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sábado, 29 de junho de 2024

Escrito por em 29.6.24 com 0 comentários

Ziraldo

Pode não parecer, mas eu às vezes fico procurando assuntos nacionais para abordar aqui no átomo, porque, ao contrário do que muitos de vocês imaginam, eu não me interesso só por assuntos estrangeiros. O problema é que, como eu já falei aqui algumas vezes, é bem mais difícil encontrar as informações que eu quero para esses assuntos, o que me leva, quase sempre, a desistir. Essa semana (na qual eu estou escrevendo, não na qual eu estou postando, já que escrevo com antecedência), porém, eu decidi tentar bancar esse post, porque o Ziraldo morreu, e seus livros foram uma parte indissociável da minha infância. Se tem alguém que merece um post no átomo, mas que ainda não tinha ganhado um, esse alguém é o Ziraldo. Então, hoje é dia de Ziraldo no átomo!

Ziraldo Alves Pinto nasceu em 24 de outubro de 1932 em Caratinga, Minas Gerais. Seu nome diferente foi uma ideia de seu pai, Geraldo, que decidiu trocar a primeira sílaba de seu próprio nome pela primeira do apelido de sua esposa, Zizinha - cujo nome de batismo era Eufrazina. Ziraldo foi o mais velho de sete irmãos, com o terceiro sendo o também desenhista, cartunista, jornalista e escritor Zélio Alves Pinto - vale citar como curiosidade que, entre Ziraldo e Zélio, nasceu Ziralzi, que recebeu esse nome porque, segundo o pai, "era um Zi de Zizinha e um Zi de Ziraldo". Felizmente, depois desse ele passou a escolher nomes normais.

Ziraldo viveria em Caratinga até 1949, quando iria com a avó para o Rio de Janeiro. Moraria na cidade apenas um ano, entretanto, retornando a Caratinga para cursar o Ensino Médio, na época chamado Módulo Científico. Após concluir a escola, decidiria fazer faculdade de direito na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte, onde se formou em 1957. Mas sua paixão sempre foram os desenhos, com os quais começou muito cedo: aos 6 anos de idade, convenceu seu pai a enviar um de seus cartuns para o jornal Folha de Minas, que gostou tanto da arte do menino que a publicou. Enquanto estava na faculdade, começou a trabalhar na revista Era Uma Vez, o que o levou, em 1954, a ser contratado pelo jornal Folha da Manhã (atual Folha de São Paulo), para escrever uma coluna semanal de humor. Esse trabalho, por sua vez, o levou a conseguir um emprego, em 1957, na prestigiada revista O Cruzeiro, para a qual escrevia charges e cartuns. Em 1960, antes dos trinta anos de idade, Ziraldo ganharia dois importantes prêmios em reconhecimento ao seu trabalho: o Nobel Internacional do Humor, do Salão Internacional de Caricaturas de Bruxelas, Bélgica, e o Prêmio Merghantealler, principal premiação da imprensa da América Latina, na categoria Melhor Cartum.

Em 1958, Ziraldo se casaria com Vilma Costa Gontijo, com quem teve três filhos: a cineasta Daniela Thomas, o compositor Antônio Pinto e a diretora de teatro Fabrízia Alves Pinto. Eles ficariam casados até a morte dela, em 2000; dois anos depois, ele se casaria pela segunda vez, com a produtora Márcia Martins, 18 anos mais jovem que ele.

Em outubro de 1960, Ziraldo lançaria a primeira revista em quadrinhos brasileira colorida e de um só autor, Pererê, na qual publicaria novas histórias e republicações de tiras originalmente publicadas, desde o ano anterior, em preto e branco, em O Cruzeiro. Ambientadas na fictícia Mata do Fundão, as histórias acompanhavam personagens genuinamente brasileiros, tendo como protagonista um saci-pererê, chamado simplesmente Pererê, e seus amigos, o índio Tininim, a onça Galileu, o tapiti (espécie brasileira de coelho) Geraldinho, o jabuti Moacir, o macaco Alan, e o tatu Pedro Vieira. Mais tarde, seriam adicionadas duas personagens femininas, a Boneca de Pixe, namorada de Pererê, e sua melhor amiga, a indiazinha Tuiuiú, apaixonada por Tininim. Os principais antagonistas eram os fazendeiros Tonico Macedo e Seu Neném, donos de terras vizinhas à Mata do Fundão que tinham o sonho de caçar Galileu e expandir suas fazendas; e os meninos Rufino e Flecha-Firme, rivais de Pererê e Tininim. Outro personagem de destaque era a coruja General (mais tarde renomeada para Professor Nogueira), que tirava dúvidas dos personagens, ensinando diversos assuntos às crianças leitoras.

Pererê seria um grande sucesso de vendas e conseguiria uma das maiores tiragens para revistas nacionais de sua época, mas acabaria cancelada em 1964, logo após a instauração do regime militar, quando a gráfica que a imprimia seria fechada pelo governo; ao todo, seriam publicadas 46 edições. Em 1975, a Editora Abril lançaria A Turma do Pererê, nova revista com histórias inéditas, que, devido a baixas vendas, acabaria cancelada após apenas 10 edições. Desde então, as histórias da Turma do Pererê seriam publicadas apenas em almanaques lançados ocasionalmente. A Turma do Pererê também teria três encarnações na TV, todas com atores de carne e osso: um especial de Dia das Crianças exibido pela Globo em 1983, e duas séries exibidas na TVE, a primeira com 20 episódios, entre 2002 e 2004, a segunda com 26, entre 2010 e 2012.

Um ano antes da instauração do regime militar, em 1963, Ziraldo seria contratado como cartunista pelo Jornal do Brasil, uma das mais prestigiadas publicações da época. Lá, ele criaria os personagens Supermãe, Mineirinho e Jeremias, o Bom, homem que estava sempre disposto a ajudar os outros. Em plena ditadura militar, ele usaria esses personagens para criticar os modos e costumes da época, sempre com muito humor e de forma disfarçada. Enquanto trabalhava no Jornal do Brasil, ele também seria o criador do logotipo oficial do Festival Internacional da Canção, popular competição entre cantores da época, organizada pelo governo, que mostrava um galo cantando.

Em 1967, Ziraldo seria contratado pelo Jornal dos Sports, outra prestigiada publicação da época, para criar um suplemento de humor. Chamado Cartum JS, o suplemento, semanal, revelaria vários nomes que se tornariam referência no futuro, como Henfil, Miguel Paiva e Juarez Machado. Em 1969, ele lançaria seu primeiro livro infantil, que também se tornaria um dos mais famosos: Flicts, que contava a história de uma cor diferente de todas as outras, infeliz por não encontrar mais nada no mundo igual a ela. Durante a década de 1970, ele faria vários trabalhos como ilustrador, desenhando desde peças publicitárias a capas de LPs, e criaria, para um álbum de figurinhas, versões para todos os mascotes dos times da primeira divisão do Campeonato Brasileiro de futebol.

Ziraldo também seria um dos fundadores, junto com o cartunista Jaguar e os jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral, da revista O Pasquim, lançada em 22 de junho 1969. "Pasquim", então, era uma gíria usada para se referir a jornais de pouca qualidade, que não traziam notícias relevantes, semelhantes aos tabloides dos Estados Unidos e Reino Unido; o nome seria uma sugestão de Jaguar, que diria que seus detratores teriam de inventar outro nome se quisessem xingá-los. Definindo a si mesma como "um hebdomadário", O Pasquim era publicado uma vez por semana (que é exatamente o que hebdomadário significa), e, inicialmente, era uma publicação de humor, mas, conforme o tempo passava, grandes nomes do humorismo e do jornalismo, como Millôr Fernandes, Manoel Ciribelli Braga, Miguel Paiva, Henfil, Paulo Francis e Ivan Lessa, se uniam à equipe, e a publicação passaria a ter um tom cada vez mais político, sendo considerada como a principal oposição escrita ao regime militar.

O Pasquim acabaria sendo o responsável pela instauração da censura no Brasil, com a Lei de Imprensa, que a previa, sendo publicada pelo governo após Castro e Cabral publicarem uma entrevista que fizeram com a polêmica atriz Leila Diniz. Em novembro 1970, após a publicação de uma charge de Pedro Américo que mostrava D. Pedro I às margens do Ipiranga, o governo decretaria a prisão não só do cartunista como de toda a redação, incluindo Ziraldo, com base no Ato Institucional número 5 (AI-5). A intenção do governo era que a publicação saísse de circulação, mas Millôr, que não foi preso, assumiu a editoria, e, contando com colaboradores como Chico Buarque, Antônio Callado, Rubem Fonseca, Odete Lara e Gláuber Rocha, faria com que as vendas aumentassem ainda mais. Em fevereiro de 1971, quando Ziraldo, Jaguar, Castro e Cabral foram soltos, O Pasquim já vendia cerca de 100 mil exemplares por semana, mais do que as duas principais revistas de jornalismo da época, a Veja e a Manchete, somadas.

Ziraldo fez de tudo no Pasquim: desenhou, escreveu, entrevistou, diagramou, fez capas, inventou seções etc. Chegaria até mesmo a inventar uma palavra: dica, que ele usava no lugar de "indicação", que achava muito comprida, e acabaria entrando para o vernáculo, sendo hoje uma palavra usada por todos, em várias ocasiões. Também seriam criações suas as expressões "pô", "é duca", "ih, cacilda" e "é ford", que ele usava no lugar de palavrões, para que seus textos não fossem censurados; somente a última não passaria a ser de uso geral da população. Um de seus trabalhos mais memoráveis foi a homenagem feita ao ex-presidente Juscelino Kubitschek, que faleceria em um misterioso acidente de automóvel em 1976, para muitos obra do governo militar; caberia a Ziraldo criar a capa da edição que noticiava a morte, que trazia um alfabeto no qual as letras J e K eram destacadas, e o texto que cobria o ocorrido.

Ziraldo deixaria O Pasquim em 1982, após uma briga com Jaguar - diz a lenda que, na disputa pelo Governo do Rio de Janeiro, Jaguar apoiava o candidato Leonel Brizola, enquanto Ziraldo apoiava Miro Teixeira, e os dois apostaram que quem perdesse pediria demissão. O Pasquim ainda seria publicado até 11 de novembro de 1991; mais de seis anos após o fim da ditadura, ele já não se sustentava como publicação política, e, em suas últimas tiragens, já daria prejuízo, o que motivaria Jaguar, o único da equipe original ainda na redação, a decidir encerrá-lo.

Na década de 1980, Ziraldo começaria uma gloriosa carreira como autor de livros infantis, se tornando talvez o principal nome brasileiro nessa área durante mais de vinte anos. O primeiro dessa empreitada seria O Planeta Lilás, de 1979, no qual um extraterrestre de um planeta pequenino constrói uma espaçonave para conhecer o universo. Então, no ano seguinte, ele lançaria aquele que se tornaria seu livro mais famoso: O Menino Maluquinho, que contava a história de um menino um tanto levado, um tanto doidinho, mas de bom coração - o qual o autor diria ter criado por acaso, enquanto conversava consigo mesmo ao fazer a barba diante do espelho.

O livro daria origem a histórias em quadrinhos, peças de teatro, filmes para o cinema, uma série de TV, desenhos animados e até mesmo uma ópera; além do protagonista, conhecido apenas como "Maluquinho", a chamada Turma do Maluquinho conta hoje, dentre outros, com Julieta, apelido Juju, menina alegre, energética e decidida, namorada oficial do Maluquinho; o ingênuo Bocão, melhor amigo do menino; o pessimista e mal-humorado Junim; a idealista Carol, melhor amiga de Juju, que está sempre preocupada com a natureza e lutando pela ecologia; o valentão Herman, às vezes amigo, às vezes rival de Maluquinho; Nina, a irmã mais nova de Bocão, que, apesar de ter apenas cinco anos, é mais madura que ele; o intelectual Lúcio; Sugiro Fernando, entusiasta da informática; e Shirley Valéria, a menina mais bonita da turma. Com mais de três milhões de exemplares vendidos até hoje, vencedor do Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira, e já traduzido para mais de 20 idiomas, sendo um sucesso no mundo inteiro, O Menino Maluquinho seria lançado no dia do aniversário de 48 anos do autor, 24 de outubro de 1980.

Em 1982, Ziraldo publicaria mais um grande sucesso, O Bichinho da Maçã, cujo protagonista era uma minhoquinha que morava dentro de uma fruta. No ano seguinte, ele lançaria Pelegrino & Petrônio, cujos protagonistas eram dois pés, primeiro de uma série sobre partes do corpo humano, que contaria, também, com Os Dez Amigos (dedos das mãos), Um Sorriso Chamado Luiz, Rolim (um cabelinho encaracolado), Dodó (um bumbum), O Joelho Juvenal e O Calcanhar de Aquiles. Em 1985, seria a vez de O Pequeno Planeta Perdido, no qual um astronauta é enviado a um planeta tão distante que o combustível acaba antes de ele chegar lá, e, em 1986, de O Menino Marrom, cujo protagonista é um menino negro que tem como melhor amigo um menino branco (o Menino Cor-de-Rosa). Ele encerraria a década com O Menino Quadradinho, de 1989, sobre um menino viciado em histórias em quadrinhos.

Também na década de 1980, Ziraldo começaria a se envolver ativamente com política, se tornando militante e fazendo campanha para vários candidatos, principalmente em Minas Gerais; ele também seria o criador do logotipo de dois partidos políticos: o PMDB, principal partido de oposição ao regime militar, e o PSOL, fundado em 2004 por dissidentes do PT, ao qual se filiou em 2005. Durante a ditadura, ele seria filiado ao Partido Comunista do Brasil, o PCB, do qual saiu em 1989 após o partido se renomear para PPS.

Na década de 1990, Ziraldo seguiria investindo em sua carreira de autor infantil, expandindo as séries do Bichinho da Maçã, do Menino Maluquinho e Corpim. Em 1990, O Menino Maluquinho ganharia o Prêmio Angelo Agostini de Melhor Lançamento, e Ziraldo o de Mestre do Quadrinho Nacional; em 1993, ele ganharia o Troféu HQ Mix de Grande Mestre. Seu principal destaque dessa década seria Uma Professora Muito Maluquinha, de 1995, sobre uma professora que cativava sua turma com seus métodos diferentes e seu jeito de ser despreocupado, com a história sendo contada do ponto de vista de seus alunos, que se lembravam dela com carinho; o livro seria adaptado para um filme, em 2011, estrelado por Paolla Oliveira. Dois anos depois, em 1997, Ziraldo se envolveria em uma polêmica ao lançar Vovó Delícia, que mostrava que as avós do final do milênio não ficavam só na cadeira de balanço fazendo crochê, mas frequentando academias e praias e sofrendo por amor; houve quem achasse que o livro não era apropriado para crianças, e que a avó seria um mau exemplo.

Em 1999, Ziraldo lançaria mais duas revistas, a humorística Bundas, paródia da revista de celebridades Caras, extremamente popular na época, e a mais séria A Palavra; devido a mudanças nos gostos dos leitores e a um grande número de concorrentes nas bancas, nenhuma das duas teria boas vendas, e ambas acabariam canceladas em pouco tempo. Em 2001, Ziraldo e seu irmão Zélio fariam uma tentativa de ressuscitar O Pasquim, com o nome de OPasquim21; mais uma vez, a publicação teve vida curta, se encerrando em 2004. A partir do ano 2000, ele participaria da Oficina do Texto, projeto que reunia textos escritos por alunos de escolas de todo o Brasil, que eram então ilustrados por Ziraldo para serem lançados em coletâneas. Em 2003, ele seria homenageado no Carnaval de São Paulo pela escola de samba Nenê de Vila Matilde, que teria sua vida como enredo. Em 2004, ele ganharia o prêmio Andersen, na Itália, pela publicação naquele país de Flicts; em 2005, receberia a Ordem do Mérito Cultural, por sua contribuição para a cultura brasileira; e, em 2008, receberia o Prêmio Ibero-Americano de Humor Gráfico.

Na primeira década dos anos 2000, Ziraldo publicaria três livros de grande sucesso voltados para meninas: Menina Nina: Duas Razões para não Chorar (2002), que lidava com o tema da perda e do luto, inspirado pela reação de sua própria neta ao falecimento da avó; Menina das Estrelas (2007), segundo de uma série que começou com O Menino da Lua, do ano anterior, sobre uma menina neta de um escritor, que questiona o avô sobre o porquê de ele só escrever livros protagonizados por meninos; e Uma Menina Chamada Julieta, protagonizado pela namorada de Maluquinho. Também são destaques dessa década Os Meninos Morenos (2004), inspirado na infância do poeta guatemalteco Humberto Ak'abal, e O Menino e Seu Amigo (2003), sobre a amizade de um menino com seu avô.

O Menino da Lua daria origem a uma série com um total de 11 livros, nove deles dedicados a meninos oriundos de diferentes planetas do sistema solar: O Namorado da Fada ou Menino de Urano; O Menino da Terra; O Capetinha do Espaço ou o Menino de Mercúrio; Os Meninos de Marte; O Menino Que Veio de Vênus; Nino, o Menino de Saturno; O Menino d'Água e o Planeta Netuno; Ju, o Menino de Júpiter: O Maior Menino do Mundo; e As Cores do Escuro e os Meninos de Plutão. Conhecida como Os Meninos dos Planetas, essa série seria indicada ao Prêmio Jabuti em 2012, mas não ganharia. O último livro de Ziraldo seria Meninas, de 2016, que abordava a infância de garotas de 7 a 11 anos, e era, segundo o próprio autor, sua versão de Alice no País das Maravilhas.

Em 2013, durante uma viagem à Alemanha, Ziraldo teve um infarto leve, e precisou fazer um cateterismo. Em 2018, teve um AVC, e ficou internado em estado grave. Se recuperou e foi para casa, mas, nos quatro anos seguintes, sofreu outros dois AVCs, que fizeram com que ele ficasse com a saúde debilitada e limitasse suas aparições em público. Nos últimos meses de vida, passaria a maior parte do tempo acamado. Faleceria aos 91 anos, em 6 de abril de 2024, dormindo, em sua casa, no bairro da Lagoa, no Rio de Janeiro.
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domingo, 21 de junho de 2020

Escrito por em 21.6.20 com 0 comentários

Terence Hill & Bud Spencer

Todo mundo que cresceu durante a década de 1980 assistiu a pelo menos um filme com Terence Hill e Bud Spencer. Pode não saber os nomes deles, mas sabem quem são: um louro magro e um barbudo gordo. Eu adorava os filmes deles, mas confesso que, depois que cresci, e que eles pararam de passar na Sessão da Tarde (ou no equivalente do SBT), eu meio que me esqueci que eles existiam. Recentemente, porém, foi lançado aqui no Brasil um box com quatro filmes deles, o qual eu evidentemente comprei, e isso me deu vontade de escrever esse post. Então, hoje é dia de Terence Hill e Bud Spencer no átomo.

Hill e Spencer fizeram 18 filmes juntos; ao contrário do que muita gente pensa, porém, eles não eram "garrados", tendo começado suas carreiras separadamente, se unido por acaso, tendo feito outros filmes solo enquanto faziam os em dupla, e seguido cada um com sua própria carreira após os estúdios perderem interesse em produzir filmes com ambos no elenco. Graças à parceria, os dois foram amigos a vida toda, e mantiveram o contato até a morte de Spencer, em 2016. Outra coisa que muita gente não sabe é que, apesar de seus nomes, eles não eram norte-americanos, e sim italianos - Terence Hill e Bud Spencer eram nomes artísticos, adotados quando o estúdio italiano que produzia seus filmes decidiu lançá-los nos Estados Unidos, para diminuir a resistência do público da época, que não gostava de atores com nomes estrangeiros e difíceis de se pronunciar (Quvenzhané Wallis e Chiwetel Ejiofor estão aí para provar que esse não é mais o caso hoje em dia).

Bud Spencer era o mais velho da dupla. Nascido em 31 de outubro de 1929 em Nápoles, ele se chamava Carlo Pedersoli, e, na juventude, escolheu não ser ator, mas atleta, praticando natação e polo aquático. Spencer morou no mesmo prédio que o famoso ator e roteirista italiano Luciano de Crescenzo, que foi seu colega de turma na escola até 1940, quando, por imposição do trabalho de seu pai, um funcionário público, a família teve de se mudar para Roma, onde Spencer concluiu seus estudos e começou sua carreira de atleta juvenil. Após terminar o colégio, ele chegou a se matricular na Universidade Sapienza de Roma, para estudar engenharia química, mas, um ano depois, em 1947, seu pai teve de se mudar a trabalho mais uma vez - dessa vez para o Brasil. O primeiro emprego de Spencer foi no consulado italiano do Recife, em Pernambuco, onde aprendeu a falar português fluente. Em 1949, já com vinte anos, ele decidiu voltar para Roma, onde seguiu com sua carreira de atleta, nadando e jogando polo pela Società Sportiva Lazio Nuoto.

Spencer seria o primeiro italiano a nadar os 100 m estilo livre em menos de um minuto, em 19 de setembro de 1950, durante um campeonato realizado em Salsomaggiore; no mesmo ano, ele representaria a Itália no Campeonato Europeu, terminando em quinto nos 100 m estilo livre e em quarto no revezamento 4 x 200 m estilo livre. Ele também participaria de duas Olimpíadas, 1952 em Helsinque, Finlândia, e 1956 em Melbourne, Austrália, em ambas chegando às semifinais dos 100 m estilo livre. No pólo aquático, ele conquistaria dois títulos, o do Campeonato Italiano de 1954, com o time da Lazio, e o ouro nos Jogos Mediterrâneos de 1955, em Barcelona, Espanha; na natação, seu resultado de maior destaque seria uma prata nos 100 m estilo livre dos Jogos Mediterrâneos de 1951, em Alexandria, Egito. Em 1957, ele voluntariamente decidiria abandonar a carreira esportiva e voltar à América do Sul, dessa vez indo morar na Venezuela, onde trabalharia numa empresa governamental de construção de estradas.

Ele voltaria a Roma em 1959, quando conheceria Maria Amato, filha do produtor de cinema Giuseppe Amato, com quem se casaria em 1960, logo após os Jogos Olímpicos de Roma, e com quem teria três filhos, Giuseppe, nascido em 1961, Cristiana, nascida em 1962, e Diamante, nascida em 1972. Spencer conheceu Giuseppe Amato em 1950, quando começou sua carreira cinematográfica com um pequeno papel na comédia Quel Fantasma di mio Marito; no ano seguinte, ele faria uma ponta como um guarda na produção hollywoodiana filmada na Itália Quo Vadis, em 1954 ele faria um pequeno papel no filme de guerra Torpedos Humanos, em 1955 outro pequeno papel, na comédia Um Herói de Nossos Tempos, e, em 1959, conseguiria seu maior papel até então, o do líder tribal Rutário no épico Aníbal, o Conquistador. Após seu casamento, entretanto, Spencer decidiria não investir em sua carreira de ator, conseguindo um contrato com a gravadora RCA para compor canções que seriam cantadas por Ornella Vanoni e Nico Fidenco. Em 1964, ele desistiria dessa carreira para se tornar produtor de documentários para o canal de televisão RAI. Em 1967, graças a um convite do diretor Giuseppe Colizzi, amigo de seu sogro, ele decidiria retomar sua carreira de ator.

Já Terence Hill nasceu Mario Girotti, em Veneza, em 29 de março de 1939. Seu pai, curiosamente, era engenheiro químico, e sua mãe era alemã, nascida na cidade de Dresden. Quando Hill tinha três anos de idade, sua família se mudou para a cidade alemã de Lommatsch, onde ele viveu até o fim da Segunda Guerra Mundial, inclusive sobrevivendo a um bombardeio das forças aliadas em 1945. Em 1951, aos 12 anos, ele seria descoberto pelo cineasta Dino Risi durante uma peça escolar, e começaria sua carreira como ator mirim interpretando um líder de gangue no filme Il Viale della Speranza, de 1953. Naquele mesmo ano, ele conseguiria pequenos papéis em quatro outros filmes, e, nos anos seguintes, papéis progressivamente maiores, e bastante elogiados em filmes de guerra como La Vena d'Oro, Gli Sbandati e Divisione Folgore. Em 1956, ele contracenaria com Yves Montand em La Grande Strada Azzurra, e conseguiria seu primeiro papel como protagonista em O Estudante e a Vedeta, no qual fazia um adolescente apaixonado por uma mulher mais velha (interpretada por Giulia Rubini). Em 1958, ele contracenaria com Gina Lollobrigida em Anna di Brooklyn, de Vittorio de Sica, e com Yvonne de Carlo em A Espada e a Cruz, no qual interpretou Lázaro da Betânia. Em 1959 ele faria um pequeno papel em Aníbal, conhecendo Spencer durante as filmagens.

À exceção de protagonizar duas comédias adolescentes lançadas em 1959, Spavaldi e Innamorati e Cerasella, Hill passou os anos seguintes apenas fazendo pequenos papéis, e decidiu estudar literatura clássica na Universidade do Vêneto, onde conheceria sua futura esposa, Lori Hill, com quem teria dois filhos, Jess, nascido em 1969, e Ross, nascido em 1973. Em 1963, ele conseguiria seu papel de maior destaque até então, no épico O Leopardo, de Luchino Visconti, no qual contracenava com Alain Delon e interpretava um pretendente à filha de Burt Lancaster. Esse papel faria com que ele recebesse um curioso convite para estrelar filmes de faroeste - não na Itália, mas na Alemanha, já que ele também era fluente em alemão. Hill faria mais de dez filmes de faroeste alemães antes de retornar à Itália em 1967, para protagonizar o romance Io non Protesto, Io Amo, ao lado de Caterina Caselli. Seu sucesso nesse filme, e sua experiência prévia com filmes de faroeste levariam o diretor Giuseppe Colizzi a convidá-lo para protagonizar Deus Perdoa... Eu Não! - e é aqui que a história que nos interessa começa.

Expoente do estilo que se tornaria conhecido como spaghetti western (ou, em bom português, "faroeste macarrônico", filmes de faroeste italianos com boas doses de comédia), Deus Perdoa... Eu Não! é considerado o primeiro filme da dupla Terence Hill & Bud Spencer - primeiro, porque ele é realmente aquele no qual ambos são protagonistas juntos, já que, no filme, os bandidos e amigos Cat Stevens (Hill) e Hutch Bessy (Spencer) unem forças para se vingar de Bill San Antonio (Frank Wolff), que, anos antes, os enganou durante um roubo e fugiu sozinho com o dinheiro. Segundo, porque foi graças a esse filme que os dois tiveram de escolher seus nomes artísticos: produzindo o filme especificamente de olho no mercado norte-americano, a companhia Crono Cinematografica estabeleceu que todos os atores teriam de ter nomes em inglês nos créditos; Mario Girotti escolheria o nome de seu poeta romano preferido da época da faculdade (Terêncio, que, em inglês, é Terence) e o sobrenome de solteira de sua esposa Lori Hill (com quem se casaria logo após as filmagens); já Carlo Pedersoli escolheria Bud em homenagem à cerveja Budweiser, e Spencer em homenagem ao ator Spencer Tracy.

Os papéis de Hill e Spencer em Deus Perdoa... Eu Não! estabeleceriam um padrão que os seguiria por toda a sua carreira em dupla: com algumas poucas exceções, o personagem de Hill era sempre um malandro disposto a engendrar vários truques e armações para se dar bem ou enriquecer sem esforço, enquanto o de Spencer era um fortão casca-grossa de pavio curto mas bom coração, que sempre acabava enredado nas confusões do amigo. Normalmente, eles se conheciam por acidente e se tornavam amigos, mas em alguns, como no próprio Deus Perdoa... Eu Não!, eles já possuíam uma amizade prévia. O contraste físico entre os dois também ajudava a estabelecer seus estereótipos: Hill era louro, de olhos azuis, esguio e atlético, sempre se esquivando dos piores golpes quando entrava em uma briga, enquanto Spencer, de 1,93 m de altura, era gordo, barbudo e com cara de poucos amigos, sempre cuspindo nas mãos ou arregaçando as mangas antes de brigar, e dando conta de vários oponentes ao mesmo tempo.

Deus Perdoa... Eu Não! seria um gigantesco sucesso, se tornando o filme de maior bilheteria de 1967 na Itália, e projetando Hill definitivamente ao posto de estrela. Ainda em 1967, ele estrelaria o musical La Feldmarescialla, ao lado de Rita Pavone, e, no ano seguinte, seria o protagonista de Viva Django!, faroeste continuação de Django de 1966, no qual Hill assumiu o personagem-título, interpretado por Franco Nero no original. Também em 1968, ele uniria os dois estilos, atuando no faroeste musical Os Pistoleiros do Oeste, mais uma vez ao lado de Rita Pavone. Enquanto isso, Spencer interpretaria um homem condenado por um crime que não cometeu em busca de vingança em Hoje Eu... Amanhã Você e participaria do faroeste Um Colt... para os Filhos do Demônio, ambos de 1968.

1968 também seria o ano no qual Hill e Spencer voltariam a se unir em Os Quatro da Ave Maria, continuação de Deus Perdoa... Eu Não!, que, com A Colina dos Homens Maus, de 1969, fecharia uma trilogia. Também em 1969, Spencer faria o filme de guerra Deus Está Conosco, ao lado de Franco Nero, e Hill faria o faroeste A Cólera do Vento. Então, em 1970, a dupla se reuniria mais uma vez para seu maior sucesso até então: Trinity é meu Nome, no qual Hill interpreta o fora-da-lei Trinity, o pistoleiro mais rápido do oeste, que tenta salvar seu irmão, Bambino (Spencer), de caçadores de recompensas. Para vocês terem uma ideia, o sucesso de Trinity foi tão grande que A Cólera do Vento, que foi lançado nos Estados Unidos depois, receberia o nome de Revenge of Trinity ("A Vingança de Trinity"), e A Colina dos Homens Maus seria lançado em vídeo no Brasil com o nome de Trinity: A Colina dos Homens Maus, mesmo sem nenhum dos dois filmes ter nada a ver com Trinity. Trinity ganharia uma continuação, Trinity Ainda é Meu Nome, em 1972, que se tornaria o filme italiano de maior bilheteria na história, recorde que manteve até 1997, quando foi ultrapassado por A Vida é Bela.

Entre os dois primeiros filmes de Trinity, a dupla faria um filme de piratas, O Corsário Negro, de 1971, mesmo ano no qual Spencer participaria do suspense policial (gênero conhecido na Itália como giallo) Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza, de Dario Argento. Em 1972, Hill faria o drama A Verdade e a Mentira e o faroeste ...E Agora Me Chamam 'O Magnífico', enquanto Spencer faria o filme de máfia Torino Nera, além de dois filmes que, no Brasil, ganhariam títulos bem picaretas: a comédia Si Può Fare... Amigo, a qual ele protagonizou ao lado de Jack Palance, viraria Que Assim Seja, Trinity, e o faroeste Una Ragione per Vivere e una per Morire, no qual atuou com James Coburn e Telly Savalas, receberia o título de Trinity... Os Sete Magníficos, ambos, obviamente, para tentar pegar carona no sucesso de Trinity. Até mesmo a comédia de ação ...Più Forte Ragazzi!, também de 1972, no qual Hill e Spencer interpretam dois aventureiros que enfrentam um minerador inescrupuloso na selva peruana, ou seja, nada a ver com faroeste, receberia no Brasil o título de Dá-lhe Duro, Trinity!.

Em 1973, Spencer faria mais um filme de máfia, Os Anjos Também Comem Feijão, ao lado de Giuliano Gemma, e a comédia policial Piedone lo Sbirro, na qual interpretava Piedone (pé-chato), um investigador durão e de métodos pouco convencionais, que se tornaria um dos personagens mais famosos de sua carreira. Enquanto isso, Hill faria mais um faroeste, Meu Nome é Ninguém, ao lado de Henry Fonda, considerado um dos melhores de sua carreira, e o qual ele mesmo considerava como seu favorito. Hill e Spencer voltariam a se reunir em 1974 para mais dois filmes: A Dupla Explosiva, na qual mafiosos destroem seu buggy vermelho ("de capota amarela") e eles decidem fazê-los pagar um novo, e Dois Missionários do Barulho, no qual interpretam dois padres que são mandados para a Venezuela e se envolvem em confusões com as autoridades locais. Em 1975, Hill faria mais um faroeste, Un Genio, Due Compari, Un Pollo, que, no Brasil, ganharia o título de Trinity e Seus Companheiros. Spencer faria mais um filme de Piedone, Piedone a Hong Kong (1975), e o filme medieval Cavaleiro da Aventura (1976).

O sucesso da dupla na década de 1970 era tão grande que o estúdio italiano Aetos decidiu contratar o ator norte-americano Paul L. Smith (que, em 1984, faria o Glossu Raban de Duna), que, assim como Spencer, era alto, gordo e barbudo, e o italiano Antonio Cantafora (que adotaria o nome artístico de Michael Coby), que, assim como Hill, era magro, louro e de olhos claros, para fazer cinco filmes entre 1973 e 1977, que copiavam descaradamente a fórmula de Hill e Spencer - o personagem de Coby era sempre um malandro trambiqueiro, e o de Smith um fortão de pavio curto e bom coração, e dois dos filmes, ainda por cima, eram faroestes nos quais eles eram irmãos. Esses filmes fariam um relativo sucesso na Itália, e um deles, Un Giocco da Ragazzi, de 1975, seria lançado nos Estados Unidos, pela Film Ventures International, com o título de Convoy Buddies. Levando a picaretagem a um novo nível, o produtor Edward L. Montoro, dono da Ventures, chegaria a creditar os atores como Terence Hall e Bob Spencer, mas teve de voltar atrás após ser processado por Smith. Na Hungria, onde Bud Spencer se tornou absurdamente popular graças ao personagem Piedone (ganhando uma estátua no centro de Budapeste após sua morte), o ator István Bujtor, que, como vocês devem imaginar, era alto, gordo e barbudo, faria sua própria série interpretando o inspetor, renomeado para Ötvös Csöpi, em seis filmes entre 1981 e 2008, os três últimos para a TV.

Em 1975, Hill decidiria se mudar para os Estados Unidos e tentar uma carreira internacional, mas seus dois primeiros filmes, a comédia Mr. Billion, na qual interpreta um herdeiro que tem de chegar a tempo nos Estados Unidos para receber sua herança, e o filme de drama Marcha ou Morre, no qual atuou ao lado de Gene Hackman, ambos de 1977, foram dois grandes fracassos. Também em 1977, Hill e Spencer fariam um filme italiano policial de comédia filmado em Miami, Dois Tiras Fora de Ordem, no qual interpretam dois atrapalhados policiais norte-americanos. Spencer, que ficou na Itália e só foi a Miami gravar o filme, estrelaria, em 1977, ao lado de Herbert Lom, a comédia O Super Vigarista (1977), no qual interpreta um trambiqueiro que tenta dar um golpe de cinco milhões de dólares; no ano seguinte, 1978, ele faria mais um filme de Piedone, Piedone l'Africano, e um ex-jogador de futebol americano disposto a recuperar seu barco roubado em Lo Chiamavano Bulldozer.

Após dois fracassos, a carreira internacional de Hill ficou estagnada, de forma que seus dois filmes de 1978 foram em dupla com Spencer: Par ou Ímpar, no qual dois irmãos, um policial e um trambiqueiro, tentam desbaratar uma quadrilha que explora o jogo ilegal em Miami, e Nós Jogamos com os Hipopótamos, no qual dois irmãos tentam acabar com uma quadrilha de caçadores ilegais na África. Em 1979, Hill faria o filme de drama transcedental Org, no qual estreou como produtor, enquanto Spencer faria o faroeste fantástico O Xerife e o Pequeno Extraterrestre, que ganharia uma sequência, O Super Xerife, em 1980, mesmo ano no qual faria mais um filme de Piedone, Piedone d'Egitto, e no qual Hill estrelaria Poliziotto Superpiù, no qual interpreta um policial que ganha superpoderes após uma explosão nuclear, mas é acusado de um crime que não cometeu. Em 1981, Spencer faria Buddy no Velho Oeste, no qual um mineiro e seu amigo indígena tentam proteger uma pequena cidade do oeste americano de um xerife corrupto. Naquele mesmo ano, Hill e Spencer se reuniriam mais uma vez para Quem Encontra um Amigo, Encontra um Tesouro, no qual o personagem de Hill encontra um mapa de um tesouro enterrado em uma ilha supostamente deserta, e convence o personagem de Spencer a ir até lá com ele.

Em 1982, Spencer faria um dos maiores sucessos de sua carreira solo, Banana Joe, do qual também foi roteirista, no qual interpreta um homem que vive isolado em uma ilha plantando bananas, mas precisa da ajuda do povo de um vilarejo próximo quando um mafioso tenta tomar suas terras. No mesmo ano, ele faria Bomber, no qual interpreta um ex-boxeador que tem de voltar a lutar para enfrentar uma gangue, e, em 1983, faria Ladrões e Gatunos, no papel de um policial que tem suas férias com a família interrompidas quando surge a oportunidade de capturar um criminoso que ele procura há tempos. 1983 também seria o ano do lançamento de um dos filmes mais engraçados da dupla Hill e Spencer, Dois Loucos com Sorte, no qual um trambiqueiro e um ex-presidiário são confundidos com agentes secretos e enviados em uma missão que pode determinar o destino do planeta. Em 1984, Hill teria seu quinto fracasso de bilheteria solo seguido com Don Camillo, sua estreia na direção, no qual interpreta um padre que tenta resolver de forma pouco ortodoxa os problemas da pequena cidade para a qual foi designado.

Se os filmes solo de Hill eram fracassos, os em dupla com Spencer continuavam sendo grandes sucessos; apesar disso, na década de 1980, eles só fariam mais dois: Eu, Você, Ele e os Outros, de 1984, filmado no Rio de Janeiro, no qual um músico de jazz e um dublê de cinema são contratados para se fazer passar por dois milionários dos quais são sósias, e que, sem que eles saibam, estão marcados por assassinos profissionais; e Os Dois Super-Tiras em Miami, de 1985, no qual dois policiais têm de resolver um assassinato misterioso envolvendo um homem que acabou de sair da prisão após cumprir sete anos por roubar 20 milhões de dólares. Depois disso, Spencer faria o gênio em Aladim, de 1986, e partiria para uma bem-sucedida carreira fazendo filmes na TV italiana: nos seis primeiros, todos de 1988, interpretaria o policial Jack Clementi, em guerra contra o tráfico de drogas; nos 12 seguintes, lançados entre 1991 e 1993, interpretaria o ex-policial Jack "Extralarge" Costello, assessor da polícia em casos de difícil solução. Em 1991, ele também faria a comédia Un Piede in Paradiso, no qual interpretaria um motorista de táxi que está ameaçado de perder seu emprego quando a máfia tenta comprar sua empresa, mas encontra um bilhete de loteria premiado.

Enquanto isso, Hill faria o road movie Um Osso Duro de Roer, filmado nos Estados Unidos mas com diretor e elenco italianos, que estrearia em 1987. Em seguida, ele negociaria os direitos para interpretar um dos personagens mais famosos dos quadrinhos europeus, o xerife Lucky Luke. Hill estrearia como Luke em um filme de 1991 chamado simplesmente Lucky Luke, o qual também escreveria e dirigiria; o sucesso do filme daria origem a uma série, que estrearia no canal italiano Canale 5 em 20 de março de 1992. Infelizmente, a série não faria sucesso, e teria apenas 8 episódios produzidos, o último exibido em 22 de maio.

Em 1994, Hill e Spencer se uniriam novamente para seu último filme em dupla, o faroeste Botte di Natale, que, no Brasil, ganharia o título A Volta de Trinity, mesmo, mais uma vez, sem ter nada a ver com Trinity. Na época, Spencer já estava com 64 anos e Hill com 55, e parecia claro que os spaghetti westerns já não tinham mais espaço no cinema. Após alguns anos parados, os dois retornariam em 1997, Hill fazendo o filme de ficção científica Cyberflic, Spencer como protagonista da série de TV A Sorte Caiu do Céu, na qual ele e Philip Michael Thomas interpretam dois fugitivos da prisão que se disfarçam de padres. Exibida pela RAI, a série teria apenas uma temporada de 6 episódios, exibidos entre 9 de fevereiro e 16 de março de 1997.

Em 2000, Hill se reconciliaria com o sucesso em uma série de TV, Don Matteo, exibida pela RAI a partir de 7 de janeiro daquele ano. Hill interpretaria o personagem-título, um padre católico que ajuda a polícia da pequena cidade para a qual foi designado a solucionar crimes aparentemente inexplicáveis; o papel renderia a Hill o prêmio de Melhor Ator no Festival de Televisão de Monte Carlo de 2002. Don Matteo está no ar até hoje, e já teve 12 temporadas e 255 episódios; nos intervalos das gravações, Hill faria quatro filmes para a RAI, entre 2006 e 2009, dois de romance, nos quais interpretava o fazendeiro Rocco Ventura, e dois de faroeste, nos quais interpretava o pistoleiro Doc West. Em 2011, ele passaria a também atuar na série Un Passo dal Cielo, na qual interpretava o comissário de polícia de uma pequena cidade no norte da Itália, próxima à fronteira com a Áustria. Un Passo dal Cielo seria a primeira série filmada em HD pela RAI, e também está no ar até hoje, com 72 episódios divididos em cinco temporadas, o primeiro em 10 de abril de 2011; Hill participaria das três primeiras temporadas, saindo após 44 episódios, o último exibido em 16 de março de 2015, justamente por não conseguir conciliar as gravações com as de Don Matteo - na quarta temporada, ele seria substituído em Un Passo dal Cielo por Daniele Liotti, que interpretaria o mesmo personagem.

Spencer continuaria no cinema, mas, entre 1997 e 2000, faria apenas participações especiais, em quatro filmes italianos. Ele voltaria a ser protagonista em Cantando por Detrás das Cortinas, de 2003, no qual faria um velho capitão pirata em uma história contada por uma moça chinesa a um de seus clientes em um bordel. Em 2005, após tentar sem sucesso uma carreira na política, ele faria o filme para a TV Padre Speranza, na qual interpretava um padre que aconselhava jovens detentos de uma instituição penitenciária juvenil; em 2008, ele faria uma participação em outro filme para a TV, Pane e Olio, e, em 2009, voltaria ao cinema com um pequeno papel no filme de máfia alemão Matar é Meu Negócio, Querida. Em 2010, Spencer protagonizaria a série de TV I Delitti del Cuoco, exibida pelo Canale 5 e produzida por seu filho, Giuseppe, no papel de um policial aposentado que decide abrir um restaurante e se tornar chef (cuoco, em italiano), mas continua se envolvendo na solução de crimes. A série não faria muito sucesso e teria apenas uma temporada de 11 episódios, exibidos entre 9 de maio e 6 de junho. Após seu final, Spencer, já com 80 anos, decidiria se aposentar.

Após a aposentadoria, Spencer viveria em Roma com a esposa. Ele faleceria em 27 de junho de 2016, aos 86 anos, de causas não divulgadas pela família - Giuseppe apenas divulgou que ele morreu na cama, sem dor, em paz, na presença da família, e que sua última palavra foi "obrigado". Hill atualmente está com 81 anos, e ainda atua em Don Matteo - que teve sua mais recente temporada encurtada e está com as gravações suspensas por causa da pandemia, mas Hill ainda tem contrato, então tudo indica que ele retornará. No cinema, seu último papel foi em 2018, no filme de drama Meu Nome é Thomas, que também escreveu e dirigiu, no qual interpreta um homem que deseja ir da Itália até o deserto de Almería, na Espanha, para meditar, e, no caminho, acaba se envolvendo com uma ladra fugitiva.

Para concluir, vale citar como curiosidade que, apesar de tanto Hill quanto Spencer terem nascido na Itália e serem fluentes em inglês, ambos eram dublados por dubladores profissionais em seus filmes - uma prática extremamente comum no cinema italiano, para evitar que os personagens tivessem sotaques diferentes de suas regiões de origem (Spencer, por exemplo, tinha um sotaque napolitano fortíssimo, e não era prático que ele só interpretasse napolitanos). Em italiano, Hill seria dublado, na década de 1960, por Sergio Grazziano, de 1970 a 1983 por Pino Locchi, e de 1983 a 1996 por Michele Gammino, passando a usar sua própria voz a partir de 1996; em inglês, seus dubladores oficiais foram Lloyd Batista e Roger Browne, com sua própria voz sendo mantida a partir de Mr. Billion. Já Spencer seria dublado em italiano ao longo de toda a sua carreira, por Glauco Onorato até 1997, e por Sergio Fiorentini a partir de então; em inglês, seus dubladores oficiais foram Robert Sommer, Edward Mannix e Richard McNamara.
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segunda-feira, 3 de abril de 2017

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Ayrton Senna

Podem parar de fingir, eu sei que, pelas minhas costas, vocês dizem que eu sou um traidor da pátria. Que só me interesso por assuntos estrangeiros. Que não dou valor à cultura nacional. E como vou negar, se, de 714 posts publicados até a semana passada, somente uns três tinham assuntos nacionais?

É claro que o parágrafo acima é uma brincadeira. Eu não acho que nenhum de vocês pensa isso de mim (embora não duvide de que possa haver quem pense), e não é verdade que eu só me interesse por assuntos estrangeiros. O que acontece é que, além de realmente eu me interessar por muito mais músicas, filmes e livros internacionais, é absurdamente mais difícil encontrar as informações que eu gostaria de colocar em um post quando os assuntos são brasileiros. Aliás, parece ser absurdamente difícil encontrar as informações que eu quero quando o assunto não é originário dos Estados Unidos, Grã-Bretanha ou Japão - há tempos, por exemplo, eu penso em fazer um post sobre Nina Persson, a ex-vocalista dos Cardigans em atual carreira solo, mas, enquanto é extremamente fácil encontrar a biografia completa de qualquer jovem cantora norte-americana de sucesso moderado, nem em páginas em sueco eu encontro uma biografia decente dela.

Enfim, já há algumas semanas eu venho matutando sobre isso, e acabei tendo uma ideia interessante. Já faz tempo que eu não faço um Mês Temático aqui no átomo - antigamente, eu costumava separar quatro assuntos ligados a um tema comum e ocupar um mês inteiro com eles, mas já nem me lembro qual foi a última vez em que fiz isso. Como temas nacionais são raros por aqui, eu decidi ressuscitar essa prática, e transformar esse mês de abril - não por acaso, o mês do "descobrimento" do Brasil - no Mês do Brasil no átomo. Isso mesmo, hoje e nas próximas três semanas, teremos temas nacionais por aqui. Começando por um post sobre Ayrton Senna - que eu penso em fazer desde que fiz o do Nigel Mansell, há mais de dez anos, mas sempre acabo desistindo por vários motivos, das primeiras vezes, justamente por não conseguir encontrar as informações que eu queria. Mas hoje não. Apagam-se as luzes vermelhas, sobe o giro dos motores, começa o Mês do Brasil no átomo!

Ayrton Senna da Silva nasceu em São Paulo, em 21 de março de 1960, filho do empresário Milton da Silva e de Neide Senna da Silva. Era o "irmão do meio", entre a mais velha, Viviane, e o mais novo, Leonardo. Até os quatro anos de idade, ele morou com a família em uma casa que pertencia a seu avô materno, João Senna, a poucos metros do Campo de Marte, um aeroporto na zona norte de São Paulo destinado a voos particulares de jatinhos e helicópteros, mas que, na década de 1960, também servia para entusiastas do kart testarem seus equipamentos. Desde os três anos de idade ele já demonstrava interesse por carros e corridas, e, aos quatro, dizia que queria ser piloto. Para agradá-lo, seu pai construiria um kart "caseiro", usando o motor de um cortador de grama.

A carreira efetiva de Senna no kart começaria aos 13 anos de idade, no Kartódromo de Interlagos, disputando o Campeonato Paulista. Já em sua primeira corrida, mesmo sendo o mais jovem na pista, ele faria a pole position (largaria da primeira posição; não custa nada explicar, vai que alguém aí não sabe) e lideraria a maior parte da corrida, até se envolver em um acidente com outro competidor. Paralelamente às corridas de kart, ele estudaria no Colégio Rio Branco, no bairro dos Jardins, onde se formaria em 1977, mesmo ano em que seria campeão pela primeira vez no Campeonato Brasileiro e no Campeonato Sul-Americano de Kart. Ele seria tricampeão em ambas as competições, conquistando ambos os títulos também em 1978 e 1980; em 1979, ele decidiria focar no Campeonato Mundial, mas acabaria com o vice-campeonato, em parte devido a uma punição que lhe custou os pontos obtidos em uma das baterias, por estar com o barulho do escapamento 0,5 dB acima do máximo permitido. Senna também seria vice-campeão mundial em 1980, ano no qual terminaria empatado em pontos com o holandês Peter de Bruijn, mas perderia nos critérios de desempate. Segundo o próprio Senna, jamais ter sido campeão mundial de kart seria uma das frustrações de sua carreira.

Apesar de todos os seus sucessos no kart, os pais de Senna não eram muito favoráveis a que ele seguisse uma carreira no automobilismo, preferindo que ele estudasse para assumir os negócios da família. Após concluir o colégio, ele chegaria a se matricular em uma faculdade de administração, mas, sem interesse, abandonaria após apenas três meses. Como as vitórias no kart continuavam acontecendo, seu pai decidiria investir em sua carreira mais um pouco, e até estimulou o filho quando ele recebeu um convite da equipe Van Diemen para disputar o campeonato inglês de Fórmula Ford 1600 de 1981. Com o nome de Ayrton da Silva, Senna se sagraria campeão, com 12 vitórias em 20 corridas.

Senna já havia até decidido respeitar a vontade dos pais, se aposentar do automobilismo e se dedicar à administração após o título da Fórmula Ford 1600, mas, ao retornar ao Brasil, receberia um convite da equipe Rushen Green para disputar, em 1982, o campeonato inglês e o campeonato europeu da categoria imediatamente superior, a Fórmula Ford 2000. Vendo que era isso que o filho queria, seus pais lhe deram permissão para que ele fosse morar na Inglaterra e competir, e seu pai ainda negociaria patrocínios com Banerj, o antigo Banco do Estado do Rio de Janeiro, e com a fábrica de roupas Pool. Como "da Silva" era um sobrenome muito comum no Brasil, ele pediria à equipe para usar o sobrenome de sua mãe, se tornando, então, Ayrton Senna.

Senna venceria ambos os campeonatos, com 15 vitórias em 18 provas do inglês e cinco vitórias em nove provas do europeu. Ele também disputaria o Mundial de Kart em 1981 e 1982, em busca do tão sonhado título, mas, focado nas corridas de Fórmula Ford, terminaria na 4a posição em 1981, e apenas na 14a posição em 1982. A boa performance de Senna na Fórmula Ford 2000 lhe renderia um convite da equipe West Surrey Race para disputar, em Thruxton, Inglaterra, uma corrida de Fórmula 3 que não valia pontos para o campeonato de 1982; Senna faria a pole position, a volta mais rápida, e ainda venceria a corrida, chegando 13 s à frente do segundo colocado.

Se isso foi alguma espécie de teste, Senna passou com louvor, sendo contratado pela West Surrey para disputar a temporada de 1983 da Fórmula 3 inglesa. Senna dominaria a primeira parte da temporada, vencendo as nove primeiras corridas, mas, na segunda, encontraria um adversário em Martin Brundle, da equipe Jordan, com quem travaria duelos memoráveis. Brundle alcançaria Senna na pontuação, mas o brasileiro ainda seria o campeão, com um total de 12 vitórias em 20 provas, após uma chegada apertada na última, mais uma vez em Thruxton. Naquele ano, Senna venceria seis das oito provas realizadas em Silverstone (chegando em segundo em uma das outras duas e abandonando a outra), o que faria com que a imprensa especializada inglesa, em sua homenagem, apelidasse o circuito de "Silvastone". Ainda em 1983, Senna seria o campeão, correndo pela Theodore Racing Team, do Grand Prix de Macau, a prova de Fórmula 3 de maior prestígio no mundo, que hoje faz parte do Campeonato Mundial, mas que na época podia ser disputada por qualquer piloto de Fórmula 3.

A performance de Senna em 1983 chamaria a atenção da Fórmula 1, e, no início de 1984, ele receberia convites para testar na Williams, na McLaren, na Brabham, na Toleman e na Lotus. Peter Warr, o diretor da Lotus, queria contratá-lo para o lugar de Nigel Mansell, mas a patrocinadora da equipe, a Imperial Tobacco, fabricante dos cigarros John Player Special, fazia questão de um piloto inglês, e o outro piloto da Lotus, o italiano Elio de Angelis, era considerado a maior esperança da equipe para o título. O mesmo aconteceria na Brabham: Senna impressionaria nos testes, sendo mais rápido até que o primeiro piloto da equipe, o também brasileiro Nelson Piquet, mas o patrocinador da equipe, a indústria de laticínios Parmalat, fazia questão de pelo menos um piloto italiano (que acabaria sendo Teo Fabi), e ninguém iria trocar Piquet, o campeão do ano anterior, por um estreante. Senna também seria mais rápido nos testes que os dois pilotos da Williams, mas, como a equipe já tinha Keke Rosberg (campeão em 1982) e Jacques Laffite, tentou convencer Senna a assinar como piloto de testes, com direito a uma vaga em 1985. Essa também foi a proposta da McLaren, que já contava com Niki Lauda (que viria a ser campeão em 1984) e Alain Prost. Senna, porém, queria começar a disputar o campeonato já em 1984, e acabaria assinando com a pequena Toleman, que tinha um fraco motor Hart, pneus Pirelli (considerados, na época, inferiores aos Goodyear e Michelin, os outros dois fornecedores da Fórmula 1 naquele ano) e, como primeiro piloto, o venezuelano Johnny Cecotto, que havia começado a carreira no motociclismo.

Senna faria sua estreia na Fórmula 1 em 25 de março de 1984, justamente no Grande Prêmio do Brasil, na época disputado no Autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, o qual teve de abandonar na oitava volta após um estouro de motor. Na corrida seguinte, em Kyalami, África do Sul, terminaria em sexto, conquistando seus primeiros pontos na categoria, resultado que repetiria na corrida seguinte, em Zolder, Bélgica. Na quarta corrida do campeonato, em Ímola, San Marino, Senna não conseguiria se classificar (na época, nem todos os carros participavam automaticamente da corrida, apenas os 22 melhores dos treinos) devido a problemas com o carro, na única vez em que não se classificou para uma prova em toda a sua carreira. Senna abandonaria a quinta corrida, em Dijon, França, mas a sexta, em Mônaco, seria um dos pontos altos de sua carreira: sob forte chuva, Senna, que largou em 13o, veio passando todo mundo até chegar em segundo, atrás de Prost, que, desesperado, pedia para que a McLaren intercedesse junto aos comissários pela interrupção da corrida, que, segundo ele, não tinha condições de segurança para prosseguir devido ao temporal. A corrida seria interrompida na 29a volta, com Senna ultrapassando Prost logo após as bandeiras vermelhas serem mostradas; o regulamento, porém, determinava que valiam os resultados da volta anterior, e, quando completaram a 28a, Prost ainda era o primeiro, e Senna, o segundo. Esse foi o primeiro pódio da carreira de Senna, que sempre declarou que a corrida só havia sido interrompida para favorecer Prost e evitar sua vitória com a Toleman - os engenheiros da equipe, entretanto, mais tarde declarariam que o carro de Senna tinha um problema na suspensão e, se a corrida não tivesse sido interrompida, provavelmente ele teria quebrado e tido de abandonar.

Senna ainda conseguiria mais dois pódios em 1984, chegando em terceiro lugar em Brands Hatch, Inglaterra, e em Estoril, Portugal, a última das 16 corridas daquele ano. Ele terminaria o campeonato em nono lugar com 13 pontos, empatado com Mansell. Em agosto, ele assinaria com a Lotus, justamente para ocupar o lugar de Mansell, que iria para a Williams, se tornando o primeiro piloto da equipe a não ser escolhido pessoalmente pelo seu fundador, Colin Chapman, falecido em 1982. Sua ida para a Lotus seria considerada quebra de contrato pela Toleman, que tinha uma cláusula de preferência, e, como punição, Senna ficaria fora do GP da Itália de 1984, sendo substituído pelo sueco Stefan Johansson. Além de na Fórmula 1, Senna, em 1984, competiria na prova dos 1.000 Km de Nürburgring, dividindo o carro, um Porsche 956 da equipe Joest Racing, com Johansson e com o francês Henri Pescarolo, e terminando em oitavo; e de uma corrida especial, também disputada em Nürburgring, por vários pilotos e ex-pilotos de Fórmula 1, incluindo Prost, Lauda, Carlos Reutemann, Stirling Moss e os campeões Jack Brabham (1959, 1960 e 1966), Denny Hulme (1967) e Alan Jones (1980), todos guiando carros idênticos entre si construídos pela Mercedes; Senna largaria em segundo, atrás de Prost, mas o ultrapassaria já na primeira curva, vencendo a corrida de ponta a ponta.

Em seu primeiro ano na Lotus, Senna conseguiria sua primeira pole, sua primeira vitória, e seu primeiro hat trick (pole, vitória e volta mais rápida na mesma corrida), todos no GP de Portugal, segundo da temporada, disputado em Estoril, em 21 de abril, sob forte chuva. Já nessa corrida, aliás, Senna ganharia sua reputação de piloto excelente sob chuva: seu desempenho seria tão espetacular que ele colocaria uma volta sobre o terceiro colocado da prova, o francês Patrick Tambay, da Renault, e, por pouco, não ultrapassaria também o segundo, o italiano Michele Alboreto, da Ferrari, que cruzou a linha de chegada mais de um minuto depois de Senna. Ao longo da temporada, Senna conseguiria nada menos que sete poles, mas seu desempenho geral ainda não seria espetacular: no GP do Brasil, primeira prova da temporada, Senna abandonaria mais uma vez, dessa vez por pane elétrica, e, após o GP de Portugal, ele amargaria uma sequência de sete maus resultados, só voltando a pontuar em Österreichring, na Áustria, quando chegou em segundo atrás de Prost. Depois disso, ele teve uma sequência de quatro pódios seguidos - terceiro em Zandvoort, Holanda, e em Monza, Itália, primeiro em Spa-Francorchamps, Bélgica (mais uma vez sob chuva), e segundo em Brands Hatch, Inglaterra - e abandonou as duas últimas corridas, somando um total de 38 pontos que o deixariam em quarto lugar no campeonato, atrás de Prost, Alboreto e Rosberg. De Angelis, o companheiro de equipe de Senna, seria o quinto, com 33 pontos, mas, a partir da metade da temporada, a relação entre os dois azedaria - de Angelis acreditava que deveria ser o primeiro piloto, por ser mais experiente, mas a equipe dava o tratamento preferencial a Senna. Ao fim da temporada, irritado, ele decidiria trocar a Lotus pela Brabham.

Senna conseguiria seu primeiro pódio no GP do Brasil em 1986, chegando atrás apenas de Piquet. Na corrida seguinte, em Jerez de la Frontera, Espanha, ele conseguiria sua primeira vitória no seco, chegando à frente de Mansell por apenas 0,014 segundos, em uma das chegadas mais disputadas da história da Fórmula 1. Após essas duas corridas, Senna lideraria pela primeira vez o campeonato, mas seu carro se mostraria menos confiável que as Williams de Piquet e Mansell e que a McLaren de Prost, que dominariam o campeonato, com o francês conquistando seu segundo título. Senna conseguiria um total de oito poles e oito pódios, totalizando 55 pontos e terminando o campeonato mais uma vez em quarto, atrás de Prost, Mansell e Piquet. Um desses oito pódios seria mais uma vitória, no GP dos Estados Unidos, disputado em Detroit; a corrida seria realizada no dia seguinte à eliminação do Brasil na Copa do Mundo de 1986, e, para alegrar o povo brasileiro, Senna pediria a um dos fiscais de pista uma bandeira do Brasil, a qual seguraria enquanto dava a volta da vitória - aquela na qual os pilotos levam o carro da linha de chegada até os boxes após o fim da corrida. Esse gesto se tornaria um dos mais emblemáticos de Senna, e seria repetido em cada uma de suas vitórias desde então.

A temporada de 1987 começaria com muitas novidades para Senna: a Lotus deixaria de ser preta e passaria a ser amarela (com a Imperial Tobacco decidindo expor a marca Camel ao invés da John Player Special), seus motores deixariam de ser Renault e passariam a ser Honda (os mesmos da Williams), e seu companheiro de equipe passaria a ser o veterano japonês Satoru Nakajima (substituindo o escocês Johnny Dumfries, que tinha entrado no lugar de de Angelis); além disso, a Lotus estrearia nessa temporada uma nova suspensão ativa, que dava mais estabilidade e velocidade ao carro. A Williams ainda se mostraria bastante superior à Lotus, porém, com Mansell conseguindo sete poles, e Piquet outras quatro e ganhando o campeonato, no último de seus três títulos. Senna conseguiria apenas uma pole, em Ímola, na segunda corrida do campeonato, mas, no geral, faria um excelente campeonato, com oito pódios, incluindo duas vitórias - sua primeira em Mônaco, a primeira de um carro com suspensão ativa na Fórmula 1, e sua segunda em Detroit. Senna terminaria o campeonato em terceiro, com 57 pontos, atrás de Piquet e Mansell. Ao fim da temporada, ele receberia uma proposta da McLaren, e decidiria trocar a Lotus pelo time capitaneado por Ron Dennis, que, graças a isso, para 1988, também teria motores Honda, substituindo os Porsche.

Em 1988, com Senna e Prost, a McLaren teria uma das duplas de pilotos mais fortes de todos os tempos, e deixaria claro que nenhum deles seria "o primeiro", com ambos tendo permissão para disputar os pontos entre si. No início, Prost era favorável tanto à vinda de Senna para a equipe quanto à disputa de ambos pelo título, mas, à medida que os estilos, os temperamentos e as personalidades dos dois pilotos se mostravam completamente diferentes, uma rivalidade entre ambos se tornava cada vez mais aflorada, até se transformar em uma das maiores da história do esporte. Essa rivalidade se refletiria especialmente em duas corridas da temporada: em Mônaco, Senna bateria na volta 67, e, irritado por ver aquela que poderia ser sua segunda vitória seguida no Principado cair no colo de Prost, ao invés de retornar para os boxes, iria para casa (não para São Paulo, ele tinha um apartamento em Mônaco), só retornando à noite, quando a equipe já estava recolhendo tudo para ir embora; já em Estoril, Prost largaria na pole, Senna tentaria ultrapassá-lo já na primeira curva, e os dois teriam uma briga tão acirrada que Senna quase faria Prost bater no muro dos boxes a quase 300 Km/h, o que lhe renderia uma multa da FIA e um puxão de orelha da equipe, que o obrigaria a pedir desculpas publicamente ao francês. Depois desse incidente, Prost passaria a ver Senna como irresponsável, e a relação entre os dois azedaria de vez.

A rivalidade, porém, acabaria compensando para a McLaren, que venceria 15 das 16 provas do campeonato - a única que escaparia seria o GP da Itália, no qual Prost abandonaria com um problema de motor, Senna se envolveria em um acidente com a Williams do francês Jean-Louis Schlesser, e a Ferrari, com o austríaco Gerard Berger, que venceria a corrida com Alboreto chegando em segundo, conseguiria sua primeira dobradinha em Monza desde 1979, pouco menos de um mês após a morte do Comendador Enzo Ferrari, fundador da escuderia, o que motivou uma homenagem emocionada da equipe após a corrida.

Além do recorde de vitórias da McLaren, Senna conseguiria dois recordes pessoais em 1988, com 13 poles (o recorde anterior era de 9, de Piquet, em 1984) e oito vitórias (sendo o anterior de sete, de Jim Clark em 1963 e de Prost em 1984). Com 90 pontos, Senna se sagraria campeão, conquistando seu primeiro título, mas com uma ajuda do regulamento: originalmente, Prost é que havia conquistado mais pontos (105 do francês contra 94 de Senna), mas o regulamento da época determinava que apenas os 11 melhores resultados de cada piloto nas 16 corridas valiam para o título, e Prost, que, em todas as corridas que não abandonou, chegou em primeiro ou em segundo, acabou tendo de descartar três segundos lugares (enquanto Senna descartou um quarto e um sexto), terminando com apenas 87 pontos válidos, três a menos que Senna.

Isso aumentaria ainda mais a rivalidade entre os pilotos, que, em 1989, saiu das pistas, incluindo um jogo psicológico nos bastidores, através do qual Prost tentava desestabilizar Senna para que ele cometesse erros nas corridas. Senna não se deixaria abalar, mas somente até o GP do Japão, em Suzuka, penúltima corrida do campeonato, no qual ocorreria um dos episódios mais controversos da história da Fórmula 1: Senna precisava vencer para continuar na luta pelo título, mas era Prost quem estava liderando a corrida. Na volta 46, após várias tentativas frustradas, Senna finalmente se viu em condições de ultrapassar Prost, e se colocou lado a lado com o rival. Prost, então, fez uma manobra que a FIA considerou legal, mas que muitos dizem ter sido proposital para tirar Senna da corrida, e ambos os carros tocaram rodas e saíram da pista. Prost decidiu abandonar a corrida e sair do carro, mas Senna pediu a alguns fiscais de pista que empurrassem seu carro, que havia desligado em decorrência do acidente, para que ele pegasse novamente. Os fiscais empurraram Senna de volta para a pista, ele seguiu até os boxes, trocou o bico do carro, avariado na colisão, e, em uma corrida fantástica, ultrapassou todo mundo e conseguiu a vitória.

Após a corrida, porém, os comissários de prova decidiram desclassificar Senna, alegando que ele não poderia ter recebido a ajuda dos fiscais de pista para voltar à corrida, fez um traçado irregular (cortando uma chicane) em seu retorno, e entrou nos boxes de maneira irregular. Senna ficou extremamente irritado com a decisão - que acabou fazendo com que Prost fosse campeão, conquistando seu terceiro título independentemente do resultado do GP da Austrália, em Adelaide, última corrida da temporada - e acusou o então presidente da FIA, o também francês Jean-Marie Balestre, de mandar os comissários desclassificarem-no para favorecer Prost. Os comissários, evidentemente, negaram qualquer envolvimento de Balestre, e, no julgamento de Senna, após a temporada, a FIA decidiria lhe aplicar uma enorme multa e suspender sua Super Licença, efetivamente impedindo que ele pilotasse um carro de Fórmula 1. Senna recorreria e receberia de volta a Super Licença, mas a relação entre ele e Prost se tornaria insustentável, com o francês decidindo trocar de lugar com Berger e ir para a Ferrari em 1990.

Tirando esse incidente controverso, Senna teve mais uma temporada espetacular em 1989, com direito a mais 13 poles (das outras três, duas foram de Prost, e a única que não foi da McLaren foi obtida por Riccardo Patrese, da Williams, em Hungaroring, Hungria) e mais seis vitórias (o desempenho da McLaren, porém, não foi tão avassalador quanto no ano anterior, com Prost conseguindo outras quatro, e as outras seis ficando com as demais equipes). Senna conseguiu mais vitórias, mas Prost teve mais segundos lugares (seis contra um) e pontuou em mais três corridas; no final, com os descartes, Prost terminou com 76 pontos, enquanto Senna ficou em segundo com 60.

Em 1990, Senna se envolveria em mais duelos dramáticos contra Prost, mas, como agora cada um estava em uma equipe, o jogo psicológico já não era tão forte. Senna acabaria a temporada com 10 poles e 11 pódios, sendo seis vitórias; Prost, porém, veio em seu encalço, com cinco vitórias. Na penúltima corrida do ano, em Suzuka, a situação era a inversa do ano anterior, com Prost precisando vencer para continuar na briga. Após conseguir a pole, Senna faria um pedido à organização do GP para que o pole largasse do lado esquerdo, mais limpo, da pista, ao invés do direito, mais sujo, usado desde 1987; a organização atenderia ao pedido, mas Balestre o consideraria "descabido", e ordenaria que fosse usado o lado direito como sempre - além disso, em uma reunião antes da corrida, alertaria aos pilotos que passar por sobre a linha de saída dos boxes para disputar posições após a largada seria "inapropriado". Ainda engasgado com o que ocorrera no ano anterior, e acreditando que Balestre estava determinado a prejudicá-lo, Senna decidiria que não iria mudar seu curso na primeira curva, custasse o que custasse. Dito e feito, após a largada, Prost, do lado mais limpo, teria vantagem, e logo colocaria o carro ao lado do de Senna, que, sem mudar seu traçado normal, colidiria contra o carro do francês, tirando ambos da corrida. Com 78 pontos, Senna não poderia mais ser alcançado por Prost, que, após um terceiro lugar em Adelaide (onde Senna abandonaria com problemas de câmbio) e os descontos, acabaria em segundo lugar, com 71. Senna conquistaria seu segundo título mundial, e a FIA consideraria o evento como um acidente normal de corrida, mas Prost se diria "enojado", e consideraria se aposentar da Fórmula 1.

Prost não se aposentaria, mas, em 1991, não teria chances de brigar contra Senna, graças a um carro problemático da Ferrari e a um excepcional da Williams, que transformaria Mansell e Patrese nos dois principais rivais do brasileiro. Apesar de protagonizar duelos memoráveis contra Senna, Mansell seria um rival mais carismático que Prost, além de mais educado: em Silverstone, durante o GP da Inglaterra, Senna erraria na estratégia, e pararia na última volta; após ganhar a corrida, Mansell lhe daria uma "carona" até os boxes, com Senna sentado na lateral de seu carro. Em 1991, Senna ganharia o último de seus três títulos, se tornando o segundo brasileiro tricampeão mundial de Fórmula 1.

Senna teria uma temporada impecável, com oito poles e 12 pódios, incluindo 7 vitórias, sendo as quatro primeiras do ano seguidas - e poderiam ter sido 8, mas, no Japão, Senna decidiria reduzir a velocidade e deixar Berger, seu companheiro de equipe, que vinha em segundo, vencer. Uma dessas vitórias seria sua primeira no GP do Brasil, disputado em Interlagos, São Paulo, onde ele começou sua carreira no kart, e não poderia ter sido de maneira mais espetacular: Senna largaria na pole, mas as Williams tinham rendimento claramente superior, e Mansell se aproximava perigosamente, chegando a ameaçá-lo antes de ter de ir para os boxes com um furo em um dos pneus. Por volta da metade da corrida, vários carros, incluindo os de Senna, Mansell e Patrese, começaram a apresentar problemas na caixa de marchas. Mansell teve de abandonar, Patrese passou a dirigir mais cautelosamente, mas Senna foi perdendo as marchas uma a uma, até ficar somente com a sexta. Sem querer abandonar nem reduzir a velocidade, ele decidiria ir até o fim da corrida, quase dez voltas, somente com a sexta marcha - e, como se dirigir dessa forma já não fosse difícil o bastante, faltando três voltas para o final ainda começaria a chover. Senna cruzaria a linha de chegada em primeiro, 2,9 s à frente de Patrese, mas esgotado fisicamente, com espasmos musculares e febre, devido ao esforço para guiar o carro em condições tão adversas - sem forças nem para sair do veículo, ele teve de ser ajudado pelos fiscais de pista, e levado para o pódio de ambulância.

Senna terminaria a temporada com 96 pontos, 24 à frente de Mansell, que somou 72; Patrese seria o terceiro, Berger o quarto, e Prost apenas o quinto - e a regra dos descartes seria abolida, com os pontos de todas as corridas valendo para o campeonato. Ao fim da temporada, ele planejava sair da McLaren e assinar com a Williams, mas o presidente da Honda pediria para que ele ficasse na equipe durante mais um ano, para ajudá-los a desenvolver os novos motores V12 que seriam usados em 1992; em respeito e agradecimento, ele aceitaria, e renovaria com a McLaren.

1992, entretanto, seria um ano bem diferente dos anteriores para o brasileiro. Com um carro contendo o que havia de mais moderno em matéria de tecnologia, a Williams se mostraria imbatível, e, sem que os novos V12 se mostrassem tão confiáveis, Senna lutaria para não fazer apenas figuração, terminando a temporada com apenas uma pole e três vitórias; sete pódios, mas sete abandonos. Prost, pelo menos, decidiria tirar um ano sabático, então foi menos um rival na pista para o brasileiro - em compensação, um jovem Michael Schumacher já começaria a despontar pela Benetton, e se envolveria em pelo menos três confusões com o brasileiro: após o GP do Brasil, no qual Senna teve problemas de motor, Schumacher o acusaria de "fechar a porta" intencionalmente seguidas vezes quando tentou ultrapassá-lo; no GP da França, Schumacher bateria propositalmente em Senna enquanto este tentava ultrapassá-lo, o que resultaria no brasileiro tendo de abandonar a corrida; e, durante a classificação para o GP da Alemanha, Senna acusaria Schumacher de bloqueá-lo propositalmente na pista. Senna também seria protagonista de uma cena rara e muito tocante: durante a classificação para o GP da Bélgica, o francês Érik Comas, da Ligier, bateria forte, e Senna seria o primeiro a chegar ao local do acidente; ele decidiria parar seu carro e ajudar o colega, que ficou inconsciente durante alguns momentos, a sair do carro, que começava a pegar fogo, gesto que receberia muitas homenagens por parte de publicações especializadas e empresas de seguro automotivo. Além de ajudar Comas na pista, Senna ainda iria visitá-lo mais tarde no hospital; até hoje o francês se lembra do brasileiro com carinho, e o considera um dos responsáveis por ele ainda estar vivo.

Senna terminaria a temporada com 50 pontos em quarto lugar, atrás de Mansell, Patrese e Schumacher. Após a Honda anunciar que deixaria a Fórmula 1 no final de 1992, ele começaria a analisar outras opções de equipe para 1993; sua preferência seria a Williams, mas, após Mansell também anunciar que deixaria a Fórmula 1 ao final daquela temporada, a equipe contrataria Prost, que incluiria em seu contrato uma cláusula proibindo-os de contratar Senna como seu segundo piloto. Senna receberia um convite da Ferrari, mas, como a equipe italiana também não estava lá essas coisas, ele declinaria. Ele chegaria até mesmo a fazer um teste na Fórmula Indy, para a equipe Penske, na qual corria o brasileiro bicampeão da Fórmula 1 Emerson Fittipaldi, mas, apesar de fazer um bom tempo, não se empolgaria com o carro, na época mais pesado e mais difícil de dirigir que os da Fórmula 1. Sem opções, ele acabaria renovando com a McLaren, mas apenas para a primeira corrida do ano, em Kyalami.

Com a saída da Honda, a McLaren tentaria obter motores Renault, os mesmos usados pela Williams, mas não conseguiria chegar a um acordo com a fábrica francesa. Sem muitas outras opções, ela decidiria fechar com a Ford, mas com um contrato extremamente desfavorável, que faria com que ela tivesse motores de duas gerações atrás em relação à principal equipe da Ford, a Benetton de Schumacher. A McLaren, então, decidiria compensar a falta de potência no motor com alta tecnologia, não poupando custos para ter um carro tão bom quanto o da Williams - inclusive, com uma suspensão eletrônica ainda mais moderna. A ideia de Senna era assinar com a McLaren corrida a corrida, apenas se o carro se mostrasse sempre competitivo e capaz de brigar pelo título; Senna acabaria realmente conseguindo tirar o máximo do carro, faria as 16 corridas pela McLaren, e terminaria o ano com 73 pontos, uma pole e sete pódios, sendo cinco vitórias - seu companheiro de equipe, o norte-americano Michael Andretti, filho do campeão Mario Andretti (1978), em sua estreia na Fórmula 1, substituindo Berger, que havia ido para a Ferrari, já não se daria tão bem com o carro, tendo um início de ano desastroso, com quatro abandonos, e sendo substituído pelo finlandês Mika Häkkinen nas três últimas corridas do ano.

No início da temporada de 1993, parecia que Senna estava rumo a seu quarto título. Ele começaria o ano com um segundo lugar, atrás de Prost, na África do Sul, mesmo após se envolver em um acidente com Schumacher, e, então, conseguiria duas vitórias espetaculares, a primeira no Brasil, sendo carregado por uma multidão que invadiu a pista após a prova, após uma corrida marcada por uma forte chuva que acabou fazendo com que Prost se acidentasse, e punições aplicadas a Senna e Schumacher por ultrapassar sob bandeira amarela; e a segunda no GP da Europa, disputado em Donington Park, Inglaterra, em mais uma corrida marcada por chuva intermitente, na qual Senna sairia de quinto para primeiro em uma volta espetacular, cortando caminho pela pit lane, onde ficam os boxes - o que era permitido na época, já que não havia limite de velocidade na pit lane como hoje - e colocando uma volta sobre todos os demais pilotos exceto o inglês Damon Hill, filho do campeão Graham Hill (1962) e companheiro de Prost na Williams, que chegaria em segundo mais de um minuto atrás. Após abandonar em Ímola com um problema hidráulico, Senna também seria segundo lugar em Montmeló, Espanha (ambas as corridas vencidas por Prost), e, em seguida, conquistaria sua sexta vitória, um recorde até hoje não alcançado, nas ruas de Mônaco - feito que lhe valeria o apelido de "Rei de Mônaco", pois Mônaco, sendo um Principado, não tem Rei, sendo governado por um Príncipe.

Depois de Mônaco, entretanto, a coisa ficaria feia para Senna, que amargaria uma sequência de oito corridas sem subir ao pódio, incluindo três abandonos e um 18o lugar no GP do Canadá, em Montreal. Com quatro vitórias, um segundo e um terceiro lugares nessas oito provas, Prost conseguiria construir uma diferença quase impossível para Senna alcançar. Senna ainda seria o vencedor no Japão e na Austrália - na última vitória na Fórmula 1 de um carro com suspensão ativa - mas, como Prost chegaria em segundo em ambas as provas, se sagraria tetracampeão com 99 pontos, ficando Senna com o vice-campeonato, 26 pontos atrás do rival e apenas quatro pontos à frente de Hill.

Prost se aposentaria após o título, e Senna ficaria livre para assinar com a Williams. Alegando que a Fórmula 1 estava ficando muito dependente da tecnologia, porém, o presidente da FIA, o inglês Max Mosley, eleito para substituir Balestre em outubro de 1993, decidiria proibir, em janeiro de 1994, a suspensão ativa, o controle de tração e os freios ABS de uma vez só com uma canetada - gesto que foi criticado por muitos profissionais do automobilismo, que alegaram que as equipes teriam pouco tempo para se adaptar às mudanças, e que o ideal seria retirar os componentes eletrônicos aos poucos e com prazos. Sem os componentes de alta tecnologia, a Williams não conseguiria construir um carro tão eficaz quanto os das últimas três temporadas, voltando a ficar no mesmo patamar de suas principais rivais. A Benetton, por outro lado, tiraria um coelho da cartola, e faria um carro superior aos de suas colegas mais ricas - segundo muitos, incluindo o próprio Senna, a Benetton usaria componentes proibidos pelo regulamento, mas escondidos dos fiscais, o que nunca foi provado. Senna criticaria muito o novo carro da Williams, e chegaria a declarar que seria "um ano de muitos acidentes", e que "teremos sorte se nada de mais grave acontecer".

A temporada de 1994 começaria com o GP do Brasil. Senna largaria na pole, mas seria ultrapassado por Schumacher nos boxes, após a troca de pneus da Benetton ser mais eficiente que da Williams; forçando o carro para tentar alcançar o alemão, ele acabaria rodando e tendo de abandonar a corrida. Na segunda prova, o GP do Pacífico, disputado em Aida, Japão, Senna faria mais uma vez a pole, mas, logo na primeira curva, seria atingido por trás por Häkkinen, rodaria, e acabaria atingido na lateral pela Ferrari do italiano Nicola Larini, abandonando mais uma vez. A terceira prova seria o GP de San Marino, em Ímola.

A Williams faria várias modificações no carro para tentar torná-lo mais competitivo, mas Senna não ficaria satisfeito, alegando que o carro havia ficado mais difícil de dirigir. Todo o fim de semana seria marcado por eventos trágicos, começando por um acidente nos treinos de sexta feira, no qual o brasileiro Rubens Barrichello decolaria com sua Jordan e atingiria uma cerca acima da proteção de pneus, quebrando o nariz e o braço. Nos treinos de sábado, o austríaco Roland Ratzenberger, de 33 anos, piloto estreante da equipe Simtek, bateria contra um muro de concreto após perder o controle do carro devido a uma quebra da asa dianteira na curva Villeneuve e faleceria, a primeira morte durante uma corrida de Fórmula 1 desde o italiano Riccardo Paletti no GP do Canadá de 1982. Senna acompanharia o corpo de Ratzenberger até o centro médico do autódromo, e, ao ver como o brasileiro ficou afetado pelo evento, o médico-chefe da Fórmula 1, Dr. Sid Watkins, recomendou que ele abandonasse a corrida e fosse pescar. Senna respondeu "eu não posso parar de correr", mas passaria o restante do fim de semana cabisbaixo e pensativo, como se realmente considerando não correr. Ele ainda conversaria com Prost, presente como comentarista de uma televisão francesa, sobre a possibilidade de criarem uma nova associação de pilotos, que lutaria por maior segurança.

A corrida começaria com Senna na pole, sob ataque de Schumacher. Logo na largada, porém, o Benetton do finlandês J.J. Lehto desligaria, e seria atingido em cheio pela Lotus do português Pedro Lamy. Um pneu e vários destroços voariam em direção às arquibancadas, ferindo oito espectadores e um policial. O carro de segurança, um Vectra pilotado pelo italiano Max Angelelli, entraria na pista para ditar o ritmo de corrida enquanto a pista era limpa. Muitos pilotos reclamariam de que o ritmo de Angelelli era lento demais, o que poderia causar perda de rendimento e de segurança nos pneus dos carros de Fórmula 1, acostumados a rodar em altas velocidades, e que causam instabilidade no carro quando frios; o próprio Senna chegaria a emparelhar com o carro de segurança e pedir para que Angelelli fosse mais veloz. A corrida seria reiniciada na volta 6 com Senna imprimindo um ritmo forte, seguido de perto por Schumacher. Na volta de número 7, ao se aproximar da curva Tamburello, Senna, ao invés de fazer a curva, sairia da pista em linha reta, se chocando a 307 Km/h contra um muro de concreto.

A corrida seria interrompida, e a equipe médica chegaria até o carro em dois minutos. Senna seria retirado do carro ainda vivo, mas com a pulsação muito fraca, e tendo perdido muito sangue. O Dr. Watkins chegaria a fazer uma traqueostomia ainda na pista, antes de Senna ser colocado em um helicóptero e encaminhado ao Hospital Maggiore, na cidade de Bolonha. Oficialmente, ele morreria no hospital, mas há quem diga que ele já tenha chegado lá morto, e até quem afirme que ele já estava morto na pista ao ser colocado no helicóptero. De acordo com as leis italianas, a hora da morte foi considerada como sendo a hora na qual o carro se chocou contra o muro. Senna, portanto, faleceu às 14 horas e 17 minutos do dia primeiro de maio de 1994, aos 34 anos.

A causa oficial do acidente foi a quebra da barra de direção, que impediu o carro de contornar a curva quando Senna virou o volante. A Williams chegou a ser julgada na justiça italiana por homicídio culposo (quando ocorre um assassinato, mas o assassino não tinha intenção de matar, tendo a morte ocorrido por negligência, imperícia ou imprudência do mesmo), com o engenheiro Patrick Head, responsável por ter feito modificações na barra a pedido de Senna, que não gostava de sua posição em relação ao assento, sendo considerado culpado, mas não sendo preso porque o veredito só saiu 13 anos após o acidente, e, pelas leis italianas, o prazo máximo para se aplicar uma sentença de homicídio é de 7 anos e 6 meses. A Williams até hoje inocenta Head, e afirma que a barra de direção se quebrou como consequência da batida no muro, e não como causa da mesma.

Senna foi sepultado em São Paulo sob forte comoção; estima-se que mais de três milhões de pessoas foram às ruas ver seu caixão ser levado em um carro dos bombeiros até o cemitério, e mais de duzentas mil compareceram ao velório. Ele seria enterrado com honras de herói nacional, e o governo declararia luto oficial de três dias por sua morte. Seu caixão seria carregado durante o funeral por pilotos e ex-pilotos, amigos e rivais de Senna, como Prost, Hill, Berger, Barrichello e Emerson Fittipaldi. Donos e chefes de equipe, como Ken Tyrrell, Peter Collins, Ron Dennis e Frank Williams também estariam presentes, mas a família não permitiria a presença de Bernie Ecclestone, o "chefão" da Fórmula 1, por entender que a corrida deveria ter sido cancelada após o acidente, tendo Ecclestone feito pressão para que ela fosse reiniciada - o que de fato aconteceu, com a prova terminando com uma vitória de Schumacher. O presidente da FIA, Max Mosley, também não compareceria, alegando preferir ir ao funeral de Ratzenberger, que ocorreria no dia seguinte, "pois todo mundo havia ido ao de Senna". O túmulo de Senna é hoje um dos mais visitados do mundo, recebendo mais visitantes por ano que os de John F. Kennedy, Marilyn Monroe e Elvis Presley somados.

Senna encerraria sua carreira tendo participado de 162 GPs, nos quais obteve 65 poles, 19 voltas mais rápidas e 80 pódios, sendo 41 vitórias. Ele é atualmente o quinto piloto mais vitorioso da história (atrás de Schumacher com 91, Lewis Hamilton com 53, Prost com 51 e Sebastian Vettel com 43) e o segundo com mais poles (atrás de Schumacher, mas o alemão fez 68 em 308 corridas, então a porcentagem de Senna, com 65 em 162, é maior). Seis recordes da Fórmula 1 ainda pertencem a Senna: maior número de poles consecutivas (8, entre o GP da Espanha de 1988 e o GP dos Estados Unidos de 1989), maior número de largadas consecutivas da primeira fila (24, entre o GP da Alemanha de 1988 e o GP da Austrália de 1989), maior número de vitórias consecutivas em um mesmo GP (5 em Mônaco, entre 1989 e 1993), maior número de poles em um mesmo GP (8 em San Marino, empatado com Schumacher, que conseguiu 8 no Japão), maior número de poles consecutivas em um mesmo GP (7 em San Marino, entre 1985 e 1991) e maior número de GPs vencidos de ponta a ponta (ou seja, largando na pole e vencendo a corrida sem mais ninguém ocupando a primeira posição; Senna conseguiu fazer isso 19 vezes, seis a mais que os segundos colocados, Vettel e Jim Clark, que fizeram 13). Senna também é um dos três únicos pilotos da história a largar na primeira fila em todas as corridas de uma temporada, o que fez em 1989; os outros dois foram Prost (em 1993) e Hill (em 1996).

Após a morte de Senna, várias mudanças, algumas há anos pedidas pelos pilotos mas ignoradas pela FIA, foram feitas para tentar tornar a Fórmula 1 mais segura, como as laterais dos cockpits dos carros se tornando mais altas, a introdução de um apoio para a parte de trás da cabeça do piloto (conhecido como HANS, de head and neck support, "apoio para o pescoço e cabeça", em inglês), de novos tipos de muros e áreas de escape, e, talvez as mais controversas, o redesenho do traçado de várias pistas e a limitação da aceleração e da velocidade final dos carros. Há quem diga que, depois disso, a Fórmula 1, além de mais segura, ficou mais chata; outros rebatem dizendo que a chatice veio de outros fatores, como a acentuação do domínio das equipes mais ricas sobre as mais pobres, e não da segurança.

Para mim, a Fórmula 1 ficou mais chata por causa da ausência de Ayrton Senna.
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segunda-feira, 8 de junho de 2015

Escrito por em 8.6.15 com 0 comentários

Carl Sagan

Uma das lembranças mais nítidas que tenho da minha infância é do seriado Cosmos. Eu não era fã nem nada assim, mas me lembro muito claramente de assistir a alguns episódios, que eram exibidos, se não me engano, aos domingos pela manhã. Tenho, inclusive, uma lembrança extremamente vívida de um episódio que assisti na casa da minha avó, porque nele dizia que "os raios solares atingem a Terra", e eu, criança que era, fiquei muito desesperado com essa informação, só me tranquilizando quando minha mãe me mostrou que um raio solar não era exatamente o laser destruidor que eu havia imaginado.

Cosmos foi uma criação do astrônomo Carl Sagan, e, por isso, desenvolvi uma grande admiração por ele. Na minha mente infantil, Sagan era tipo um apresentador de TV, só que, ao invés de apresentar notícias ou números musicais, apresentava fatos científicos. Grande parte - ou quase tudo - o que eu sabia sobre ciências quando criança, havia aprendido com Sagan - inclusive algumas coisas da escola, as quais, quando a professora nos mostrava, eu me lembrava de já ter visto em Cosmos. Talvez por causa disso, quando Sagan faleceu, em 1996, eu, já com 18 anos, fiquei verdadeiramente consternado. Não foi a primeira vez que eu me emocionei com a morte de uma celebridade - afinal, Ayrton Senna havia nos deixado dois anos antes, e também me lembro que fiquei muito triste quando o John Candy faleceu - mas, por algum motivo, a morte de Sagan me marcou. Tanto que, quando lançaram um Cosmos novo, no ano passado, fui tomado não só por uma certa nostalgia, mas por uma certa tristeza - afinal, se Sagan ainda fosse vivo, estaria completando 80 anos, ou seja, ainda poderia ter contribuído bastante com a comunidade científica.

Já desde o ano passado que eu penso em fazer um post sobre Sagan - na verdade, sobre Cosmos, mas depois resolvi expandir a ideia para falar sobre o criador ao invés de sobre a criatura. Por motivos vários, acabei não o fazendo, mas, essa semana, me lembrei disso, e achei que seria legal. Portanto, embarquem na Nave da Imaginação, pois hoje é dia de Carl Sagan no átomo.

Sagan nasceu em 9 de novembro de 1934, na cidade de Nova Iorque, Estados Unidos. Seu pai, de origem ucraniana, trabalhava na indústria têxtil e era um imigrante do Império Russo; sua mãe, de família novaiorquina, era judia e extremamente religiosa. Desde criança, ele se interessaria por assuntos como espaço sideral, estrelas, planetas e dinossauros; o contraste entre a visão de seu pai, que não entendia nada de ciências, mas se interessava quando Sagan falava no assunto, estimulando sua curiosidade, e a de sua mãe, que acreditava que Deus havia criado todas as coisas, e via o interesse do filho como empolgação natural da infância, seriam essenciais para moldar seu caráter e sua personalidade inquisitiva. Um episódio em especial marcaria sua infância: quando seus pais o levariam para visitar a Feira Mundial de 1939, quando ele tinha apenas quatro anos de idade, mas já ficaria maravilhado com as descobertas científicas e previsões para o futuro da época; Sagan se empolgaria, principalmente, com a Cápsula do Tempo, um baú contendo objetos da época que seria enterrado, e só poderia ser desenterrado após mil anos, para que os habitantes da Nova Iorque do futuro soubessem como ela era no passado.

No ano seguinte, Sagan entraria na escola. Seu principal interesse, evidentemente, eram as ciências, especialmente a astronomia, em particular as estrelas. Como nem seus pais, nem nenhum de seus amigos, conseguia explicá-lo o que eram as estrelas, e os professores não tocavam no assunto pois não era matéria para aquela série, sua mãe decidiu levá-lo até a biblioteca pública, e fazer para ele uma carteirinha. Sagan alugaria diversos livros sobre as estrelas, e ficaria maravilhado ao descobrir que o Sol era uma estrela, embora bem próxima da Terra, e que as demais estrelas também eram sóis, embora muito distantes. Segundo ele, essa seria a primeira vez que ele teria compreensão da vasta dimensão do universo, uma descoberta que marcaria sua vida. Nos anos seguintes, ela também faria repetidas visitas ao Museu de História Natural e ao Planetário, e seus pais estimulariam sua curiosidade comprando brinquedos como jogos de química e telescópios, e revistas de ficção científica que traziam histórias de autores como H.G. Wells e Edgar Rice Burroughs. Aos 12 anos, quando surgiriam múltiplos relatos de que discos voadores estavam sobrevoando os Estados Unidos, ela já tinha certeza de que a Terra não poderia ser o único planeta habitado no universo, e suspeitava de que o governo poderia estar omitindo informações sobre esses discos, que seriam, na verdade, espaçonaves alienígenas.

Sagan cursaria a Universidade de Chicago, onde se formaria em física (nos Estados Unidos, a astronomia é um curso da faculdade de física) em 1955, conseguiria seu mestrado em 1956, e seu doutorado em 1960, trabalhando com Gerard Kuiper, presidente da União Astronômica Internacional, que o orientaria em sua tese "Estudos em Física dos Planetas". Durante seu tempo na graduação, ele também trabalharia com o geneticista H.J. Muller e escreveria um trabalho sobre a origem da vida orientado pelo químico H.C. Urey. Em suas férias de verão, ao invés de descansar, ele trabalhava em projetos ao lado de Kuiper, do físico George Gamow e do químico Melvin Calvin. De 1960 a 1962 ele trabalharia no laboratório da Universidade da Califórnia em Berkeley, e de 1962 a 1968 no Smithsonian Astrophysical Observatory em Cambridge, Massachusetts. Nesse mesmo período, ele trabalharia em várias teses ao lado do geneticista Joshua Lederberg, e lecionaria física na conceituada Universidade de Harvard. Aos 30 anos, ele já teria mais de 50 trabalhos publicados.

Sagan deixaria Harvard em 1968, depois de anos como professor substituto, com a universidade se recusando a contratá-lo como professor titular - um dos motivos seria que os demais professores do departamento de física viam o grande número de trabalhos publicados por Sagan como "autopromoção", e vetavam sua contratação junto à reitoria. Ele se ofereceria para lecionar em outra universidade conceituada, a Universidade de Cornell, em Ithaca, Nova Iorque, onde se tornaria titular em 1971. Entre 1972 e 1981, ele seria diretor do Centro de Radiofísica e Pesquisa Planetária da universidade.

Desde 1958, quando seria fundada a NASA, Sagan também trabalharia no programa espacial norte-americano, sendo uma de suas funções a de instruir os astronautas antes de suas viagens à Lua. Sagan também trabalharia em muitas das sondas enviadas para explorar o Sistema Solar, determinando, inclusive, aonde essas sondas deveriam ir e o que deveriam explorar. Sagan acreditava que a exploração espacial deveria se dar através de sondas e robôs, e se opôs ferozmente ao uso do dinheiro do programa para a construção de ônibus espaciais e estações espaciais que só conseguiriam ficar orbitando a Terra, sem explorar o restante do universo.

Não só pelo uso das sondas, mas também por suas teorias, Sagan teria participação fundamental em descobertas sobre nossos vizinhos do Sistema Solar. Seria ele quem proporia a hipótese, por exemplo, de que a superfície de Vênus seria extremamente quente: até 1960, o consenso geral na comunidade científica era a de que as nuvens que envolviam a atmosfera de Vênus eram feitas de vapor d'água, e, portanto, sua superfície deveria ser como um pântano ou charco; analisando ondas de rádio emitidas pelo planeta, Sagan concluiria que sua superfície não poderia ser pantanosa, e sim absurdamente quente, por volta de 500 graus Celsius - pois somente corpos quentes emitem ondas de rádio na frequência emitida por Vênus. Além de formular a teoria, Sagan trabalharia no projeto e na concepção da sonda Mariner 2, que, em 1962, chegaria a Vênus e descobriria que suas nuvens são feitas de ácido sulfúrico, que sua atmosfera é 90 vezes mais densa do que a da Terra, e que em sua superfície o calor chega a 380 graus - mostrando que, mesmo errando 120 graus, a teoria de Sagan estava correta.

Outras teorias de Sagan sobre nossos planetas vizinhos, todas provadas posteriormente, eram a de que Titã, a lua de Saturno, possuía compostos líquidos em sua superfície, e Europa, a lua de Júpiter, tinha água sob a superfície; e que as mudanças de cor na superfície de Marte, observadas através de telescópios, não se davam por mudanças de estação do ano ou formas primitivas de vegetação - as duas teorias mais populares da época - e sim pela ação de fortes ventos na superfície do planeta. Sagan também estaria dentre os primeiros a alertar que o efeito estufa na Terra era uma criação humana, que sua severidade estava aumentando, e que, se nada fosse feito, no futuro o planeta poderia se tornar tão quente e inóspito quanto Vênus. Dentre as teorias ainda não provadas de Sagan, merece destaque uma formulada em parceria com o também astrônomo Edwin Salpeter, seu colega em Cornell: a de que há vida em Júpiter, seres parecidos com balões que habitam suas nuvens e flutuam eternamente. Por mais bizarra que seja, essa teoria não é infundada, pois já foram descobertas grandes quantidades de matéria orgânica flutuando nas nuvens de Júpiter, embora ainda não se tenha descoberto o que exatamente elas são.

Sagan, aliás, foi um dos maiores defensores da existência de vida extraterrestre, e chegou a conduzir experimentos que provavam que as condições para a criação da vida na Terra poderiam ter também ocorrido em outros planetas. Em 1982, ele conseguiria convencer 70 outros cientistas, incluindo três vencedores do prêmio Nobel, a assinar um abaixo-assinado a favor do uso de radiotelescópios para buscar vida inteligente fora da Terra, o que fez com que grande parte da comunidade científica passasse a ver o assunto com outros olhos - até então, a busca por vida extraterrestre não era considerada "ciência séria", e sim um passatempo inútil. Antes disso, em 1974, Sagan ajudaria o também astrônomo Frank Drake a redigir e transmitir a Mensagem de Arecibo, uma gravação de rádio transmitida para o espaço sideral, com o objetivo de ser ouvida por extraterrestres.

Inspirado na Cápsula do Tempo de 1939, Sagan também teria a ideia de incluir nas sondas que fossem deixar o Sistema Solar uma mensagem capaz de ser compreendida por qualquer inteligência extraterrestre que as encontrasse. Sagan conceberia a primeira dessas mensagens, uma placa de alumínio anodizado a ouro com a figura de um homem e uma mulher nus, uma representação do sistema solar com a localização da Terra e a posição relativa do Sol em relação ao centro da galáxia, uma representação esquemática da transição hiperfina do hidrogênio, e uma silhueta da sonda Pioneer 10, que levaria a placa, em tamanho real em comparação com o tamanho das figuras humanas. Duas dessas placas seriam produzidas, uma levada pela já citada Pioneer 10, lançada em 1972, e uma levada pela Pioneer 11, de 1973. Ambas seriam os primeiros objetos fabricados pelo homem a deixar os limites do Sistema Solar.

Sagan também trabalharia em outra mensagem para os extraterrestres, um disco de ouro contendo gravações de inúmeros sons, como os das ondas do mar, trovões, pássaros e baleias, saudações em 55 idiomas, músicas de Bach, Mozart, Beethoven, Chuck Berry e Valya Balkanska, dentre outros, e discursos do então Presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, e do então Secretário Geral das Nações Unidas, Kurt Waldheim. Além dos sons, o disco continha a gravação de 116 imagens, incluindo do Sistema Solar, de seres humanos, animais, DNA, comida e arquitetura, a maioria com escalas de tempo, tamanho e massa baseadas em constantes universais, e algumas até com indicações de composição química. Dois desses discos seriam produzidos, para serem levados pelas sondas Voyager 1 e 2, ambas lançadas em 1977, e ambas os objetos criados pelo homem a alcançarem a maior distância da Terra - a Voyager 1 é o primeiro objeto criado pelo homem a alcançar o espaço interestelar, e hoje se encontra a 19,5 bilhões de quilômetros da Terra. O próprio Sagan achava difícil uma das sondas ser encontrada por uma civilização alienígena - comparadas com a vastidão do espaço, elas são meros grãos de areia - e mais difícil ainda serem encontradas por uma civilização que tivesse os meios necessários para reproduzi-los, mas, em sua opinião, o simples fato de os seres humanos terem decidido mandar uma "mensagem na garrafa" em direção ao espaço já era um ato louvável.

Em 1977, Sagan seria convidado para realizar uma das famosas Palestras de Natal do Royal Institution em Londres, realizadas anualmente e que já haviam contado com cientistas como Michael Faraday, Richard Dawkins e David Attenborough como oradores. O sucesso das palestras lhe daria a ideia de criar um programa de televisão, para levar a ciência ao maior número de pessoas possível. Assim, em 1978, ele criaria, junto com a produtora e escritora Ann Druyan, com quem se casaria no ano seguinte, o seriado Cosmos.

Exibido pela PBS, o canal de TV público dos Estados Unidos, entre 28 de setembro e 21 de dezembro de 1980, Cosmos teve um total de 13 episódios de 55 minutos cada, que abordavam temas como a origem da vida, as características de nossos planetas vizinhos, como Marte e Vênus, e perfis de grandes nomes da ciência, como Johannes Kepler. Com trilha sonora do compositor grego Vangelis (que, dois anos mais tarde, também faria a trilha de Blade Runner) e apresentado pelo próprio Sagan, Cosmos faria um gigantesco sucesso, sendo vendido para mais de 60 países e tendo uma audiência estimada de 500 milhões de pessoas no mundo inteiro, o que fez com que ele se tornasse o programa mais assistido da história da PBS e fosse considerado um divisor de águas na história dos programas de TV que têm como tema a ciência.

Cosmos também se tornaria famoso pelos efeitos especiais, que usavam o que existia de mais moderno na época, e não costumavam ser encontrados em programas de TV, apenas no cinema. Esses efeitos possibilitaram, por exemplo, que Sagan caminhasse em meio a um modelo do sistema solar, tocasse com as mãos em um modelo de DNA e viajasse pelo universo em sua "Nave da Imaginação", uma espaçonave em formato de pétala de dente-de-leão que visitava planetas, estrelas e galáxias - tudo criado por computação e truques de câmera, ao invés de com modelos de isopor e plástico em escala como era o comum nos documentários científicos da época. Em 1986, Cosmos ganharia uma edição especial, exibida no canal TBS, na qual seria condensado em apenas seis episódios de 45 minutos cada, mas contando com novos efeitos especiais de última geração e alguns trechos de nova narração, nos quais Sagan falava sobre teorias que surgiram entre o lançamento do seriado original e o da edição especial.

Um novo update aconteceria em 1989, quando Ted Turner, o dono da TBS, decidiria comprar os direitos de Cosmos da PBS e produzir uma versão comemorativa dos dez anos da série. Os episódios foram mantidos em sua forma original, e, ao final de cada um, Sagan aparecia em um "Science Update", no qual comentava sobre novas descobertas ou novos pontos de vista que surgiram sobre os assuntos daquele episódio naquele espaço de dez anos. Essa nova versão também contava com um décimo-quarto episódio, no qual Turner entrevistava Sagan, tendo como assunto justamente os avanços da ciência na década de 1980. Em 2005, Cosmos ganharia mais uma versão atualizada, exibida pelo Science Channel em comemoração aos 25 anos da série, na qual os episódios seriam remasterizados, ganhariam novos efeitos especiais de última geração, som digital, e comentários sobre as novas descobertas sobre aquele assunto. Como esses episódios teriam apenas 45 minutos, para permitir a inserção de comerciais, a edição buscou, na medida do possível, sem comprometer a coerência, deixar de fora as informações que já estivessem ultrapassadas ou incorretas, para que não fosse preciso fazer muitas retificações.

Por incrível que pareça, porém, pouquíssima coisa em Cosmos é datada ou ultrapassada; tirando as eventuais descobertas que só foram feitas após sua transmissão, a série permanece como obra de referência em matéria de astronomia, graças à precisão e didatismo com os quais Sagan apresentou seus assuntos. Isso se torna ainda mais impressionante quando se leva em conta de que muitas teorias apresentadas na série são de autoria do próprio Sagan, criticado por muitos colegas seus na época por apresentá-las em um programa de TV antes de terem sido devidamente testadas e comprovadas. Sagan também seria criticado por dar mais atenção às gravações do programa que às suas aulas em Cornell, com muitas delas sendo canceladas porque ele não conseguia retornar das gravações a tempo; para alguns colegas, preterir uma instituição acadêmica em favor de um programa de televisão era um sinal de desrespeito à educação e às ciências. Finalmente, Sagan seria criticado por insistir em comentários sobre a Guerra Fria durante os episódios, o que fazia tentando convencer os governos dos Estados Unidos e União Soviética a interromper a corrida armamentista e começar o desarmamento nuclear, o que foi considerado como inadequado por parte da comunidade científica.

Sagan foi um dos maiores defensores do desarmamento nuclear, pois temia que uma guerra nuclear - algo bastante possível e um medo bastante real durante a Guerra Fria - pudesse prejudicar o equilíbrio ecológico da Terra e devastar não somente a civilização da época, mas deixar o planeta impossível de ser habitado pelas gerações futuras. Em 1983, ele faria parte de um painel de cientistas que tentaria convencer o governo norte-americano a entrar em negociações de paz com a União Soviética, e cujo relatório usava pela primeira vez a expressão "inverno nuclear", criada pelo cientista Richard Turco para descrever a situação na qual as partículas liberadas por uma guerra nuclear impediriam que o calor do Sol chegasse à superfície da Terra, resfriando-a. Sagan seria co-autor de dois livros que debatiam o inverno nuclear e suas consequências, O Inverno Nuclear: O mundo após uma guerra nuclear (The Cold and the Dark: The World after Nuclear War) de 1984, e A Path Where No Man Thought: Nuclear Winter and the End of the Arms Race ("um caminho no qual ninguém pensou: o inverno nuclear e o fim da corrida armamentista") de 1985.

Sagan também escrevia livros para ajudar a popularizar a ciência, como Cosmos, de 1980, que servia como complemento da série, e sua sequência, Pálido Ponto Azul (Pale Blue Dot: A Vision of the Human Future in Space), de 1994, no qual pondera sobre a posição da Terra em relação ao universo e especula sobre o futuro da humanidade como navegadores do espaço, e cujo nome foi inspirado em um comentário que ele mesmo fez sobre uma foto tirada pela sonda Voyager 1, na qual a Terra, da distância de seis bilhões de quilômetros, aparece como um pontinho azul quase imperceptível. Ao todo, ele seria autor ou co-autor de mais de vinte livros, dentre os quais também se destacam Os Dragões do Éden: Especulações sobre a Evolução da Inteligência Humana (The Dragons of Eden: Speculations on the Evolution of Human Intelligence), publicado em 1978 e que lhe rendeu o prêmio Pulitzer, e Contato (Contact) best-seller de ficção científica lançado em 1985, que se tornaria um filme lançado em 1997, estrelado por Jodie Foster e dirigido por Robert Zemeckis.

Sagan foi co-fundador da Planetary Society, grupo que reúne interessados em astronomia e no estudo dos demais planetas do sistema solar, e que hoje já conta com mais de cem mil membros em 149 países; editor-chefe da seção de tecnologia do periódico científico Icarus, voltado à pesquisa espacial e planetária; presidente da Divisão de Pesquisa Planetária da American Astronomical Society; presidente da seção de planetologia da American Geophysical Union; presidente da seção de astronomia da American Association for the Advancement of Science; e membro do comitê diretor do Instituto SETI, voltado à busca por vida extraterrestre. Também foi membro do comitê de investigação de OVNIs da força aérea norte-americana, posição à qual renunciou por não concordar com o envolvimento do governo dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. Sagan, aliás, teria uma ativa participação em questões político-sociais, não somente fazendo campanha pelo desarmamento e pelo fim da Guerra Fria, mas falando abertamente contra o programa "Guerra nas Estrelas" criado pelo presidente Ronald Reagan, e chegando a ser preso em duas ocasiões, durante manifestações no deserto de Nevada em 1986 e 1987 contra a decisão de os Estados Unidos não seguirem o exemplo da União Soviética quando Mikhail Gorbachev anunciou o fim dos testes nucleares em 1985.

Sagan se casaria três vezes e teria um total de cinco filhos. Em 1957, se casaria com a bióloga Lynn Margulis, com quem teria dois meninos, Dorion e Jeremy. Eles se separariam em 1965, com o principal motivo citado sendo o de que ele dava mais importância ao seu trabalho que à sua família. Em 1969, ele se casaria com a artista plástica Linda Salzman, que se tornaria a responsável pelo desenho final da placa levada pelas sondas Pioneer, e lhe daria mais um menino, Nick. Eles se separariam em 1981, após Sagan conhecer Ann Druyan durante a produção de Cosmos. Ele e Druyan se casariam naquele mesmo ano, e ela teria mais um menino, Samuel, e a única filha de Sagan, Alexandra.

Sagan seria diagnosticado com síndrome mielodisplásica, doença congênita que leva a uma produção insuficiente de células sanguíneas, levando a anemia e fazendo com que o paciente precise de múltiplas transfusões de sangue, no final da década de 1980. Ele se submeteria a três transplantes de medula para tentar se curar, e, em 1996, aparentemente, estava tendo progressos. No final do ano, porém, ele teria uma forte pneumonia, e, com o organismo debilitado pela doença e pelos transplantes, não resistiria. Faleceria no dia 20 de dezembro, aos 62 anos, internado no Instituto de Pesquisa do Câncer Fred Hutchinson, na cidade de Seattle. Seu corpo seria enterrado na cidade de Ithaca, cidade onde residia desde 1969.

Três prêmios do mundo das ciências seriam batizados em sua homenagem: o Carl Sagan Memorial Award, conferido desde 1997 em conjunto pela American Astronomical Society e pela Planetary Society a indivíduos ou grupos que tenham mostrado pioneirismo em pesquisas e políticas referentes à exploração do espaço sideral; a Medalha Carl Sagan, conferida desde 1998 pela Divisão de Ciências Planetárias da American Astronomical Society a indivíduos cujos esforços tenham contribuído pelo interesse do público em geral pelo estudo dos demais planetas; e o Carl Sagan Award for Public Understanding of Science, conferido pelo Conselho dos Presidentes da Sociedade Científica a indivíduos que tenham contribuído para o interesse do público em geral pela ciência, conferido desde 1993, quando o próprio Sagan foi seu vencedor.

A contribuição de Sagan nessas três áreas foi, de fato, inestimável - é quase impossível determinar quantos cientistas de hoje foram estimulados por ele a seguir essa carreira, sem falar em quantos não chegaram a se tornar cientistas, mas possuem uma compreensão melhor dos mistérios do universo graças ao entusiasmo de um homem verdadeiramente apaixonado pela ciência.
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