sábado, 30 de junho de 2007

Escrito por em 30.6.07 com 1 comentário

Short Circuit

Quando eu era criança, houve uma fase em que eu adorava robôs. Tinha milhares de robôs de brinquedo, de todas as formas e tamanhos. Isso não é nada estranho, visto que, durante uma boa parte dos anos 80, os robôs estiveram na moda, estrelando vários filmes e desenhos animados. Hoje em dia, os robôs da ficção andam meio esquecidos, tendo sido substituídos por andróides e clones; se houver uma criança fascinada por robôs hoje em dia, acho que a única coisa que ela poderia comprar seria um Aibo.

Tendo os robôs em tão alta conta, também não é de se estranhar que um dos meus filmes preferidos de quando eu era criança fosse Um Robô em Curto Circuito. Vendo que era uma comédia familiar com um robô, meu pai o alugou para que eu assistisse; e realmente eu assisti, umas cem vezes. Tudo bem, foram só umas três, mas para uma criança isso foi um monte. Depois eu ainda o assiti mais algumas vezes na Sessão da Tarde, vi a tenebrosa parte 2, e aí o filme sumiu. O 2 ainda chegou a passar mais algumas vezes recentemente, mas o 1 eu nunca mais tinha visto.

Felizmente, quando eu resolvi começar minha coleção de DVDs dos anos 80, esse foi um dos primeiros que eu achei. Como eu sempre digo, é impossível encontrar um padrão em relação à qualidade de filmes dos anos 80 em DVD. Este, que curiosamente mudou de nome para Short Circuit, O Incrível Robô, é em widescreen e tem uma penca de extras, incluindo um making of - e custou R$ 9,90. Vai entender.

Bom, melhor pra mim. E, para aqueles que não sabem do que este filme se trata, aí vai o tradicional resumo: o exército dos Estados Unidos contrata os Laboratórios Nova para criar robôs, que substituiriam os soldados humanos em algumas missões militares, inclusive na guerra, onde poderiam se infiltrar nas linhas inimigas e atacar os oponentes sem que fosse necessário ferir os soldados americanos. Durante uma demonstração do poderio bélico dos robôs, um deles, o de número cinco, é atingido por um raio. O raio faz com que Número Cinco ganhe consciência, se tornando um robô capaz de tomar suas próprias decisões e agir por conta própria. Se isso fosse um filme B, ele se revoltaria contra a humanidade, mataria seus criadores, e partiria em uma cruzada sangrenta para dizimar todos os seres humanos que encontrasse.

Mas não é, então o robô do filme cujo título original é Short Circuit, lançado em 1986 e dirigido por John Badham (do sucesso Jogos de Guerra), renega seu passado militar e se torna um robô bonzinho, mais interessado em aprender sobre a vida na Terra e a bondade entre os seres humanos do que em explodir alvos militares. Ele consegue escapar dos laboratórios Nova, e acaba chegando até a casa de Stephanie Speck (Ally Sheedy), uma jovem apaixonada por animais. A princípio, Stephanie acha que Número Cinco é um alienígena, e prontamente atende a todos os seus pedidos. Curiosamente, quanto mais informação de livros, filme e revistas Número Cinco absorve, mais "humano" ele se torna, chegando a desenvolver o temor de ser recapturado pela Nova, já que não quer ser reprogramado nem desmontado, o que, no seu entendimento, corresponderia à morte.

Evidentemente, a Nova e o Exército não vão deixar um robô secreto militar andando por aí, então Número Cinco começa a ser perseguido por três oponentes: o Capitão Skroeder (G. W. Bailey), chefe da segurança da Nova, o cientista Newton Crosby (Steve Guttenberg) e seu assistente Ben Jabituya (Fisher Stevens). Evidentemente, nenhum dos três acredita que Número Cinco tenha "ganhado vida", preferindo acreditar que ele está com defeito, e precisando ser reprogramado. Stephanie, quando descobre que o robô não é um alienígena, mas um produto da Nova, também não acredita que ele seja senciente, preferindo acreditar que alguém está pregando uma peça nela, e ameaça devolvê-lo à Nova, apesar dos muitos protestos do robô. Para a sorte do Número Cinco, Crosby nunca foi muito fã do exército, e preferiria estar trabalhando com robôs mais pacíficos do que com máquinas de guerra; assim, quando Stephanie e o cientista são finalmente convencidos pelo robô de que ele consegue pensar por conta própria, os dois, com a ajuda de Ben, decidem fugir com ele, para que a Nova não o destrua. No final, graças a uma idéia de Número Cinco, a Nova fica achando que o destruiu, e ele consegue partir com seus amigos para viver uma vida normal, adotando o nome de Johnny Cinco.

Como se vê, uma comédia com elementos de ficção científica típica dos anos 80. Curiosamente, porém, o filme não foi concebido para ser assim: quando eu falei que Número Cinco se revoltaria contra a humanidade e sairia matando todo mundo, não fui só eu que tive esta idéia, mas os produtores também. O intuito era fazer um filme sombrio de ficção científica, mas com uma abordagem diferente: Badham reparara que, em todos os filmes onde robôs criavam vida e saíam matando todo mundo, as pessoas simplesmente acreditavam que o robô estava vivo e pronto, o que não parecia lá muito verídico. O diretor, então, planejava criar um filme onde ninguém acreditasse que o robô estava vivo, preferindo achar que alguém o controlava à distância, algo que realmente acontece no filme, e que é mais condizente com a realidade. Após muitas revisões de roteiro, a idéia do filme sombrio de robô assassino foi abandonada, e os produtores optaram por uma comédia familiar baseada no conto Robot AL-76 Goes Astray, escrito em 1941 por Isaac Asimov, onde um robô se perde e acaba se vendo em um ambiente que desconhece e não consegue compreender.

A melhor coisa do filme é justamente o robô, extremamente realístico para a tecnologia da época. Na verdade, não foi criado um robô, mas vinte deles, cada um usado em um certo número de cenas, e capaz de fazer movimentos diferentes. Os robôs não eram manejados por controle remoto, mas sim por um complexo sistema batizado de "roupa telemétrica": o animador do robô vestia uma armadura composta de milhares de fios e sensores, e todos os movimentos que ele fazia com os braços, mãos, cintura e pescoço eram reproduzidos pelo robô em tempo real. Apenas os detalhes da cabeça do robô (como as "pálpebras", "sobrancelhas", ou sei lá o que era aquilo que ele tinha sobre os olhos) eram controlados remotamente, por outro animador. O animador que vestia a roupa telemétrica interpretava todas as falas do robô, para ajudar os atores que contracenavam com ele, mas mais tarde, na pós-produção, as falas foram redubladas pelo dublador Tim Blaney.

Short Circuit ainda possui uma característica curiosíssima: foi o primeiro filme da história a incluir cenas removidas (ou seja, que não foram aproveitadas na edição final do filme) durante seus créditos. Muitas destas cenas não estão completas, mas mesmo assim este pode ser considerado um feito visionário, que anteviu a moda das "versões do diretor" e das cenas inéditas incluídas em DVD que viriam vários anos depois. Short Circuit também foi um dos primeiros filmes a ganhar um jogo de videogame baseado nele - na verdade, um jogo para os computadores ZX Spectrum, Commodore 64 e Amstrad CPC. Tal jogo, porém, era impossível de se vencer, já que a fase 2 não tinha fim.

Short Circuit foi um filme extremamente bem sucedido para a época, e, como sempre, o estúdio, no caso a Tri Star, decidiu capitalizar em cima desse sucesso lançando uma continuação, Short Circuit 2, em 1988. A continuação, porém, pouco tinha a ver com o original. Dirigido por Kenneth Johnson, que já havia dirigido alguns filmes do Hulk para a televisão, o filme manda Johnny Cinco para Nova Iorque, enviado por Stephanie para morar com Ben, cujo sobrenome foi alterado para Jharvi (Ben Jabituya era um tipo de piada interna, e foi considerado um nome inapropriado para um protagonista). Ben e seu parceiro Fred Ritter (Michael McKean) montam uma fábrica de brinquedos de fundo de quintal que monta versões em brinquedo de Johnny Cinco. Fascinada pelos brinquedos, a vendedora Sandy Banatoni (Cynthia Gibb) encomenda mil unidades à dupla. Para poder montar tantos brinquedos a tempo, Ritter aluga um galpão, mas sem saber que dois bandidos contratados pelo caixa de banco Oscar Baldwin (Jack Weston) estão usando o mesmo galpão para cavar um túnel até o cofre do banco, onde ficarão guardadas jóias raríssimas que farão parte de uma exposição próxima. Para afastar Ritter e Ben, os ladrões quebram grande parte de seu equipamento, fazendo com que se torne impossível para a dupla cumprir o prazo do contrato.

Stephanie e Crosby, que sabiam dos negócios de Ben, decidem ajudar seu amigo de uma forma bem original: enviando Johnny Cinco pelo correio, para que ele ajude na montagem dos brinquedos. Ben então deixa Johnny ajudando Ritter, e recomenda que ele não deixe o robô saber que está em uma metrópole, ou ele irá querer absorver mais dados. Aí todos nós já sabemos que Ritter deixará escapar durante uma conversa com Johnny justamente a informação que ele não deveria de forma alguma deixar que chegasse ao robô, e que o robô, munido desta informação, se envolverá em mil e uma confusões, inclusive ficando amigo de Baldwin, que decide utilizá-lo para roubar as jóias.

Infelizmente, o filme é péssimo, se limitando a explorar muitas das piadas já usadas no filme anterior (como a de que ninguém acredita que o robô está vivo) e a depictar Johnny como uma criança inocente, facilmente manipulável pelos vilões. Se fosse um filme "solto", talvez passasse uma impresão melhor, mas como é uma continuação, a comparação com o primeiro filme é inevitável, e nesse ponto Short Circuit 2 perde feio.

Além do roteiro ruim, Short Circuit 2 ainda sofre de um problema geográfico: o filme é ambientado em Nova Iorque, mas foi filmado em Toronto, inclusive mostrando vários pontos turísticos da cidade. Isto fez com que muitos fãs novaiorquinos reclamassem do filme até não conseguir mais (e muitos canadenses também não devem ter ficado satisfeitos), o que contribuiu para que o filme fosse um fracasso de bilheteria. Outra incongruência citada pelos fãs é que Ben, no primeiro filme, havia nascido nos Estados Unidos, enquanto no segundo filme ele é um imigrante pleiteando a cidadania americana - na última cena, aliás, quando ele finalmente consegue, o prédio em frente do qual os imigrantes fazem o juramento é a Assembléia Legislativa de Ontário, no Canadá...

Short Circuit teria uma terceira continuação, mas o insucesso do segundo filme a cancelou. Mas até hoje, nos Estados Unidos, o filme é considerado cult, e tem uma legião de fãs, alguns dos quais até fazem abaixo-assinados pedindo action figures de Johnny aos fabricantes de brinquedos. Isso eu já acho exagero, mas também não precisava ser igual aqui no Brasil, onde o filme foi expulso até da Sessão da Tarde, ficando restrito a um DVD de R$ 9,90. E à minha memória afetiva, onde sempre terá um lugar especial.
Ler mais

sábado, 23 de junho de 2007

Escrito por em 23.6.07 com 0 comentários

Baralho (II)

Dentre as muitas coisas das quais eu gosto, estão os jogos de baralho. Até há alguns anos, eu confesso que não dava muita bola; só sabia jogar copas fora e sueca, e achava que só existia um tipo de baralho, sendo todos os demais variações enfeitadas. Um dia, porém, eu descobri que existem muitos tipos de baralhos diferentes, e que com eles se pode jogar uma infinidade de jogos. Atiçado pela curiosidade, me pus a pesquisar sobre o assunto, e, animado, escrevi um post para o BLOGuil, outro aqui para o átomo - que vocês podem encontrar ali na coluna da esquerda, sob o número 034 - e até me atrevi a tentar criar um site inteiro sobre o assunto, o Le Bateleur, posteriormente abandonado por diversos motivos. Aliás, recentemente eu descobri um erro curioso no Bateleur: a página principal diz que ele foi atualizado pela última vez em 2003, mas eu só criei o site em 2004...

Enfim, o tempo passou, e ao longo dele eu descobri novas e interessantes coisas sobre baralhos. Como assunto aqui é sempre bem vindo, decidi fazer uma pesquisa ainda mais profunda, e hoje abro uma série de posts sobre este assunto tão interessante. Nela, veremos não somente a origem e as peculiaridades do baralho, mas também seus quatro tipos principais em detalhes: o baralho francês, o latino, o alemão e o suíço. Como eu já disse, a pesquisa que eu fiz para escrever estes posts foi bem mais profunda que a anterior, então, se alguma coisa estiver discordando do escrito no Bateleur, no BLOGuil, ou no post 034, o que está aqui é o que vale. E o que está lá vai ficar errado mesmo, porque eu não estou com tempo nem com paciência para atualizar.

Mesmo quem não gosta, ou quem não conhece muitos jogos de baralho, deve admitir que um baralho é uma coisa muito interessante. É um conjunto de cartas, todas diferentes entre si, aparentemente com números e figuras inexplicáveis, mas que podem ser adaptadas para se jogar uma variedade infinita de jogos. Mais que isso, provavelmente todo o mundo civilizado sabe o que é um baralho, e a maioria das pessoas sequer se importa em saber porque eles existem. Eu fico particularmente intrigado com um objeto assim, que existe desde não se sabe quando, foi inventado por não se sabe quem, mas se tornou uma parte integrante da cultura moderna - mais ou menos como a roda, guardada as devidas proporções de importância. Mas o baralho não veio do nada. Assim como tudo na vida, ele foi inventado por alguém, em algum lugar, e foi mudando e evoluindo até se tornar o que temos hoje.

Ku PaiInfelizmente, ninguém sabe quem inventou o baralho, nem quando. A teoria mais provável é a de que ele teria sido inventado na China, por volta do século X. Mas os primeiros baralhos, chamados ku pai, não eram usados para jogar da forma como usamos hoje; cada carta representava uma combinação possível em um lançamento de dois dados, impresso em círculos pretos e vermelhos, sendo algumas cartas decoradas com figuras. Estas cartas podiam ser usadas como parte de outros jogos, substituindo os dados, ou para jogar dominó, combinando os lados iguais como ainda se faz no jogo de dominó de hoje em dia.

Por volta do século XV, as cartas do ku pai deram origem a um novo tipo de baralho, chamado gun pai. As cartas do gun pai eram divididas em quatro grupos; os três primeiros grupos tinham nove cartas cada, e representavam moedas, centenas de moedas, e milhares de moedas. As cartas de moedas eram decoradas com círculos, as das centenas com bastões (pois as moedas chinesas, furadas no meio, eram agrupadas em bastões para serem transportadas) e as das milhares com ideogramas. O quarto grupo tinha propriedades especiais, e era composto de três cartas, uma que representava um milhão de moedas, uma representando uma flor vermelha, e uma representando uma flor branca. Um baralho de gun pai era composto de quatro cópias de cada carta, para um total de 120 cartas. Como tinham conotação monetária, as cartas de gun pai podiam ser utilizadas tanto como parte das regras do jogo quanto para apostar neles.

Como o papel na época era pouco durável, logo as cartas do ku pai e do gun pai começaram a ser fabricados em outros materiais, como osso ou marfim. Assim, após algumas adaptações, o ku pai (que significa "cartas de osso") deu origem ao dominó, enquanto o gun pai ("cartas compridas") deu origem ao jogo de Mah Jongg. O gun pai ainda acabou dando origem a um novo tipo de baralho de papel, o lat chi (curiosamente, "papel descartado"), também composto de quatro grupos, mas de nove cartas cada, representando moedas, dezenas de moedas, centenas de moedas e milhares de moedas.

Embora ninguém saiba como, a teoria mais aceita é a de que o lat chi, de alguma forma, chegou à Arábia no final do século X, onde foi adaptado e deu origem a um novo jogo totalmente diferente, chamado na'ib ("delegado"). Assim como as do lat chi, as cartas do baralho de na'ib eram divididas em quatro grupos: moedas, taças, espadas e bastões de pólo, um jogo muito popular na Arábia da época. Estes quatro grupos, para muitos, são a evidência de que o na'ib evoluiu do lat chi: assim como no baralho chinês, há um grupo de moedas; as cartas do grupo de bastões de pólo são muito semelhantes às cartas de centenas de moedas, que também tinham figuras de bastões; já os grupos de taças e espadas viriam dos ideogramas chineses usados para escrever wan ("dez mil") e shi ("dez"), muito semelhantes, respectivamente, a um cálice de cabeça para baixo e a uma espada.

Gun PaiCada grupo do baralho de na'ib era composto de catorze cartas, sendo dez numéricas, contendo de um a dez desenhos do símbolo do grupo que representava, e quatro "delegados", cartas que representavam o Rei, o Vizir (ou Vice-Rei), o Deputado (ou Delegado do Rei) e o Ministro Religioso. Como o islamismo não permite representações artísticas de seres humanos, as cartas dos delegados eram ricamente decoradas, e traziam o nome da figura correspondente em árabe, mas não tinham uma figura humana no meio. Não se sabe ao certo porque os "delegados" foram incluídos no baralho, mas se supõe que eles tenham sido inspirados nas três cartas "especiais" do gun pai (a do um milhão e as das flores vermelha e branca), também presentes em algumas versões do lat chi, e que em alguns baralhos traziam figuras de reis e outros nobres.

No século XIV, o baralho de na'ib chegou à Espanha, levado pelos mouros que se instalaram na Península Ibérica. Lá, o baralho continuou evoluindo: graças a um erro de interpretação, a palavra na'ib, originalmente usada para nomear as figuras humanas do baralho, passou a ser usada para os quatro grupos de cartas. Em espanhol, na'ib virou "naipe". Os símbolos também acabaram adaptados: as moedas continuaram sendo redondas e decoradas, mas as espadas, que no baralho original árabe eram cimitarras, curvas, no espanhol se tornaram espadas européias, de lâmina reta; os bastões de pólo, jogo desconhecido na Espanha, foram substituídos por clavas rústicas de madeira; e as taças alongadas características dos árabes ganharam formas mais arredondadas, mais parecidas com cálices cerimoniais da Igreja. As cartas espanholas também eram bem menos decoradas que as árabes, para facilitar sua produção.

Os primeiros baralhos espanhóis não tinham 56 cartas como os de na'ib, mas apenas 48. As figuras eram apenas três ao invés de quatro, e, por alguma razão desconhecida, as cartas numéricas iam apenas do 1 ao 9. Quanto às figuras, existem duas teorias: ou o Ministro Religioso foi deliberadamente removido para evitar problemas com a Igreja, ou a versão que chegou à Espanha foi uma conhecida como Mulûk wa-Nuwwâb ("reis e deputados"), de origem mameluca, que também tinha apenas três figuras. Seja qual for a explicação, como na Espanha não existia nenhuma restrição a figuras humanas em cartas de baralho, logo elas foram adicionadas para melhor identificação das cartas. As figuras também acabaram adaptadas: o Rei foi mantido, mas como na Europa não existiam Vizires, para o posto de segunda carta mais alta foi escolhido o Cavaleiro, o mais nobre dos nobres, e para a posição de Deputado foi escolhido o sota, uma espécie de escudeiro ou secretário, que servia aos Cavaleiros, que por sua vez serviam ao Rei, criando assim uma relação de valor entre as três figuras do baralho. A maior prova de que este baralho derivava do na'ib era seu nome: Cartas Sarracenas.

Cartas de Caçada: Ás de cães e Rainha de veadosNa metade do século XV, as Cartas Sarracenas começaram a se espalhar pela Europa. Na Alemanha, elas acabaram inspirando um outro tipo diferente de baralho, que se tornaria conhecido muitos anos depois como Cartas de Caçada. Ricamente decoradas, as Cartas de Caçada levavam este nome por mostrar, em cada carta, cenas de caçadas empreendidas por membros da nobreza. Cada fabricante criava seus próprios naipes, mas todos sempre ligados à caça esportiva, como cães, raposas, falcões, escudos, armadilhas e outros. Por serem ricamente trabalhadas, as Cartas de Caçada não eram produzidas em larga escala, sendo feitas sob encomenda para pessoas abastadas. Por este motivo, é pouco provável que tenham sido utilizadas para jogar. Existiam vários tipos de baralhos de Cartas de Caçada, sendo o mais curioso o Hofjagdspiel, composto de 56 cartas, nos naipes de cães, falcões, garças e lures (um instrumento de falcoaria, parecido com um pequeno pássaro feito de couro amarrado a uma corda). Cada naipe tinha 14 cartas, sendo nove numéricas (de 1 a 9), uma com uma bandeira com o símbolo do naipe no meio, e quatro figuras, o escudeiro, o Cavaleiro, a Rainha e o Rei. Curiosamente, todas as figuras estavam montadas a cavalo (pois estavam caçando), e a única forma de distingüí-los (fora o fato de que a Rainha era mulher) era pela elegância das roupas - sendo que o escudeiro usava as roupas mais simples, e o Rei as mais chiques. Outro baralho curioso era o Stuttgarter Kartenspiel ("cartas para jogar de Stuttgart"), cujos naipes eram cães, falcões, veados e patos. Este baralho tinha apenas 52 cartas, sendo as numéricas de 1 a 9, a bandeira, e três figuras. Curiosamente, nos naipes de cães e veados todas as figuras são mulheres (aia, dama de companhia e Rainha), enquanto nos de falcões e patos todos são homens (escudeiro, Cavaleiro e Rei).

Com o tempo, o na'ib e as Cartas Sarracenas chegaram à Itália. Lá, elas acabaram dando origem a dois estilos de baralho diferente: os fabricantes do sul decidiram imitar o modelo espanhol, com moedas, taças arredondadas, clavas e espadas retas; mas os fabricantes do norte decidiram fazer seus baralhos mais parecidos com as cartas originais árabes, com moedas, taças alongadas, espadas curvas e bastões cerimoniais, o que eles imaginaram ser os bastões de pólo. Em todas as versões, as figuras eram o escudeiro, o Cavaleiro e o Rei, mas os baralhos italianos podiam ter 52, 48, ou, mais usualmente, apenas 40 cartas, indo as numéricas apenas do 1 ao 7.

Além destas peculiaridades, surgiu ainda na Itália, provavelmente inspirado pelas Cartas de Caçada, um novo tipo de baralho, chamado Trionfi ("triunfo"), utilizado para jogar um jogo também chamado trionfi. Composto por 22 cartas, o baralho de trionfi não tinha naipes ou números, com cada uma de suas cartas representando um objeto, personagem ou local famoso da região onde o baralho era produzido. Um dia, alguém teve a brilhante idéia de juntar as cartas do trionfi a um baralho normal, e adicionar uma Rainha, presente nas Cartas de Caçada, mas não nos baralhos italianos. Surgiu assim um baralho de 78 cartas, chamado de Tarocco, palavra que veio do verbo taroccare, que caiu em desuso, mas significava "cobrir com uma folha de ouro", técnica até hoje utilizada em móveis e molduras de quadros, e na época também utilizada em alguns dos baralhos mais "chiques", como o Hofjagdspiel e o Tarô de Visconti.

Paralelamente a isso, as Cartas Sarracenas se popularizaram na Alemanha, já que as Cartas de Caçada não eram acessíveis a todos, nem usadas para jogar. Para seguir a tradição das Cartas de Caçada, os fabricantes alemães decidiram não utilizar os naipes tradicionais, mas sim inventar seus próprios, com motivos ligados à natureza e à vida no campo. Assim, as moedas viraram sinos redondos (guizos), as espadas viraram folhas, os bastões viraram castanhas, e as taças viraram corações. Os alemães mantiveram as três figuras dos baralhos espanhóis e italianos, mas, curiosamente, desmontaram os Cavaleiros: os Reis eram identificáveis por suas coroas nas cabeças e por estarem sentados em tronos, mas tanto os Cavaleiros quanto os escudeiros estavam a pé, devendo ser identificados pela posição do símbolo do naipe - nos Cavaleiros era na parte de cima da carta, nos escudeiros, na parte de baixo.

Mulûk wa-Nuwwâb: 6 de moedas, 4 de bastões e 6 de espadasNo início do século XVI, este curioso baralho chegou à França, e lá acabou sofrendo mais uma mutação: os fabricantes franceses queriam produzir baralhos em larga escala, e os naipes tradicionais, muito trabalhados, não eram fáceis de reproduzir nas placas de madeira ou metal que eram usadas na impressão. Assim, eles decidiram adaptar os naipes alemães, mais simples: folhas viraram pontas de lança, castanhas viraram trevos, os sinos viraram losangos, e os corações foram mantidos. Ao invés de usar muitas cores, os fabricantes optaram por apenas duas: dois naipes em preto e dois em vermelho. As figuras também sofreram uma nova mudança: para evitar a confusão causada por duas figuras masculinas aparentemente idênticas, os franceses decidiram trocar o Cavaleiro pela Rainha. Não há indicações, porém, de que eles tenham feito isso influenciados pelas Cartas de Caçada; o mais provável é que eles simplesmente tenham achado que, já que cada naipe tinha seu Rei, estavam faltando suas Rainhas.

No final do século XVI, foi a vez do Tarocco chegar à França. Além de substituir as cartas com naipes italianos pelas francesas - adicionando um cavaleiro de cada naipe - os fabricantes ainda mexeram nos trionfi (que passaram a ser conhecidos como "trunfos"). Na Itália, os trunfos costumavam representar figuras de poder (Imperador, Papa), medos ancestrais (Morte, Diabo), virtudes (Temperança, Força), aspectos da vida humana (Eremita, Enamorado), corpos celestes (Sol, Lua), e, em alguns baralhos, outros temas, como signos do Zodíaco, os quatro Elementos, e outros. Alguns fabricantes franceses mantiveram os trunfos originais, mas outros decidiram substituí-los por coisas mais amenas, como cenas da vida urbana e rural. O nome do jogo também acabou mudando, para Tarot, uma pronúncia francesa para Tarocco.

E aí aconteceu um novo fato curioso: da França, o Tarot acabou indo parar na Europa Central, onde foi renomeado para Tarock. O Tarock utilizava os naipes franceses, e tinha em seus trunfos cenas do cotidiano, justamente como o Tarot. O baralho francês "comum" também se espalhou para o resto da Europa: a simplicidade dos naipes e a facilidade em imprimir o baralho fez com que ele se tornasse mais popular do que todos os outros, ganhando versões em vários países.

Mas isso já é assunto para os próximos posts. No próximo desta série, começaremos pelo baralho francês, o mais famoso, mas que ainda assim tem muitos detalhes interessantes e pouco conhecidos.

Série Baralhos

História

Ler mais

sábado, 16 de junho de 2007

Escrito por em 16.6.07 com 0 comentários

Olimpíadas (XXIV)

E hoje, finalmente, teremos o último post da série sobre as Olimpíadas!

Atualizado em 22 de abril de 2010: Ok, já não é mais o último. É o penúltimo, onde veremos as Olimpíadas de Inverno de Turim, 2006, e as Olimpíadas de Pequim, 2008. O último agora é esse aqui.

Turim 2006


Turim foi a primeira cidade a ser escolhida sede depois do escândalo do suborno envolvendo Salt Lake City. A escolha ocorreu sob certa tensão, pois o escândalo havia vindo à tona em dezembro de 1998, e a votação seria realizada durante a reunião do COI marcada para junho de 1999. Para afastar qualquer suspeita de que a escolha seria mais uma vez influenciada por presentes, o COI tomou uma decisão radical: proibiu seus delegados de visitarem as cidades candidatas, e criou um novo órgão especialmente para a ocasião, o Colégio de Seleção. Segundo as novas regras, todas as cidades candidatas fariam apresentações para os membros do COI durante a reunião do Comitê, mas o Colégio de Seleção escolheria apenas duas delas; estas duas seriam submetidas à votação tradicional, e a que obtivesse mais votos seria a sede de 2006.

Assim, das seis cidades candidatas - Helsinque, capital da Finlândia e sede dos Jogos de Verão de 1952; Poprad-Tatry, Eslováquia; Zakopane, Polônia; Klagenfurt, Áustria; a suíça Sion e a italiana Turim - apenas Sion e Turim foram submetidas à votação. Sion era amplamente favorita, e até dentro do COI havia quem considerasse que ela já estava eleita, mas, para surpresa geral, Turim acabou ganhando por 53 votos a 36. Para muitos, a cidade italiana levou a melhor por ser bem maior que sua concorrente: um milhão e meio de habitantes, a maior cidade a já sediar uma Olimpíada de Inverno, enquanto Sion só tem 27.000; e desde Nagano o COI privilegia as cidades maiores, para facilitar a acomodação dos turistas que vão assistir às provas, e para que as competições ocorram dentro do menor raio de distância possível.

Os Jogos de Turim foram realizados entre 10 e 26 de fevereiro, e contaram com a participação de 2.508 atletas, sendo 960 mulheres, representando um número recorde de 80 nações em 84 provas de 15 esportes: biatlo, bobsleding, combinado nórdico, curling, esqui alpino, esqui cross country, esqui estilo livre, hóquei no gelo, luge, patinação artística no gelo, patinação no gelo em velocidade, patinação no gelo em velocidade em pista curta, saltos com esqui, skeleton e snowboarding (clique aqui para ver todas as provas do programa). Os mascotes foram Neve, uma menina que representava uma bola de neve, e Gliz, um menino representando um cubo de gelo. As cerimônias de abertura e encerramento foram realizadas no famosíssimo Stadio Comunale, rebatizado para Stadio Olimpico, construído para a Copa do Mundo de futebol de 1934, abandonado desde 1990, e totalmente reformado para a ocasião. A honra de acender a pira - a mais alta da história das Olimpíadas, com 57 metros de altura - coube a Stefania Belmondo, que se tornou famosa ao ganhar o ouro nos 30 km do esqui cross country em 1992, e quase transformar sua cidade natal, a pequenina Vinadio, de apenas 160 habitantes, em uma cidade fantasma, quando mais da metade de seus conterrâneos viajaram para vê-la competir. Dez anos depois, Belmondo conseguiria uma nova proeza, ganhando o ouro da prova dos 15 km em Salt Lake.

Belmondo se aposentou após os Jogos de 2002, mas muitos outros atletas que lá competiram voltaram para novas proezas em 2006. O norueguês Kjetil Andre Aamodt, que já era o recordista de medalhas olímpicas no esqui alpino, ganhou mais um ouro no slalom super gigante, e se tornou o primeiro atleta a conseguir quatro ouros no esqui alpino, e quatro medalhas em um mesmo evento - três ouros e um bronze no slalom super gigante. Seguindo seus passos, a croata Janica Kostelic, que já era a primeira mulher a ganhar quatro medalhas em uma mesma Olimpíada de Inverno, foi ouro no combinado e prata no slalom super gigante, se tornando também a primeira mulher a conquistar quatro ouros no esqui alpino. Seu irmão, Ivica Kostelic, aumentou a coleção da família ao ganhar uma prata no combinado. A austríaca Michaela Dorfmeister, prata em 1998 no slalom super gigante, passou 2002 em branco, mas retornou em grande estilo, vencendo o ouro do slalom super gigante e do downhill. E, falando em Áustria, o país dominou o esqui alpino, ganhando 14 das 30 medalhas possíveis, sendo quatro ouros, e fazendo o pódio inteiro no slalom masculino. Mas o acontecimento mais curioso envolveu o francês Jean-Pierre Vidal, ouro no slalom em 2002: um dia antes da competição, Vidal decidiu esquiar com amigos para comemorar seu aniversário, caiu, quebrou o braço, e não pôde defender seu título.

No esqui cross country, o destaque foi a tcheca Katerina Neumannová, que estreou em Olimpíadas nos Jogos de Inverno de 1992, mas só foi ganhar suas primeiras medalhas em 1998, uma prata nos 5 km e um bronze na perseguição 10 km. Em 2002 ela ganharia mais duas pratas, nos 15 km e na perseguição 2 x 5 km; mas em Turim ela finalmente subiria ao alto do pódio, ao ganhar o ouro nos 30 km. Katerina ainda foi prata na prova da perseguição 15 km, e curiosamente participou de uma Olimpíada de Verão, a de 1996 em Atlanta, onde competiu na prova de mountain bike do ciclismo, mas abandonou logo no início. O esqui cross country também foi onde a Estônia ganhou suas únicas medalhas dos Jogos, três ouros, sendo dois com Kristina Smigun, nos 10 km e na perseguição, e um com Andrus Veerpalu nos 15 km. O cross country também teve um acontecimento curioso, na nova prova do sprint por equipes: durante a final, uma das varas usadas para impulsão da canadense Sara Renner se quebrou, e seria impossível ela completar a prova apenas com a outra. Ainda assim ela continuou tentando, até que o técnico da equipe norueguesa, Bjørnar Håkensmoen, compadecido de seu esforço, decidiu emprestar-lhe uma das suas. Acabou que o Canadá ganhou a prata, deixando a Noruega em quarto lugar, mas o exemplo de esportividade de Håkensmoen foi citado por vários jornais ao redor do mundo.

No biatlo, o norueguês Ole Einar Bjørndalen não conseguiu subir ao alto do pódio, mas ganhou duas pratas, nos 20 km e na perseguição 12,5 km, e um bronze nos 15 km, se tornando o primeiro biatleta a conquistar nove medalhas olímpicas. Por incrível que pareça, este feito seria igualado no feminino poucos dias depois, quando a alemã Uschi Disl, ouro no revezamento em 1998 e 2002, prata nos 7,5 km em 1998 e 2002 e no revezamento em 1992 e 1994, e bronze nos 15 km em 1994 e 1998, ganhou um bronze nos 12,5 km, no último dia de competições. Outro alemão de destaque foi Michael Greis, que ganhou três ouros, nos 15 km, 20 km e no revezamento.

O snowboarding foi dominado pelos Estados Unidos, graças à sua performance no halfpipe, onde foi ouro e prata no masculino e no feminino, além de ouro na nova prova do snowboard cross masculino, prata no snowboard cross feminino e bronze no slalom feminino. A prova mais interessante, porém, foi a do slalom masculino, onde o suíço Philipp Schoch, ouro em 2002, era favoritíssimo a repetir a vitória, mas acabou encontrando um adversário tão difícil quanto inesperado: seu irmão mais velho Simon. Philipp e Simon derrotaram com folga todos os seus adversários até a final, onde Philipp venceu por 88 centésimos de segundo, repetindo seu ouro e deixando o irmão com a prata. A Suíça ainda conseguiria outras duas medalhas de ouro no feminino, no slalom e no snowboard cross, onde os competidores, em grupos de quatro, devem passar por um trajeto composto de saltos, obstáculos e curvas fechadas, aliando velocidade e técnica.

A patinação em velocidade em pista curta foi dominada pela Coréia do Sul: no masculino, Ahn Hyun-Soo foi ouro nos 1.000 e 1.500 metros e bronze nos 500 metros, e Lee Ho-Suk foi prata nos 1.000 e nos 1.500 metros. No feminino, Jin Sun-Yu foi ouro nos 1.000 e 1.500 metros, e Choi Eun-Kyung prata nos 1.500 metros. A Coréia do Sul ainda ganhou o ouro do revezamento masculino e feminino, e poderia ter feito todo o pódio dos 1.500 metros feminino, se Byun Chun-Sa, que chegou em terceiro, não tivesse sido desclassificada por obstruir a chinesa Wang Meng. Meng, aliás, ganhou uma medalha de cada cor: bronze nos 1.500, prata nos 1.000 e ouro nos 500 metros. Yang Yang não conseguiu repetir a boa performance de quatro anos antes, e ganhou apenas um bronze, nos 1.000 metros. O norte-americano Apollo Ohno, mais uma vez favorito a múltiplos ouros, saiu de Turim apenas com um, nos 500 metros, além de dois bronzes, nos 1.000 metros e no revezamento.

Na patinação em velocidade da pista mais longa, o norte-americano Chad Hedrick subiu ao pódio nas três provas da distância mais longa: ouro nos 5.000, prata nos 1.000 e bronze nos 1.500 metros; seu compatriota Joey Cheek foi ouro nos 500 e prata nos 1.000 metros, e outro norte-americano, Shani Davis, foi ouro nos 1.000 e prata nos 1.500 metros, completando a melhor participação dos Estados Unidos na história da patinação em velocidade. Mas o maior destaque do masculino foi o italiano Enrico Fabris, que quase levou o estádio abaixo ao ganhar o bronze na prova dos 5.000 metros, a primeira medalha da Itália na patinação em velocidade. O apoio da torcida parece ter motivado Fabris imensamente, tanto que ele não somente ajudou a equipe italiana a conseguir o ouro da nova prova da perseguição por equipes, como também ganhou o ouro dos 1.500 metros, levando a platéia à loucura. No feminino, o maior destaque foi a canadense Cindy Klassen, que subiu ao pódio em cinco das seis provas, ganhando ouro nos 1.500 metros, prata nos 1.000 metros e na perseguição por equipes, e bronze nos 3.000 e 5.000 metros. Também merecem destaque a russa Svetlana Zhurova, que aos 34 anos, e voltando de uma parada de três devido a uma gravidez, se tornou a atleta mais velha a conquistar um ouro na patinação em velocidade; e a alemã Claudia Pechstein, que graças a uma prata nos 5.000 metros e um ouro na perseguição por equipes se tornou a primeira patinadora a conquistar nove medalhas olímpicas, sendo cinco de ouro, e a atleta olímpica de inverno mais bem sucedida da história da Alemanha.

A patinação artística foi dominada pela Rússia, com Evgeni Plushenko ganhando o ouro nas simples masculinas, Tatiana Totmianina e Maxim Marinin sendo ouro nas duplas, e Tatiana Navka e Roman Kostomarov vencendo a dança no gelo; mas o maior destaque veio do feminino, onde Irina Slutskaya, após cair em um loop triplo, se limitou ao bronze. A campeã foi a japonesa Shizuka Arakawa, campeã mundial em 2004, sendo que antes disso jamais havia conseguido terminar melhor colocada que um oitavo lugar em torneios internacionais. Arakawa planejava se aposentar após o mundial de 2005, mas, após terminar em nono, reconsiderou e decidiu disputar também as Olimpíadas. Para sua sorte, ela foi a única das favoritas ao ouro que não caiu durante a apresentação, e acabou vencendo a prova com quase oito pontos a mais do que a norte-americana Sasha Cohen, a medalhista de prata. O momento mais memorável da patinação artística, porém, ocorreu nas duplas, durante a apresentação da dupla chinesa Zhang Dan e Zhang Hao. Ambiciosos, eles tentaram um arremesso salchow quádruplo, um movimento nunca antes executado em competições. Infelizmente, não foi desta vez: Dan se espatifou no chão, saiu deslizando, e se chocou contra as placas que envolvem o rinque. Tonta e cheia de dores, Dan foi atendida por um médico, e, ao invés de desistir, voltou para seu parceiro e encerrou sua apresentação, executando com perfeição todos os demais movimentos, e levando a platéia ao delírio. Aplaudidos de pé até por seus concorrentes, Dan e Hao ainda conseguiram pontuação suficiente para ficar com a medalha de prata, embora quase 15 pontos atrás dos russos campeões.

Nos trenós, o canadense Duff Gibson, 39 anos, se tornou o atleta mais velho a conquistar uma medalha de ouro em um evento individual na história dos Jogos de Inverno ao ganhar a prova do skeleton, 26 centésimos à frente de seu compatriota Jeff Pain. No luge, o italiano Armin Zöggeler repetiu seu ouro de 2002, ganhando por apenas 11 centésimos do russo Albert Demtschenko, e a Alemanha fez o pódio todo do simples feminino pela segunda vez seguida, com Silke Otto também repetindo o ouro. A Alemanha também foi destaque no bobsleding, ganhando ouro nas três provas, e com André Lange e Kevin Kuske fazendo parte tanto do trenó de dois lugares quanto do de quatro.

No hóquei no gelo masculino, tivemos uma final nórdica, onde a Suécia derrotou a Finlândia por 3 a 2. A vitória foi ainda mais especial para os suecos, já que a Finlândia estava invicta na competição, mas a Suécia havia perdido seus dois primeiros jogos, para a Eslováquia por 3 a 0, e para a Rússia por 5 a 0. A Suécia também chegou na final do feminino, ganhando dos Estados Unidos na semifinal por 3 a 2, na primeira ocasião em que as norte-americanas perderam em um torneio internacional para alguém que não fosse o Canadá. Na final, porém, as suecas acabaram derrotadas pelas canadenses por 4 a 1.

O Brasil participou dos Jogos de 2006 com nove atletas, sendo três mulheres, e de lá voltou com sua melhor participação em Jogos de Inverno. As maiores esperanças estavam com a equipe de Bobsleding, formada por Ricardo Raschini, Edson Bindilatti, Márcio Silva e Claudinei Quirino, única de um país tropical na competição. A pista, porém, estava muito difícil, e devido a duas quedas o Brasil acabou terminando em 25o e último lugar - ainda assim melhor que o 27o de 2002, que já era a melhor participação do Brasil em Jogos de Inverno. No esqui alpino, Nikolei Hentsch foi 30o no slalom gigante e 43o no downhill. Mirella Arnhold também foi 43a, mas no slalom gigante. No esqui cross country, Jacqueline Mourão, que havia participado do mountain bike nas Olimpíadas de Atenas em 2004, se tornou a primeira brasileira a participar tanto dos Jogos de Verão quanto dos de Inverno, e terminou em 67o na prova dos 10 km; nos 15 km, Hélio Freitas foi o 93o dentre 99 atletas.

Mas a melhor colocação do Brasil em 2006 e em toda a história dos Jogos de Inverno foi obtida por Isabel Clark, do snowboarding, que também foi a porta-bandeira da delegação. No prova do snowbpard cross, beneficiada por um acidente que envolveu três atletas, Isabel terminou a prova em nono, se tornando a primeira atleta de um país sem neve permanente a ficar entre as dez primeiras de uma competição olímpica. Isabel foi notícia no mundo inteiro, e a nós só resta esperar que seu esforço não tenha sido em vão, e que alguém resolva investir para que, um dia, o Brasil consiga sua primeira medalha em Jogos de Inverno.

Pequim 2008

Atualizado em 21 de julho de 2020

Pequim, capital da China, foi escolhida sede dos Jogos Olímpicos de 2008 na reunião do COI de 2001, após conseguir a maioria absoluta dos votos já na segunda rodada de votação, vencendo a canadense Toronto; a japonesa Osaka; Paris, capital da França; e Istanbul, na Turquia. Outras cinco cidades - Bangcoc, capital da Tailândia; Cairo, capital do Egito; Havana, capital de Cuba; Kuala Lumpur, capital da Malásia; e Sevilha, na Espanha - foram eliminadas na fase preliminar, e não chegaram à votação.

Apesar de ter sido escolhida tão facilmente, Pequim enfrentou inúmeros protestos de grupos contrários à realização de um evento tão importante quanto os Jogos Olímpicos na China. Grupos defensores dos direitos humanos, os Repórteres Sem Fronteiras e opositores do governo comunista alegavam que os Jogos serviriam de propaganda falsa para o governo chinês, que desejaria passar internacionalmente uma imagem de cultura, riqueza e desenvolvimento, enquanto na realidade o povo é pobre e tem seus direitos violados. Estes grupos chegaram a comparar os Jogos de 2008 com os de 1980, realizados na União Soviética, e até com os de 1936, realizados na Alemanha de Hitler, para argumentar que a escolha de Pequim foi um erro. Alguns até conclamaram os Estados Unidos a boicotarem os Jogos, evidentemente sem sucesso.

Também eram contrários à realização de uma Olimpíada em Pequim os ativistas pela independência do Tibete, que consideraram estar em um bom momento para que a opinião pública internacional expressasse seu desejo de ver um Tibete livre. Eles também conclamaram um boicote, para pressionar a China a libertar a região, invadida e dominada em 1950, e se sentiram particularmente ofendidos com a decisão do comitê organizador de escolher o antílope tibetano, um animal que não existe no resto da China, para ser um dos mascotes olímpicos. Outro que se sentiu ofendido foi o governo de Taiwan, eternamente em conflito contra Pequim, que considera a ilha uma província da China, e não um país independente. Taiwan chegou a cogitar boicotar os jogos, por causa de duas confusões: a primeira foi o trajeto da tocha olímpica, que percorreu 23 cidades ao redor do mundo - incluindo Taipé, a capital de Taiwan - antes de entrar na China para visitar mais 112, no maior trajeto da história das Olimpíadas. O problema foi que Taipé seria a última cidade fora de território chinês a ser visitada, passando a tocha depois por Macau e Hong Kong - Regiões Administrativas Especiais da China - e daí para Sanya, a primeira do trajeto doméstico. O governo de Taiwan alegava que Pequim estaria influenciando as pessoas ao redor do mundo a achar que Taiwan faz parte da China, e só aceitaria fazer parte do revezamento se a tocha passasse por lá bem antes de chegar ao país rival. Como não houve acordo, Taipé acabou retirada do trajeto. A segunda confusão foi por causa do desfile das nações na Cerimônia de Abertura, tradicionalmente feito com as nações em ordem alfabética no idioma do país anfitrião. Graças a isso, Taiwan, mais uma vez, viria depois de Hong Kong e Macau, o que não foi aceito pelo governo da ilha. Felizmente, os organizadores da Cerimônia aceitaram subverter a tradicional ordem alfabética, e colocar a República Centro Africana entre Hong Kong e Taiwan, o que acalmou os ânimos e afastou o boicote.

Desnecessário dizer, o COI não ficou nada satisfeito com esses conflitos todos, e mais de uma vez reafirmou que os Jogos não deveriam ser vistos como um evento político, mas como uma celebração desportiva, com foco nos atletas, e não nas atitudes de seus governos. Mas, mais uma vez, infelizmente, os apelos do COI pareciam entrar por um ouvido e sair pelo outro. O próprio trajeto da tocha seria marcado por centenas de protestos, e interrompido várias vezes por manifestantes que tentavam apagar a tocha. O trajeto foi tão problemático que o COI decidiu proibir "trajetos internacionais"; a partir de 2010, a tocha sairá da Grécia e irá direto para o país anfitrião, onde visitará algumas cidades antes de chegar à cidade-sede.

Conflitos internacionais à parte, a expectativa para 2008 era de um espetáculo esportivo jamais visto. A China anunciou sua intenção de ganhar simplesmente todas as medalhas de ouro que estivesse disputando. Lógico que isso era praticamente impossível, mas pelo menos eles conseguiram terminar em primeiro lugar no quadro não-oficial de medalhas, superando os Estados Unidos, algo que não acontecia desde 1992. No total, os Estados Unidos até tiveram mais medalhas, 110 contra 100 dos chineses, mas a China teve muito mais ouros, 51 a 36, e, tradicionalmente, a colocação no quadro de medalhas é determinada pelo número de ouros, seguido do de pratas e de bronzes. Curiosamente, a imprensa norte-americana optou por divulgar um quadro no qual a colocação era determinada pelo número total, o que garantiu os Estados Unidos em primeiro. Embora eles tenham sido muito criticados por essa decisão, vale lembrar que, como não existe um quadro oficial do COI, cada um é livre para contar as medalhas do jeito que quiser, então eles não estavam errados.



Os mascotes de 2008 eram conhecidos coletivamente como Fuwa ("bonecos da boa sorte", em chinês), e cada um deles representava um dos cinco elementos tradicionais chineses, um ideal da cultura chinesa, um anel olímpico e um grupo de esportes olímpicos: Beibei, o azul, foi inspirado nos peixes, está ligado à Água, representa os esportes aquáticos e o ideal da prosperidade; Jingjing, o urso panda, é o anel preto, a alegria, está ligado ao Metal, e representa as lutas; Huanhuan, inspirado na tocha olímpica, representa evidentemente o Fogo, o anel vermelho, a paixão e os esportes com bola; Yingying, o controverso antílope tibetano, é o anel amarelo, a saúde, representa o atletismo e está ligado à Terra; e Nini, inspirado nas gaivotas, representa o anel verde, a boa sorte, a ginástica, e está ligado à Madeira. Os nomes dos bichinhos não foram escolhidos ao acaso: se você juntar as primeiras sílabas dos nomes de cada um deles, formará a frase Beijing huanying ni, que significa "seja bem-vindo a Pequim". Outra curiosidade é que, apesar de serem bichinhos meio indefinidos, Beibei e Nini são meninas, enquanto os outros três são meninos. Os Fuwa foram extremamente bem sucedidos desde antes dos Jogos, vendendo milhares de produtos, principalmente bonecos de pelúcia, e resgatando a glória dos mascotes do passado.

Os Jogos foram realizados no período entre 8 a 24 de agosto. A data de início de 08/08/08 foi escolhida de propósito, pois o número 8 é associado à prosperidade na cultura chinesa. Nada menos que 11.028 atletas participaram, representando 204 nações - apenas um dos membros do COI, o Brunei, optou por não inscrever nenhum atleta, embora tivesse dois classificados. O programa olímpico contou com 302 provas de 34 esportes - atletismo, badminton, basquete, beisebol, boxe, canoagem, ciclismo, equitação, esgrima, futebol, ginástica artística, ginástica de trampolim, ginástica rítmica, handebol, hóquei, judô, levantamento de peso, luta olímpica, nado sincronizado, natação, pentatlo moderno, polo aquático, remo, saltos ornamentais, softbol, taekwondo, tênis, tênis de mesa, tiro com arco, tiro esportivo, triatlo, vela, vôlei e vôlei de praia - sendo as principais novidades a substituição das provas de duplas do tênis de mesa por provas por equipes e a inclusão da maratona aquática, uma prova de 10 km realizada no mar (clique aqui para ver todas as provas do programa). As competições da equitação não foram realizadas em Pequim, mas em Hong Kong, devido a problemas com a vigilância sanitária chinesa. O comitê organizador também tentou fazer com que o wushu, a arte marcial considerada o esporte nacional da China, fosse incluído como esporte de demonstração, algo que não acontecia desde 1992; o COI rejeitou a proposta, mas acabou permitindo a realização de um campeonato internacional de wushu em Pequim no mesmo período dos Jogos - o contrato que as cidades assinam com o COI proíbe a realização de qualquer outro evento esportivo na cidade durante um período que começa 15 dias antes da cerimônia de abertura e se encerra 10 dias após a cerimônia de encerramento, mas para esse torneio foi aberta a primeira e única exceção da história das Olimpíadas. Não somente o torneio foi permitido, mas ele pôde ser disputado no Olympic Sports Center Gymnasium, bastando que os organizadores não exibissem nenhum pôster ou logotipo dos Jogos Olímpicos durante sua realização, as medalhas eram semelhantes às olímpicas, mas menores (exatamente como nos esportes de demonstração) e seus participantes puderam ficar hospedados na Vila Olímpica, algo inédito na história dos Jogos.

Falando em Vila Olímpica, as instalações construídas para estas Olimpíadas merecem algum destaque. Ao todo foram construídas nada menos que 31, além de seis que já existiam e foram reformadas. O grande destaque foi o Estádio Nacional de Pequim, apelidado Ninho do Pássaro, devido à sua estrutura externa de cabos e vigas de aço entrelaçados, que lembrava um ninho. Além das provas do atletismo e da final do futebol, o Ninho do Pássaro foi palco da Cerimônia de Abertura, um espetáculo grandioso, que para muitos superou até mesmo a dos Jogos de 1980; e da Cerimônia de Encerramento. Do outro lado da rua do Ninho do Pássaro ficava o Centro Aquático Nacional de Pequim, apelidado Cubo d'Água por seu formato quadrado e azul, onde foram realizadas as competições de natação, saltos ornamentais e nado sincronizado, contendo a piscina mais moderna do mundo.

Além de entrarem para a posteridade como duas das mais modernas e impressionantes instalações esportivas da história dos Jogos, o Ninho do Pássaro e o Cubo d'Água também foram testemunhas do surgimento de duas lendas do esporte, os principais destaques das Olimpíadas de Pequim. Como a natação foi disputada antes do atletismo, o Cubo viu o surgimento de sua lenda primeiro, quando o norte-americano Michael Phelps caiu na água.

Nascido em Baltimore, Estados Unidos, Phelps, de apenas 23 anos, já havia participado das Olimpíadas de Atenas, onde ganhara o impressionante número de seis medalhas de ouro e duas de bronze. Em Pequim, porém, seu objetivo era ainda mais grandioso: conquistar o ouro de todas as oito provas que disputaria, quebrando o recorde de maior número de medalhas de ouro em uma só Olimpíada, anteriormente pertencente a outro norte-americano da natação, o lendário Mark Spitz, que conquistara sete ouros em Munique, 1972.

Especialista no nado medley, aquele que envolve os quatro estilos, mas também muito bom nos estilos borboleta e crawl, ninguém duvidava de que Phelps iria conseguir sua proeza. A tarefa, porém, esteve ameaçada em duas ocasiões: no revezamento 4 por 100 metros livre, onde evidentemente o ouro não dependia só de Phelps, a equipe da França surpreendeu a dos Estados Unidos, e chegou a estar liderando na última perna da prova. O ouro norte-americano acabou garantido por Jason Lezak, atleta de 32 anos que disputava sua terceira Olimpíada, e anteriormente só havia ganhado ouros em revezamentos medley. Lezak nadou como um louco, fechando sua perna em 46,06 segundos, 9 décimos mais rápido que Alain Bernard, o último atleta da França, e 44 centésimos mais rápido que o recorde mundial dos 100 metros nado livre, do próprio Bernard. Infelizmente para Lezak, porém, apenas a primeira perna do revezamento conta para o recorde da prova individual.

Cinco dias depois daquela que seria considerada a final mais emocionante da natação de Pequim, Phelps respiraria aliviado mais uma vez, ao garantir mais um ouro, segundo alguns, por pura sorte. A prova era a dos 100 metros borboleta, e o algoz de Phelps chamava-se Milorad Cavic. Nascido nos Estados Unidos, na cidade de Anaheim, Califórnia, Cavic se naturalizou sérvio, nacionalidade de seus pais, e nas Olimpíadas defendia as cores da Sérvia. Nos 100 metros borboleta de Pequim, Cavic havia batido Phelps tanto nas eliminatórias - por 8 centésimos - quanto nas semifinais - por 5 centésimos. Na final, parecia que Cavic iria ganhar e acabar com o sonho de oito medalhas de Phelps, mas o norte-americano decidiu provar que os campeões também precisam ter sorte, batendo nada mais, nada menos que um centésimo à frente do sérvio. Apenas nas imagens em câmera lenta podemos ver que Phelps bate antes de seu rival - e respira aliviadíssimo ao olhar para o placar.

Nas outras seis provas, Phelps reinou absoluto, aumentando seu total de medalhas de ouro para 14, o que também fez com que ele se tornasse o atleta olímpico com mais ouros em todos os tempos. Além desse feito histórico, o Cubo d'Água ainda viu caírem 21 recordes mundiais e 30 recordes olímpicos - apenas os recordes olímpicos do australiano Ian Thorpe nos 400 metros livre e da holandesa Inge de Bruijn nos 100 metros borboleta, ambos estabelecidos em Sydney, 2000, ficaram de pé. Para muitos, a quebra de tantos recordes foi causada por um traje revolucionário, o LZR Racer, desenvolvido pela Speedo em parceria com a NASA e o Instituto Desportivo Australiano. Sem costuras, feito para se tornar uma segunda pele do atleta e diminuir ao máximo o atrito com a água, o LZR Racer também foi suspeito de aumentar a flutuabilidade, o que é proibido pelas regras da Federação Internacional de Natação. Mesmo após muita discussão e polêmica, a FINA optou por validar o traje, mas voltou atrás após uma nova chuva de recordes no Campeonato Mundial de 2009, com o traje sendo proibido de vez a partir de 2010.

Antes de mudarmos de esporte, cabe uma menção a duas outras atletas da natação, a norte-americana Dara Torres e a sul-africana Natalie du Toit. Aos 41 anos, Torres era a atleta mais velha da competição, e estava nada menos do que em sua quinta Olimpíada, tendo competido pela primeira vez em Los Angeles, 1984 (as demais foram 1988, 1992 e 2000). Ainda assim, ela terminou a competição com três pratas, nos revezamentos 4 por 100 livre e medley, e nos 50 metros livre, prova mais rápida da natação. Torres, aliás, parece desafiar o tempo: ainda hoje continua nadando, e, segundo ela, melhor do que quando era mais jovem. Já du Toit não competiu no Cubo d'Água, mas no Parque Olímpico de Remo e Canoagem de Shunyi, na estreante prova da maratona aquática. Vítima de um atropelamento, du Toit perdeu a perna esquerda aos 17 anos, mas não desistiu da natação. Após cinco ouros e uma prata nas Paralimpíadas de 2004, todas em provas de piscina, ela decidiu tentar se classificar para as Olimpíadas de Pequim, se tornando o segundo atleta amputado a conseguir classificação - o primeiro foi o húngaro Olivér Halassy, que disputou o polo aquático em 1928, 1932 e 1936. Du Toit terminou sua prova em 16o lugar em um total de 25 atletas, provando que pode competir de igual para igual com quem tem as duas pernas. Algumas semanas depois da maratona, du Toit competiria também nas Paralimpíadas, onde ganharia mais cinco ouros.

A lenda surgida no Ninho do Pássaro veio do caribe, e tinha nome de velocidade. Às vésperas de completar 22 anos, o jamaicano Usain Bolt pisou a pista de Pequim tão favorito quanto Phelps, embora de certa forma tenha impressionado ainda mais o mundo esportivo do que o norte-americano. Menino pobre, nascido em Trelawny, Bolt, de 1,93m, é muito mais alto que a média dos velocistas, mas isso parece não impedi-lo de correr como o raio de seu apropriado sobrenome - de fato, há até quem alegue que ajude, já que suas pernas são bem compridas. Em Pequim, Bolt ganhou o ouro nos 100 metros, nos 200 metros e no revezamento 4 por 100 metros, e todos os três de forma incontestável, com direito a quebra de recorde mundial e uma vantagem sobre o segundo colocado que torna a foto da chegada até vergonhosa: nos 100 metros, ele foi nada menos que um décimo de segundo inteiro mais rápido, e, mesmo assim, porque, quando viu que ia ganhar, decidiu rir e bater no peito, o que lhe custou um recorde ainda melhor - e lhe rendeu algumas broncas por falta de respeito com os adversários. Para não cometer o mesmo erro, nos 200 metros Bolt correu concentrado até o final, e o resultado foi uma impressionante vantagem de 66 centésimos sobre o medalhista de prata.

O Ninho do Pássaro também foi o palco do desfile da musa dos jogos, a russa Yelena Isinbayeva. Linda e sorridente, a atleta de 26 anos, na infância, desejava se tornar ginasta, mas sua altura impediu que seguisse essa carreira. Quando um técnico propôs que ela tentasse o salto com vara, sua família primeiro pensou que ele estivesse de gozação. O homem, porém, era um visionário. Isinbayeva é uma mestra nesse esporte, alcançando alturas com as quais as mulheres haviam apenas sonhado: em 2005, ela se tornou a primeira mulher a quebrar a marca dos cinco metros, e seu recorde mundial estabelecido em Pequim, 5,05 m, o vigésimo-sexto de sua carreira, era nada menos que 25 centímetros mais alto que a marca da medalhista de prata. Isinbayeva é até hoje a rainha absoluta de seu esporte, e, apesar de estar atravessando uma fase ruim, que a levou a decidir dar um tempo e descansar, promete seguir quebrando barreiras, disposta a provar que o céu é o limite.

No tênis, quem esperava uma final entre os dois maiores nomes da atualidade, o espanhol Rafael Nadal e o suíço Roger Federer, teve de se contentar com o ouro de Nadal sobre o chileno Fernando González, já que Federer acabaria eliminado nas quartas de final pelo norte-americano James Blake. Federer, porém, seria campeão nas duplas, ao lado de Stanislas Wawrinka. Nas simples femininas, o pódio foi todo russo, com Elena Dementieva ganhando o ouro, Dinara Safina a prata e Vera Zvonareva o bronze. Nas duplas femininas as irmãs norte-americanas Venus e Serena Williams massacraram as adversárias, ganhando o ouro com 6-2 e 6-0 sobre as espanholas Anabel Medina Garrigues e Virginia Ruano Pascual.

Outro massacre norte-americano aconteceu no basquete, onde os Estados Unidos, mordidos com o resultado dos Jogos de 2004, decidiram jogar mais sérios e concentrados, e aí não teve para ninguém, com os norte-americanos chegando ao ouro facilmente, só não passando dos 100 pontos nos jogos contra Angola (97) e Grécia (92), ambos na fase de classificação. No futebol, a Argentina repetiu sua medalha de ouro da olimpíada anterior, com um time que contava com os craques Riquelme e Messi. E o beisebol e o softbol tiveram talvez sua última aparição olímpica, já que o COI votou por removê-los do programa a partir de 2012. Curiosamente, em ambos os favoritos foram surpreendidos por asiáticos na final, com a Coréia do Sul ganhando de Cuba no beisebol e o Japão batendo os Estados Unidos no softbol.

O Brasil enviou para Pequim sua maior delegação de todos os tempos, com 277 atletas, sendo 145 homens e 132 mulheres, que disputaram 28 dos 35 esportes do programa. Em Pequim, o Brasil conseguiu superar seu recorde de 15 medalhas de Atlanta, 1996, mas infelizmente não superou os cinco ouros de Atenas, 2004, terminando a competição com três medalhas de ouro, quatro de prata e dez de bronze, 17 no total.

O maior destaque da delegação brasileira foram as mulheres: logo no terceiro dia dos Jogos, Ketleyn Quadros se tornou a primeira atleta brasileira a conquistar uma medalha em um evento individual, um bronze na categoria leves do judô. Natália Falavigna repetiria o feito de Ketleyn, ao conquistar um bronze no taekwondo, categoria superpesados. Mauren Higga Maggi iria ainda mais longe - literalmente - e se tornaria a primeira brasileira a conquistar um ouro em um evento individual, o salto em distância do atletismo, retornando após uma suspensão de dois anos causada por um doping involuntário para bater favoritas como a russa Tatyana Lebedeva, que ficou com a prata, e a norte-americana Brittney Reese, que terminou em quinto. Isabel Swan e Fernanda Oliveira também entraram para a história do esporte brasileiro ao ganhar a primeira medalha olímpica da vela feminina, um bronze na classe 470. Nos esportes coletivos, o vôlei feminino finalmente chegou à tão aguardada e merecida medalha de ouro com um time que contava com nomes como Fofão, Walewska, Sheilla, Mari, Paula Pequeno, Fabiana e Fabi, derrotando adversários como Itália, Rússia e China, com uma campanha tão irrepreensível que seu primeiro set perdido aconteceu na final, contra os Estados Unidos. A seleção de futebol, de Marta e Cristiane, também enfrentou os Estados Unidos na final, mas perdeu, ficando com sua segunda medalha de prata seguida. Dentre as que não chegaram ao pódio podemos citar a dupla Talita e Renata, quarto lugar no vôlei de praia, e as nadadoras Ana Marcela Cunha e Poliana Okimoto, respectivamente quinto e sétimo lugar na maratona aquática.

Dentre os homens, o maior destaque foi César Cielo Filho, responsável pela primeira medalha de ouro da história da natação brasileira em Olimpíadas, nos 50 metros livre. Dois dias antes, Cesão, como é conhecido pelos amigos, já havia conseguido um bronze em outra prova de velocidade, os 100 metros livre. Cielo tem tudo para se tornar o maior nadador brasileiro da história, tanto que no ano seguinte, no Campeonato Mundial, ganhou o ouro nas duas provas, quebrando o recorde mundial dos 100 metros livre, e no final de 2009 quebrou também o recorde mundial dos 50 metros livre em uma competição em São Paulo.

Tirando os favoritos que nem subiram ao pódio, como o ginasta Diego Hypólito e a atleta do salto com vara Fabiana Murer, prejudicada por um erro da organização que resultou no sumiço de uma de suas varas, talvez a maior decepção do Brasil em Pequim tenha sido a medalha de prata do superfavorito time masculino de vôlei, treinado por Bernardinho, que perdeu a final para os Estados Unidos, para quem também já haviam perdido a Liga Mundial do mesmo ano. As demais pratas do Brasil vieram do vôlei de praia, com Márcio e Fábio Luiz, que perderam a final para os norte-americanos Rogers e Dalhausser, e da classe star da vela, com Robert Scheidt e Bruno Prada.

Completaram o quadro de medalhas do Brasil os bronzes de Leandro Guilheiro e Tiago Camilo, respectivamente nas categorias leves e meio-médios do judô, de Ricardo e Emanuel no vôlei de praia, e da seleção masculina de futebol, que, sob o comando do técnico Dunga, e contando com jogadores como Ronaldinho Gaúcho e Alexandre Pato, mais uma vez deixou escapar a chance do ouro ao perder para a Argentina nas semifinais. E tudo bem que "não conta", mas vale citar a medalha de bronze de Emerson Almeida na categoria pesados do torneio quase-olímpico de wushu.

Finalmente, duas equipes brasileiras, as do revezamento 4 x 100 metros do atletismo, feminino e masculino, receberiam boas notícias inesperadas, anos após os jogos. No feminino, a equipe brasileira, formada por Rosemar Coelho Neto, Lucimar de Moura, Thaíssa Presti e Rosângela Santos, chegou originalmente em quarto lugar, com a Rússia conquistando o ouro, a Bélgica a prata, e a Nigéria o bronze. Em 16 de agosto de 2016, porém, seis dias antes de se completarem oito anos da realização da prova, foi descoberto que uma das atletas russas, Yulia Chermoshanskaya, havia feito uso de duas substâncias proibidas, na época indetectáveis pelos exames anti-doping. Com a descoberta, a Rússia perdeu sua medalha, e as outras três equipes foram realocadas, com o Brasil conquistando seu nono bronze.

Algo semelhante ocorreu no masculino: a Jamaica havia ficado com o ouro, Trinidad e Tobago com a prata, e o Japão com o bronze, com os brasileiros Vicente Lenílson, Sandro Viana, Bruno de Barros e José Carlos Moreira terminando em quarto lugar. Em janeiro de 2017, um novo exame do material fornecido pelo jamaicano Nesta Carter apontou uso de dimetilamilamina, e, após a confissão do atleta, a Jamaica foi desclassificada e os demais realocados, com os brasileiros conquistando o décimo bronze e garantindo o recorde de 17 medalhas para o Brasil quase oito anos e meio após o final dos Jogos.

No final, apesar de todas as críticas e protestos, os Jogos de Pequim foram considerados um grande sucesso pelo COI, que declarou não ter quaisquer arrependimentos quanto à escolha da capital chinesa como sede. Ainda é cedo, porém, para medir a extensão do legado que os Jogos deixarão à cidade - e talvez ao país como um todo.


Série Olimpíadas

Turim 2006
Pequim 2008

Ler mais

sábado, 9 de junho de 2007

Escrito por em 9.6.07 com 0 comentários

Olimpíadas (XXIII)

E hoje é dia de mais um post olímpico!

Salt Lake City 2002


Em 1995, a cidade norte-americana de Salt Lake, Utah, finalmente realizou seu sonho de ser escolhida para hospedar uma Olimpíada de Inverno, derrotando, na votação, três candidatas: Quebec City, no Canadá; Sion, na Suíça; e Östersund, na Suécia. Infelizmente, Salt Lake entraria para a história pelos motivos errados: como a responsável pelo primeiro escândalo de corrupção envolvendo membros do Comitê Olímpico Internacional, que causou a expulsão de dez deles.

Antes de se candidatar os Jogos de 2002, Salt Lake havia sido pré-candidata cinco vezes, mas em apenas duas delas chegara à votação final. Em 1932, quando as regras do COI estabeleciam que o país sede da Olimpíada de Verão teria prioridade na escolha da sede da Olimpíada de Inverno, o Clube de Esqui de Utah tentou convencer o comitê olímpico norte-americano a escolhê-la, mas os Jogos acabaram ficando com Lake Placid. Para os Jogos de 1972, Salt Lake foi candidata oficial pela primeira vez, mas perdeu na votação do COI para Sapporo, Japão. A cidade tentou ser candidata novamente para 1976, mas o comitê olímpico norte-americano decidiu escolher Denver, que ganhou a votação, mas devido a uma revolta dos moradores, que achavam um absurdo usar o dinheiro de seus impostos para financiar uma Olimpíada, o COI transferiu o evento para Innsbruck, Áustria. Salt Lake tentaria mais uma vez ser a preferida do comitê norte-americano para os Jogos de 1992, mas este acabou escolhendo Anchorage, tanto para candidata aos Jogos de 1992 quanto para os de 1994. Para 1998 Salt Lake conseguiria convencer o comitê a inscrevê-la novamente como candidata; desta vez, a vitória parecia certa, tanto que a cidade gastou 59 milhões de dólares em obras nas instalações antes mesmo de ser divulgado o resultado final, mas mais uma vez Salt Lake perderia para uma cidade japonesa na votação do COI, desta vez para Nagano.

Após a derrota para Nagano, o comitê organizador para os Jogos em Salt Lake City chegou a uma conclusão, digamos, interessante: a cidade japonesa havia ganhado a votação não porque fosse a melhor das candidatas, mas porque havia subornado os delegados do COI quando de sua visita à cidade. Assim, Salt Lake decidiu se candidatar para os Jogos seguintes, 2002, mas com uma estratégia muito mais agressiva.

Segundo relatos, o comitê organizador de Salt Lake gastou milhões de dólares em presentes para os delegados do COI, incluindo viagens totalmente pagas para resorts de esqui, entradas para o Super Bowl, descontos em compras de imóveis, empregos na cidade para seus parentes, bolsas de estudo na Universidade de Utah, e até mesmo, segundo boatos, cirurgias plásticas, serviços de escort e pagamentos em dinheiro vivo. Somente em dezembro de 1998 as acusações de suborno viriam à tona, e seria instaurada uma investigação conjunta pelo COI, pelo comitê olímpico norte-americano, pelo comitê organizador de Salt Lake e pelo departamento de justiça dos Estados Unidos. Quase todos os membros do comitê organizador renunciaram, os dez delegados do COI que visitaram Salt Lake foram expulsos por conduta imoral, e o COI, visando evitar que acontecimentos semelhantes ocorressem nas votações futuras, estabeleceu um teto máximo para o valor dos presentes que seus delegados podem receber de cada comitê organizador, modificou os limites mínimo e máximo de idade para que alguém seja escolhido delegado, e passou a escolher preferencialmente ex-atletas para esta função. A cidade de Salt Lake, apesar de muitos protestos das candidatas derrotadas - e até de candidatas a sede dos Jogos de 2006, cuja votação ocorreria em 1999 - foi mantida como sede, e os Jogos transcorreram normalmente. Ou quase.

Os Jogos de Salt Lake City foram realizados entre 8 e 24 de fevereiro, e contaram com a participação de 2.399 atletas, sendo 886 mulheres, que representaram 77 nações em 78 provas de 15 esportes: biatlo, bobsleding, combinado nórdico, curling, esqui alpino, esqui cross country, esqui estilo livre, hóquei no gelo, luge, patinação artística no gelo, patinação no gelo em velocidade, patinação no gelo em velocidade em pista curta, saltos com esqui, skeleton e snowboarding (clique aqui para ver todas as provas do programa). Os Jogos tiveram três mascotes, o coelho Powder, o coiote Copper e o urso Coal, representando o ideal olímpico do "mais alto, mais rápido, mais forte". A Cerimônia de Abertura contou com uma homenagem aos mortos no 11 de setembro de 2001, e uma retrospectiva de todos os Jogos de Inverno realizados até então. A honra de acender a pira coube não a um, mas a vinte atletas: o time de hóquei no gelo campeão em 1980, no jogo que entrou para a história com o apelido de Milagre no Gelo.

Infelizmente, não houve milagre no gelo de Salt Lake, apenas uma grande controvérsia e um imenso golpe de sorte. A controvérsia - como se já não bastasse o escândalo do suborno - ocorreu na patinação artística, categoria duplas. Os principais candidatos ao ouro eram os russos Yelena Berezhnaya e Anton Sikharulidze, e os canadenses Jamie Salé e David Pelletier. Na apresentação do programa curto, que acontece primeiro, a dupla russa se saiu melhor, mas no programa longo eles tiveram um tropeção, enquanto os canadenses se apresentaram de forma perfeita. Na contagem final das notas, porém, os russos ficaram com o ouro, obtendo notas mais altas de cinco dos nove jurados, enquanto os canadenses terminaram com a prata. A platéia discordou e vaiou o resultado, mas os canadenses se resignaram e receberam sua medalha com um sorriso no rosto.

Então, no dia seguinte, algo estranho aconteceu: a jurada francesa Marie-Reine Le Gougne, durante uma reunião com membros da ISU, a federação internacional de patinação no gelo, caiu em prantos e confessou ter sido pressionada pelo presidente da federação francesa de patinação no gelo, Didier Gailhaguet, a contribuir para que os russos ficassem com a medalha de ouro. Segundo ela, haveria um esquema para que na prova da dança no gelo, que aconteceria alguns dias mais tarde, os franceses Marina Anissina e Gwendal Peizerat ficassem com o ouro. Após a reunião, porém, Marie-Reine negou tudo, e emitiu um comunicado por escrito no qual declarava jamais ter havido qualquer esquema entre os russos e os franceses, e que ela realmente achara que os russos tinham se saído melhor na prova de duplas. Mesmo assim, a ISU decidiu tomar providências: suspendeu Marie-Reine e Gailhaguet por três anos, impediu que eles participassem de quaisquer cargos nos Jogos de 2006, e premiou os canadenses Salé e Pelletier também com uma medalha de ouro, não tirando o ouro dos russos, mas também não transferindo a prata para ninguém. Apesar de alguns protestos, jamais foi investigado se a delegação russa realmente teria armado algum esquema com os franceses. E, só para constar, os franceses realmente ganharam o ouro da dança no gelo, deixando a dupla da Rússia, Irina Lobacheva e Ilia Averbukh, com a prata.

Já o imenso golpe de sorte aconteceu na patinação em velocidade em pista curta, na prova dos 1.000 metros, e teve como maior beneficiado o australiano Steven Bradbury. Bronze em 1994 no revezamento 5.000 metros, Bradbury não tinha pretensão alguma de medalha, e foi aos Jogos apenas para participar. Em sua semifinal, porém, dois atletas se chocaram e caíram, e um terceiro foi desclassificado, e Bradbury acabou avançando até a final. Na final, parecia que ele iria chegar em quinto e último lugar, mas, faltando meia volta para o final, os quatro primeiros colocados, incluindo o favoritíssimo norte-americano Apolo Ohno, se chocaram e caíram. Sendo o único competidor ainda de pé, tudo o que Bradbury teve de fazer foi passar pelos caídos e cruzar a linha de chegada, para ganhar a primeira medalha de ouro em Olimpíadas de Inverno de todo o hemisfério sul. Ohno ainda conseguiu se levantar e cruzar a meta em segundo, seguido do canadense Mathieu Turcotte. Em outra prova, Ohno também acabaria beneficiado por um acontecimento estranho: na prova dos 1.500 metros, ele chegaria em segundo, atrás do sul-coreano Kim Dong-Sung, mas os juízes consideraram que Dong-Sung bloqueara Ohno ilegalmente, e desclassificaram o sul-coreano, dando o ouro para o norte-americano.

No feminino, Yang Yang entrou para a história da China ao ganhar o primeiro ouro daquele país, na prova dos 500 metros. Yang Yang ainda ganharia mais um ouro, nos 1.000 metros, e faria parte da equipe de revezamento 3.000 metros que terminaria com a prata. Curiosamente, duas das atletas chinesas se chamavam Yang Yang, mas com seus nomes pronunciados com entonações diferentes; para evitar confundir as duas, a Yang Yang que ganhou dois ouros e uma prata era referida como Yang Yang (A), enquanto a outra, que também fez parte da equipe que levaria a prata do revezamento e ainda ganharia um bronze nos 1.000 metros, era Yang Yang (S).

Na outra patinação em velocidade, a da pista mais longa, as provas do masculino foram dominadas por norte-americanos e holandeses. Casey FitzRandolph, o medalhista de ouro dos 500 metros, se tornou o primeiro norte-americano a vencer uma prova da patinação em velocidade desde 1980, enquanto seu compatriota Derek Parra, ouro e recorde mundial nos 1.500 metros, se tornou o primeiro descendente de mexicanos a subir no local mais alto do pódio em Jogos de Inverno. O holandês Gerard van Velde surpreendeu, conseguindo o ouro e o recorde mundial nos 1.000 metros, após terminar em quarto nas duas últimas Olimpíadas, mas seu compatriota Jochem Uytdehaage surpreendeu ainda mais: em sua primeira Olimpíada, ganhou o ouro e quebrou o recorde mundial nos 5.000 e 10.000 metros, e foi prata nos 1.500, onde havia quebrado o recorde mundial na semifinal, mas acabou superado por Parra na final. No feminino, o domínio foi da Alemanha, que ganhou três ouros, três pratas e um bronze, e teve pelo menos uma atleta no pódio em cada uma das cinco provas. O destaque foi Claudia Pechstein, que ganhou seu terceiro ouro seguido nos 5.000 metros, com direito a recorde mundial, além de também ganhar o ouro e quebrar o recorde mundial nos 3.000 metros.

Para encerrar a patinação, cabe registrar a imensa falta de sorte da norte-americana Michelle Kwan, considerada uma das maiores patinadoras de todos os tempos, mas que pela segunda vez - e mais uma vez sendo favoritíssima - não alcançou o ouro olímpico. Kwan teve uma queda durante sua apresentação, e terminou o torneio com a medalha de bronze. O ouro ficou com sua compatriota Sarah Hughes.

No esqui alpino, Janica Kostelic ganhou as primeiras medalhas de inverno da Croácia, e com uma apresentação histórica: mesmo se recuperando de uma cirurgia no joelho e vindo de um longo período de reabilitação, foi ouro no combinado, no slalom e no slalom gigante, e prata no slalom super gigante (curiosamente vencido pela italiana Daniela Ceccarelli), se tornando a primeira mulher a ganhar quatro medalhas em uma mesma edição dos Jogos de Inverno. No masculino, o norueguês Kjetil Andre Aamodt também entrou para a história, ao vencer o slalom super gigante dez anos depois de sua primeira vitória nos Jogos de Inverno, na mesma prova em 1992. Aamodt ainda ficaria com o ouro do combinado.

Outro norueguês cheio de medalhas foi Ole Einar Bjørndalen, que ganhou simplesmente todas as quatro provas do biatlo, incluindo o primeiro ouro da história da Noruega no revezamento 4 x 7,5 Km. O finlandês Samppa Lajunen também fez barba, cabelo e bigode ao vencer todas as três provas do combinado nórdico, a individual, a por equipe e a nova prova do sprint. Nos saltos com esqui, o destaque foi o suíço Simon Ammann, apelidado "Harry Potter" devido a sua aparência, e que jamais havia conquistado qualquer título em competições individuais, mas em Salt Lake foi ouro nas duas provas individuais, nas colinas alta e baixa. E no outro esqui, o cross country, a Estônia ganhou suas primeiras medalhas em Olimpíadas de Inverno, um ouro e uma prata com Andrus Veerpalu, nos 15 km e 50 km, respectivamente, e um bronze com Jaak Mae nos 15 km.

Nos trenós, o skeleton, modalidade onde o atleta desce deitado de bruços, com a cabeça primeiro, voltou ao programa olímpico, de onde esteve ausente desde 1948. Os Estados Unidos ficaram com o ouro nas duas provas, sendo que o vencedor do masculino, Jim Shea Jr, vinha de uma família de atletas olímpicos: seu pai competiu no combinado nórdico e no esqui cross country em 1964, e seu avô, Jack Shea, foi ouro nos 500 e 1.500 metros da patinação em velocidade em 1932. No luge, onde o atleta desce deitado de barriga para cima, com os pés primeiro, dois atletas conseguiram proezas: o alemão Georg Hackl, prata no individual, se tornou o primeiro atleta olímpico a ganhar medalhas em cinco edições consecutivas dos Jogos, sendo que nos três anteriores ele foi ouro, e em 1988 prata; e o italiano Armin Zöggeler completou uma escalada, sendo bronze em 1994, prata em 1998, e ouro em 1992 no individual. No bobsleding, pela primeira vez tivemos uma prova feminina, do trenó de dois lugares, e o ouro ficou com as norte-americanas Jill Bakken e Vonetta Flowers, que derrotaram os dois trenós favoritos da Alemanha, que ficaram com prata e bronze. Flowers foi a primeira atleta negra da história a conquistar uma medalha de ouro em Jogos de Inverno.

No hóquei no gelo, o Canadá acabou com um jejum de 50 anos ao derrotar os Estados Unidos na final - seu último ouro havia sido em Oslo, 1952. Cheio de estrelas da NHL, lideradas por Mario Lemieux, o time canadense começou dando um susto, ao perder para a Suécia e empatar com a República Tcheca, mas depois entrou nos eixos. No feminino, o Canadá também chegou ao ouro, mas de forma invicta, e se vingando na final da derrota para as norte-americanas quatro anos antes.

O Brasil enviou a Salt Lake City sua maior delegação na história dos Jogos de Inverno, 11 atletas, sendo 2 mulheres. Devido ao seu esforço para competir em um ambiente tão diferente do encontrado em seu território, o Brasil recebeu elogios do COI e de diversas federações internacionais, além de os atletas brasileiros terem sido tema de muitas reportagens na imprensa internacional. Pela primeira vez, o Brasil participou de outros esportes que não fossem o esqui alpino, no caso o esqui cross country, o luge e o bobsleding, onde o trenó amarelo da equipe brasileira, composta por Eric Maleson, Matheus Inocêncio, Edson Bindilattie e Cristiano Paes, ganhou o apelido de "Banana Congelada". Foi da equipe de bobsleding, aliás, a melhor colocação do Brasil nos Jogos e em toda a história das Olimpíadas de Inverno, 27a posição. A porta-bandeira foi Mirella Arnhold, que também conseguiu uma boa posição, 48a no slalom gigante. Depois que eu escrevi isso, achei meio contraditório chamar a 48a de "boa posição", mas para um país sem neve permanente o Brasil teve uma participação de destaque. Com melhores condições de treino, talvez uma medalha de inverno não seja um sonho tão impossível assim.

Atenas 2004


Graças ao enorme sucesso que os Jogos Olímpicos alcançaram no final do Século XX, os Jogos de 2004 receberam uma enxurrada de candidaturas a sede: nada menos que onze cidades pleitearam a honra de sediar os primeiros Jogos do Século XXI. Por causa disso, o COI criou um novo sistema de votação: em um primeiro momento, seriam escolhidas apenas cinco cidades, as cinco que tivessem as melhores condições de hospedar uma Olimpíada; estas cinco cidades então seriam submetidas à votação tradicional, em diversas rodadas, até que uma se sagrasse vencedora. Assim, após uma primeira análise, foram descartadas a cidade turca de Istanbul, a francesa Lille, a russa São Petersburgo, a espanhola Sevilha, a capital portorriquenha San Juan, e o Rio de Janeiro, primeira cidade brasileira a apresentar oficialmente um projeto de candidatura. Após esta eliminação, a disputa ficou entre Buenos Aires, capital da Argentina; Estocolmo, capital da Suécia e sede dos Jogos de 1912; Roma, capital italiana e sede dos Jogos de 1960; Cidade do Cabo, capital legislativa da África do Sul, e primeira cidade africana a se candidatar a uma Olimpíada; e Atenas, a capital grega, sede da primeira edição dos Jogos da Era Moderna, que havia perdido a chance de sediar os Jogos do Centenário para Atlanta, em 1996. Atenas acabou levando a melhor, vencendo Roma na última rodada de votações. Após 108 anos, os Jogos voltariam à Grécia.

Para muitos, porém, o COI havia escolhido Atenas apenas como um "consolo" pela cidade não ter sediado os Jogos de 1996. O fato da sede de 2004 ter sido escolhida em 1997 era o mais forte argumento a este favor, mas ainda havia outro bem mais perigoso: quase tudo na cidade precisaria ser feito ou refeito para os Jogos em um prazo de sete anos, e os gregos não eram exatamente conhecidos por sua rapidez, bom planejamento, ou por ter milhões de dólares à disposição para gastar com obras. No papel, o projeto de Atenas era fantástico, mas, até mesmo dentro do COI, muitos duvidavam de que tudo aquilo estivesse pronto e funcionando a tempo.

O COI, evidentemente, jamais chegou a manifestar publicamente esta opinião, ou a ameaçar tirar de Atenas o direito de sediar os Jogos. Mas, em 2000, um comunicado do COI, expressando sua "preocupação quanto ao progresso das construções" caiu como uma bomba sobre o comitê organizador, que temeu pelo pior. Todo o comitê acabou destituído, um novo foi formado, e muitas das obras foram aceleradas ou revistas. A piscina, por exemplo, seria coberta, mas após uma análise que constatou que a cobertura não seria essencial ao bom andamento das provas, descartaram o teto, o que chegou a gerar alguns protestos de nadadores em relação ao sol forte e a ventos indesejados. Um sistema de transporte através de bondes, que ligaria o centro da cidade aos locais de competição, previsto para estar pronto um ano antes, há dois meses da cerimônia de abertura ainda estava sendo construído, e teve de ter suas obras aceleradas. O próprio Estádio Olímpico só ficou pronto há menos de dois meses da abertura dos Jogos, e muitos nem acreditavam que ele pudesse ser finalizado a tempo.

Apesar de toda a correria, as instalações se provaram belas e funcionais. A principal delas era o Complexo Esportivo Olímpico de Atenas (OAKA, na sigla em grego), que, além do Estádio Olímpico, sede das Cerimônias de Abertura e Encerramento, do atletismo e da final do futebol, reunia o parque aquático, onde tivemos a natação, o pólo aquático, o nado sincronizado e os saltos ornamentais; o velódromo; o centro de tênis; e o indoor hall, palco da ginástica artística, da ginástica de trampolim e do basquete. Além do OAKA, foram construídos mais três complexos esportivos, o Helênico, composto de um estádio de hóquei, um de beisebol, um de softbol, uma arena de handebol, um salão para esgrima e um parque aquático para a canoagem; o Goudi, sede do badminton e do pentatlo moderno; e o Faliro, sede do vôlei de praia, do vôlei e do taekwondo. O Panathinaiko, principal estádio dos Jogos de 1896, foi revitalizado, e sediou as competições de tiro com arco, além da chegada da maratona. A maratona, aliás, ocorreu no percurso "original" da prova, entre Maratona e Atenas, mesmo percurso que o soldado Pheidippides teria feito na antiguidade. O arremesso de peso também ocorreu em um local histórico, em Olímpia, no mesmo estádio onde a prova era disputada nas Olimpíadas originais.

Os Jogos de 2004 ocorreram entre 13 e 29 de agosto, e contaram com a participação de nada menos que 11.099 atletas, sendo 4.440 mulheres, representando um número recorde de 202 nações em 301 provas de 34 esportes: atletismo, badminton, basquete, beisebol, boxe, canoagem, ciclismo, equitação, esgrima, futebol, ginástica artística, ginástica de trampolim, ginástica rítmica, handebol, hóquei, judô, levantamento de peso, luta olímpica, nado sincronizado, natação, pentatlo moderno, polo aquático, remo, saltos ornamentais, softbol, taekwondo, tênis, tênis de mesa, tiro com arco, tiro esportivo, triatlo, vela, vôlei e vôlei de praia (clique aqui para ver todas as provas do programa). Os mascotes de Atenas foram dois irmãos, Athina e Phevos, desenhados ao estilo dos daidala, estátuas de madeira que eram queimadas em festivais da antiguidade em homenagem à deusa Hera. O revezamento da tocha olímpica contou com uma grande novidade: pela primeira vez a tocha daria a volta ao mundo, visitando os cinco continentes. Após ser acesa em Olímpia, a tocha passou por um total de 34 cidades em 34 dias, incluindo as sedes de todas as Olimpíadas anteriores; Lausanne, na Suíça, sede do COI; e o Rio de Janeiro, na primeira passagem da tocha olímpica pela América do Sul; até retornar para a Grécia, onde visitaria mais algumas localidades, como a Ilha de Creta e o lago Prespa, na fronteira com a Albânia, antes de aportar em Atenas para acender a pira na Cerimônia de Abertura.

Dois incidentes desagradáveis ocorreram em Atenas. O primeiro foi uma acusação de doping envolvendo Kostas Kenteris, maior ídolo do atletismo grego e medalhista de ouro nos 200 metros em 2000, e Ekaterini Thanou, prata nos 100 metros de Sydney. Dois dias antes do Jogos começarem, ambos teriam de se apresentar para um exame anti-doping surpresa, mas não compareceram, alegando terem sofrido um acidente de moto. Nenhum dos dois, porém, apresentava sinais externos de que teria sofrido o acidente. A história tomou os jornais de toda a Europa, e imediatamente surgiu a suspeita de que o acidente teria sido forjado para que eles escapassem de ser pegos no exame. De favorito a um ouro em casa, o casal passou a vilão. Para evitar maiores complicações, Kenteris e Thanou anunciaram sua desistência dos Jogos, mas mesmo assim foram suspensos por dois anos a partir de dezembro de 2004. A sombra do doping em Atenas, infelizmente, não se restringiu ao casal: no total, 24 atletas foram pegos em exames anti-doping, sendo que sete perderam suas medalhas. Mais da metade dos resultados positivos foram para atletas do levantamento de peso, que chegou a sofrer a ameaça de ser retirado do programa olímpico, afastada com a promessa de ações mais rigorosas da Federação Internacional do esporte.

O segundo incidente aconteceu nas disputas da ginástica masculina, onde muitas das notas dos jurados foram contestadas. Tudo começou na disputa do combinado individual, quando a Coréia do Sul decidiu contestar a nota atribuída ao atleta Yang Tae-Young na barra horizontal. Segundo a delegação sul-coreana, a nota de início do atleta deveria ter sido 10, devido à complexidade do exercício, mas um dos jurados teria começado com 9,9. A Corte Arbitral do Esporte considerou que as provas apresentadas pela Coréia do Sul de que teria havido má-fé eram insuficientes, e manteve o resultado, mas a situação se tornou ainda mais controversa quando a Federação Internacional de Ginástica emitiu um comunicado no qual considerava o sul-coreano "o verdadeiro campeão". Apesar dos muitos protestos, não teve jeito: o ouro ficou mesmo com o norte-americano Paul Hamm, enquanto Tae-Young teve de se contentar com o bronze.

Na mesma competição da barra horizontal, cinco dias depois, haveria uma nova confusão: o russo Alexei Nemov fez uma apresentação aparentemente perfeita, mas recebeu um monte de notas baixas, e terminou na quinta posição. Após a divulgação das notas, a platéia vaiou por quase três minutos. A confusão final aconteceria no cavalo com alças, onde o romeno Marian Dragelescu conquistou a medalha de bronze mesmo após ter perdido o equilíbrio em sua segunda saída, deixando o canadense Kyle Shewfelt, o mais aplaudido pelo público, e que teve duas saídas perfeitas, em quarto.

Mas, além de incidentes desagradáveis, os Jogos de Atenas também tiveram atuações memoráveis, a maior delas do norte-americano Michael Phelps, 19 anos, seis ouros e dois bronzes na natação. Natação, aliás, cheia de provas emocionantes: nos 200 metros livre, por exemplo, estavam na água os quatro nadadores mais rápidos da história do evento, os australianos Ian Thorpe e Grant Hackett, o holandês Pieter van den Hoogenband, e o próprio Phelps. Com uma atuação de gala, Thorpe ganhou o ouro com um novo recorde olímpico, deixando Hoogenband na segunda colocação, e Phelps com o bronze. Thorpe ainda seria ouro nos 400 metros livre, prata no revezamento 4 x 200 livre, e bronze nos 100 metros livre; Hoogenband seria ouro nos 100 metros livre e prata no revezamento 4 x 100 metros livre; Phelps simplesmente ganharia o ouro nos 200 e 400 metros medley, 100 e 200 metros borboleta, revezamentos 4 x 200 metros livre e 4 x 100 metros medley, e mais um bronze no revezamento 4 x 100 metros livre, se tornando a maior esperança dos Estados Unidos para os Jogos de 2008 e 2012 - quando ainda terá só 27 anos - e sério candidato a quebrar o recorde de ouros de Mark Spitz.

Nos 50 metros livre, o norte-americano Gary Hall, Jr. repetiu seu ouro, desta vez sozinho. O japonês Kosuke Kitajima foi ouro nos 100 e 200 metros peito, e o norte-americano Aaron Peirsol subiu ao alto do pódio nos 100 e 200 metros costas. No feminino, a ucraniana Yana Klochkova venceu os 200 e os 400 metros medley, se tornando a primeira nadadora a vencer as mesmas duas provas em duas Olimpíadas seguidas; a holandesa Inge de Bruijn também repetiu seu ouro, nos 50 metros livre; e a maior surpresa da competição foi a nadadora Kirsty Coventry, do Zimbábue, um ouro, uma prata e um bronze, nos 200 metros costas, 100 metros costas e 200 metros medley, respectivamente. E o momento mais emocionante foi a vitória dos Estados Unidos no revezamento 4 x 200 metros livre, quando foi quebrado o recorde mundial mais antigo da natação ainda em vigor, estabelecido pela Alemanha Oriental em 1987.

No atletismo, os Estados Unidos fizeram o pódio inteiro dos 200 e dos 400 metros, mas nos 100 metros o português Francis Obikwelu ganhou uma prata, entre os norte-americanos Justin Gatlin e Maurice Greene. O marroquino Hicham El Guerrouj entrou para a história ao se tornar o primeiro homem a vencer os 1.500 metros e os 5.000 metros em uma mesma edição dos Jogos desde Paavo Nurmi em 1924. No feminino, a britânica Kelly Holmes conquistou o ouro dos 800 e dos 1.500 metros; Yulia Nesterenko, de Belarus, surpreendeu e ganhou os 100 metros; e os gregos puderam esquecer a decepção da desistência de Thanou comemorando um inesperado ouro de Fani Halkia - que havia abandonado o esporte alguns anos antes, mas retornado só para correr em casa - nos 400 metros com barreiras.

No basquete, o Dream Team dos Estados Unidos, mesmo contando com astros milionários da NBA, acabou se transformando em um Nightmare Team ao perder na primeira fase para Porto Rico e Lituânia, se classificando em quarto lugar em seu grupo para as quartas de final. Os norte-americanos ainda venceriam a Espanha nesta fase, mas nas semifinais perderiam para a Argentina, e teriam de se contentar com o bronze em uma espécie de revanche contra a Lituânia. Os argentinos, liderados por Manu Ginóbili, venceriam a Itália na final, ganhando sua primeira medalha de ouro desde 1952, e a primeira em um esporte coletivo desde 1936, quando foi campeã no polo a cavalo.

A Argentina ainda seria campeã do futebol, em uma campanha memorável, sem tomar um gol sequer, marcando 17, e fazendo uma final sul-americana contra o Paraguai - o Brasil sequer chegou a se classificar no pré-olímpico. A maior surpresa do campeonato foi o time do Iraque, que se classificou em primeiro em seu grupo, vencendo Portugal e Costa Rica, passou pela Austrália nas quartas de final, e então foi derrotado por Paraguai e Itália, encerrando sua campanha em quarto lugar.

Assim como o Brasil não chegou a se classificar para o futebol, os Estados Unidos surpreendentemente não se classificaram para o beisebol, o que abriu caminho para um ouro quase tranquilo de Cuba - que perdeu um jogo na primeira fase para o Japão, mas ganhou todos os outros - e fez com que as partidas tivessem a menor média de público de todas as Olimpíadas neste esporte. Em compensação, no softbol as meninas dos Estados Unidos não tiveram problemas para chegar ao ouro, vencendo todos os seus jogos, marcando 51 corridas e sofrendo apenas uma, contra a Austrália e precisamente na final.

Cuba fez a festa no boxe, vencendo cinco dos onze ouros possíveis, mais duas pratas e um bronze - e, curiosamente, nos superpesados a prata foi para o egípcio Mohamed Aly. No judô, o domínio foi do Japão, com três de oito ouros no masculino, mas cinco de oito no feminino, metade de todos os ouros disponíveis no total, mais uma prata no masculino e uma no feminino. Ilias Iliadis, categoria meio-médios, ganhou o primeiro ouro da Grécia no judô; Thomas Bimis e Nikolaos Siranidis o primeiro ouro grego dos saltos ornamentais, no trampolim sincronizado; Ting Li e Tian Tian Sun ganharam o primeiro ouro da China no tênis, nas duplas femininas; também no tênis, o chileno Nicolas Massu conquistou o primeiro ouro de seu país neste esporte, e depois ainda venceria o torneio de duplas, com Fernando González; e Ahmed Almaktoum conquistou o primeiro ouro da história dos Emirados Árabes, na fossa dupla do tiro.

As mulheres pela primeira vez disputaram a luta livre, com o Japão subindo ao pódio em todas as quatro categorias, com dois ouros, uma prata e um bronze. Também pela primeira vez, as mulheres puderam disputar a categoria sabre da esgrima, com Mariel Zagunis conquistando o primeiro ouro da história dos Estados Unidos em todas as categorias da esgrima. No levantamento de peso, a turca Nurcan Taylan, categoria moscas, 20 anos de idade, 1,50 m de altura, 48 kg de peso, teve uma performance assombrosa ao levantar 97,5 kg no arranque e 210 kg no total, quebrando o recorde mundial e se tornando a primeira mulher turca a ganhar um ouro olímpico. E a holandesa Leontien Zijlaard van Moorsel, do ciclismo, mesmo após uma queda feia na prova de estrada, ainda conseguiu um ouro na prova contra o relógio e um bronze na perseguição individual. Leontien entrou para a história como a primeira ciclista a ganhar quatro medalhas de ouro, já que em Sydney ela havia conquistado três, na estrada, perseguição individual e corrida contra o relógio, além de uma prata na prova por pontos.

E o Brasil? O Brasil enviou a Atenas sua maior delegação na história dos Jogos, 247 atletas, sendo 122 mulheres, só três a menos do que os homens. Se não voltou com o maior número de medalhas, pelo menos conseguiu o maior número de ouros de sua história, cinco, além de duas pratas e três bronzes. Além de tantas medalhas, cinco outros atletas do Brasil se tornaram bicampeões olímpicos, se unindo a Adhemar Ferreira da Silva nesta tão seleta galeria. Tal desempenho, para muitos, foi uma feliz surpresa.

Dois ouros do Brasil vieram da vela, com Robert Scheidt, categoria Laser, ouro em 1996, repetindo sua conquista, e terminando a competição 13 pontos à frente do austríaco Andreas Geritzer; e com Torben Grael e Marcelo Ferreira, ouro na categoria Star, também repetindo o feito de 1996. No vôlei de praia masculino, Ricardo Santos e Emanuel Rego foram ouro de forma invicta, perdendo apenas três sets em sete jogos. No feminino, Adriana Behar e Shelda Bede foram mais uma vez prata, mas desta vez perdendo para as favoritíssimas norte-americanas Kerri Walsh e Misti May, em um jogo bem menos traumatizante que o de quatro anos antes. Infelizmente, Adriana e Shelda, nas quartas de final, tiveram de enfrentar - e eliminar - a outra dupla brasileira, Ana Paula Connelly e Sandra Pires, o que impediu que tivéssemos duas duplas brasileiras no pódio pela terceira vez seguida.

No vôlei de quadra, sob o comando do técnico Bernardinho, o time masculino, já respeitado como o melhor do mundo na modalidade, teve exibições memoráveis durante o campeonato, onde só perdeu um jogo, na primeira fase, contra os Estados Unidos, e mesmo assim porque poupou vários titulares. O único time capaz de rivalizar com o do Brasil era o da Itália, que acabou derrotado duas vezes por 3 sets a 2, sendo a segunda justamente na final, que consagrou o voleibol masculino brasileiro - e em particular os jogadores Maurício e Giovane - com a segunda medalha de ouro de sua história. No feminino o time também tinha chances de chegar ao ouro, mas acabou perdendo uma partida inacreditável para a Rússia nas semifinais, onde estava vencendo por 24 a 19 no quarto set, a apenas um ponto da vitória, mas deixou o time russo empatar, levar a partida para o tie break e vencê-la. Abaladas, as meninas do Brasil acabaram perdendo também a disputa do bronze contra Cuba, terminando o torneio em quarto lugar.

O futebol masculino pode não ter ido aos Jogos, mas o feminino foi, e fez bonito, terminando com a medalha de prata, perdendo para os Estados Unidos por 2 a 1 na prorrogação, após empate de 1 a 1 no tempo normal. Em toda a competição, o Brasil perdeu apenas este e mais um jogo, também para os Estados Unidos, na primeira fase por 2 a 0. O basquete masculino não se classificou para os Jogos pela segunda vez seguida, e o feminino, em fase de transição, fez uma campanha irregular, terminando em quarto lugar após perder para a Austrália nas semifinais e para a Rússia na disputa do bronze. Os dois atletas brasileiros no taekwondo, Diogo Silva da categoria penas e Natália Falavigna da pesados, também terminaram em quarto lugar, assim como Ricardo Winicki, apelidado Bimba, da categoria Mistral da vela, que liderava a competição até a última regata, onde teve problemas e terminou em 17o, ficando a um ponto de ganhar uma medalha de bronze.

Dois dos bronzes do Brasil vieram do judô, com Leandro Guilheiro na categoria leves e Flavio Canto na meio-médios. O terceiro veio de forma bizarra na prova da maratona: apesar de não estar dentre os favoritos, Vanderlei Cordeiro de Lima liderava a prova com bastante folga até perto dos 10 km finais, quando foi atacado e empurrado para fora da pista pelo ex-padre irlandês Cornelius Horan, que já havia atrapalhado o GP da Inglaterra de Fórmula 1 de 2003, e fazia uma espécie de protesto. Ajudado por alguns torcedores, Vanderlei conseguiu voltar à prova, mas perdeu tempo e ritmo com o acidente, e acabou ultrapassado pelo italiano Stefano Baldini e pelo norte-americano Mebrahtom Keflezighi. O Brasil ainda entrou com uma representação para que Vanderlei fosse também agraciado com uma medalha de ouro, mas o pedido foi negado sob a alegação de que ainda faltava muito para o fim da corrida, e não havia como saber se ele manteria o mesmo ritmo até o final. Menos mal, Vanderlei acabou premiado pelo COI com a Medalha Pierre de Coubertin, por não ter se abalado com o acidente, e continuado a competir e fazer o seu melhor até o final da prova.

A última medalha do Brasil, durante algum tempo, teve cor indefinida. No Prêmio das Nações individual do hipismo, Rodrigo Pessoa, montando Baloubet du Rouet, terminou em segundo lugar, ao cometer quatro penalidades a mais que o irlandês Cian O'Connor. Quase um ano depois dos Jogos, porém, O'Connor perderia seu ouro, que passaria para Rodrigo, graças a um fato curioso: no hipismo, além dos atletas, os cavalos também são submetidos a exames anti-doping, e o teste do cavalo de O'Connor, Waterford Crystal, acusou uma substância proibida. Assim, em 10 de junho de 2005, a terceira prata se transformou no quinto ouro do Brasil.

Além do Brasil, outro país que superou suas expectativas em relação às medalhas foi a China, que terminou a competição com 32 ouros, apenas 4 a menos que os Estados Unidos, alguns deles conquistados em esportes onde o país jamais havia triunfado. O motivo, evidentemente, foi a forte preparação que os chineses já faziam para os Jogos de 2008, que acontecerão em Pequim, a capital chinesa. Os chineses não escondem de ninguém que seu objetivo é o topo do quadro de medalhas. Será que conseguirão?

Série Olimpíadas

Salt Lake City 2002
Atenas 2004

Ler mais