na Barber Dodge Pro Series de 2002, com promessa de se transferir para a Toyota Atlantic Series, de mais renome, no ano seguinte. No fim de 2002, Danica venceu de ponta a ponta a Toyota Pro Celebrity Race, um evento festivo da montadora realizado nas ruas de Long Beach, Califórnia, mais um feito expressivo, que lhe acabou rendendo um convite da equipe inglesa Prodrive para correr uma prova da American Le Mans Series, sua primeira experiência em uma categoria turismo, em Atlanta, em 2003, onde terminou em décimo.

Correndo pela Rahal-Letterman na Toyota Atlantic Series em 2003, Danica se tornou a primeira mulher a subir ao pódio na história da categoria, com um terceiro lugar em Monterrey, México, e um segundo lugar em Miami, terminando em sexto lugar no campeonato. Sua temporada de 2004 foi ainda melhor, incluindo um novo terceiro lugar em Monterrey, um novo segundo, desta vez em Portland, e a primeira pole position de sua carreira, também em Portland, a primeira de uma mulher na história da categoria. Danica foi ainda a única piloto da temporada a completar todas as voltas de todas as corridas - ou seja, não foi ultrapassada pelo líder nem abandonou em nenhuma delas - terminou entre os cinco primeiros em 10 das 12 provas, e se tornou a primeira mulher na história da categoria a liderar um campeonato, terminando em terceiro ao final da temporada.

Rahal ficou tão impressionado com o desempenho da moça que decidiu "promovê-la" em 2005, aos 22 anos, para sua equipe da IRL (Indy Racing League), conhecida por aqui como Fórmula Indy. Suas três primeiras corridas não tiveram nada de especial, mas a partir da quarta, em Motegi, Japão, Danica se tornou um acontecimento bombástico na categoria: não somente se classificou em segundo lugar, como liderou 32 das 200 voltas, e acabou completando em quarto. Com todos os holofotes sobre ela, Danica quase conseguiu uma proeza histórica na prova seguinte, as 500 Milhas de Indianápolis: durante o aquecimento para a qualificação, ela conseguiu a velocidade média de 369,956 Km/h, que lhe renderia a pole com folgas caso repetida durante a qualificação; infelizmente, ela cometeu um erro logo na primeira curva, e acabou ficando com a quarta melhor média - na Indy a quailificação é feita por média de velocidade, e não por tempo de volta. Ainda assim, Danica se tornou apenas a quarta mulher a conseguir se classificar para largar em Indianápolis, e sua quarta posição de largada era a melhor de uma mulher na história do evento. Durante a corrida, ela faria ainda mais, se tornando a primeira mulher a liderar a prova, o que fez durante 19 voltas. Talvez por nervosismo, ela acabaria deixando o carro morrer em uma das paradas nos boxes, e mais tarde rodaria na pista danificando o bico do carro, o que a obrigaria a uma parada não programada, mas, mesmo com estes contratempos, Danica ainda conseguiria terminar a prova na mesma quarta posição em que largou, o melhor resultado de uma mulher na história das 500 Milhas. Seu desempenho ainda lhe renderia o prêmio de melhor estreante do ano na prova.

Os quarto lugares em Motegi e Indianápolis seriam os melhores resultados de Danica no ano, mas na oitava prova do calendário, no Kansas, ela conseguiria sua primeira pole position na IRL, se tornando a segunda mulher a conseguir tal proeza, após Sarah Fisher em 2002. Danica ainda repetiria a pole no Kentucky e em Chicagoland, para um total de três, recorde de maior número de poles em uma temporada de estréia, empatada com Tomas Scheckter. Danica terminaria o campeonato na décima-segunda posição, ganhando o título de Estreante do Ano na categoria. Ela também seria eleita a Atleta do Ano pela Academia de Esportes dos Estados Unidos, e Piloto Mais Popular da IRL por uma votação entre os fãs. De fato, ela se tornou tão popular que muitos iam aos autódromos ou assistiam às corridas pela TV apenas para vê-la, o que acabou aumentando a popularidade da IRL e gerando um fenômeno apelidado pela imprensa de "danicamania": nunca na história da Fórmula Indy um piloto havia vendido tanto merchandising quanto Danica Patrick.

Durante as férias da Indy, Danica se casou com o médico Paul Hospenthal, 16 anos mais velho que ela, a quem conheceu em 2002 após machucar o quadril fazendo ioga. Poucas semanas depois do casamento, ela teria uma nova experiência com carros de turismo nas 24 Horas de Daytona de 2006, a corrida mais longa da qual já participou. Correndo ao lado de Rusty Wallace, Danica terminou a corrida em décimo quarto.

Embora a danicamania não parasse de aumentar, a temporada 2006 de Danica na IRL foi bem menos espetacular que a 2005. Ela se classificou em terceiro para a primeira prova do ano, em Miami, mas um acidente fatal com seu companheiro de equipe Paul Dana durante o aquecimento para a corrida fez com que a Rahal-Letterman decidisse não largar. Danica conseguiu se classificar mais uma vez para as 500 Milhas, mas largou em oitavo e terminou em décimo. Após a quinta corrida da temnporada, a Rahal-Letterman mudou dos chassis Panoz para os Dallara, e Danica não conseguiu se adaptar muito bem, brigando com o carro a cada corrida. Ainda assim, ela conseguiu dois novos quarto lugares em Nashville e Milwaukee, e terminou em nono na classificação geral, sendo também eleita Piloto Mais Popular da IRL pela segunda vez seguida.

Ainda durante a temporada de 2006, Danica anunciou que não renovaria seu contrato com a Rahal-Letterman. Na temporada de 2007, ela correria pela Andretti-Green, mesma equipe do brasileiro Tony Kanaan, de propriedade do ex-piloto Michael Andretti, filho do campeão de Fórmula 1 e Fórmula Indy Mario Andretti. Em uma equipe maior e mais famosa, ela tinha tudo para ir além dos bons resultados de seu ano de estréia. Nas 500 Milhas de Indianápolis, ela largou em oitavo, chegou a ficar em segundo, e poderia ter até vencido caso a chuva não tivesse interrompido a corrida duas vezes, o que acabou atrapalhando sua estratégia e fazendo com que ela terminasse na mesma oitava posição em que largou. O resto da temporada seria cheio de acidentes e abandonos, mas em pelo menos três provas Danica conseguiu resultados espetaculares: no Texas, ela não somente liderou mais uma corrida, algo que não fazia desde 2005, como também terminou em terceiro, melhor resultado de sua carreira. Um novo terceiro lugar viria em Nashville, e um segundo lugar viria em Detroit, fazendo com que sua primeira vitória parecesse apenas uma questão de tempo. Danica terminou a temporada de 2007 na sétima posição, e foi eleita pela terceira vez consecutiva a Piloto Mais Popular.

Em 2008, correndo mais uma vez pela Andretti-Green, Danica não começou muito bem, largando em segundo em Miami, mas completando em sexto. Na segunda corrida da temporada, em St. Petesburg, Flórida, ela largou em décimo-nono, mas conseguiu chegar em décimo. E aí, finalmente, veio a corrida do Japão, em Motegi, a de número 50 na carreira de Danica na IRL.

Para quem não sabe, é proibido correr em circuitos ovais com chuva, devido a questões de segurança. Como choveu muito em Motegi, não foi possível realizar a qualificação. A corrida deveria ser realizada a partir de uma da tarde de sábado, dia 19, horário do Japão, mas a largada acabou só acontecendo às 11 da manhã de domingo, dia 20, 11 da noite de sábado aqui no Brasil. Como não houve qualificação, os pilotos largaram nas posições que ocupavam no campeonato, com o brasileiro Helio Castroneves na pole, e Danica na sexta posição. Helio liderou as 92 primeiras voltas, mas perdeu a liderança nos boxes para o neozelandês Scott Dixon, que liderou mais 101 voltas. Pelo menos três acidentes atrapalharam as seqüências de abastecimento - já que, quando há um acidente, os pits ficam fechados por algumas voltas - o que fez com que se tornasse uma incógnita quem teria combustível suficiente para completar a prova sem ter de parar mais uma vez. Faltando 10 voltas para o final, Dixon teve de parar, deixando a liderança para o norte-americano Ed Carpenter, que havia reabastecido pela última vez junto com Danica. Carpenter, porém, também teve de parar a cinco voltas do fim, o que fez com que todos acreditassem que a vitória iria cair no colo de Helio Castroneves, que assumiu a liderança. Mas Danica, que então ficou em segundo, ainda tinha bastante combustível e estava bem mais rápida que Helio. A três voltas do fim ela conseguiu a ultrapassagem, e daí por diante foi só acelerar até a primeira vitória de sua carreira, a primeira de uma mulher na Fórmula Indy e em qualquer outra das principais categorias do automobilismo mundial.

Durante toda a sua carreira, Danica sofreu muito preconceito, na maioria das vezes simplesmente por ser mulher em um esporte dominado pelos homens. Grande parte da imprensa norte-americana chegou até a apelidá-la de "Anna Kournikova do automobilismo", em referência à tenista russa que se tornou mais famosa por sua beleza que por suas conquistas esportivas. Houve quem a criticasse por ter posado para revistas como Maxim e Sports Illustrated, quem insinuasse que ela teria uma vantagem desleal por ser menor e mais leve que os demais pilotos, e até quem dissesse que ela só conseguia ser bem sucedida porque os carros de Fórmula Indy eram mais "fáceis de pilotar" do que, por exemplo, os de Fórmula 1. Danica teve de ouvir comentários sexistas de outros pilotos, ex-pilotos e comentaristas de TV, desmentir boatos de que estaria se transferindo para a Nascar ou para correr pela Honda na Fórmula 1 devido a não conseguir vencer em seus primeiros três anos na IRL, e conviver com a incômoda pergunta "quando você vai vencer?".

Talvez a vitória em Motegi não sirva para acabar com o preconceito, mas pelo menos a pergunta já está respondida - e ainda gerou uma tirada genial de um repórter da ESPN durante a coletiva, que perguntou "quando você vai vencer de novo?". Todos os que já viram entrevistas de Danica sabem que ela é uma simpatia de pessoa, e os que convivem com ela no dia a dia da equipe atestam que, apesar de muito competitiva, ela é sempre correta, sorridente e simpática. A torcida, portanto, é para que esta vitória tenha servido para aliviar a pressão que ela vinha sofrendo, e para que agora ela corra mais confiante e relaxada, transformando este triunfo no primeiro de muitos. Carro e talento ela tem até para ser campeã, só falta aquele pequeno componente inindentificável que faz com que alguns cheguem lá e outros não, e que pode muito bem se manifestar a qualquer momento a partir de hoje.

Mas, mesmo que ele jamais se manifeste, Danica já entrou para a História. E isso preconceito nenhum poderá tirar dela.



E que venha Indianápolis!
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quarta-feira, 16 de abril de 2008

Escrito por em 16.4.08 com 0 comentários

Veruca Salt

Houve uma época em que a Mtv prestava. Antes de quem faz a programação decidir que o canal seria quase que integralmente dedicado a atrações de gosto duvidoso destinadas ao público jovem, a Mtv era apenas o que seu próprio nome sugere: um canal de música. Evidentemente, não como os canais de música das TVs por assinatura digitais, que ficam mostrando uma tela preta enquanto tocam música; a Mtv era um canal de clipes. Da hora em que entrava no ar até a hora que saía, eram mostrados os mais variados clipes, entremeados por um ou outro comercial, e apresentados por um ou outro VJ à frente de um chroma key e agitando os braços como se tivesse complexo de helicóptero. Bons tempos.

Apesar de apresentar clipes o dia inteiro, a Mtv nem sempre os fazia de modo aleatório, já que alguns de seus programas eram temáticos. Assim, tínhamos um programa dedicado ao heavy metal, outro dedicado ao hip hop, e até um dedicado a clássicos do rock. O meu preferido ia ao ar de madrugada, e atendia pelo nome de Lado B. Dedicado às chamadas bandas "alternativas", foi através dele que conheci muitas bandas que ou entraram na minha lista de preferidas ou não o fizeram por pouco, como Curve, Placebo, The Rentals, Superchunk, Seahorses, e o tema do post de hoje, Veruca Salt.



Eu só tenho dois discos da Veruca Salt, e, na minha opinião, infelizmente só um deles, Eight Arms to Hold You, presta. Por outro lado, é um disco que eu absolutamente adoro, e que só não fez buraco porque o material do qual são feitos os CDs é bastante resistente. Foi este que eu comprei primeiro, e que acabou me levando a comprar mais um, American Thighs, do qual eu infelizmente não gostei tanto assim. Ainda assim, eu gosto tanto de Eight Arms to Hold You que não tenho nenhuma dificuldade em listar a banda dentre minhas favoritas, mesmo não tendo acompanhado seus lançamentos há mais de dez anos.

Isso porque, embora ainda exista, a Veruca Salt teve uma existência bastante atribulada, e hoje praticamente já não tem nada a ver com o que era quando lançou o disco que eu tanto gosto. A banda foi formada em 1992 na cidade de Chicago, quando as vocalistas e guitarristas Nina Gordon (a loura) e Louise Post (a morena) foram apresentadas por uma amiga em comum, a atriz Lili Taylor (da série A Sete Palmos). Como ambas já tinham a idéia de formar sua própria banda, decidiram fazer uma espécie de "banda em condomínio": ambas comporiam separadamente e cada uma cantaria suas próprias músicas, com a outra atuando como backing vocal; nas raras ocasiões em que compusessem juntas, ambas cantariam juntas. O que poderia parecer uma fórmula maluca acabou foi dando muito certo, já que os críticos viam na harmonia entre Gordon e Post a maior força da Veruca Salt. Como nenhuma banda é composta apenas de duas vocalistas/guitarristas, após um ano e meio compondo elas escalaram o irmão de Nina, Jim Shapiro, para a bateria, e seu amigo Steve Lack para o baixo. O nome da banda veio de uma das personagens do filme A Fantástica Fábrica de Chocolate, a menina riquinha que acha que pode comprar tudo o que quiser.

Com um monte de canções, todos os instrumentos necessários ao rock and roll e um bom nome, a banda começou a se apresentar em festivais locais. Nem dez shows eles tinham feito quando chamaram a atenção do produtor Jim Powers, da gravadora independente Minty Fresh, que lhes ofereceu um contrato. Como este é o sonho de qualquer banda iniciante, Gordon e Post imediatamente aceitaram, e, em 1994, saía o primeiro single da Veruca Salt, o da música Seether.

Seether fez um enorme sucesso, se tornando uma das músicas mais tocadas nas rádios alternativas de Chicago, o que rendeu à banda um convite para abrir os shows do Hole, banda de Courtney Love, viúva de Kurt Cobain. Enquanto excursionava com o Hole, a banda gravou seu primeiro álbum, American Thighs, lançado ainda em 1994. Também graças aos shows do Hole, a Veruca Salt acabou chamando a atenção de David Geffen, dono de uma das mais famosas gravadoras dos Estados Unidos. American Thighs fez tanto sucesso que ganhou um Disco de Ouro; os críticos, porém, foram bem menos receptivos que os fãs, fazendo poucas resenhas favoráveis, e acusando a banda de ser pouco mais que uma cópia mal-feita de outras que faziam sucesso na época.

Felizmente, poucos parecem ter dado ouvidos a estes críticos, já que a popularidade da banda não parava de crescer, com Seether se tornando um sucesso também na Mtv americana. Sentindo o interesse de Geffen pela banda, a Minty Fresh tentou segurá-los o máximo possível, inclusive lançando um EP de dez minutos e três músicas, chamado Victrola, em 1995. As investidas de David Geffen eram fortes, porém, e ainda naquele ano a Veruca Salt assinava com o sonho de todas as bandas de rock da época. Para evitar complicações por quebra de contrato, a Geffen concordaria que a Minty Fresh lançasse mais um EP, Blow It Out Your Ass, It's Veruca Salt!, em 1996.

Enquanto EPs eram lançados e contratos assinados, Gordon e Post trabalhavam nas músicas que fariam parte do segundo álbum da banda, Eight Arms to Hold You, lançado em 1997. Embora tivesse um som bem mais "pesado" que seu antecessor, EAtHY foi o ponto alto da carreira da banda, recebendo um bom número de críticas favoráveis e rendendo mais um Disco de Ouro. Duas faixas, Volcano Girls e Shutterbug, foram tocadas à exaustão nas rádios e na Mtv, e a primeira até se tornou uma espécie de cartão de apresentação da banda. Alegando motivos pessoais, pouco após o lançamento de EAtHY Shapiro deixou a banda, sendo substituído por Stacy Jones, ex-baterista da banda Letters to Cleo. No auge do sucesso, a Vercua Salt, infelizmente, começaria a desmoronar.

Em 1998, foi a vez de Nina Gordon, alegando querer seguir carreira solo, deixar a banda, o que causou um enorme desentendimento entre ela e Post. A saída de Gordon acabou resultando até mesmo na não-renovação do contrato com a Geffen, mas Post não se deixou abater: contratou três músicos novos, o guitarrista Stephen Fitzpatrick, a baixista Suzanne Sokol e o bateirista Jimmy Madla, e prosseguiu fazendo shows, sendo ela agora a única vocalista e compositora da Veruca Salt. Somente no ano seguinte a banda conseguiria um novo contrato, desta vez com a bem menor Beyond Records. O terceiro álbum, Resolver, só seria lançado no ano 2000, coincidentemente quase simultaneamente com Tonight and the Rest of My Life, o primeiro trabalho solo de Nina Gordon, lançado pela Outpost Records. Para felicidade de Post, Resolver foi muito bem recebido, com críticas favoráveis e boa vendagem, embora nem tenha chegado perto dos números alcançados na época em que Post e Gordon trabalhavam juntas.

Mas a banda parecia sofrer de uma espécie de maldição que afastava seus membros após cada lançamento, já que, pouco tempo após Resolver ir para as lojas, Sokol abandonou a banda, sendo substituída por Gina Crosley, amiga de longa data de Post. Com esta nova formação, em 2001 a Veruca Salt partiu para uma turnê no Reino Unido, e lá acabou chamando a atenção de uma gravadora australiana, a Embryo Records. Como o contrato com a Beyond já estava perto do fim, a Embryo conseguiu um acordo para lançar Resolver e o single Born Entertainer na Austrália, o que ocorreu em 2002. O sucesso foi tanto que a banda fez uma turnê pela Austrália, tocando em alguns shows junto com Placebo e Coldplay, e acabou lançando em 2003 mais um EP pela Embryo, com o curioso nome de Officially Dead.

Após quase um ano de turnê pela Terra dos Cangurus, a Veruca Salt retornou aos Estados Unidos para mais um show, onde apresentou algumas músicas inéditas, e mais uma mudança de formação: saíam Crosley e Madla, entravam o baixista Solomon Snyder e o baterista Michael Miley. Esta formação só duraria até a gravação de mais um EP, Lords of Sound and Lesser Things, de 2005. Mais uma vez sem gravadora, a banda optou por produzir este EP de seu próprio bolso, vendendo-o em seus shows e através de seu website. Ao sair em turnê para divulgar suas novas músicas, a formação da banda contava com Post, Fitzpatrick, a baixista Nicole Fiorentino - substituída em alguns shows por Mareea Patterson - e a baterista Kellii Scott - substituída em alguns shows por Zach Ingraham. De qualquer forma, foi a formação Post, Fitzpatrick, Fiorentino e Scott que entrou no estúdio para gravar IV, quarto e mais recente álbum de sua conturbada carreira, lançado em 2006 pela gravadora independente Sympathy For The Record Industry.

Após o lançamento de IV, a banda saiu em uma nova turnê, que dura até hoje, interrompida apenas para a gravação de um cover de Burned, de Neil Young, para um álbum beneficente em favor da prevenção do câncer de mama. Post e Fitzpatrick parecem ser mesmo os únicos membros fixos, já que em alguns shows Fiorentino é substituída por Eva Gardner, e em outros Scott o é por Toby Lang. Post e Gordon praticamente não se falam mais, e a carreira solo da segunda não está muito melhor que a de sua antiga banda, já que Gordon teve até mesmo um disco cancelado antes de seu lançamento em 2004, e apenas em 2006 conseguiu gravar um novo álbum, Bleeding Heart Grafitti, pela Warner Bros.

Talvez Veruca Salt seja um bom exemplo de como uma briga entre amigos pode destruir completamente um projeto. Eu não sei qual foi o motivo que levou Post e Gordon a se separarem, mas garanto que se a Veruca Salt tivesse seguido com suas duas vocalistas faria mais sucesso que ambas estão fazendo agora separadas. De qualquer forma, EAtHY fica como legado, e como amostra de como a carreira da banda poderia ter sido.
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quarta-feira, 9 de abril de 2008

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Marvels

Houve uma época em que histórias em quadrinhos não eram consideradas arte. Bem, talvez para alguns esta época ainda não tenha passado, mas é inegável que, de uns tempos para cá, muitas histórias de super-heróis têm sido consideradas tão artísticas quanto qualquer livro ou filme. Isso possivelmente começou na década de 70 com o lançamento das chamadas graphic novels, que ganharam este nome justamente porque novel é a palavra usada em inglês para se referir a livros de ficção, aqui conhecidos por muitos como romances. Inicialmente produzidas com histórias fechadas de personagens próprios, na década de 80 as graphic novels se uniram aos super-heróis com o lançamento de grandes clássicos como Watchmen e O Cavaleiro das Trevas. Embora a década seguinte, a de 90, não tenha passado para a memória dos fãs como uma das eras mais douradas dos quadrinhos, foi nela que ocorreu um grande boom do formato, com o estabelecimento de várias editoras independentes, e o lançamento daquela que, se não é a melhor ou mais famosa das graphic novels, pelo menos é a mais belamente ilustrada: Marvels.

Lançada em quatro edições mensais entre janeiro e abril de 1994 (1995 no Brasil), Marvels foi uma publicação da Marvel Comics que tinha o intuito de retratar acontecimentos-chave do Universo Marvel sob a ótica de pessoas comuns, ao invés de pelos olhos dos super-heróis que os estavam vivendo. Em outras palavras, embora muitas vezes nos esqueçamos disto enquanto estamos lendo, o Universo Marvel é povoado de gente como eu e você, sem qualquer espécie de superpoder, que apenas vive sua vida normal e rotineira de todos os dias, enquanto seres superpoderosos combatem uns aos outros ou impedem ameaças intergaláticas de destruir nosso planeta. Escrita por Kurt Busiek, Marvels ainda tinha um diferencial em relação a qualquer revista em quadrinhos que tivesse sido lançada antes: suas páginas não eram desenhadas, mas ricamente pintadas pelo artista Alex Ross. Junte-se a isso um acabamento de luxo, que conta até com uma "capa falsa" de acetato, e Marvels fica com muito mais cara de livro do que de história em quadrinhos.

A idéia da série surgiu quando Busiek, que já tinha visto algumas capas que Ross fizera para edições especiais da DC, conheceu o artista pessoalmente. Após algumas conversas, ambos decidiram submeter à Marvel, onde Busiek trabalhava, o projeto de uma série que não teria apenas suas capas pintadas, mas também toda a sua arte interna, algo bastante ambicioso, além de inédito e arriscado, já que ninguém sabia como os leitores iriam reagir a esta novidade. Correr riscos aparentemente nunca foi problema para a Marvel, porém, e a editora acabou dando luz verde para uma série que considerou mais do que apropriada para este ineditismo, aquela que, como eu já disse, mostraria acontecimentos-chave do Universo Marvel, aqueles familiares não somente aos leitores assíduos como também àqueles que só tivessem um conhecimento básico sobre os super-heróis da editora, sob a ótica de pessoas normais, presentes durante estes acontecimentos. Conforme Busiek e Ross discutiam os roteiros, porém, eles perceberam que seria possível fazer com que cada edição também tivesse um "tema", algo que associasse os acontecimentos à vida das pessoas envolvidas neles. Assim, a dupla criou um personagem principal, o fotógrafo Phil Sheldon, responsável por cobrir os acontecimentos de um ponto de vista jornalístico, enquanto estes eram apresentados simultaneamente em relação aos heróis e às pessoas comuns que as viviam.

Marvels abrange aproximadamente 30 anos do Universo Marvel; sua primeira edição, Uma Época de Maravilhas (A Time of Marvels), é ambientada no início da década de 1940, quando a editora ainda nem sequer se chamava Marvel. Sheldon ainda é um repórter em início de carreira, e os principais heróis retratados são o Tocha Humana original, o Príncipe Submarino e o Capitão América. O primeiro contato de Sheldon com as por ele chamadas Maravilhas se dá quando ele é escalado para cobrir um evento no qual o Dr. Phineas Thomas Horton, criador do Tocha Humana original - que, para quem não sabe, é um andróide - apresentará sua criação ao mundo. O fato de existir um ser humano artificial capaz de gerar fogo espontaneamente evidentemente causa pânico e temor na população, e o fato de um habitante de um reino submarino decidir atacar Nova Iorque alguns dias depois também não contribui muito para acalmar o povo. O próprio Sheldon chega a romper seu noivado por não conseguir imaginar como seria criar uma família em um mundo onde seres superpoderosos se degladiam, mas as ações do Capitão América e de seus aliados na Segunda Guerra Mundial fazem com que ele veja o quão realmente maravilhosas as Maravilhas podem ser, e reconsidere sua decisão. Segundo Busiek, o tema desta edição é o progresso científico, embora eu ache que o medo do desconhecido também interprete um importante papel.

O medo do desconhecido, porém, seria reservado como tema para a segunda edição, Monstros (Monsters), ambientada no início da década de 1960, e onde os X-Men são os principais heróis enfocados. Sheldon já é um repórter bem estabelecido, trabalhando para o Clarim Diário e planejando escrever um livro sobre as Maravilhas das quais tira tantas fotos. Em seu coração, porém, ele teme os mutantes - assim como a maioria da população, aliás - aos quais ele considera como o "lado ruim" das Maravilhas. O contraste entre a imagem que a população faz dos mutantes com a dos heróis em geral fica bem evidente nos dois acontecimentos principais cobertos nesta edição, o casamento de Reed Richards com Sue Storm e o ataque dos Sentinelas. O preconceito de Sheldon em relação aos mutantes diminui graças a dois eventos, a perseguição em sua vizinhança a uma pequena garotinha apenas porque ela nasceu mutante, e a explosão de violência por parte da população durante a Noite dos Sentinelas.

A edição mais impressionante do ponto de vista de uma pessoa comum, porém, é a terceira, Juízo Final (Judgement Day), que mostra a chegada de Galactus, e, segundo Busiek, tem como tema a impotência. A história é ambientada no final da década de 1960, um momento especialmente delicado, onde a população em geral se vê desconfiada do verdadeiro lugar das Maravilhas na sociedade, enquanto Sheldon sente que está dedicando tempo demais a seu trabalho e de menos a sua família. Quando uma chuva de fogo e pedras revela o Surfista Prateado, que se anuncia como arauto de um ser alienígena que está vindo devorar nosso planeta, evidentemente a população entra em pânico. Nem mesmo Sheldon acredita que verá o dia de amanhã, então ele decide não cobrir a história, mas ir para casa passar seus últimos momentos com sua família. Felizmente, como todos sabemos, o Quarteto Fantástico derrota Galactus, mas nem assim a população passa a dar às Maravilhas o tratamento que Sheldon imagina que elas mereçam.

Finalmente, a série se conclui com O Dia em que Ela Morreu (The Day She Died), ambientada no início da década de 1970. Sheldon conseguiu publicar seu livro de fotos, e está cada vez mais descontente com o tratamento dado às Maravilhas, vistas com cada vez mais desconfiança pelas pessoas em geral, apesar de arriscarem suas vidas para salvá-las diariamente. Sheldon é principalmente revoltado com as atitudes de J. Jonah Jameson e Peter Parker, que, na visão dele, se esforçam para mostrar o Homem-Aranha como um grande vilão, inclusive atribuindo a ele a culpa pela morte do Capitão Stacy. Após conhecer Gwen Stacy, filha do policial, ele decide investigar para obter provas de que o verdadeiro culpado pelo assassinato foi o Dr. Octopus. Infelizmente, durante esta investigação, o Duende Verde seqüestra Gwen, e a falha do Homem-Aranha em salvá-la causa um profundo desgosto em Sheldon, que decide se aposentar e não se preocupar mais com esta história de Maravilhas. Por qualquer razão, Busiek jamais disse qual seria o tema desta edição.

Marvels foi um imenso sucesso, ganhou vários dos principais prêmios destinados a histórias em quadrinhos, e alavancou as carreiras de Busiek e Ross, este último sendo permanentemente associado a trabalhos de qualidade. Devido a seu sucesso, a Marvel passaria a lançar regularmente outras minisséries pintadas ao invés de desenhadas, como Código de Honra, escrita por Chuck Dixon e ilustrada por Brad Parker e Tristan Shane, que mostrava o dia a dia de um policial comum no Universo Marvel; e Ruínas, escrita por Warren Ellis e ilustrada por Cliff e Terese Nielsen, e que mostrava Phil Sheldon como repórter em um universo paralelo onde os poderes das Maravilhas traziam-lhes enormes problemas ao invés de enormes vantagens. Nenhuma delas, porém, chegou nem perto do sucesso alcançado pela Marvels original; a que chegou mais perto foi um lançamento da DC, Kingdom Come (O Reino do Amanhã em português), uma visão futurista e sombria dos heróis DC, escrita por Mark Waid e também ilustrada por Alex Ross - curiosamente, Sheldon faz uma "participação especial", na cena da conferência de imprensa no prédio da ONU.

Em agosto de 1995, Marvels foi compilada em uma edição única, que trazia, além de várias ilustrações feitas por Ross dos principais heróis e vilões Marvel, uma espécie de prólogo (apelidada de "Edição 0" ou "Edição 1/2"); este prólogo contava a história da criação do Tocha Humana original, narrada pelo próprio Tocha, mostrando seu ponto de vista pessoal sobre os acontecimentos. Em 2004 Marvels foi novamente relançada, desta vez com capa dura de arte inédita, para comemorar seu 10o aniversário. Estas versões nunca foram lançadas por aqui, mas com um pouco de sorte podem ser encontradas em lojas de quadrinhos importados.

A principal característica da Marvel é que seus heróis são "humanos", com problemas e defeitos, e nem sempre aceitos pelas pessoas a quem deveriam proteger. Talvez Marvels tenha se tornado um grande sucesso justamente por levar esta idéia ao extremo, e por nos lembrar que, por mais que nos quadrinhos existam super-heróis voando por aí, eles nada seriam sem as pequenas pessoas comuns a quem juraram proteger. Um projeto ambicioso, mas que felizmente deu muito certo.
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quarta-feira, 2 de abril de 2008

Escrito por em 2.4.08 com 0 comentários

Jornada nas Estrelas

Por alguma razão que eu desconheço, aparentemente quem gosta de Jornada nas Estrelas odeia Star Wars e vice-versa. Felizmente, este nunca foi o caso comigo, que gosto dos dois desde que me entendo por gente, nem com a maioria dos meus amigos - exceto um, que faz parte do grupo de Jornada nas Estrelas, e fica particularmente irritado quando lhe perguntam se "este é o filme dos robozinhos".

Como eu já falei aqui sobre Star Wars, creio que todo mundo que leu até esta linha já descobriu qual é o assunto de hoje. Na verdade, um post sobre Jornada nas Estrelas já estava planejado há muito, muito tempo (com perdão do trocadilho), sendo que minha última tentativa de escrevê-lo foi justamente após o de Star Wars ir ao ar. Motivos vários, porém, fizeram com que ele fosse postergado diversas vezes, até que a "proximidade" (de quase um ano) do lançamento de mais um filme da série me animou a tentar mais uma vez. Assim, hoje finalmente veremos um post sobre a minha série de ficção científica preferida. Senhoras e senhores, vamos ao post de Jornada nas Estrelas!

De baixo para cima: Scott, Spock, Kirk, McCoy, Uhura, Sulu e ChekovSe tiver alguém por aí que não sabe, Jornada nas Estrelas estreou originalmente como uma série de TV, no final dos anos 60, na emissora norte-americana NBC. Diferentemente do que eu já vi gente por aí falando, não foi a primeira série de TV de ficção científica nem sobre viagens espaciais, mas com certeza acabou se tornando a mais famosa. "Acabou" porque, assim como muitas outras produções do gênero, não foi um sucesso imediato.

A idéia da série partiu de Gene Roddenberry, um roteirista de séries de faroeste apaixonado por ficção científica. Apesar de naves espaciais na década de 60 já não serem uma novidade, Roddenberry imaginou mostrar o dia a dia dos tripulantes de uma nave enorme, enviada para explorar os confins do universo, ao invés de poucos passageiros de uma nave de batalha ou um explorador solitário, como era mais comum. A ênfase seria nas relações interpessoais entre os tripulantes e nas peculiaridades dos lugares descobertos, mas ou menos como uma história da época dos descobrimentos marítimos ou do desbravamento do oeste, mas no espaço.

Após desenvolver seu conceito inicial, em 1964 Roddenberry conseguiu um acordo com a produtora Desilu, de propriedade da comediante Lucille Ball, da famosa série I Love Lucy, que lhe garantiria três anos de produção da série. Acordo firmado, Roddenberry produziu um piloto, e o ofereceu a duas grandes redes de televisão dos Estados Unidos, a CBS e a NBC. Infelizmente, as coisas não saíram conforme o esperado: a CBS não quis bancar o programa, preferindo levar ao ar a série Perdidos no Espaço, e a NBC achou o piloto de difícil compreensão, e que não valia a pena fazer uma série a partir dele. A NBC, porém, reconheceu que o estilo de história criado por Roddenberry tinha potencial, e lhe pediu que fizesse um segundo piloto, financiado pela emissora. Caso este novo piloto agradasse, a série iria ao ar. Evidentemente, foi justamente isto que aconteceu.

Aparentemente, temendo que o segundo piloto tivesse o mesmo destino do primeiro, Roddenberry radicalizou: de todos os personagens, apenas o Sr. Spock, interpretado por Leonard Nimoy, estava presente em ambos os episódios. No primeiro piloto, o capitão da nave era Christopher Pike, intepretado por Jeffrey Hunter, que ficou com o papel após a primeira opção de Roddenberry, Lloyd Bridges, recusá-lo. Pike também seria aproveitado para o segundo piloto, mas Hunter não quis repetir sua atuação, o que abriu caminho para que a nave USS Enterprise tivesse um novo capitão, James T. Kirk, interpretado por William Shatner. Assim como Kirk, outros personagens famosos, como o engenheiro Montgomery Scott (James Doohan) e o tenente Sulu (George Takei) também fizeram sua estréia neste segundo piloto; já o Dr. Leonard McCoy (DeForest Kelley), a ordenança Janice Rand (Grace Lee Whitney) e a oficial de comunicações Uhura (Nichelle Nichols) só entraram na série no primeiro episódio gravado após a luz verde da NBC, mas graças a uma "rearrumação" na ordem dos episódios (que não foram ao ar na mesma ordem em que gravados) todos os personagens principais se tornaram conhecidos do público na estréia da série, exceto a enfermeira Christine Chapel (Majel Barrett), que estreou no quarto episódio televisionado (e sétimo produzido). Barrett, aliás, foi a única atriz, além de Nimoy, presente no piloto original.

Jornada nas Estrelas estreou na NBC no dia 8 de setembro de 1966, uma quarta-feira, com o episódio The Man Trap (O Sal da Terra, em português), na verdade o sexto produzido. O segundo piloto, batizado de Where No Man Has Gone Before (Onde Nenhum Homem Jamais Esteve), foi o terceiro episódio televisionado, em 22 de setembro. O primeiro piloto não foi ao ar até 1988, quando fez parte de um especial de duas horas sobre a série. Ao todo, a primeira temporada teve 29 episódios, sendo que o último foi televisionado em 13 de abril de 1967.

USS Enterprise NCC-1701Jornada nas Estrelas foi considerada uma produção revolucionária para a época: para começar, seu elenco era multirracial, contando a tripulação da Enterprise com um oriental (Sulu) e uma negra (Uhura - o fato de que nenhum dos dois personagens tinha um primeiro nome é curioso, mas pode ser relevado), além de um "alienígena" (Spock, que é filho de mãe terráquea com pai vulcano), todos inteligentes, bem articulados e ocupando posições-chave dentre a tripulação da nave. Em uma década tão marcada pela intolerância racial, Roddenberry se mostrou um visionário até por seu argumento, de que no século 23, quando a série é ambientada, não existiriam conceitos como racismo ou sexismo. De fato, o próprio conceito de nação parece ter sido abolido neste futuro, onde a Federação dos Planetas Unidos faz o papel de um grande "Estado interestelar".

Além da parte das relações humanas, Jornada nas Estrelas inovou ao criar ou fazer melhor uso de vários dispositivos tecnológicos, a maioria deles incluída simplesmente para baratear os custos da produção: viagens mais rápidas que a velocidade da luz, por exemplo, não eram nenhuma novidade na ficção científica, mas a Dobra Espacial permitia que a Enterprise se locomovesse de um ponto a outro do universo em um tempo que tornava possível explorar uma grande quantidade de planetas sem que fosse preciso envelhecer a tripulação ou colocá-los em animação suspensa. O teletransporte que leva os tripulantes para a superfície dos planetas e os traz de volta à nave também foi uma grande sacada, pois evitava que se tivesse de filmar uma seqüência de nave auxiliar aterrizando e outra dela decolando para cada episódio. Finalmente, os comunicadores levados pelos personagens em suas missões não eram úteis apenas quando quem estava fora da nave queria falar com quem ficou dentro dela, mas podiam ser utilizados para resolver a pergunta "por que eles não se teletransportam de volta para a nave assim que ficam em perigo", bastando fazer com que o comunicador desse defeito, fosse perdido ou sofresse interferência - há quem diga, aliás, que o formato dos comunicadores teria até influenciado o design dos telefones celulares quando estes foram criados. Até mesmo as portas que se abriam automaticamante foram consideradas uma grande novidade em uma série de televisão, e hoje são consideradas uma das marcas características da série.

A nave Enterprise, onde a tripulação viajava, foi criada pelo diretor de arte Matt Jefferies. Seu desenho de um disco largo conectado a um tubo de onde saíam os propulsores acabou se tornando um dos modelos mais elegantes e facilmente reconhecíveis de nave espacial da história, e serviu de modelo para praticamente todas as naves que apareciam na série. Os uniformes dos personagens foram criados por William Ware Theiss, e o escultor Wah Chang, que já havia trabalhado para a Disney, criou a maioria dos equipamentos, como os comunicadores, as armas de phaser e os tricorders.

Um dos pontos principais da série eram os conflitos entre os três protagonistas, propositadamente criados com características bem diferentes: Kirk era passional e atirado, chegando a ser agressivo em algumas ocasiões mais tensas; Spock, por ser meio-vulcano, praticamente não demonstrava emoções, sendo algumas vezes distante, e sempre lógico e racional; e McCoy era algumas vezes ríspido e irônico, mas sempre fiel e companheiro. McCoy e Spock discutiam praticamente o tempo todo, mas por detrás de suas rusgas tinham uma amizade sólida e respeito mútuo. Mas a série não era uma novela, e portanto também tínhamos lutas com lasers, combates entre naves, planetas inóspitos e muitas raças alienígenas, como os próprios vulcanos, que ajudaram a Terra a desenvolver seu programa espacial; os selvagens e violentos Klingons, principais antagonistas recorrentes; e os Romulanos, inspirados nos romanos da Antiguidade, que planejavam expandir seu império por toda a galáxia.

McCoy, Kirk e SpockMesmo com todos estes pontos fortes, Jornada nas Estrelas correu o risco de ser cancelada ainda durante sua primeira temporada, pois a audiência era baixa e a maioria das críticas eram negativas. Ainda assim, a NBC decidiu apostar em uma segunda temporada de mais 26 episódios, que foi ao ar entre 15 de setembro de 1967 e 29 de março de 1968. Esta segunda temporada introduziu mais um personagem principal, o navegador russo Pavel Chekov, interpretado por Walter Koenig. Diz a lenda que o personagem foi incluído depois que o jornal soviético Pravda fez uma matéria reclamando que não havia nenhum russo de destaque dentre a tripulação da Enterprise, mas é mais provável que a versão oficial, de que os produtores queriam um personagem com apelo junto ao público jovem, seja verdadeira, já que é pouco provável que Jornada nas Estrelas fosse televisionada na década de 60 na União Soviética.

A série continuou atraindo críticas negativas, números baixos de audiència e pouco interesse dos patrocinadores durante a segunda temporada, e seu cancelamento parecia iminente. Na verdade, ele só não aconteceu porque uma mobilização dos fãs, que mandaram centenas de cartas para a NBC, garantiu uma terceira temporada de 24 episódios, que estreou em 20 de setembro de 1968. Infelizmente para estes fãs, porém, a NBC decidiu passar a série para as sextas-feiras às 10 da noite, horário conhecido informalmente como "Friday Night Death Slot" (algo como "o horário da morte das sextas à noite"), por ser habitualmente reservado a séries de baixa audiência à beira do cancelamento. Roddenberry se irritou com esta mudança e abandonou seu cargo de produtor em protesto, sendo substituído por Fred Freiberger. Para completar, a NBC reduziu severamente o orçamento do programa. O resultado é que a terceira temporada tem muitos dos episódios considerados mais fracos da série, e o pior destino não pôde ser evitado: em 3 de junho de 1969, foi ao ar o último episódio da série, após um total de 79 (80 se você contar o primeiro piloto).

Mas então, como é comum, algo estranho aconteceu: a série começou a ser reprisada em vários canais por todos os Estados Unidos, e durante a década de 70 alcançou uma popularidade inimaginável na época em que estava no ar. Para aproveitar o sucesso, a NBC encomendou à Filmation (que na década de 80 produziria o desenho do He-Man) um desenho animado de Jornada nas Estrelas. Atualmente conhecido como Star Trek: The Animated Series, este desenho, supervisionado pelo próprio Roddenberry, teve 22 episódios de meia hora cada, que foram ao ar entre 8 de setembro de 1973 e 12 de outubro de 1974, e trazia todos os personagens da primeira temporada com as vozes originais dos atores que os interpretavam, além dos roteiristas de muitos dos episódios da série original, o que fez com que ele ficasse extremamente fiel à série que sucedeu - mas por pouco não foi assim: a Paramount chegou a oferecer um caminhão de dinheiro para que Roddenberry abrisse mão do projeto e permitisse que a Filmation incluísse personagens infantis relacionados aos personagens da série, e que viveriam aventuras a seu lado, incluindo uma criança vulcana para acompanhar Spock; muito felizmente, Roddenberry se indignou e não aceitou.

O desenho animadoO sucesso do desenho animado e das reprises da série original motivou a Paramount a produzir uma continuação da série para a TV, que estrearia em 1978 com 12 episódios de 50 minutos cada, com o nome de Star Trek: Phase II. Este projeto acabou não indo para a frente, mas pelo menos serviu a um propósito maior: um de seus episódios acabaria se transformando no que seria o primeiro filme de Jornada nas Estrelas para o cinema.

Tentativas de se fazer um filme de Jornada nas Estrelas já vinham sendo feitas desde 1974, mas apenas ao olhar os roteiros separados para a nova série a Paramount encontrou a história que considerava ideal. Após algumas modificações, surgiu Star Trek: The Motion Picture (Jornada nas Estrelas: O Filme, em português), lançado em 1979 e dirigido por Robert Wise (de Cidadão Kane). O momento parecia propício tanto para o lançamento de um filme de Jornada nas Estrelas quanto para um filme de ficção científica - aproveitando a onda de popularidade do gênero levantada pela estréia de Star Wars dois anos antes - e realmente o filme, que custou 35 milhões de dólares, arrecadou quase 140 milhões ao redor do mundo, além de ser indicado aos Oscars de melhor direção de arte, melhores efeitos especiais e melhor música. Ainda assim, a Paramount não ficou muito satisfeita, já que o filme recebeu muitas críticas desfavoráveis - principalmente por ser considerado "lento" - e havia feito uma projeção de arrecadação bem maior antes do lançamento. O filme ganhou uma Versão do Diretor lançada em 2001, mais bem acabada e considerada superior à original.

Na história do filme, Kirk, agora Almirante, recebe uma missão de emergência, voltando ao comando da Enterprise para interceptar e tentar deter uma força alienígena parecida com uma nuvem de energia, que já destruiu três naves klingon e uma estação espacial, e agora ruma para a Terra. Além de todos os perigos iminentes a esta tarefa, ele ainda terá de lidar com a revolta do Capitão Willard Decker (Stephen Collins), que assumira a Enterprise após a promoção de Kirk, e não gostou nada de ter de ceder o posto para seu retorno. O filme conta com toda a tripulação original da série, e ainda marca a primeira ocasião na qual os Klingons apareceram com sua característica testa enrugada - até então eles apenas se pareciam com humanos orientais e feiosos.

Talvez imaginando que o filme pudesse ter sido melhor recebido se fosse mais ligado à série, para sua continuação a Paramount decidiu seguir um caminho de menos efeitos especiais, orçamento menor e mais ação, como se estivesse produzindo um episódio comum, mas de duas horas. O resultado foi aquele que a maioria dos fãs considera o melhor filme da série: Star Trek II: The Wrath of Khan (A Ira de Khan), lançado em 1982 e dirigido por Nicholas Meyer. Khan (Ricardo Montalban) era um vilão que já havia aparecido em um dos episódios da série, um humano geneticamente alterado para ter força física e capacidade analítica superiores às dos humanos comuns. No filme, revoltado com a morte de alguns colegas e desejoso de vingança contra Kirk, ele captura uma nave da Federação, da qual um dos tripulantes era Chekov, e a usa para atacar a Enterprise. Além de Montalban, o elenco ainda conta com a atriz Kirstie Alley, em seu primeiro papel no cinema, interpretando a vulcana Saavik. A Ira de Khan foi bem recebido pela crítica, e em seu primeiro fim de semana em cartaz bateu o recorde de arrecadação de todos os tempos. Para muitos, o filme ressuscitou a franquia.

A Ira de Khan possui um final, talvez acidentalmente, aberto: após receber uma dose letal de radiação, Spock morre, e seu caixão é jogado em um planeta que está sob o efeito do "Dispositivo Gênese", criado para transformar um planeta inóspito e sem vida em um planeta habitável novamente. Inicialmente, o plano era que Spock morresse de vez, já que Nimoy manifestara um desejo de não participar mais da série. Durante as filmagens, porém, ele mudou de idéia, o que levou à realização de um novo filme, Star Trek III: The Search for Spock (À Procura de Spock), lançado em 1984 e dirigido pelo próprio Leonard Nimoy. Neste novo filme, a tripulação da Enterprise decide retornar ao planeta onde o corpo de Spock foi deixado, e ao lá chegar descobrem que não somente Spock foi trazido de volta à vida pelo Dispositivo como também os Klingons desejam roubar o Dispositivo para utilizá-lo como arma. No final do filme temos uma apoteótica cena onde a Enterprise se auto-destrói. O elenco conta com um nome bastante curioso: Christopher Lloyd, o cientista maluco de De Volta para o Futuro, como o Comandante Klingon Kruge.

KlingonsO lançamento do filme seguinte, Star Trek IV: The Voyage Home (A Volta para Casa), de 1986 e também dirigido por Nimoy, fecharia uma espécie de trilogia: após retornar à Terra a bordo de uma nave Klingon, Kirk e a tripulação da Enterprise estão para ser julgados por violar vários regulamentos da Federação quando uma sonda alienígena começa a evaporar os oceanos e ionizar a atmosfera do planeta, o que poderá levar à extinção de toda a vida. Spock descobre que o sinal emitido pela nave é idêntico ao canto de ume espécie de baleia extinta desde o século XXI. A única saída, portanto, é fazer uma viagem no tempo para conseguir algumas baleias para se comunicar com a sonda. Assim, a tripulação da Enterprise acaba indo parar no ano de 1986, onde vive uma série de situações cômicas devidas à sua falta de conhecimento sobre a cultura da época. Pode parecer que a franquia estava rolando ladeira abaixo, mas o filme é um dos melhores da série, foi um sucesso de crítica e público, e o mais rentável de toda a série até hoje.

Infelizmente, o lançamento seguinte, Star Trek V: The Final Frontier (A Última Fronteira), de 1989 e dirigido por William Shatner, não seria tão bem sucedido, principalmente devido a decisões controversas dos executivos da Paramount - devido ao sucesso de A Volta para Casa, por exemplo, eles decidiram incluir várias seqüências humorísticas, e acabaram errando a mão. Os efeitos especiais também costumam ser considerados malfeitos, e muitos pontos do roteiro foram criticados até pelo próprio Roddenberry, principalmente a inclusão de um meio-irmão de Spock, Sybok (Laurence Luckinbill). Sybok é o principal responsável pelo enredo do filme, pois seqüestra a Enterprise (reconstruída após o último filme, e rebatizada Enterprise-A) para poder viajar além da Grande Barreira, uma misteriosa região do espaço jamais explorada, e chegar ao planeta Sha Ka Ree, onde uma entidade com poderes divinos lhe passará todo o seu poder e sabedoria. O filme é considerado o mais fraco de todos os da Série Clássica, e foi o que obteve a menor arrecadação.

Mas a série ainda renderia mais um filme, Star Trek VI: The Undiscovered Country (A Terra Desconhecida), lançado em 1991 e novamente dirigido por Nicholas Meyer. Roddenberry, que faleceu naquele mesmo ano, não chegou a ver a estréia, mas assistiu e aprovou uma versão do filme exibida a ele dois dias antes de sua morte. O sucesso deste filme, aliado à boa arrecadação, às críticas positivas, e à conquista de dois Oscars, por melhor maquiagem e melhores efeitos sonoros, acabou dando origem à curiosa "Maldição Star Trek", que diz que os filmes de número ímpar sempre serão ruins, e os de número par sempre serão bons. Quem viu Nêmesis tem todo o direito de discordar, mas isto já é outra história.

A Terra Desconhecida é um filme cheio de referências históricas, principalmente ao fim da Guerra Fria, que estava acontecendo exatamente enquanto ele estava sendo filmado. Após um acidente que destrói a principal fonte de energia do planeta natal dos Klingons, estes se vêem forçados a encerrar suas hostilidades e negociar a paz com a Federação. A Enterprise é enviada para escoltar a nave de um embaixador klingon até a Terra para as negociações, e durante a viagem são expostas várias preocupações de ambos os lados, principalmente no tocante à possível extinção da cultura klingon. Um incidente misterioso envolvendo a Enterprise e a nave klingon, porém, pode pôr em risco todo o processo de paz; cabe a Kirk e sua tripulação resolver esta confusão para que tudo transcorra bem. O filme conta com duas participações especiais mencionáveis: Kim Cattrall como a vulcana Valeris, e Christopher Plummer como general klingon Chang.

A Terra Desconhecida foi o último filme da Série Clássica. Seu imaginário, porém, continuou vivo, e gerou mais de uma centena de livros com histórias oficiais e não-oficiais; muito merchandising, incluindo jogos de videogame, um RPG e um Card Game; e quatro spin-offs: A Nova Geração, de 1987; Deep Space Nine, de 1993; Voyager, de 1995; e Enterprise, de 2001. Para diferenciá-la destas outras séries, a Clássica é hoje conhecida em inglês como Star Trek: The Original Series.

A Enterprise remasterizadaA partir de 2006, a CBS começou a televisionar novamente os 79 episódios originais, mas em Alta Definição e com efeitos especiais atualizados (mais ou menos como o que George Lucas fez com Star Wars). O mais recente projeto da série é mais um filme para o cinema, batizado simplesmente de Star Trek, e que, ambiciosamente, usará os mesmos personagens da Série Clássica, mas um novo elenco; dirigido por J.J. Abrahams, o filme contará aventuras vividas por Kirk e Spock antes do início da Série Clássica. A data de lançamento prevista nos Estados Unidos é 8 de maio de 2009, e ninguém sabe como será a aceitação por parte dos fãs - que, até agora, pelo menos, parecem bastante animados - principalmente porque o próprio Roddenberry era contra uma "preqüência".

Mesmo passado tantos anos após sua estréia, Jornada nas Estrelas parece destinada a realmente ir até onde nenhum homem jamais esteve. E aparentemente ninguém tão cedo será capaz de dizer até onde esta série será capaz de chegar.

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