sábado, 28 de abril de 2007

Escrito por em 28.4.07 com 3 comentários

O Mundo Secreto de Alex Mack

Eu não sou um seriemaníaco. Não que eu não goste de séries, muito pelo contrário, o que me incomoda é ter que estar uma ou mais vezes por semana de frente com a televisão em um horário pré-definido, e, quando não der, ter que gravar ou assistir à reprise; ou ter de procurar os episódios antigos ou ficar deduzindo o que aconteceu quando se começa a acompanhar uma série pelo meio; enfim, todo esse compromisso que quem acompanha séries já deve conhecer. Recentemente, eu até tentei acompanhar algumas, como Lost e Enterprise, mas acabei largando no meio por ter perdido um monte de episódios. A única que eu tenho conseguido acompanhar é Grey's Anatomy. Talvez porque eu não tenha nada melhor para fazer às segundas à noite.

Mas houve um tempo em que não era bem assim. Mais precisamente, logo depois que instalaram TV a cabo aqui em casa pela primeira vez ("primeira vez" porque depois eu fiquei uns três anos sem, e aí instalaram pela "segunda vez"). Na época, eu acompanhava umas dez ou doze séries; quase todo dia eu tinha um horário marcado com a televisão. Como eu era praticamente um adolescente, muitas destas séries eram infanto-juvenis, como Step by Step e Minha Vida de Cão (bem, este talvez não tão "infanto" assim). De todas elas, a que eu mais gostava era O Mundo Secreto de Alex Mack.

Ok, não era nenhuma produção digna de ganhar vários Emmys, mas ainda assim era divertido. Tinha vilões burros, efeitos especiais toscos, protagonistas adolescentes, enfim, tudo aquilo que eu provavelmente criticaria se a série estivesse indo ao ar hoje, mas que eu adorava na época. Todos os dias eu tinha um encontro marcado com "a Alex", e ainda arrastava minha mãe e minha irmã para ver também. Bons tempos.

AlexA série, cujo nome original era The Secret World of Alex Mack, era sobre a vida de uma garota, Alexandra Mack, apelidada Alex, 12 anos de idade. Se fosse só isso, provavelmente seria uma série chatíssima, já que pré-adolescentes de 12 anos não são exatamente conhecidas por viverem vidas cheias de emoção. Para apimentar um pouco mais as coisas, Alex tinha superpoderes. Apesar disso, não era uma série de super-heróis.

Alex (Larisa Oleynik) vivia com seu pai, George (Michael Blakley), sua mãe, Barbara (Dorian Lopinto), e sua irmã mais velha, Annie (Meredith Bishop), na pequena e tranqüila cidade de Paradise Valley. Tal cidade praticamente cresceu em volta da Atron Chemical, um laboratório cujo simpático slogan era "progresso a qualquer custo", onde trabalhavam quase todos os seus moradores, e que financiava quase tudo o que há na cidade, como o colégio e o shopping. Alex era o que nos Estados Unidos se costuma chamar de tomboy, uma menina que não se interessa por "coisas de menina", preferindo vestir "roupas de menino" e fazer coisas como andar de skate e jogar futebol a usar vestidos e fofocar com as amigas. Infelizmente, este traço peculiar de sua personalidade faz com que ela seja incluída entre os párias da escola (aqueles que, no curioso sistema de relacionamentos escolares norte-americano, não são "populares"). Apesar disso, Alex é carinhosa e tem vários amigos. Seus maiores defeitos são uma certa ingenuidade, e uma enorme inveja de sua irmã, que é inteligentíssima, e sempre atrai mais atenção da família que a caçula desengonçada.

Pois bem, um dia Alex acordou e foi para a escola, para talvez se arrepender: chegou atrasada, foi infernizada pelos veteranos (curiosamente, uma das veteranas era a atriz Jessica Alba) e, ao retornar para casa no final deste péssimo dia, quase foi atropelada por um caminhão. Tal caminhão era de propriedade da Atron, e carregava tonéis com um novo composto experimental secretíssimo, o GC-161. Ao frear repentinamente para não passar por cima de Alex, o motorista do caminhão acabou derrubando um dos tonéis, que deu um banho de GC-161 na menina. Assustada e revoltada com essa porcaria de dia, Alex fugiu para casa, e pôs-se a refletir sobre sua vida miserável.

Havia um motivo para o GC-161 ser experimental e secreto: a CEO da Atron Chemical, Danielle Atron (Louan Gideon), planejava vender o composto como um remédio para auxiliar na perda de peso, mas testes preliminares informavam que poderiam haver sérios efeitos colaterais. Uma pessoa banhada em GC-161 andando por aí, portanto, era uma séria ameaça à empresa, pois poderia sofrer os tais efeitos colaterais e arruinar todo o projeto, desperdiçando os milhões de dólares gastos no desenvolvimento do produto. Danielle, porém, tinha um trunfo a seu favor: como toda Paradise Valley dependia do laboratório, seria fácil fazer com que a cidade se voltasse não contra ela, mas contra a vítima do acidente - que poderia vir a ser a responsável por fechar o laboratório e arruinar a cidade. Para usar deste trunfo, porém, Danielle precisava capturar a vítima antes que ela expusesse sua história, e que o acidente se tornasse conhecido fora da cidade.

Para capturar a vítima, Danielle convocou Vince Carter (John Marzilli), um ex-fuzileiro naval e atual chefe da segurança do laboratório, e designou para ajudá-lo David Watt (John Nielson), o motorista do caminhão envolvido no acidente. Vince realmente era muito esperto e desenvolvia ótimos planos, mas quase sempre eles acabavam arruinados pelo próprio David, que era extremamente estúpido, e ainda tinha um bom coração, se recusando a colaborar com Vince se tivesse de se envolver em algum crime ou machucar de alguma forma a criança que estavam tentando capturar. Aliás, esta era uma dificuldade extra para a dupla: por causa das roupas de Alex, David não tinha certeza se tinha derrubado o produto em cima de um menino ou de uma menina (em inglês todos se referiam a ela como "the kid", uma expressão para "garoto" que não é masculina nem feminina, mais ou menos igual "criança"), nem conseguia precisar sua faixa etária correta, então eles tinham de procurar dentre todas as crianças e adolescentes de Paradise Valley.

Felizmente para Alex, os sérios efeitos colaterais do GC-161 não incluíam morte ou câncer, mas superpoderes. Graças ao banho que tomou, Alex foi agraciada com telecinese (a capacidade de mover objetos com a força do pensamento); capacidade de lançar raios elétricos pelas pontas dos dedos que, além de dar choques em pessoas, podiam ser usados para fazer funcionar ou destruir equipamentos eletro-eletrônicos; capacidade de gerar um campo de força praticamente impenetrável; e a capacidade de se transformar em uma espécie de metal líquido, forma na qual ainda podia se mover, ver e ouvir normalmente - no primeiro episódio, quando Alex se liquefez suas roupas caíram ao chão, e quando ela voltou à forma normal estava nua, mas isso gerou alguns protestos dos pais norte-americanos, já que era um seriado infanto-juvenil e a atriz tinha só doze anos, então a partir do segundo suas roupas passaram a se liquefazer com ela. Alex só revelou seus novos poderes a duas pessoas, sua irmã Annie e seu melhor amigo, Ray Alvarado (Darris Love).

George, Alex, Barbara, Ray e AnnieInfelizmente, os poderes de Alex não tornaram sua vida tão mais fácil quanto ela gostaria. Orientada por Annie, ela decidiu não revelar seu segredo a mais ninguém, nem mesmo a seus pais - afinal, seu pai era um importante cientista que trabalhava na Atron, e desconhecia que Danielle fosse uma mulher malvada, então era bem provável que ele fosse querer levar a filha para testes lá no laboratório. A própria Annie se encarregava de realizar testes em Alex, preocupada com a saúde da irmã, e tentando encontrar a origem dos poderes. Como não podia mostrar seus poderes em público, Alex continuava sendo uma pária, o que colocava a ela e a seus amigos nas já tradicionais situações constrangedoras às quais os párias são submetidos nas escolas norte-americanas. Além de Ray, eram amigos de Alex a voluntariosa e determinada Nicole Wilson (Alexis Fields), a pessimista e tímida Robyn Russo (Natanya Ross) e, a partir da segunda temporada, o inteligente mas atrapalhado Louis Driscoll (Benjamin Smith).

Na maior parte dos episódios, a função dos superpoderes de Alex era livrá-la da perseguição de Vince e David. Uma vez ou outra ela ainda conseguia usá-los para ajudar a si e a seus amigos a superar algum problema, e muitas vezes eles eram eram a própria causa do problema, sendo necessário que Ray ou Annie usassem de muita imaginação para acobertar Alex. No fundo, O Mundo Secreto de Alex Mack era uma série sobre as agruras da puberdade. Nos Estados Unidos, ela é muito comparada a Sabrina, Aprendiz de Feiticeira, pois tanto Sabrina quanto Alex têm incríveis poderes, mas estes não as ajudam com os problemas típicos da adolescência - pelo contrário, acabam só servindo para metê-las em mais confusão.

O Mundo Secreto de Alex Mack foi produzido pelo canal Nickelodeon, e exibido durante quatro temporadas, com um total de 78 episódios, entre 8 de outubro de 1994 e 15 de janeiro de 1998, sempre aos sábados à noite. Curiosamente, ao contrário dos demais programas da Nickelodeon, que costumam ser reprisados até a exaustão, nunca mais voltou ao ar. A única vez em que ele foi reprisado nos Estados Unidos foi entre janeiro e junho de 2003, no canal a cabo The N. Aqui no Brasil, o seriado passou no final da década de 90 no canal Multishow - com som original e legendado - em uma faixa vespertina dedicada a programas da Nickelodeon, extinta quando o próprio canal Nickelodeon passou a fazer parte da grade de programação. Depois disso, ainda foi exibido dublado na Fox Kids, embora eu não me lembre bem em que época. Na Nickelodeon, que eu saiba, nunca passou. E, infelizmente, não parecem haver planos para lançá-lo em DVD, nem lá nem aqui.

Uma curiosidade sobre o seriado é que, diferentemente da imensa maioria dos seriados da Nickelodeon, ele tem um "final". Nos últimos episódios da quarta temporada, primeiro os pais de Alex, depois Danielle Atron, descobrem que ela tem superpoderes, e que estes superpoderes foram causados pela exposição ao GC-161. Seu pai consegue desenvolver uma "cura", que, se ingerida por Alex, acabará com seus poderes. Danielle, porém, está pronta para lançar seu novo produto baseado no GC-161 no mercado, e desenvolve um plano diabólico: amarra toda a família Mack dentro do laboratório, e arma bombas para explodi-lo, para acabar com qualquer prova de que o produto é nocivo à saúde. Como eu nunca vi estes episódios, não sei como eles fazem para escapar, mas sei que escapam, e que, no fim, Annie anuncia que Alex tomará a cura, mas a última cena a mostra segurando o frasco com a cura dentro e sorrindo, sem que o espectador saiba se ela realmente a tomou ou não.

Apesar do seriado ter sido considerado bem sucedido quando estava no ar, de todo o elenco apenas Larisa Oleynik conseguiu se tornar uma atriz razoavelmente famosa, atuando em filmes para adolescentes como 10 Coisas Que Eu Odeio em Você e 100 Garotas e na série 3rd Rock from the Sun; ela filma até hoje, apesar de na maior parte das vezes atuar em filmes considerados independentes ou de baixo orçamento. O resto do elenco ou sumiu, ou ficou fazendo participações em capítulos isolados de diversas outras séries. Talvez por isso O Mundo Secreto de Alex Mack tenha sido relegado a um certo esquecimento, ao contrário de outras séries da Nickelodeon (Clarissa me vem à mente) não tão boas, mas conhecidas e reprisadas até hoje.
Ler mais

sábado, 21 de abril de 2007

Escrito por em 21.4.07 com 0 comentários

Bruce Lee

Algumas pessoas vêm ao mundo aparentemente com uma missão a cumprir. Vêm, fazem o que tinham de fazer, e nos deixam, sem maiores explicações. Eu acredito que uma destas pessoas tenha sido Bruce Lee, o tema do post de hoje.

Como eu costumo dizer, eu tenho poucos ídolos, mas todos do mais alto escalão. Lee está entre eles. Confesso que nunca tinha me interessado por ele até assistir ao filme Dragão: A História de Bruce Lee, de 1993 (mas que eu devo ter assistido em 1996 ou 1997). Achei o filme tão legal que resolvi assistir aos demais filmes de Lee, bem como a alguns documentários. Acabei descobrindo que o filme exagera um pouco, que nem tudo do que aconteceu ali foi daquele jeito. Mas, mesmo assim, Bruce Lee tem uma história de vida impressionante, de um ser humano obstinado, que se dedicou de corpo e alma a uma paixão, no caso as artes marciais.

Bruce Lee nasceu no Hospital Chinês de São Francisco, Estados Unidos, no dia 27 de novembro de 1940. Foi o terceiro filho de um casal de Hong Kong, Hoi Chuen Lee, um ator da Ópera de Cantão, que estava se apresentando na cidade naquela época, e Gracie Lee, de ascendência chinesa e alemã. Quando nasceu, seus pais lhe deram o nome de Jun Fan, mas, por sugestão da Dra. Mary Glover, decidiram registrá-lo nos Estados Unidos - afinal, por ter nascido lá, ele era um cidadão americano - com o nome de Bruce. Seus pais, porém, não se refeririam a ele por nenhum destes dois nomes, mas por Sai Fung, um nome de mulher que significa "pequena fênix"; isto porque seu pai, muito supersticioso, acreditava que havia uma maldição que atacava a todos os homens da família, e, chamando-o por um nome de mulher, estaria confundindo os demônios, que não o atacariam.

Seja qual nome tivesse, Lee teve uma infância difícil, vivida em plena ocupação japonesa durante a Segunda Guerra Mundial. Por sorte, logo após o fim da Guerra, a indústria de entretenimento de Hong Kong começou a se reerguer, e seu pai conseguiu diversos papéis como ator, inclusive no cinema, que começava a ganhar força. Graças a seu pai, aos seis anos Lee ganharia papéis em três filmes produzidos na cidade. Seu primeiro papel no cinema, porém, foi antes mesmo de voltar a Hong Kong, "interpretando" um bebê em uma co-produção entre China e Estados Unidos, enquanto ele ainda estava em São Francisco. Lee teria uma bem sucedida carreira cinematográfica em Hong Kong, sob o nome artístico de Siu Lung, que significava "pequeno dragão", um contraponto ao seu nome feminino de "pequena fênix", e uma referência ao ano em que nascera, 1940, o Ano do Dragão no horóscopo chinês. Ele atuou em 18 filmes entre 1948 e 1959, sendo o mais famoso The Orphan, lançado em 1960, onde interpretava um delinquente juvenil.

Apesar disso, Lee vivia desencantado com a vida, achando que jovens chineses como ele não tinham espaço na sociedade de Hong Kong da década de 50, onde, segundo suas próprias palavras, os brancos ficavam com todos os bons empregos, e aos chineses só restava trabalhar para eles. Esta desilusão fez com que Lee se tornasse um adolescente problemático, incapaz de fazer progressos na escola, e que passava a maior parte do tempo nas ruas arrumando brigas. Aos 14 anos, seus pais o matricularam no colégio La Salle, que tinha aulas em inglês e era gerido pela Igreja Católica, para ver se a rigidez do ensino o livrava das ruas, mas acabou acontecendo justamente o contrário: Lee foi expulso do colégio por mau comportamento.

Sem desistir, seus pais o matricularam em um novo colégio católico, o St. Francis Xavier's College. Sem sossegar, Lee insistia que queria aprender uma arte marcial, para se defender dos valentões da escola. Seu pai era praticante de tai chi chuan, e começou a instruí-lo, mas ele achava o tai chi muito lento, e insistia para que seus pais o deixassem aprender kung fu. Cedendo a seus apelos, seus pais o matricularam na escola do lendário mestre Yip Man, onde a prática era que os alunos mais experientes ensinassem aos iniciantes. Nenhum aluno, porém, queria treinar Lee, por causa da tal maldição que rondava sua família. Lee acabou, então, sendo treinado pelo próprio Yip Man. Este treinamento mudou completamente sua vida, dando-lhe disciplina e concentração. Deixando um pouco a violência das ruas de lado, Lee chegou a se matricular em um curso de dança, e se tornou campeão de cha cha cha de Hong Kong.

A cada ano, o interesse de Lee pelo kung fu crescia, principalmente pela filosofia da arte marcial. Apesar disso, Lee sabia que, em uma situação real de combate, de nada adiantariam os movimentos coordenados e o respeito às antigas tradições que ele aprendia durante as aulas. Aos 18 anos, ele começou a tentar desenvolver sua própria forma de combate, cujo objetivo era ser extremamente adaptável, eliminando qualquer elemento surpresa do qual dispusesse o oponente. Lee não chegou a levar suas idéias muito longe, porém. Em 1959, os alunos da escola de kung fu Choi Li Fut desafiaram os alunos de Yip Man para um tira-teima. Supostamente, deveria ocorrer apenas uma exibição, sem contato físico, mas um dos alunos de Choi Li Fut atingiu Lee no rosto, deixando-o com um olho roxo. Enfurecido, Lee partiu para cima do rapaz, com uma seqüência de socos e chutes que deixou atônitos os observadores, mas resultou em apenas um dente quebrado no rival. Mesmo assim, os pais do rapaz deram queixa na polícia, que expediu uma ordem de prisão contra Lee. Além disso, o pai do rapaz era membro da gangue conhecida como Tríade, a mais temida de Hong Kong. Para que ele não tivesse sua juventude arruinada, seus pais decidiram enfiá-lo no primeiro navio rumo a São Francisco.

Durante a longa viagem, Lee ensinou cha cha cha aos passageiros, enquanto aproveitava para treinar seu inglês. Ao desembarcar nos Estados Unidos, ele já falava um inglês perfeito, e estava disposto a vencer como cidadão americano. A princípio, ele continuou com as aulas de dança, mas o que ganhava era muito pouco, então ele decidiu aceitar um convite de uma amiga de seu pai, Ruby Chow, que tinha um restaurante em Seattle, onde ele trabalharia como garçom em troca de um quarto e de um salário. Enquanto trabalhava, Lee estudava na Edison Technical School. Em 1962, após se formar, ele decidiu cursar filosofia na Universidade de Washington.

Enquanto estudava na Universidade, Lee, a pedido dos colegas, começou a ensinar kung fu, primeiro para um pequeno grupo de entusiastas, e mais tarde para qualquer um que quisesse aprender. Nesta época Lee já começava a desenvolver os princípios do que seria sua própria arte marcial, uma versão do kung fu que pudesse ser utilizada em situações reais que requisessem auto-defesa, e não somente em exibições e torneios. O fato de Lee estar bulindo com o kung fu, e ensinando ocidentais, irritou os donos das demais academias de Seattle, que só ensinavam as artes marciais clássicas, e apenas para descendentes de orientais. Um mestre de caratê decidiu tirar suas diferenças com Lee no braço, e o desafiou para uma luta, vencida por Lee em poucos segundos com uma seqüência devastadora de socos, finalizada com um chute na cabeça. A partir daí Lee começou a ganhar fama como um artista marcial excepcional, e o número de estudantes que queriam treinar com ele se multiplicou rapidamente. Em 1963, para poder ensinar um número maior de alunos, ele decidiu usar suas economias para abrir o Jun Fan Gung Fu Institute, que ele esperava ser o primeiro de uma grande cadeia de kwoons (o local onde se treina kung fu). Os professores do instituto seriam o próprio Lee e Jesse Glover, um lutador de judô que Lee havia conhecido em 1959, ainda na Edison Technical School, e que havia sido seu primeiro aluno de kung fu na América, tendo-lhe ensinado judô em troca.

Na mesma época, Lee começou a namorar sua futura esposa, Linda Emery, uma colega da Universidade de Washington, que também havia começado a treinar no Jun Fan Gung Fu Institute. A família da moça ficou desesperada ao saber que ela estava namorando um "china", mas Linda não estava nem aí, disposta a enfrentar a família e sofrer com o preconceito em nome de seu amor. Em junho de 1964, Lee viajou para Oakland, Califórnia, para abrir uma nova escola de artes marciais. Linda ficou em Seattle, e por um momento imaginou que Bruce jamais retornaria. Pouco tempo depois, porém, ele retornou e a pediu em casamento. Apesar de todos os esforços da família Emery para que o casamento não se concretizasse, Bruce e Linda Lee se casaram em 17 de agosto de 1964.

Após o casamento, Linda foi com Lee para Oakland, onde seu recém inaugurado Oakland Gung Fu Institute já era um enorme sucesso, lotado de estudantes. Mais uma vez, porém, o fato de Lee estar ensinando artes marciais a ocidentais irritou os demais mestres, que exigiram que ele parasse imediatamente. Lee ignorou a exigência, e acabou sendo desafiado para um novo duelo, desta vez contra Wong Jack Man, um dos maiores mestres de kung fu de Chinatown. Segundo os mestres, se Lee perdesse a luta, ele deveria fechar sua academia, ou passar a aceitar apenas alunos de ascendência oriental. Lee, irritado, aceitou o duelo sem hesitar, e diante dos mestres de Chinatown e de alguns de seus alunos terminou a luta contra Wong tão rápido quanto aquela contra o mestre de caratê em Seattle, novamente com uma devastadora seqüência de socos e chutes. Os mestres de Chinatown não importunariam Lee novamente, e Wong daria uma versão diferente para porque teria desafiado Lee a lutar: segundo ele, durante uma demonstração em um teatro em Chinatown, Lee teria dito que seria capaz de derrotar qualquer lutador de kung fu, e Wong o teria desafiado apenas para provar que ele estava errado.

Apesar de ter vencido a luta com facilidade, Lee achou que havia sido muito lento, e vencido apenas por sorte, tendo que treinar muito mais para alcançar seu verdadeiro potencial. Segundo alguns, sua busca pela perfeição nas artes marciais já estava beirando o fanatismo. De fato, Lee passou a treinar de forma quase obsessiva, levantando pesos para ganhar mais força na parte superior do corpo, correndo para aumentar seu vigor, e fazendo alongamentos para aumentar a flexibilidade. Para ele, a parte mais importante do corpo era o abdômem, pois, além de todo movimento relacionado às artes marciais usar movimentos abdominais, o abdômem protege órgãos vitais para o corpo humano. Com este pensamento em mente, Lee desenvolveu um treinamento próprio para fortalecer os músculos abdominais, que incluía condicionamento cardiovascular, bicicleta ergométrica, corrida e pular corda. Lee também desenvolveu uma dieta especial, evitando carne vermelha e comendo grandes quantidades de frutas e vegetais todos os dias, além de uma vitamina feita com leite em pó, água gelada, gemas e cascas de ovos, banana, óleo vegetal, amendoim moído e sorvete de chocolate.

Graças a este intenso treinamento, Lee se tornou capaz de proezas físicas como fazer flexões de braço apoiado apenas nos dedos indicadores, destruir um saco de pancadas de 70 Kg com um chute lateral, ou percorrer 16 Km em 45 minutos na bicicleta ergométrica. Quanto mais Lee desenvolvia seu físico, porém, mais sua academia amargava prejuízo, pois, obcecado com a perfeição, ele passou a só admitir alunos que demonstrassem estar dispostos a praticamente abrir mão de suas vidas pessoais em favor dos treinamentos. 1965 foi um ano muito ruim financeiramente para o Oakland Gung Fu Institute, mas em sua vida familiar Lee teve uma grande alegria com o nascimento de seu primeiro filho, Brandon, em 1o de fevereiro. Infelizmente, Lee quase não teve tempo de comemorar, pois seu pai faleceria em Hong Kong, aos 64 anos, apenas uma semana após o nascimento de Brandon. Desanimado, Lee começava a não querer mais tirar do kung fu o seu sustento.

No final de fevereiro, Lee recebeu um telefonema do produtor William Dozier, que havia visto um filme de uma demonstração de Lee em Long Beach, e decidiu convidá-lo para fazer o papel do filho mais velho de Charlie Chan, em uma nova série para a TV do famoso personagem. Lee aceitou de pronto e viajou para Hollywood para um teste, onde obteve uma reação bastante positiva dos executivos da Fox, que iria levar o seriado ao ar. O tempo passou, e Dozier, principalmente devido ao grande sucesso da série de TV do Batman (aquela do pou! crás! soc!), abandonou a idéia da série sobre Charlie Chan, e decidiu fazer uma nova série sobre um super-herói e seu parceiro, O Besouro Verde (The Green Hornet, no original), versão televisiva de um programa de rádio que foi ao ar entre 1936 e 1952. Dozier fez questão de ter Lee no papel do ajudante, um oriental de nome Kato, que, quando o herói estava sob sua identidade secreta, atuava como seu motorista. Após firmar o contrato com a Fox, Lee recebeu US$ 1.800 adiantados. Como o início das filmagens ainda iria demorar, ele decidiu utilizar este dinheiro para viajar até Hong Kong, para finalmente apresentar sua esposa e filho para sua família. Ao voltar, Lee, Linda e Brandon se mudaram para Los Angeles, e Lee começou a ter aulas de interpretação - segundo Lee, as únicas que recebeu em toda a sua vida.

O Besouro Verde estreou em julho de 1966, e foi um grande fracasso; as crianças não o achavam tão divertido quanto Batman, e os adultos o achavam muito bobo. Isso fez com que o seriado fosse cancelado após 26 episódios, apenas seis meses no ar. Lee, porém, acabou bastante beneficiado: mesmo tendo de usar uma máscara durante quase todo o tempo que estivesse no ar - por decisão dos executivos da Fox, que achavam temerário ter um chinês em um papel principal na televisão - ele encantou o público com suas demonstrações de kung fu, e, após o cancelamento do programa, foi convidado para várias convenções e demonstrações de artes marciais, se tornando praticamente uma celebridade.

Sem o salário que recebia da Fox, Lee teve de voltar a contar com o que recebia do Oakland Gung Fu Institute, muito pouco nesta época. Visando construir uma carreira de ator, ele aceitou fazer pequenas participações em seriados e no filme Marlowe, de 1969, onde contracenou com James Garner. Lee, porém, era menos conhecido por suas atuações que por seu kung fu, e rapidamente começou a dar aulas de artes marciais para atores como Steve McQueen e James Coburn. Três jovens promessas das artes marciais, Chuck Norris, Joe Lewis e Mike Stone, também tiveram aulas com Lee, e, talvez graças a isso, ganharam todos os torneios de caratê que disputaram na época.

Em 19 de abril de 1969, Lee e Linda tiveram uma filha, Shannon Lee. No ano seguinte, porém, a vida de Lee teria uma nova reviravolta, quando ele contundiu as costas durante uma sessão de levantamento de pesos. O diagnóstico foi terrível: seu quarto nervo sacral havia sido afetado, o que não só faria com que ele ficasse vários meses de cama, como impediria que ele voltasse a lutar, sob o risco de ficar paraplégico. Deprimido, Lee ficou em casa enquanto Linda trabalhava como recepcionista. Incapaz de se mover e com bastante tempo livre, Lee decidiu reunir seus pensamentos e conhecimentos em um livro, buscando finalmente criar sua própria arte marcial, algo que tinha em mente desde que começou no kung fu. Enquanto esteve de cama, Lee acabou escrevendo oito cadernos, que anos mais tarde seriam editados por Linda e publicados na forma do livro O Tao do Jeet Kune Do. Jeet Kune Do significa "o caminho do punho interceptador". Mais tarde, Lee confessaria ter se arrependido por ter escolhido este nome, pois seu intuito era criar uma arte marcial sem parâmetros específicos, uma espécie de "estilo sem estilos", algo não muito claro no nome Jeet Kune Do.

Acreditando que a mente tinha um grande poder sobre o corpo, Lee se recusou a acreditar que jamais poderia lutar novamente, e, após sua recuperação, começou a lentamente voltar aos treinamentos. Em menos de um ano ele já estava de volta à sua antiga forma, embora dores nas costas o tenham acompanhado até o final de sua vida. Não estava nos seus planos, porém, voltar a lecionar artes marciais - o máximo que ele fez foi treinar três de seus amigos para serem professores de Jeet Kune Do, e ajudar a propagar a arte que inventara. O intuito de Lee após sua recuperação era investir em uma carreira artística, apresentando o kung fu ao mundo ocidental através do cinema e da televisão. Lee então teve a idéia de um seriado onde um monge shaolin vagaria pelo Velho Oeste americano em busca de aventuras, e a apresentou à Warner Brothers. A Warner adorou a idéia, e a transformou em um seriado de enorme sucesso chamado simplesmente de Kung Fu. Lee almejava ser o astro principal da série, mas a Warner, achando que seria muito arriscado produzir um seriado com um chinês como protagonista, decidiu dar o papel a David Carradine. Decepcionado, Lee decidiu viajar até Hong Kong para visitar a família e espairecer.

Chegando em Hong Kong, Lee teve uma grande surpresa: por lá, ele era uma grande celebridade, graças ao sucesso do Besouro Verde, que havia sido inclusive renomeado para O Show de Kato. Qualquer filme com Bruce Lee era passado nos cinemas à exaustão, e sempre com bom público. Tanto sucesso lhe rendeu um convite do produtor Raymond Chow, dos estúdios Golden Harvest, que lhe ofereceu US$ 15.000 para trabalhar em dois de seus filmes. Animado, Lee aceitou, e em 1971 começou as filmagens de Dragão Chinês (Tang Shan Da Xiong, ou The Big Boss, "O Grande Chefão", lançado nos EUA como Fists of Fury, "Punhos da Fúria"). As condições de filmagem, porém, eram péssimas: a vila onde as filmagens foram feitas era infestada de baratas, e a comida fresca e saudável com a qual Lee estava acostumado não estava disponível, fazendo com que ele tivesse de tomar muitas cápsulas de vitaminas para manter sua saúde. Também não havia equipamentos de segurança adequados, o que fez com que, logo durante a primeira semana de filmagens, Lee torcesse o tornozelo durante uma cena. Durante a recuperação ele acabou contraindo uma gripe, e logo a saudade de Linda e de seus filhos, que ficaram em Los Angeles, começou a incomodá-lo.

Apesar de todos os problemas, Lee prosseguiu com as filmagens até o fim, e tinha grandes expectativas em relação ao filme, programado para estrear em Hong Kong em outubro. Ao voltar para os Estados Unidos, Lee teve uma nova surpresa: havia se tornado uma estrela também por lá. A Paramount lhe ofereceu três mil dólares por uma participação em quatro episódios do seriado Longstreet, mas Lee os convenceu a pagar seis, mais um consultor técnico. A Warner, que não o quis em Kung Fu, lhe ofereceu US$ 25.000 pelo papel principal em uma nova série. E o produtor Run Run Shaw, rival de Raymond Chow, tentou convencê-lo de todas as formas a não fazer o segundo filme de Chow, e ao invés disso filmar com ele, chegando a enviá-lo um cheque em branco, com instruções de que ele preenchesse com o valor que quisesse.

Mas Lee era um homem de honra, e decidiu fazer o segundo filme que já havia acordado com Chow. Antes das filmagens começarem, ele levou Linda e os filhos a Hong Kong para a estréia de Dragão Chinês, onde foi aclamado como herói. Lee pediu para que sua família o acompanhasse durante as filmagens, então a Golden Harvest os alocou em um apartamento em Kowloon. Para não interromper os estudos de Brandon, eles o matricularam no colégio La Salle, mesmo onde Lee havia estudado. O filme recebeu o nome de Fúria do Dragão (Jing Wu Men, ou Fists of Fury) e foi lançado nos EUA como The Chinese Connection, "A Conexão Chinesa", um trocadilho com o nome do famoso filme italiano The Italian Connection (La Mala Ordina no original), lançado nos EUA no mesmo ano.

As filmagens foram mais uma vez confusas: não havia roteiro, com as falas sendo definidas antes de cada cena, e o diretor, Lo Wei, não estava nem um pouco interessado no projeto, tendo sido pego ouvindo uma corrida de cavalos no rádio enquanto deveria estar dirigindo uma cena de amor. Tanta confusão fez com que Lee ficasse filmando durante horas a fio, sempre chegando em casa após as três da manhã. O resultado, porém, valeu a pena: Fúria do Dragão quebrou todos os recordes de bilheteria do sudeste asiático, rendendo elogios não somente ao desempenho de Lee como lutador - neste filme, pela primeira vez, ele luta com um nunchaku, o que levou a platéia ao delírio - mas também ao seu desempenho como ator, tanto nas cenas de comédia quanto nas de drama. Graças a este filme, Bruce Lee se tornou o ator não-Hollywoodiano mais famoso dos Estados Unidos.

Logo, Lee deixaria de ser apenas um ator: por um tempo, ele considerou fazer mais um filme com a Golden Harvest, mas exigiu que houvesse um roteiro escrito por um roteirista profissional. O diretor Lo Wei foi contra, e Lee acabou desistindo do projeto. Lee e Chow, então, decidiram fazer uma sociedade para produzir seu próximo filme. Ele e Chow não conseguiram encontrar nenhum diretor disponível para o projeto, então Chow sugeriu que o próprio Lee dirigisse. Como eles também não encontraram um roteirista profissional, Lee decidiu ele também escrever o roteiro. Assim, em 1972 começaram as filmagens de O Vôo do Dragão (Meng Long Guojiang, ou Way of the Dragon, "O Caminho do Dragão"), o primeiro filme escrito, produzido, dirigido e estrelado por Bruce Lee.

O Vôo do Dragão é até hoje o filme mais bem sucedido de Hong Kong, tendo rendido só nas bilheterias de lá mais de cinco milhões de dólares. Graças a ele, Lee se tornou um homem rico, e comprou uma bela casa na área nobre de Kowloon para sua família. O intuito de Lee era que ele fosse o primeiro de uma trilogia; quase que imediatamente depois de encerradas as filmagens, ele escreveu o roteiro de uma segunda parte, e em pouco tempo já a estava filmando. Quando Lee já tinha cerca de noventa minutos de seu novo filme prontos, recebeu uma oferta irrecusável da Warner: o estúdio norte-americano ofereceu nada menos que meio milhão de dólares para que ele protagonizasse Operação Dragão (Enter the Dragon, "Entra o Dragão", no original). Animado com a possibilidade de finalmente fazer um filme de artes marciais para o mercado norte-americano, Lee guardou o material que já tinha e assinou o contrato com a Warner, planejando terminar seu filme tão logo Operação Dragão ficasse pronto.

Operação Dragão foi mais um filme de Lee a sofrer com problemas nas filmagens. Rodado em Hong Kong, mas com uma equipe norte-americana, teve como principal problema o choque cultural: a equipe tinha dificuldades em se comunicar com os figurantes, e alguns se recusavam a comer comida chinesa. Muitos atores, inclusive o próprio Lee, se machucaram devido ao uso de equipamentos de segurança inadequados. Alguns extras ameaçaram entrar em greve quando descobriram que as prostitutas de Hong Kong que apareceriam em uma das cenas foram mais bem pagas que eles. Lee até ameaçou desistir de tudo ao entrar em conflito com o roteirista Michael Allin, e até com seu amigo e produtor Chow.

Lee só agüentou até o fim por acreditar que seu futuro no cinema dependia do sucesso do filme. A fama, porém, começava a cobrar um alto preço: ele não podia mais sair à rua sem que um batalhão de fãs o interpelasse, todos os seus passos eram acompanhados por repórteres, e muitos oponentes o desafiavam por achar que nos filmes ele lutava com o auxílio de truques. Lee estava perdendo peso, demasiadamente estressado, e só confiava em uma pessoa, sua esposa Linda.

Em 10 de maio de 1973, Lee foi aos estúdios Golden Harvest dublar algumas cenas de Operação Dragão que ficaram com o som ruim. O estúdio estava muito quente, e durante a dublagem Lee vomitou e teve convulsões, desmaiando em seguida. Linda foi chamada, e Lee levado diretamente ao hospital, onde o médico declarou ter algo errado com seu cérebro, mas que ele não sabia o que era. Ele deu a Lee um remédio, e, se ele não apresentasse melhora, teria de operar. Lee melhorou, porém, e recobrou a consciência, mas ainda ficou vários dias incapaz de falar. Assim que saiu do hospital, Lee viajou a Los Angeles para um check up completo, que não detectou nenhuma anormalidade, nem em seu cérebro, nem em seu corpo. Os médicos norte-americanos chegaram à conclusão de que o desmaio em Hong Kong havia sido causado por um pequeno edema cerebral, e lhe prescreveram um remédio para melhorar a circulação sangüínea no cérebro.

Estes acontecimentos assustaram Lee, que decidiu terminar seu filme inacabado, juntar suas economias, e voltar com a família para os Estados Unidos. Lee e Chow escolheram para o filme o nome de O Jogo da Morte (Si Wang You Ju ou Game of Death), e começaram a discutir o que mais precisariam fazer para terminá-lo. Chow tentava convencer o ator australiano George Lazenby, que interpretou James Bond em 007 a Serviço Secreto de Sua Majestade a participar do filme, e combinou um jantar entre ele e Lee. Antes de ir ao restaurante, Lee passou na casa da atriz Betty Ting Pei, a protagonista feminina do filme.

Era dia 20 de julho de 1973. Lee teve uma dor de cabeça muito forte, e Betty lhe deu um remédio de nome Equagesic, à base de aspirina, e o aconselhou a deitar-se um pouco. Lee dormiu, e jamais acordou. Ao ligar para o restaurante e descobrir que Lee não havia comparecido ao jantar, Chow foi à casa de Betty, e encontrou Lee em um sono profundo, do qual ninguém conseguia acordá-lo. Lee foi levado ao hospital, mas já chegou lá morto, aos 32 anos de idade. A autópsia revelou que seu cérebro havia inchado, estando 13% maior que o normal.

Até hoje, a morte de Lee permanece um mistério. A versão oficial é a de que ele seria alérgico ao Equagesic, o que causou o inchaço cerebral e a morte. Outras teorias mais mirabolantes envolvem assassinato por membros da Tríade, por atores invejosos, overdose de haxixe, uma luta que Lee teria travado contra um oponente que recitou mantras secretos durante o combate, que teriam feito seu cérebro inchar pouco a pouco até sua morte, e a já conhecida maldição da família, que, segundo os supersticiosos de plantão, atingiu também ao seu filho Brandon, morto em um acidente durante as filmagens de O Corvo em 1993.

Operação Dragão só estreou após a morte de Lee. O bafafá só fez aumentar o interesse das platéias no filme, que acabou rendendo 25 milhões de dólares nas bilheterias dos Estados Unidos, se tornando o filme de artes marciais mais bem sucedido de todos os tempos. O Jogo da Morte foi mais tarde finalizado, com algumas cenas novas adicionadas ao material já gravado por Lee, e lançado nos cinemas em 1978. Seu livro, O Tao do Jeet Kune Do, foi publicado em 1975, ajudando sua filosofia a viver para sempre.

Bruce Lee viveu pouco, mas viveu intensamente. Após sua morte, ele se tornou um dos principais ícones das artes marciais e da própria China, sendo homenageado e parodiado em centenas de outros filmes, desenhos e até jogos de videogame. Graças a ele, as artes marciais ganharam uma projeção jamais imaginada no ocidente, e passaram a ser acessíveis a todos, ocidentais ou orientais. Se ele tinha alguma missão a cumprir, conseguiu com sucesso.
Ler mais

sábado, 14 de abril de 2007

Escrito por em 14.4.07 com 0 comentários

Olimpíadas (XX)

E hoje temos mais Olimpíadas!

Albertville 1992


Em março de 1985, Mikhail Gorbachev havia chegado ao posto de Secretário Geral do Partido Comunista da União Soviética, cargo equivalente à presidência daquele país. À época, a União Soviética passava por uma crise econômica sem precedentes, além de várias tensões internas, causadas por conflitos étnicos e regionais, e externas, devido a focos de descontentamento na população dos demais países do bloco comunista. Buscando resolver estas crises e integrar a União Soviética aos mercados ocidentais, sem se afastar do comunismo, Gorbachev traçou um programa de governo cheio de reformas, para evitar o colapso da nação. Neste programa, duas eram as palavras de ordem: glasnost e perestroika. Ou, em bom português, abertura e reestruturação.

Tais reformas, porém, eram vistas como radicais demais, inaceitáveis até, para alguns dos membros mais ortodoxos do politburo, o organismo que comandava o país. Além disso, com a abertura vieram o relaxamento da censura e da repressão a partidos políticos, o que acabou reacendendo um sentimento anti-Rússia nas populações de muitas das repúblicas soviéticas, principalmente na Armênia, Azerbaijão e Lituânia. Conforme o tempo passava, protestos em diversos locais da União Soviética se tornavam cada vez mais freqüentes, o déficit estatal e a dívida externa cresciam cada vez mais, e alimentos e bens de consumo começavam a faltar, ao ponto do governo limitar as quantidades mensais que cada família podia consumir de pão, carne e açúcar. É claro que isso aqui é o resumo do resumo, pois não estou escrevendo um post sobre o fim da União Soviética, e sim sobre os Jogos Olímpicos, mas o que importa é que, para muitos membros do governo, o programa de Gorbachev não estava dando certo.

Por causa disso, em agosto de 1991 a porção linha-dura do governo, se intitulando Comitê para o Estado de Emergência, decidiu tomar uma atitude para afastar Gorbachev do poder e colocar a União Soviética "de volta nos trilhos", na visão deles. Gorbachev foi recolhido a prisão domiciliar a partir de 19 de agosto, enquanto o Comitê faria as reformas necessárias à reestruturação do país. Isto acabou sendo considerado como golpe de estado, principalmente após a transmissão ao vivo do evento para o mundo inteiro, inclusive para a própria União Soviética, algo impensável na época da censura rígida.

Inesperadamente, o povo soviético saiu às ruas para protestar. Boris Yeltsin, o chanceler da Rússia, cargo equivalente ao de primeiro-ministro, conclamou a população a não aceitar o golpe, e sob seu comando os sindicatos russos declararam uma greve geral. O Comitê tentou censurar as transmissões de rádio e TV, ordenou que a polícia debandasse com uso de violência as cerca de 50.000 pessoas que invadiram a Praça do Parlamento, mas não teve jeito. Em 21 de agosto, diante da pressão de seu próprio povo, e de muitos outros governos do planeta, o Comitê libertou Gorbachev, e o reconduziu ao cargo que ocupava então, o de primeiro e único Presidente da União Soviética, criado durante suas reformas.

Após a libertação de Gorbachev, 11 das 15 repúblicas soviéticas declararam sua independência, e a Lituânia, que já havia tentado declará-la em 1990, enfim a teve reconhecida. Gorbachev renunciou ao cargo de Secretário Geral em 24 de agosto; Yeltsin proibiu as atividades do Partido Comunista em solo russo e trocou a bandeira soviética pela russa no Kremlin em 29 de agosto; o Politburo foi dissolvido em 5 de setembro. Após muitas negociações e acordos firmados, ficou acertado que a União Soviética deixaria de existir oficialmente em 1o de janeiro de 1992. O país comunista mais poderoso do mundo se transformaria em quinze novas nações capitalistas.

Este já seria um fato impressionante por si só, mas nem foi o único: as reformas e a queda do comunismo na União Soviética levaram a um efeito dominó na Europa inteira. Em 18 de março de 1990 ocorreram eleições livres na Alemanha Oriental, que levaram a um tratado de reunificação. A Alemanha voltaria a ser um só país em 3 de outubro daquele ano, após uma comovente destruição do Muro de Berlim, um dos maiores símbolos do comunismo, pela juventude alemã. Também em 1990, as repúblicas que formavam a Iugoslávia pela primeira vez tiveram eleições pluripartidárias, o que acabou levando à independência da Eslovênia e da Croácia em 25 de julho de 1991, da Macedônia em setembro, e da Bósnia-Herzegovina em 5 de abril de 1992, o que levou à Guerra da Bósnia e ao fim da República Federal Socialista da Iugoslávia. E, em 1o de janeiro de 1993, a Tchecoslováquia se separaria em duas repúblicas, a República Tcheca e a Eslováquia, praticamente selando o destino do comunismo na Europa.

Neste novo e conturbado mundo, o primeiro evento esportivo de grande porte seriam os Jogos de Inverno de 1992, que ocorreriam na pequenina cidade francesa de Albertville, encrustada nos Alpes. Albertville ganhou o direito a sediar os Jogos bem antes dessa confusão toda, na reunião do COI de 1986, quando venceu seis outras cidades: Anchorage, no Alasca, Estados Unidos; Cortina d'Ampezzo, Itália; Berchtesgaden, Alemanha Ocidental; Lillehammer, Noruega; Falu, Suécia; e Sófia, capital da Bulgária. De todas, Albertville era a menorzinha, mas o charme da região e um bom planejamento acabaram dando a ela uma vantagem sobre as demais.

Realizar uma Olimpíada em uma cidade tão pequena, porém, gerou um efeito colateral curioso: o programa olímpico contava com 57 provas, mas apenas as 18 da patinação foram disputadas em Albertville, além de lá terem sido realizadas as Cerimônias de Abertura e Encerramento. Todas as demais, por falta de locais apropriados nos limites da cidade, tiveram de ocorrer em cidades vizinhas e resorts próximos da região de Savoie, onde Albertville está localizada, sendo os mais famosos os de Méribel Les Allues, que hospedou o esqui alpino feminino e o hóquei no gelo, e do Val d'Isére, onde aconteceu o esqui alpino masculino. Esta "distribuição" das provas acabou levando a críticas dos delegados dos países derrotados na votação, que alegaram que Albertville só teria sido escolhida porque fica na França.

Mesmo com toda essa polêmica, provas espalhadas por um monte de lugares, e o fim do comunismo para atrapalhar, os Jogos de Albertville foram belos Jogos. Realizados entre 8 e 23 de fevereiro, contaram com a presença de 1.801 atletas, sendo 488 mulheres, que competiram em 57 provas de 12 esportes: biatlo, bobsleding, combinado nórdico, esqui alpino, esqui cross country, esqui estilo livre, hóquei no gelo, luge, patinação artística no gelo, patinação no gelo em velocidade, patinação no gelo em velocidade em pista curta e saltos com esqui (clique aqui para ver todas as provas do programa). Três foram os esportes de demonstração: curling, esqui em velocidade e quatro provas do esqui estilo livre. 64 nações foram representadas, incluindo a Alemanha, que não competia como uma nação única desde 1936; Estônia e Letônia, que também não apareciam desde 1936; a Lituânia, ausente desde 1928; e Croácia e Eslovênia, participando pela primeira vez de uma Olimpíada. Sem tempo para reestruturar seus comitês olímpicos antes do evento, seis ex-repúblicas soviéticas - Rússia, Ucrânia, Cazaquistão, Belarus, Uzbequistão e Armênia - competiram com uma só delegação, chamada de Equipe Unificada, sob a bandeira dos Anéis Olímpicos. A tocha olímpica visitou 14 cidades francesas, incluindo Grenoble, sede dos Jogos de 1968, até acender a pira pelas mãos de Michel Platini, maior ídolo do futebol francês, e de François-Cyrille Grange, um menino de oito anos que mais tarde viria a se tornar também jogador de futebol. O mascote dos Jogos foi Magique, uma estrela composta por formas geométicas, meio parecida com um origami.

O prêmio de esporte mais esquisito do programa com certeza vai para o esqui estilo livre - não pelo esporte em si, que consiste em descer uma rampa em alta velocidade e fazer acrobacias enquanto o esquiador ainda está no ar; as posições são definidas por notas atribuídas a estas acrobacias, não à velocidade ou distância alcançadas pelo atleta. O que foi esquisito no esqui estilo livre é que só uma de suas três modalidades, a conhecida como mogul, fez parte do programa oficial, deixando as modalidades de aerials e ballet como esportes de demonstração - detalhe: em 1988, todas as três modalidades haviam sido de demonstração.

Bem, seja como for, na modalidade de moguls, a única que valeu uma medalha olímpica, o atleta deve desviar de montinhos de neve na rampa - os moguls - e efetuar dois saltos, sendo que o tempo no qual ele faz isso também conta pontos. No masculino, os donos da casa conseguiram ouro e prata, com Edgar Grospiron e Olivier Allamand, enquanto no feminino o ouro foi para os Estados Unidos, com Dana Weinbrecht. Na modalidade aerial, a rampa termina com uma inclinação para cima, e o esquiador é impulsionado ao ar, onde deve fazer suas manobras; em 1992 os melhores foram o canadense Philippe LaRoche e a suíça Colette Brand. Por fim, a modalidade ballet, que não existe mais, era semelhante ao aerial, mas o atleta deveria fazer uma rotina de movimentos obrigatórios ao som de música; nos Jogos o ouro masculino foi para o francês Fabrice Becker, e o feminino para a suíça Conny Kissling.

Outro esporte de demonstração foi o responsável por uma das maiores controvérsias da história dos Jogos. Trata-se do esqui em velocidade, considerado um dos esportes mais perigosos do mundo, segundo no qual um ser humano consegue alcançar a maior velocidade sem nenhum auxílio de equipamento motorizado - atrás apenas do paraquedismo - e incluído no programa a pedido do próprio COI, que queria avaliá-lo para inclusão em uma futura edição dos Jogos de Inverno. Nesse esporte, os esquiadores descem uma rampa de 1 km de extensão, e aquele que alcançar a maior velocidade média durante a descida é o vencedor - o atual recorde mundial é de 251,4 km/h. No penúltimo dia de competições em Les Arcs, cidade a 60 km de Albertville onde foi construída a rampa, durante um treinamento, o local reservado para o pouso dos atletas foi temporariamente fechado para limpeza e assentamento. O suíço Nicolas Bochatay, que estava no alto da rampa, não ouviu o aviso sonoro de que a pista estava fechada e efetuou sua descida, se chocando a mais de 100 km/h contra um dos tratores envolvidos na limpeza e morrendo instantaneamente. A controvérsia ficou por conta do fato de que o COI tirou o corpo fora, alegando não ter nenhuma responsabilidade sobre o assunto, já que o esqui em velocidade era um esporte de demonstração, e não um esporte oficial do programa olímpico. A família de Bochatay acabaria recebendo uma indenização da Federação Internacional de Esqui, que inclusive assumiria a responsabilidade pela inclusão do esporte no programa - desnecessário dizer, após esta "avaliação", o esqui em velocidade jamais entrou para o programa olímpico.

No esqui cross country masculino, o domínio norueguês foi total: Vegard Ulvang venceu os 10 e os 30 km, e foi prata nos 15 km perseguição, enquanto Bjørn Dæhlie foi ouro nos 15 km perseguição e nos 50 km, e prata nos 30 km. A Noruega ainda conseguiu o ouro do revezamento 4 x 10 km, e o bronze dos 30 km com Terje Langli. No feminino o maior destaque foi a russa Ljubov Egorova, ouro nos 10 km perseguição e nos 15 km, prata nos 5 e nos 30 km. Outra russa, Elena Välbe, conseguiu bronze nas quatro provas. Graças a Egorova e Välbe, a Equipe Unificada também amealhou o ouro do revezamento 4 x 5 km. Também merece destaque a italiana Stefania Belmondo, ouro nos 30 km, prata nos 10 km perseguição e bronze no revezamento. Natural da pequeníssima cidade de Vinadio, de apenas 160 habitantes, Belmondo quase transformou sua cidade em uma cidade fantasma, já que mais da metade de seus conterrâneos viajaram à França para vê-la competir.

Já que estamos no esqui, vamos ao alpino, onde ocorreram vários fatos interessantes. Primeiro, o carismático italiano Alberto Tomba "La Bomba" se tornou o primeiro atleta a reprisar um ouro no esqui alpino, ao ganhar o do slalom gigante, e ainda adicionou uma prata do slalom à sua coleção. No feminino, a austríaca Petra Kronberger ganhou dois ouros, no slalom e no combinado, e Annelise Coberger, da Nova Zelândia, se tornou a primeira pessoa do Hemisfério Sul a ganhar uma medalha em Jogos de Inverno, uma prata no slalom. Falando em prata, a prova do slalom gigante rendeu duas, já que a norte-americana Diann Roffe e a austríaca Anita Wachter, prata também no combinado, terminaram rigorosamente empatadas. Nos saltos com esqui, o finlandês Toni Nieminen, 17 anos, se tornou o atleta mais jovem a conquistar um ouro numa Olimpíada de Inverno, e conseguiu logo dois, na colina alta e na prova por equipes, além de um bronze na colina baixa. No combinado nórdico ocorreram várias surpresas, com os franceses Fabrice Guy e Sylvain Guillaume conseguindo ouro e prata, e o Japão levando ouro na prova por equipes.

Na patinação em velocidade o maior destaque veio da Coréia do Sul, Kim Ki-Hoon, que ganhou o ouro nas duas provas da pista curta, os 1.000 metros e o revezamento 5.000 metros. As provas da pista mais longa foram dominadas pela Alemanha, que, somando provas masculinas e femininas, ganhou cinco ouros, três pratas e três bronzes, incluindo o pódio todo nos 5.000 metros feminino. As provas femininas, aliás, viram exibições de gala da norte-americana Bonnie Blair, ouro nos 500 e nos 1.000 metros; e da alemã Gunda Niemann, ouro nos 3.000 e 5.000 e prata nos 1.500 metros.

As provas de trenó foram dominadas pela Alemanha - prata no bobsleding de quatro ocupantes, prata e bronze no de dois, ouro no luge simples masculino, ouro e prata no luge duplas masculino, bronze no luge feminino - e Áustria - ouro no bobsleding de quatro ocupantes, prata e bronze no luge simples masculino, ouro e prata no luge feminino. A Alemanha também mandou bem no biatlo, onde Mark Kirchner subiu ao pódio nas três provas masculinas - ouro nos 10 km e no revezamento 4 x 7,5 km, prata nos 20 km - e foi imitado por Antje Misersky, pódio nas três provas femininas - ouro nos 15 km, prata nos 7,5 km e no revezamento 3 x 7,5 km. A Alemanha consagrou sua reunificação com o topo do quadro não-oficial de medalhas, seguida de perto pela Equipe Unificada, que ainda contava com alguns dos melhores atletas da União Soviética.

Por fim, as Olimpíadas de Albertville marcaram a estréia do Brasil nos Jogos Olímpicos de Inverno, com uma delegação de sete atletas, seis homens e uma mulher, todos do esqui alpino, que viajaram à França graças ao Fundo Solidariedade Olímpica, e competiram muito mais pelo prazer de representar o país no evento do que para ganhar medalhas. A melhor colocação de um brasileiro coube a Christian Lothar Munder, 40o no downhill, e Evelyn Schuler, também 40a, no slalom gigante. Evelyn também conseguiu a 46a colocação no slalom super gigante.

Ainda era cedo para saber como o fim do comunismo na Europa iria afetar os Jogos Olímpicos. Mas, em meio a tantas mudanças, o COI decidiu implementar mais uma: ainda em sua reunião de 1986, o COI decidiu que os Jogos de Albertville seriam os últimos Jogos de Inverno realizados no mesmo ano que uma Olimpíada de Verão. Os Jogos de Inverno seguintes ocorreriam apenas dois anos depois, em 1994, e a partir daí voltariam ao intervalo de quatro anos, sendo os seguintes em 1998, sempre intercalados com as Olimpíadas de Verão. Acabou que aí eles ficaram sendo sempre no mesmo ano da Copa do Mundo, mas eu acho que ninguém no COI se importa com isso.

Barcelona 1992


A cidade catalã de Barcelona, na Espanha, anunciou ao COI sua intenção de sediar as Olimpíadas de 1992 com enorme antecedência, em 17 de junho de 1980. Bobos eles não eram: Juan Antonio Samaranch, que assumiria a presidência da entidade a partir de 3 de agosto daquele ano, era nascido na cidade, e evidentemente prometeu total apoio à candidatura. Animado, o Rei Juan Carlos I também prometeu todo o apoio necessário para que uma Olimpíada finalmente fosse realizada na Espanha. Por muito tempo, inclusive, isso parecia inevitável, já que Barcelona era candidata única. Apenas em janeiro de 1983, Brisbane, na Austrália, se ofereceria como concorrente.

O sucesso dos Jogos de 1984, porém, afastou de vez o temor que levava poucas cidades a se candidatarem a sede, presente já desde a escolha da sede de 1976. Aos poucos, mais candidatas foram surgindo: Amsterdã, capital da Holanda, sede dos Jogos de 1928; Paris, a capital francesa, duas Olimpíadas no currículo; Estocolmo, a capital sueca, sede em 1912; a bela Milão, na Itália; Birmingham, na Inglaterra; e Belgrado, a capital da Iugoslávia. Diante de tantas oponentes de peso, Barcelona precisava de um trunfo ainda maior que ter como filho o Presidente do COI. Precisava de eficiência.

A cidade começou suas obras seis anos antes do provável início dos Jogos, já em 1986, quando ocorreria a reunião do COI que escolheria a sede de 1992. Em 17 de outubro, data da votação, já dispunha de 60.000 voluntários inscritos para trabalhar no evento, além da maior parte dos recursos financeiros, graças ao comprometimento do governo da Catalunha e da Coroa Espanhola. Não foi uma votação fácil, porém: Barcelona precisou de três rodadas para ser escolhida. Após o resultado, mais de cem mil pessoas saíram às ruas da cidade para comemorar, mesmo que ainda faltasse muito a fazer.

Estima-se que Barcelona tenha gastado 9,3 bilhões de dólares para organizar sua Olimpíada. Essa dinheirama toda veio não somente do governo, mas de um batalhão de mais de 150 patrocinadores, alguns arregimentados pelo próprio Samaranch, incluindo tanto multinacionais como a IBM e a Nestlé, quanto pequenas empresas locais, como a rede de lojas de roupas El Corte Inglés e a vinícola Freixenet. O dinheiro foi muito bem gasto em instalações bonitas e de alto nível, a começar pela Vila Olímpica, construída em uma área conhecida como Parc del Mar, a dez minutos do centro, entre a cidade e o Mediterrâneo, região industrial e degradada, totalmente revitalizada graças aos Jogos. No Montjuic, o principal monte da paisagem de Barcelona, foi construído o Anel Olímpico, uma belíssima obra que reuniu as quatro instalações mais importantes do evento: o Estádio Olímpico, onde foram realizadas as provas de atletismo e as Cerimônias de Abertura e Encerramento; o Palau San Jordi, ginásio de basquete, vôlei e ginástica; uma fabulosa piscina para a natação; e o Instituto Nacional de Educação Física, palco das lutas. A tecnologia também se fez presente, a começar por um moderno sistema de coleta de lixo, composto de 1.100 bocas coletoras espalhadas pela cidade, que sugavam qualquer lixo nelas atirado e enviava a uma central de tratamento. Os jornalistas tiveram acesso a nada menos que 3.600 terminais de computação conectados diretamente a três supercomputadores, capazes não somente de dar o resultado de todas as disputas em tempo real como também de garantir acesso a dados biográficos dos atletas. Pela primeira vez a televisão transmitiria ao vivo todas as regatas da vela; a natação contaria com uma câmera subaquática; o nado sincronizado com um periscópio, capaz de mostrar simultaneamente o que ocorria dentro e fora da água; a canoagem com "portõezinhos" semelhantes aos do turfe, que se abriam automaticamente ao início da prova, para evitar largadas queimadas; e o atletismo com uma câmera montada em um trilho, que acompanharia os corredores durante a reta final, como se o público corresse junto com eles. Mas a maior inovação de Barcelona não veio graças à tecnologia, mas sim a uma decisão do COI: finalmente estariam livres para participar dos Jogos Olímpicos os atletas profissionais, aqueles que fazem do esporte seu sustento, se dedicam exclusivamente a ele, e por isso mesmo aumentam o nível das competições com sua presença.

Os Jogos de Barcelona ocorreram entre 25 de julho e 8 de agosto, contando com a participação de 9.959 atletas, sendo 2.851 mulheres, que representaram nada menos que 170 nações, dentre elas a Alemanha reunificada, Croácia, Eslovênia, Bósnia-Herzegovina, Estônia, Letônia, Lituânia, e, mais importante, a África do Sul, finalmente reintegrada aos Jogos Olímpicos após o fim do regime racista do apartheid. A Equipe Unificada fez sua segunda e última aparição olímpica, desta vez com 12 membros, os seis que haviam participado em Albertville mais Azerbaijão, Geórgia, Quirguistão, Moldova, Tajiquistão e Turcomenistão. Os membros da Equipe Unificada ainda receberam um presente do COI: na Cerimônia de Abertura, marcharam sob a bandeira dos Anéis Olímpicos, mas, ao subir ao pódio, cada atleta via a bandeira de sua própria pátria ser hasteada, enquanto o hino de sua nação era executado. Também foram agraciados pelo COI alguns atletas do que restou da Iugoslávia, punida pela ONU por causa da Guerra da Bósnia, que pediu ao COI que, assim como havia feito com a África do Sul durante o apartheid, não permitisse a participação da Iugoslávia nos Jogos de Barcelona. À Iugoslávia realmente não foi permitido participar, mas 58 atletas iugoslavos ainda tomaram parte no certame, competindo com o nome de Participantes Independentes, sob a bandeira dos Anéis Olímpicos. Os Participantes Independentes chegaram até a ganhar uma medalha de prata e duas de bronze, todas no tiro.

Fizeram parte do programa olímpico de Barcelona 257 provas de 29 esportes, atletismo, badminton, basquete, beisebol, boxe, canoagem, ciclismo, equitação, esgrima, futebol, ginástica artística, ginástica rítmica, handebol, hóquei, judô, levantamento de peso, luta olímpica, nado sincronizado, natação, pentatlo moderno, polo aquático, remo, saltos ornamentais, tênis, tênis de mesa, tiro com arco, tiro esportivo, vela e vôlei; mais três esportes de demonstração, hóquei sobre patins, pelota basca e taekwondo (clique aqui para ver todas as provas do programa). Os Jogos de Barcelona, aliás, foram os últimos a incluir esportes de demonstração no programa; em sua reunião de 1989, o COI decidiu que, a partir dos Jogos de Inverno de 1994, esportes de demonstração não seriam mais permitidos. Esta decisão foi tomada porque, apesar de não serem considerados parte da Olimpíada - suas medalhas eram diferentes, e seus medalhistas não entravam para os registros do COI como medalhistas olímpicos - os esportes de demonstração, pelo regulamento, deveriam receber a mesma atenção que os esportes do programa, ou seja, seus atletas deveriam ficar hospedados na Vila Olímpica, e suas instalações deveriam estar de acordo com o padrão olímpico. Como o público nos esportes de demonstração não era dos melhores, e estes praticamente eram ignorados pela imprensa, acabava que era investido muito dinheiro e trabalho para pouco retorno, então era melhor concentrar os esforços nos esportes verdadeiramente olímpicos.

O mascote de Barcelona foi o último realmente memorável, o cachorrinho Cobi, de formas típicas da arte da cidade, criado pelo artista Javier Mariscal. No início o público o achou muito estranho, mas, graças a uma maciça divulgação, ele acabou se tornando extremamente popular, vendendo milhares de camisetas, bonés, pins, e toda sorte de merchandising. Cobi foi o último a conseguir este feito, sendo seus sucessores solenemente ignorados pela mídia e pelo público.

A Cerimônia de Abertura foi belíssima, com um espetáculo de música e dança, uma teatralização da lenda de Hércules, que incluiu um mar cenográfico e um navio de verdade, shows do tenor Plácido Domingo, da bailarina Cristina Hoyos, e do grupo La Furia del Baus. Mas a maior surpresa ficou por conta da pira olímpica, um segredo guardado a sete chaves pela organização. A pira ficava alta demais, em um dos lados do estádio, sem escada ou rampa aparente para algum atleta acendê-la. Então entrou no estádio o canoista Hermínio Menéndez. Menéndez não acendeu a pira, mas a tocha carregada por Juan Antonio San Epifanio, maior ídolo do basquete de Barcelona. Tampouco coube a Epi, como era conhecido, a honra de acender a pira. Ao invés disso, ele se dirigiu a Antonio Rebollo, atleta paralímpico do tiro com arco, e acendeu não uma tocha que ele carregava, mas uma de suas flechas, Rebollo então disparou a flecha na direção da pira, que se inflamou com o fogo sagrado. Para quem estava assistindo de casa, parecia que a flecha havia caído certeira dentro da pira, mas na verdade ela apenas passou por sobre a mesma, caindo do lado de fora do estádio, em uma região já previamente esvaziada por segurança. Alguns turistas, porém, estavam próximos a esse local, e a divulgação de suas fotos da flecha em chamas do lado de fora do estádio gerou uma grande polêmica, com acusações de que o fogo que queimava não era o de Olímpia. Na verdade, no momento em que a flecha passou, a pira já estava emanando gás combustível, e foi este gás que se inflamou, não sendo necessário que a flecha acertasse seu alvo, apenas que passasse pelo gás.

Dentre os atletas, o maior destaque de Barcelona não foi um, mas um time inteiro, o de basquete dos Estados Unidos, composto de onze superastros da NBA, a liga profissional de basquete norte-americana, mais um universitário, eleito o melhor do país. Apelidado de Dream Team (o "Time dos Sonhos") por ter dentre seus jogadores fenômenos como Michael Jordan, Magic Johnson e Larry Bird, o time não tomou conhecimento dos adversários, dando exibições de gala em todas as partidas, vencendo todas com mais de cem pontos. Mas talvez o mais curioso deste torneio de basquete, que já tinha os Estados Unidos como aclamados medalhistas de ouro desde a convocação, tenha sido o restante do pódio: com a prata ficou a Croácia, antiga base do bom time da Iugoslávia, e com o bronze a Lituânia, antiga base do igualmente bom time soviético. A Equipe Unificada, com o que restara da União Soviética, terminou em quarto lugar, seguida do Brasil, que até fez uma boa campanha, perdendo apenas para os três medalhistas e para a Espanha dona da casa.

Mas o Brasil teve um grande consolo, seu time de vôlei, único de Barcelona capaz de ser comparado com o Dream Team norte-americano do basquete. Evidentemente não em badalação, já que antes do torneio ninguém apostava em uma vitória brasileira, mas o excelente time comandado por José Roberto Guimarães, que contava com jogadores como Giovane, Maurício, Tande e Marcelo Negrão, detonou todos os adversários, sendo campeão invicto e perdendo apenas três sets em oito jogos, para Cuba e a Equipe Unificada na fase de classificação, e para os Estados Unidos na semifinal. Apelidado de Geração de Ouro, este time de vôlei, primeiro ouro olímpico do Brasil em um esporte coletivo, foi responsável por um verdadeiro boom do esporte no país, atualmente um dos mais vencedores que temos, e aparentemente o único capaz de rivalizar com o futebol em popularidade.

Além do ouro do vôlei, o Brasil, representado por 198 atletas, sendo 50 mulheres, ganhou duas outras medalhas, um segundo ouro com Rogério Sampaio Cardoso nos meio-leves do judô, vencendo suas três primeiras lutas por ippon - um golpe perfeito ou imobilização de trinta segundos - uma complicada semifinal graças a uma advertência do juiz ao adversário, e a final por uma grande diferença de pontos; e uma prata com Gustavo Borges nos 100 metros livre da natação, esta bem mais dramática: Gustavo claramente chegou em segundo lugar, mas a placa que acusaria sua batida teve um defeito, e o painel eletrônico não registrou seu tempo. Gustavo teve de esperar quinze eternos minutos até que uma representação da delegação brasileira fosse julgada, e sua medalha garantida.

Dentre os brasileiros que quase chegaram lá estão Zequinha Barbosa, quarto lugar nos 800 metros do atletismo, e Robson Caetano, também quarto lugar, nos 200 metros e no revezamento 4 x 400 metros, ao lado Edielson Tenório, Sérgio Mathias e Sidney Telles dos Santos; o tenista Jaime Oncins, que perdeu nas quartas de final das simples; e o time de vôlei feminino, com atletas como Ana Moser, Hilma e Fernanda Venturini, que venceu Holanda e China, mas perdeu para Cuba, na fase de classificação, derrotou o Japão nas quartas de final, mas na semifinal, devido a muitos erros, perdeu para a Equipe Unificada. Desanimadas com seu desempenho, as meninas acabaram perdendo também para os Estados Unidos, e terminaram a competição em quarto lugar.

Um esporte para o qual o Brasil sequer conseguiu se classificar no pré-olímpico foi o futebol, que tinha como favoritos a Espanha e a Itália. A Itália, porém, acabou derrotada pela Polônia, que automaticamente se transformou na favorita ao título. Na final, Espanha e Polônia se enfrentaram em um jogo tenso, empatado até os acréscimos do segundo tempo, quando Kiko fez o gol que daria o ouro à Espanha, para delírio dos torcedores. A maior surpresa do campeonato foi a seleção de Gana, medalha de bronze ao derrotar a Austrália, e que já anunciava que os africanos estavam vindo com força total. A Espanha também conseguiria um inesperado ouro em outro esporte coletivo, do qual participava apenas pela segunda vez, o hóquei feminino, que tinha como capitã do time Eli Maragall, sobrinha do prefeito de Barcelona e principal responsável pela medalha, ao marcar um gol na prorrogação na final diante da Alemanha.

O torneio de tênis parecia ter sido feito sob medida para novos triunfos espanhóis: as quadras eram de saibro, o tipo de piso preferido pelos donos da casa, e bem mais lentas que outras quadras de saibro do circuito, como as de Roland Garros. Além disso, o torneio foi disputado no Vall d'Hebron, conhecido por seu calor, e diante de platéias enormes, 6.500 pessoas por jogo. Mesmo com tudo isso, os espanhóis não conseguiram um ouro sequer, sendo que quem chegou mais perto foi Jordi Arrese, prata nas simples masculinas, derrotado na final pelo suíço Marc Rosset, que atravessava um grande momento, derrotando durante o torneio até o número um do mundo na época, o norte-americano Jim Courier. Nas simples femininas ocorreu uma grande surpresa, com a alemã Steffi Graf, ouro em 1984 e 1988, e ganhadora de praticamente tudo nos anos seguintes, sendo derrotada na final pela norte-americana Jennifer Capriati, que na época tinha apenas 16 anos.

O judô foi um esporte de muitas emoções, a começar pelo ouro da espanhola Miriam Blasco, categoria leves, primeiro de sua pátria nesta Olimpíada, que o dedicou a seu treinador, morto um mês antes em um acidente. Yael Arad foi ainda mais longe, e ganhou a primeira medalha de Israel, prata na categoria meio-médios, vinte anos após o atentado ocorrido nas Olimpíadas de Munique. No dia seguinte à conquista de Arad, Shay Smadga se tornaria o primeiro homem a ganhar uma medalha para Israel, bronze nos leves.

Após dois boicotes seguidos, Cuba retornou às Olimpíadas, e mostrou sua força no boxe, onde ganhou sete dos doze ouros. Seu maior destaque foi Felix Savon, dos pesados, considerado o herdeiro do lendário Teófilo Stevenson. A comemoração mais tocante foi a do norte-americano Oscar de la Roya, filho de um mexicano, que, ao ganhar o ouro dos leves, comemorou com bandeiras dos Estados Unidos e do México nas mãos.

Na ginástica, o maior destaque foi um homem, Vitaly Scherbo, de Belarus, representando a Equipe Unificada, seis medalhas de ouro. Curiosamente, nas duas provas que não ganhou ouro, Scherbo nem subiu ao pódio, sequer se classificando às finais da barra horizontal, e terminando em sexto lugar nos exercícios de solo, onde se apresentou desleixadamente. Nos saltos ornamentais, o destaque foi uma chinesa, Fu Mingxia, de apenas 13 anos, ouro na plataforma, cinqüenta pontos à frente da ucraniana Yelena Miroshina. O ciclismo viu uma exibição de gala do britânico Chris Boardman, que levou para a prova uma bicicleta revolucionária, projetada pela Lotus da Fórmula 1, toda em materiais levíssimos. E o beisebol, finalmente integrado ao programa olímpico após sete aparições como esporte de demonstração, não teve Estados Unidos no pódio. Os norte-americanos se limitaram ao quarto lugar, deixando Cuba com o ouro, Taiwan com a prata e o Japão com o bronze.

Os destaques do atletismo começam pelo britânico Linford Christie, que ganhou o ouro dos 100 metros aos 32 anos. Nos 400 metros feminino, o ouro e o recorde olímpico foram para a francesa Marie-José Perec, que ainda se livrou de um estigma de fraquejar na hora das decisões importantes. E a prova mais emocionante foi a dos 10.000 metros feminino, onde a escocesa Liz McColgan liderou mantendo um bom ritmo até os seis mil metros, quando foi ultrapassada pela sul-africana Elena Meyer. Na última volta, quando todos já achavam que Meyer iria vencer a prova, a etíope Derartu Tulu surgiu com uma arrancada impressionante, a ultrapassou e ganhou o ouro. Meyer, de toda forma, ganhou a primeira medalha da África do Sul desde 1960, e, emocionada, deu uma volta olímpica de mãos dadas com Tulu.

Na natação masculina, os russos da Equipe Unificada dominaram o nado livre, com o velocíssimo Alexander Popov levando o ouro dos 50 e dos 100 metros, e seu compatriota Yevgeny Sadovyi subindo ao alto do pódio nos 200 e 400 metros. O húngaro Tamas Darnyi, primeiro homem do planeta a nadar os 200 metros medley em menos de dois minutos, ganhou esta prova e também os 400 metros. Os Estados Unidos não tiveram nenhum grande destaque individual, mas conseguiram o maior número de ouros, seis. No feminino, a Alemanha reunificada não conseguiu manter o mesmo nível que sua parte Oriental apresentou nos anos anteriores, e o destaque acabou sendo das nadadoras da China, que surpreenderam ganhando quatro ouros e cinco pratas. O maior destaque individual foi a húngara Krisztina Egerszegi, 18 anos, ouro e recorde mundial nos 100 e 200 metros costas, e um surpreendente ouro nos 400 metros medley.

Apesar de seus poucos destaques individuais, os Jogos de Barcelona conseguiram entrar para a história dentre os mais belos e organizados. Ao final, o público cantou emocionado Amigos Para Siempre, melodia entonada por José Carreras e Sarah Brightman na Cerimônia de Encerramento, onde Cobi pegou seu barquinho e subiu aos céus. Com o fim da disputa entre capitalismo e comunismo, o momento era propício para que as Olimpíadas se tornassem o palco de uma grande confraternização mundial, tendo o esporte como convidado. Afinal, foi pra isso que elas haviam sido recriadas, quase cem anos antes.


Série Olimpíadas

Albertville 1992
Barcelona 1992

Ler mais

domingo, 8 de abril de 2007

Escrito por em 8.4.07 com 0 comentários

Howard, o Pato

Colecionar DVDs de filmes dos anos 80 é, muitas vezes, uma tarefa ingrata. Muitos filmes que eu adoraria ter em minha coleção, como Space Camp e O Último Guerreiro das Estrelas, ainda nem foram - e eu nem sei se algum dia serão - lançados em DVD. Dos que já foram lançados, poucos o foram de forma decente: a maioria ou vem com legendas totalmente porcas (como Highlander), ou só é vendida em fullscreen (como Gremlins), ou, por alguma razão, não custa menos de R$ 39,90 (como O Vingador do Futuro - que na verdade é de 1990, mas tudo bem). Como um relançamento em condições melhores é pouquíssimo provável (a menos que se trate de um blockbuster da época, como De Volta Para o Futuro, cuja primeira versão em DVD recebeu tantas críticas que acabou recolhida e substituída por uma melhor) eu acabo me conformando e comprando assim mesmo. Fazer o quê.

Pois bem, o post de hoje é sobre um dos meus filmes preferidos dos anos 80, um que eu já tinha até perdido as esperanças de que um dia fosse lançado, mas surpreendentemente acabei encontrando no início deste ano. Infelizmente, ele custou R$ 39,90 e veio em fullscreen, mas pelo menos as legendas estão boas. O post de hoje é sobre Howard, o Pato! Cujo filme aqui no Brasil acabou traduzido para Howard, o Super-Herói, caso alguém não esteja ligando o nome à pessoa.

Beverly e Howard


Eu adoro este filme. Lembro-me que, da primeira vez que meu pai o alugou, quando eu tinha uns nove ou dez anos (junto com D.A.R.Y.L., outro "clássico" que eu quero comprar mas não encontro), o assisti umas três vezes em dois dias. Depois, como não era um filme que costumava passar muito na TV, acho que não consegui rever muitas vezes. Mas até me surpreendi quando o estava vendo no DVD, porque me lembrava praticamente do filme todo. Embora eu não consiga encontrar nenhuma razão para isso, aparentemente este foi um filme que marcou minha infância.

Infelizmente, quando fui começar a pesquisar para escrever este post, acabei descobrindo que, nos Estados Unidos, Howard é considerado um dos cem piores filmes já feitos em toda a história do cinema, e foi um fracasso retumbante de bilheteria, crítica e público. Que as pessoas não gostem dos filmes que eu gosto eu estou acostumado, mas isso eu já achei um certo exagero. Refletindo sobre o assunto, acabei chegando a uma conclusão que talvez não explique o fato, mas aponte uma possibilidade: Howard, o Super-Herói não é um filme ruim, mas uma adaptação ruim. Isto porque Howard já era um super-herói antes do filme - e um super-herói da Marvel.

Howard foi criado em 1973 pelo roteirista Steve Gerber, tendo sido desenhado pela primeira vez por Val Mayerik, como personagem coadjuvante de uma história do Homem-Coisa na revista Adventure into Fear número 19. Em 1975, Gerber o colocou em mais uma história, na revista Giant-Sized Man-Thing, uma paródia de horror onde Howard enfrentava a Vaca Infernal e o Homem-Sapo. O sucesso do personagem acabou fazendo com que ele ganhasse sua própria série em quadrinhos, Howard the Duck, cujo primeiro número foi publicado em junho de 1976.

Mal-humorado, mal-educado, politicamente incorreto, cínico, e sempre com um charuto na boca, Howard era um pato antropomórfico alienígena de noventa centímetros de altura, teletransportado para a Terra depois de uma mudança súbita no eixo cósmico. Originalmente, ele vestia apenas uma camisa social, um chapéu e uma gravata, mas depois de um processo movido pela Disney, o desenhista Gene Colan decidiu acrescentar calças ao personagem. Seus únicos objetivos eram ser deixado em paz e levar uma vida normal, mas, como ele era um pato, isto acabava se tornando muito difícil, e Howard freqüentemente se via envolvido em aventuras, sempre em tom de paródia ou sátira, fazendo troça com quadrinhos de horror e filmes de ficção científica.

Howard tinha três amigos humanos, a lindíssima ex-modelo Beverly Switzler, com quem ele acabou desenvolvendo um relacionamento amoroso - assim como Howard, tudo o que Beverly quer é levar uma vida normal, algo constantemente impedido por sua aparência; o pintor Paul Same, que era sonâmbulo, e enquanto dormia se transformava em um combatente do crime que percorria as ruas da cidade prendendo bandidos; e Winda Wesper, uma jovem com poderes psíquicos e língua presa. Seus inimigos variavam a cada edição, consistindo de paródias de personagens de ficção científica, monstros clássicos do horror, personagens de livros de fantasia, políticos, e eventualmente um cidadão comum que não ia com a cara de Howard. Seu arqui-inimigo, e principal vilão recorrente, era o Dr. Bong, um ex-repórter de tablóide que tinha um capacete em formato de sino, uma enorme esfera de metal no lugar da mão esquerda, e o poder de alterar a realidade ao atingir a própria cabeça com esta esfera - quanto mais força, maior a alteração. O principal objetivo de Bong era se casar com Beverly, e, para isso, ele tinha de tirar Howard do caminho.

Steve Gerber escreveu as 27 primeiras edições da revista de Howard, além de tiras de Howard para jornal, publicadas entre 1977 e 1978; então, uma confusão começou: Gerber possuía total autonomia para fazer o que quisesse nas histórias - algo incomum em se tratando de uma editora grande e mainstream como a Marvel - e chegou ao ponto de, incapaz de cumprir o prazo estabelecido pela editora, publicar uma série de textos e ilustrações que satirizavam sua capacidade como quadrinhista no lugar da história. Em 1978 a Marvel decidiu restringir esta liberdade, para que episódios como este não se repetissem, e Gerber não concordou. Gerber então foi substituído por Marv Wolfman, mas jamais aceitou deixar de ter de escrever as histórias de Howard: segundo ele, seu contrato com a Marvel não dava à editora direitos sobre personagens secundários que ele criasse, então, como Howard era originalmente um personagem secundário criado para uma história do Homem-Coisa, seus direitos pertenceriam a Gerber. A Marvel não aceitou este argumento, respondendo que, a partir do momento em que Howard passara a ter sua própria revista, ele deixara de ser um personagem secundário. Gerber recorreu à justiça, e um processo se arrastou por vários anos.

A revista original de Howard ainda durou até a edição 31, quando foi substituída por uma nova, bimestral, que só teve nove edições, sendo cancelada de vez em 1980. Após a saída de Gerber, as histórias foram escritas por Wolfman, Mary Skrenes, Mark Evanier, Bill Mantlo e Steven Grant. Mantlo tomou várias decisões que desagradaram Gerber, como por exemplo a de revelar que Howard veio de um planeta chamado Duckworld, um mundo idêntico à Terra, mas onde os patos, e não os macacos, teriam evoluído até se tornar a espécie dominante. Gerber considerava esta idéia "muito vulgar e típica das histórias em quadrinhos, no pior sentido do termo", preferindo acreditar que Howard teria vindo de uma Terra alternativa de outra dimensão, povoada por vários animais antropomórficos. Gerber também gostava de escrever para adultos, chegando a sugerir um relacionamento sexual entre Howard e Beverly, algo que foi atenuado por Mantlo para que as histórias atingissem um público maior.

Para provocar a Marvel, Gerber conseguiu um contrato com a editora Eclipse Enterprises, para publicar, a partir de 1982, uma nova história chamada Destroyer Duck. Nela, um pato de nome Duke Duck, residente em um planeta povoado por animais antropomórficos, vê seu melhor amigo desaparecer bem diante de seus olhos. Anos mais tarde, ele reaparece, dizendo que foi seqüestrado, explorado e arruinado por uma megacorporação extradimensional chamada Goldcorp, e morre aos pés de Duke. Duke então parte em uma missão de vingança contra a tal Goldcorp, que depois se transforma em uma missão de resgate, quando Duke descobre que seu amigo ainda está vivo, e quem morreu foi um clone mal-feito criado pela Goldcorp. Para muitos, o melhor amigo de Duke seria Howard, mas isto nunca foi confirmado nem negado por Gerber. A revista Destroyer Duck teve sete edições, lançadas a intervalos irregulares, a última em 1984.

Em 1986, com o lançamento do filme, a Marvel resolveu ressucitar a revista de Howard. Como o filme foi um fracasso, a revista também não teve vida muito longa, durando apenas mais cinco edições, sendo que três delas eram uma quadrinização do filme. Mais ou menos nesta época, o processo movido por Gerber finalmente chegou ao fim, com a vitória da Marvel, que manteve seus direitos sobre todos os personagens das revistas de Howard, embora não tivesse muito mais o que fazer com eles.

Com o processo encerrado, porém, a Marvel decidiu negociar com Gerber, para que este voltasse a escrever para a editora como freelancer. O editor Tom Breevort conseguiu convencê-lo de que ele era a única pessoa que a Marvel queria escrevendo as histórias de Howard, então ele fechou um contrato para escrever a edição número 5 da revista Spider-Man Team-Up, de 1996, estrelando Howard e o Homem-Aranha. Simultaneamente, ele escreveu para a Image Comics um crossover entre o personagem The Savage Dragon e seu Destroyer Duck. As duas revistas seguem histórias paralelas, ambientadas no mesmo lugar, mas sem que os personagens de uma revista aparecessem na outra, até se "encontrarem" em uma cena confusa que, segundo Gerber, é a mesma cena, mas vista de ângulos diferentes dependendo de qual revista você está lendo. No final da revista de Destroyer Duck, Duke finalmente consegue resgatar seu melhor amigo, que é idêntico a Howard, mas cujo nome é Leonard. Anos mais tarde, Gerber declararia que Leonard seria o verdadeiro Howard, que estava aprisionado pela Marvel e foi resgatado por Duke, mudando-se para o Universo Image e trocando seu nome para não ser encontrado (segundo Gerber, Beverly também foi com ele, e trocou seu nome para Rhonda Martini); enquanto o Howard que acompanhou o Homem-Aranha no final da revista publicada pela Marvel era apenas mais um clone. Este episódio acabou gerando uma enorme animosidade entre Breevort e Gerber, a ponto do editor não querer mais trabalhar com ele.

Phil e HowardO mais curioso é que Gerber ainda aceitaria escrever uma nova minissérie de Howard para a Marvel, publicada em 2001 sob o selo Marvel MAX de quadrinhos para adultos. Esta história seguiu o "estilo Gerber" de Howard, parodiando muitas outras histórias em quadrinhos e ícones da cultura pop, e com muito conteúdo adulto, inclusive sexual. Apesar da manobra de Gerber em 1996, Howard continua até hoje como propriedade da Marvel, e de vez em quando faz participações especiais em diversos outros títulos da editora.

Certo, e o filme, por que é considerado tão ruim? Na minha opinião, porque é totalmente diferente dos quadrinhos, um pecado mortal para uma adaptação. Basicamente, tentaram fazer um filme apropriado para todos os públicos, mas que não agradou a nenhum. Segundo os críticos, é pesado demais para crianças (com isso eu até concordo, tem uma cena em que Beverly quase fica pelada), mas bobo demais para adultos. Aí eu já discordo. Na minha opinião, Howard, o Super-Herói, é, na verdade, um filme trash: seu roteiro pode não ser muito profundo, suas piadas quase todas trocadilhos, mas, e daí?, o filme é muito divertido. Bom, talvez não para os fãs de Howard, pois aí eu concordo que entre o filme e os quadrinhos vai mais de uma semana de distância.

No filme, Howard ("interpretado" por seis atores que se revezavam vestindo uma roupa com cabeça de animatronics, e dublado por Chip Zien) mora em um planeta chamado Duckworld, onde os patos se desenvolveram até se tornar a espécie dominante (justamente a teoria odiada por Gerber). Um dia, ele é acidentalmente trazido para a Terra durante um experimento em nosso planeta com um espectômetro laser. Arremessado ao espaço, Howard acaba indo parar em Cleveland, onde conhece a cantora de rock Beverly Switzler (Lea Thompson - o papel chegou a ser oferecido para Tori Amos, que na época estava em início de carreira e tinha uma banda de rock). Tentando ajudar Howard a voltar para seu planeta, ela o leva até seu amigo Phil Blumburtt (Tim Robbins), que ela imagina ser um cientista, mas é na verdade o zelador de um museu. Revoltado por estar preso em um planeta que não compreende, Howard abandona Beverly e se envolve em muitas confusões ao tentar arrumar um emprego (e um lado trash do filme é que quase todo mundo aceita que ele é um pato e pronto, sem contestação), mas acaba voltando para sua única amiga após tantas frustrações.

A esperança de Howard se renova quando Phil consegue a ajuda do cientista Dr. Walter Jenning (Jeffrey Jones), que promete tentar usar o laser para enviá-lo de volta ao seu planeta natal, buscando, de lambuja, estabelecer uma ligação entre os dois planetas, algo fantástico para a ciência. Durante um teste, porém, Jenning acaba trazendo do espaço um dos alienígenas auto-intitulados Mestres Ocultos do Universo, que se apodera de seu corpo, e passa a ter como missão ajustar o laser para trazer os demais Mestres Ocultos para a Terra, causando a destruição do planeta. Enquanto Howard e Phil são persguidos pela polícia, que acha que eles são os culpados pelo teste do laser ter dado errado, o Mestre Oculto seqüestra Beverly, para usar seu corpo como receptáculo para outro de sua raça. Cabe a Howard se livrar de seus perseguidores e chegar ao laboratório a tempo, para salvar sua amiga e também o mundo.

O fracasso nas bilheterias deve ter sido um espanto na época: o filme tem um bom elenco, foi produzido por George Lucas, escrito por Willard Huyck e Gloria Katz (que co-escreveram Indiana Jones e o Templo da Perdição) e tem efeitos especiais da Industrial Light & Magic. Eu, sinceramente, nem que veja o filme cem vezes vou entender por que ele é tão odiado. Deve ser porque eu não conhecia Howard antes do filme, e porque tenho um especial gosto duvidoso por filmes trash. Principalmente se eles forem dos anos 80.
Ler mais