domingo, 30 de abril de 2006

Escrito por em 30.4.06 com 0 comentários

Alf

Na minha modesta opinião, ter sido criança nos anos 80 foi muito bom. Tudo bem que não tínhamos trocentos canais a cabo passando desenhos 24 horas - no máximo havia o SBT, que ainda se chamava TVS, e tinha uns quatro programas infantis seguidos - mas em compensação, nem sempre quantidade significa qualidade. Eu sei que muitos dos que vão ler isso aqui vão achar que isso é assim mesmo, que nossos pais acham que ter sido criança nos anos 60 foi muito melhor, e que nossos filhos acharão que ter sido criança em 2020 é que foi o máximo. Mas o fato é que, quando eu comparo a programação infantil de hoje com a de 20 anos atrás, tudo me parece meio esquisito, principalmente as séries. Hoje, as crianças podem acompanhar o Colégio do Buraco Negro ou a Adolescente por Natureza, onde os astros são pré-adolescentes com problemas na família ou na escola. Na minha epoca, também tínhamos problemas na família ou na escola, mas preferíamos assistir o Alf. Que, aliás, "ressucitou" na Nickelodeon, no novo bloco Nick at Nite, proclamadamente voltado para "adultos", vejam só como são as coisas.

Alf ao telefoneAlf, para quem passou os últimos 20 anos em Melmac, era uma série, dessas que hoje em dia se convencionou a chamar de sitcom, produzida para o público infanto-juvenil entre 1986 e 1990 pela rede americana NBC. Aqui no Brasil deve ter começado a passar em 1988 ou 1989, nas manhãs de domingo na Rede Globo, depois pssaou para a Bandeirantes no final da década de 90, e há alguns anos estava passando no SBT.

O tema da série era um assunto muito em moda em 1986: alienígenas. A caça a formas de vida extraterrestres estava no auge, e Hollywood refletia isso em filmes de grande sucesso, como Contatos Imediatos do Terceiro Grau e ET, o Extraterrestre. Inspirado por este último, o produtor Paul Fusco decidiu criar uma série cômica onde um alienígena se visse preso em nosso planeta, obrigado a conviver com uma família de classe média americana. Diferentemente do tímido ET, porém, este alienígena falaria inglês, seria comilão, brincalhão e extremamente curioso. Assim nasceu Alf, que aqui no Brasil ganhou o subtítulo "o ETeimoso", para tentar pegar uma carona no sucesso do ET.

Alf, na verdade, se chama Gordon Shumway, filho de Bob e Flo Shumway, nascido em 1756 no planeta Melmac, onde o céu é verde e a grama é azul, e que tem este nome porque é feito de melmac. Em 1986, Melmac se envolveu em uma guerra nuclear, e foi destruído. Gordon, que trabalhava na Polícia Espacial, conseguiu entrar em uma nave e fugir antes disso. Sem saber pilotar a nave perfeitamente, porém, ele ficou à deriva no espaço, procurando por outros sobreviventes, até encontrar um sinal de rádio vindo de um planeta até então desconhecido. Ao seguir este sinal, Gordon acabou se chocando contra uma casa, avariando sua nave e ficando preso neste planeta.

Alf e os TannersO planeta em questão, evidentemente, era a Terra, e a casa contra a qual Gordon se chocou era a da família Tanner, composta pelo pai Willie (Max Wright), a mãe Kate (Anne Schedeen), a filha adolescente Lynn (Andrea Elson), o caçula Brian (Benji Gregory) e o gato Lucky. Willie, um engenheiro, é fascinado pelo espaço, de forma que sua garagem é repleta de telescópios, livros sobre o assunto, e um rádio-amador com o qual troca idéias sobre o assunto com um amigo iugoslavo. Evidentemente, ao finalmente encontrar uma forma de vida alienígena inteligente, ele fica fascinado pela descoberta, e decide apelidá-lo de Alf (da sigla Alien Life Form, "forma de vida alienígena" em inglês). Ao saber que Alf pode ser o único sobrevivente de sua espécie, Willie decide abrigá-lo e protegê-lo, mesmo contra a vontade de Kate. A família passa a ter então a missão de esconder Alf do mundo, principalmente de seus vizinhos fuxiqueiros, Raquel (Liz Sheridan) e Trevor Ochmonek (John LaMotta), para que ele não caia nas mãos da Força Tarefa Alienígena, um órgão governamental encarregado de capturar para estudo eventuais alienígenas que venham parar aqui. A família também tem a difícil tarefa de se adaptar ao jeito peculiar de Alf, enquanto ele mesmo se adapta a uma sociedade estranha de um planeta desconhecido. Além dos Tanners, as únicas pessoas que sabem da existência de Alf são a mãe de Kate, Dorothy (Anne Meara), o psicólogo Larry (Bill Daily), e a jovem cega Jody (Andrea Covell).

Alf é baixinho e peludo, com um enorme nariz e um topete estiloso, tem 229 anos de idade, freqüentou a escola durante 122, tem oito estômagos, o que faz com que ele esteja sempre com fome, e em seu planeta gatos são considerados uma iguaria deliciosa, fechar a boca enquanto se come é falta de educação, e as pessoas se vestem de vegetais quando entes queridos morrem. Na maior parte do tempo, Alf era um boneco, controlado pelo produtor Paul Fusco, que também fazia sua voz. Quando precisava aparecer andando, de corpo inteiro, Michu Meszaros vestia sua fantasia.

Alf teve um total de 102 episódios, divididos em 4 temporadas. No último, infelizmente, Alf é capturado pela Força Tarefa Alienígena. O que aconteceria com ele só seria revelado no filme Projeto: ALF, produzido para a TV em 1996, e que costuma passar aqui de vez em quando na Rede Telecine. O filme não conta com a participação da família Tanner, e mostra como Alf conseguiu fugir da base militar e deixar a Terra em uma nova espaçonave, graças à ajuda de um cientista e de um milionário. O filme é bastante engraçado, embora não tanto quanto a série, mas se tivesse os Tanners seria muito melhor.

Alf ao pianoO enorme sucesso da série projetou Alf para dois outros meios. O primeiro deles foi um desenho animado, que teve duas temporadas, em 1987 e 1988. A primeira temporada mostrava Alf, ou melhor, Gordon, com sua família e amigos vivendo aventuras no planeta Melmac, e no início e no final de cada episódio o Alf do seriado fazia algumas considerações. A segunda temporada foi mais esquisita, colocando os personagens da primeira temporada no papel de personagens de contos de fadas clássicos, como Chapeuzinho Vermelho ou a Branca de Neve. Além do desenho, Alf também ganhou uma série em quadrinhos, publicada entre 1987 e 1992 pela Marvel Comics, com 50 edições regulares e 12 especiais. A revista trazia Alf tanto com a família Tanner quanto em Melmac, embora as histórias com a família não seguissem fielmente o mostrado nos episódios da TV. O desenho passou aqui no Xou da Xuxa, os quadrinhos eu não lembro de ter visto.

Alf foi uma série muito bem sucedida nos EUA, apenas cancelada porque o tema se tornou ultrapassado. Sua carreira foi igualmente popular na Argentina, Polônia e no Brasil, mas o lugar onde Alf se tornou mais famoso foi na Alemanha Ocidental, onde era uma das maiores audiências da época. O sucesso de Alf era tanto que a série foi lançada em DVD na Alemanha antes de no Canadá e nos EUA, e o filme Projeto: ALF passou nos cinemas (com o nome de ALF: der Film), e foi uma das maiores bilheterias de 1996. Existia até um projeto para continuar a a série após o seu final com atores alemães, mas a emissora que teve essa idéia não conseguiu os direitos do personagem.

A série foi lançada em DVD nos EUA em 2004. Para aproveitar o sucesso gerado, Paul Fusco criou um talk show para Alf, onde o alienígena recebia e entrevistava personalidades, auxiliado por Ed McMahon. Chamado Alf's Hit Talk Show, o programa foi ao ar no canal a cabo TV Land, mas só teve 5 episódios.

Lá fora já existem as duas primeiras temporadas em DVD. Por aqui, ninguém ainda se manifestou sobre um possível lançamento. Confesso que, se sair, eu serei um dos interessados em comprar, mas com uma condição: que a versão em português tenha os dubladores originais. Eu normalmente não gosto de filmes dublados, e jamais assisti a um DVD dublado na vida, mas ouvir Alf com a voz de Orlando Drummond, um dos maiores dubladores do Brasil, é um bônus que não pode ser descartado.
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domingo, 23 de abril de 2006

Escrito por em 23.4.06 com 0 comentários

Holy Avenger

De vez em quando, eu fico meio sem saber sobre qual assunto vou escrever. Quando isso acontece, eu releio o meu perfil ali da coluna da esquerda. Na maioria das vezes, eu encontro algo do que gosto e sobre o qual ainda não falei. O post de hoje foi feito desta forma. E o assunto é Holy Avenger.

Holy Avenger, para quem não sabe, é a mais bem sucedida revista em quadrinhos nacional não voltada para o público infantil - em outras palavras, tirando a Turma da Mônica. Publicada entre 1999 e 2002 pela Editora Trama (que após um tempo mudou de nome para Talismã), Holy Avenger chegou ao espantoso recorde de 42 (47 se você contar os cinco especiais) edições publicadas. Parece pouco? Pois nenhuma revista em quadrinhos brasileira - Turma da Mônica não conta, novamente frisando - chegou à metade disso.

Lógico que tal longevidade não foi por acaso. Mesmo com um público alvo aparentemente restrito, já que tem traço em estilo mangá, e sua ambientação é medieval-fantástica, normalmente associada ao RPG, Holy Avenger conseguiu unir roteiro criativo, interessante e surpreendente, traço de alta qualidade, papel bom (sem ser "de jornal") e preço baixo (se comparada aos similares estrangeiros), atingindo o público-alvo em cheio, e respingando em muitas outras pessoas que começaram a comprar devido aos comentários dos amigos. Muita gente pode pensar que com o tempo este interesse desapareceu e a revista foi cancelada, mas desde o início já estava previsto que a revista só teria 40 edições, no melhor estilo mangá de que até as coisas boas devem ter um fim.

O Paladino, Sandro, Niele e LisandraOriginalmente, Holy Avenger - que significa "Vingadora Sagrada" em inglês, o nome de uma famosa espada mágica do RPG Dungeons & Dragons - não foi concebida para ser uma história em quadrinhos, mas uma aventura em três partes, escrita por Marcelo Cassaro e publicada nas edições 44, 45 e 46 da revista Dragão Brasil. Nela, os jogadores tinham de se aliar a alguns personagens controlados pelo mestre para frustrar os planos do vilão Mestre Arsenal. A aventura se tornou bastante popular, e Cassaro, que já havia conseguido um relativo sucesso com outras histórias em quadrinhos de sua autoria, como as do Capitão Ninja, começou a imaginar onde poderia reutilizar seus personagens. Em sua edição número 50, a revista Dragão Brasil trouxe de brinde o RPG Tormenta, que nada mais era que a reunião de todos os personagens, lugares e monstros inventados pela revista em um único cenário, que podia ser utilizado pelos jogadores em suas campanhas. Com personagens carismáticos e um cenário praticamente pronto em mãos, Cassaro chamou a desenhista Erica Awano, e ambos começaram a trabalhar na série em quadrinhos de Holy Avenger, um empreendimento altamente arriscado, mas igualmente satisfatório se desse certo.

Mas do que se trata esta tão fabulosa história? Holy Avenger conta a história da druida adolescente Lisandra, criada longe da civilização, na selvagem ilha de Galrasia, dominada por dinossauros e outros monstros que ela considera como amigos. Um dia, Lisandra descobre o corpo do Paladino de Arton, o mais poderoso guerreiro do mundo, em uma espécie de torpor. Através de sonhos enigmáticos e perturbadores, Lisandra descobre que tem de reunir os vinte Rubis da Virtude, jóias mágicas contruídas pelos próprios deuses, e recolocá-los na armadura do Paladino, para que este volte a viver. Confusa em relação aos seus sentimentos, Lisandra imagina que está apaixonada pelo Paladino, e decide viajar até o continente para encontrar as jóias e ajudá-lo.

Após uma grande confusão na cidade de Valkaria, Lisandra acaba conhecendo o ladrão Sandro Galtran, filho do maior ladrão do Reino, e que herdou a fama do pai, apesar de não ter absolutamente talento nenhum para o negócio. Mesmo sem se dar conta disso, Sandro se apaixona por Lisandra, e decide ajudá-la a recuperar os Rubis. Na verdade, Sandro não sabe que existe mais de um Rubi, e, tendo ouvido falar de mais um Rubi da Virtude após ajudar Lisandra a encontrar o primeiro, ele imagina que ela está com um falso, e vai atrás do verdadeiro para entregar a ela. Assim ele fica conhecendo a "arquimaga" elfa Niele, uma menina tresloucada e inconseqüente, que de maga mesmo não tem nada, mas consegue grandes proezas mágicas graças a um artefato que encontrou por acidente, o Olho de Sszzaas.

Enquanto a adorável Niele e seu mais novo amigo tentam chegar a Galrasia para entregar o Rubi "verdadeiro" a Lisandra, esta se reencontra com Tork, o troglodita anão (Nota do Guil: em RPG, um troglodita não é um homem-das-cavernas, mas algo parecido com um homem-lagarto), que a criou em Galrasia, ensinando-a a falar e agir como humana. A princípio, Tork fica irritado com o fato de Lisandra ter saído da ilha, mas decide ajudá-la em sua busca pelos Rubis. Após algum tempo, Sandro e Niele descobrem que os Rubis são vinte, e decidem reunir a maior quantidade deles antes de entregá-los à druida.

A partir daí, os quatro heróis viverão uma jornada por todo o continente de Arton, antagonizados pelo Mestre Arsenal, um vilão megalomaníaco que tem por objetivo reunir todos os itens mágicos do mundo; e por Nakapeth, sumo-sacerdote de Sszzaas, deus da traição e da intriga, que foi expulso por seus pares mas possui um plano maligno para voltar ao panteão. Mas Niele, Sandro, Lisandra e Tork também ganharão muitos aliados, como a xamã centaura Odara, o pirata James K e sua irmãzinha Annie, o necromante Vladislav Tpish e sua filha Petra, o simpático esqueleto Tarso, a gladiadora Loriane e o guerreiro Arkam. Existe ainda uma trama paralela, que envolve o Paladino, o bardo Luigi Sortudo, Leon Galtran (o pai de Sandro) e os dragões Beluhga, Rainha dos Dragões Brancos, e Schkar, Rei dos Dragões. Para quem acompanhava a Dragão Brasil, Holy Avenger era quase um manual, com todos os principais personagens e cidades criados pela revista interagindo entre si.

Mas não era necessário ser leitor da Dragão Brasil para se divertir. Do início ao fim, Holy Avenger conseguiu manter um ritmo constante e um roteiro bem amarrado, que sempre deixava os leitores curiosos sobre o que aconteceria na edição seguinte, e reclamando que a revista tinha poucas páginas. Ao longo das 40 edições, Niele e Sandro viajaram no navio de James K; Sandro e Tork se tornaram gladiadores, e depois, acompanhados por Anne, encontraram o lugar onde o Paladino foi criado; Niele e Lisandra visitaram Vectora, o Mercado nas Nuvens, uma cidade que flutua através do continente, sustentada pelo poder de Vectorius, um dos magos mais poderosos do mundo; Niele teve um encontro nada agradável com o Camaleão, um assassino capaz de assumir qualquer aparência; Tork voltou a brigar com Deenar, um elfo-do-mar maligno que havia sido seu inimigo no passado; Lisandra e Petra visitaram a Academia Arcana, a maior escola de magia de Arton, comandada por Talude, o Mestre Máximo da Magia; um flashback mostrou como Leon, Vladislav, Luigi e Lenora, uma elfa-do-mar, acidentalmente se envolveram na criação do Paladino; tudo isso enquanto a paixão de Lisandra pelo Paladino se revelava algo muito mais sombrio. O final da saga, se não foi incrivelmente surpreendente, pelo menos foi à altura, com algumas revelações bombásticas.

O "fim final" ocorreu na edição 40, mas a revista ainda teve duas edições extras, que mostravam Sandro e Lisandra alguns anos depois, casados e com dois filhos gêmeos, Kaio e Karina. Completam a saga cinco edições especiais que mostram, respectivamente, como Sandro foi parar em Valkaria antes de seu encontro com Lisandra; como Niele conseguiu o Rubi da Virtude que estava com ela; o nascimento de Lisandra; como Tork foi inserido na sociedade humana e chegou a Galrasia para educar Lisandra; e uma aventura de Petra e Tarso enquanto a menina procurava por cogumelos na floresta para uma receita. Ainda foram lançados o especial A Arte de Holy Avenger, com ilustrações originais e comentários dos artistas, e um CD onde dubladores profissionais liam a história, interpretando os personagens.

Holy Avenger não fica devendo nada a qualquer mangá ou anime de fantasia medieval - na verdade, é até melhor que muitos deles - e foi um mais do que bem-vindo intervalo no mundo de super-heróis americanos que eram os quadrinhos da época. Infelizmente, como tudo o que é bom, acabou. Cassaro e Awano saíram da Dragão Brasil, e atualmente fazem parte da equipe da Dragonslayer, da Editora Escala. As histórias originais de Holy Avenger andam sendo republicadas sob o nome de Holy Avenger Reloaded, em edições em papel de jornal preto-e-branco com duas histórias cada.

Mas pode ser que venha um "novo" Holy Avenger por aí. Já há alguns anos se comenta que Cassaro estaria trabalhando em um ambicioso projeto: transformar Holy Avenger em um anime, o primeiro 100% nacional. Eu aguardo ansiosamente.
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domingo, 16 de abril de 2006

Escrito por em 16.4.06 com 0 comentários

Olimpíadas (III)

E hoje teremos o terceiro post sobre as Olimpíadas!

Londres 1908


A princípio, os Jogos de 1908 ocorreriam em Roma, sede escolhida pelo COI logo após os Jogos de 1904. Em 1906, porém, uma violenta erupção do Vesúvio destruiu parte da cidade de Nápoles, e todo o dinheiro que seria destinado à Olimpíada acabou indo para a reconstrução da cidade. Durante os Jogos Intercalados de 1906, o presidente do Comitê Olímpico Italiano procurou o Barão de Coubertin, e oficialmente cancelou a realização dos Jogos seguintes na capital de seu país.

Isto deixou Coubertin com um enorme problema, pois faltava pouco mais de dois anos para que fosse escolhida uma nova sede e iniciados os preparativos. Desesperado, ele desabafou com seu amigo Lorde William Desborough, presidente do recém fundado Comitê Olímpico Britânico. Animado com a possibilidade de realizar os Jogos em sua pátria antes do esperado, Desborough prometeu ao Barão que convenceria o Rei Eduardo VII a patrocinar todas as obras necessárias à realização de uma Olimpíada em Londres. Assim, dois meses depois do final dos Jogos de 1906, a capital inglesa era anunciada como a próxima sede do evento.

Os ingleses, infelizmente, incorreram no mesmo erro dos norte-americanos e dos franceses antes deles: programaram os Jogos para ocorrer simultaneamente a uma feira, desta vez a Franco-British Exhibition, que comemoraria a assinatura de um tratado entre a França e a Grã-Bretanha. Como de costume, combinar os Jogos com a feira fez com que eles se estendessem além de um período aceitável, por longos seis meses, de 27 de abril a 31 de outubro. Por outro lado, os britânicos se esmeraram como apenas os gregos o tinham feito, construindo todas as instalações necessárias à prática esportiva, ao invés de usar locais prontos e inadequados. A menina dos olhos dos Jogos de 1908 era o impressionante White City Stadium, uma maravilha arquitetônica da época, construído em tempo recorde, com capacidade para 100 mil espectadores, campo de futebol, pista de atletismo, velódromo para o ciclismo, uma imensa piscina descoberta de 100 metros de comprimento, e um anexo onde aconteceriam as competições de ginástica e luta.

Participaram desta edição dos Jogos 2.035 atletas, sendo 1.999 homens e 36 mulheres, competindo em 111 provas de 24 esportes: atletismo, boxe, cabo de guerra, ciclismo, esgrima, futebol, ginástica, hóquei, lacrosse, luta olímpica, motonáutica, natação, patinação artística no gelo, polo, polo aquático, raquetes, remo, rugby union, saltos ornamentais, tênis, tênis real, tiro com arco, tiro esportivo e vela (clique aqui para ver todas as provas do programa), além de uma partida de ciclopolo que acabaria não sendo considerada como parte do programa oficial pelo COI. 22 nações foram representadas, incluindo a Australásia, uma combinação das delegações de Austrália e Nova Zelândia. Os jogos tiveram uma cerimônia de abertura, embora esta tenha sido meio tensa: querendo repetir o ocorrido nos Jogos de 1906, os organizadores programaram um desfile das delegações com suas bandeiras, dividido em quatro partes. Primeiro, viria a Grécia, criadora dos jogos originais; depois, viriam as delegações de nações que não fossem de língua inglesa, em ordem alfabética em inglês; então as nações de língua inglesa, novamente em ordem alfabética; e finalmente a delegação da Grã-Bretanha anfitriã. Cada delegação, ao passar diante da Família Real, deveria curvar sua bandeira em sinal de respeito.

A tensão começou com uma escaramuça entre as delegações da Finlândia e da Rússia. Na época, a Rússia havia invadido a Finlândia, e considerou inadmissível que os finlandeses desfilassem separados da delegação russa. Como os finlandeses não queriam desfilar sob a bandeira da Rússia, e os russos não aceitavam que eles desfilassem sob a bandeira da Finlândia, um acordo foi feito e os finlandeses desfilaram separados, mas sem bandeira alguma. Depois ocorreu um problema com a Suécia, pois não havia nenhuma bandeira sueca para o desfile. Acabou que a Suécia não desfilou. E então veio o problema mais grave: na época, a Irlanda não era independente, fazendo parte do Reino Unido. Muitos dos atletas irlandeses, porém, queriam desfilar sob sua própria bandeira, algo que não foi permitido de forma alguma pela delegação britânica. Pior, nem mesmo desfilar separadamente como a Finlândia lhes foi permitido. Muitos dos atletas irlandeses preferiram desistir de competir a ganhar medalhas para o opressor, e foram para casa. O porta-bandeira dos Estados Unidos, o lançador de martelo John Flanagan, nascido na Irlanda, tomou as dores dos irlandeses e, ao passar diante do Rei Eduardo VII, não curvou a bandeira, sequer olhou para a cara do monarca, o que causou um enorme constrangimento em todo o estádio - o episódio entraria para a história como se os norte-americanos tivessem desafiado a monarquia, com inclusive um atleta declarando aos jornais que "nossa bandeira não se curva para nenhum rei". A partir de então, os Jogos de 1908 viraram uma verdadeira guerra entre os EUA e a Grã-Bretanha, com direito a provocações, vaias e torcida contra. Se para mais nada, pelo menos isso serviu para manter as Olimpíadas nos jornais de seu início até seu final, algo que jamais havia ocorrido.

As controvérsias ainda se estenderiam através dos jogos, principalmente devido aos árbitros e fiscais. Até então, era costume que somente árbitros e fiscais locais atuassem nas provas. Os fiscais britânicos, porém, eram tidos como rigorosos demais. Na prova de sprint do ciclismo, eles desclassificaram todos os competidores, alegando que eles estavam tornando a prova muito demorada de propósito, e não permitiram a realização de uma nova prova, fazendo com que, ineditamente, uma prova Olímpica não tivesse vencedor. Nos 400m do atletismo eles desclassificaram o norte-americano John Carpenter, acusado de invadir a raia do britânico Wyndham Halswelle, embora ninguém mais no estádio tenha visto isso. Pior ainda, na Maratona o vencedor seria o italiano Dorando Pietri, que chegou ao estádio com uma larga vantagem sobre os oponentes. Pietri, porém, chegou quase morto, e cambaleou na direção contrária da linha de chegada. Um dos fiscais, acreditem ou não, correu até lá, o amparou, e praticamente o carregou até a linha de chegada, fazendo com que Pietri fosse desclassificado, e o norte-americano John Hayes declarado vencedor. Como Pietri não havia sido o causador de sua desclassificação, a Rainha Alexandra lhe conferiu uma taça de ouro como prêmio por seu esforço.

Mas, como sempre, também houve pontos positivos: os britânicos William e Charlotte Dodd se tornaram os primeiros irmãos medalhistas olímpicos, ouro e prata no tiro com arco, respectivamente. O sueco Oscar Swahn se tornou o mais velho medalhista olímpico da história ao ganhar um ouro aos 60 anos, no tiro. E o norte-americano Ray Ewry se tornou o único atleta até hoje a ganhar oito ouros olímpicos em eventos individuais, todos no salto em altura e no salto em distância. Um fato curioso sobre 1908 é que a distância da Maratona passou oficialmente de 40 km para 42.195 metros, distância usada até hoje. A curiosidade vem do fato de que os 2.195 metros foram adicionados para que a linha de chegada ficasse exatamente à frente do Camarote Real do White City Stadium. Talvez, se fossem apenas 40 km, Pietri tivesse conseguido completar a prova.

Ao final dos Jogos, durante uma reunião do COI que fez as vezes de cerimônia de encerramento, ficou decidido que, a partir de 1912, os árbitros e fiscais seriam de diferentes nacionalidades, para evitar acusações de favorecimento. Além disso, os esportes, se quisessem fazer parte do programa olímpico, teriam de ter regulamentos oficiais idênticos no mundo inteiro, para evitar controvérsias de interpretação. Finalmente, foi definido o Juramento dos Atletas, que seria lido por um atleta selecionado em cada cerimônia de abertura dos jogos. A leitura do Juramento, porém, só começaria a ser feita em 1920.

Estocolmo 1912


As primeiras Olimpíadas podem não ter saído exatamente da forma que o Barão de Coubertin imaginara, mas isso começou a mudar com os Jogos de Estocolmo, capital da Suécia. A cidade decidiu se concentrar exclusivamente no evento, sem concomitá-lo com nenhuma feira ou exposição, algo que não acontecia desde 1896. Pela primeira vez em uma Olimpíada "oficial" foram introduzidas todas as inovações dos Jogos Extemporâneos de 1906. Também pela primeira vez foi instalado um moderno sistema de som nas pistas, gramados, quadras, ginásios, e até mesmo em algumas ruas, para que o público soubesse em tempo real (ou quase) o que estava acontecendo em cada esporte. O Estádio Olímpico, construído especialmente para a ocasião, era um primor de beleza e tecnologia, proporcionando conforto tanto aos espectadores quanto aos atletas. Junto ao cais foi construída uma fabulosa piscina de 100 metros de comprimento, com trampolim acoplado para a disputa dos saltos. Equipamentos fotográficos e cronômetros semi-eletrônicos, jamais utilizados em qualquer competição esportiva, fizeram sua estréia em Estocolmo, tornando a vida dos fiscais do atletismo e da natação muito mais fácil - fiscais estes, aliás, que vieram de todas as nações representadas, ao invés de serem todos do país-sede, como foi até 1908. Falando nisso, esta também foi a primeira Olimpíada da qual participaram países de todos os cinco continentes, mesmo com a enorme distância entre alguns deles e a Escandinávia. Graças ao verão escandinavo, o sol brilhava dezoito horas por dia, o que permitiu a realização de mais eventos em um mesmo dia, e deu aos turistas a chance de aproveitá-los ao máximo. Embora ainda longos, os Jogos de 1912 duraram apenas 80 dias, entre 5 de maio e 22 de julho, bem melhor que os vários meses das edições anteriores. Animadíssimo, o Barão declarou na Cerimônia de Abertura que aqueles seriam Jogos como jamais havia se visto.

Participaram dos Jogos 2.547 atletas, sendo 57 mulheres, representando 28 nações em 102 provas de 16 esportes: atletismo, cabo de guerra, ciclismo, equitação, esgrima, futebol, ginástica artística, luta olímpica, natação, pentatlo moderno, pólo aquático, remo, saltos ornamentais, tênis, tiro esportivo e vela (clique aqui para ver todas as provas do programa). Somente a ginástica foi responsável pela inscrição de 1.275 atletas. Estocolmo ainda inovou ao trazer pela primeira vez os esportes de demonstração, que faziam parte do programa olímpico mas não valiam medalhas, o beisebol e a glima, uma modalidade de luta de origem escandinava - ainda houve demonstrações de três esportes típicos suecos, o pärk, o varpa e o stångstörtning, mas sem competição. Devido a uma lei da época, os organizadores não permitiram a inclusão do boxe, mesmo após os apelos do Barão. Menos mal, isto fez com que o COI criasse uma regra para a partir dos próximos Jogos, segundo a qual a elaboração do programa é de competência exclusiva do COI, e não pode ser contestada pelos organizadores.

Mesmo com este problema com o boxe, o Barão estava tão animado com os Jogos de Estocolmo que decidiu ele mesmo inventar uma modalidade: o pentatlo moderno, que simula a jornada de um mensageiro militar para entregar uma carta a seu superior, passando por provas de equitação, esgrima, tiro, natação e corrida. Embora não seja particularmente atraente ao público, e praticado principalmente por militares, o pentatlo moderno é um grande orgulho do COI, e está no programa olímpico até hoje.

Mas o Barão não foi o único a inventar alguma coisa em 1912. Nas disputas da natação, um príncipe havaiano, de nome Duke Kahanamoku, competindo pelos Estados Unidos, surpreendeu o mundo ao apresentá-lo a uma nova modalidade de nado que havia inventado, e que posteriormente seria conhecida como crawl - literalmente, rastejo, devido à forma que o nadador se move na água. Até então, nas disputas de nado livre, cada competidor nadava da maneira que bem entendesse (afinal, era estilo livre), e a maioria fazia muito barulho e marola em busca da maior velocidade. O estilo de Kahanamoku era limpo, silencioso, e incrivelmente rápido. Tão eficiente que, a partir de então, todos os nadadores do estilo livre passaram a utilizá-lo. E o mais impressionante desta história é que, mesmo tão superior, talvez Kahanamoku não tivesse ganho uma medalha sequer: devido a uma confusão nos horários das semifinais, os nadadores norte-americanos chegaram atrasados à piscina, e seriam desclassificados, não fosse a intervenção do australiano Cecil Healy, que achava injusta uma final sem seus maiores rivais, e insistiu para que os organizadores lhes dessem uma nova chance. Graças a ele, que ficou com a medalha de prata, Kahanamoku ganhou o ouro, chegando quase um segundo à sua frente.

A maior proeza dos Jogos de 1912 foi também sua maior injustiça: o norte-americano Jim Thorpe, descendente de índios, realizou a incrível façanha de conquistar o ouro tanto do decatlo quanto do pentatlo (o do atlestismo, não o moderno), algo até então inimaginável, e ainda com alguns resultados espetaculares. Um ano depois, porém, o Comitê Olímpico dos EUA acusou Thorpe de profissionalismo, e ambas as suas medalhas foram cassadas pelo COI. Thorpe nem era profissional, mas havia recebido uma quantia insignificante por ter se apresentado com um time de beisebol praticamente amador, e isso bastava para o Comitê norte-americano. A cassação das medalhas de Thorpe sempre foi vista como um problema racial, já que ele era meio-índio, e havia derrotado outros americanos na prova, entre eles Avery Brundage, que em 1929 se tornaria presidente do Comitê dos EUA, e em 1952 presidente do COI. Graças à oposição de Brundage, o caso só foi revisto setenta anos depois, e Thorpe só recuperaria suas medalhas em 1983, trinta anos após sua morte.

Como as medalhas de Thorpe só seriam cassadas em 1913, o único problema realmente sério dos Jogos de 1912 foi a morte do português Francisco Lázaro, de 21 anos, que sofreu um ataque cardíaco durante a Maratona, fato que só foi divulgado após a prova, pois os organizadores não queriam atrapalhá-la. Este fato teve repercussão negativa, mas fora esta infelicidade, não houve nenhuma desclassificação, mamata ou controvérsia, fato inédito na Maratona desde 1896.

No campo dos incidentes diplomáticos, mais uma vez a Rússia impediu que a Finlândia competisse de forma independente. Pior ainda, graças à amizade entre o Rei Gustavo V da Suécia e o czar Nicolau II da Rússia, a cada vitória dos finlandeses era o hino russo que tocava, e a bandeira russa que era hasteada. Pelo menos o COI, ao registrar os medalhistas, deu todas as medalhas conquistadas aos finlandeses para a Finlândia, e não para a Rússia. Ainda no que concerne as nações, Austrália e Nova Zelândia mais uma vez competiram como Australásia, uma única delegação para os atletas dos dois países.

Na Cerimônia de Encerramento, Coubertin fez um discurso comovidíssimo, onde pedia a concordância entre as nações. Berlim, capital da Alemanha, foi escolhida para sede dos Jogos de 1916, Jogos estes que o Barão imaginava serem de ainda mais brilho que os de 1912. Diferentemente do que ocorria na antigüidade, porém, o esporte não foi capaz de interromper a guerra. Com o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, as Olimpíadas foram suspensas por tempo indeterminado.

Série Olimpíadas

Londres 1908
Estocolmo 1912

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domingo, 9 de abril de 2006

Escrito por em 9.4.06 com 0 comentários

Alien vs Predador

Por alguma razão, eu adoro o filme Alien. A teoria mais aceita para este fato é a de que sou fã tanto de filmes de horror quanto de ficção científica, e Alien é uma cruza dos dois. Mesmo assim, achar aquele bicho babento um dos personagens mais legais que já criaram para o cinema não pode ser 100% normal. Eu já expus esta admiração em um post sobre os quatro filmes da série, que você pode ver aí ao lado. Em minha coleção de DVDs, eu só tenho os dois primeiros, e confesso que não pretendo ter os dois últimos. Recentemente, porém, motivado por uma promoção, comprei mais um filme infestado de aliens, Alien vs. Predador. Não é nenhuma obra prima, mas para um filme onde alienígenas se degladiam matando humanos nas horas vagas é surpreendentemente bem feito e bastante divertido. Além do mais, é preciso admitir que juntar aliens e predadores em um filme só foi uma idéia, no mínimo, inusitada. De tão inusitada, me deu vontade de escrever sobre isso, só para tentar esclarecer de onde ela saiu. E é por isso que vocês estão lendo este post hoje.

Não me lembro quantos anos eu tinha quando assisti Alien pela primeira vez, mas foi depois de ter assistido Predador. Por alguma razão, meus pais acharam que eu era muito criança para ver um filme de terror com um alienígena babento, mas não para um filme do Schwarzenegger com um alienígena sanguinário. Nojo por nojo, as mortes de Predador são bem mais nojentas, mas deixa isso pra lá. O que importa é que eu me tornei fã do alien e do Schwarzenegger, mas ao Predador eu nunca dei muita atenção. Principalmente porque ele só teve mais uma continuação, e ela foi tão ruim quanto Alien 3 e 4. Ou não, já que é difícil alguma coisa ser tão ruim quanto Alien 4.

Pois bem, digressões à parte, temos um filme de horror/ficção científica com um alienígena praticamente invencível, e um filme de ação/ficção científica com outro alienígena praticamente invencível. Já dá até para imaginar os nerds da época discutindo coisas como "em uma batalha entre um alien e um predador, quem será que venceria". Algum desses nerds deve ter chegado a um posto importante dentro da indústria de quadrinhos e, voilà, decidiu realizar seu sonho contando para o mundo inteiro como seria esta batalha.

AvsP em quadrinhosA primeira vez que aliens e predadores se pegaram na porrada foi em uma minissérie em quadrinhos em cinco partes, publicada pela editora Dark Horse em 1989, dez anos após o lançamento do primeiro Alien, dois anos após o lançamento do primeiro Predador. O autor Chris Warner é tido como um dos pais da idéia, sugerindo-a durante uma reunião entre os demais autores, quando se discutia quais novos títulos poderiam ser lançados naquele ano. Como o copyright tanto do alien quanto do predador pertenciam à Fox, não deve ter sido tão difícil para a Dark Horse adquirir uma licença, tanto que ela a tem até hoje, e costuma usar os bichos inclusive em crossovers com heróis de outras editoras - Batman, por exemplo, já enfrentou ambos.

A história desta primeira minissérie se passava no planeta Ryushi, colonizado por humanos que desconheciam que predadores costumavam caçar ali. Um dia, os predadores retornam com uma nova caça, uma rainha alien, com a qual eles pretendem espalhar ovos pelo planeta e criar aliens para que os predadores que estão em seu rito de passagem possam caçá-los. Mas os predadores também desconhecem que os humanos colonizaram o planeta e, quando aportam para caçar, decidem matá-los também. A rainha alien, porém, consegue burlar seus guardas, e infectar um cargueiro que está deixando o planeta com uma larva que criará uma nova rainha. Quando descobrem isso, os predadores decidem se aliar aos humanos, para que as duas forças juntas consigam deter o cargueiro e exterminar todos os aliens, antes que eles se espalhem pelo universo. No final, apenas uma mulher humana sobrevive, e os predadores a aceitam como um dos seus por seu valor em combate.

A minissérie foi um grande sucesso de vendas, e acabou dando origem a um jogo de arcades, lançado pela Capcom em 1994, para sua placa CPS-2. Nele, a Califórnia está infestada de aliens, graças a um experimento mal-sucedido de uma corporação militar que os trouxe para cá, e dois predadores, que vieram passar um tempinho caçando, decidem se unir a dois soldados humanos para derrotar os bichos. Os quatro personagens que você pode escolher são o Major Dutch Schaefer (inspirado no personagem de Schwarzenegger no filme Predador), a Tenente Linn Kurosawa (inspirada na mulher que sobrevive nos quadrinhos), um predador caçador e um predador guerreiro. Ao longo de 7 fases, os quatro enfrentarão aliens das mais diferentes formas e tamanhos (afinal, um jogo onde todos os inimigos de fase fossem iguais seria meio sem graça), mais um predador infectado e até mesmo uma rainha alien. O jogo tem bons gráficos e segue a linha dos jogos de ação para arcade da época, onde mais e mais inimigos vão aparecendo na tela, e seu objetivo é massacrar a todos para poder continuar avançando.

AvsP em arcadesO que poderia ter acabado por aí ganhou força com a decisão da Dark Horse de continuar investindo nos quadrinhos. Ao invés de publicar uma série regular, porém, a editora decidiu publicar várias minisséries, com intervalos entre elas. Até hoje, as minisséries publicadas foram: Aliens vs. Predator (5 partes, 1989/1990), Aliens/Predator: Deadliest of the Species (12 partes, 1993/94/95), Aliens/Predator: Duel (2 partes, 1995), Aliens/Predator: War (5 partes, 1995), Aliens vs. Predator: Booty (volume único, 1996), Dark Horses Classics: Aliens vs. Predator (6 partes, 1997), Aliens vs. Predator: Eternal (4 partes, 1998), Aliens vs. Predator Annual (volume único, 1999), Dark Horse Presents: AvP (volume único, 1999), Aliens vs. Predator: Xenogenesis (4 partes, 2000), Aliens/Predator: Mindhunter (3 partes, 2001), Aliens vs. Predator: Thrill of the Hunt (volume único, baseado no filme, 2004) e Aliens vs. Predator: Civilized Beasts (volume único, 2006).

Os jogos de videogame também seguiram a todo vapor, migrando para os consoles. No mesmo ano de 1994 em que foi lançada a versão arcade, saíram versões para Game Boy e Super Nintendo, produzidas pela Activision, no mesmo estilo do arcade, mas com história, fases e personagens diferentes, e afetados pelas limitações gráficas dos consoles em questão. Ainda em 1994 foi lançada uma versão para o Jaguar, o videogame de 32 bits da Atari. Diferentemente dos demais, este era um jogo de tiro em primeira pessoa, estilo Doom, produzido pela Midway (de Mortal Kombat), e onde o jogador podia escolher jogar como um alien, um predador ou um fuzileiro naval humano. O jogo não era lá essas coisas, mas acabou sendo considerado um dos melhores jogos do Jaguar, e dando a idéia para a versão PC, lançada em 1999 pela Sierra. Com gráficos de última geração, o jogo permitia mais uma vez que se escolhesse jogar como alien, predador ou humano, proporcionando experiências jamais vistas em jogos de tiro em primeira pessoa (o predador pode ficar invisível e ver em infravermelho, e o alien pode subir pelas paredes e ferir os oponentes com seu sangue ácido quando leva tiros, por exemplo). A versão PC de AvP acabou se tornando um grande sucesso, foi adaptada para MAC, e ganhou uma continuação ainda melhor em 2001, produzido pela Monolith, no mesmo estilo do anterior, mas onde cada um dos três personagens tinha um enredo próprio. Avp2 ainda ganhou um pacote de expansão (com mais fases) chamado Primal Hunt em 2002, e uma versão Gold, com ainda mais novidades, em 2003, para PC e MAC. No mesmo ano de 2003, a Electronic Arts lançou Aliens vs. Predator: Extinction, um jogo de estratégia (tipo Diablo) para Playstation2 e Xbox, e a Ubisoft lançou um no estilo ação, até parecido com o original dos arcades, para Game Boy Advance.

Além dos quadrinhos e jogos de videogame, a franquia AvP também ganhou um card game, produzido pela HarperPrism, e lançado em 1997. Neste jogo, você poderia escolher entre "interpretar" humanos, predadores ou aliens, sendo que cada raça tinha seu próprio deck para começar a jogar, e os boosters de expansão traziam cartas de todas as três. A expansão básica tinha 370 cartas, divididas em personagens, equipamentos, coadjuvantes, locais e eventos. Basicamente, cada jogador tinha um objetivo, e o primeiro a cumpri-lo ganharia o jogo, podendo atrapalhar os demais para que eles não conseguissem. O card game de AvP teve apenas uma expansão, Alien Resurrection, de 1998, que trouxe mais 112 cartas, baseadas nos filmes da série Alien. Uma nova expansão chamada Atmosphere, com 115 cartas baseadas nos filmes da série Predador, seria lançada em 1999, mas o jogo foi cancelado antes disso. Ainda assim, como muitas cartas foram impressas antes do cancelamento, algumas podem ser encontradas por quem quiser pagar uma fortuna em sites como o ebay.

AvsP em filmePois bem, quadrinhos, games, cards, só faltava mesmo um filme, que foi onde os dois personagens tiveram suas origens. E ele veio em 2004, dirigido por Paul W. S. Anderson (de Mortal Kombat e Resident Evil). No filme, uma estranha pirâmide é descoberta na Antártida pelas indústrias Weyland (que provavelmente se tornarão a corporação Weyland-Yutani da série Alien), e uma equipe de especialistas é enviada até lá para documentar esta importante descoberta arqueológica. A pirâmide, porém, é uma espécie de arena onde predadores em rito de passagem enfrentam aliens criados por uma rainha cativa, usando humanos que são atraídos até lá como hospedeiros. Evidentemente, a tal equipe de especialistas é quem terá esta função desta vez. Os pobres humanos, portanto, tem de escapar de se tornar hospedeiros de aliens e caça de predadores, enquanto as duas raças alienígenas se matam. Não é um roteiro digno de Oscar, mas é uma ótima diversão sem compromisso.

Finalmente, existe uma versão de AvP que não é oficial, mas que não pode deixar de ser citada: a webcomic Alien Loves Predator, onde um alien de nome Abe e um predador de nome Preston dividem um apartamento na cidade de Nova Iorque. Eles não se comportam como alienígenas assassinos, mas sim como novaiorquinos típicos, em uma verdadeira sitcom. Aliás, parece que ninguém repara que ambos não são humanos. ALP é feito com fotos de bonequinhos sobrepostas em paisagens reais da cidade. O resultado, assim como os diálogos dos personagens, é engraçadíssimo.

E assim chegamos ao final com uma conclusão: algumas idéias são tão esquisitas que acabam dando certo. AvP é uma delas. E ainda conta com uma curiosidade: nem "alien" nem "predador" são os nomes dos personagens, nem de suas raças, apenas adjetivos que os criadores dos filmes originais decidiram ligar a eles. Mas a essa altura ninguém mais se importa.
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domingo, 2 de abril de 2006

Escrito por em 2.4.06 com 0 comentários

Olimpíadas (II)

E hoje teremos mais um post sobre as Olimpíadas!

Saint Louis 1904


Ninguém pode dizer que o Barão de Coubertin era um homem que não planejava o futuro. Desde que Atenas fora escolhida como sede dos primeiros Jogos, ele decidira que sua segunda edição seria em Paris, e que a terceira, em 1904, seria em Chicago, já na época uma das maiores metrópoles dos Estados Unidos, cheia de instalações adequadas a uma boa realização de Olimpíada, como estádios, piscinas e hotéis, já que os norte-americanos sempre foram fanáticos por esportes. Infelizmente para o Barão, um imprevisto acabou mudando a Olimpíada de lugar, e contribuindo para que mais uma vez as coisas não saíssem como o esperado: estava prevista para ocorrer, em 1903, na Louisiana, uma feira de exposições para comemorar o centenário da compra do sul dos EUA, originalmente pertencente à França. Problemas de organização, porém, fizeram com que a feira fosse postergada para 1904. Ao saber que os Jogos Olímpicos ocorreriam em Chicago naquele mesmo ano, os organizadores ficaram melindrados, não querendo que sua feira disputasse atenções com um evento esportivo ainda tão jovem, e pediram ao COI que transferisse a sede dos Jogos para Saint Louis, no Missouri, a maior cidade da região na época, o que foi recusado por Coubertin. Sob pressão, os organizadores do evento em Chicago pediram ao COI que adiassem as Olimpíadas para 1905, o que Coubertin recusou novamente. Diante do impasse, Theodore Roosevelt, o Presidente dos EUA, decidiu que os jogos seriam em St. Louis e pronto, impedindo qualquer outra cidade de sediá-los. Coubertin, sentido, mandou informar que não compareceria ao evento, e nem mesmo uma carta pessoal do próprio Roosevelt conseguiu dissuadi-lo a deixar a França e ir assistir ao evento.

Somando toda essa confusão ao fato de que em 1904 não existia avião, não era difícil prever que o evento não seria exatamente um sucesso. Mais uma vez os esportes foram disputados em locais impróprios, paralelamente a exposições, eventos circenses e palestras que nada tinham a ver com os Jogos, e se arrastando por um período de quatro meses e meio, entre 1o de julho e 23 de novembro. Os organizadores tinham a ambição de realizar uma "prova olímpica" por dia, e muitas dessas sequer foram consideradas parte das Olimpíadas pelo COI ao final da competição. De fato, ao comparar com os já confusos Jogos de 1900, os de 1904 foram até um retrocesso: participaram apenas 625 atletas, pouco mais da metade dos que competiram em Paris, sendo que 533 eram norte-americanos, 41 canadenses, e os outros 51 representavam outras 10 nações. De todos estes, apenas 6 eram mulheres.

O programa oficial, somente divulgado após o encerramento, listou mais uma vez 94 provas, mas apenas 17 esportes: atletismo, boxe, cabo de guerra, ciclismo, esgrima, futebol, ginástica artística, golfe, lacrosse, levantamento de peso, luta olímpica, natação, remo, roque, saltos ornamentais, tênis e tiro com arco (clique aqui para ver todas as provas do programa). Devido ao baixo número de estrangeiros, em 44 das 86 modalidades absolutamente todos os competidores eram norte-americanos. Isto fez com que os Estados Unidos ganhassem 214 das 255 medalhas possíveis - e poderiam ter sido mais, já que as medalhas do basquete, beisebol, futebol americano, futebol gaélico, hurling e polo aquático não foram sancionadas pelo COI exatamente porque todos os times competindo nestes esportes eram norte-americanos.

Em meio a tanta desordem, os organizadores pelo menos tiveram algumas boas idéias. Para começar, em St. Louis se iniciou o costume de conferir medalhas de ouro ao primeiro colocado, de prata ao segundo, e de bronze ao terceiro. Alguns anos depois, o COI reformularia todas as suas tabelas de resultados, listando os terceiros colocados de 1896 e 1900 também como medalhistas. Em 1904 também fez sua estréia o Decatlo, um conjunto de dez provas de atletismo então realizadas no mesmo dia, até hoje uma das provas mais emocionantes e mais cultuadas pelos fãs. O norte-americano George Poage se tornou o primeiro negro a ganhar uma medalha, de bronze, nos 400 metros com barreiras. Outro norte-americano, George Eyser, ganhou seis ouros na ginástica, mesmo tendo uma prótese de madeira no lugar da perna direita. E o alemão Emil Rausch ganhou três ouros na natação, mesmo sendo as provas disputadas em um tanque lamacento que continha até sapos. Rausch poderia ter ganho mais uma medalha, se sua equipe de revezamento não tivesse sido impedida de participar pelos organizadores, que, temendo a derrota da equipe norte-americana, inventaram que somente nadadores sócios de clubes dos EUA podiam participar.

O escândalo da vez, adivinhem, aconteceu na Maratona. O trajeto passava por sete colinas - ou seja, tinha pelo menos sete trechos em subida - e 30 de seus 40 Km eram em uma estrada de terra que os carros e carroças dos jornalistas e fiscais transformaram em uma verdadeira tempestade de areia para os corredores do primeiro pelotão. Fazia 32 graus, e o único ponto onde os corredores poderiam beber água seria em um poço, já na parte final do trajeto. Dos 42 atletas que largaram somente 14 completaram a prova. Merecem menções honrosas o sul-africano Len Tau, que foi atacado por um cachorro raivoso, tendo que se desviar do percurso para fugir, e mesmo assim chegou em nono lugar; e o cubano Félix Carvajal, que, faminto, parou para colher maçãs em um pomar. As maçãs estavam verdes e Carvajal teve cólicas horríveis, mas mesmo assim chegou em quarto.

Após quase três horas e meia de prova, despontou no Estádio Olímpico o desconhecido norte-americano Fred Lorz. Saudado como campeão, Lorz posou para fotos ao lado da filha do Presidente, e já estava recebendo sua medalha de ouro quando foi desmascarado: Na altura do km 15, Lorz viu uma carroça de feno que passava, subiu na garupa e, escondido, foi até o km 32, onde saltou e completou a prova correndo. O dono da carroça, porém, percebeu quando ele saltou, e, ao vê-lo aclamado como vencedor da prova, o denunciou. Pressionado, Lorz confessou o crime, e foi banido do esporte por um ano.

O verdadeiro vencedor, porém, não fez mais bonito. Thomas Hicks, um inglês naturalizado norte-americano, iria desistir da prova na altura do km 25, mas seu treinador, que o acompanhava, o dopou com comprimidos de estricnina e doses de conhaque. Hicks cruzou a linha de chegada completamente bêbado e cinco quilos mais magro, e foi levado direto para o hospital, antes mesmo de receber a medalha, onde quase faleceu, e decidiu que jamais correria uma Maratona novamente. Apesar da falcatrua ter sido vista por várias testemunhas, e de todos os protestos, Hicks não foi desclassificado, e é até hoje tido como o vencedor.

Mas a maior vergonha dos jogos de 1904 veio de uma "americanada" dos organizadores: querendo demonstrar sua benevolência e grandiosidade, pagaram todas as despesas de viagem e hospedagem de índios e negros dos mais remotos cantos do mundo, como a Patagônia e o interior da África, e os reuniu em uma paródia de Olimpíada, a qual chamaram Jogos Antropológicos. Como estes "atletas" mal sabiam o que fazer com uma bola ou dardo, freqüentemente se atrapalhavam diante das platéias, que iam às gargalhadas. Muitos dos presentes à feira preferia humilhar os "selvagens" a ver os norte-americanos ganharem medalhas. Revoltado ao tomar conhecimento de tal escárnio, o Barão de Coubertin escreveu uma carta aos organizadores, condenando seu "sensacionalismo tipicamente norte-americano", e ainda profetizou que "o negro, o vermelho e o amarelo ainda aprenderão a correr, a saltar e a arremessar muito melhor do que o branco".

Os Jogos de 1904, assim como os de 1900, também não tiveram cerimônias de abertura ou encerramento: tão de repente como começaram, acabaram. Mais do que isso, praticamente não foram noticiados nos jornais do mundo, muito mais preocupados com uma sangrenta guerra entre Rússia e Japão.

Atenas 1906


1906 foi o único ano até hoje - cem anos depois - em que foi realizada uma Olimpíada não-oficial. Em outras palavras, o COI não reconhece este evento como uma Olimpíada, não reconhece seus medalhistas como medalhistas olímpicos, e jamais reconheceu os recordes nele estabelecidos como recordes olímpicos. Além disso, os Jogos de 1906 não entram na "contagem", segundo a qual os de 1904 são o III e os de 1908 são o IV. Para o COI, a terminologia correta para o evento é "Jogos Intercalados", um evento esportivo mundial qualquer sem relação com os Jogos Olímpicos. Mas o mais curioso é que, quando foram planejados, eles seriam oficiais.

Tudo começou lá em 1896, quando a Primeira Olimpíada da Era Moderna acabou, e o Rei Jorge I da Grécia manifestou seu desejo de que os Jogos fossem realizados sempre em seu país, de quatro em quatro anos. Como o Barão de Coubertin queria que a sede se alternasse, para fazer dos Jogos um evento mundial, e desejava que os Jogos seguintes fossem em Paris, pois ele era francês, a idéia foi descartada. Muitos dos membros do COI, porém, gostaram dela. Afinal, as instalações já estavam prontas, e os gregos se mostraram capazes de realizar uma competição de alto nível.

A vontade de dar aos gregos uma segunda Olimpíada o mais rápido possível ficou ainda mais forte depois da confusão que se estabeleceu nos jogos de 1900, muito pior organizados que os de 1896. No congresso seguinte do COI, em 1901, foi proposta uma solução alternativa: ao invés de realizar os Jogos Olímpicos sempre na Grécia, seria criada uma nova categoria de Jogos, que aconteceria sempre nos anos pares em que não houvesse Olimpíada - daí o nome Jogos Intercalados. Desta forma, os Jogos Olímpicos seriam em diferentes sedes ao redor do mundo, os Jogos Intercalados seriam sempre em Atenas, e todo mundo ficaria feliz. Como 1902 já estava muito em cima, os preparativos começaram para que os Primeiros Jogos Intercalados acontecessem em 1906, ano que marcava os dez anos da realização dos Jogos de 1896.

O Barão de Coubertin, porém, era contra estes Jogos, pois eles não respeitariam a tradição de Jogos a cada quatro anos, como era na antiguidade. Mas um novo fracasso dos Jogos em 1904, onde ocorreu aquilo tudo o que você pode ler aí em cima, foi determinante para que o COI passasse por cima da vontade do Barão e desse total apoio aos gregos. Os Jogos Olímpicos já estavam com uma imagem bastante arranhada, para os atletas que não puderam ir St. Louis os jogos de 1908 representariam um cruel intervalo de 8 anos em suas pretensões olímpicas, e, ainda por cima, Roma, que seria sede dos Jogos de 1908, já planejava uma feira mundial simultânea, o que trazia o temor de que as confusões se repetiriam. Neste cenário, era preciso uma edição muito bem organizada e de grande sucesso dos Jogos o mais rápido possível.

Para a felicidade dos fãs de esporte e orgulho dos gregos, foi exatamente o que aconteceu. Os Jogos de 1906 barraram com sobras seus antecessores de 1900 e 1904 em termos de organização e competência, e até mesmo os de 1896 e 1908 em termos de popularidade. Esta foi a primeira edição dos Jogos em que a inscrição dos atletas foi feita pelos Comitês Olímpicos de cada país, e não de forma individual, o que contribuiu para a seriedade e organização das provas. Também foi a primeira edição em que a Cerimônia de Abertura ocorreu em um dia reservado só para ela, com direito a desfile das delegações, com a Grécia em primeiro, cada delegação trazendo à frente sua bandeira. Pela primeira vez, as bandeiras dos três primeiros colocados eram içadas ao som do hino da nação do campeão enquanto as medalhas eram entregues. Estas três inovações só seriam adotadas pelo COI em Olimpíadas oficiais a partir de 1912, junto com muitas outras modificações pequenas demais para entrar para a história, mas que se iniciaram em 1906 e persistem até hoje.

Mais do que tudo isso, os Jogos de 1906 foram curtos, de 22 de abril a 2 de maio, o que manteve o interesse da platéia sempre em alta, e os estádios sempre lotados. Participaram dos Jogos 903 atletas, sendo 20 mulheres, representando um total de 20 nações em 81 provas de 13 esportes: atletismo, cabo de guerra, ciclismo, esgrima, futebol, ginástica artística, levantamento de peso, luta olímpica, natação, remo, saltos ornamentais, tênis e tiro esportivo (clique aqui para ver todas as provas do programa). Como não existem registros oficiais do COI, fica difícil determinar quais teriam sido os maiores destaques, mas entraram para a história a vitória nos 400m e 800m do norte-americano Paul Pilgrim, fato que só seria igualado em Olimpíada em 1976; e uma Maratona finalmente livre de bagunça, vencida pelo canadense Billy Sherring, que foi acompanhado pelo Príncipe Jorge, filho do Rei Jorge I, da entrada do estádio até a linha de chegada.

Apesar de tanto sucesso, a idéia dos Jogos Intercalados não vingou. Problemas com suas fronteiras nos Balcãs impediram que os gregos conseguissem os fundos necessários para realizar os jogos de 1910. Além disso, enquanto os atletas tiveram praticamente 6 anos para se preparam para os jogos de 1906, o intervalo de dois anos entre 1908 e 1910 foi considerado muito curto, e poucos foram os que demonstraram interesse em participar. Devido a estes problemas, o comitê organizador cancelou os Jogos de 1910, e começou a planejar os de 1914, que já não contavam mais com apoio integral do COI, que preferiu concentrar seus esforços nos Jogos oficiais de 1912. Aí veio a Primeira Guerra Mundial, 1906 foi ficando cada vez mais longe, e a idéia dos Jogos Intercalados, de tanta força que perdeu, foi abandonada.

Como os jogos de 1906 acabaram sendo uma exceção, em 1920 o Comitê Executivo do COI optou por não considerá-los como oficiais, preferindo classificá-los como uma comemoração pelo 10o aniversário dos Jogos de 1896. Porém, a inegável importância dos Jogos de 1906 para a própria existência das Olimpíadas - que talvez tivesse acabado depois de 1908 se não fosse esta edição extemporânea - leva muitos entusiastas a considerá-los como verdadeiros Jogos Olímpicos, e existem até algumas organizações desportivas que lutam para que o COI os reconheça como tal. Até hoje, infelizmente, sem sucesso.

Série Olimpíadas

Saint Louis 1904
Atenas 1906

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