sábado, 5 de maio de 2007

Olimpíadas (XXI)

E adivinhem só: hoje é dia de mais um post sobre as Olimpíadas!

Lillehammer 1994


Em sua reunião de 1996, o COI decidiu que os Jogos de Inverno não ocorreriam mais no mesmo ano que as Olimpíadas de Verão, mas sim nos anos pares intercalados, ou seja, em um ano par teríamos Olimpíadas de Verão, no ano par seguinte teríamos Olimpíadas de Inverno. Com esta decisão, pela primeira e única vez na história, duas Olimpíadas de Inverno ocorreriam em um intervalo de apenas dois anos. Para sediar estes Jogos históricos, se candidataram cinco cidades: Anchorage, no Alasca, Estados Unidos; Sófia, capital da Bulgária; uma candidatura combinada das cidades suecas de Östersund e Åre; e a pequena Lillehammer, na Noruega, que acabou levando a melhor e sendo escolhida como sede dos Jogos de 1994, em uma reunião do COI pouco antes do início dos Jogos de Seul, em 1988.

Graças ao amor dos noruegueses pelos esportes de inverno, e à já conhecida organização dos povos nórdicos - o comitê organizador chegou a mover uma rampa de saltos de esqui alguns metros para o norte para atender a um pedido da CBS, que televisionaria os Jogos - os Jogos de 1994 acabaram sendo um grande sucesso. Graças ao nível técnico dos atletas que lá competiram, eles acabaram também sendo considerados como a melhor Olimpíada de Inverno de todos os tempos, e como um dos eventos esportivos mais memoráveis do Século XX. Estes elogios se tornam mais impressionantes quando se percebe que Lillehammer é uma cidade bem pequenininha, com 477 Km2 e pouco mais de 25 mil habitantes, e que os Jogos de Inverno já começavam a assumir proporções gigantescas, com milhares de atletas, jornalistas credenciados, profissionais do esporte e um imenso público - mais de um milhão e meio de espectadores - entulhando a cidade durante os dezesseis dias do evento. De fato, Lillehammer foi a última cidade pequena a sediar uma Olimpíada de Inverno: preocupado com as proporções do evento, dali em diante o COI só escolheria cidades grandes e bem estruturadas para sediá-lo.

Os Jogos de Lillehammer foram realizados entre 12 e 27 de fevereiro, e contaram com a participação de 1.737 atletas, sendo 522 mulheres, que competiram em 61 modalidades de 12 esportes: biatlo, bobsleding, combinado nórdico, esqui alpino, esqui cross country, esqui estilo livre, hóquei no gelo, luge, patinação artística no gelo, patinação no gelo em velocidade, patinação no gelo em velocidade em pista curta e saltos com esqui. 67 nações foram representadas, incluindo, pela primeira vez em uma Olimpíada de Inverno, delegações da Rússia, Ucrânia, Cazaquistão, Belarus, Uzbequistão, Armênia, Quirguízia, Moldova, República Tcheca, Eslováquia, Israel, e até da Bósnia-Herzegovina, que enviou uma pequena delegação mesmo em plena Guerra da Bósnia, e da África do Sul, ausente desde 1960 por conta do apartheid. A presença de tantas bandeiras coloriu ainda mais a emocionante Cerimônia de Abertura, que teve um discurso do Presidente do COI, Juan Antonio Samaranch, que pediu aos envolvidos na Guerra da Bósnia que interrompessem o conflito armado e resolvessem seus problemas de forma diplomática. A Cerimônia de Abertura, aliás, teve não uma, mas duas tochas olímpicas, a primeira acesa em Olímpia, na Grécia, e a segunda acesa na lareira da casa onde nasceu Sondre Nordheim, o pioneiro do esqui esportivo, na cidade de Morgedal, mesmo local onde foi acesa a primeira tocha olímpica da história dos Jogos de Inverno. Ambas as chamas foram usadas para acender uma só tocha em Oslo, capital da Noruega, tocha esta que foi levada até Lillehammer, onde entrou no estádio Lysgårdsbakken, durante a Cerimônia, nas mãos do esquiador Stein Gruben, que não entrou andando, mas com um salto de esqui. Para completar, a pira olímpica foi acesa pelo Príncipe Håkon da Noruega, filho do Rei Harald V e neto de Olav V, ambos ex-atletas olímpicos. Os mascotes de 1994 eram duas crianças norueguesas vestidas com roupas típicas, um menino e uma menina. A menina se chamava Kristin, e o menino, talvez em homenagem ao Príncipe, se chamava Håkon.

O evento mais emocionante dos Jogos de Lillehammer foi o das simples femininas da patinação artística. Grande parte desta emoção, porém, veio de um fato que ocorreu um mês antes dos Jogos, quando a patinadora norte-americana Nancy Kerrigan, 24 anos, medalhista de bronze em 1992 e uma das favoritas ao ouro de 1994, levou uma paulada no joelho. Tudo poderia ter sido um acidente normal causado por um maluco qualquer, se a polícia não tivesse descoberto que quem contratou o tal maluco foi o ex-marido de sua principal rival, a também norte-americana Tonya Harding. O episódio tomou as capas dos principais jornais e revistas dos Estados Unidos, que imaginaram um complô para que Kerrigan não pudesse competir em Lillehammer, abrindo caminho para um ouro de Harding. Para a tristeza de sua rival, porém, Kerrigan se recuperou, competiu, e ganhou uma medalha de prata, enquanto Harding terminou em oitavo lugar, e foi banida do esporte após os Jogos. Kerrigan também se aposentaria após os Jogos, em parte devido a uma declaração infeliz - ela teria saído de Lillehammer logo após a cerimônia de premiação para participar de uma parada na Disneylândia, seu principal patrocinador, onde foi pega declarando que aquela teria sido a "coisa mais imbecil que já fez na vida". Mesmo com esta declaração polêmica e com o "atentado", porém, Kerrigan acabou não sendo a principal personagem da prova. Este papel acabou cabendo à medalhista de ouro, a ucraniana Oksana Baiul.

Oksana nasceu em 1977 na pequena cidade de Dniepropetrovsk, na época na União Soviética. Sua infância foi muito difícil, com seus pais se separando quando ela tinha apenas 2 anos de idade, e sua mãe falecendo quando Oksana tinha 13. Seu talento para a patinação impressionava a todos, e ela acabou se tornando campeã mundial aos 15 anos, em 1993, já competindo pela Ucrânia. Como era muito jovem e pouco conhecida fora da ex-URSS, poucos apostaram nela nas Olimpíadas, ainda mais após uma colisão com a alemã Tanja Szewczenko durante um treinamento, que a deixou com terríveis dores nas costas, e fez com que ela tivesse de tomar duas injeções de analgésicos. No dia da final, porém, Oksana patinou perfeitamente, conseguiu notas altíssimas, ganhou a medalha de ouro, e imediatamente se tornou uma das maiores promessas do esporte.

Infelizmente, uma série de acontecimentos fizeram com que Oksana, apesar de famosíssima, jamais conseguisse repetir os bons desempenhos de 1993 e 1994, quando, além destes dois títulos, ainda foi vice-campeã européia duas vezes. Ainda em 1994, ela teve de se submeter a uma artroscopia no joelho, e foi aconselhada pelos médicos a não retornar ao gelo em menos de dois meses. Sua treinadora, empresária e mãe substituta, Galina Zmievskaya, pensava diferente, e convenceu Oksana a voltar a patinar em duas semanas, e a competir em seis. O joelho operado jamais voltou a corresponder corretamente, causando dificuldades em alguns saltos. Além disso, conforme Oksana deixava de ser uma menina e se tornava uma mulher, seu corpo também não colaborava com os movimentos que ela estava acostumada a fazer, obrigando-a a mudar muito de seu repertório. Em 1996, Oksana se mudou para os Estados Unidos e acabou se afastando das competições oficiais por um tempo, passando a se apresentar em shows como o Broadway on Ice.

Tantos problemas acabaram levando Oksana ao alcoolismo. Em 1997, ela foi presa após se envolver em um acidente ao dirigir bêbada. Após a prisão, ela entrou em um programa de reabilitação, e, felizmente, sua vida começou a mudar. Oksana se afastou de Zmievskaya, e se tornou uma espécie de "celebridade profissional", sendo convidada para ser um dos jurados no programa de talentos Master of Champions da ABC, e participando de vários torneios de exibição. Atualmente, Oksana pode ser vista no musical Cold as Ice, que estreou este mês em Nova Iorque. Para muitos, Oksana acabou se tornando um exemplo de como a vida de um adolescente extremamente talentoso para o esporte pode tomar o rumo errado se ele não for bem orientado.

Voltando aos destaques de 1994, vamos da patinação artística para a patinação em velocidade. Na pista longa, o maior destaque foi o norueguês Johann Olaf Koss, que se tornou um herói nacional ao vencer as provas 1.500, 5.000 e 10.000 metros, conseguindo recordes mundiais em todas as três. Mas a prova mais emocionante foi a dos 1.000 metros, onde o norte-americano Dan Jansen, favoritíssimo ao ouro dos 500 e dos 1.000 metros tanto em 1988 quanto em 1992, mas que nem chegara perto do pódio em nenhuma das duas ocasiões, conseguiu finalmente uma medalha, e de ouro. Jansen já achava que iria encerrar sua carreira sem medalhas olímpicas, pois havia terminado em oitavo nos 500 metros. Nos 1.000 metros, porém, Jansen fez uma corrida quase impecável, onde imprimiu ritmo de recorde mundial desde o início. Um escorregão no fim assustou a platéia, mas Jansen conseguiu se reequilibrar e cruzar a meta em primeiro, quebrando o recorde mundial.

No feminino, o maior destaque foi a norte-americana Bonnie Blair, participando de sua quarta Olimpíada, que se tornou a primeira mulher a vencer os 500 metros três vezes seguidas, e tanto os 500 quanto os 1.000 metros em duas Olimpíadas seguidas. Na pista curta, o domínio foi da Coréia do Sul, que ganhou quatro dos seis ouros possíveis, mais uma prata e um bronze. Foi também neste esporte que a Austrália conseguiu a primeira medalha de inverno de sua história, um bronze no revezamento 4 x 1.250 metros masculino.

No esqui alpino, o norte-americano Tommy Moe conseguiu ouro na descida e prata no slalom supergigante; o alemão Markus Wesmeier foi ouro no slalom gigante e supergigante; o norueguês Kjetil André Aamodt foi prata no combinado e na descida e bronze no slalom supergigante; e o italiano Alberto Tomba conseguiu sua quinta medalha, uma prata no slalom. No feminino, a suíça Vreni Schneider conseguiu uma medalha de cada cor: bronze no slalom gigante, prata no combinado, e ouro no slalom.

No biatlo, a canadense Myriam Bédard conseguiu o ouro nas duas provas individuais, os 7,5 Km e os 10 Km. No esqui cross country, a italiana Manuela di Centa subiu ao pódio em todas as cinco provas, ouro nos 15 e 30 Km, prata nos 5 Km e nos 10 Km perseguição, e bronze no revezamento 4 x 5 Km. A russa Lyubov Yegorova chegou perto de repetir a façanha, ganhando ouro nos 5 Km, nos 10 Km perseguição e no revezamento e prata nos 15 Km, mas chegou em quinto nos 30 Km. No masculino, com a ajuda da torcida, o norueguês Bjørn Dæhlie conseguiu dois ouros, nos 10 Km e nos 15 Km perseguição, e duas pratas, nos 30 Km e no revezamento 4 x 10 Km. No revezamento, inclusive, a Noruega estava na frente até poucos metros do final, quando foi ultrapassada pela Itália, o que causou um imenso silêncio na enorme e animada platéia que já estava pronta para comemorar mais um ouro. Também no revezamento 3 x 10 Km do combinado nórdico a Noruega acabou com a prata, mas desta vez quase cinco minutos atrás da equipe do Japão. O Japão já havia conseguido uma vitória por margem semelhante no campeonato mundial de 1993, o que levou a Federação Internacional de Esqui a mudar a prova para um revezamento 4 x 5 Km a partir do final dos Jogos.

Duas duplas de atletas conseguiram repetir as medalhas que ganharam em outras edições dos Jogos: no bobsleding, que passou a permitir dois trenós de cada país por prova, os suíços Gustav Weder e Donat Acklin se tornaram os primeiros atletas a ganhar o ouro no trenó de dois ocupantes em duas Olimpíadas seguidas; e na patinação artística, os russos Ekaterina Gordeeva e Sergei Grinkov repetiram o ouro nas duplas que haviam ganho em 1988, ainda competindo pela União Soviética. Vale também registrar o bronze dos britânicos Jayne Torvill e Christopher Dean na dança no gelo. Torvill e Dean haviam sido medalhistas de ouro dez anos antes, em 1984, mas se profissionalizaram logo depois, o que os afastou das Olimpíadas até que o COI decidisse mudar a regra que impedia a participação de profissionais, em 1992.

O Brasil participou pela segunda vez de uma Olimpíada de Inverno com uma delegação bem pequenininha: um atleta. Isso mesmo, só um, Christian Lothar Munder, que disputou a prova de descida do esqui alpino, e ainda por cima viajou pagando tudo do próprio bolso, acompanhado por seu pai e sua treinadora. Munder terminou em 50o e último lugar, já que, dos 55 inscritos, cinco não largaram. Pelo menos ele teve a honra de ser o porta-bandeira, tanto na cerimônia de abertura quanto na de encerramento.

Atlanta 1996


No final do Século XIX, o Barão de Coubertin decidiu recriar as Olimpíadas, um dos mais importantes eventos esportivos da Grécia Antiga. Para isso, ele criou o Comitê Olímpico Internacional, que, após não muita deliberação, escolheu Atenas, a capital grega, para sede da primeira edição dos Jogos Olímpicos modernos, que, como seus antepassados, ocorreriam a intervalos de quatro anos. A Grécia queria que todas as Olimpíadas fossem em Atenas, mas o COI achou melhor que a cada quatro anos eles fossem organizados em uma cidade diferente. Assim, os Jogos foram realizados em cidades diferentes, da Europa, América do Norte, Ásia e Oceania. Muitas destas cidades, como Paris e Los Angeles, tiveram a honra de sediar duas edições dos Jogos, mas Atenas só havia sediado a primeríssima e nenhuma a mais. O centenário dos Jogos se aproximava, porém, e para muitos parecia certo que Atenas seria agraciada pelo COI, em sua reunião de 1990, com a oportunidade de, cem anos depois, organizar uma nova Olimpíada, a Olimpíada do Centenário, a consagração dos Jogos, que conseguiram passar por cem anos, por guerras e boicotes, e continuar existindo.

Infelizmente para a Grécia, muitas outras cidades não compartilhavam desta opinião, e apresentaram ao COI suas candidaturas para sediar a Olimpíada de 1996: Melbourne, na Austrália; Manchester, na Grã-Bretanha; Toronto, no Canadá; Atlanta, nos Estados Unidos; e até mesmo Belgrado, capital de uma Iugoslávia que se esfacelava, e dentro de poucos anos iria mergulhar na Guerra da Bósnia. De todas, foi Atlanta, sede de empresas como a Coca-Cola e a CNN, a que apresentou o melhor projeto: pela primeira vez, não seria usado na organização de uma Olimpíada um só centavo de dinheiro público; todo o montante necessário seria conseguido com patrocinadores, através de venda de cotas. Em contraposição ao bom planejamento da cidade norte-americana, a capital grega enfrentava muitos problemas, e poucos acreditavam que todas as obras necessárias estariam concluídas a tempo. O resultado foi que Atlanta ganhou o direito de sediar os Jogos por uma ampla margem de votos.

Apesar dos protestos de alguns pelo capitalismo ter vencido a tradição, a esperança era de que, com tanto dinheiro à disposição, fosse realizada a Olimpíada mais fantástica da História. Infelizmente, o que aconteceu foi uma das edições mais confusas e atrapalhadas dos Jogos, perdendo talvez apenas para a de 1904, por um acaso também realizada nos Estados Unidos.

Aparentemente, o povo e a prefeitura de Atlanta decidiram usar as Olimpíadas para tirar o pé da lama, e acabaram incorrendo no mesmo erro de St. Louis 92 anos antes: combinaram os Jogos com uma Feira. No caso de Atlanta, não era especificamente uma Feira, mas o Centennial Park, uma enorme praça no centro da cidade, onde os cidadãos comuns que contribuíram com doações em dinheiro para os Jogos puderam ver seus nomes escritos em lajotas espalhadas pelo chão. Lá, a AT&T construiu uma réplica da Vila Olímpica, a cerveja Budweiser um jardim suspenso, a relojoaria Swatch um gigantesco galpão de exposições, a Nike uma mastodôntica loja de artigos esportivos, e a Coca-Cola um galpão maior ainda, destinado exclusivamente à venda e troca de pins, uma verdadeira febre na época das Olimpíadas. Havia também um palco para shows, e centenas de milhares de camelôs, vendendo todo o tipo de produtos. Em outras palavras, quando não estavam assistindo a algum evento esportivo, era no Centennial Park que os moradores de Atlanta e os milhares de turistas iam se encontrar, passear, e gastar dinheiro. Muito dinheiro. Qualquer coisa, desde uma latinha de Coca-Cola até uma camiseta vagabunda, durante as Olimpíadas custou o dobro do preço do resto do ano. Os organizadores deixaram de lado o espírito esportivo, e quiseram transformar os Jogos em um evento comercial.

E, é claro, com tanto dinheiro e tantos turistas circulando, os Estados Unidos resolveram implantar o seu hoje famosíssimo esquema de segurança. Qualquer um que quisesse entrar em um lugar mais "protegido", como o prédio da CNN, por exemplo, era submetido a uma intensa revista. Graças à falta de treinamento dos voluntários, porém, esta revista durava um tempo absurdo, e servia praticamente de nada - muitos passavam horas examinando uma máquina fotográfica, mas se esqueciam de olhar dentro de um maço de cigarros. Com este esquema fajuto, é claro que alguma coisa iria acontecer.

Na madrugada do dia 27 de julho, com os Jogos em pleno andamento, uma bomba caseira explodiu no meio do Centennial Park, durante um show de música soul, matando uma mulher e ferindo 111 pessoas. Mais tarde, a polícia constatou que a bomba não entrara lá inteira, mas em vários pedaços, e fora montada durante o show. Depois deste dia, quem estava reclamando do esquema de segurança começou a sentir saudades dele: as revistas passaram a ser ainda mais longas, o acesso a muitos dos prédios ficou restrito aos jornalistas credenciados, e todos os dias a prefeitura mudava o sentido do trânsito em várias ruas da cidade. Algumas pessoas passaram a levar duas horas apenas no trajeto entre suas casas ou hotéis e os locais onde as competições aconteciam.

Também a Cerimônia de Abertura quase foi atrapalhada pelas americanadas da organização: apenas quinze minutos antes do horário marcado para seu início os organizadores resolveram liberar a entrada dos mais de 50.000 espectadores que se amontoavam do lado de fora do Centennial Olympic Stadium, e que ainda teriam de passar por uma revista antes de encontrarem seus lugares. Além disso, estava programado que, durante a Cerimônia, doze caminhonetes com enormes logotipos da General Motors, uma das patrocinadoras do evento, entrariam no campo e iluminariam o público com holofotes montados em suas caçambas. O COI achou isso um acinte, e determinou que os logotipos fossem removidos; a propaganda, porém, foi feita do mesmo jeito, já que todos os presentes sabiam que eram caminhonetes da GM.

Falando nisso, a Cerimônia de Abertura de Atlanta é considerada uma das mais chatas de todos os tempos, se arrastando durante quase quatro horas, em grande parte por causa do enorme desfile das delegações, já que os Jogos de 1996 viram um número recorde atletas e nações competindo. A Cerimônia só se tornou realmente emocionante após o Presidente Bill Clinton declarar os Jogos abertos, quando se iniciou uma série de homenagens a grandes atletas do passado, incluindo o ginasta esloveno Leon Stukelj, dois ouros nos Jogos de 1924 representando a Iugoslávia, à época o mais idoso medalhista olímpico vivo. A tocha olímpica também veio carregada de emoção: entre o público e os jornalistas, parecia certo que Mark Spitz, nove ouros na natação, receberia a honra de acender a pira. Quem subiu com a tocha os degraus que levavam à enorme pira, porém, foi outro prodígio da natação, Janet Evans, quatro ouros e uma prata em 1988 e 1992. Parecia que Evans iria acender a pira, mas, já no alto da escada, ela entregou a tocha para um atleta que sequer estava relacionado entre os que participariam do revezamento. Quando o facho de luz o iluminou, quem o reconheceu quase não conseguiu falar: era ninguém menos que Muhammad Ali, uma das maiores lendas da história do boxe, e vítima de uma das maiores injustiças da história dos Estados Unidos, quando, ao retornar à sua pátria com a medalha de ouro conquistada em Roma, 1960, foi impedido de comer em uma lanchonete apenas por ser negro, e, com raiva, jogou sua medalha no fundo do Rio Ohio. O estádio desabou em aplausos quando o narrador anunciou seu nome. Aos 54 anos, afligido pelo Mal de Parkinson, Ali mal conseguiu pegar a tocha da mão de Evans. Levou mais de um minuto para acender um cordão que levou o fogo sagrado até a pira, um minuto no qual bilhões de pessoas ao redor do mundo foram tocadas pela emoção. Mais tarde, muitos jornais escreveram que os Jogos de Atlanta deveriam ter acabado ali mesmo, e mesmo assim seriam lembrados para sempre.

Ali ainda receberia uma segunda homenagem, durante o intervalo da partida final do basquete masculino, quando recebeu uma réplica da medalha que jogou fora, diante dos aplausos de 35.000 pessoas. A organização pode ter sido péssima em muitos quesitos, mas pelo menos não faltaram emoções em Atlanta.

Os Jogos de 1996 ocorreram entre 19 de julho e 4 de agosto, contando com a participação recorde de 10.750 atletas - pela primeira vez atingindo a casa das dezenas de milhar - dos quais 3.766 eram mulheres. Todas as nações filiadas ao COI, exatas 197, enviaram delegações. O programa olímpico contou com 32 esportes, atletismo, badminton, basquete, beisebol, boxe, canoagem, ciclismo, equitação, esgrima, futebol, ginástica artística, ginástica rítmica, halterofilismo, handebol, hóquei, judô, luta greco-romana, luta livre, nado sincronizado, natação, pentatlo moderno, pólo aquático, remo, saltos ornamentais, softbol, tênis, tênis de mesa, tiro, tiro com arco, vela, vôlei e vôlei de praia, para um total de 271 competições esportivas. O mascote de Atlanta conseguiu entrar para a história como um dos menos notados dos Jogos: querendo ser engraçadinhos, os organizadores criaram um bicho fictício, que saiu parecido com um espermatozóide, ao qual deram o nome de Whatizit (algo como "Quéisso"). Apelidado Izzy, o mascote foi solenemente ignorado pelo público presente em Atlanta, e encalhou bonito. Acabou ganhando mais notoriedade como exemplo de como um mascote não deve ser.

No campo esportivo, pelo menos, pouco há que se reclamar dos Jogos de 1996. Várias disputas, principalmente no atletismo, ciclismo, ginástica, futebol, natação, vela e vôlei, foram extremamente empolgantes. Quem não se importou com a carestia, o calor e as revistas de segurança, não saiu de Atlanta decepcionado.

No atletismo, por exemplo, basta citar a final dos 100 metros rasos, a primeira em 20 anos sem nenhum norte-americano no pódio, descontando o boicote de 1980, e logo dentro dos Estados Unidos. As emoções começaram já na largada, queimada duas vezes pelo medalhista de ouro de Barcelona, o britânico Linford Christie, que acabou desclassificado. O ouro acabou ficando com o canadense Donovan Bailey, segundo a cronometragem o último a reagir ao tiro de largada, mas que conquistou a vitória com uma arrancada impressionante a partir do meio da prova, quebrando o recorde mundial por um centésimo de segundo. Completaram o pódio Frank Fredericks, da Namíbia, e Ato Bolton, de Trinidad e Tobago. Dois dos norte-americanos inscritos terminaram em quarto e quinto lugar, enquanto o terceiro, Jon Drummond, que havia eliminado Carl Lewis nas seletivas dos Estados Unidos, ficou na semifinal.

Lewis, pelo menos, conseguiu uma proeza em Atlanta: sua nona medalha de ouro olímpica, aos 35 anos, e quarto ouro seguido, repetindo o feito de seu compatriota Al Oerter entre 1956 e 1968. Oerter ganhara quatro ouros no arremesso do disco, Lewis os ganhou no salto em distância, onde sequer era o favorito; este posto pertencia a outro norte-americano, Mike Powell, que em 1991, com um salto estratosférico de 8m95, havia quebrado um dos recordes mundiais mais antigos da modalidade, o do jamaicano Bob Beamon nas Olimpíadas de 1968, no México. Com uma lesão na coxa, Powell queimou quase todas as suas tentativas, e, quando finalmente saltou, desabou de dor, rolando pela areia e chorando, uma imagem que correu o mundo. Lewis, que não ia muito com a cara de Powell, conseguiu então seu ouro com bastante facilidade, 8m50, mais de 20 centímetros a mais que o medalhista de prata, o jamaicano James Beckford.

A vitória de Lewis acabou o envolvendo em uma polêmica: ele havia sido selecionado como reserva da equipe de revezamento 4 x 100 metros, mas já anunciara que não tinha intenção de correr. Se ganhasse um décimo ouro, porém, se tornaria o maior vencedor da história do esporte mundial. Um dia antes da final, Leroy Burrell, que havia participado de todas as eliminatórias com a equipe, informou aos treinadores que estava com dores no calcanhar, e não iria correr. Imediatamente, começou a pressão para que Lewis fosse escalado, e reclamações por parte de outros atletas que Burrell teria recebido dinheiro para desistir e dar lugar para Lewis. Sem querer saber de confusão, Dennis Mitchell, o capitão do time, pediu para que Tim Harden, que tinha pouca experiência internacional, mas um tempo melhor que o de Lewis nas seletivas, ocupasse o lugar de Burrell. Toda a polêmica, porém, acabou prejudicando o time norte-americano: na hora da final, diante de um Donovan Bailey em forma espetacular, os Estados Unidos acabaram perdendo o ouro, dentro de casa, para o Canadá. Atrás de canadenses e norte-americanos chegou o time do Brasil, composto por Arnaldo Silva, Robson Caetano, Édson Ribeiro e André Silva, uma surpreendente medalha de bronze, quebrando o recorde sul-americano.

Ainda no atletismo, outro atleta dos Estados Unidos conseguiu uma proeza considerada por muito tempo impossível, vencer os 200 e os 400 metros em uma mesma edição dos Jogos. Um atleta chamado Michael Johnson, apelidado Pato por seu estilo peculiar de correr, o tronco ereto e passadas muito curtas, justamente o contrário do que todos os treinadores de atletismo afirmam ser o melhor para ganhar mais velocidade. Até hoje, inclusive, se debate se, se Johnson corresse da maneira usual, seria ainda mais rápido.

A confiança em Johnson era tanta que, quando ele conseguiu a classificação para ambas as finais, a organização resolveu antecipar a dos 400 metros, pois originalmente ela aconteceria no mesmo dia da dos 200. Ao antecipar, a final acabou coincidindo com a do salto em distância, onde competia Carl Lewis. Diante de um estádio lotado, mais de 70 mil pessoas, Johnson impôs seu ritmo com facilidade, e venceu com quase um minuto de vantagem sobre o britânico Roger Black, novo recorde olímpico. Três dias depois ele voltava à pista para completar sua proeza, ganhando o ouro dos 200 metros com novo recorde olímpico e mundial, desta vez com mais dificuldade, terminando à frente de Fredericks e Bolton, que repetiram seus resultados dos 100 metros. Johnson ainda teve uma equivalente no feminino, a francesa Marie-José Perec, medalhista de ouro nos 400 metros de 1992, ouro nos 200 e 400 metros de 1996, repetindo a proeza da norte-americana Valerie Brisco-Hooks em 1984.

Outro destaque do atletismo de Atlanta veio da África, o etíope Haile Gebre Selassie, batizado em homenagem ao antigo imperador Haile Selassie, favoritíssimo ao título dos 10.000 metros, e que ganhou o ouro com uma tática inusitada: permitiu que atletas desconhecidos, sem chance de vitória, liderassem a prova, enquanto apenas prestava atenção em seus principais rivais, o queniano Paul Tergat e o marroquino Salah Hissou. Tergat assumiu a ponta nos 7.000 metros, e liderou até os 9.700, quando Gebre Selassie, arrancando como se tivesse acabado de ouvir o tiro de largada de uma prova de 100 metros, o ultrapassou, e terminou a prova com quase cinco metros de vantagem, quebrando o recorde olímpico. Depois desta demonstração, Gebre Selassie se tornou ainda mais favorito para a prova dos 5.000 metros, para a qual também estava inscrito, mas, contente com seu ouro, desistiu de participar. Sem ele, toda a tática dos demais corredores mudaria, e os favoritos passaram a ser os quenianos, famosos por correr "em grupo", se protegendo até que um abrisse vantagem perto do final. De fato, esta técnica quase vingou, e o vencedor quase foi Paul Bitok, mas o queniano acabou sendo surpreendido nos últimos metros por Vetuste Niyongabo, do Burundi, que o ultrapassou e ganhou o ouro com duas passadas de vantagem, deixando Bitok com os olhos arregalados e as mãos na cintura, sem entender o que havia acontecido.

A principal decepção do atletismo ficou por conta de Maria Mutola, de Moçambique, até hoje uma das maiores corredoras dos 800 metros. Apesar da pouca idade, 23 anos, Mutola considerava que nenhuma corredora poderia vencê-la na distância, e sequer se esforçou durante a corrida. Deixou que a russa Svetlana Masterkova, 28 anos, que não competiu entre 1993 e 1995 por estar grávida e depois com filho pequeno, liderasse a prova com ritmo bastante lento durante um bom tempo. Mutola acreditava que bastava arrancar nos metros finais e venceria com facilidade, mas, encaixotada entre a cubana Ana Quirot e a neozelandesa Toni Hodgkinson, não encontrou o espaço necessário. Masterkova acabou vencendo a prova, e nem ela mesma acreditou que o fizera, dando mais uma volta na pista, sem reduzir o ritmo, para comemorar com o público. Mutola acabou chegando na terceira posição, atrás ainda de Quirot, que meses antes da prova havia sofrido um acidente e ficado com 40% do corpo queimado. Três dias depois, Masterkova mostrou que não ganhara por acaso ao conquistar também o ouro dos 1.500 metros, prova da qual Mutola, desgastada por seu fracaso nos 800 metros, desistiu de participar.

Mas fora do atletismo também tivemos muitos heróis, como o turco Naim Süleymanogiu, primeiro atleta a conseguir três medalhas de ouro no halterofilismo. Nascido na Bulgária, filho de imigrantes, Naim começou a se dedicar ao esporte cedo, e em 1985, aos dezoito anos, já detinha o recorde mundial das categorias penas e galos, e poderia ter conseguido sua primeira medalha olímpica já em 1984, se a Bulgária não tivesse decidido boicotar os Jogos. Apesar de seu sucesso, Naim se ressentia com sua pátria, que perseguia os imigrantes turcos, e em 1985 obrigou todos eles e seus descendentes a adotar nomes búlgaros, mudando o seu para Naim Suleimanov. Irritado, após o Campeonato Mundial de 1986, em Melbourne, na Austrália, Naim pediu asilo na embaixada da Turquia, e fugiu para o país de origem de seus pais. Naim se naturalizou turco, mas a Bulgária exigiu um milhão de dólares para liberá-lo para competir sob a bandeira da Turquia. Confiando no potencial do rapaz, o governo turco pagou de bom grado, e não se arrependeu. Em 1988, Naim foi ouro na categoria penas com enorme facilidade, e ainda quebrou o recorde mundial. Em 1992, muitos dos competidores ficaram tão apavorados de ter de enfrentá-lo que sequer chegaram perto de suas melhores marcas, fazendo com que ele chegasse a um segundo ouro tendo como única ameaça seu ex-compatriota Nikolai Peshalov. Em 1996, graças a uma mudança na tabela de pesos, Naim foi enquadrado na categoria galos. Melhor para ele, que, sem adversários de seu nível, conseguiu mais um recorde mundial, e o terceiro ouro seguido em seu esporte.

Na luta livre também não faltou emoção, a começar pela luta, na segunda rodada da categoria médios, entre os irmãos Elmadi e Lucman Jabrailov. Ambos nasceram na Chechênia, república que desde o fim da União Soviética tenta se separar da Rússia sem sucesso. Com o fim de sua pátria, os atletas soviéticos puderam escolher qual novo páis iriam representar; evidentemente, nenhum dos dois irmãos quis a cidadania russa, país opressor de sua pátria natal. Curiosamente, porém, cada um deles optou por um país diferente: Elmadi lutava pelo Cazaquistão, Lucman pela Moldova. Ambos acabaram se classificando para os Jogos, e se enfrentando mais cedo do que esperavam. A luta foi muito mais cortês que o normal, mas mesmo assim Elmadi ganhou por 10 a 8. Elmadi perderia nas quartas de final, terminando no sexto lugar geral. Outro bom momento foi o ouro do norte-americano Kurt Angle, categoria pesados. Durante as seletivas norte-americanas, Angle sofreu uma lesão no pescoço que fraturou duas vértebras, e quase o deixou paraplégico. Ainda assim ele se classificou, se recuperou, e chegou à final olímpica, onde venceu o favorito iraniano Abbas Jadidi por decisão dos jurados, após uma luta de oito minutos que terminou empatada em 1 a 1. No final de 1996, Angle assinou um contrato com a WWE, a famosa liga de telecatch norte-americana, se tornando o único medalhista olímpico a participar da liga. Pela WWE, Angle seria campeão seis vezes, e se tornaria conhecido como o lutador que ganhou o ouro olímpico "com o pescoço quebrado".

Em termos de emoção, porém, para os norte-americanos nenhum esporte superou a ginástica artística, onde as meninas-norte-americanas, que no individual conquistariam apenas um ouro, com Shannon Miller na trave de equilíbrio, e dois bronzes, com Dominique Dawes, primeira negra medalhista neste esporte, no solo e Amy Chow nas barras assimétricas, conquistariam, dentro de casa, o ouro dos exercícios combinados, à frente da Rússia e da Romênia. Muitos atribuem este sucesso ao sacrifício de Kerri Strug, 18 anos. Diante de um ginásio totalmente lotado, ao fazer seu primeiro salto sobre o cavalo, Strug torceu violentamente o tornozelo na aterrissagem, rompendo dois ligamentos. Mesmo assim, ela decidiu fazer o segundo salto, correu como se a perna estivesse boa, e aterrissou em um pé só, mas de forma perfeita. Logo após saudar o público e os juízes, Strug caiu no chão, desabada em lágrimas, ao som de um aplauso animadíssimo. Com a perna enfaixada, Strug teve de ser carregada até o pódio por seu treinador. Ela não pôde participar das provas individuais, mas foi alçada à categoria de heroína olímpica, e a imagem de seu segundo salto foi considerada uma das mais marcantes dos Jogos de 1996.

No tênis, a medalha de ouro das simples masculinas foi para o ídolo e favoritíssimo norte-americano Andre Agassi, único tenista a ter ganho os quatro Grand Slams e mais o ouro olímpico, embora em anos diferentes. O torneio poderia ter sido ainda mais emocionante se o número um do mundo, o também norte-americano Pete Sampras, não tivesse desistido de disputá-lo no último momento. O brasileiro Fernando Meligeni terminou na quarta colocação, graças a uma mudança no regulamento: valessem as regras de Barcelona, apenas por ter sido derrotado na semifinal ele já teria uma medalha de bronze. No feminino, o ouro também ficou com uma norte-americana, Lindsay Davenport, e a número um do mundo, a alemã Stefi Graf, também ficou de fora, mas por causa de uma lesão. A partida mais comentada do torneio, porém, envolveu a desconhecida húngara Virag Csurgo, que a princípio disputaria apenas o torneio de duplas. Na manhã do dia 24 de julho, Csurgo estava fazendo um treino leve quando um dos fiscais se aproximou e a avisou que uma das tenistas não havia aparecido para sua partida de estréia, e que o regulamento permitia que, no caso, outra atleta tomasse seu lugar. Se Csurgo estivesse interessada, bastava comparecer à quadra onde a partida se realizaria. O problema é que faltavam apenas cinco minutos para o início da partida, quando o árbitro decretaria vitória da polonesa Aleksandra Olsza por WO. Csurgo nem trocou de roupa, correu para a quadra vestindo um short velho e uma camiseta, levando apenas sua raquete de treino, e ainda por cima venceu a partida. Infelizmente, ela acabaria derrotada no jogo seguinte pela japonesa Kimiko Date, que terminaria o torneio em quinto lugar.

No tênis de mesa, a chinesa Deng Yaping, ouro nas simples e nas duplas de Barcelona, ao lado de Qiao Hong, repetiu ambas as conquistas em Atlanta. Sua compatriota Fu Mingxia, 17 anos, ouro na plataforma dos saltos ornamentais quatro anos antes, também bisou a conquista, desta vez quarenta pontos à frente da segunda colocada, e de quebra arrebatou o ouro também no trampolim. Outra chinesa, Lee Lai Shan, representando Hong Kong, foi ouro na categoria IMCO da vela. Mesmo sendo desconhecida, e não estando em nenhuma lista de favoritas, Shan terminou a série de regatas catorze pontos à frente da campeã de 1992, a britânica Barbara Anne Kendall, e ganhou a primeira e única medalha olímpica de Hong Kong. Ainda na vela, o austríaco Hubert Raudaschl, categoria Star, se tornou o primeiro atleta a competir em nove Olimpíadas seguidas - e poderiam ter sido dez, já que em 1960 ele ficou na reserva. Neste tempo todo, Raudaschl conquistou duas medalhas, uma prata em 1980 e outra em 1968, mas na categoria Finn. E já que estamos falando em vela, o Brasil trouxe das águas de Wassaw, na cidade de Savannah, 700 Km de Atlanta, onde se desenrolaram as provas, três excelentes resultados: Robert Scheidt, 23 anos mas já bicampeão mundial, ganhou o ouro da classe Laser, 11 pontos à frente de seu principal rival, o britânico Ben Ainslie; Torben Grael, prata em 1984 na classe Soiling, e bronze em 1988 na Star ao lado de Nélson Falcão, desta vez conseguiu uma medalha de ouro, novamente na Star, em companhia de Marcelo Ferreira; e Lars Grael, irmão mais novo de Torben, bronze na categoria Tornado em 1988 ao lado de Clínio de Freitas, repetiu o bronze na mesma categoria, mas agora acompanhado de Kiko Pelicano.

A natação contou com vários destaques, a começar pelo russo Alexander Popov, que frustrou a pretensão do norte-americano Gary Hall Jr ao ganhar o ouro dos 50 e dos 100 metros livre, deixando o rival com a prata nas duas provas. Hall só conseguiria dar o troco nos revezamentos 4 x 100 metros livre e medley, onde os Estados Unidos ganhariam o ouro, deixando a Rússia, com Popov no time, com a prata. O Brasil foi muito bem nas piscinas, com Gustavo Borges ganhando duas medalhas, um bronze nos 100 metros livre, atrás apenas de Popov e Hall, e uma prata nos 200 metros livre, prova que liderou e poderia ter vencido, mas onde foi surpreendido pelo neozelandês Danyon Loader, que deu uma arrancada impressionante nos metros finais. Menos mal, Gustavo quebrou o recorde sul-americano, e ainda conquistou a primeira medalha do Brasil em 1996. O nadador Fernando Scherer, apelidado Xuxa, também conseguiu um excelente resultado, bronze nos 50 metros livre, atrás mais uma vez apenas de Popov e Hall. Xuxa ainda ficaria com o quinto lugar nos 100 metros livre. O revezamento 4 x 100 livre, com Xuxa, Gustavo, Alexandre Massura e André Cordeiro, terminou a prova em quarto lugar, pouco mais de um segundo atrás da Alemanha.

O maior destaque dos Estados Unidos foi uma moça, Amy Van Dyken, 23 anos, quatro ouros, nos 50 metros livre, 100 metros borboleta, e nos revezamentos 4 x 100 metros livre e medley. Também entraram para a história a sul-africana Penelope Heyns, 21 anos, primeira mulher a ganhar o ouro dos 100 e dos 200 metros peito em uma mesma edição dos Jogos, e primeiro ouro da África do Sul após seu retorno às Olimpíadas em 1992; e a irlandesa Michelle Smith, três ouros, nos 400 metros livre, 200 e 400 metros medley, e um bronze nos 200 metros borboleta. As conquistas de Smith, porém, ficaram em segundo plano diante de pesadas acusações de doping. Nada foi provado, mas ela acabou sendo pega em um anti-doping de rotina em 1998, e banida do esporte. Smith não perdeu suas medalhas olímpicas, mas acabou perdendo toda a sua popularidade.

Além do futebol feminino, vencido pelos donos da casa com o Brasil terminando em quarto, e da categoria mountain biking no ciclismo, dois novos esportes entraram para o programa olímpico em Atlanta: o softbol, uma versão diferente do beisebol, disputado apenas na versão feminina - e considerado por mutos como o "beisebol feminino" já que este só era disputado na versão masculina - e o vôlei de praia, extremamente popular nos Estados Unidos na época. No masculino, o Brasil, mesmo contando com a dupla número um do mundo, Franco Vieira e Roberto Lopes, não conseguiu resultados expressivos, mas no feminino as brasileiras deram um show: Jaqueline Silva e Sandra Pires se tornaram as primeiras mulheres do Brasil a conquistar uma medalha de ouro olímpica. Melhor que isso, a final foi toda verde e amarela, pois ficaram com a prata as também brasileiras Mônica Rodrigues e Adriana Samuel, irmã de Tande, campeão na quadra em Barcelona. Adriana e Mônica perderam justamente para Jackie e Sandra no final da primeira fase, mas, graças ao regulamento, que permitia uma repescagem, conseguiram continuar no torneio até chegar na final. Detalhe: apesar da enorme torcida, os norte-americanos, ouro e prata no masculino, saíram do torneio feminino frustrados, pois Linda Hanley e Barbra Fontana-Harris perderam o bronze para as australianas Natalie Cook e Kerri Potharst.

No outro vôlei, o de quadra, o Brasil era o favorito para ambos os ouros, mas acabou sem nenhum. No masculino, em parte devido a uma contusão de Carlão, o Brasil perdeu nas quartas de final por 3 sets a 2 para a Iugoslávia, e terminou em quinto lugar. No feminino, o Brasil começou arrasador, perdendo apenas um set nas seis primeiras partidas. Na semifinal contra Cuba, a campeã de 1992, chegou a estar ganhando por 2 sets a 1. As cubanas, porém, começaram a provocar acintosamente as brasileiras, sem que os árbitros nada fizessem. Desestabilizadas emocionalmente, as meninas do Brasil permitiram a virada de Cuba, e perderam no tie break. O Brasil acabou o torneio com uma medalha de Bronze, aclamado pela torcida com gritos de "campeão no nosso coração", e com uma amarga sensação de que o ouro havia sido desperdiçado.

No basquete, a história foi quase igual, mas com um desfecho um pouco melhor. No masculino, todos já sabiam que o ouro seria dos Estados Unidos, que mais uma vez levou um time composto pelos milionários profissionais da NBA. Desta vez, porém, o time não empolgou, jogando burocraticamente, e com o técnico fazendo inúmeras alterações ao longo das partidas, como se quisesse exibir os jogadores para a platéia. Os Estados Unidos ganharam o ouro invictos, mas sem brilho. O Brasil, derrotado precisamente pelos norte-americanos nas quartas de final, terminou em sexto lugar, mas pôde se consolar com a atuação de Oscar, em sua quinta Olimpíada, primeiro jogador a ultrapassar a casa de mil pontos nos Jogos. Oscar acabou aparecendo mais que os norte-americanos nos jornais e revistas, e emocionado, após o torneio anunciou em rede mundial sua despedida da seleção.

No feminino, assim como no vôlei, o Brasil era um dos favoritos ao ouro, principalmente por contar com jogadoras como Hortência, Paula, Marta, Janeth e Leila. O Brasil chegou à decisão invicto, mas todos sabiam que seria praticamente impossível ganhar dos Estados Unidos em casa. No final, as norte-americanas deixaram o Brasil com a prata, mas as grandes exibições do time brasileiro fizeram com que os jornais o elegessem como "campeão moral" do torneio.

Decepção para o Brasil mesmo, ocorreu no futebol. Mais uma vez o regulamento foi mudado, permitindo que cada seleção fosse composta de jogadores abaixo de 23 anos, com até três acima deste limite, independente de serem profissionais ou não, de já terem participado da Copa ou não. Soubesse montar bem seu time, o Brasil, favorito desde antes do torneio começar, seria imbatível. O time do técnico Zagallo, porém, sofreu críticas desde sua escalação. Sem conseguir se acertar, o time do Brasil passou pelo torneio aos tropeções, perdendo do Japão por 1 a 0, se recuperando contra a Hungria, 3 a 1, sofrendo para derrotar a Nigéria, 1 a 0, e se recuperando de novo contra Gana, 4 a 2. Veio, então, a semifinal, mais uma vez contra a Nigéria. O Brasil chegou a estar ganhando por 3 a 1, mas deixou a Nigéria empatar, 3 a 3. O jogo então foi para a prorrogação, que seria decidida no então novo sistema do "gol de ouro", quem marcasse primeiro ganharia o jogo, independente do tempo transcorrido. Aos três minutos, a Nigéria decretou o fim do sonho do ouro brasileiro. O Brasil ainda conseguiria o bronze ao ganhar de Portugal por 5 a 0, mas produziu um verdadeiro papelão ao solicitar a entrega das medalhas logo após o jogo, e voltar correndo para casa, sem nem esperar a final - onde a Nigéria se sagrou campeã ao derrotar a Argentina, diga-se de passagem.

O Brasil enviou a Atlanta a maior delegação de sua história, 225 atletas, sendo 66 mulheres. Não se arrependeu: voltou com um número recorde de 15 medalhas, ganhando pela primeira vez 3 de ouro em uma mesma edição dos Jogos, além de 3 de prata e 9 de bronze, ficando à frente, no quadro não-oficial de medalhas, de nações como Grã-Bretanha, Finlândia, Suécia, Quênia e Iugoslávia. Além das medalhas já citadas ao longo deste texto, o Brasil ainda conseguiu três outros bronzes, dois deles no judô, com Henrique Guimarães na categoria meio-leves, e com Aurélio Miguel, campeão de 1988, nos meio-pesados; e um na equitação, a primeira medalha do país neste esporte, em uma belíssima apresentação de Álvaro de Miranda Neto, montando Aspen, André Johannpeter, montando Calei, Luíz Felipe de Azevedo, montando Cassiana, e Rodrigo Pessoa, montando Tomboy, na prova por equipes do Prêmio das Nações, uma das provas de maior prestígio, onde perdeu apenas para Alemanha e Estados Unidos, e ficou à frente de nações de muita tradição, como Espanha, França e Suíça.

Os Jogos de Atlanta foram encerrados por uma Cerimônia ainda mais chata que a de Abertura, porque não teve nenhum momento especialmente emocionante. Nos últimos dias, a cidade até resolveu ganhar dinheiro com a própria desgraça, vendendo camisetas com os dizeres "eu sobrevivi a Atlanta". Muitos dos patrocinadores saíram manchados do evento, como a IBM, que não conseguiu instalar todos os computadores que prometeu, e os que foram instalados apresentaram centenas de problemas - um deles chegou a distribuir para a imprensa o resultado final de um jogo de basquete como sendo 1 a 0. A bagunça foi tanta que muitos delegados do COI foram acusados de ter recebido propina para escolher a cidade como sede. Nada ficou provado, mas pelo menos ficou o exemplo para os Jogos subseqüentes: dinheiro é bom e muito necessário, mas não pode ser a estrela principal de uma Olimpíada.

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