domingo, 2 de junho de 2019

Universo Cinematográfico Marvel (I)

Esse é um post - ou melhor, uma série de posts - que eu já venho querendo escrever há algum tempo, mas, evidentemente, tinha de esperar toda a história se concluir para que a série ficasse completa. Cheguei a pensar em fazer alguns posts após cada Fase, mas depois concluí que o melhor mesmo seria começar só depois que a Fase 3 acabasse. Quando finalmente comecei a escrever, também pensei que poderia ter começado antes, para que o último não ficasse tão distante da conclusão da Fase 3 nos cinemas, mas, começando agora, pelo menos, quando os últimos posts forem publicados, terão menos spoilers. A justificativa para essa série é, no mínimo, desnecessária: eu adoro os heróis Marvel desde a infância, e vê-los interagindo uns com os outros na tela do cinema foi um sonho realizado. E, agora que a primeira parte desse sonho chegou ao final, nada mais justo que homenageá-la aqui. Hoje é dia de Universo Cinematográfico Marvel no átomo!

Aliás, só hoje, não. Como seria impossível falar de forma minimamente decente de 23 filmes em um único post, é claro que será uma série, como eu inclusive já falei no parágrafo anterior. E essa série, evidentemente, não será sequencial, para que quem não gosta dos filmes do MCU (sigla do nome em inglês, Marvel Cinematic Universe, que eu vou usar ao longo da série porque é mais popular e mais simpática que UCM) não precise fugir daqui e só voltar quando a série tiver terminado. A partir de hoje, portanto, quando vocês menos esperarem, teremos mais uma parte dessa série, intercalada com outros assuntos - até que chegue o post que vai falar sobre Homem-Aranha: Longe de Casa, encerrando-a. Tudo explicadinho, comecemos!

O Início

Os super-heróis começaram a aparecer no final da década de 1930, com o Super-Homem e o Batman. Sua transição dos quadrinhos para o cinema se deu muito rápido: já na década seguinte, serials estrelados por esses dois personagens seriam produzidos pela Columbia Pictures. Serials, porém, não eram longa-metragens, sendo mais parecidos com séries de TV, com uma história dividida em diversos episódios exibidos com alguma distância temporal entre eles. Como na época não havia televisão, os serials eram exibidos nos cinemas, com o preço do ingresso sendo mais barato que o de um longa-metragem, já que sua duração também era mais curta.

O primeiro longa-metragem estrelado por um super-herói dos quadrinhos seria lançado em 1951, estrelando o Super-Homem. Não era um "filme verdadeiro", entretanto, e sim o piloto da série de TV As Aventuras do Super-Homem, estrelada por George Reeves e exibida entre 1952 e 1958 em syndication (vários canais diferentes por todo o país), para um total de seis temporadas e 104 episódios; esse piloto seria lançado nos cinemas justamente para chamar atenção sobre a série, que faria um grande sucesso. O segundo filme de super-heróis dos quadrinhos para o cinema também seria da DC, estrelaria o Batman, e estrearia em 1966. Mais uma vez, todavia, não seria um "filme verdadeiro", e sim uma espécie de episódio especial da série Batman, estrelada por Adam West e Burt Ward, e exibida pela ABC entre 1966 e 1968, para um total de três temporadas e 120 episódios de enorme sucesso. Esse filme também foi exibido na TV, e acabou indo parar nos cinemas para que a Fox, sua produtora, ganhasse mais alguns trocados com seu sucesso.

O terceiro filme para o cinema dos super-heróis dos quadrinhos mais uma vez seria da DC, e, esse sim, poderia ser considerado "verdadeiro": produzido pela Warner Bros. e com orçamento de 55 milhões de dólares, o que fez com que ele fosse o filme mais caro de todos os tempos até então, Superman, estrelado por Christopher Reeve, Gene Hackman, Margot Kidder e Marlon Brando, e dirigido por Richard Donner, estrearia em 10 de dezembro de 1978, seria um imenso sucesso, rendendo mais de 300 milhões de dólares e sendo indicado a três Oscars, e é hoje considerado um dos maiores filmes de ação de todos os tempos. Poucos novos filmes de super-heróis, porém, viriam em seu rastro, sendo os dois principais motivos para essa escassez o de que eles eram muito caros e os personagens, com raras exceções, não eram considerados de grande apelo popular - fora as sequências de Superman, o filme seguinte estrelado por um super-herói da DC seria Batman, de Tim Burton, com Michael Keaton e Jack Nicholson, lançado praticamente dez anos depois, em 1989, e, fora suas sequências, o seguinte seria Aço, com Shaquille O'Neal, de 1997 - ou seja, um herói novo a cada década.

Mas não é a DC que interessa para esse post, e sim a Marvel, que nasceu em novembro de 1961, com a publicação da Fantastic Four número 1. Se, para a DC, que tinha os super-heróis mais famosos do mundo e desde 1967 pertencia à Warner, era difícil conseguir contratos para a produção de filmes, imaginem para a Marvel - hoje em dia, isso pode parecer impossível, mas, durante anos, os personagens da Marvel, com poucas exceções, eram famosos apenas dentre os fãs de quadrinhos, não sendo considerados ícones da cultura pop como, por exemplo, o Super-Homem, o Batman e a Mulher Maravilha. O resultado foi que o primeiro filme para cinema estrelando um super-herói Marvel chegaria às telas somente em 1998 - e sequer seria um dos super-heróis, digamos, Classe A. Blade, estrelado por Wesley Snipes, começaria a ser produzido em 1992, quando o rapper LL Cool J procuraria a Marvel se dizendo interessado em interpretar o personagem, e a editora começaria a procurar um estúdio parceiro. Eles acabariam fechando com a New Line Cinema, que não se interessaria em LL Cool J, convidando Snipes, que estrelaria um total de três filmes do personagem - os outros dois lançados em 2002 e 2004.

É importante registrar que, antes do filme de Blade, tivemos algumas tentativas, a primeira sendo um serial do Capitão América que estreou nos cinemas em 1944, mas não conta porque, na época, a Marvel ainda nem existia, e o personagem pertencia à Timely Comics. Mais de quarenta anos depois, em 1986, estrearia Howard, o Super-Herói, mas Howard, o Pato, apesar de ser um personagem Marvel (e do que o subtítulo de seu filme em português dissesse) não era um super-herói. Em 1989, antes até do filme do Batman, seria lançado um filme do Justiceiro, estrelando Dolph Lundgren, mas, nos Estados Unidos, ele seria lançado diretamente em vídeo, só estreando nos cinemas em alguns outros países, dentre eles o Brasil, onde só chegou em 1991. O mesmo ocorreria com Capitão América, de 1990, lançado direto em vídeo nos EUA mas estreando nos cinemas em alguns outros países - dessa vez, não no Brasil. E, é claro, temos o exemplo mais famoso, o filme do Quarteto Fantástico, de 1994, dirigido por Roger Corman, jamais lançado em nenhum tipo de mídia (segundo alguns, porque era ruim demais). Homem-Aranha, Hulk, Capitão América, Dr. Estranho, Nick Fury e a Geração X também ganhariam filmes feitos para a TV, alguns relacionados às suas respectivas séries, outros sendo pilotos de séries jamais lançadas.

Na década de 1990, a Marvel conseguiria um acordo com a Saban Entertainment para lançar não um filme, mas sim uma série animada para a TV, que acabaria se tornando um marco: X-Men, que estrearia na Fox em outubro de 1992. Já existiam planos para a realização de um filme para o cinema dos X-Men desde 1984, primeiro através de um contrato com a Orion Pictures, que desistiu em 1989 por estar passando por graves problemas financeiros, depois através de um acordo com James Cameron, segundo o qual sua então esposa, Katheryn Bigelow, dirigiria o filme, estrelado por Bob Hoskins como Wolverine e Angela Basset como Tempestade, e que azedaria em 1992, quando Stan Lee não concordaria que um filme do Homem-Aranha estrelado por Tom Cruise fosse dirigido por Cameron como parte do pacote. O sucesso da série animada motivaria a Fox a reabrir negociações com a Marvel, que, mal das pernas financeiramente, decidiria, então, fazer uma espécie de leilão de seus personagens, que seriam distribuídos por vários estúdios.

Ao estabelecer as regras para o licenciamento, a Marvel dividiria seus personagens em três grupos, com os do grupo dos principais (os que eu chamei ainda há pouco de Classe A) sendo mais caros, e os menos famosos, mais baratos. Quem estava mais disposta a abrir o bolso foi a Fox, que licenciou os X-Men, o Quarteto Fantástico e o Demolidor (fazendo também um filme da Elektra, que estava no pacote do Demolidor); a Sony ficaria com o Homem-Aranha (incluindo outros personagens originários de suas histórias, como o Venom), Thor e o Motoqueiro Fantasma; a Lionsgate com o Justiceiro e o Homem-Coisa; a Universal ficaria com o Hulk e com Namor (único dessa lista que acabou não ganhando filme); e a New Line, que já tinha Blade, com o Homem de Ferro. O Capitão América acabou não podendo ser licenciado, devido a uma disputa jurídica entre a Marvel e Joe Simon, co-criador do personagem, que queria controle total sobre ele. Se vocês estão estranhando o Homem de Ferro e Thor nessa lista, saibam que os direitos de ambos acabaram revertendo para a Marvel antes de 2005, por motivos que eu vou explicar quando falar de seus primeiros filmes. Demolidor, Justiceiro, Homem-Coisa, Namor e Motoqueiro Fantasma também acabariam voltando para a Marvel; os demais licenciamentos valem até hoje.

O primeiro filme dessa nova leva de super-heróis foi X-Men, de 2000, um grande sucesso de crítica e público. Em seguida viria Homem-Aranha, de 2002, um sucesso maior ainda. X-Men 2, de 2003, e Homem-Aranha 2, de 2004, elevariam ainda mais o padrão, mas os demais heróis Marvel falhariam em manter o mesmo nível, com Demolidor e Hulk, de 2003, O Justiceiro, de 2004, e Elektra e Quarteto Fantástico, de 2005, sendo todos bombardeados pela crítica e tendo desempenho abaixo do esperado nas bilheterias. O Homem-Coisa, também de 2005, acabou sendo lançado diretamente em vídeo. Todos esses filmes foram co-produzidos pela Marvel em parceria com os estúdios que licenciaram seus personagens; a participação da Marvel, porém, era mínima, praticamente se limitando a ceder os personagens ao estúdio. Isso, evidentemente, fazia com que a Marvel tivesse pouco (ou nenhum) controle artístico ou criativo sobre os filmes, e com que seu retorno financeiro também fosse muito baixo - a Fox, portanto, lucra muito mais com cada filme dos X-Men do que a Marvel, que só recebe um valor a título de copyright pelo uso dos personagens, sem, por exemplo, porcentagem nas bilheterias.

Em 2005, aproveitando que, mesmo com os recentes insucessos, os filmes de super-heróis estavam em alta, e que a Marvel ainda tinha uma penca de personagens que ninguém quis licenciar, Avi Arad, presidente da divisão de cinema da editora (e produtor executivo de todos os filmes do parágrafo anterior), decidiria dar um passo além, e fundar um estúdio próprio da Marvel. Produzindo seus próprios filmes, a Marvel não somente teria uma parcela maior nos lucros, mas também maior controle criativo sobre o material que chegaria às telas - Arad, inclusive, disse que uma das razões que o levou a criar um estúdio próprio foi o fato de que ele gostou muito de Homem-Aranha 1 e 2, mas detestou os demais filmes, achando que eles não foram fiéis à essência dos personagens nos quadrinhos. Após fechar um contrato de distribuição com a Paramount, com quem a Marvel já havia feito parcerias no passado (como, por exemplo, para publicar uma versão em quadrinhos de Jornada nas Estrelas), Arad anunciaria, oficialmente, a criação dos Marvel Studios, escolhendo Kevin Feige, então um jovem produtor de 31 anos, como seu segundo em comando.

Ao perceber que a Marvel detinha os direitos do Homem de Ferro, do Capitão América e de Thor, Feige teve uma ideia ousada: sendo fã declarado de Stan Lee e Jack Kirby, ele tentaria fazer nos cinemas o que essa dupla fez nos quadrinhos: um universo coeso, no qual os super-heróis não existem de forma independente, e sim convivem uns com os outros, se ajudando e se enfrentando com regularidade. Feige traçou um plano segundo o qual seriam lançados três filmes, um estrelado por cada um desses super-heróis, e, então, um filme dos Vingadores, no qual os três agiriam juntos para formar a equipe. A cúpula da Marvel deu luz verde para o projeto, e, para poder realizá-lo, os Marvel Studios pegaram um empréstimo de 525 milhões de dólares com o banco Merrill Lynch. Arad foi instrumental para que o banco aprovasse o projeto - afinal, ele havia sido produtor executivo de todos os filmes de super-heróis Marvel lançados nos anos 2000 - mas, pessoalmente, não acreditava que ele fosse dar certo, e, citando divergências criativas, em 2006 pediria demissão da Marvel para fundar sua própria empresa, a Arad Productions.

Após a saída de Arad, a Marvel, que decidiu bancar o projeto de Feige (afinal, já tinha pedido o empréstimo mesmo), criou uma comissão formada por pessoas com profundo conhecimento dos quadrinhos da editora, para garantir que os filmes fossem o mais fiéis possível ao que era visto nas revistas. Essa comissão era composta por Feige; Louis D'Esposito, que assumiu a presidência dos Marvel Studios após a saída de Arad; Dan Buckley, então editor da Marvel Comics; o roteirista e desenhista Joe Quesada, então chefe do departamento criativo da editora; o roteirista Brian Michael Bendis; e o então presidente da Marvel Entertainment, Alan Fine. Esse sexteto seria o responsável por fazer uma sinopse de como se desenrolariam os eventos dos filmes do que seria posteriormente conhecido como Fase 1. Feige daria a sugestão de chamar o projeto de Universo Cinematográfico Marvel (já que o dos quadrinhos é amplamente conhecido como Universo Marvel), e, em 2007, aos 33 anos, seria escolhido por Fine para liderar o projeto.

Antes de começar a falar sobre o primeiro filme desse projeto, vale citar rapidinho os demais filmes envolvendo personagens Marvel (os lançados desde 2005) e que não fazem parte do MCU. A maioria deles foi de grandes fracassos, alguns foram relativos sucessos, mas nenhum deles chegou perto de repetir o que fizeram X-Men 1 e 2 ou Homem-Aranha 1 e 2. Foram eles: X-Men: O Confronto Final (2006), Motoqueiro Fantasma, Homem-Aranha 3, Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado (os três de 2007), O Justiceiro em Zona de Guerra (2008), X-Men Origens: Wolverine (2009), X-Men: Primeira Classe, Motoqueiro Fantasma: Espírito da Vingança (ambos de 2011), O Espetacular Homem-Aranha (2012), Wolverine: Imortal (2013), O Espetacular Homem-Aranha: A Ameaça de Electro, X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (ambos de 2014), Quarteto Fantástico (2015), Deadpool, X-Men: Apocalipse (ambos de 2016), Logan (2017), Deadpool 2, Venom (ambos de 2018), e X-Men: Fênix Negra (2019).

Homem de Ferro
Iron Man
2008

A primeira vez em que a Marvel resolveu fazer um filme do Homem de Ferro, acreditem ou não, foi em 1990, quando a Universal fechou um contrato de licenciamento. O filme jamais passou da pré-produção, e, em 1996, a Fox comprou os direitos diretamente da Universal. Um roteiro chegou a ser escrito, com altas doses de ficção científica e MODOK como vilão, Nicolas Cage e Tom Cruise expressaram o desejo de interpretar o herói, e, pasmem, Quentin Tarantino se ofereceu para dirigi-lo, mas, talvez felizmente, quando conseguiu os direitos dos X-Men e do Quarteto Fantástico, a Fox abriu mão dos do Homem de Ferro, que foram adquiridos pela New Line. Mais uma vez um roteiro foi escrito, no qual o vilão seria Howard Stark, pai de Tony Stark, que, no final, enfrentava o filho usando a armadura do Máquina de Combate. Nick Cassavettes foi contratado para dirigir, mas, como o filme mais uma vez não saía da pré-produção, a New Line desistiu, e os direitos do Homem de Ferro voltaram para a Marvel no início de 2005. Após a criação dos Marvel Studios, Feige decidiria descartar essas ideias todas e recomeçar do zero, fazendo o personagem mais fiel à sua versão original dos quadrinhos.

Logo nas primeiras reuniões do sexteto dos Marvel Studios, ficaria definido que o primeiro filme do MCU seria o do Capitão América - as razões pelas quais isso não ocorreu estarão no próximo post dessa série - e que o do Homem de Ferro seria o segundo. O método pelo qual se chegou a essa conclusão foi, no mínimo, pouco ortodoxo: grupos de crianças foram formados, e a elas foram oferecidos bonecos do Thor, do Hulk e do Homem de Ferro para saber com qual deles elas gostariam mais de brincar, sendo o Homem de Ferro o vencedor. Talvez a principal característica que fez com que o Homem de Ferro fosse o preferido das crianças, entretanto, também seria a causadora da maior dificuldade da Marvel na pré-produção do filme: ele se parecia com um robô.

Acontece que o Homem de Ferro não era tão popular dentre os que não conheciam os quadrinhos Marvel quanto, por exemplo, o Homem-Aranha ou o Capitão América, e, através de uma pesquisa, a Marvel descobriu que a maioria das pessoas achavam que ele era um robô, e não uma pessoa usando uma armadura. Isso fez com que fosse extremamente difícil para a Marvel conseguir um roteirista interessado em escrever um roteiro fiel aos quadrinhos, pois a maioria deles nem sabia como era o personagem nos quadrinhos, e não estava disposto a ler histórias de um personagem obscuro para descobrir. Segundo o produtor associado Jeremy Latham, mais de trinta roteiristas recusaram o convite da Marvel, que preferiu, então, adotar outra estratégia pouco ortodoxa: criou grupos de trabalho para convencer as pessoas de que o Homem de Ferro não era um robô, lançou três curta-metragens animados para que o personagem se tornasse mais conhecido, e contratou o diretor antes de ter um roteiro.

Antes de sair da Marvel, Arad conversou com Jon Favreau, que havia conhecido durante as filmagens de Demolidor (no qual Arad foi produtor executivo e Favreau interpretou o personagem Foggy Nelson, melhor amigo de Matt Murdock, o Demolidor), e o convidou para dirigir Homem de Ferro. Favreau, que até então tinha mais experiência como ator do que como diretor, só tendo dirigido três filmes (Crime Desorganizado, Um Duende em Nova Iorque e Zathura: Uma Aventura Espacial), todos com um toque de comédia, aceitaria na hora, e declararia que seu intuito era fazer um filme com um quê de espionagem e intriga internacional, misturando elementos de Tom Clancy, James Bond e Robocop. Segundo ele, seria a jornada de um homem que tem de se redescobrir e se reinventar após descobrir que o mundo é muito mais complicado do que ele acreditava.

Favreau optaria por manter a origem e a jornada do Homem de Ferro o mais próxima possível dos quadrinhos originais da década de 1960, mas, como o filme seria ambientado na época atual, substituiria a Guerra do Vietnã pela do Afeganistão. Ele chamaria uma equipe de pesos-pesados dos roteiros da Marvel, composta por Mark Millar, Brian Michael Bendis, Joe Quesada, Tom Brevoort, Axel Alonso e Ralph Macchio, para garantir que o roteiro tivesse fidelidade aos quadrinhos, e contrataria duas duplas de roteiristas (Art Marcum e Matt Holloway, Mark Fergus e Hawk Ostby) para escrever dois roteiros diferentes, com John August juntando ambos e fazendo um roteiro só.

Uma parte complicada do roteiro foi escolher o vilão do filme. Favreau não acreditava que o Mandarim, arqui-inimigo do Homem de Ferro, seria um vilão plausível para o tipo de filme que ele estava escrevendo, já que seus anéis seriam um elemento por demais fantasioso em um filme que deveria ter um tom futurista, mas realístico. Nas primeiras versões do roteiro, o vilão seria o Dínamo Escarlate, e Obadiah Stane, que nos quadrinhos é o vilão Monge de Ferro, seria apenas um coadjuvante, não chegando a usar sua armadura no filme. Mas, quando Jeff Bridges aceitou o papel de Stane, Favreau decidiu promovê-lo a vilão, dando a ele, também, uma armadura, como nos quadrinhos - é interessante notar que, no filme, Stane jamais usa o nome Monge de Ferro, exceto em uma piada; também vale citar que o nome do personagem em inglês, Iron Monger, traduz para algo como "industrial de ferro", ficando a parte do monge por conta de muita criatividade na tradução dos quadrinhos de quando ele apareceu pela primeira vez no Brasil. Após decidir que Stane seria o vilão, Favreau pediria para que o Mandarim fosse "uma presença maligna" no filme, mais ou menos como Sauron em O Senhor dos Anéis ou o Imperador Palpatine em O Império Contra-Ataca, pensando em utilizá-lo em uma possível sequência do filme.

Favreau também seria responsável por escolher pessoalmente o ator que interpretaria Tony Stark, o homem que criou e veste a armadura do Homem de Ferro. Inicialmente, ele declararia estar atrás de um ator desconhecido, pois, em sua opinião, as estrelas dos filmes de super-heróis são os super-heróis, não importando muito quem os interprete, inclusive citando os exemplos de Hugh Jackman, o Wolverine de X-Men, e de Tobey Maguire em Homem-Aranha, na época nenhum dos dois parte do primeiro time. Em setembro de 2006, entretanto, ele surpreenderia e anunciaria que Robert Downey, Jr. havia sido escolhido para o papel. Hoje, Downey é quase uma unanimidade, e parece ter sido uma escolha perfeita, mas, na época, esse anúncio foi extremamente controverso: após ficar muito famoso com comédias nos anos 1980, Downey teria um problema sério com drogas nos anos 1990, e passaria a ser considerado uma aposta de alto risco pela maioria dos estúdios. Favreau justificaria sua escolha comparando a jornada pessoal de Downey com a de Stark: assim como o herói dos quadrinhos, o ator teve seus melhores e piores momentos testemunhados pelo público, e teve de superar obstáculos que iam muito além de sua vida profissional.

O único outro ator que Favreau escalaria seria ele mesmo no papel de Happy Hogan, o secretário pessoal de Stark. Terrence Howard como o Coronel da Aeronáutica James Rhodes, melhor amigo de Stark; Gwyneth Paltrow como Pepper Potts, que nos quadrinhos é interesse romântico de Happy, mas no filme seria interesse romântico de Stark; e Shaun Toub como Yinsen, cientista que ajuda Stark a criar sua primeira armadura, seriam escalados pela direção de elenco dos Marvel Studios, assim como Bridges para o papel de Stane. Completam o elenco Paul Bettany como a voz de Jarvis, a inteligência artificial que atua como "mordomo" de Stark, e Clark Gregg como Phil Coulson, agente da S.H.I.E.L.D., uma organização de segurança global que deseja interrogar Stark sobre o tempo que ele passou em cativeiro.

Outra opção de Favreau seria não fazer as armaduras do Homem de Ferro e do Monge de Ferro completamente em computação gráfica, para que elas fossem mais realísticas - assim como evoluir a armadura do Homem de Ferro em etapas, para dar a ideia de um trabalho contínuo. Stan Winston, um dos maiores especialistas em efeitos especiais de Hollywood e fã dos quadrinhos do Homem de Ferro, seria escalado para fazer versões em metal e em borracha de todas as armaduras, algumas, inclusive, com funções de animatronics, ficando os estúdios Industrial Light & Magic, The Orphanage e The Embassy a cargo da computação gráfica. A armadura que daria mais trabalho seria a do Monge de Ferro, com um modelo em escala sendo criado para ser usado nas cenas de sua construção, e um enorme animatronic de 3 m de altura e 360 kg sendo usado na maioria das cenas, com a computação gráfica só assumindo nas cenas de luta, para as quais o animatronic não tinha mobilidade.

A primeira armadura do Homem de Ferro, apelidada Mark I, teria uma aparência propositalmente rústica, já que seria feita de peças sobressalentes no meio do deserto; ela pesaria 41 kg (o que causou preocupação quando o dublê que a vestia tropeçou e caiu; felizmente ninguém se feriu), seria muito mais bem trabalhada na parte da frente que na de trás, já que Stark precisaria de mais proteção pela frente, e era composta apenas pela parte de cima, sendo a parte da cintura para baixo feita de alumínio e tecido. A segunda armadura, prateada, apelidada Mark II, tinha uma versão "real" de pouca mobilidade, sendo usada computação gráfica nas cenas em que ela aparece voando ou em movimento. A armadura final, Mark III, tinha um pouco mais de mobilidade, mas, mesmo assim, em quase todo o filme é usada computação gráfica, com Downey efetivamente vestindo a armadura em poucas cenas. A aparência das armaduras do Homem de Ferro ficaria a cargo do artista da Marvel Adi Granov, com o ilustrador Phil Saunders fazendo as modificações necessárias para que elas se tornassem mais realísticas. A primeira versão do roteiro previa ainda uma armadura Mark IV, que seria cheia de armas como a do Máquina de Combate, e usada pelo Homem de Ferro em sua luta final contra o Monge de Ferro; para cortar custos e dar mais agilidade ao roteiro, essa quarta armadura seria descartada ainda na pré-produção.

Também foi opção de Favreau colocar as Indústrias Stark e a casa de Tony Stark na Califórnia, na Costa Oeste, ao invés de no estado de Nova Iorque, na Costa Leste, como nos quadrinhos; segundo ele, já havia muitos filmes de super-heróis ambientados em Nova Iorque, e estava na hora de fazer algo diferente. Nenhuma cena seria filmada no Afeganistão; a caverna na qual Stark passa seu tempo cativo foi totalmente construída em estúdio, e as cenas externas seriam filmadas nas Dunas de Olancha, na Califórnia. Apenas o interior da casa de Stark era real, construído em estúdio, tendo sido o exterior criado em computação gráfica e adicionado digitalmente à praia de Point Dume, em Malibu. Uma característica curiosa do filme foi que, quando as filmagens começaram, o roteiro ainda não estava concluído, então os atores tiveram de improvisar muitas falas - Favreau, inclusive, estimulava o improviso, dizendo que os diálogos ficariam mais naturais. Dentre as cenas improvisadas estariam a apresentação do míssil Jericó, e a coletiva de imprensa na qual Stark fala sentado no chão comendo um hambúrguer.

Um dos elementos mais surpreendentes e comentados do filme, a cena pós-créditos, na qual Nick Fury (Samuel L. Jackson) convida Stark para fazer parte dos Vingadores, também seria gravada quase de improviso: Bendis escreveria três páginas de opções de diálogos, e Downey e Jackson escolheriam a melhor momentos antes da filmagem - que ocorreria com uma equipe mínima, que contava apenas com o pessoal absolutamente necessário, para evitar que sua existência fosse divulgada à imprensa. Mesmo com todo o segredo, rumores sobre a existência da cena surgiriam na internet dias após sua gravação, o que levaria Feige a ordenar que ela fosse retirada das versões de avaliação do filme, para que eles não se confirmassem e a surpresa do público nos cinemas não fosse estragada.

Homem de Ferro estrearia nos Estados Unidos em 2 de maio de 2008, após várias pré-estreias pelo mundo. Ainda preocupadas com a baixa popularidade do personagem, Marvel e Paramount fariam uma campanha de marketing maciça, que incluía um comercial exibido no intervalo do Super Bowl (o horário mais caro para qualquer comercial na TV norte-americana). No fim, felizmente, tudo deu certo: com orçamento de 140 milhões de dólares, o filme renderia quase 320 apenas nos Estados Unidos, além de ter a segunda melhor bilheteria da história deu um dia de estreia para um filme que não fosse uma sequência (atrás apenas de Homem-Aranha). A crítica também receberia muito bem o filme, com quase todos os críticos lhe dando a nota máxima em suas avaliações. Homem de Ferro ainda seria indicado a dois Oscars técnicos, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Edição de Som, mas não ganharia nenhum dos dois.

Ah, sim, a história do filme: Tony Stark é um industrial milionário do ramo armamentista, que parece satisfeito em viver a vida esbanjando dinheiro, se comportando como um playboy irresponsável e sem querer saber das consequências de seus atos. Um dia, durante uma viagem para o Afeganistão para divulgar uma nova arma, ele é sequestrado por um grupo terrorista, que quer obrigá-lo a construir uma arma para eles. Durante o sequestro, estilhaços de uma bomba se alojam próximos ao coração de Stark, que morreria se não fosse pela intervenção de seu "colega de cela" Yinsen, que constrói um eletro-imã que impede que os estilhaços cheguem ao coração.

Ao invés de construir a arma para os terroristas, Stark bola um plano: construindo um novo aparelho que não somente afasta os estilhaços de seu coração mas também gera energia, ele cria uma armadura que permite que ele fuja de seu cativeiro. Ao voltar para os Estados Unidos, ele decide mudar sua vida, passando a investir em energia renovável e abandonando de vez a fabricação de armas - algo com o qual seu sócio, Obadiah Stane, não concorda. Além disso, ele passa a fazer várias modificações no projeto da armadura que construiu no Afeganistão, tornando-a mais leve e fácil de usar. Ao perceber que ele pode usá-la para fazer a diferença em um mundo destroçado pela guerra, ele decide se transformar no Homem de Ferro, e enfrentar os terroristas em seu próprio campo. Stark não sabe, porém, que há uma ameaça muito maior bem debaixo de seu nariz...

Para terminar, cada filme do MCU tem uma participação mais do que especial de Stan Lee, em algum pequeno papel, e eu pretendo listar todas. Em Homem de Ferro, Lee aparece como um convidado de uma festa, a quem Stark confunde com Hugh Hefner, o criador da revista Playboy.

O Incrível Hulk
The Incredible Hulk
2008

Diferentemente dos outros filmes da Fase 1 do MCU, esse não foi distribuído pela Paramount, e sim pela Universal, que, até hoje, detém os direitos para o cinema do Hulk. Ao contrário do que muitos pensam, porém, ele foi sim produzido pelos Marvel Studios, e não pela Universal, que só o distribuiu. A crença vem do fato de que, de todos os filmes do MCU, ele é o menos "conectado" com os demais, com praticamente nada do que acontece nele sendo refletido nos outros filmes - até mesmo o ator que interpreta Bruce Banner, a identidade não tão secreta do Hulk, seria trocado antes do filme dos Vingadores. Essa característica faz com que muitos considerem que O Incrível Hulk não precisa ser considerado como parte integral da história do MCU, podendo ser, por exemplo, "pulado" em uma maratona de todos os filmes. Ainda assim, ele é parte oficial do MCU, e, por isso, está sendo abordado aqui.

Ao contrário do que ocorria com o Homem de Ferro, o Hulk sempre foi um dos heróis mais populares da Marvel. O fato de ele ter sido protagonista de uma série de TV exibida pela CBS entre 1977 e 1982, estrelada por Bill Bixby, Jack Colvin e Lou Ferrigno, com um total de cinco temporadas, 80 episódios e cinco filmes para a TV também contribuiu para que ele fosse bastante conhecido do púbico em geral, não só dos fãs de quadrinhos. Quando a Marvel anunciou que licenciaria seus personagens para o cinema, portanto, o Hulk foi o primeiro a ser licenciado, ainda em 1992, para a Universal. A produção do primeiro filme do Golias Esmeralda, porém, foi bastante turbulenta, com várias versões de roteiro sendo escritas e rejeitadas, incluindo uma na qual o vilão seria um presidiário capaz de se transformar em um besouro gigante. Até mesmo J.J. Abrams chegou a escrever uma versão do roteiro, numa época em que Jonathan Hensleigh (que viria a ser o diretor do filme do Justiceiro de 2004) estava no projeto como diretor. Quando a previsão do orçamento chegou a 100 milhões de dólares, a Universal cancelou tudo, e suspendeu o projeto por tempo indeterminado.

O sucesso do filme dos X-Men, entretanto, levaria a Universal a desengavetar o projeto, dessa vez com Ang Lee na direção. Estrelando Eric Bana, Jennifer Connelly, Sam Elliott e Nick Nolte, Hulk estrearia em 2003, e, apesar de ter recebido algumas críticas positivas, foi um fracasso doméstico de bilheteria, rendendo 132 milhões de dólares contra um custo de 137 milhões - embora os rendimentos internacionais tenham quase dobrado essa quantia. A Universal chegou a planejar uma sequência, com data de lançamento prevista para 2005, mas problemas para encontrar um roteiro satisfatório fariam com que ela fosse adiada. Quando os Marvel Studios foram criados, Arad convenceu a Universal a passar o controle criativo da sequência para a Marvel, e, quando o MCU entrou em cena, Feige achou melhor desconsiderar tudo o que havia acontecido no filme de Ang Lee - que, oficialmente, ocorre em um "universo paralelo" - e fazer um reboot, que realmente introduzisse o Hulk no MCU. Assim surgiria O Incrível Hulk.

Quando soube que a Marvel estava produzindo Homem de Ferro, Louis Leterrier se ofereceu para dirigi-lo, sem saber que Arad já havia fechado com Favreau. Arad, então, lhe ofereceu dirigir O Incrível Hulk. Fã da série dos anos 1970, Leterrier tinha muito interesse, mas, achando que se tratava de uma sequência, expressou estar preocupado em não conseguir manter o mesmo estilo de Ang Lee, só aceitando quando a Marvel lhe garantiu que era um reboot, e ele poderia fazer da forma que quisesse. O diretor, então, decidiria fazer o filme baseado na minissérie Hulk: Gray, de Jeph Loeb e Tim Sale, que recontava a origem do Hulk, adicionando alguns elementos que fizessem referência à série de TV, como a origem do personagem, através de uma pesquisa com raios gama, como na série, e não de uma bomba, como nos quadrinhos. Leterrier, aliás, optaria por não fazer um "filme de origem": Banner já começa o filme como Hulk, e sua origem é mostrada apenas rapidamente, em flashbacks ao longo do filme - segundo o diretor, o filme é ambientado cerca de cinco anos após Banner se transformar em Hulk pela primeira vez.

O roteiro ficaria a cargo de Zak Penn, co-roteirista de X-Men 2 e X-Men: O Confronto Final, que havia escrito um dos roteiros rejeitados para o primeiro filme do Hulk, em 1996. Penn usaria esse roteiro como base, fazendo as alterações que Leterrier havia determinado. Logo no início da pré-produção, Edward Norton seria contratado para interpretar Bruce Banner, e, por alguma razão, negociaria para ser também o roteirista do filme. Norton, porém, não escreveria um roteiro do zero, apenas alterando quase todos os diálogos escritos por Penn. Apesar disso, a Guilda dos Roteiristas da América (o órgão de classe dos roteiristas dos Estados Unidos) determinaria que apenas Penn poderia ser creditado no filme como roteirista, já que Norton não havia alterado o enredo, a estrutura, nem os personagens, apenas suas falas.

No início do filme, Banner está se escondendo no Rio de Janeiro, cidade na qual as filmagens aconteceram durante 88 dias, nos bairros da Lapa, Santa Teresa e Rocinha e na Floresta da Tijuca, com a participação da atriz brasileira Débora Nascimento; a participação de Stan Lee se dá no papel de um homem que compra um suco produzido na fábrica na qual Banner e a personagem de Débora trabalham. Outra cidade fora dos EUA na qual ocorreram gravações foi Toronto: o Prefeito de lá na época, fã dos quadrinhos do Hulk, se ofereceu para fechar qualquer rua da cidade pelo tempo que fosse preciso para que pudesse ser gravada a batalha final do filme, com a condição de que tudo fosse consertado depois; apesar de explodir vários pedaços do asfalto e de deixar vários carros (cenográficos) capotados e em chamas, a equipe de filmagens conseguiria deixar tudo em ordem apenas 20 minutos após o final das gravações. Aproveitando que o Hulk é verde, a equipe de filmagens também se esforçou para fazer o filme o mais ecologicamente possível, usando o máximo de materiais recicláveis e o mínimo de emissões de carbono.

Para vilão do filme, Leterrier escolheria o Abominável, que, nos quadrinhos, foi criado pelos raios gama como o Hulk, mas não consegue retornar à forma humana, o que faz com que ele seja ainda mais revoltado que o herói; para o papel do homem que acabaria se transformando no Abominável, o fuzileiro naval Emil Blonsky, seria escolhido Tim Roth, que já tinha experiência em interpretar personagens não-humanos graças à sua participação em O Planeta dos Macacos, de Tim Burton. O arqui-inimigo do Hulk, entretanto, não é o Abominável, e sim o General Thaddeus "Thunderbolt" Ross, militar que devota sua vida a capturar o herói, que ele considera como um monstro; para o papel do General Ross, seria escolhido o veterano ator William Hurt. Para desgosto de Ross, sua filha, Betty, interpretada no filme por Liv Tyler, era namorada de Banner antes do acidente, e continua apaixonada por ele, seguindo o Hulk pelo país e o ajudando a escapar do pai. Outros personagens dos quadrinhos do Hulk a aparecer no filme, mas sem poderes adquiridos pelos raios gama, são o psiquiatra Leonard Samson, interpretado por Ty Burrell, que começa um relacionamento romântico com Betty enquanto Banner está desaparecido; e o geneticista Samuel Sterns, interpretado por Tim Blake Nelson, que se corresponde a distância com Banner para tentar achar uma cura para sua transformação em Hulk - nos quadrinhos, Sterns é o vilão Líder, e, durante muito tempo, era certeza que ele seria o vilão da sequência do filme, que acabaria jamais realizada. Lou Ferrigno, que interpretava o Hulk na série de TV, faria a voz do Hulk no filme, além de ter uma pequena participação como um segurança; Robert Downey, Jr. também faria uma pequena participação, na cena pós-créditos, como Tony Stark.

Os efeitos de computação gráfica do filme ficariam por conta do estúdio Rhythm and Hues. Leterrier chegou a pensar em fazer animatronics do Hulk e do Abominável, para que eles não fossem de CG em todas as cenas, mas desistiria - o único animatronic no filme acabaria sendo uma cabeça de Sterns usada em uma cena em seu laboratório. Ele também optaria por fazer o Hulk mais musculoso e menor que o do filme de Ang Lee, para torná-lo mais realístico; a transformação de Banner em Hulk seria inspirada na da série (com os olhos de Banner mudando de cor primeiro) e na do personagem principal de Um Lobisomem Americano em Londres - segundo Leterrier, para demonstrar o quão dolorosa era a transformação para Banner. O Abominável, como o próprio nome sugere, seria muito mais grotesco que o Hulk, mas não teria a mesma aparência reptiliana dos quadrinhos, para não confundir a audiência; ele também seria maior que o Hulk, e andaria de forma mais desengonçada, como se ainda não estivesse acostumado com sua transformação. Os movimentos do Hulk e do Abominável foram filmados usando a mesma técnica de captura de movimentos usada com Andy Serkis para o Gollum de O Senhor dos Anéis e o Kong de King Kong, usando Norton e Roth para maior veracidade, e dublês para as cenas mais complexas.

No filme, Banner é um cientista contratado pelo exército dos Estados Unidos que tenta usar raios gama para repetir a experiência que transformou o Capitão América em um supersoldado, mas, graças a um acidente, passa a se transformar no Hulk toda vez que os níveis de adrenalina em seu sangue se elevam. Depois do acidente, Banner passa a ser considerado propriedade do exército, que quer transformá-lo em uma arma, e, para não ser encarcerado, decide fugir pelo mundo, se escondendo enquanto busca uma cura para sua condição. Após ser descoberto no Brasil, Banner decide voltar aos Estados Unidos, se reencontrar com sua antiga namorada, Betty Ross, e realizar um experimento para tentar se curar. Mas o comandante da força-tarefa responsável por capturar o Hulk, Emil Blonsky, está disposto a fazer qualquer coisa para alcançar seu objetivo, inclusive abrir mão de sua humanidade.

Durante a edição, haveria uma certa discussão quanto à duração do filme: Norton e Leterrier queriam uma versão final com por volta de 135 minutos, enquanto os produtores queriam que o filme tivesse menos de duas horas; os produtores acabariam vencendo, e a versão final teria 112 minutos, o que teria dado origem a um boato de que Norton teria se recusado a participar da promoção do filme com essa duração, desmentido várias vezes pelo ator durante as entrevistas. Mais de 70 minutos de filmagens, incluindo uma abertura alternativa e várias cenas da origem do Hulk, seriam descartados durante a edição, sendo muitas dessas "cenas extras" incluídas no lançamento do filme em DVD e Blu-ray, mas algumas permanecendo inéditas até hoje; na abertura alternativa, Banner está no ártico, e, durante cerca de um segundo, é possível ver o corpo do Capitão América congelado em uma geleira.

O Incrível Hulk estrearia em 8 de junho de 2008, cerca de um mês após Homem de Ferro. Com orçamento de 150 milhões de dólares, renderia 135 milhões nos Estados Unidos, mas, graças a outros 128 milhões arrecadados em outros países, e ao fato de que as expectativas da Universal para o filme eram bem mais baixas que as em relação ao Hulk de Ang Lee, acabaria sendo considerado um sucesso. A crítica ficaria dividida, elogiando as cenas de ação mas considerando o roteiro fraco; muitos críticos também considerariam que o filme sofreria por ser comparado com Homem de Ferro, bastante superior em termos de roteiro e ainda fresco na memória de quem assistiu aos dois.

O Incrível Hulk seria, por enquanto e muito provavelmente, o primeiro e último filme solo do Hulk no MCU. Seguindo um padrão adotado pela Marvel de contratar os atores para múltiplos filmes, Roth, Hurt e Tyler assinariam contrato para três filmes, mas Norton preferiria assinar "filme a filme"; quando chegasse a hora de assinar o contrato para o filme dos Vingadores, ele se recusaria, alegando não desejar mais interpretar Banner "em nome da diversidade", para "não ficar marcado por um único papel". Mark Ruffalo, que era o ator preferido de Leterrier para o papel antes de a Marvel escolher Norton, acabaria sendo contratado para interpretar Banner nos filme dos Vingadores e nos futuros filmes do MCU. Leterrier expressaria mais de uma vez seu desejo de dirigir uma sequência de O Incrível Hulk, mas, após o filme dos Vingadores, que encerrou a Fase 1, a Marvel lhe diria que não havia filme do Hulk previsto para a Fase 2, e que a próxima aparição do personagem se daria apenas no segundo filme dos Vingadores.

O maior obstáculo à realização de um novo filme do Hulk é que a Universal ainda detém os direitos de distribuição do personagem, os quais a Marvel ainda não conseguiu recuperar. Trocando em miúdos, a Universal não pode dizer nada caso a Marvel queira usar o Hulk em filmes dos Vingadores ou de outro de seus heróis (como em Thor: Ragnarok), mas, caso a Marvel faça um novo filme estrelado pelo Hulk, a Universal é que deverá distribuí-lo, fato que não agrada à Disney, atual distribuidora dos filmes dos Marvel Studios. Até que esse obstáculo seja transposto, Hulk será apenas um convidado de luxo nos filmes do MCU, nunca sua estrela principal.

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