domingo, 27 de agosto de 2006

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Olimpíadas (X)

E, graças a uma falta de tempo, hoje teremos mais um post sobre as Olimpíadas, que já estava pronto.

Oslo 1952


Apenas três cidades se inscreveram como candidatas a sede dos Jogos de Inverno de 1952: Cortina d'Ampezzo, Itália, que iria realizar os cancelados Jogos de 1944; Lake Placid, Estados Unidos, que já havia realizado os Jogos de 1932; e Oslo, capital da Noruega. Os integrantes do COI decidiram entregar os Jogos a Oslo, a primeira capital a sediar uma Olimpíada da Inverno, pois a Noruega era o berço do esqui, o esporte mais importante da competição. Para comemorar, o comitê organizador preparou uma surpresa: pela primeira vez, os Jogos de Inverno contariam com o revezamento da Tocha Olímpica, que na Cerimônia de Abertura acenderia uma belíssima pira no Bislett Stadion, o mais tradicional rinque de patinação em velocidade da Noruega. A surpresa ficou por conta de um detalhe especial: ao invés de ser acesa em Olímpia, a Tocha dos Jogos de Inverno recebeu seu fogo na lareira da casa onde nasceu Sondre Nordheim, o pioneiro do esqui esportivo, na cidade de Morgedal. A Tocha foi transportada por 94 esquiadores até Oslo, onde foi entregue a Eigil Nansen, neto de Fridtjod Nansen, um dos primeiros homens a explorar o Pólo Norte. Eigil teve a honra de acender a pira, que queimou com o legítimo fogo norueguês até o final do evento.

Os Jogos se desenrolaram entre 14 e 25 de fevereiro. Deles participaram 694 atletas, sendo 109 mulheres, representando 30 nações em 22 provas de 8 esportes: bobsleding, combinado nórdico, esqui alpino, esqui cross country, hóquei no gelo, patinação artística no gelo, patinação no gelo em velocidade e saltos com esqui. O bandy, um esporte semelhante ao hóquei no gelo, muito popular na Escandinávia, foi o esporte de demonstração (clique aqui para ver todas as provas do programa). O combinado do esqui alpino foi substituído pelo slalom gigante, e pela primeira vez nos Jogos de Inverno as mulheres puderam participar do esqui cross country, com a prova dos 10 km, onde a vencedora foi a finlandesa Lydia Wideman.

Falando nas mulheres, o maior destaque de 1952 foi a norte-americana Andrea Mead-Lawrence, de apenas 19 anos, vencedora no slalom e no slalom gigante; mas outra mulher também entrou para a História, e sem sequer ser atleta: Ragnhild Alexandra, Princesa da Noruega, a primeira mulher a presidir a Cerimônia de Abertura e declarar abertos os Jogos Olímpicos. Depois dela, ainda se passariam 24 anos até a Rainha Elizabeth II abrir os Jogos de 1976.

Como era de se esperar, os donos da casa fizeram bonito, ganhando sete medalhas de ouro, três delas com Hjalmar Andersen, o primeiro atleta a vencer três provas da patinação em velocidade em uma mesma edição dos Jogos. Andersen conquistou o ouro nos 1.500 metros, nos 5.000 metros e nos 10.000 metros, sendo que nesta duas últimas provas sua vantagem para o segundo colocado é até hoje a maior da História. Outro norueguês campeão com honras foi Stein Eriksen, o primeiro a vencer no esqui alpino sem ser de um país cortado pelos alpes. Eriksen venceu o slalom gigante por quase dois segundos de vantagem, e no dia seguinte ainda conseguiu uma prata no slalom.

Mas o maior destaque dos Jogos foi o patinador norte-americano Dick Button. Na patinação artística no gelo, ele estava fazendo uma série perfeita, e com certeza iria ganhar o ouro. Apesar disso, Button tentou um movimento inédito, inovador e perigoso: um loop triplo, algo sequer ainda tentado por outros patinadores em competições oficiais. Button não somente conseguiu executar o salto, como também conseguiu um pouso perfeito, arrancando as notas máximas de todos os jurados.

Para terminar, ganha um doce quem adivinhar para quem foi o ouro do hóquei no gelo. Isso mesmo, para o Canadá, que conseguiu seu quinto título, chegando à impressionante marca de 37 vitórias, 3 empates e apenas uma derrota, marcando 403 gols e sofrendo apenas 34. Acreditem ou não, este seria o último ouro do Canadá no hóquei no gelo pelos próximos 50 anos: a partir dos próximos Jogos, começaria o reinado da União Soviética.

Helsinque 1952


Logo após assumir a presidência do COI, o sueco Sigfrid Edström começou uma luta para não deixar o espírito olímpico morrer em decorrência da guerra. Seus primeiros atos foram premiar as cidades de Sankt Moritz e Londres com os Jogos de Inverno e Verão de 1948, respectivamente. Logo depois, ele marcou uma reunião do COI para 1947, na qual seria discutida, dentre outras coisas, a escolha da sede dos Jogos de 1952. Para alegria de Edström, apesar dos Jogos de 1948 nem sequer terem sido realizados ainda, nada menos que dez cidades se candidataram ao posto, sendo cinco só dos Estados Unidos. Acabou vencendo a votação Helsinque, capital da Finlândia, anteriormente escolhida para sediar os cancelados Jogos de 1940 após a desistência do Japão.

Helsinque se mostrou uma escolha mais do que acertada: as instalações, a maioria já pronta desde antes da Guerra, eram do mais alto grau de profissionalismo, confortáveis tanto para os espectadores quanto para os atletas. A organização foi impecável, inclusive no atendimento aos turistas e jornalistas. De fato, do ponto de vista do conforto, atendimento aos requisitos do COI para as competições, e organização, estes foram considerados os melhores Jogos da História, tanto que, para alguns por um milagre, não aconteceu um único problema que comprometesse sua imagem. Nenhum escândalo. Nenhum erro dos fiscais. Nenhuma confusão na platéia. Nada. Foram Jogos tão perfeitos que alguns jornalistas, inclusive com o apoio de alguns membros do COI, chegaram a propor que todos os Jogos a partir de então fossem realizados em algum dos países nórdicos.

Ainda assim, o maior destaque de 1952 não nem foi a Finlândia, nem nenhum de seus vizinhos. Todos os olhos estavam voltados para a União Soviética, que, após anos de isolacionismo, em 1951 finalmente pediu sua filiação ao COI, e autorização para participar dos Jogos de 1952. Muitos dos países ocidentais imediatamente se manifestaram contra, sob o argumento de que a União Soviética não somente era uma ditadura militarista comandada pelo impiedoso Stalin, mas também iria fazer de tudo para levar a disputa ideológica entre o comunismo e o capitalismo para os Jogos, subvertendo sua finalidade, com conseqüências que poderiam ser fatais. Menos exagerado, Edström, que já havia passado a casa dos oitenta anos, resistiu, e deu uma resposta que hoje pode ser considerada um modelo do ideal olímpico: os comunistas iriam participar sim, e os capitalistas, se quisessem, que dessem a resposta vencendo-os nos esportes, pois os Jogos nada têm a ver com conflitos entre nações. Hoje, há quem diga que Edström cometeu um equívoco, pois praticamente todas as Olimpíadas de 1952 a 1988 foram verdadeiras guerras entre o comunismo e o capitalismo, cada lado querendo provar sua superioridade - e, para muitos, os comunistas somente conseguindo devido a meios escusos como o amadorismo de fachada, onde os atletas recebiam secretamente dinheiro do governo para não precisar trabalhar, podendo se dedicar inteiramente ao esporte. Por outro lado, também não há de se dizer que o Presidente do COI estivesse errado: com a disputa entre comunistas e capitalistas restrita ao esporte, o comunismo encontrou uma nova forma de demonstrar sua superioridade. Muitos afirmam que, tivessem sido os comunistas proibidos de participar dos Jogos, poderiam querer provar sua força por meios militares, e talvez tivéssemos uma Terceira Guerra Mundial ainda na década de 50.

Hipóteses à parte, após encaminhar os Jogos de 1952, Edström, considerando sua missão cumprida, se demitiu do cargo de presidente do COI. Dias antes da Olimpíada começar, ocupou seu lugar Avery Brundage, o norte-americano cujo currículo incluía a perseguição a Jim Thorpe desde 1912 e o apoio à Alemanha nazista em 1936. Pelas novas regras do COI, Brundage seria presidente até 1972, ou até renunciar. Racista assumido, simpatizante do nazismo, e radical defensor do amadorismo, durante vinte anos ele acabou prejudicando seus próprios compatriotas, investigando cada denúncia de profissionalismo com rigor extremo, enquanto aceitava sem questionar os inúmeros atletas comunistas que possuíam patentes militares sem sequer terem pisado em um quartel. Brundage em alguns momentos era tão contraditório que aceitou a participação no evento da Alemanha Ocidental, mas proibiu a da Alemanha Oriental. O Japão, após o castigo de 1948, retornou à competição, e a China, recém-filiada ao COI, foi convidada, mas se recusou a participar devido a uma picuinha com a União Soviética.

Aliás, quem está achando que os soviéticos foram os personagens principais do evento só por causa de sua controvertida aceitação pelo COI, ainda não viu nada. Dias antes do início das competições, o Comitê Olímpico soviético teve uma idéia inusitada: já que seu país fazia fronteira com a Finlândia, seus atletas não ficariam na Vila Olímpica, mas sim em suas casas, clubes e quartéis. No dia de cada competição, iriam de avião ou trem até o país vizinho, competiriam, e depois voltariam para a União Soviética. O COI, evidentemente, considerou isso um absurdo, e não permitiu, exigindo que os atletas soviéticos permanecessem concentrados para a competição em território finlandês, assim como haviam feito todos os atletas de todos os países em todas as edições dos Jogos antes desta. A URSS aceitou, mas, ao invés de enviar seus atletas para a Vila Olímpica, construiu sua própria Vila, em Otaniemi, a 8 Km de Helsinque, vigiada por guardas armados para impedir a fuga de atletas para o capitalismo, e onde um enorme painel mostrava, dia a dia, uma comparação entre o desempenho dos atletas soviéticos e norte-americanos - este painel, inclusive, era manipulado, omitindo alguns resultados dos EUA, para que a URSS estivesse sempre ganhando; somente no último dia da competição, quando já não havia mais necessidade de motivar seus atletas, os resultados omitidos foram acrescentados e os Estados Unidos "venceram". Os atletas da Hungria e da Tchecoslováquia, atraídos pela vodca e caviar, decidiram ficar na Vila Olímpica soviética. Os atletas das demais nações foram hospedados na confortável e descontraída Vila Olímpica oficial, a apenas 2 Km do Estádio Olímpico, exceto as moças, hospedadas em uma escola de enfermagem a dez minutos a pé do estádio.

Os Jogos de 1952 foram realizados entre 19 de julho e 3 de agosto, e contaram com 4.925 atletas, sendo 518 mulheres, que representaram 69 nações em 149 provas de 19 esportes: atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, equitação, esgrima, futebol, ginástica artística, hóquei, levantamento de peso, luta olímpica, natação, pentatlo moderno, polo aquático, remo, saltos ornamentais, tiro esportivo e vela. Dois outros esportes foram incluídos como de demonstração, o handebol de campo e o pesäpallo, esporte finlandês parecido com o beisebol (clique aqui para ver todas as provas do programa). A cerimônia de abertura, no moderno Estádio Olímpico, foi emocionante e, de certa forma, divertida. Após os desfiles das delegações e os habituais discursos, houve uma revoada de quatro mil pombas. De repente, uma jovem loira e muito bonita, em trajes brancos esvoaçantes, pôs-se a correr pela pista em direção ao microfone. Os 60 mil espectadores imaginaram tratar-se de algum procedimento da festa, mas era uma penetra. Detida pela polícia, ela se identificou como uma estudante alemã que apenas queria discursar elogiando os Jogos e pedindo a paz definitiva entre as nações participantes. Se isto era verdade, até hoje ninguém sabe, mas logo após entrou no estádio o vitorioso atleta Paavo Nurmi, aos 52 anos de idade, carregando a Tocha Olímpica, e com ela acendeu uma pira. Após acender a pira, ele entregou a Tocha a outro atleta igualmente vitorioso, Hannes Kohlemainen, 62 anos, que a utilizou para acender uma segunda pira, a 72,71 metros de altura, a mesma distância com a qual Matti Jaervinen ganhou o ouro no lançamento do dardo em 1932, recorde olímpico da época.

O atletismo é o esporte nacional da Finlândia, mas em casa, infelizmente, eles não conseguiriam nenhum ouro, se limitando a um bronze no lançamento do dardo com Toivo Hyytiaeinen. Do atletismo, porém, saiu uma medalha de ouro para o Brasil, 32 anos após seu primeiro e único triunfo, graças a Adhemar Ferreira da Silva, então com 25 anos, no salto triplo. Adhemar já havia competido em 1948, mas sem chances de medalhas. Treinando forte, porém, em 1950 igualaria o recorde mundial, quebrando-o um ano depois, e iniciando uma seqüência invejável de 40 vitórias seguidas até 1956, quebrando o recorde mundial mais três vezes. Somente durante seus saltos em busca do ouro em 1952, Adhemar quebraria o recorde olímpico quatro vezes e o mundial mais duas, terminando 24 cm à frente do segundo colocado, o soviético Leonid Sherbakov. O bronze foi para o venezuelano Arnoldo Devonish, a primeira medalha olímpica da história da Venezuela.

Além do ouro de Adhemar, o Brasil ainda ganharia um bronze com José Telles da Conceição no salto em altura, e outro com Tetsuo Okamoto nos 1.500 metros livre da natação. Liderada por Sylvio de Magalhães Padilha, que competiu nos Jogos de 1936, e agora era presidente do COB, a delegação brasileira pela primeira vez priorizou os atletas, ao invés de usar seu dinheiro para levar dirigentes e cartolas para passear. O resultado se viu em campo: além das três medalhas, o país ainda ficou entre os oito melhores em dezesseis outras competições, destaque para o quarto lugar de Ary Façanha de Sá no salto em distância, a apenas 7 cm do bronze. No concurso completo da equitação, o Brasil ficou com o quarto lugar na disputa por equipes, e Eloy Massey de Oliveira Menezes, no individual, empatou em primeiro lugar com outros cinco conjuntos, perdendo a medalha no desempate. Wolfgang Richter, Peter Mangels e Francisco Isoldi conseguiram um sétimo lugar entre 17 na classe Dragon da vela, mesmo competindo com um barco emprestado. No tiro, modalidade carabina, atirador deitado, Severino Moreira ficou a dois acertos do recorde mundial, mas não ganhou medalha porque dois outros atletas conseguiram este recorde, e três outros acertaram um a mais que ele. O futebol, com um time de juvenis que contava com os futuros campeões de 1958 Vavá e Zózimo, ficou com o quinto lugar, mesma colocação do basquete, que deu azar ao cair, já na segunda fase, no mesmo grupo de Estados Unidos e União Soviética.

Dois campeões de 1948 defenderam com honras seus títulos em 1952: o norte-americano Bob Mathias, primeiro atleta a vencer o decatlo em duas Olimpíadas seguidas; e o tchecoslovaco Emil Zatopek, que se tornou o único homem até hoje a vencer os 5.000 metros, os 10.000 metros e a maratona em uma mesma Olimpíada, inclusive quebrando o recorde olímpico nas três provas. De 1948 a 1954, Zatopek ganharia 38 provas seguidas dos 10.000 metros, e, na década de 60, quando o australiano Ron Clarke se tornou o primeiro homem a correr 10.000 metros em menos de 28 minutos, em uma demonstração de espírito olímpico, Zatopek lhe deu a medalha de ouro que havia ganhado em 1952. Ao ser perguntado o porquê da ação, respondeu: "Clarke foi um atleta incrível, que jamais teve a sorte de ganhar um ouro olímpico. Ele merece a medalha. Eu não necessito mais dela".

Os destaques femininos começam justamente pela mulher de Zatopek, Dana Zatopekova, que, no mesmo dia em que seu marido ganhava o ouro dos 5.000 metros, abiscoitava o ouro no arremesso do dardo, quebrando o recorde olímpico e vencendo a prova já em sua primeira tentativa, entrando para a História como a primeira vez em que marido e mulher ganhariam ouro não só na mesma Olimpíada, mas no mesmo dia. Infelizmente, Zatopekova não conseguiu manter seu desempenho nas competições futuras. Na mesma prova, a soviética Aleksandra Chudina ganharia a prata, medalha que também conquistaria no salto em distância, além de um bronze no salto em altura, um brilhante desempenho. Igualmente brilhante foi a apresentação das meninas soviéticas na ginástica, ganhando o ouro por equipes, o primeiro de sete seguidos, apenas interrompidos por sua ausência em 1984. A primeira medalha olímpica da história da URSS também foi conquistada por uma mulher, Nina Romashkova, no arremesso do disco. Também merecem destaque a australiana Marjorie Jackson, ouro nos 100 metros e nos 200 metros rasos, que entre 1950 e 1954 quebraria nove recordes mundiais, e a musa dos jogos, a charmosa norte-americana Pat McCormick, ouro tanto no trampolim quanto na plataforma nos saltos ornamentais.

Pela primeira vez, foi permitido que civis competissem no pentatlo moderno e na equitação. Mais que isso, na equitação as mulheres puderam competir junto aos homens. Graças a estas duas mudanças, a dinamarquesa Lis Hartel, 31 anos, pôde ganhar uma medalha de prata. Atacada pela poliomielite, paralisada dos joelhos para baixo, Hartel desenvolveu uma técnica única, no qual seus pés eram amarrados nos estribos, e ela controlava seu cavalo Jubilee através de toques dos joelhos. Se o sueco Henri Saint Cyr e seu cavalo Master Rufus não estivessem em uma tarde especialmente inspirada, talvez Hartel tivesse ganhado o ouro. Outro sueco, o carpinteiro Lars Hall, entrou para a História como o primeiro campeão civil do pentatlo moderno.

Um dos acontecimentos mais inusitados de 1952 ocorreu na prova dos 100 metros rasos masculina: quatro competidores, o jamaicano Herbert McKenley, o britânico McDonald Bailey, e os norte-americanos Dean Smith e Lindy Remigino, cruzaram a linha de chegada absolutamente juntos. Incapazes de determinar o vencedor, os fiscais recorreram à cronometragem, que registrava o mesmo tempo para os quatro. No fotochart, todos os quatro estavam juntinhos, impossível saber quem teria cruzado primeiro. A solução foi estudar várias fotos e filmes da corrida, e analisar a foto da chegada com lupas e esquadros. Após uma longa reunião, os fiscais deram a vitória ao menos cotado dos quatro, o norte-americano Remigino. Nem mesmo ele acreditou, dizendo, na entrevista, que tinha certeza de ter perdido, por ter visto McKenley ter passado por ele. McKenley recorreu, mas uma análise com uma lupa ainda mais grossa manteve a vitória do norte-americano. Apesar da revolta do jamaicano, anos mais tarde uma análise da foto feita por computador confirmaria o resultado: o ombro direito de Remigino atingiu a linha de chegada dois centímetros à frente do peito de McKenley.

Por fim, não se pode falar dos Jogos de 1952 sem mencionar o time de futebol da Hungria, talvez o mais vitorioso da história do esporte. Dispostos a montar uma seleção capaz de vencer o ouro olímpico em 1952 e a Copa do Mundo de 1954, os húngaros não pouparam esforços, viajando por todo o país atrás de talentos, selecionando atletas amadores, para que nada pudesse impedir sua inscrição nos Jogos. Uma vez que o time estava pronto, todos foram devidamente alistados no exército, para que seus salários não constituíssem profissionalismo, e intensos treinamentos começaram.

Falsos amadores ou não, ninguém pode negar que os jogadores húngaros tinham um enorme talento. Ferenc Puskas, Sandor Kocsis, Joszef Bosik, Nandor Hidegkuti, todos estes são hoje nomes de respeito na galeria do futebol. Entre 1949 e 1954 a Hungria conseguiu a proeza de ficar cinco anos inteiros sem sofrer uma única derrota. Nos Jogos, arrasou a Romênia, a Itália, a Turquia e a Suécia, até ganhar o ouro diante da Iugoslávia, esta sim uma equipe amadora de fachada, onde os jogadores já eram destaque no futebol europeu.

A Hungria ainda continuaria a encantar o mundo até a final da Copa de 1954, na Suíça, quando, injustamente ou não, perdeu para a Alemanha Ocidental. Em 1956, a União Soviética invadiria a Hungria, o que faria com que os principais jogadores do time fugissem para a Espanha, se naturalizando. Puskas ainda conseguiria algum destaque jogando pela Espanha, e a Hungria ainda ganharia o ouro olímpico em 1964 e 1968, mas time como aquele, em toda a história do país, jamais voltaria a existir.

Série Olimpíadas

Oslo 1952
Helsinque 1952

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terça-feira, 22 de agosto de 2006

Escrito por em 22.8.06 com 0 comentários

Aniversário da Tori Amos (IV)

Hoje é um dia muito especial, quando se celebra o aniversário de 43 anos de Tori Amos! Como tradicionalmente acontece aqui no átomo, esta semana o post consistirá de uma foto e uma letra de uma de suas músicas. Parabéns, Tori, muitos anos de vida!



Sweet the Sting
Letra e música: Tori Amos

With a strut into the room
With his hat cocked sure defiantly
He said "I, I have heard
That you can play the way I like it to be played"
I said, "I can play, anyway that you want
But first I want, I want to know

Baby is it sweet sweet
Sweet the sting?
Is it real this infusion?
Can it heal where others before have failed?
If so could somebody
Shake shake shake me sane
'Cause I am inching ever closer to the tip of this scorpion's tail"

He said "I laid my weapons
down with my pistol
Fully loaded, a hunted man
To my root, will it end
Or begin in your cinnabar juice?

Is it sweet sweet
Sweet the sting?
Is it real your infusion?
Can it heal where others before have failed?
If so could somebody
Shake shake shake me sane
'Cause I am inching ever closer to the tip of this scorpion's tail"

Love let me breathe
Breathe you in
Melt the confusion
Until there is
There is u-union

Is it sweet sweet
Sweet the sting?
Is it real your infusion?
Can it heal where others before have failed?
If so could somebody
Shake shake shake me sane
'Cause I am inching ever closer to the tip of this scorpion's tail
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domingo, 13 de agosto de 2006

Escrito por em 13.8.06 com 0 comentários

Olimpíadas (IX)

E vamos a mais um post sobre as Olimpíadas!

1940-1944


A bem da verdade, até Hitler invadir a Tchecoslováquia, em 1939, ninguém imaginava que suas ações pudessem dar início à Segunda Guerra Mundial. Nada mais natural, então, que o COI tocasse sua vida, decidindo em suas reuniões as sedes dos Jogos de 1940 e 1944. Quando a Guerra se tornou uma realidade, e era impossível disputar um torneio esportivo em meio a tiros e bombardeios, Henri de Baillet-Latour não viu outra saída senão cancelá-los. Felizmente, seria um cancelamento temporário, pois as Olimpíadas voltariam com sua força total em 1948.

A primeira sede escolhida para os Jogos de 1940 foi Tóquio, capital do Japão, na reunião do COI de 1935. Em seu direito de apresentar a sede para os Jogos de Inverno, o Japão indicou a cidade de Sapporo. Tóquio e Sapporo, porém, teriam de esperar mais um pouco para organizar suas Olimpíadas: em 1937 se iniciou uma guerra entre o Japão e a China, e em 1938 os japoneses anunciaram que não teriam condições de organizar os Jogos. Os Jogos de Verão então passaram para Helsinque, capital da Finlândia, segunda colocada na votação que elegeu Tóquio. Os de Inverno, excepcionalmente, seriam realizados em Sankt Moritz, sede da segunda edição do evento, para que a Finlândia não tivesse de construir ou reformar instalações para dois Jogos em tão pouco tempo. As discordâncias entre o comitê organizador suíço e o COI no tocante à inclusão do esqui alpino e à possibilidade de participação dos instrutores de esqui acabaram fazendo com que St. Moritz desistisse do evento durante a reunião do COI de 1939. Às vésperas dos novos Jogos, o COI decidiu reprisar a sede anterior, fazendo com que os Jogos de 1940 também acontecessem em Garmish-Partenkirchen. Três meses depois, a Segunda Guerra começaria, e os Jogos de 1940 não aconteceriam em lugar nenhum.

Os Jogos de 1940 foram cancelados, mas o COI ainda tinha esperanças de que a guerra seria breve, e manteve as sedes para os Jogos de 1944, escolhidas durante a reunião do COI de 1939. Naquela ocasião Londres foi a vencedora para abrigar os Jogos de Verão. Tendo a Grã-Bretanha aberto mão de seu direito de escolher a sede de Inverno, uma nova votação foi feita, e a vencedora foi Cortina d'Ampezzo, na Itália. Como em 1944 a Guerra ainda não havia acabado, o COI optou por também cancelar esta edição dos Jogos, e marcar a próxima para 1948, sem, entretanto, escolher suas sedes. Este cancelamento foi motivo de grande tristeza para os membros do Comitê, pois em 1944 o COI completaria 50 anos, e comemorações especiais estavam previstas para ocorrer durante os Jogos. Para não passar em branco, mesmo durante a Guerra, várias conferências e palestras foram ministradas na sede do COI, em Lausanne, Suíça.

Infelizmente, não foi Baillet-Latour quem presidiu estas comemorações. Fugido de sua Bruxelas natal, praticamente confinado na sede do COI, o conde belga morreria de depressão em 1941. Quem o sucedeu na presidência foi o sueco Sigfrid Edström, presidente do comitê organizador dos Jogos de 1912, em Estocolmo, e também presidente da Federação Internacional de Atletismo.

Sankt Moritz 1948


A Segunda Guerra acabaria em 1945. Com três anos até 1948, o COI esperava que as Olimpíadas não precisassem ser canceladas mais uma vez, o que certamente acarretaria no fim definitivo do evento. Por outro lado, a Guerra havia devastado a Europa, e seria difícil conseguir um país disposto a fazer as obras necessárias a uma nova edição dos Jogos de Inverno. A saída seria reprisar uma das sedes antigas, e a que tinha melhores condições para isso era St. Moritz, localizada na neutra Suíça. Além de hospedar os Jogos de 1928, St. Moritz já havia sido escolhida para sediar os de 1940, mas na ocasião uma divergência quanto à possível participação de instrutores de esqui na disputa do esqui alpino acabou acarretando uma troca de sede. Sigfrid Edström, o presidente do COI, sabia que, se perdesse St. Moritz, dificilmente encontraria outra cidade em condições de sediar o evento. Politicamente, portanto, ele considerou que instrutores de esqui não seriam considerados profissionais para as disputas do esqui alpino.

Com este problema resolvido, a Suíça mais que prontamente aceitou sediar os primeiros Jogos de Inverno em doze anos. As instalações usadas há vinte anos, nos Jogos de 1928, ainda estavam em boas condições, de forma que poucas obras foram necessárias. Como um toque especial, foi adicionada uma pira na entrada do rinque de patinação, cujo fogo permaneceu aceso durante a duração dos jogos. A exemplo do de 1936, porém, este fogo também foi aceso antes da Cerimônia de Abertura, e não pela Tocha Olímpica, que só faria sua estréia nos Jogos de Inverno na edição seguinte.

Os Jogos de Inverno de 1948 são considerados como um dos mais equilibrados da história: somente dois atletas conseguiram ganhar duas medalhas de ouro cada, com todos os demais eventos sendo vencidos cada um por um atleta diferente. Todos os países membros do COI foram convidados, exceto a Alemanha e o Japão, a pedido dos organizadores, pois as feridas da Guerra ainda estavam muito recentes. Mesmo com tantos convites, somente 28 países enviaram delegações, para um total de 669 atletas, sendo 77 mulheres, que competiram em 22 provas de 9 esportes: bobsleding, combinado nórdico, esqui alpino, esqui cross country, hóquei no gelo, patinação artística no gelo, patinação no gelo em velocidade, saltos com esqui e skeleton (clique aqui para ver todas as provas do programa). O programa ainda contou com dois esportes de demonstração, a patrulha militar, em sua última participação na história dos Jogos, e o curioso pentatlo de inverno, composto de esqui cross country, tiro, esqui alpino downhill, esgrima e uma corrida cross country a cavalo.

Livre do boicote que marcou sua apresentação em 1936, o esqui alpino contou com seis modalidades: downhill, slalom e combinado, no masculino e feminino. Um dos maiores destaques da competição foi a americana Gretchen Fraser, que competiu no slalom. Após vencer a primeira bateria com folgas, Fraser se preparava para competir na segunda quando um problema técnico na cronometragem interrompeu a prova por 17 minutos. Mesmo após esta pausa enorme, ela ainda conseguiu manter seu ritmo, e conquistou a primeira medalha de ouro da história dos Estados Unidos no esqui. Outro destaque foi o francês Henri Oreiller, que ganhou o ouro no downhill e no combinado, as duas primeiras medalhas de ouro da França nos Jogos de Inverno.

Além de Oreiller, somente o sueco Martin Ludström conseguiu duas medalhas de ouro, ambas no esqui cross country, uma nos 18 km e uma no revezamento 4x10 km. Na ausência de Sonja Henie, o grande destaque da patinação artística no gelo foi a canadense Barbara Ann Scott, de 19 anos, primeira não-européia a vencer na modalidade, que encantou os jurados com seu estilo e foi apelidada pela imprensa de "fada do gelo". Barbara poderia ter sido a sucessora de Henie nos Jogos, mas se profissionalizou logo após o evento.

A única confusão digna de nota ocorreu no hóquei no gelo: devido a uma disputa interna, os Estados Unidos enviaram à Suíça duas equipes, uma montada pelo Comitê Olímpico norte-americano, outra pela Associação de Hóquei Americana. O COI votou pela desclassificação de ambas as equipes, mas o comitê organizador permitiu que o time da AHA competisse, terminando, inclusive, em quarto lugar. Diante de uma ameaça do COI de anular todo o torneio, a organização voltou atrás e anulou os resultados de todos os jogos do time da AHA. Felizmente, esta anulação não alterou a distribuição das medalhas - o torneio foi em pontos corridos, onde todos jogam contra todos e quem faz mais pontos é o campeão - e o ouro foi mais uma vez para o Canadá, que conseguiu seis vitórias e um empate, mesmos resultados da Tchecoslováquia, mas com um saldo de gols melhor.

Os Jogos de Inverno de 1948 foram realizados entre 30 de janeiro e 8 de fevereiro. Ao seu término, ganharam o apelido de "Jogos da Renovação", e provaram que o amor pelo esporte pode resistir até mesmo à maior das guerras.

Londres 1948


Em 1939, quando ainda não se sabia que o mundo mergulharia em uma Guerra, Londres havia sido escolhida para sediar as Olimpíadas de 1944, o que faria com que a capital inglesa se tornasse a segunda cidade a sediar duas edições dos Jogos. Com o cancelamento daquela edição, porém, o sonho londrino teve de ser adiado. Graças a Sigfrid Edström, presidente do COI, por apenas quatro anos. Não havia tempo hábil para selecionar uma sede para os Jogos de 1948, e, mesmo que houvesse, as candidatas seriam poucas. Edström, portanto, "premiou" Londres com o direito de sediar os Jogos de 1948, já que a cidade tivera de abrir mão dos de 1944. A Grã-Bretanha, porém, estava devastada pela Guerra, e muito relutou em aceitar este prêmio. Só concordou em realizar os Jogos quando Edström lhes garantiu de que eles não teriam nenhuma despesa para construir novas instalações, e de que o próprio COI se encarregaria da organização do evento.

Assim, não foram construídos novos estádios ou ginásios, sendo utilizados os que já estavam prontos desde o evento de 1908, ou os que haviam sido construídos para outros torneios. As cerimônias de abertura e encerramento, mais os jogos de futebol, ocorreriam no estádio de Wembley, construído em 1924. O atletismo foi disputado em uma pista de areia originalmente usada para corridas de cachorros, à qual os organizadores adicionaram pó de carvão para torná-la mais compacta. A natação e o boxe ocorreriam na Empire Pool, o basquete na Harringay Arena, a ginástica no Empress Hall, e o remo na raia de Henley, no Rio Tâmisa. Nem mesmo uma Vila Olímpica foi construída, ficando os atletas hospedados em acampamentos militares, escolas convertidas em alojamentos, ou em casas de famílias dispostas a ajudar. Muitas delegações levaram seus próprios cozinheiros, já que não haveriam refeitórios à disposição.

Com tudo resolvido, ainda que de forma meio improvisada, os Jogos foram marcados para de 29 de julho a 14 de agosto, e os convites enviados. Como represália pela Guerra, o COI não convidou a Alemanha nem o Japão, mas, a pedido do primeiro ministro Winston Churchill, a Itália recebeu um convite. As nações comunistas, como Iugoslávia, Hungria e Polônia, também foram chamadas, assim como a União Soviética, que mais uma vez decidiu não comparecer. Por causa da proximidade com a Guerra, se imaginava que muitas outras nações declinariam do convite, mas Londres viu um número recorde de 59 países enviando delegações para competir em seus Jogos. Ao todo compareceram 4.099 atletas, sendo 385 mulheres. Do programa constaram 136 provas de 19 esportes: atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, equitação, esgrima, futebol, ginástica artística, hóquei, levantamento de peso, luta olímpica, natação, pentatlo moderno, polo aquático, remo, saltos ornamentais, tiro esportivo e vela, mais lacrosse como esporte de demonstração (clique aqui para ver todas as provas do programa). Por causa da distância entre esta e a última edição dos Jogos, poucos atletas que competiram em 1936 puderam voltar a participar em 1948, e apenas dois deles repetiram suas medalhas de ouro: o tchecoslovaco Jan Brzak, da canoagem, e a húngara Ilona Elek, da esgrima. Ainda na esgrima, merece destaque o dinamarquês Ivan Osier, que não ganhou medalhas, mas entrou para a história por ter competido nas duas edições dos Jogos de Londres, em 1908 e 1948.

Por causa da contenção de custos, a Cerimônia de Abertura foi discreta, com apenas o desfile das delegações e alguns discursos. A Tocha Olímpica, porém, foi mantida, e após ser acesa na Grécia e passar por um revezamento de atletas, chegou a Wembley nas mãos do corredor John Mark, responsável por acender a pira. 83 mil pessoas estavam presentes, mas estima-se que mais de 500 mil tenham visto a cerimônia, transmitida pela televisão, que na época já fazia parte dos lares de muitos moradores da Grã-Bretanha. Por mais que torcessem, porém, os britânicos pouco puderam fazer para ajudar sua delegação, ainda enfraquecida pela Guerra e sofrendo com a falta ou racionamento de combustíveis e alimentos, o que faria com que nesta edição, pela primeira vez, o país-sede não se colocasse entre os dez primeiros do não-oficial quadro de medalhas. Mesmo assim, a empolgação era tanta que a imprensa britânica, habitual detratora dos Jogos, fez uma cobertura exemplar do evento, e chegou até mesmo a criar os hoje famosos pictogramas - aqueles bonequinhos praticando os esportes - para ilustrar suas matérias.

Os maiores destaques desta edição dos Jogos vieram mais uma vez do atletismo, a começar por Emil Zatopek, da Tchecoslováquia, apelidado "a locomotiva humana". Com um jeito curioso de correr, fazendo caretas, Zatopek não tomou conhecimento dos adversários na prova dos 10.000 metros, mesmo a prova sendo disputada debaixo de uma forte chuva. Após a décima volta, completados 4.000 metros, Zatopek aumentou ainda mais seu ritmo, com uma inacreditável disparada que deixou para trás os favoritos, os finlandeses Viljo Heino e Raino Heinstrom e o francês Alain Mimoun. A disparada de Zatopek foi tão grande que ele chegou a colocar duas voltas de vantagem sobre os dois últimos colocados, uma volta de vantagem sobre os finlandeses, e completaria a prova com quase um minuto de vantagem sobre Mimoun. Os fiscais, desnorteados com sua velocidade, soaram o sino que anuncia a última volta por engano quando o líder abriu a penúltima volta. Felizmente, todos os corredores completaram a distância integral, mas a enorme diferença entre os primeiros e os últimos fez com que o resultado demorasse a sair, até que os fiscais chegassem a uma conclusão sobre quem chegou na frente de quem. Zatopek ainda poderia ter ganhado o ouro nos 5.000 metros, mas não o fez por falta de humildade: ao completar 4.000 metros, Zatopek deu passagem ao belga Gaston Reiff e ao holandês Willem Slijkhuis, fazendo um gesto com o braço como um cavalheiro que permite que uma dama passe à sua frente, e permitindo a ambos uma folga de 40 metros. O plano de Zatopek era, ao soar do sino, mais uma vez dar sua arrancada devastadora, passando os oponentes e vencendo em grande estilo. Realmente ele conseguiu ultrapassar Slijkhuis, mas Reiff notou sua aproximação, apertou seu passo, e lhe tirou o ouro por apenas dois décimos, quebrando o recorde olímpico. Zatopek teve de se contentar com a prata, e aprender a competir sério.

Outra lenda de 1948 veio do decatlo, o norte-americano Bob Mathias, de apenas 17 anos, até hoje o atleta mais jovem a ganhar uma medalha no atletismo. Mathias havia começado a disputar provas de decatlo apenas quatro meses antes, tendo sido convencido por um professor de sua escola a trocar o futebol americano, esporte que praticava, pelas dez provas combinadas nas quais se consagraria. Inexperiente, Mathias teve de aprender as regras que fossem diferentes das que estava acostumado nos campeonatos intercolegiais dos EUA durante as provas, quase sendo eliminado diversas vezes. Ainda por cima, choveu durante a maior parte dos dois dias da competição, que ainda se estendeu durante a noite, com a ajuda de vários carros estacionados com os faróis ligados para que os atletas vissem o que estavam fazendo. No dia seguinte à sua conquista, ao receber sua medalha de ouro, Mathias declarou aos repórteres que "não repetiria o que fiz ontem e anteontem nem por um milhão de dólares".

Entre as mulheres, fez história a holandesa Fanny Blankers-Koen, detentora dos recordes mundiais no salto em altura, salto em distância, 100 metros rasos, 200 metros rasos e 80 metros com barreiras. Como o regulamento da época só permitia que mulheres competissem em no máximo quatro provas, ela optou pelas três últimas, mais o revezamento 4x100 metros. Ganhou o ouro em todas. Casada com seu treinador, mãe de dois filhos, Fanny, de 30 anos, ainda arrumou um tempinho entre as competições para visitá-los em Amsterdam. Por todos os seus feitos, ela ganharia um troféu especial, Victrix Ludorum, a Rainha dos Jogos.

No pólo aquático, a bicampeã Hungria seria derrotada na final pela Itália, campeã invicta, com um time tão bom que ganharia o apelido de Settobello, o "sete de ouros", em alusão ao tradicional jogo de cartas italiano scopa e aos sete atletas que compõem o time. E o futebol teve seu último torneio antes do domínio das nações comunistas, que muitos acusam de ter inscrito "falsos amadores", atletas supostamente amadores mas que recebiam dinheiro do governo para treinar como profissionais. O campeão de 1948 foi a Suécia, com o time que revelou os três irmãos Nordahl, e que seria terceiro lugar na Copa do Mundo de dois anos depois e vice-campeão em 1958. Após esta edição, as nações comunistas ganhariam 22 das 27 medalhas em jogo de 1952 a 1980.

Também merece destaque o húngaro Karoly Takacs, do tiro. Campeão mundial em 1938, durante a Guerra ele perderia sua mão direita, a mão da pistola, na explosão de uma granada. Sem desistir, Takacs pacientemente treinou durante dez anos para atirar com a mão esquerda, e retornou às competições exatamente em 1948, ganhando o ouro na pistola de tiro rápido e quebrando o recorde mundial.

O Brasil, com uma delegação composta de 68 homens e 11 mulheres, após 28 anos finalmente ganharia uma nova medalha, um bronze no basquete, onde venceu todos os seus jogos exceto a semifinal, contra a França. Em oito outros esportes, os atletas brasileiros ficariam entre os oito primeiros. No salto triplo, por exemplo, Geraldo de Oliveira ficaria na quinta colocação, e aconteceria a estréia internacional de Adhemar Ferreira da Silva, futuro recordista mundial e campeão olímpico. Outros quatro brasileiros seriam finalistas na natação, sendo três sextos lugares: Willy Otto Jordan nos 200 metros peito, Piedade Coutinho nos 200 metros livre, e a equipe feminina do revezamento 4x100 metros livre. Além deles, o revezamento 4x200 metros livre masculino seria oitavo lugar. Podem parecer resultados pouco expressivos, mas demonstravam a clara evolução do esporte de nível internacional do país. Além disso, a partir de 1948, o Brasil ganharia pelo menos uma medalha a cada edição dos Jogos Olímpicos.

Por fim, nos Jogos de 1948 aconteceu um fato ridículo, mas divertidíssimo: um dos integrantes do comitê olímpico britânico, Lord Cecil Burghley, teve a brilhante idéia de homenagear o italiano Dorando Pietri, desclassificado da maratona de 1908 por receber ajuda dos fiscais, mas que poderia ter vencido a prova se isto não tivesse ocorrido. Pietri, então, foi convidado para dar o tiro de largada da maratona de 1948, e aceitou a homenagem, comparecendo, já velho, mas ainda bem-humorado e descontraído. Emocionado, Lord Burghley o hospedou em seu castelo, e chegou até mesmo a levá-lo para visitar o Palácio de Buckingham, onde foi recebido com todas as honras e muitas homenagens. Tal fato foi noticiado em toda a imprensa européia, inclusive na italiana, o que acabou desmascarando um impostor: o verdadeiro Pietri havia morrido em 1942, durante a Guerra. O falso Pietri acabaria preso e deportado, e Lord Burghley, envergonhado, pediria demissão do comitê, mas seus colegas, achando muita graça do episódio, não aceitaram sua dispensa.

Mas verdadeiramente emocionante e nada ridículo seria o fato de que o Espírito Olímpico sobreviveria à Guerra: de 1948 em diante, as Olimpíadas jamais seriam canceladas novamente.

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Sankt Moritz 1948
Londres 1948

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sábado, 5 de agosto de 2006

Escrito por em 5.8.06 com 0 comentários

Fórmula 1 (III)

E hoje vamos à terceira parte da História da Fórmula 1!

1970-1979


O final da década de 60 trouxe muitas novidades para a categoria, como as asas, o cockpit e o patrocínio. Mas isso era só o começo. Durante a década de 70 muitas outras inovações seriam introduzidas, GPs seriam corridos em novos cantos do planeta, e a categoria começaria a ser alçada ao posto máximo do automobilismo mundial, exatamente como a FIA queria quando a criou.

Emerson FittipaldiA Lotus continuou sendo uma das principais responsáveis por inovar. Seu carro para a temporada de 1970, o Lotus 72, trazia suspensões com barra de torção, freios dianteiros e um novo modelo de aerofólio, além de um novo tipo de pneu produzido pela Goodyear especialmente para a Fórmula 1, totalmente lisos para melhorar a performance do carro, apelidados de slick. A Tyrrell, equipe que herdou a tecnologia da Matra, também estava disposta a fazer um carro revolucionário, mas acabou amarrada por problemas de patrocínio. A Matra tinha um contrato com a fabricante de automóveis francesa Simca, o que impedia a Tyrrell de usar motores Ford. Jackie Stewart chegou a testar um Tyrrell equipado com um Matra V12 da temporada anterior, mas o carro era claramente inferior aos equipados com o Ford Cosworth. Sem chances de brigar pelo título, Ken Tyrrell optou por comprar chassis March e equipá-los com motores Ford, ao invés de utilizar os carros que herdou da Matra, e trabalhar em um carro totalmente novo para a temporada seguinte.

A temporada de 1970 contou com 13 GPs: África do Sul em Kyalami, Espanha em Jarama, Mônaco em Monte Carlo, Bélgica em Spa-Francorchamps, Holanda em Zandvoort, França em Charade, Inglaterra em Brands Hatch, Alemanha em Hockenheim, Áustria em Österreichring, Itália em Monza, Canadá em Mont-Tremblant, Estados Unidos em Watkins Glen, e México na Cidade do México. A bordo do Lotus 72, o austríaco Jochen Rindt venceria cinco provas, sendo quatro seguidas. Infelizmente, durante uma sessão de treinos para o GP da Itália, uma quebra faria com que Rindt encontrasse a morte na curva Parabolica. Rindt acabou se tornando o primeiro - e até hoje único - campeão póstumo da Fórmula 1, pois nas quatro provas que restavam para o final da temporada, seu principal oponente, o belga Jacky Ickx, da Ferrari, não conseguiu pontos suficientes para ultrapassá-lo. Ickx terminou a temporada com três vitórias, cinco pontos atrás de Rindt. Muitos dizem que Ickx só não conseguiu devido à vitória do companheiro de equipe de Rindt na Lotus, o brasileiro Emerson Fittipaldi, no GP dos Estados Unidos, a primeira vitória de um brasileiro na Fórmula 1. Emerson estreou na categoria naquele ano, como terceiro piloto da equipe, mas acabou se tornando o primeiro após a morte de Rindt e a saída do inglês John Miles.

A morte de Rindt mexeu profundamente com a Lotus, principalmente porque ninguém entendia direito o que havia acontecido. O Lotus 72 foi praticamente abandonado, e a equipe começou a trabalhar em um novo carro para a temporada de 1971, com motor com turbina a gás e tração nas quatro rodas, visando torná-lo mais seguro sem perder velocidade. Tanta experimentação fez com que a equipe não fizesse uma boa temporada, sem ganhar nenhuma prova, e com Emerson terminando o campeonato em sexto lugar. Ken Tyrrell, por outro lado, finalmente pôde fazer seu carro do jeito que queria, com um chassis praticamente idêntico ao do Matra de 1969, mas utilizando tanques de combustível comuns, e um motor Ford Cosworth. Este carro deu ao escocês Jackie Stewart seu segundo título, com seis vitórias em onze provas - o calendário ficou mais curto devido às saídas dos GPs do México e da Bélgica; além disso, o GP da Espanha passou para Montjuïc, o da França foi para Paul Ricard, o da Inglaterra voltou para Silverstone, o da Alemanha para Nürburgring, e o do Canadá para Mosport.

Após um ano de insucessos tentando fazer um carro novo, a Lotus decidiu começar 1972 com uma versão modificada do Lotus 72, o 72D. Sua patrocinadora, a Imperial Tobacco, querendo divulgar sua nova marca, o John Player's Special, pediu para que o carro fosse pintado nas cores do maço, preto com letras douradas. Este carro acabou apelidado de JPS, e é considerado até hoje por muitos fãs como o mais bonito da história da Fórmula 1. Além de bonito, o 72D era veloz e confiável, e permitiu que Emerson Fittipaldi conquistasse cinco vitórias, uma a mais que seu rival Stewart, e se tornasse não somente o primeiro brasileiro campeão da Fórmula 1, mas também o campeão mais jovem da categoria, com 25 anos, recorde que perduraria até o título de Fernando Alonso em 2005. O calendário voltaria a ter 12 provas, com a volta dos GPs da Argentina em Buenos Aires, da Bélgica em Nivelles-Baulers, e a saída do GP da Holanda. O troca-troca de sedes continuou, com o GP da Espanha voltando para Jarama, o da França para Charade e o da Inglaterra para Brands Hatch. 1972 também foi o ano de estréia de dois outros brasileiros, a primeira temporada com três correndo simultaneamente: José Carlos Pace fez sua estréia no GP da África do Sul correndo pela March; e o irmão de Emerson, Wilson Fittipaldi, estrou no GP da Espanha a bordo de um Brabham. Wilson correu 38 GPs, sendo os da temporada de 1972 e 1973 pela Brabham, e os de 1975 por sua própria equipe, a Fittipaldi, somando 3 pontos e tendo como melhor resultado um quinto lugar no GP da Alemanha de 1973. Pace foi melhor sucedido, correndo 73 GPs entre as temporadas de 1972 e 1977, sendo a primeira pela March, a de 73 e metade da de 74 pela Surtees, e encerrando sua carreira pela Brabham. Conseguiu uma vitória no GP do Brasil de 1975, uma pole position no GP da África do Sul daquele mesmo ano, seis podiums, cinco voltas mais rápidas e somou 58 pontos. Pace faleceu em março de 1977, quando o avião em que viajava bateu em uma árvore na Serra da Cantareira, durante uma tempestade. Em 1985, o autódromo de Interlagos, onde atualmente é realizado o GP do Brasil, recebeu seu nome em sua homenagem.

A temporada de 1973 foi a mais longa até então, com 15 corridas, graças à volta do GP da Holanda, e à estréia dos GPs do Brasil em Interlagos, e da Suécia em Anderstorp. Os GPs da Espanha, França e da Inglaterra voltaram para Montjuïc, Paul Ricard e Silverstone, repectivamente, e o GP da Bélgica passou para Zolder. Nas pistas, o domínio foi mais uma vez da Lotus, com Emerson Fittipaldi vencendo três corridas, e seu parceiro, o sueco Ronnie Peterson, conquistando mais quatro. A Lotus ganhou o título de construtores, mas o campeão dos pilotos foi mais uma vez o escocês Stewart, da Tyrrell, que venceu cinco provas. O segundo piloto da Tyrrel, o francês François Cévert, sofreu um acidente fatal durante os treinos para o GP dos Estados Unidos, o que levou a equipe a desistir da prova. Ao final da temporada, Stewart anunciou sua aposentadoria, que, ao contrário do que possa parecer, já estava planejada desde antes do acidente com seu colega. 1973 também viu pela primeira vez quatro brasileiros em uma mesma corrida, quando Luiz Bueno correu o GP do Brasil pela Surtees, chegando em 12o lugar.

Com Stewart aposentado, parecia que a temporada de 1974 seria mais uma vez dominada pela Lotus. No final da temporada de 1973, porém, os carros da McLaren começaram a obter bons resultados: seu chassis era parecido com o do Lotus 72, mas a aerodinâmica era muito melhor, e a suspensão era do tipo convencional, sem barras de torção. Teddy Mayer, o diretor da McLaren, prometeu a Emerson que, se ele corresse por sua equipe, teria status de primeiro piloto, algo de que na Lotus, sendo parceiro de Peterson, não dispunha. Surpreendentemente para muitos, Emerson aceitou.

Mas a Ferrari também estava disposta a ganhar mais um título - algo que não acontecia há dez anos - e decidiu investir pesado, projetando seu primeiro carro com cockpit, impulsionado por um motor reto de 12 cilindros, e pilotado pelo austríaco Niki Lauda e pelo suíço Clay Regazzoni. Graças a isso, a temporada de 1974 - onde as únicas mudanças no calendário foram as transferências dos GPs da Espanha, França, Bélgica e Inglaterra para Jarama, Dijon-Prenois, Nivelles-Baulers e Brands Hatch, respectivamente - foi uma das mais equilibradas dos últimos tempos: Emerson, Peterson e o argentino Carlos Reutemann, da Brabham, ganharam três corridas cada um; Lauda venceu duas; o sul-africano Jody Scheckter, da Tyrrell, venceu o GP da Suécia e terminou quase todos os outros na zona de pontuação; e Regazzoni fez a corrida mais equilibrada de todos os candidatos ao título. Somente no GP dos EUA, última corrida da temporada, é que o título seria decidido entre Regazzoni, Scheckter e Emerson, que acabou se tornando bicampeão com apenas três pontos de vantagem sobre o piloto da Ferrari. 1974 também teve a estréia da segunda mulher a pilotar um Fórmula 1, a italiana Lella Lombardi, que correu o GP da Inglaterra pela Brabham. Lella ainda correria a temporada de 1975 e o GP do Brasil de 1976 pela March, o GP dos EUA de 1975 pela Williams e os GPs da Inglaterra, Alemanha e Áustria de 1976 novamente pela Brabham. Seu melhor resultado foi um sexto lugar no GP da Espanha de 1975, que lhe rendeu meio ponto, e fez com que ela se tornasse a única mulher até hoje a pontuar na Fórmula 1.

A temporada de 1975 começou com uma grande novidade para o Brasil: a estréia não de um piloto, mas de uma equipe brasileira, a Fittipaldi, patrocinada pela usina de álcool e açúcar Copersucar, nome pelo qual ficou conhecida no Brasil. Na época, era comum pilotos ou ex-pilotos criarem ou comprarem um chassis, juntá-lo a um motor Ford Cosworth e uma caixa de câmbio Hewland, e criar sua própria equipe. Foi isso o que fizeram Graham Hill, John Surtess, e, insatisfeito com seu tratamento na Brabham, Wilson Fittipaldi. A equipe fez sua estréia no GP da Argentina de 1975, pilotado pelo próprio Wilson Fittipaldi. Wilson não conseguiu se classificar para três das 14 provas, e só completou cinco das demais, tendo como melhor resultado o décimo e último lugar no GP dos EUA. No GP da Itália, Wilson, que havia quebrado a mão durante o treino para o GP da Áustria, foi substituído pelo italiano Arturo Merzario, que terminou em 11o lugar.

Mas a Fittipaldi não foi a única surpresa de 1975. Os carros de então já haviam copiado tudo o que a Lotus inventava, ficando com o aspecto dos carros de corrida que conhecemos hoje. Também já começavam a ser utilizadas as entradas de ar sobre a cabeça do piloto para ventilação do motor. A maior inovação, porém, veio da Ferrari, com uma nova caixa de câmbio que possibilitava uma melhor distribuição do peso do carro. Pilotando um carro equipado com esta novidade, Niki Lauda finalmente quebrou o jejum de títulos da equipe, vencendo cinco provas e conquistando o título de pilotos e de construtores. Emerson venceu duas provas, mas seus resultados nas demais foram suficientes para garantir o vice-campeonato. Outra grande surpresa de 1975 foi a vitória do inglês James Hunt no GP da Holanda, dirigindo um carro da pequenina equipe Hesketh, que se recusava a correr com patrocínio. Mesmo sendo o único piloto da equipe, Hunt faria uma temporada tão boa que terminaria em quarto lugar, assim como sua equipe no mundial de construtores. No calendário houve um novo troca-troca, com os GPs da Espanha, Bélgica, França e Inglaterra voltando para Montjuïc, Zolder, Paul Ricard e Silverstone. Além disso, não houve o GP do Canadá.

Se Emerson já tinha surpreendido o mundo ao se transferir para a McLaren, em 1976 ele surpreendeu ainda mais ao se tranferir para a equipe do irmão. Mesmo sabendo que não tinha chances de chegar ao título, Emerson acreditava que podia contribuir para que, em dois ou três anos, o Brasil tivesse uma das melhores equipes da Fórmula 1. Emerson conseguiu largar em quinto lugar no GP do Brasil, e chegou em sexto lugar três vezes, marcando três pontos. Em quatro corridas, Emerson teve como companheiro o brasileiro Ingo Hoffman, que estrearia nesta temporada. Hoffman correria ainda os dois primeiros GPs de 1977 pela Fittipaldi, e teria como melhor resultado o sétimo lugar no GP do Brasil de 1977. Outro brasileiro, Alex Ribeiro, também fez sua estréia em 1976, correndo o GP dos EUA pela Hesketh. Ribeiro ainda correria a temporada de 1977 pela March e as duas últimas provas de 1979 pela Fittipaldi. Seus melhores resultados foram dois oitavos lugares nos GPs da Alemanha e do Canadá de 1977.

O calendário de 1976 foi o mais extenso até então, com 16 provas. O GP da Argentina saiu, o do Canadá voltou, e estrearam os GPs do Japão em Fuji - o primeiro na Ásia - e o GP dos Estados Unidos Oeste, em Long Beach. O GP da Espanha voltou para Jarama e o da Inglaterra para Brands Hatch. Sem Emerson na McLaren, a previsão era de que Niki Lauda conseguiria seu segundo título consecutivo. Lauda, porém, sofreu um grave acidente na primeira volta do GP da Alemanha, realizado sob forte chuva. Seu carro se transformou em uma bola de fogo, e poucos acharam que ele sobreviveria. O piloto chegou até mesmo a receber a extrema unção no hospital, mas, para surpresa de todos, seis semanas depois ele já estava correndo. O título acabou nas mãos de James Hunt, que se transferiu para o lugar de Emerson na McLaren. Hunt venceu seis provas contra cinco de Lauda, e terminou o campeonato com apenas um ponto de vantagem. Lauda poderia ter sido campeão se não tivesse desistido do GP do Japão, novamente realizado em um dia de forte chuva, sob o argumento de que, do dia de seu acidente em diante, sempre colocaria sua segurança em primeiro lugar.

1976 também teve a estréia de outra mulher, a inglesa Divina Galica, que disputou a classificação do GP da Inglaterra pela Surtees e os dois primeiros GPs de 1978 pela Hesketh, mas não conseguiu se classificar em nenhum dos três. Mas a maior inovação do ano foi o carro P34 da Tyrrell, que tinha um diferencial inusitado: seis rodas, sendo quatro menorezinhas na frente e duas do tamanho normal atrás. O P34 conseguiu bons resultados, e com ele Jody Scheckter ganhou o GP da Suécia, mas as seis rodas não tinham nenhuma vantagem real sobre as quatro dos concorrentes. Assim como várias franjas e saias plásticas que Colin Chapman decidiu acoplar a seu Lotus e todo mundo copiou, mesmo sem saber para que serviam.

Enzo Ferrari não gostou de Lauda ter abandonado o GP do Japão de 1976, e para 1977 decidiu que ele seria o segundo piloto, e Carlos Reutemann o primeiro. Mesmo assim, os mecânicos da equipe gostavam muito de Lauda, e essa simpatia foi fundamental para que ele tivesse sempre um bom carro e pudesse chegar ao seu segundo título. Lauda venceu apenas duas corridas, contra três de Hunt e Scheckter e quatro do norte-americano Mario Andretti, mas devido aos seus resultados em outras provas conseguiu o campeonato com 17 pontos de vantagem sobre Scheckter. O vice-campeonato de Scheckter, aliás, também foi uma surpresa, pois ele havia se transferido para a novata Wolf. Emerson, ainda correndo pela equipe Fittipaldi, conseguiu três quartos lugares e um quinto, marcando 11 pontos. O calendário cresceu ainda mais, para 17 provas, com a volta do GP da Argentina. Os GPs da França, Inglaterra e Alemanha passaram para Dijon-Prenois, Silverstone e Hockenheim.

1977 viu ainda três grandes inovações tecnológicas: para começar, as saias da Lotus disseram a que vieram, trazendo para a categoria o efeito solo, capaz de grudar o carro no chão e proporcionar mais aderência com menos atrito. Em pouco tempo, todas as equipes passariam a copiá-lo, e ele se tornaria uma consideração indispensável na hora de fazer um carro de Fórmula 1. A segunda veio quando a Renault introduziu na categoria os motores turbo de um litro e meio, adaptado de seus carros esporte. Embora os motores turbo estivessem previstos no regulamento, as montadoras não arriscavam fazê-los porque acreditavam que o consumo elevado de combustível não compensaria os resultados. A Renault provaria o contrário, e no início da década de 80 praticamente todos os carros teriam motores turbo. A terceira inovação veio quando a Michelin introduziu os pneus radiais, justamente nos carros da Renault. Até então, todas as equipes utilizavam pneus Goodyear, que ainda fabricava o modelo cruzado. Lentamente, o radial se mostraria mais eficiente - tanto que, hoje em dia, ninguém mais usa cruzado, nem em carros de passeio - e, para não perder clientes, a Goodyear passaria também a fabricá-lo. O efeito colateral disto foi que, com seu tempo tomado por pesquisas, a Goodyear não tinha mais como fabricar os pneus dianteiros exclusivos de que o Tyrrell P34 precisava, e o modelo acabou sendo abandonado.

Nem mesmo o título de 1977 melhorou as relações de Lauda com Enzo Ferrari, e ao final da temporada o austríaco deixou a equipe italiana e se transferiu para a Brabham. Sem favoritos, o campeonato de 1978 seria decidido por quem fizesse o melhor uso das novas tecnologias, e a equipe que saiu na frente foi a Lotus, que já vinha testando carros com efeito solo há mais tempo. Andretti, o primeiro piloto da equipe, venceu seis das 16 provas da temporada, enquanto Peterson, seu parceiro de equipe, venceria mais duas. Andretti se tornaria o campeão daquele ano, mas nem tudo seria festa na Lotus: na primeira volta do GP da Itália, Peterson sofreria um acidente espetacular, que deixou seu carro em chamas. Hunt, Regazzoni, e o francês Patrick Depailler, que também se envolveram no acidente, conseguiram salvá-lo com apenas queimaduras leves, mas Peterson morreria no hospital devido a uma embolia.

No calendário, a temporada de 1978 não contou com o GP do Japão, e os GPs da França, Inglaterra, Brasil e Canadá passaram para Paul Ricard, Brands Hatch, Rio de Janeiro e Montreal. Com a saída do Tyrrell de seis rodas, o prêmio de esquisitice da temporada foi para o Brabham BT46B, que contava com um imenso ventilador na traseira, parecido com uma turbina de avião. A equipe, comandada por Bernie Ecclestone, desenvolveu o dispositivo para aumentar o efeito solo, aproveitando-se de uma brecha no regulamento. Lauda chegou a vencer o GP da Suécia com ele, mas Ecclestone achou por bem aposentar a esquisitice antes que a FIA punisse a equipe pelo seu uso.

Emerson Fittipaldi fez a melhor temporada de sua equipe, conseguindo um segundo lugar no GP do Brasil, e marcando pontos em outros cinco GPs. No geral, a equipe Fittipaldi terminou o campeonato de construtores em sétimo lugar, à frente da McLaren. 1978 também foi o ano de estréia do brasileiro Nelson Piquet, que correu o GP da Alemanha pela Ensign, os GPs da Áustria, Itália e Holanda pela McLaren, e o GP do Canadá pela Brabham, sem resultados expressivos.

1979 não foi uma boa temporada para o Brasil. A Fittipaldi não conseguiu manter o bom desempenho do ano anterior, e Emerson só marcou pontos graças a um sexto lugar no GP da Argentina. Piquet foi um pouco melhor, correndo pela Brabham e conseguindo um quarto lugar no GP da Holanda. O calendário teve 15 provas, sem o GP da Suécia, e com os GPs do Brasil, França e Inglaterra voltando para Interlagos, Dijon-Prenois e Silverstone. O título foi disputado entre o francês Jacques Lafitte, da Ligier, que teve duas vitórias; o australiano Alan Jones, da Williams, com quatro vitórias; o canadense Gilles Villeneuve e o sul-africano Jody Scheckter, ambos da Ferrari, ambos com três vitórias cada. Os carros destas três equipes deram um salto de qualidade, o que obrigou a Lotus a testar um novo modelo que não se mostrou competitivo. No fim, o campeonato foi para Scheckter, sete pontos à frente de Villeneuve, um domínio da Ferrari que curiosamente iniciou um jejum de títulos de 21 anos para a equipe de Maranello.

Pois bem, chegamos ao final de 1979 e este post já está imenso. Mais agora, só na próxima parte.

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1970-1979

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