sábado, 26 de maio de 2007

Escrito por em 26.5.07 com 0 comentários

Batman (I)

Eu sempre gostei muito mais dos super-heróis da Marvel que dos da DC. Os motivos para isso permanecem obscuros - talvez porque as primeiras histórias em quadrinhos de super-heróis que eu li na vida foram da Marvel, talvez porque eu costumo associar os heróis da DC ao desenho dos Superamigos, talvez porque a DC de dez em dez anos resolva lançar uma grande saga para "consertar" sua cronologia - mas o fato é que heróis como Homem-Aranha, Homem de Ferro e os X-Men me agradam mais que Super-Homem, Aquaman ou os Jovens Titãs. Para muitos dos que me conhecem, esta preferência acabou resultando em uma crença: a de que eu odeio a DC. Não é verdade. Eu leio DC de vez em quando. Minha história em quadrinhos preferida é Watchmen. Eu adoro o desenho da Liga da Justiça Sem Limites. E eu gosto do Batman.

Aliás, eu não conheço ninguém que goste de super-heróis e não goste do Batman. Conheço muita gente que não gosta do Super-Homem, alguns que não gostam dos X-Men, outros tantos que não gostam do Aquaman, e até um demente que não gosta do Homem-Aranha, mas se você não gosta do Batman, deixe um comentário, pois será o primeiro de quem eu tenho notícia. Os motivos para que as pessoas gostem do Batman são muitos e variados, mas o meu é um só: Batman é um personagem muito interessante. Assim como o Homem de Ferro (meu herói favorito), ele não tem superpoderes, e se vale de muito dinheiro e artefatos tecnológicos para combater o crime, mas o diferencial de Batman é que ele não é dependente de tais artefatos, contando também com uma grande inteligência e bastante força física. Some a isso uma personalidade arredia, reclusa, quase tímida e um pouco perturbada, e pronto, temos um personagem extremamente complexo, capaz de render excelentes histórias nas mãos de bons roteiristas.

Batman, porém, não nasceu assim já tão detalhado. Ele foi o segundo super-herói da história, criado em 1938, quando só existia o Super-Homem, exatamente para pegar uma carona no sucesso deste. Na época, a divisão de quadrinhos da editora National Publications, que mais tarde se tornaria a DC Comics, animada com as vendas da revista Action Comics, onde eram publicadas as histórias do Super-Homem, pediu a seus editores para que inventassem novos super-heróis. O desenhista Bob Kane criou um super-herói ao qual chamou de "Homem-Morcego" ("The Bat-Man"), e o apresentou ao roteirista Bill Finger. Segundo finger, o tal herói vestia um collant vermelho, com botas da mesma cor, uma máscara que só cobria os olhos, e tinha asas de morcego. Finger deu várias sugestões para que o herói tivesse uma aparência melhor, como um capuz ao invés da máscara, uma capa ao invés das asas, luvas, e um uniforme negro ao invés de vermelho. Finger ainda criou o nome da identidade secreta do herói, Bruce Wayne, inspirado no patriota escocês Robert Bruce e no general norte-americano Anthony Wayne. Por esse motivo, muitos consideram Finger como co-criador de Batman, e acham injusto que apenas Kane seja citado nas referências oficiais.

Kane se inspirou em uma dezena de personagens para criar a personalidade de Batman e de Bruce Wayne, entre eles Zorro, Drácula, O Sombra, O Fantasma, Sherlock Holmes, Dick Tracy, Jimmie Dale, O Besouro Verde, o personagem folclórico inglês Jack Saltador, e o assassino do filme de 1926 The Bat. Kane apresentou o personagem à editora, que o adorou, e o cedeu a ela em troca de apenas ter seu nome na página inicial de cada história. Este nome acabou removido das histórias na década de 60, mas voltou no final da década de 70 sob a forma de um "aviso", que dizia "Batman criado por Bob Kane". Finger nunca recebeu nenhum crédito nas histórias, e morreu em 1974 ressentido com a editora por lhe negar este reconhecimento.

Batman fez sua estréia na revista Detective Comics número 27, de maio de 1939. Como o próprio nome da revista sugeria, suas histórias eram ao estilo detetive, bastante parecidas com os pulps, livros policiais que faziam muito sucesso na época. Batman era exatamente como qualquer detetive protagonista de um pulp - com a única diferença de que estava vestido de morcego - resolvendo crimes complicados com sua coragem e inteligência, e usando armas de fogo para derrotar seus inimigos. Mais tarde, estas características seriam atenuadas, para tornar o personagem mais acessível a leitores de todas as idades, e Batman abandonaria os revólveres e coletes à prova de balas, passando a usar inventos tecnológicos "típícos de super-heróis": na Detective Comics número 29 apareceu pela primeira vez o famoso Cinto de Utilidades, e na edição 31 foram apresentados o batarangue e o Batmóvel.

A origem de Batman só foi revelada aos leitores na edição 33: Bruce Wayne era filho do médico Thomas Wayne e de sua esposa Marta, dois milionários do alto círculo social da cidade de Gotham - inicialmente, Kane pensou em ambientar as histórias de Batman em Nova Iorque, mas mais tarde optou por criar sua própria cidade, um local tomado pelo crime e pela corrupção, onde o herói poderia viver muitas aventuras. Quando Bruce tinha oito anos, ele e seus pais voltavam para casa após uma noite no teatro, quando foram assaltados por um ladrão de nome Joe Chill. Durante o assalto, Chill matou ambos os pais de Bruce, e fugiu. Kane, mais tarde, diria que ele e Finger tomaram a decisão de começar a carreira do personagem desta forma porque "não existe nada mais traumático do que ver seus pais assassinados diante de seus olhos".

Após perder seus pais, Bruce jurou lutar para acabar com todo o crime em Gotham, e passou a dedicar sua vida exclusivamente a cumprir este juramento. Estudou criminologia, ciência forense, artes marciais, química, ginástica olímpica, a arte do disfarce, escapologia e ventriloqüismo. Bruce sabia, porém, que apenas isso não era suficiente para alcançar seu objetivo. Ele precisava de uma identidade secreta, algo que criasse o medo no coração dos bandidos. Um dia, enquanto pensava em sua mansão, Bruce viu um morcego entrar pela janela, e teve uma idéia: iria ele mesmo se disfarçar de morcego, e agir prioritariamente à noite. O simples pensamento de que poderiam ser abordados por um homem-morcego faria com que os criminosos pensassem duas vezes antes de cometer seus crimes.

As personalidades de Batman e de Bruce Wayne eram tão diferentes que muitos leitores se perguntavam qual deles seria o "verdadeiro" e qual seria a "encenação". Batman é seguro, determinado, uma presença imponente e intimidadora, de voz grave e baixa. Wayne, por outro lado, era visto pela sociedade como um playboy irresponsável e superficial, que vivia de renda graças à enorme fortuna que herdou da família e aos lucros das Empresas Wayne, das quais se tornou presidente. Bruce também é presidente da Fundação Wayne, que ajuda vítimas da criminalidade e evita que jovens da cidade sigam a carreira do crime. Batman e Bruce são tão diferentes justamente para que ninguém associe um ao outro - proteger sua identidade secreta é um dos objetivos principais de Batman, que muitas vezes arriscou morrer a utilizar suas habilidades enquanto estava sob a identidade de Wayne. Um dos pontos mais interessantes desta dualidade diz respeito ao álcool: embora Batman jamais consuma bebidas alcóolicas, para manter sua saúde e condição física sempre no ápice, Bruce Wayne é visto por muitos como um alcóolatra, e consumindo grandes quantidades de champagne em suas festas. Na verdade, tudo não passa de um teatro, onde Wayne bebe diversas bebidas não-alcóolicas, fingindo que são whisky e champagne.

Além de sua incrível inteligência e grande força e agilidade, Batman conta com um arsenal tecnológico, desenvolvido ou adaptado por ele mesmo. Antes de cada "missão" ele escolhe os equipamentos mais adequados e os guarda em seu Cinto de Utilidades, de forma a estar sempre preparado para qualquer surpresa tramada pelos vilões. De todos os equipamentos, o mais famoso é o batarangue, um bumerangue em formato de morcego, que ultimamente tem ganhado várias adições tecnológicas, como radar e sensor termoguiado. O próprio uniforme de Batman é um de seus equipamentos, podendo ser equipado com peitoral à prova de balas, asas que lhe permitem voar como em uma asa delta, e vários outros apetrechos. Batman conta ainda com diversos veículos, como o Batmóvel, um carro negro especialmente adaptado, com blindagem, mísseis, motor turbinado e um computador de bordo ligado diretamente à Batcaverna, o quartel-general do herói, localizado sob a mansão Wayne, local onde Batman guarda todos os seus equipamentos e de onde monitora a atividade criminosa em Gotham. Por fim, temos o Bat-Sinal, não propriamente um equipamento de Batman, mas algo que ele deu para a cidade, um enorme holofote que, quando acionado, projeta o símbolo de Batman nos céus, e convoca o herói para a ação.

O Bat-Sinal normalmente é acionado pelo Comissário James Gordon, chefe da polícia de Gotham, e primeiro personagem secundário introduzido nas histórias de Batman, já na Detective Comics 27. Gordon é um homem de meia-idade, comprometido com o fim do crime e da corrupção em Gotham, assim como Batman. Este interesse em comum fez com que ambos se tornassem amigos, e muitas vezes parceiros, embora Gordon nem sempre concorde com o método utilizado por Batman, de querer fazer justiça com as próprias mãos.

Depois de Gordon, o principal personagem introduzido nas histórias de Batman foi seu parceiro adolescente Robin, na Detective Comics 38, de 1940. Robin na verdade se chamava Dick Grayson, e era o filho mais novo de uma família de trapezistas conhecida como "Os Grayson Voadores", assassinada por um gangster de nome Zucco. Batman investigou o crime, e, com pena do jovem órfão, decidiu que Bruce Wayne iria adotá-lo. Wayne treinou Grayson, ensinando-o artes marciais e habilidades de detetive, e lhe revelou sua identidade secreta, nomeando-o seu parceiro na luta contra o crime. Finger e Kane decidiram criar Robin para que Batman tivesse uma espécie de Watson, o parceiro de Sherlock Holmes, com quem ele pudesse conversar e compartilhar seus problemas. O visual e o nome de Robin foram inspirados nos antigos filmes de Robin Hood, onde o personagem era interpretado pelo ator Errol Flynn, e visavam dar mais leveza às histórias, naquela época já consideradas um pouco pesadas para o público-alvo dos quadrinhos de super-heróis.

O enorme sucesso de Batman na Detective Comics fez com que ele ganhasse sua própria revista, Batman, que estreou em abril de 1940. A primeira edição teve a primeira aparição de dois dos mais famosos vilões da carreira do Homem-Morcego: o Coringa, um psicopata que atacava suas vítimas com uma toxina que fazia com que elas morressem com um sorriso distorcido no rosto; e a Mulher-Gato, uma criminosa que usava como arma um chicote, e tinha como objetivo assaltos ousados a mansões de milionários. Também foi na revista Batman que estreou o talvez mais famoso coadjuvante do mundo dos super-heróis, o mordomo Alfred Pennyworth, na edição 16, em abril de 1943. Contratado para trabalhar na mansão Wayne, Alfred acidentalmente descobriu as identidades secretas de Batman e Robin, e decidiu ajudá-los na luta contra o crime.

Além de aparecer na Detective Comics e em sua própria revista, Batman ainda tinha histórias publicadas na World's Finest Comics, revista que estreou em 1940 com o nome de World's Best Comics (essecialmente, ambos os nomes significam "os melhores quadrinhos do mundo", mas best é um adjetivo mais forte que finest, e passava a impressão de que a editora era pedante). Esta revista foi criada para reunir histórias do Batman e do Super-Homem, e capitalizar sobre o sucesso de ambos. Mais tarde, a revista passou a publicar histórias onde ambos os heróis agiam juntos. No início, Batman e Super-Homem eram grandes amigos, mas ao longo do tempo a relação entre os dois passou por diversas mudanças, e hoje eles são vistos como parceiros que se respeitam, mas com ressalvas ao método um do outro.

Falando em mudanças, Batman mudou muito ao longo dos anos. Muitas destas mudanças foram necessárias, pois os heróis da DC são muito antigos - o próprio Batman, por exemplo, lutou na Segunda Guerra Mundial contra os nazistas, então seria meio complicado ambientar suas histórias na época atual, pois Bruce Wayne estaria 60 anos mais velho do que no início de suas aventuras. Para "resolver" este problema, a DC comics decidiu que os heróis dos anos 30 e 40 na verdade viviam em outro Universo (chamado pela editora de "Earth Two", "Terra Dois"). A maioria dos heróis, como o Flash e o Lanterna Verde, ganharam "novas versões" na "Terra Um", a "nossa realidade"; Batman e Super-Homem continuaram os mesmos, mas tendo começado suas carreiras de herói mais recentemente. O Batman original, lá na "Terra Dois", envelheceu, se tornou comissário de polícia, e se casou com a Mulher-Gato.

Outras mudanças, menos drásticas, se deram simplesmente por exigências do mercado, para aproveitar uma nova moda, ou para tornar o herói mais atraente para novos leitores. No início da década de 50, por exemplo, as histórias mais populares eram as de ficção científica. Para aproveitar o filão, as histórias de Batman e Super-Homem foram adaptadas ao gênero. Sendo o Super-Homem um alienígena, era fácil encaminhar suas histórias para este lado; Batman, porém, teve de abandonar totalmente as histórias de detetive, ganhou muito mais bugigangas tecnológicas, e vilões mais adequados ao tema. Novos personagens também fizeram sua estréia, como a Batmulher, a versão feminina do herói, que ao invés de um cinto de utilidades carregava uma bolsa de utilidades; a Batmoça, sobrinha da Batmulher, algo como um equivalente feminino do Robin; Ace, o batcão, um pastor alemão que ajudava Batman e Robin na luta contra o crime, incluído nas histórias por causa do sucesso de Krypto na revista do Super-Homem; e o Bat-Mirim, um ser extradimensional com poderes mágicos, obcecado por Batman ao ponto de vestir um uniforme semelhante e querer ser seu parceiro na luta contra o crime - Bat-Mirim também foi inspirado em um personagem de Super-Homem, no caso o vilão Mxyzptlk.

A mudança para a ficção científica segurou as vendas de Batman por um tempo, mas por volta de 1964 elas caíram drasticamente. A DC Comics pensou em cancelar a revista, mas acabou designando o editor Julius Schwartz para reformulá-la. Schwartz aboliu os vilões e novos personagens da época da ficção científica, voltou a levar as histórias para o lado dos detetives, e redesenhou o uniforme de Batman, mudando-o de preto e cinza escuro para azul escuro e cinza claro, com uma elipse amarela em volta do símbolo no peito. Schwartz chegou até o ponto de matar Alfred e substituí-lo pela Tia Harriet, que segundo as más línguas foi morar com Wayne e Grayson para afastar os rumores de que eles teriam uma relação homossexual.

Com a estréia da série de TV de Batman na Fox (aquela do soc! pou! crás!) em 1966, os quadrinhos mudaram novamente. Assim como a série, os quadrinhos passaram a ter um tom mais leve, pendendo para o humor. Alfred foi ressucitado sem maiores explicações, e um novo personagem se uniu à Dupla Dinâmica na luta contra o crime, a nova Batmoça, na verdade Barbara Gordon, filha do Comissário Gordon. Enquanto a série fez sucesso, os quadrinhos venderam bem, mas quando a série foi cancelada em 1968, as vendas caíram novamente, e os quadrinhos tiveram de mudar mais uma vez.

A partir de 1970, o escritor Dennis O'Neil e o desenhista Neal Adams começaram um esforço para distanciar Batman do tom cômico da série de TV. Robin foi mandado para a faculdade, e Batman passou a combater o crime sozinho. As histórias voltaram a ser ambientadas na maior parte das vezes à noite, com elementos sombrios e de histórias de mistério. Muitos dos fãs consideram esta fase como sendo a melhor do herói.

Na década de 80 Batman passou por uma nova reformulação, principalmente devido à minissérie Crise nas Infinitas Terras, que essencialmente acabou com todos os universos paralelos da DC (incluindo a "Terra Dois"), deixando apenas umas poucas histórias anteriores como "oficiais" no Universo DC. Depois da Crise, a origem de Batman foi recontada na saga Ano Um, escrita por Frank Miller e desenhada por David Mazzucchelli. Uma das principais mudanças foi o fato de Alfred já ser mordomo da família Wayne durante a infância de Bruce, e de tê-lo criado após a morte dos pais. Miller também foi responsável pela minissérie O Cavaleiro das Trevas, que mostrava um Batman de 50 anos, que deixava sua aposentadoria de lado para voltar a combater o crime. O Cavaleiro das Trevas foi responsável por um enorme salto na popularidade do herói, e por de certa forma redefinir o tom das histórias publicadas depois dela, mais soturnas e violentas. Em A Piada Mortal, por exemplo, o Coringa seqüestra e tortura o Comissário Gordon, e deixa Barbara Gordon paraplégica.

O Batman da década de 90 passaria por uma provação parecida, quando na saga A Queda do Morcego o vilão Bane o deixa temporariamente paralisado da cintura para baixo após uma luta. Batman então passa seu manto para o novo herói Azrael, que passa a agir como Batman enquanto ele se recupera. Logo após Batman se recuperar, a DC fez mais uma minissérie para "assentar terreno", nos moldes de Crise, desta vez chamada Zero Hora, que tinha como objetivo realinhar todas as linhas do tempo das histórias da DC, algumas já incoerentes após anos de revistas publicadas. O Batman pós-Zero Hora é considerado uma lenda urbana pela população de Gotham, sendo que poucos sabem que ele verdadeiramente existe. Além disso, o assassino de seus pais nunca foi encontrado, o que retirou Joe Chill do Universo DC.

Esta não seria a última reformulação de Batman, porém. Na saga Crise de Identidade, de 2005, Batman descobre que a feiticeira Zatanna alterou suas memórias, o que fez com que ele ficasse sem saber o que era verdade ou mentira, e não conseguisse mais confiar em nenhum super-herói. Naquele mesmo ano veio mais uma minissérie para acertar o Universo DC, Crise Infinita, que trouxe de volta para o Universo DC muitos personagens e eventos removidos na Crise nas Infinitas Terras e em Zero Hora - Joe Chill, por exemplo, voltou a existir. Atualmente, Batman continua vivendo em Gotham City e combatendo o crime, além de selecionar novos heróis para a Liga da Justiça.

Batman, por falar nisso, prefere trabalhar sozinho ou com um parceiro ocasional - como Robin, a Batmoça ou até mesmo o Super-Homem - mas já fez parte de muitas equipes de super-heróis ao longo de sua carreira. O Batman original, por exemplo, era membro honorário da Sociedade da Justiça da América, a primeira equipe de super-heróis dos quadrinhos, que fez sua estréia na revista All Star Comics número 3, de julho de 1940. A equipe havia sido criada pela editora para promover seus heróis mais desconhecidos, que viveriam aventuras algumas vezes contando com a companhia dos carros-chefes Batman, Super-Homem, Lanterna Verde e Flash. A Sociedade da Justiça teve histórias publicadas até 1960, voltou no meio da década de 70, sumiu junto com a "Terra Dois" na Crise, mas voltaria com novos membros na década de 90.

Em 1960, a revista The Brave and the Bold número 28 trouxe ao mundo uma nova equipe de heróis, a Liga da Justiça da América, teoricamente criada para substituir a Sociedade, mas com heróis populares na época, ao invés dos heróis clássicos da equipe anterior. Batman foi membro fundador da Liga, junto com Super-Homem, Mulher Maravilha, Flash, Lanterna Verde, Aquaman e Ajax, o Caçador de Marte. Batman permaneceu como membro da Liga até a última edição da The Brave and the Bold, o número 200, de 1983, quando ele formou uma nova equipe de super-heróis, os Renegados, da qual era o líder. Batman e os Renegados viveram aventuras na revista Batman and the Outsiders, que durou até 1988. A partir de 1993 a revista voltou a ser publicada, mas apenas com o título Outsiders, e sem a presença de Batman, que voltou para a Liga em 1996, no novo título JLA (Justice League of America, LJA aqui no Brasil), publicado até hoje.

Além dos quadrinhos, onde já apareceu em quase todas as publicações da DC e em mais alguns crossovers com personagens de outras editoras, Batman já teve versões para uma tira de jornal, uma novela de rádio, livros, uma série para o cinema de 1943, outra de 1949, a série de TV de 1966, uma série com vários heróis da DC, de 1979, e seis filmes para o cinema; incluindo um baseado na série, e lançado também em 1966, dois dirigidos por Tim Burton, dois por Joel Schumacher, e o mais recente, Batman Begins, que ano que vem ganhará uma continuação. Isso sem falar nos desenhos animados: o primeiro foi ao ar em 1968 e 1969, e consistia de um bloco com dois desenhos do Batman (sempre um episódio de Batman e um de Batman e Robin) e dois do Super-Homem; entre 1973 e 1986, Batman e Robin estiveram no ar como parte do desenho dos Superamigos; em 1977 estreou As Novas Aventuras de Batman, no qual Batman e Robin combatiam o crime com a ajuda do Bat-Mirim, desenho produzido até 1981; em 1992 o Homem-Morcego voltou com uma nova série, produzida por Bruce Timm, com o nome original de Batman: The Animated Series na primeira temporada, The Adventures of Batman and Robin de 1993 a 1995, quando o Menino-Prodígio passou a co-estrelá-lo, e The New Batman Adventures de 1997 a 1999, quando a Batmoça e Asa Noturna se uniram aos protagonistas; entre 1999 e 2001 foi prduzido Batman do Futuro, onde Bruce Wayne se aposenta e o manto de Batman passa para Terry McGinnis; Batman foi um dos personagens principais dos desenhos Liga da Justiça e Liga da Justiça Sem Limites, produzidos entre 2001 e 2006; e, finalmente, de 2004 até hoje está sendo produzido O Batman, primeiro desenho do herói totalmente separado dos demais elementos do Universo DC, como se ele fosse o único personagem existente. Batman e Robin ainda fizeram participações especiais em dois episódios de Os Novos Mistérios de Scooby-Doo, em 1972; Batman apareceu em três episódios do desenho do Super-Homem, em 1997, 1998 e 1999; e ainda apareceu como membro da Liga da Justiça em quatro episódios de Super Choque, em 2003, 2004 e 2005. Além disso tudo, Batman ainda estrelou cinco desenhos de longa-metragem, três sendo parte da série Batman: The Animated Series, um de Batman do Futuro e um de O Batman.

Ok, depois deste parágrafo imenso, o post acabou. A história de Batman, porém, não. Às vésperas de completar 70 anos, o herói segue popular, e ganhando novos fãs a cada dia. Feito notável para alguém que se veste de morcego.
Ler mais

sábado, 19 de maio de 2007

Escrito por em 19.5.07 com 0 comentários

Olimpíadas (XXII)

E vamos a mais um post olímpico!

Nagano 1998


26 anos depois, as Olimpíadas voltaram ao Japão, com a escolha de Nagano para sede dos Jogos de Inverno de 1998. A cidade japonesa, que recebe milhões de turistas por ano, visitantes do templo budista de Zenko-Ji, foi escolhida na reunião do COI de 1991, quando venceu a cidade italiana de Aosta, a espanhola Jaca, a sueca Östersund e a norte-americana Salt Lake City. O trunfo de Nagano era um plano para realizar Jogos ecologicamente corretos; todas as novas instalações seriam construídas de forma a privilegiar a natureza, todo o papel usado no evento era reciclado, e até mesmo as roupas dos fiscais, oficiais e voluntários eram feitas de materiais totalmente recicláveis. Além disso, a prefeitura de Nagano lançou um programa especial para estimular as crianças a assistir os Jogos Olímpicos, segundo o qual crianças matriculadas em escolas japonesas teriam 50% de desconto na compra dos ingressos.

Os Jogos de Inverno de 1998 foram realizados entre 7 e 22 de fevereiro, e contaram com a participação de 2.176 atletas, sendo 787 mulheres, que representaram 72 nações em 72 provas de 14 esportes: biatlo, bobsleding, combinado nórdico, curling, esqui alpino, esqui cross country, esqui estilo livre, hóquei no gelo, luge, patinação artística no gelo, patinação no gelo em velocidade, patinação no gelo em velocidade em pista curta, saltos com esqui e snowboarding (clique aqui para ver todas as provas do programa). Nagano teve um exagero de quatro mascotes, Sukki, Nokki, Lekki e Tsukki, quatro corujinhas conhecidas coletivamente como Snowlets. A honra de acender a pira coube a Midori Ito, patinadora artística medalhista de prata em 1992.

O curling, após participar da primeira edição dos Jogos de Inverno, e de fazer outras três participações como esporte de demonstração, finalmente foi reintegrado ao programa olímpico, nas versões masculina e feminina. Entre os homens, a Suíça levou a melhor, deixando o Canadá com a prata e a Noruega com o bronze; no feminino o Canadá conseguiu o ouro, com a Dinamarca em segundo e a Suécia em terceiro. O snowboarding, que se tornava cada vez mais popular, também passou a fazer parte do evento, com as modalidades halfpipe, onde o atleta recebe pontos por acrobacias, e o slalom gigante, onde deve-se descer uma montanha passando por pontos pré-determinados. O snowboarding também foi disputado nas versões masculina e feminina, e os medalhistas foram bastante variados, com medalhas de ouro para quatro países diferentes.

O hóquei no gelo também contou com duas novidades: pela primeira vez a versão feminina do esporte foi disputada em uma Olimpíada, com as norte-americanas chegando à medalha de ouro invictas, e derrotando as canadenses para clamá-la contra todos os prognósticos - em todas as finais em que os dois times se enfrentaram antes desta, o Canadá havia vencido. No masculino, pela primeira vez foi permitida a presença dos profissionais da NHL, a liga de hóquei no gelo dos Estados Unidos e Canadá, que inclusive interrompeu seu campeonato durante três semanas do mês de fevereiro, para permitir que os atletas viajassem e competissem. Diferentemente do que se esperava, porém, este fato não favoreceu os norte-americanos, que surpreendentemente venceram apenas um jogo no torneio, contra Belarus. A medalha de ouro ficou com um inspirado time da República Tcheca, que derrotou a Rússia na final. A tabela do campeonato masculino de hóquei no gelo de 1998 foi uma das mais criticadas de toda a história das Olimpíadas: a primeira fase era composta de dois grupos, dos quais apenas o primeiro de cada se classificaria para a segunda fase, onde se uniriam aos seis times melhores ranqueados pela Federação. Além das tradicionais críticas por oito times terem de lutar por duas vagas enquanto outros seis só esperavam - ainda mais quando estes dois times foram Belarus e Cazaquistão, enquanto times de maior tradição, como Alemanha e Eslováquia, foram eliminados - a segunda fase era praticamente inútil, já que todos os oito times que a disputavam se classificaram para as quartas de final. Apesar de todas as críticas, este formato ainda foi adotado nos Jogos de 2002, e apenas após mais uma saraivada de reclamações ele foi alterado para 2006.

Um dos maiores heróis de 1998 foi o norueguês Bjørn Dæhlie, o mais bem sucedido esquiador olímpico da história. Dæhlie, que já tinha cinco ouros e três pratas do esqui cross country no currículo, conseguiu em 1998 vencer os 10 km, os 50 km, e o revezamento 4 x 10 km, além de conseguir uma prata nos 15 km perseguição. No feminino, o maior destaque, embora com menos medalhas, foi a russa Larisa Lazutina, ouro nos 5 km, nos 10 km perseguição e no revezamento 4 x 5 km, prata nos 15 km e bronze nos 30 km. Ao voltar para a Rússia, Lazutina, que antes de 1998 só havia ganhado dois ouros, nos revezamentos 4 x 5 km de 1992 e 1994, foi agraciada pelo presidente Boris Yeltsin com o título de Heroína da Federação Russa. Lazutina foi uma das esquiadoras mais bem sucedidas da história do esporte, ganhando quatorze medalhas em mundiais, sendo onze ouros, entre 1987 e 2001. Sua carreira, porém, terminou de forma nada gloriosa em 2002, quando, após ganhar um ouro e duas pratas nos Jogos de Inverno, foi desclassificada e banida do esporte ao ser pega em um anti-doping que acusou uso da substância proibida darbepoetin.

Um dos momentos mais tensos dos Jogos foi a queda do esquiador austríaco Hermann Maier durante a prova de downhill do esqui alpino. Maier perdeu o contato com o solo a 120 km por hora, ficou três segundos e meio suspenso no ar, e se chocou contra o solo com violência. Mas ele não somente nada sofreu, como três dias depois já estava com esquis nos pés mais uma vez para competir no slalom super gigante, onde conseguiu nada menos que a medalha de ouro. E outros cinco dias depois ele ganhou seu segundo ouro, desta vez no slalom gigante, onde conseguiu quase um segundo de vantagem sobre o segundo colocado.

Na patinação em velocidade, o domínio foi da Holanda, que ganhou cinco dos dez ouros em disputa - dois deles com Gianni Romme, outros dois com Marianne Timmer, e um com Ids Postma - além de quatro pratas e dois bronzes, incluídas nestas medalhas o pódio inteiro dos 10.000 metros masculino. A Alemanha também fez um pódio inteiro, nos 3.000 metros feminino, além de mais um ouro e duas pratas. Na pista curta não houve um país de destaque, mas quatro: todas as medalhas foram conquistadas por atletas do Japão, China, Coréia do Sul e Canadá. A Alemanha levou os três ouros do luge, além de uma prata e um bronze. E os Estados Unidos quase conseguiram os quatro ouros do esqui estilo livre, perdendo apenas o da categoria moguls feminino, onde Donna Weinbrecht terminou em quarto lugar.

Dentre as mulheres, dois grandes destaques: no esqui alpino, a italiana Deborah Compagnoni, ouro no slalom super gigante em 1992 e no gigante em 1994, conquistou mais um ouro no slalom gigante, se tornando a primeira atleta do esqui alpino a conseguir três ouros em três Jogos seguidos, conseguindo ainda uma prata no slalom. E na patinação artística, a favoritíssima ao ouro era a norte-americana Michelle Kwan, de 17 anos, hoje considerada uma das maiores patinadoras de todos os tempos, mas que, na final, acabou surpreendida por outra norte-americana, Tara Lipinski, de apenas 15 anos, que a venceu por uma diferença ínfima, e se tornou a atleta mais jovem a ganhar um ouro individual em toda a história dos Jogos de Inverno.

O Japão não fez feio, ganhando no total cinco medalhas de ouro, uma prata e quatro bronzes. Destas dez medalhas, três foram graças ao mesmo atleta, o japonês de maior destaque em 1998, Kazuyoshi Funaki, dos saltos com esqui. A primeira medalha de Funaki foi uma prata na colina baixa, mas quatro dias depois ele ganharia um ouro na colina alta, com uma performance fantástica e inédita neste esporte, conseguindo a nota máxima de todos os cinco jurados. Funaki encerraria sua participação com mais um ouro, desta vez como parte do time japonês da prova por equipes, que, com uma exibição de gala, terminou a competição 35 pontos à frente da Alemanha medalhista de prata.

O Brasil mais uma vez foi aos Jogos de Inverno com uma delegação de um atleta só, desta vez Marcelo Apovian, considerado o melhor atleta do esqui alpino de todos os países sem neve permanente. Apovian, que já havia participado dos Jogos de Inverno de 1992, viajou graças ao Solidariedade Olímpica, após passar três meses treinando no Colorado, Estados Unidos, financiado pelo Comitê Olímpico Brasileiro. Apovian disputou uma única prova, o slalom super gigante, e terminou em 37o lugar. Bem, como eu disse da última vez, pelo menos ele teve a honra de ser o porta-bandeira. Brincadeiras à parte, estas participações do Brasil, mesmo com um atleta só, na minha opinião não foram em vão: deram visibilidade aos esportes de inverno em nosso país, e motivaram muitos outros atletas a disputar esportes de inverno por aqui. Graças a estes atletas solitários, a delegação brasileira cresceria substancialmente nos Jogos seguintes.

Sydney 2000


A escolha da sede para os últimos Jogos Olímpicos do Século XX ocorreu na reunião do COI de 1993. Cinco foram as candidatas: Sydney, na Austrália; Pequim, capital da China; Manchester, na Grã-Bretanha; Berlim, capital da Alemanha; e Istanbul, na Turquia - Brasília, a capital brasileira, foi pré-candidata, mas acabou desistindo e retirando sua candidatura antes da votação. Até a última rodada de votações, parecia que os Jogos Olímpicos iriam finalmente aportar na China, que durante tanto tempo os ignorara - Pequim ganhou as três primeiras rodadas de votação sem grandes sustos. Na última rodada, porém, Sydney surpreendeu e conquistou o direito de sediar os Jogos de 2000 por uma pequena margem, 45 votos a 43.

E Sydney não fez feio ao organizar a segunda Olimpíada da Austrália, segunda do hemisfério sul. Com muito planejamento e um orçamento friamente calculado, conseguiram construir uma belíssima instalação para os Jogos, o Sydney Olympic Park. Localizado no subúrbio de Homebush Bay, o parque continha o Stadium Australia, maior Estádio Olímpico da história, com capacidade para 110 mil espectadores, palco das cerimônias de abertura e encerramento, do atletismo e da final do futebol; o Sydney Superdome, palco da ginástica artística, trampolim acrobático e basquete; um ultramoderno parque aquático, com uma piscina de última geração que inclusive evitava os movimentos de marola que costumavam atrapalhar os nadadores que estivessem competindo nas raias 1 e 8; um estádio de hóquei, um de beisebol, uma quadra de tênis e uma área para o tiro com arco. Todas as demais competições foram realizadas em instalações já existentes, e não houve qualquer tipo de feira paralela, vendas exacerbadas ou rígido esquema de segurança. Em Sydney, os esportes voltaram a ser o foco principal dos Jogos.

Os Jogos de 2000 aconteceram na época mais agradável da Austrália em relação ao clima, entre 15 de setembro e 1o de outubro - embora alguns jogos de futebol tenham sido disputados antes disso, para que a tabela ficasse mais folgada. Deles participaram 10.651 atletas, sendo 4.069 mulheres, que representaram nada menos que 199 nações. De todos os filiados ao COI, apenas o Afeganistão não pôde participar, afetado pela rígida política dos talibãs, que proibiam a prática de qualquer esporte. Em compensação, quatro atletas do Timor-Leste, mesmo sem ainda ter um comitê olímpico constituído, puderam competir como Participantes Independentes, sob a bandeira dos anéis olímpicos. Curiosa também foi a participação da Coréia do Norte e da Coréia do Sul, que competiram com delegações separadas, mas na Cerimônia de Abertura desfilaram juntas, sob o nome de Coréia, e sob uma bandeira branca que trazia um mapa das duas Coréias unidas, em azul claro. O programa olímpico contou com um recorde de exatamente 300 provas, em um total de 34 esportes: atletismo, badminton, basquete, beisebol, boxe, canoagem, ciclismo, equitação, esgrima, futebol, ginástica artística, ginástica de trampolim, ginástica rítmica, handebol, hóquei, judô, levantamento de peso, luta olímpica, nado sincronizado, natação, pentatlo moderno, polo aquático, remo, saltos ornamentais, softbol, taekwondo, tênis, tênis de mesa, tiro com arco, tiro esportivo, triatlo, vela, vôlei e vôlei de praia (clique aqui para ver todas as provas do programa). Sydney foi a primeira Olimpíada a ter três mascotes, três animais nativos da Austrália: o ornitorrinco Syd, batizado em homenagem à cidade; a cucaburra Olly, em homenagem às Olimpíadas; e a équidna Millie, em homenagem ao Milênio que se encerrava. Os três eram fofos e fizeram sucesso com os turistas, mas não alcançaram a popularidade dos mascotes do passado.

A Cerimônia de Abertura foi um grande show, com nada menos que quatro apresentações musicais, menos chata que a de Atlanta, mas igualmente longa. A tocha entrou no estádio pelas mãos de Herb Elliott, ouro nos 1.500 metros do atletismo de 1960. Então, em homenagem aos cem anos de participação das mulheres nos Jogos Olímpicos, só passou pelas mãos de mulheres, todas medalhistas de ouro: Betty Cuthbert, Raelene Boyle, Dawn Fraser, Shirley Strickland, Shane Gould e Debbie Flintoff-King, que a entregou para Cathy Freeman, atleta de grande destaque e descendente de aborígenes, o povo indígena da Austrália. Freeman subiu em uma espécie de lago suspenso, e levou a tocha à água. O fogo sagrado então inflamou uma espécie de queimador, criando um círculo de fogo ao redor da atleta, que foi subindo até se encaixar no topo da pira, localizada a vários metros de altura, algo que já estava se tornando moda. Detalhe: dez dias depois, Freeman ganharia o ouro nos 400 metros livres, se tornando a primeira atleta a acender a pira e vencer uma prova em uma mesma edição das Olimpíadas.

Uma das delegações que saiu mais decepcionada de Sydney foi a do Brasil, composta de 205 atletas, sendo 94 mulheres. Por causa do excelente desempenho em Atlanta, e devido ao fato de que muitos atletas brasileiros estavam conseguindo boas posições em competições de destaque em seus esportes, grande parte da população imaginou que o Brasil quebraria todos os seus recordes de medalhas na Olimpíada do ano 2000. Não vou citar nomes porque não tenho como provar, mas me lembro bem que um jornal chegou a profetizar que o Brasil ganharia dez medalhas de ouro, incluindo as duas do futebol. O país realmente conseguiu uma boa quantidade de medalhas, doze, mas nenhuma foi de ouro. Além disso, muitos dos atletas que chegaram favoritíssimos à Austrália saíram de lá de mãos abanando, como o tenista Gustavo Kuerten, bicampeão do torneio de Roland Garros, e o cavaleiro Rodrigo Pessoa, tricampeão da Copa do Mundo de hipismo.

Bem, verdade seja dita, Rodrigo não saiu da Terra dos Cangurus de mãos abanando, mas com uma medalha de bronze conquistada na prova por equipes do Prêmio das Nações, montando Baloubet du Rouet e acompanhado de Luiz Felipe de Azevedo montando Ralph, Álvaro de Miranda Neto montando Aspen, e André Johannpeter montando Calei, mesmos cavaleiros que trouxeram o bronze em 1996, mas com cavalos diferentes. Mas tal prêmio não apagou a decepção da final do Prêmio das Nações individual, onde Rodrigo, transformado em última esperança de ouro para o Brasil, foi desclassificado após Baloubet du Rouet se recusar a pular um obstáculo três vezes. Kuerten, só para registrar, foi eliminado pelo russo Yevgeny Kafelnikov, que acabaria ficando com o ouro, por 2 sets a 0 nas quartas de final.

Outra decepção veio do vôlei de praia, onde a dupla número um do mundo, Adriana Behar e Shelda Bede, tentava repetir a conquista de Jaqueline Silva e Sandra Pires quatro anos antes. Adriana e Shelda chegaram à final favoritíssimas, mas acabaram surpreendidas pelas australianas Natalie Cook e Kerri Pottharst, que souberam se aproveitar do apoio da torcida. No pódio, a dupla brasileira quase chorou, como se não acreditando ter perdido a chance de medalha. Menos mal, Sandra Pires e Adriana Samuel conseguiram um bronze, garantindo dois lugares para o Brasil no pódio pela segunda vez seguida, só que um degrau abaixo. No masculino, José Marco Melo e Ricardo Santos também conseguiram uma prata, perdendo na final para os favoritos norte-americanos Dain Blanton e Eric Fonoimoana.

O futebol masculino também fez feio, muito feio. O técnico Vanderlei Luxemburgo decidiu abrir mão dos três jogadores acima dos 23 anos, e apostar na categoria de jovens talentos como Ronaldinho Gaúcho e Alex. Infelizmente, o Brasil decepcionou, vencendo a Eslováquia por 3 a 1 na estréia, mas perdendo para a África do Sul pelo mesmo placar no jogo seguinte. Em seguida, derrotou o Japão por 1 a 0, mas acabou derrotado nas quartas de final por Camarões, futuro medalhista de ouro, por 2 a 1, mais uma vez no gol de ouro, após o tempo normal terminar empatado em 1 a 1, isso porque Ronaldinho marcou um gol aos 45 do segundo tempo. O futebol feminino teve uma campanha um pouco melhor, derrotando a Suécia por 2 a 0, perdendo da Alemanha por 2 a 1, derrotando a Austrália pelo mesmo placar, e então perdendo nas semifinais para os Estados Unidos por 1 a 0, e encerrando sua participação em quarto lugar após perder novamente para a Alemanha, desta vez por 2 a 0.

O basquete masculino sequer conseguiu se classificar para os Jogos. O feminino, apesar de não contar mais com Hortência, Paula e Marta, fez bonito, e conseguiu uma medalha de bronze, após perder nas semifinais para a Austrália e derrotar a Coréia do Sul na disputa da medalha. Um bronze também foi a medalha trazida pelo vôlei feminino, que mais uma vez perdeu para Cuba nas semifinais, mas desta vez derrotou os Estados Unidos na disputa da medalha. O vôlei masculino por um momento aparentou que iria conseguir uma bela classificação, perdendo apenas um set, para a Espanha, na primeira fase, mas acabou surpreendentemente derrotado pela Argentina por 3 sets a 1 nas quartas de final, terminando o torneio em sexto lugar.

Na natação, apenas Rogério Romero, nos 200 metros peito, e a equipe do revezamento 4 x 100 metros livre, composta de Fernando Scherer, Edvaldo Valério, Carlos Jayme e Gustavo Borges, conseguiram chegar às finais. Rogério terminou em sétimo, mas o revezamento conseguiu uma excelente medalha de bronze, ficando atrás apenas da Austrália e dos Estados Unidos. O revezamento 4 x 100 metros do atletismo, formado por Claudinei Quirino, Vicente Lima, Edson Ribeiro e André Domingos, também conseguiu um resultado fantástico, medalha de prata, menos de 30 centésimos de segundo atrás dos Estados Unidos. Claudinei ainda foi sexto lugar nos 200 metros, Sanderlei Parrela terminou em quarto os 400 metros, e Eronildes Araújo foi quinto nos 400 metros com barreiras.

As demais medalhas do Brasil vieram da vela, onde Torben Grael e Marcelo Ferreira conseguiram um bronze na classe Star, e Robert Scheidt, outro cotado para o ouro, terminou com a prata da classe Laser, dois pontos atrás de seu maior rival, o britânico Ben Ainsle; e do judô, onde Tiago Camilo, na categoria leves, e Carlos Honorato, na categoria médios, foram medalhistas de prata, perdendo na final, respectivamente, para o italiano Giuseppe Maddaloni e para o holandês Mark Huizinga.

Aparentemente, o maior carrasco do Brasil nos Jogos foi justamente a Austrália dona da casa, e o maior destaque da Austrália veio das piscinas: o nadador Ian Thorpe, apelidado Torpedo, apenas 17 anos, três ouros e duas pratas. Thorpe, que nadava com uma curiosa roupa que cobria todo o seu corpo, à exceção de cabeça, mãos e pés, subiu ao lugar mais alto do pódio nos 400 metros livre, onde quebrou o recorde mundial, nos revezamentos 4 x 100 metros livre e 4 x 200 metros livre, e chegou em segundo lugar nos 200 metros livre e no revezamento 4 x 100 metros medley. A moderna piscina de Sydney, aliás, parecia ter sido moldada para grandes proezas, e viu muitas delas durante a competição: nos 50 metros livre, por exemplo, a prova mais rápida do esporte, ocorreu um inédito empate na primeira colocação entre os norte-americanos Gary Hall, Jr. e Anthony Ervin, que bateram na borda da piscina no exato mesmo centésimo de segundo. Outro norte-americano, Lenny Krayzelburg, venceu os 100 e os 200 metros costas, e ainda conseguiu um terceiro ouro no revezamento 4 x 100 metros medley. O holandês Pieter van den Hoogenband fez a festa nas distâncias curtas, ouro nos 100 e nos 200 metros livre, e bronze nos 50, atrás apenas dos campeões empatados. No nado de peito, o campeão foi o italiano Domenico Fioravanti, tanto nos 100 quanto nos 200 metros.

No feminino, a holandesa Inge de Bruijn venceu os 100 metros borboleta, os 100 e os 200 metros livre. Curiosamente, a norte-americana Dara Torres foi bronze nestas três provas, sendo que nos 200 metros livre empatou com sua compatriota Jenny Thompson, e a sueca Therese Alshammar conseguiu a prata nos 100 e nos 200 metros livre. Outras três nadadoras, a norte-americana Brooke Bennett, a romena Diana Mocanu e a ucraniana Yana Klochkova, saíram das piscinas com dois ouros no pescoço, nos 400 e 800 metros livre, 100 e 200 metros costas e 200 e 400 metros medley, respectivamente, sendo que Klochkova ainda conseguiu uma prata nos 800 metros livre. E os Estados Unidos fizeram a festa dos revezamentos, conseguindo o ouro no 4 x 100 livre, 4 x 200 livre e 4 x 100 medley.

No atletismo, Michael Johnson, que encerrou sua carreira após os Jogos, ganhou dois novos ouros, nos 400 metros e no revezamento 4 x 400 metros. Haile Gebre Selassie, usando a sua já conhecida tática, repetiu o ouro dos 10.000 metros, deixando o queniano Paul Tergat mais uma vez com a prata. Nos 100 metros, o norte-americano recordista mundial Maurice Greene ficou com o ouro, seguido de Ato Boldon, de Trinidad e Tobago, e do surpreendente Obadele Thompson, representando Barbados. Também merece destaque o polonês Robert Korzeniowski, primeiro homem a vencer a marcha de 20 km e a de 50 km em uma mesma edição dos Jogos - e ainda por cima a dos 50 km foi sua segunda medalha de ouro no evento, já que ele também a havia vencido em 1996. No feminino, a moçambicana Maria Mutola se redimiu do erro de 1996 ao vencer o ouro dos 800 metros, e Susanthika Jayasinghe entrou para a história do Sri Lanka ao se tornar a primeira mulher daquele país a ganhar uma medalha, um bronze nos 200 metros.

Apesar de toda a popularidade de Cathy Freeman, a musa do atletismo foi a norte-americana Marion Jones, filha de um afro-americano com uma belizenha. Aos 25 anos, Jones declarara antes dos Jogos que seu objetivo era sair de Sydney com cinco ouros no pescoço. Conseguiu três, os dos 100 metros, 200 metros, e revezamento 4 x 400 metros; suas outras duas medalhas acabaram sendo de bronze, no salto em distância e no revezamento 4 x 100 metros, onde a equipe norte-americana seria surpreendida pelas Bahamas, que ficaram com o ouro, e pela Jamaica, que levou a prata. Depois dos Jogos, Jones começou a ser bombardeada com acusações de doping, e não conseguiu mais repetir seus bons resultados; em 2004 ela só competiria no salto em distância, onde terminou em quinto, e no revezamento 4 x 100 metros, onde um erro seu na passagem do bastão causaria a desclassificação da equipe dos Estados Unidos. Alguns anos depois, Jones acabaria de fato flagrada em um exame anti-doping, admitiria ter competido em Sydney dopada, e perderia todas as suas medalhas olímpicas.

No nado sincronizado, a Rússia levou o ouro e o Japão a prata tanto na categoria duetos quanto nas equipes. No tênis feminino, a norte-americana Venus Williams levou as duas medalhas de ouro, a das duplas em parceria com sua irmã Serena. No basquete, o Dream Team norte-americano conseguiu o ouro mais uma vez, mas mais uma vez com uma campanha invicta e irregular ao mesmo tempo, cujo "ponto baixo" foi a semifinal diante da Lituânia, onde os norte-americanos venceram apenas por 85 a 83, sendo que os lituanos arremessaram uma bola de três pontos nos últimos segundos que quase tirou o Dream Team da final. Em compensação, o feminino foi campeão sem sustos, e os Estados Unidos também conseguiram as medalhas de ouro do beisebol e do softbol, esta última de forma sensacional, perdendo para China, Austrália e Japão na primeira fase, mas vencendo os três nas quartas de final, semifinais e final, respectivamente.

Muitos esportes fizeram sua estréia em Sydney, como o taekwondo, a ginástica de trampolim, o triatlo, os saltos sincronizados dos saltos ornamentais, e as modalidades femininas do levantamento de peso e do pentatlo moderno. Em dois deles tivemos medalhas inéditas: a primeira medalha do Vietnã, com Hieu Ngan Tran na categoria médios feminina do taekwondo, e o primeiro ouro da Colômbia, no levantamento de peso, com Maria Isabel Urrutia na categoria pesados. Os saltos ornamentais foram dominados pela China, com Fu Mingxia ganhando seu quarto ouro, segundo no trampolim, e ainda garantindo uma prata no trampolim sincronizado, junto com Guo Jingjing, medalhista de prata também no individual; e Li Na foi prata na plataforma e ouro na plataforma sincronizada, em dupla com Sang Xue. No masculino, Xiong Ni foi ouro no trampolim e no trampolim sincronizado, junto com Xiao Hailiang; na plataforma, Tian Lang foi ouro e Hu Jia prata, e os dois juntos foram prata na plataforma sincronizada.

Dois atletas entraram para a história de seus esportes em Sydney. O primeiro foi o britânico Steve Redgrave, que conseguiu seu quinto ouro seguido no remo: em 1984 ele venceu no coxed four; em 1988, 1992 e 1996 no coxless pairs, e em 2000 no coxless four, além de ter ganho um bronze em 1988 no coxed pairs. Redgrave é o único atleta do remo a conseguir tal proeza, e é considerado o maior atleta olímpico da história da Grã-Bretanha. Mas proeza ainda maior conseguiu a alemã Birgit Fischer, que na canoagem ganhou seu sétimo ouro, sendo o sexto seguido, sendo que o primeiro ela havia ganhado em 1980, e ainda tendo três pratas no currículo. Fischer foi ouro no caiaque individual 500 metros em 1980 e 1992, no caiaque duplo 500 metros em 1988 e 2000, no caiaque quádruplo 500 metros em 1988, 1996 e 2000, e prata no caiaque individual 500 metros em 1988, no caiaque quádruplo 500 metros em 1992, e no caiaque duplo 500 metros em 1996. Fischer é a única atleta da história a ganhar duas medalhas de ouro com vinte anos de diferença entre elas, continua competindo, e em 2004 aumentou ainda mais seu plantel, ganhando seu oitavo ouro no caiaque quádruplo 500 metros, e sua quarta prata no caiaque duplo 500 metros.

Os Jogos terminaram com uma cerimônia de muita música, incluindo apresentações de Midnight Oil, Kylie Minogue e Savage Garden, após a qual o presidente do COI, Juan Antonio Samaranch, declarou terem sido os Jogos de Sydney os melhores de todos os tempos. Seriam, porém, os últimos sob sua presidência. A partir de então, o COI seria presidido pelo belga Jacques Rogge. A principal preocupação de Rogge é com o gigantismo dos Jogos, e para contê-lo, ele tomou duas medidas: limitar o número de atletas a 10.000, e remover do programa os esportes que não tenham público. Eu, particularmente, acho que Olimpíadas tinham de ter todos os esportes. Mas eu não mando nada.

Série Olimpíadas

Nagano 1998
Sydney 2000

Ler mais

sábado, 12 de maio de 2007

Escrito por em 12.5.07 com 0 comentários

Jewel

Semana passada saiu o CD novo da Tori Amos. Mas este post não tem nada a ver com Tori Amos. Ou quase. Porque, quando eu fui tentar comprá-lo, crente de que o lançamento seria no mesmo dia para o mundo todo - o que, aparentemente, não era verdade, já que não achei em lugar nenhum, só importado - acabei encontrando um CD novo da Jewel. Eu gosto bastante de Jewel, mas o último CD dela eu havia "pulado", por ter achado muito diferente dos anteriores. Após me certificar de que este era mais no estilo que me fez gostar dela, decidi aproveitar e comprá-lo. Ainda bem, porque é um bom CD.

Eu descobri Jewel meio sem querer, em 1997, graças ao meu primo. Ele sabia que eu gostava de cantoras, então perguntou se eu já tinha visto um clip de uma tal de Jewel, segundo ele "uma loirinha bonitinha", e que tinha uma voz muito bonita. Na época eu já não assistia Mtv regularmente, então nunca tinha visto a cara dessa moça. Atiçado pela dica, porém, decidi procurar algum clip na programação. Acabei encontrando o da música Foolish Games. Neste clip ela não está tão bonitinha, e a letra é triste pra dedéu, mas realmente ela cantava muito bem. Só muito tempo depois, acho que no Multishow, eu consegui ver o clip ao qual meu primo se referia, You Were Meant for Me. No Natal daquele ano, fui comprar um CD da Jewel para dar de presente a este primo, e acabei comprando dois. Um, evidentemente, era para mim. Ao longo dos anos, também comprei os três CDs seguintes dela (na verdade, um eu ganhei de presente), mas não o anterior a este que saiu agora. Talvez por isso ela tenha ficado meio esquecida na hora de eu escolher assunto para os meus posts. Mas antes tarde do que nunca; apesar de não ser um fã ardoroso de Jewel, eu adoro a voz dela, e isso já é um bom motivo para incluí-la entre as minhas cantoras preferidas.

Jewel (que significa "jóia" em inglês) nasceu Jewel Kilcher, no dia 23 de maio de 1974, na cidade de Payson, Utah, Estados Unidos, filha de Lenedra Carroll e do cantor Atz Kilcher, que por sua vez era filho de imigrantes suíços. Seu nome foi uma homenagem a seu avô paterno, que se chamava Yule (assim como Jewel, pronunciado "júol").

Ainda pequena, ela se mudou do Utah para o Alasca, para a cidade de Anchorage, com seus pais e seus dois irmãos, Shane e Atz Lee. Sua mãe sempre a estimulou, assim como a seus irmãos, a escrever poemas, cantar e fazer artesanato, além de ensiná-los a respeitar a natureza. Jewel demonstrou tanto talento para o canto que, já aos seis anos, seu pai decidiu se apresentar com ela em shows para turistas. Nos intervalos destes shows, seu pai a ensinava o yodel, uma técnica de canto complexa, tradicional da Suíça (e conhecida pelo grito "ioleí-íí"), que aprimoraria ainda mais seus talentos vocais.

Quando Jewel tinha oito anos de idade, seus pais se divorciaram, e ela foi morar com o pai na pequenina cidade de Homer, onde ele tinha uma casa rústica sem banheiro, onde era necessário ir até uma "casinha" do lado de fora para fazer suas necessidades. Ela passava quase o ano inteiro em Homer, escrevendo um diário, cavalgando em seu cavalo Clearwater, e cantando com seu pai em bares e tavernas, e no inverno ia para Anchorage, ficar com sua mãe. Mas ela gostava mais do verão, quando Homer ficava cheia de turistas e ela conhecia gente do mundo todo, aprendendo sobre diferentes idiomas, culturas e religiões.

Aos 15 anos, Jewel teve sua primeira grande oportunidade, ao gravar Over the Rainbow para um popular programa de rádio do Alasca. Animada com a performance, ela decidiu aprender a tocar violão, e passou a se apresentar cantando músicas de sua própria autoria. Ao chegar a hora de ingressar no high school (o equivalente ao nosso Ensino Médio), Jewel optou pela Interlochen Fine Arts Academy, um colégio dedicado ao estudo das artes na cidade de Interlochen, Michigan, onde se matriculou em canto. Durante o curso, ela adicionou mais um estilo ao seu repertório ao cantar árias de óperas de Monteverdi e Bononcini. Jewel também conseguiu convencer a Academia a deixá-la participar de uma peça semestral do curso de artes dramáticas, algo que na época não era permitido para alunos de outros cursos. O teste que fez foi tão bom, porém, que ela acabou ficando com o papel principal.

Em 1992, ao se formar na Academia, Jewel se mudou para San Diego, Califórnia, para morar com sua mãe e Atz Lee, que haviam se mudado para lá há algum tempo. Para ajudar sua mãe ela passou a trabalhar como garçonete, mas o sonho de sua vida era ser cantora. Como sua mãe sempre acreditou que devemos perseguir nossos sonhos até alcançá-los, permitiu que ela saísse de casa para morar em uma van, para diminuir os custos da família, o que faria com que Jewel tivesse mais tempo para compor suas canções e tentar a sorte cantando em bares da cidade. Durante estas apresentações, Jewel conheceu o cantor Steve Poltz, vocalista da banda The Rugburns, que se apresentava em dois locais onde Jewel também costumava cantar. Poltz apresentou Jewel a diversos outros cantores, e a colocou no circuito de house jams, apresentações onde vários cantores se revezam no palco, compartilham suas músicas uns com os outros e colaboram com as composições dos demais. Nesta época, Jewel compôs com Poltz a música You Were Meant for Me, que mais tarde se tornaria seu primeiro sucesso; para retribuir, ela convidou Poltz para gravar o clip com ela, no papel de seu namorado.

Apesar de ter adorado a época das house jams, que além de tudo foi muito importante para sua formação, Jewel ainda tinha um sério problema em mãos: o que ganhava com as apresentações não era suficiente para se sustentar, algumas vezes nem para fazer três refeições por dia. Sua sorte mudaria bem repentinamente, porém. Em 1993, Jewel conseguiu um contrato para tocar todas as quintas-feiras na InterChange Coffee House, em Pacific Beach. Seu show durava quatro horas, durante as quais ela cantava algumas de suas já mais de cem canções compostas, e contava histórias curiosas de sua vida nos intervalos. O que Jewel ganhava ainda era uma miséria, mas durante uma destas apresentações ela conheceu Flea, baixista da banda Red Hot Chili Peppers, que ficou impressionado com sua bela voz. Após a apresentação, Flea foi com Jewel até a van onde ela morava, onde ela lhe mostrou mais algumas de suas canções. Flea declararia a amigos que sua voz era linda e de tirar o fôlego.

Não se sabe se por influência de Flea, depois do episódio as apresentações de Jewel no InterChange começaram a chamar a atenção de grandes executivos da indústria fonográfica. Limusines estacionavam em frente ao local, enquanto executivos em seus ternos assistiam ao show. Um dia, alguns deles a convidaram para ir até Nova Iorque, negociar um contrato. Segundo Jewel, ela estava muito bem comendo pasta de amendoim em sua van, então uma limusine chegava, a levava ao aeroporto, ela participava de um chiquérrimo jantar em Nova Iorque, voltava ao aeroporto, e a limusine a deixava em sua van novamente. Após alguns destes jantares surreais, ela finalmente assinou um contrato com a Atlantic Records para gravar seu primeiro disco. Com o dinheiro que recebeu adiantado pelo contrato, ela alugou uma casa para morar com sua mãe e irmão, deixando a van no passado para sempre. E comprou um violão novo, pois o seu já estava meio velhinho.

O primeiro disco de Jewel, Pieces of You, seria lançado em 1995, dois anos após a assinatura do contrato. O álbum foi produzido por Ben Keith, que já havia trabalhado com Neil Young e James Taylor, e gravado no estúdio de Young, em Woodside, Califórnia. A banda de Young, The Stray Gators, tocou com Jewel em cinco das músicas. Seu amigo Potz também participou de várias faixas. Para capturar o clima das apresentações ao vivo que deixaram Jewel famosa, a Atlantic montou um miniestúdio na InterChange Coffee House, e lá foram gravadas três das faixas do disco.

Logo após o lançamento do disco, Jewel saiu em turnê pelos Estados Unidos. As vendas começaram baixas e o disco parecia que iria passar despercebido, mas aos poucos o sucesso começou a chegar, e Pieces of You se tornou um fenômeno: o álbum vendeu mais de 12 milhões de cópias só nos Estados Unidos, o suficiente para ganhar um Disco de Diamante, ou doze Discos de Platina, além de permanecer por dois anos seguidos na parada da Billboard, onde alcançou o quarto lugar. Suas três músicas de trabalho, Who Will Save Your Soul, You Were Meant for Me e Foolish Games, entraram no Top 10 dos Estados Unidos, sendo que as duas últimas alcançaram o primeiro lugar, ficando lá por nove e três semanas respectivamente. Pieces of You entrou para o Top 5 dos mais bem sucedidos discos lançados por cantoras em todos os tempos, e rendeu a Jewel um American Music Award de melhor artista novo, além de um MTV Video Music Awards por You Were Meant for Me, e duas indicações ao Grammy, de melhor performance vocal feminina e melhor artista novo.

Em três anos, Jewel ficou tão famosa que foi escolhida para cantar o hino nacional norte-americano antes do Super Bowl XXXII - a final do campeonato da NFL de futebol americano, considerada o evento esportivo mais importante dos Estados Unidos, e um dos mais assistidos do mundo - em janeiro de 1998. Aquele ano seria dedicado à gravação de seu novo álbum Spirit, que seria lançado em novembro. A expectativa dos fãs era tanta que Spirit já foi lançado com um disco de platina garantido. Produzido por Patrick Leonard, que já havia produzido discos de Madonna, Spirit alcançou o terceiro lugar na parada da Billboard, mas vendeu apenas um terço do que conseguiu seu antecessor, quatro milhões de cópias. O disco teve cinco músicas de trabalho, Hands, Down So Long, Jupiter (Swallow the Moon), What's Simple is True e Life Uncommon - esta última lançada nos Estados Unidos no formato single com vendas totalmente revertidas para a caridade - mas apenas Hands e Down So Long entraram no Top 10, chegando á segunda e quinta posições respectivamente.

Pode-se dizer que Spirit não foi um álbum bem sucedido, mas o prestígio de Jewel continuava em alta. Ainda em 1998 ela lançou um livro de poesias, A Night Without Armor, que vendeu um milhão de cópias e entrou na lista dos best sellers do The New York Times, apesar de ter recebido algumas críticas desfavoráveis. No ano seguinte ela faria sua estréia no cinema, no papel de Sue Lee no filme sobre a Guerra Civil norte-americana Cavalgada com o Diabo, dirigido por Ang Lee, onde contracenou com Tobey Maguire e Jonathan Rhys-Meyers.

Também em 1999 ela, sua mãe e seu irmão Shane fundaram uma organização humanitária com fins não-lucrativos, a Higher Ground for Humanity, destinada a promover a educação e o desenvolvimento sustentável, além de contar com um ambicioso projeto de acesso à água potável em nações pobres, chamado de Clearwater Project. O Clearwater Project atua na América Latina, Índia, Bangladesh e África, perfurando poços e construindo sistemas de filtragem, além de estimular o uso de bombas movidas por energia solar. Parte de tudo o que Jewel ganha vai para a organização, que também recebe doações de pessoas do mundo todo.

Ainda em 1999, Jewel lançou um álbum totalmente dedicado a canções de natal, chamado Joy: A Holiday Collection. O disco contém canções tradicionais de natal, e algumas de clima natalino compostas pela própria Jewel. O álbum vendeu um milhão de cópias, desempenho considerado bom para um álbum temático natalino. Em 2000, Jewel lançou seu segundo livro, Chasing Down the Dawn, que conta a infância da cantora no Alasca, reflete sobre o tempo que ela passou aprendendo seu ofício, e narra as dificulades do início de sua carreira, tudo permeado por trechos dos diários que ela sempre escreveu. Jewel iria lançar um novo livro de poemas, intitulado Love Poems, mas desistiu porque muitos dos poemas faziam referências íntimas ao seu relacionamento com seu ex-namorado Ty Murray, e, segundo ela, a mãe de Murray poderia não gostar de ler.

O próximo álbum de Jewel, This Way, seria lançado em 2001, e muito aclamado pela crítica. Apesar disso, vendeu pouco, apenas um milhão e meio de cópias, e estacionou no nono lugar da Billboard. Sua primeira música de trabalho, Standing Still, foi tocada nas rádios à exaustão, e alcançou o quarto lugar no Top 10. A ela se seguiram Break Me, This Way e Serve the Ego, esta última alcançando o primeiro lugar, mas na parada de músicas dance e eletrônicas.

Talvez por isso, Jewel decidiu mudar de estilo em seu disco seguinte, 0304, lançado em 2003. Segundo a cantora, seu intuito era fazer uma versão moderna dos álbuns de big bands, misturando música dance, urbana e folk. Muitos fãs gostaram do álbum, considerando-o criativo e inovador, mas muitos outros, como eu, o acharam diferente demais dos anteriores, e não se interessaram por ele. Talvez por isso, 0304 tenha sido um álbum de contradições: só vendeu um milhão de cópias, mas alcançou o segundo lugar na Billboard, o melhor desempenho dentre todos os trabalhos de Jewel. Sua primeira música de trabalho, Intuition, chegou ao quinto lugar no Top 10, e ficou no primeiro lugar da parada de dance e eletrônica por sete semanas. A seguinte, Stand, ficou no primeiro lugar da dance e eletrônica por três semanas, mas não entrou no Top 10. Este desempenho fez com que a Atlantic decidisse lançar apenas mais uma música de trabalho, 2 Become 1, mesmo sob protestos dos fãs, que queriam ver mais faixas tocando nas rádios e ganhando clips.

O desempenho de 0304 foi considerado ruim, e por isso foi criada pouca expectativa para o álbum seguinte, Goodbye Alice in Wonderland, lançado em 2006. O disco retoma o estilo dos primeiros trabalhos de Jewel, e tem como músicas de trabalho Again and Again, Good Day e Stephenville, TX. Nenhuma das três entrou no Top 10, e até agora Goodbye Alice in Wonderland só alcançou o oitavo lugar na Billboard, e só vendeu 330 mil cópias, sendo o único álbum de Jewel a não ganhar nem disco de ouro (para o qual precisaria de 500 mil). O desempenho do álbum, considerado péssimo, fez com que a Atlantic não se interessasse em renovar seu contrato com Jewel, deixando-a efetivamente sem gravadora a partir deste ano.

Mas ela parece não se abalar. Jewel continua fazendo shows e aparecendo em vários programas de TV, além de se engajar em diversas causas sociais, como a ONE, dedicada a erradicar a pobreza no mundo, e uma campanha para recolher assinaturas para mudar a lei que regula a mastectomia causada por câncer de mama nos Estados Unidos - atualmente, as mulheres podem ser mandadas para casa logo após a cirurgia, mesmo que não estejam em condições de deixar o hospital. Além disso, ela já está trabalhando em seu próximo álbum, produzido por ela, Poltz e Wynonna Judd, que será lançado de forma independente se ela não conseguir uma nova gravadora. Assim como 0304, este será um álbum diferente dos demais, desta vez com canções no estilo country, muitas delas já incluídas no repertório dos shows que Jewel tem feito recentemente. O "álbum country de Jewel", como está sendo conhecido, deve sair no final deste ano ou no início de 2008.

Na época dos downloads, nem sempre vendas baixas significam disco ruim, mesmo que as gravadoras pensem o contrário. E uma cantora de enorme talento como Jewel tem tudo para voltar ao topo depois deste incidente desagradável. Afinal, para quem morou em uma van e almoçava pasta de amendoim, ficar sem gravadora não é o fim do mundo.
Ler mais

sábado, 5 de maio de 2007

Escrito por em 5.5.07 com 0 comentários

Olimpíadas (XXI)

E adivinhem só: hoje é dia de mais um post sobre as Olimpíadas!

Lillehammer 1994


Em sua reunião de 1986, o COI decidiu que os Jogos de Inverno não ocorreriam mais no mesmo ano que as Olimpíadas de Verão, mas sim nos anos pares intercalados, ou seja, em um ano par teríamos Olimpíadas de Verão, no ano par seguinte teríamos Olimpíadas de Inverno. Com esta decisão, pela primeira e única vez na história, duas Olimpíadas de Inverno ocorreriam em um intervalo de apenas dois anos. Para sediar estes Jogos históricos, se candidataram cinco cidades: Anchorage, no Alasca, Estados Unidos; Sófia, capital da Bulgária; uma candidatura combinada das cidades suecas de Östersund e Åre; e a pequena Lillehammer, na Noruega, que acabou levando a melhor e sendo escolhida como sede dos Jogos de 1994, em uma reunião do COI pouco antes do início dos Jogos de Seul, em 1988.

Graças ao amor dos noruegueses pelos esportes de inverno, e à já conhecida organização dos povos nórdicos - o comitê organizador chegou a mover uma rampa de saltos de esqui alguns metros para o norte para atender a um pedido da CBS, que televisionaria os Jogos - os Jogos de 1994 acabaram sendo um grande sucesso. Graças ao nível técnico dos atletas que lá competiram, eles acabaram também sendo considerados como a melhor Olimpíada de Inverno de todos os tempos, e como um dos eventos esportivos mais memoráveis do Século XX. Estes elogios se tornam mais impressionantes quando se percebe que Lillehammer é uma cidade bem pequenininha, com 477 km2 e pouco mais de 25 mil habitantes, e que os Jogos de Inverno já começavam a assumir proporções gigantescas, com milhares de atletas, jornalistas credenciados, profissionais do esporte e um imenso público - mais de um milhão e meio de espectadores - entulhando a cidade durante os dezesseis dias do evento. De fato, Lillehammer foi a última cidade pequena a sediar uma Olimpíada de Inverno: preocupado com as proporções do evento, dali em diante o COI só escolheria cidades grandes e bem estruturadas para sediá-lo.

Os Jogos de Lillehammer foram realizados entre 12 e 27 de fevereiro, e contaram com a participação de 1.737 atletas, sendo 522 mulheres, que competiram em 61 provas de 12 esportes: biatlo, bobsleding, combinado nórdico, esqui alpino, esqui cross country, esqui estilo livre, hóquei no gelo, luge, patinação artística no gelo, patinação no gelo em velocidade, patinação no gelo em velocidade em pista curta e saltos com esqui (clique aqui para ver todas as provas do programa). 67 nações foram representadas, incluindo, pela primeira vez em uma Olimpíada de Inverno, delegações da Rússia, Ucrânia, Cazaquistão, Belarus, Uzbequistão, Armênia, Quirguistão, Moldova, República Tcheca, Eslováquia, Israel, e até da Bósnia-Herzegovina, que enviou uma pequena delegação mesmo em plena Guerra da Bósnia, e da África do Sul, ausente desde 1960 por conta do apartheid. A presença de tantas bandeiras coloriu ainda mais a emocionante Cerimônia de Abertura, que teve um discurso do Presidente do COI, Juan Antonio Samaranch, que pediu aos envolvidos na Guerra da Bósnia que interrompessem o conflito armado e resolvessem seus problemas de forma diplomática. A Cerimônia de Abertura, aliás, teve não uma, mas duas tochas olímpicas, a primeira acesa em Olímpia, na Grécia, e a segunda acesa na lareira da casa onde nasceu Sondre Nordheim, o pioneiro do esqui esportivo, na cidade de Morgedal, mesmo local onde foi acesa a primeira tocha olímpica da história dos Jogos de Inverno. Ambas as chamas foram usadas para acender uma só tocha em Oslo, capital da Noruega, tocha esta que foi levada até Lillehammer, onde entrou no estádio Lysgårdsbakken, durante a Cerimônia, nas mãos do esquiador Stein Gruben, que não entrou andando, mas com um salto de esqui. Para completar, a pira olímpica foi acesa pelo Príncipe Håkon da Noruega, filho do Rei Harald V e neto de Olav V, ambos ex-atletas olímpicos. Os mascotes de 1994 eram duas crianças norueguesas vestidas com roupas típicas, um menino e uma menina. A menina se chamava Kristin, e o menino, talvez em homenagem ao Príncipe, se chamava Håkon.

O evento mais emocionante dos Jogos de Lillehammer foi o das simples femininas da patinação artística. Grande parte desta emoção, porém, veio de um fato que ocorreu um mês antes dos Jogos, quando a patinadora norte-americana Nancy Kerrigan, 24 anos, medalhista de bronze em 1992 e uma das favoritas ao ouro de 1994, levou uma paulada no joelho. Tudo poderia ter sido um acidente normal causado por um maluco qualquer, se a polícia não tivesse descoberto que quem contratou o tal maluco foi o ex-marido de sua principal rival, a também norte-americana Tonya Harding. O episódio tomou as capas dos principais jornais e revistas dos Estados Unidos, que imaginaram um complô para que Kerrigan não pudesse competir em Lillehammer, abrindo caminho para um ouro de Harding. Para a tristeza de sua rival, porém, Kerrigan se recuperou, competiu, e ganhou uma medalha de prata, enquanto Harding terminou em oitavo lugar, e foi banida do esporte após os Jogos. Kerrigan também se aposentaria após os Jogos, em parte devido a uma declaração infeliz - ela teria saído de Lillehammer logo após a cerimônia de premiação para participar de uma parada na Disneylândia, seu principal patrocinador, onde foi pega declarando que aquela teria sido a "coisa mais imbecil que já fez na vida". Mesmo com esta declaração polêmica e com o "atentado", porém, Kerrigan acabou não sendo a principal personagem da prova. Este papel acabou cabendo à medalhista de ouro, a ucraniana Oksana Baiul.

Oksana nasceu em 1977 na pequena cidade de Dniepropetrovsk, na época na União Soviética. Sua infância foi muito difícil, com seus pais se separando quando ela tinha apenas 2 anos de idade, e sua mãe falecendo quando Oksana tinha 13. Seu talento para a patinação impressionava a todos, e ela acabou se tornando campeã mundial aos 15 anos, em 1993, já competindo pela Ucrânia. Como era muito jovem e pouco conhecida fora da ex-URSS, poucos apostaram nela nas Olimpíadas, ainda mais após uma colisão com a alemã Tanja Szewczenko durante um treinamento, que a deixou com terríveis dores nas costas, e fez com que ela tivesse de tomar duas injeções de analgésicos. No dia da final, porém, Oksana patinou perfeitamente, conseguiu notas altíssimas, ganhou a medalha de ouro, e imediatamente se tornou uma das maiores promessas do esporte.

Infelizmente, uma série de acontecimentos fizeram com que Oksana, apesar de famosíssima, jamais conseguisse repetir os bons desempenhos de 1993 e 1994, quando, além destes dois títulos, ainda foi vice-campeã européia duas vezes. Ainda em 1994, ela teve de se submeter a uma artroscopia no joelho, e foi aconselhada pelos médicos a não retornar ao gelo em menos de dois meses. Sua treinadora, empresária e mãe substituta, Galina Zmievskaya, pensava diferente, e convenceu Oksana a voltar a patinar em duas semanas, e a competir em seis. O joelho operado jamais voltou a corresponder corretamente, causando dificuldades em alguns saltos. Além disso, conforme Oksana deixava de ser uma menina e se tornava uma mulher, seu corpo também não colaborava com os movimentos que ela estava acostumada a fazer, obrigando-a a mudar muito de seu repertório. Em 1996, Oksana se mudou para os Estados Unidos e acabou se afastando das competições oficiais por um tempo, passando a se apresentar em shows como o Broadway on Ice.

Tantos problemas acabaram levando Oksana ao alcoolismo. Em 1997, ela foi presa após se envolver em um acidente ao dirigir bêbada. Após a prisão, ela entrou em um programa de reabilitação, e, felizmente, sua vida começou a mudar. Oksana se afastou de Zmievskaya, e se tornou uma espécie de "celebridade profissional", sendo convidada para ser um dos jurados no programa de talentos Master of Champions da ABC, e participando de vários torneios de exibição. Atualmente, Oksana pode ser vista no musical Cold as Ice, que estreou este mês em Nova Iorque. Para muitos, Oksana acabou se tornando um exemplo de como a vida de um adolescente extremamente talentoso para o esporte pode tomar o rumo errado se ele não for bem orientado.

Voltando aos destaques de 1994, vamos da patinação artística para a patinação em velocidade. Na pista longa, o maior destaque foi o norueguês Johann Olaf Koss, que se tornou um herói nacional ao vencer as provas dos 1.500, 5.000 e 10.000 metros, conseguindo recordes mundiais em todas as três. Mas a prova mais emocionante foi a dos 1.000 metros, onde o norte-americano Dan Jansen, favoritíssimo ao ouro dos 500 e dos 1.000 metros tanto em 1988 quanto em 1992, mas que nem chegara perto do pódio em nenhuma das duas ocasiões, conseguiu finalmente uma medalha, e de ouro. Jansen já achava que iria encerrar sua carreira sem medalhas olímpicas, pois havia terminado em oitavo nos 500 metros. Nos 1.000 metros, porém, Jansen fez uma corrida quase impecável, onde imprimiu ritmo de recorde mundial desde o início. Um escorregão no fim assustou a platéia, mas Jansen conseguiu se reequilibrar e cruzar a meta em primeiro, quebrando o recorde mundial.

No feminino, o maior destaque foi a norte-americana Bonnie Blair, participando de sua quarta Olimpíada, que se tornou a primeira mulher a vencer os 500 metros três vezes seguidas, e tanto os 500 quanto os 1.000 metros em duas Olimpíadas seguidas. Na pista curta, o domínio foi da Coréia do Sul, que ganhou quatro dos seis ouros possíveis, mais uma prata e um bronze. Foi também neste esporte que a Austrália conseguiu a primeira medalha de inverno de sua história, um bronze no revezamento 5.000 metros masculino.

No esqui alpino, o norte-americano Tommy Moe conseguiu ouro no downhill e prata no slalom super gigante; o alemão Markus Wesmeier foi ouro no slalom gigante e super gigante; o norueguês Kjetil André Aamodt foi prata no combinado e no downhill e bronze no slalom super gigante; e o italiano Alberto Tomba "La Bomba" conseguiu sua quinta medalha, uma prata no slalom. No feminino, a suíça Vreni Schneider conseguiu uma medalha de cada cor: bronze no slalom gigante, prata no combinado, e ouro no slalom.

No biatlo, a canadense Myriam Bédard conseguiu o ouro nas duas provas individuais, os 7,5 km e os 10 km. No esqui cross country, a italiana Manuela di Centa subiu ao pódio em todas as cinco provas, ouro nos 15 e 30 km, prata nos 5 km e nos 10 km perseguição, e bronze no revezamento 4 x 5 km. A russa Lyubov Yegorova chegou perto de repetir a façanha, ganhando ouro nos 5 km, nos 10 km perseguição e no revezamento e prata nos 15 km, mas chegou em quinto nos 30 km. No masculino, com a ajuda da torcida, o norueguês Bjørn Dæhlie conseguiu dois ouros, nos 10 km e nos 15 km perseguição, e duas pratas, nos 30 km e no revezamento 4 x 10 km. No revezamento, inclusive, a Noruega estava na frente até poucos metros do final, quando foi ultrapassada pela Itália, o que causou um imenso silêncio na enorme e animada platéia que já estava pronta para comemorar mais um ouro. Também na prova por equipes do combinado nórdico a Noruega acabou com a prata, mas desta vez quase cinco minutos atrás da equipe do Japão. O Japão já havia conseguido uma vitória por margem semelhante no campeonato mundial de 1993, o que levou a Federação Internacional de Esqui a mudar a prova para um revezamento 4 x 5 Km a partir do final dos Jogos.

Duas duplas de atletas conseguiram repetir as medalhas que ganharam em outras edições dos Jogos: no bobsleding, que passou a permitir dois trenós de cada país por prova, os suíços Gustav Weder e Donat Acklin se tornaram os primeiros atletas a ganhar o ouro no trenó de dois ocupantes em duas Olimpíadas seguidas; e na patinação artística, os russos Ekaterina Gordeeva e Sergei Grinkov repetiram o ouro nas duplas que haviam ganhado em 1988, ainda competindo pela União Soviética. Vale também registrar o bronze dos britânicos Jayne Torvill e Christopher Dean na dança no gelo. Torvill e Dean haviam sido medalhistas de ouro dez anos antes, em 1984, mas se profissionalizaram logo depois, o que os afastou das Olimpíadas até que o COI decidisse mudar a regra que impedia a participação de profissionais, em 1992.

O Brasil participou pela segunda vez de uma Olimpíada de Inverno com uma delegação bem pequenininha: um atleta. Isso mesmo, só um, Christian Lothar Munder, que disputou a prova de downhill do esqui alpino, e ainda por cima viajou pagando tudo do próprio bolso, acompanhado por seu pai e sua treinadora. Munder terminou em 50o e último lugar, já que, dos 55 inscritos, cinco não largaram. Pelo menos ele teve a honra de ser o porta-bandeira, tanto na cerimônia de abertura quanto na de encerramento.

Atlanta 1996


No final do Século XIX, o Barão de Coubertin decidiu recriar as Olimpíadas, um dos mais importantes eventos esportivos da Grécia Antiga. Para isso, ele criou o Comitê Olímpico Internacional, que, após não muita deliberação, escolheu Atenas, a capital grega, para sede da primeira edição dos Jogos Olímpicos modernos, que, como seus antepassados, ocorreriam a intervalos de quatro anos. A Grécia queria que todas as Olimpíadas fossem em Atenas, mas o COI achou melhor que a cada quatro anos eles fossem organizados em uma cidade diferente. Assim, os Jogos foram realizados em cidades diferentes, da Europa, América do Norte, Ásia e Oceania. Muitas destas cidades, como Paris e Los Angeles, tiveram a honra de sediar duas edições dos Jogos, mas Atenas só havia sediado a primeiríssima e nenhuma a mais. O centenário dos Jogos se aproximava, porém, e para muitos parecia certo que Atenas seria agraciada pelo COI, em sua reunião de 1990, com a oportunidade de, cem anos depois, organizar uma nova Olimpíada, a Olimpíada do Centenário, a consagração dos Jogos, que conseguiram passar por cem anos, por guerras e boicotes, e continuar existindo.

Infelizmente para a Grécia, muitas outras cidades não compartilhavam desta opinião, e apresentaram ao COI suas candidaturas para sediar a Olimpíada de 1996: Melbourne, na Austrália; Manchester, na Grã-Bretanha; Toronto, no Canadá; Atlanta, nos Estados Unidos; e até mesmo Belgrado, capital de uma Iugoslávia que se esfacelava, e dentro de poucos anos iria mergulhar na Guerra da Bósnia. De todas, foi Atlanta, sede de empresas como a Coca-Cola e a CNN, a que apresentou o melhor projeto: pela primeira vez, não seria usado na organização de uma Olimpíada um só centavo de dinheiro público; todo o montante necessário seria conseguido com patrocinadores, através de venda de cotas. Em contraposição ao bom planejamento da cidade norte-americana, a capital grega enfrentava muitos problemas, e poucos acreditavam que todas as obras necessárias estariam concluídas a tempo. O resultado foi que Atlanta ganhou o direito de sediar os Jogos por uma ampla margem de votos.

Apesar dos protestos de alguns pelo capitalismo ter vencido a tradição, a esperança era de que, com tanto dinheiro à disposição, fosse realizada a Olimpíada mais fantástica da História. Infelizmente, o que aconteceu foi uma das edições mais confusas e atrapalhadas dos Jogos, perdendo talvez apenas para a de 1904, por um acaso também realizada nos Estados Unidos.

Aparentemente, o povo e a prefeitura de Atlanta decidiram usar as Olimpíadas para tirar o pé da lama, e acabaram incorrendo no mesmo erro de St. Louis 92 anos antes: combinaram os Jogos com uma Feira. No caso de Atlanta, não era especificamente uma Feira, mas o Centennial Park, uma enorme praça no centro da cidade, onde os cidadãos comuns que contribuíram com doações em dinheiro para os Jogos puderam ver seus nomes escritos em lajotas espalhadas pelo chão. Lá, a AT&T construiu uma réplica da Vila Olímpica, a cerveja Budweiser um jardim suspenso, a relojoaria Swatch um gigantesco galpão de exposições, a Nike uma mastodôntica loja de artigos esportivos, e a Coca-Cola um galpão maior ainda, destinado exclusivamente à venda e troca de pins, uma verdadeira febre na época das Olimpíadas. Havia também um palco para shows, e centenas de milhares de camelôs, vendendo todo o tipo de produtos. Em outras palavras, quando não estavam assistindo a algum evento esportivo, era no Centennial Park que os moradores de Atlanta e os milhares de turistas iam se encontrar, passear, e gastar dinheiro. Muito dinheiro. Qualquer coisa, desde uma latinha de Coca-Cola até uma camiseta vagabunda, durante as Olimpíadas custou o dobro do preço do resto do ano. Os organizadores deixaram de lado o espírito esportivo, e quiseram transformar os Jogos em um evento comercial.

E, é claro, com tanto dinheiro e tantos turistas circulando, os Estados Unidos resolveram implantar o seu hoje famosíssimo esquema de segurança. Qualquer um que quisesse entrar em um lugar mais "protegido", como o prédio da CNN, por exemplo, era submetido a uma intensa revista. Graças à falta de treinamento dos voluntários, porém, esta revista durava um tempo absurdo, e servia praticamente de nada - muitos passavam horas examinando uma máquina fotográfica, mas se esqueciam de olhar dentro de um maço de cigarros. Com este esquema fajuto, é claro que alguma coisa iria acontecer.

Na madrugada do dia 27 de julho, com os Jogos em pleno andamento, uma bomba caseira explodiu no meio do Centennial Park, durante um show de música soul, matando uma mulher e ferindo 111 pessoas. Mais tarde, a polícia constatou que a bomba não entrara lá inteira, mas em vários pedaços, e fora montada durante o show. Depois deste dia, quem estava reclamando do esquema de segurança começou a sentir saudades dele: as revistas passaram a ser ainda mais longas, o acesso a muitos dos prédios ficou restrito aos jornalistas credenciados, e todos os dias a prefeitura mudava o sentido do trânsito em várias ruas da cidade. Algumas pessoas passaram a levar duas horas apenas no trajeto entre suas casas ou hotéis e os locais onde as competições aconteciam.

Também a Cerimônia de Abertura quase foi atrapalhada pelas americanadas da organização: apenas quinze minutos antes do horário marcado para seu início os organizadores resolveram liberar a entrada dos mais de 50.000 espectadores que se amontoavam do lado de fora do Centennial Olympic Stadium, que ainda teriam de passar por uma revista antes de encontrarem seus lugares. Além disso, estava programado que, durante a Cerimônia, doze caminhonetes com enormes logotipos da General Motors, uma das patrocinadoras do evento, entrariam no campo e iluminariam o público com holofotes montados em suas caçambas. O COI achou isso um acinte, e determinou que os logotipos fossem removidos; a propaganda, porém, foi feita do mesmo jeito, já que todos os presentes sabiam que eram caminhonetes da GM.

Falando nisso, a Cerimônia de Abertura de Atlanta é considerada uma das mais chatas de todos os tempos, se arrastando durante quase quatro horas, em grande parte por causa do enorme desfile das delegações, já que os Jogos de 1996 viram um número recorde atletas e nações competindo. A Cerimônia só se tornou realmente emocionante após o Presidente Bill Clinton declarar os Jogos abertos, quando se iniciou uma série de homenagens a grandes atletas do passado, incluindo o ginasta esloveno Leon Stukelj, dois ouros nos Jogos de 1924 representando a Iugoslávia, à época o mais idoso medalhista olímpico vivo. A tocha olímpica também veio carregada de emoção: entre o público e os jornalistas, parecia certo que Mark Spitz, nove ouros na natação, receberia a honra de acender a pira. Quem subiu com a tocha os degraus que levavam à enorme pira, porém, foi outro prodígio da natação, Janet Evans, quatro ouros e uma prata em 1988 e 1992. Parecia que Evans iria acender a pira, mas, já no alto da escada, ela entregou a tocha para um atleta que sequer estava relacionado entre os que participariam do revezamento. Quando o facho de luz o iluminou, quem o reconheceu quase não conseguiu falar: era ninguém menos que Muhammad Ali, uma das maiores lendas da história do boxe, e vítima de uma das maiores injustiças da história dos Estados Unidos, quando, ao retornar à sua pátria com a medalha de ouro conquistada em Roma, 1960, foi impedido de comer em uma lanchonete apenas por ser negro, e, com raiva, jogou sua medalha no fundo do Rio Ohio. O estádio desabou em aplausos quando o narrador anunciou seu nome. Aos 54 anos, afligido pelo Mal de Parkinson, Ali mal conseguiu pegar a tocha da mão de Evans. Levou mais de um minuto para acender um cordão que levou o fogo sagrado até a pira, um minuto no qual bilhões de pessoas ao redor do mundo foram tocadas pela emoção. Mais tarde, muitos jornais escreveram que os Jogos de Atlanta deveriam ter acabado ali mesmo, e mesmo assim seriam lembrados para sempre.

Ali ainda receberia uma segunda homenagem, durante o intervalo da partida final do basquete masculino, quando recebeu uma réplica da medalha que jogou fora, diante dos aplausos de 35.000 pessoas. A organização pode ter sido péssima em muitos quesitos, mas pelo menos não faltaram emoções em Atlanta.

Os Jogos de 1996 ocorreram entre 19 de julho e 4 de agosto, contando com a participação recorde de 10.750 atletas - pela primeira vez atingindo a casa das dezenas de milhar - dos quais 3.766 eram mulheres. Todas as nações filiadas ao COI, exatas 197, enviaram delegações. O programa olímpico contou com 31 esportes, atletismo, badminton, basquete, beisebol, boxe, canoagem, ciclismo, equitação, esgrima, futebol, ginástica artística, ginástica rítmica, handebol, hóquei, judô, levantamento de peso, luta olímpica, nado sincronizado, natação, pentatlo moderno, polo aquático, remo, saltos ornamentais, softbol, tênis, tênis de mesa, tiro com arco, tiro esportivo, vela, vôlei e vôlei de praia, para um total de 271 provas (clique aqui para ver todas as provas do programa). O mascote de Atlanta conseguiu entrar para a história como um dos menos notados dos Jogos: querendo ser engraçadinhos, os organizadores criaram um bicho fictício, que saiu parecido com um espermatozóide, ao qual deram o nome de Whatizit (algo como "Que-isso"). Apelidado Izzy, o mascote foi solenemente ignorado pelo público presente em Atlanta, e encalhou bonito. Acabou ganhando mais notoriedade como exemplo de como um mascote não deve ser.

No campo esportivo, pelo menos, pouco há que se reclamar dos Jogos de 1996. Várias disputas, principalmente no atletismo, ciclismo, ginástica, futebol, natação, vela e vôlei, foram extremamente empolgantes. Quem não se importou com os preços exorbitantes, o calor e as revistas de segurança, não saiu de Atlanta decepcionado.

No atletismo, por exemplo, basta citar a final dos 100 metros, a primeira em 20 anos sem nenhum norte-americano no pódio, descontando o boicote de 1980, e logo dentro dos Estados Unidos. As emoções começaram já na largada, queimada duas vezes pelo medalhista de ouro de Barcelona, o britânico Linford Christie, que acabou desclassificado. O ouro acabou ficando com o canadense Donovan Bailey, segundo a cronometragem o último a reagir ao tiro de largada, mas que conquistou a vitória com uma arrancada impressionante a partir do meio da prova, quebrando o recorde mundial por um centésimo de segundo. Completaram o pódio Frank Fredericks, da Namíbia, e Ato Bolton, de Trinidad e Tobago. Dois dos norte-americanos inscritos terminaram em quarto e quinto lugar, enquanto o terceiro, Jon Drummond, que havia eliminado Carl Lewis nas seletivas dos Estados Unidos, ficou na semifinal.

Lewis, pelo menos, conseguiu uma proeza em Atlanta: sua nona medalha de ouro olímpica, aos 35 anos, e quarto ouro seguido, repetindo o feito de seu compatriota Al Oerter entre 1956 e 1968. Oerter ganhara quatro ouros no arremesso do disco, Lewis os ganhou no salto em distância, onde sequer era o favorito; este posto pertencia a outro norte-americano, Mike Powell, que em 1991, com um salto estratosférico de 8m95, havia quebrado um dos recordes mundiais mais antigos da modalidade, o do jamaicano Bob Beamon nas Olimpíadas de 1968, no México. Com uma lesão na coxa, Powell queimou quase todas as suas tentativas, e, quando finalmente saltou, desabou de dor, rolando pela areia e chorando, uma imagem que correu o mundo. Lewis, que não ia muito com a cara de Powell, conseguiu então seu ouro com bastante facilidade, 8m50, mais de 20 centímetros a mais que o medalhista de prata, o jamaicano James Beckford.

A vitória de Lewis acabou o envolvendo em uma polêmica: ele havia sido selecionado como reserva da equipe de revezamento 4 x 100 metros, mas já anunciara que não tinha intenção de correr. Se ganhasse um décimo ouro, porém, se tornaria o maior vencedor da história do esporte mundial. Um dia antes da final, Leroy Burrell, que havia participado de todas as eliminatórias com a equipe, informou aos treinadores que estava com dores no calcanhar, e não iria correr. Imediatamente, começou a pressão para que Lewis fosse escalado, e reclamações por parte de outros atletas que Burrell teria recebido dinheiro para desistir e dar lugar para Lewis. Sem querer saber de confusão, Dennis Mitchell, o capitão do time, pediu para que Tim Harden, que tinha pouca experiência internacional, mas um tempo melhor que o de Lewis nas seletivas, ocupasse o lugar de Burrell. Toda a polêmica, porém, acabou prejudicando o time norte-americano: na hora da final, diante de um Donovan Bailey em forma espetacular, os Estados Unidos acabaram perdendo o ouro, dentro de casa, para o Canadá. Atrás de canadenses e norte-americanos chegou o time do Brasil, composto por Arnaldo Silva, Robson Caetano, Édson Ribeiro e André Silva, uma surpreendente medalha de bronze, quebrando o recorde sul-americano.

Ainda no atletismo, outro atleta dos Estados Unidos conseguiu uma proeza considerada por muito tempo impossível, vencer os 200 e os 400 metros em uma mesma edição dos Jogos. Um atleta chamado Michael Johnson, apelidado Pato por seu estilo peculiar de correr, o tronco ereto e passadas muito curtas, justamente o contrário do que todos os treinadores de atletismo afirmam ser o melhor para ganhar mais velocidade. Até hoje, inclusive, se debate se, se Johnson corresse da maneira usual, seria ainda mais rápido.

A confiança em Johnson era tanta que, quando ele conseguiu a classificação para ambas as finais, a organização resolveu antecipar a dos 400 metros, pois originalmente ela aconteceria no mesmo dia da dos 200. Ao antecipar, a final acabou coincidindo com a do salto em distância, onde competia Carl Lewis. Diante de um estádio lotado, mais de 70 mil pessoas, Johnson impôs seu ritmo com facilidade, e venceu com quase um minuto de vantagem sobre o britânico Roger Black, novo recorde olímpico. Três dias depois ele voltava à pista para completar sua proeza, ganhando o ouro dos 200 metros com novo recorde olímpico e mundial, desta vez com mais dificuldade, terminando à frente de Fredericks e Bolton, que repetiram seus resultados dos 100 metros. Johnson ainda teve uma equivalente no feminino, a francesa Marie-José Perec, medalhista de ouro nos 400 metros de 1992, ouro nos 200 e 400 metros de 1996, repetindo a proeza da norte-americana Valerie Brisco-Hooks em 1984.

Outro destaque do atletismo de Atlanta veio da África, o etíope Haile Gebre Selassie, batizado em homenagem ao antigo imperador Haile Selassie, favoritíssimo ao título dos 10.000 metros, e que ganhou o ouro com uma tática inusitada: permitiu que atletas desconhecidos, sem chance de vitória, liderassem a prova, enquanto apenas prestava atenção em seus principais rivais, o queniano Paul Tergat, famoso no Brasil por seu desempenho na Corrida de São Silvestre, e o marroquino Salah Hissou. Tergat assumiu a ponta nos 7.000 metros, e liderou até os 9.700, quando Gebre Selassie, arrancando como se tivesse acabado de ouvir o tiro de largada de uma prova de 100 metros, o ultrapassou, e terminou a prova com quase cinco metros de vantagem, quebrando o recorde olímpico. Depois desta demonstração, Gebre Selassie se tornou ainda mais favorito para a prova dos 5.000 metros, para a qual também estava inscrito, mas, contente com seu ouro, desistiu de participar. Sem ele, toda a tática dos demais corredores mudaria, e os favoritos passaram a ser os quenianos, famosos por correr "em grupo", se protegendo até que um abrisse vantagem perto do final. De fato, esta técnica quase vingou, e o vencedor quase foi Paul Bitok, mas o queniano acabou sendo surpreendido nos últimos metros por Vetuste Niyongabo, do Burundi, que o ultrapassou e ganhou o ouro com duas passadas de vantagem, deixando Bitok com os olhos arregalados e as mãos na cintura, sem entender o que havia acontecido.

A principal decepção do atletismo ficou por conta de Maria Mutola, de Moçambique, até hoje uma das maiores corredoras dos 800 metros. Apesar da pouca idade, 23 anos, Mutola considerava que nenhuma corredora poderia vencê-la na distância, e sequer se esforçou durante a corrida. Deixou que a russa Svetlana Masterkova, 28 anos, que não competiu entre 1993 e 1995 por estar grávida e depois com filho pequeno, liderasse a prova com ritmo bastante lento durante um bom tempo. Mutola acreditava que bastava arrancar nos metros finais e venceria com facilidade, mas, encaixotada entre a cubana Ana Quirot e a neozelandesa Toni Hodgkinson, não encontrou o espaço necessário. Masterkova acabou vencendo a prova, e nem ela mesma acreditou que o fizera, dando mais uma volta na pista, sem reduzir o ritmo, para comemorar com o público. Mutola acabou chegando na terceira posição, atrás ainda de Quirot, que meses antes da prova havia sofrido um acidente e ficado com 40% do corpo queimado. Três dias depois, Masterkova mostrou que não ganhara por acaso ao conquistar também o ouro dos 1.500 metros, prova da qual Mutola, desgastada por seu fracasso nos 800 metros, desistiu de participar.

Mas fora do atletismo também tivemos muitos heróis, como o turco Naim Süleymanogiu, primeiro atleta a conseguir três medalhas de ouro no levantamento de peso. Nascido na Bulgária, filho de imigrantes, Naim começou a se dedicar ao esporte cedo, e em 1985, aos dezoito anos, já detinha o recorde mundial das categorias penas e galos, e poderia ter conseguido sua primeira medalha olímpica já em 1984, se a Bulgária não tivesse decidido boicotar os Jogos. Apesar de seu sucesso, Naim se ressentia com sua pátria, que perseguia os imigrantes turcos, e em 1985 obrigou todos eles e seus descendentes a adotar nomes búlgaros, mudando o seu para Naim Suleimanov. Irritado, após o Campeonato Mundial de 1986, em Melbourne, na Austrália, Naim pediu asilo na embaixada da Turquia, e fugiu para o país de origem de seus pais. Naim se naturalizou turco, mas a Bulgária exigiu um milhão de dólares para liberá-lo para competir sob a bandeira da Turquia. Confiando no potencial do rapaz, o governo turco pagou de bom grado, e não se arrependeu. Em 1988, Naim foi ouro na categoria penas com enorme facilidade, e ainda quebrou o recorde mundial. Em 1992, muitos dos competidores ficaram tão apavorados de ter de enfrentá-lo que sequer chegaram perto de suas melhores marcas, fazendo com que ele chegasse a um segundo ouro tendo como única ameaça seu ex-compatriota Nikolai Peshalov. Em 1996, graças a uma mudança na tabela de pesos, Naim foi enquadrado na categoria galos. Melhor para ele, que, sem adversários de seu nível, conseguiu mais um recorde mundial, e o terceiro ouro seguido em seu esporte.

Na luta livre também não faltou emoção, a começar pela luta, na segunda rodada da categoria médios, entre os irmãos Elmadi e Lucman Jabrailov. Ambos nasceram na Chechênia, república que desde o fim da União Soviética tentava se separar da Rússia sem sucesso. Com o fim de sua pátria, os atletas soviéticos puderam escolher qual novo país iriam representar; evidentemente, nenhum dos dois irmãos quis a cidadania russa, país opressor de sua pátria natal. Curiosamente, porém, cada um deles optou por um país diferente: Elmadi lutava pelo Cazaquistão, Lucman pela Moldova. Ambos acabaram se classificando para os Jogos, e se enfrentando mais cedo do que esperavam. A luta foi muito mais cortês que o normal, mas mesmo assim Elmadi ganhou por 10 a 8. Elmadi perderia nas quartas de final, terminando no sexto lugar geral. Outro bom momento foi o ouro do norte-americano Kurt Angle, categoria pesados. Durante as seletivas norte-americanas, Angle sofreu uma lesão no pescoço que fraturou duas vértebras, e quase o deixou paraplégico. Ainda assim ele se classificou, se recuperou, e chegou à final olímpica, onde venceu o favorito iraniano Abbas Jadidi por decisão dos jurados, após uma luta de oito minutos que terminou empatada em 1 a 1. No final de 1996, Angle assinou um contrato com a WWE, a famosa liga de telecatch norte-americana, se tornando o único medalhista olímpico a participar da liga. Pela WWE, Angle seria campeão seis vezes, e se tornaria conhecido como o lutador que ganhou o ouro olímpico "com o pescoço quebrado".

Em termos de emoção, porém, para os norte-americanos nenhum esporte superou a ginástica artística, onde as meninas-norte-americanas, que no individual conquistariam apenas um ouro, com Shannon Miller na trave de equilíbrio, e dois bronzes, com Dominique Dawes no solo, primeira negra medalhista neste esporte, e Amy Chow nas barras assimétricas, conquistariam, dentro de casa, o ouro dos exercícios combinados, à frente da Rússia e da Romênia. Muitos atribuem este sucesso ao sacrifício de Kerri Strug, 18 anos. Diante de um ginásio totalmente lotado, ao fazer seu primeiro salto sobre o cavalo, Strug torceu violentamente o tornozelo na aterrissagem, rompendo dois ligamentos. Mesmo assim, ela decidiu fazer o segundo salto, correu como se a perna estivesse boa, e aterrissou em um pé só, mas de forma perfeita. Logo após saudar o público e os juízes, Strug caiu no chão, desabada em lágrimas, ao som de um aplauso animadíssimo. Com a perna enfaixada, Strug teve de ser carregada até o pódio por seu treinador. Ela não pôde participar das provas individuais, mas foi alçada à categoria de heroína olímpica, e a imagem de seu segundo salto foi considerada uma das mais marcantes dos Jogos de 1996.

No tênis, a medalha de ouro das simples masculinas foi para o ídolo e favoritíssimo norte-americano Andre Agassi, único tenista masculino a ter ganhado os quatro Grand Slams e mais o ouro olímpico, embora em anos diferentes. O torneio poderia ter sido ainda mais emocionante se o número um do mundo, o também norte-americano Pete Sampras, não tivesse desistido de disputá-lo no último momento. O brasileiro Fernando Meligeni terminou na quarta colocação, graças a uma mudança no regulamento: valessem as regras de Barcelona, apenas por ter sido derrotado na semifinal ele já teria uma medalha de bronze. No feminino, o ouro também ficou com uma norte-americana, Lindsay Davenport, e a número um do mundo, a alemã Stefi Graf, também ficou de fora, mas por causa de uma lesão. A partida mais comentada do torneio, porém, envolveu a desconhecida húngara Virag Csurgo, que a princípio disputaria apenas o torneio de duplas. Na manhã do dia 24 de julho, Csurgo estava fazendo um treino leve quando um dos fiscais se aproximou e a avisou que uma das tenistas não havia aparecido para sua partida de estréia, e que o regulamento permitia que, no caso, outra atleta tomasse seu lugar. Se Csurgo estivesse interessada, bastava comparecer à quadra onde a partida se realizaria. O problema é que faltavam apenas cinco minutos para o início da partida, quando o árbitro decretaria vitória da polonesa Aleksandra Olsza por WO. Csurgo nem trocou de roupa, correu para a quadra vestindo um short velho e uma camiseta, levando apenas sua raquete de treino, e ainda por cima venceu a partida. Infelizmente, ela acabaria derrotada no jogo seguinte pela japonesa Kimiko Date, que terminaria o torneio em quinto lugar.

No tênis de mesa, a chinesa Deng Yaping, ouro nas simples e nas duplas de Barcelona, ao lado de Qiao Hong, repetiu ambas as conquistas em Atlanta. Sua compatriota Fu Mingxia, 17 anos, ouro na plataforma dos saltos ornamentais quatro anos antes, também bisou a conquista, desta vez quarenta pontos à frente da segunda colocada, e de quebra arrebatou o ouro também no trampolim. Outra chinesa, Lee Lai Shan, representando Hong Kong, foi ouro na categoria Mistral da vela; mesmo sendo desconhecida, e não estando em nenhuma lista de favoritas, Shan terminou a série de regatas catorze pontos à frente da campeã de 1992, a britânica Barbara Anne Kendall, e ganhou a primeira e única medalha olímpica de Hong Kong. Ainda na vela, o austríaco Hubert Raudaschl, categoria Star, se tornou o primeiro atleta a competir em nove Olimpíadas seguidas - e poderiam ter sido dez, já que em 1960 ele ficou na reserva. Neste tempo todo, Raudaschl conquistou duas medalhas, uma prata em 1980 e outra em 1968, mas na categoria Finn. E já que estamos falando em vela, o Brasil trouxe das águas de Wassaw, na cidade de Savannah, 700 km de Atlanta, onde se desenrolaram as provas, três excelentes resultados: Robert Scheidt, 23 anos mas já bicampeão mundial, ganhou o ouro da classe Laser, 11 pontos à frente de seu principal rival, o britânico Ben Ainslie; Torben Grael, prata em 1984 na classe Soiling, e bronze em 1988 na Star ao lado de Nélson Falcão, desta vez conseguiu uma medalha de ouro, novamente na Star, em companhia de Marcelo Ferreira; e Lars Grael, irmão mais novo de Torben, bronze na categoria Tornado em 1988 ao lado de Clínio de Freitas, repetiu o bronze na mesma categoria, mas agora acompanhado de Kiko Pelicano.

A natação contou com vários destaques, a começar pelo russo Alexander Popov, que frustrou a pretensão do norte-americano Gary Hall, Jr. ao ganhar o ouro dos 50 e dos 100 metros livre, deixando o rival com a prata nas duas provas. Hall só conseguiria dar o troco nos revezamentos 4 x 100 metros livre e medley, onde os Estados Unidos ganhariam o ouro, deixando a Rússia, com Popov no time, com a prata. O Brasil foi muito bem nas piscinas, com Gustavo Borges ganhando duas medalhas, um bronze nos 100 metros livre, atrás apenas de Popov e Hall, e uma prata nos 200 metros livre, prova que liderou e poderia ter vencido, mas onde foi surpreendido pelo neozelandês Danyon Loader, que deu uma arrancada impressionante nos metros finais. Menos mal, Gustavo quebrou o recorde sul-americano, e ainda conquistou a primeira medalha do Brasil em 1996. O nadador Fernando Scherer, apelidado Xuxa, também conseguiu um excelente resultado, bronze nos 50 metros livre, atrás mais uma vez apenas de Popov e Hall. Xuxa ainda ficaria com o quinto lugar nos 100 metros livre. O revezamento 4 x 100 livre, com Xuxa, Gustavo, Alexandre Massura e André Cordeiro, terminou a prova em quarto lugar, pouco mais de um segundo atrás da Alemanha.

O maior destaque dos Estados Unidos foi uma moça, Amy Van Dyken, 23 anos, quatro ouros, nos 50 metros livre, 100 metros borboleta, e nos revezamentos 4 x 100 metros livre e medley. Também entraram para a história a sul-africana Penelope Heyns, 21 anos, primeira mulher a ganhar o ouro dos 100 e dos 200 metros peito em uma mesma edição dos Jogos, e primeiro ouro da África do Sul após seu retorno às Olimpíadas em 1992; e a irlandesa Michelle Smith, três ouros, nos 400 metros livre, 200 e 400 metros medley, e um bronze nos 200 metros borboleta. As conquistas de Smith, porém, ficaram em segundo plano diante de pesadas acusações de doping. Nada foi provado, mas ela acabou sendo pega em um anti-doping de rotina em 1998, e banida do esporte. Smith não perdeu suas medalhas olímpicas, mas acabou perdendo toda a sua popularidade.

Além do futebol feminino, vencido pelos donos da casa com o Brasil terminando em quarto, e da categoria mountain biking no ciclismo, dois novos esportes entraram para o programa olímpico em Atlanta: o softbol, uma versão diferente do beisebol, disputado nas Olimpíadas apenas na versão feminina - e considerado por mutos como o "beisebol feminino" já que este só era disputado na versão masculina - e o vôlei de praia, extremamente popular nos Estados Unidos na época. No masculino, o Brasil, mesmo contando com a dupla número um do mundo, Franco Vieira e Roberto Lopes, não conseguiu resultados expressivos, mas no feminino as brasileiras deram um show: Jaqueline Silva e Sandra Pires se tornaram as primeiras mulheres do Brasil a conquistar uma medalha de ouro olímpica. Melhor que isso, a final foi toda verde e amarela, pois ficaram com a prata as também brasileiras Mônica Rodrigues e Adriana Samuel, irmã de Tande, campeão na quadra em Barcelona. Adriana e Mônica perderam justamente para Jackie e Sandra no final da primeira fase, mas, graças ao regulamento, que permitia uma repescagem, conseguiram continuar no torneio até chegar na final. Detalhe: apesar da enorme torcida, os norte-americanos, ouro e prata no masculino, saíram do torneio feminino frustrados, pois Linda Hanley e Barbra Fontana-Harris perderam o bronze para as australianas Natalie Cook e Kerri Potharst.

No outro vôlei, o de quadra, o Brasil era o favorito para ambos os ouros, mas acabou sem nenhum. No masculino, em parte devido a uma contusão de Carlão, o Brasil perdeu nas quartas de final por 3 sets a 2 para a Iugoslávia, e terminou em quinto lugar. No feminino, o Brasil começou arrasador, perdendo apenas um set nas seis primeiras partidas. Na semifinal contra Cuba, a campeã de 1992, chegou a estar ganhando por 2 sets a 1. As cubanas, porém, começaram a provocar acintosamente as brasileiras, sem que os árbitros nada fizessem. Desestabilizadas emocionalmente, as meninas do Brasil permitiram a virada de Cuba, e perderam no tie break. O Brasil acabou o torneio com uma medalha de Bronze, aclamado pela torcida com gritos de "campeão no nosso coração", e com uma amarga sensação de que o ouro havia sido desperdiçado.

No basquete, a história foi quase igual, mas com um desfecho um pouco melhor. No masculino, todos já sabiam que o ouro seria dos Estados Unidos, que mais uma vez levou um time composto pelos milionários profissionais da NBA. Desta vez, porém, o time não empolgou, jogando burocraticamente, e com o técnico fazendo inúmeras alterações ao longo das partidas, como se quisesse exibir os jogadores para a platéia. Os Estados Unidos ganharam o ouro invictos, mas sem brilho. O Brasil, derrotado precisamente pelos norte-americanos nas quartas de final, terminou em sexto lugar, mas pôde se consolar com a atuação de Oscar, em sua quinta Olimpíada, primeiro jogador a ultrapassar a casa de mil pontos nos Jogos. Oscar acabou aparecendo mais que os norte-americanos nos jornais e revistas, e emocionado, após o torneio anunciou em rede mundial sua despedida da seleção.

No feminino, assim como no vôlei, o Brasil era um dos favoritos ao ouro, principalmente por contar com jogadoras como Hortência, Paula, Marta, Janeth e Leila. O Brasil chegou à decisão invicto, mas todos sabiam que seria praticamente impossível ganhar dos Estados Unidos em casa. No final, as norte-americanas deixaram o Brasil com a prata, mas as grandes exibições do time brasileiro fizeram com que os jornais o elegessem como "campeão moral" do torneio.

Decepção para o Brasil mesmo, ocorreu no futebol. Mais uma vez o regulamento foi mudado, permitindo que cada seleção fosse composta de jogadores abaixo de 23 anos, com até três acima deste limite, independentemente de serem profissionais ou não, de já terem participado da Copa ou não. Soubesse montar bem seu time, o Brasil, favorito desde antes do torneio começar, seria imbatível. O time do técnico Zagallo, porém, sofreu críticas desde sua escalação. Sem conseguir se acertar, o time do Brasil passou pelo torneio aos tropeções, perdendo do Japão por 1 a 0, se recuperando contra a Hungria, 3 a 1, sofrendo para derrotar a Nigéria, 1 a 0, e se recuperando de novo contra Gana, 4 a 2. Veio, então, a semifinal, mais uma vez contra a Nigéria. O Brasil chegou a estar ganhando por 3 a 1, mas deixou a Nigéria empatar, 3 a 3. O jogo então foi para a prorrogação, que seria decidida no então novo sistema do "gol de ouro", quem marcasse primeiro ganharia o jogo, independentemente do tempo transcorrido. Aos três minutos, a Nigéria decretou o fim do sonho do ouro brasileiro. O Brasil ainda conseguiria o bronze ao ganhar de Portugal por 5 a 0, mas produziu um verdadeiro papelão ao solicitar a entrega das medalhas logo após o jogo, e voltar correndo para casa, sem nem esperar a final - onde a Nigéria se sagrou campeã ao derrotar a Argentina, diga-se de passagem.

O Brasil enviou a Atlanta a maior delegação de sua história, 225 atletas, sendo 66 mulheres. Não se arrependeu: voltou com um número recorde de 15 medalhas, ganhando pela primeira vez 3 de ouro em uma mesma edição dos Jogos, além de 3 de prata e 9 de bronze, ficando à frente, no quadro não-oficial de medalhas, de nações como Grã-Bretanha, Finlândia, Suécia, Quênia e Iugoslávia. Além das medalhas já citadas ao longo deste texto, o Brasil ainda conseguiu três outros bronzes, dois deles no judô, com Henrique Guimarães na categoria meio-leves, e com Aurélio Miguel, campeão de 1988, nos meio-pesados; e um na equitação, a primeira medalha do país neste esporte, em uma belíssima apresentação de Álvaro de Miranda Neto, montando Aspen, André Johannpeter, montando Calei, Luíz Felipe de Azevedo, montando Cassiana, e Rodrigo Pessoa, montando Tomboy, na prova por equipes do Prêmio das Nações, uma das provas de maior prestígio, onde perdeu apenas para Alemanha e Estados Unidos, e ficou à frente de nações de muita tradição, como Espanha, França e Suíça.

Os Jogos de Atlanta foram encerrados por uma Cerimônia ainda mais chata que a de Abertura, porque não teve nenhum momento especialmente emocionante. Nos últimos dias, a cidade até resolveu ganhar dinheiro com a própria desgraça, vendendo camisetas com os dizeres "eu sobrevivi a Atlanta". Muitos dos patrocinadores saíram manchados do evento, como a IBM, que não conseguiu instalar todos os computadores que prometeu, e os que foram instalados apresentaram centenas de problemas - um deles chegou a distribuir para a imprensa o resultado final de um jogo de basquete como sendo 1 a 0. A bagunça foi tanta que muitos delegados do COI foram acusados de ter recebido propina para escolher a cidade como sede. Nada ficou provado, mas pelo menos ficou o exemplo para os Jogos subsequentes: dinheiro é bom e muito necessário, mas não pode ser a estrela principal de uma Olimpíada.

Série Olimpíadas

Lillehammer 1994
Atlanta 1996

Ler mais