sábado, 29 de novembro de 2025

Escrito por em 29.11.25 com 0 comentários

A Grande Família

Eu já não assisto TV aberta faz um tempo, no máximo a um noticiário. Na época em que eu assistia, evidentemente tinha meus programas favoritos, nem todos importados. Um dos que eu gostava mais era A Grande Família, e, por algum motivo, depois de fazer o posto sobre o Chaves, fiquei com vontade de fazer um sobre ele também. Assim, hoje é dia de A Grande Família no átomo!


Antes de começar a falar sobre A Grande Família da qual eu gosto, entretanto, é preciso voltar no tempo. Isso porque A Grande Família é a nova versão de um outro programa, da década de 1970, também chamado A Grande Família - que, por sua vez, foi concebido para ser a versão brasileira de um seriado norte-americano chamado All in the Family (que, por sua vez, era a versão norte-americana de um seriado da BBC chamado Till Death Us Do Part, mas isso não é importante para a história).

All in the Family estrearia no canal CBS em 1971, e faria grande sucesso mostrando o dia a dia de uma família de classe média sob uma ótica inovadora para a época - o seriado seria o primeiro da televisão dos Estados Unidos a tratar de temas como racismo, antissemitismo, infidelidade, homossexualidade, direitos da mulher, estupro, aborto, câncer de mama, menopausa, divórcio, impotência e a Guerra do Vietnã, também sendo o primeiro no qual um dos protagonistas falava palavrões. Como, na época, o Brasil vivia uma ditadura militar, o seriado jamais seria exibido em nosso país sem uma pesada censura, de forma que a Globo, que tinha a opção de compra dos direitos, decidiria, ao invés de exibi-lo, criar uma versão nacional, menos, digamos, polêmica, mas mantendo a mesma ideia central. A missão de criar tal seriado caberia aos dramaturgos Oduvaldo Vianna Filho, conhecido como Vianninha, e Armando Costa, que a princípio fariam uma cópia quase exata de All in the Family, apenas mudando as situações vividas pelos personagens por outras mais próximas da realidade nacional.

Na versão original, a família seria composta por sete pessoas: o patriarca Lineu Silva (Jorge Dória), que trabalha como fiscal sanitário; sua esposa, Irene, apelido Dona Nenê (Eloísa Mafalda), que é dona de casa; e seus três filhos, Lineu Júnior (Osmar Prado), um estudante com opiniões revolucionárias sobre o mundo; Artur, apelido Tuco (Luiz Armando Queiroz), um hippie defensor da liberdade, que não para em emprego nenhum; e Maria Isabel, apelido Bebel (primeiro Djenane Machado, depois Maria Cristina Nunes), moça mimada e acostumada a ter todas as suas vontades realizadas por ser a caçula; além de dois agregados, Agostinho Carraro (Paulo Araújo), malandro que trabalha como garçom de um motel e é casado com Bebel; e Floriano Souza, apelido Seu Flor (Brandão Filho), pai de Nenê, um aposentado rabugento que passa o dia todo ou dormindo, ou discutindo com os netos.

Com direção de Milton Gonçalves, A Grande Família estrearia em 26 de outubro de 1972. E seria um gigantesco fracasso. O público não teria identificação com os personagens, achando que as situações e diálogos não correspondiam aos de uma família brasileira de classe média, e chegaria a escrever cartas para a Globo perguntando em qual Brasil aquelas pessoas viviam. Diante da repercussão negativa, a Globo suspenderia a produção após apenas seis episódios, e pediria para que Vianninha e Costa reformulassem a série, para que os protagonistas passassem a ser uma típica família suburbana da cidade de São Paulo. Abandonando qualquer semelhança com All in the Family, Vianninha e Costa, agora acompanhados pelos roteiristas Max Nunes e Roberto Freire, passariam a escrever histórias originais envolvendo temas como o alto custo de vida, desemprego e falta de perspectivas para os jovens. Gonçalves, envolvido com outros projetos, não poderia retornar à direção, e seria substituído por Paulo Afonso Grisoli; outra baixa seria a da atriz Djenane Machado, intérprete de Bebel nos seis primeiros episódios, que não concordaria com as mudanças feitas por Vianninha e Costa, e seria substituída por Maria Cristina Nunes sem maiores explicações.

As mudanças surtiriam efeito e, com menos de dois meses no ar, A Grande Família já seria uma das líderes de audiência de sua faixa. Ao todo, seriam produzidos 112 episódios (contando com os seis da primeira temporada), com o último indo ao ar em 27 de março de 1975. Um dos motivos do cancelamento seria o falecimento precoce de Vianninha, aos 38 anos, de câncer, em julho de 1974; Paulo Pontes assumiria seu lugar na equipe de roteiristas, que não conseguiria manter o mesmo nível, levando a uma queda acentuada na audiência. Toda a série original seria gravada e transmitida em preto e branco, exceto o último episódio, gravado e exibido a cores. Em 1987, a Globo gravaria um especial de Natal com todo o elenco original, ambientado 12 anos depois e apresentando os netos de Lineu e Nenê; curiosamente, nesse especial, Pedro Cardoso, que na nova versão interpreta Agostinho, interpretaria Surrão, um namorado de Bebel.

Pois bem, em 2000, o diretor Guel Arraes, após ler anotações originais de Vianninha para a série, acharia que um remake atualizado teria potencial para ser um sucesso de audiência, e apresentaria essa ideia à cúpula da Globo. Uma equipe de roteiristas composta por Marcelo Gonçalves, Bernardo Guilherme, Adriana Falcão e Cláudio Paiva seria reunida, e idealizaria a nova série no estilo de uma sitcom norte-americana, mas com a família Silva vivendo situações típicas de uma família suburbana do início dos anos 2000. Após ver que algumas situações pareciam artificiais e forçadas, eles decidiriam mudar algumas coisas em relação à versão original: primeiro, transfeririam a família de São Paulo para o Rio de Janeiro, transformando-os em moradores da Ilha do Governador, na Zona Norte, e os colocaria para morar numa casa, ao invés de em um apartamento de um conjunto habitacional como na primeira versão. Segundo, removeram o personagem Júnior, cuja principal função era fazer uma crítica política, algo bem diferente nos anos 2000 em relação aos anos 1970, transferindo essa incumbência para o Lineu pai. Terceiro, inverteriam as idades de Tuco e Bebel, para que Tuco, ao invés de hippie, fosse somente um jovem um tanto preguiçoso e despreocupado, sendo essas as razões pelas quais ele não trabalhava. Uma mudança bem menor seria no sobrenome de Agostinho, que passaria a ser Carrara ao invés de Carraro; outros personagens coadjuvantes também seriam criados, como o comerciante Beiçola e a vizinha Juva, para que as histórias não se concentrassem apenas na casa dos Silva, com muitas situações ocorrendo também na rua onde eles moravam.

Originalmente, a nova versão de A Grande Família deveria ser apenas um especial em homenagem à primeira versão, com quatro episódios exibidos em janeiro de 2001, que foram aumentados para 12 já durante as gravações. Após imprevistos nas gravações e com a grade da Globo, a série estrearia em 29 de março de 2001, uma quinta-feira, às 23 horas, após o programa Linha Direta; mesmo com o horário avançado, teria excelente audiência, e a Globo encomendaria mais cinco episódios, para um total de 17. A audiência não parava de subir, e o número de episódios acompanhava: no total, a primeira temporada teria 36 episódios, o último exibido em 23 de janeiro de 2002, quando a série já estava renovada para uma segunda temporada.

Na nova versão, o patriarca da família segue sendo Lineu Silva (Marco Nanini), veterinário de formação, que trabalha como fiscal sanitário em uma repartição pública. Sua esposa, Irene, conhecida como Nenê (Marieta Severo), é dona de casa e vive para a família. Eles têm dois filhos, Maria Isabel, apelido Bebel (Guta Stresser), moça mimada e um tanto escandalosa, que se veste no que poderia ser considerado um estilo precursor das it girls; e Artur, apelido Tuco (Lúcio Mauro Filho), que não gosta de trabalhar, sonha em ser músico, e não para em emprego formal nenhum. Na mesma casa moram ainda Agostinho Carrara (Pedro Cardoso), marido de Bebel, que está sempre tentando se dar bem às custas dos outros, principalmente de Lineu, e, na primeira temporada, assim como na série original, trabalha como garçom em um motel; e o pai de Nenê, Floriano Souza, apelido Seu Flor (Rogério Cardoso), aposentado que vive às turras com Lineu e dorme no sofá, já que não há um quarto na casa para ele.

Personagens coadjuvantes de importância na primeira temporada incluem Abelardo da Costa Ferreira, apelido Beiçola (Marcos Oliveira), advogado que raramente exerce a profissão e é dono de uma pastelaria do outro lado da rua em relação à casa dos Silva, ponto de encontro dos personagens em seus momentos de lazer, e que está sempre envolvido em confusões por ser apaixonado por Nenê e ver Lineu como um rival; Juva (Suely Franco), vizinha dos Silva que é uma espécie de namorada de Seu Flor, que está sempre visitando a família levando croquetes feitos por ela mesma como desculpa; e Almeidinha (Oswaldo Loureiro), chefe de Lineu na repartição. Participações especiais dignas de nota incluem Betty Faria como Selma, mãe de Agostinho, que foi chacrete e todos imaginavam estar morta, e Camila Pitanga como Marina, filha que Seu Flor teve fora do casamento e inadvertidamente se envolve com Tuco.

A primeira temporada teria direção de Mauro Mendonça Filho, substituído a partir da segunda por Maurício Farias, que ficaria até 2011, quando a direção seria assumida por Luis Felipe Sá. Paiva também sairia ao final da primeira temporada da equipe de roteiristas, que, ao longo da série, contaria com Falcão, Guilherme, Gonçalves, Bibi da Pieve, Cláudia Jouvin, Cláudio Torres Gonzaga, Mariana Mesquita, Maurício Rizzo, Mauro Wilson, Max Mallmann, Paulo Cursino, e alguns episódios escritos por Pedro Cardoso - que tinha o hábito de incluir "cacos", falas criadas por ele, que não estavam presentes no roteiro, em suas cenas, algo que, de início, desagradava Falcão. Na primeira temporada, muitos elementos dos roteiros de Vianninha seriam incorporados, atualizados, aos textos novos, prática que deixaria de ocorrer a partir da segunda temporada. Os atores também costumavam fazer reuniões com os roteiristas, nas quais podiam opinar sobre o que ocorreria com seus personagens em cada episódio.

Assim como na série original, os roteiros combinavam situações ficcionais com eventos que ocorriam com os espectadores, abordando política, violência, relações conjugais, papel dos idosos na sociedade, novelas, e até mesmo a Copa do Mundo. A Grande Família é considerada como a primeira produção brasileira a mostrar de forma ficcional o avanço social da chamada Classe C, se aproveitando do momento político e econômico vivido entre 2000 e 2014 para fazer com que a família Silva a cada temporada melhorasse um pouco mais de vida, algo que também estava ocorrendo com famílias da vida real, que assim se identificavam com os personagens.

Marco Nanini foi o primeiro ator convidado para o elenco, assinando contrato para apenas quatro episódios, e então recebendo por episódio até o final da primeira temporada, quando renovou para mais três anos. De início, a preferida para o papel de Nenê era Marília Pêra, que não aceitou; Marieta Severo estava trabvalhando com Guel Arraes na novela Laços de Família, sendo convidada diretamente pelo diretor e começando a gravar no dia seguinte ao encerramento das filmagens da novela - para ficar com o cabelo cacheado de Nenê, a atriz tinha de passar uma hora e meia no cabeleireiro antes de cada dia de gravações. Pedro Cardoso seria convidado para interpretar Lineu Júnior, e, quando o personagem foi excluído, decidiu fazer o teste para Agostinho, sendo considerado ideal para o papel. O preferido para o papel de Tuco era André Marques, o Mocotó de Malhação, que não foi bem no teste; Lúcio Mauro Filho seria aconselhado a tentar por Mauro Mendonça Filho, e, durante os testes, se encontrou por acaso com Guta Stresser, sua amiga de longa data. Os dois fizeram o teste juntos, e tiveram tanta química que imediatamente foram convidados para interpretar Tuco e Bebel. Rogério Cardoso seria o último do elenco principal a ser convidado, sem precisar participar de testes, poucas semanas antes de se iniciarem as gravações.

As gravações aconteceriam no Projac, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, usando uma rua cenográfica construída especialmente para a produção; as gravações ocorreriam em estúdio sempre às segundas e terças-feiras, e na rua cenográfica às quartas-feiras, com cada episódio sendo finalizado em três dias. A Grande Família era considerado um dos programas mais rentáveis da Globo, pois cada episódio custava mais ou menos o mesmo que um episódio de novela, mas o preço de cada inserção nos intervalos comerciais era muito maior - o quarto maior da emissora, atrás apenas da novela das nove, do Jornal Nacional e do Fantástico.

A abertura era um dos grandes destaques da série: contando com a música A Grande Família, composta por Tom da Bahia e Dito em 1972 para a série original, regravada por Dudu Nobre, na primeira temporada ela mostrava um álbum de família cujas fotos, de pessoas anônimas, mas algumas com os rostos substituídos pelos dos atores que interpretam os personagens da família Silva, vão passando rapidamente, mostrando o casamento de Lineu e Nenê, a gravidez de Nenê, o batizado de Bebel, a primeira comunhão de Tuco, e terminando com a família, nos dias atuais, sentada ao redor da mesa fazendo uma refeição. A abertura que ficaria mais famosa, porém, estrearia na segunda temporada, e mostraria versões animadas dos personagens, começando com Lineu protestando contra a ditadura, conhecendo Nenê, se casando, o nascimento de Bebel e Tuco, o namoro e o casamento de Bebel e Agostinho, e terminando com Lineu tentando tirar uma foto de toda a família.

A partir da segunda temporada, A Grande Família passaria para o horário das 22 horas, substituindo Linha Direta e indo ao ar logo depois da novela das nove. Mesmo com vários episódios tendo de ter seu horário alterado devido à Copa do Mundo e às eleições, a audiência aumentaria a cada semana, com a série fechando o ano como um dos programas mais assistidos da Globo. A segunda temporada teria mais 37 episódios, exibidos entre 4 de abril e 26 de dezembro de 2002. Juva e Almeidinha seriam removidos da série, mas estreariam dois personagens importantíssimos: Mendonça (Tonico Pereira), novo chefe de Lineu, e Marilda (Andréa Beltrão), melhor amiga de Nenê e dona de um salão de cabeleireiro na mesma rua onde mora a família Silva. Além do salão de Marilda, a rua cenográfica ganharia outra construção de destaque, o restaurante Petisco da Velha, uma referência ao famoso Petisco da Vila, em Vila Isabel. Outra grande mudança seria que Agostinho abandonaria o emprego no motel para se tornar motorista de táxi, com muitas das cenas cômicas da série passando a envolver suas confusões com corridas e passageiros. Participações especiais de destaque incluem Ana Rosa como Genoveva, nova namorada de Seu Flor; Diogo Vilela como Remela, amigo de infância de Agostinho que entrou para o crime; Lília Cabral como Margot, amiga de infância de Nenê que tem inveja de seu casamento com Lineu; e Francisco Cuoco como Oduvaldo Carrara, pai de Agostinho, malandro como o filho.

Até o final da segunda temporada, todas as histórias eram centradas na família Silva; a partir da terceira, alguns episódios passariam a ser centrados também em Marilda, Mendonça e em outros coadjuvantes, como Viviane (Leandra Leal), namorada de Tuco que trabalha como caixa de supermercado e cuja família mora em São Paulo, que engravida dele e dá à luz o primeiro neto de Nenê e Lineu, Nelsinho, no meio da ceia de Natal; e Juvenal (Francisco Milani), irmão de Seu Flor que mora em Governador Valadares, e, sempre que visita Nenê, cria confusão por ser extremamente rabugento, teimoso e metódico, características que lhe renderiam o apelido de Tio Mala. Participações especiais de destaque incluem Pedro Paulo Rangel como Frank, irmão de Lineu, com quem o patricarca da família Silva não se dá bem desde criança, por considerá-lo desonesto; Alexandre Zacchia como Dentada, criminoso com quem Agostinho faz negócios escusos; e Fábio Assunção como Maurício, ex-namorado de Bebel que abala seu casamento com Agostinho. Bebel, aliás, passa a trabalhar no salão de Marilda na terceira temporada, trazendo mais oportunidades para histórias.

A terceira temporada teria mais 37 episódios, exibidos entre 10 de abril e 25 de dezembro de 2003. Rogério Cardoso faleceria de infarto fulminante aos 66 anos, dormindo em sua casa, durante as gravações do 19o episódio, que teve de ter seu roteiro modificado para ser concluído sem ele. Durante algum tempo, a equipe de produção ficaria sem saber como proceder, se escalava outro ator para o mesmo personagem, se fazia um episódio no qual Seu Flor também morria, ou se reescrevia os roteiros ainda por gravar para remover sua participação; após uma reunião com o elenco, ficaria decidido que o ator era insubstituível, e que um episódio tratando de seu falecimento seria muito triste, então os roteiros restantes foram alterados, e a morte do Seu Flor seria apenas mencionada rapidamente pelos personagens - ainda assim, o personagem do Tio Mala seria inicialmente criado somente para substituir Seu Flor nas histórias que não funcionariam sem um idoso aposentado na casa, se tornando regular na série na temporada seguinte.

Após a morte de Rogério Cardoso, a abertura sofreria uma pequena alteração para remover Seu Flor, com algumas cenas sendo alongadas para que não fosse necessário cortar a música; em 2004, Andréa Beltrão seria promovida ao elenco fixo (que, até então, só contava com os membros da Família Silva), e a abertura novamente seria alterada, passando a contar com a presença de Marilda. A quarta temporada teria mais 30 episódios, exibidos entre 15 de abril e 23 de dezembro de 2004.

Marilda seria um personagem importante na quarta temporada, na qual ela inicialmente volta a namorar Mendonça, que já havia sido seu noivo no passado; no final da temporada, ela começa um romance com Tuco, que Nenê não aprova devido à diferença de idade, após Viviane decidir ir morar com os pais em São Paulo, levando Nelsinho. Também na quarta temporada é revelado que Beiçola atravessa surtos psicóticos durante os quais acredita ser sua mãe, Dona Etelvina, se vestindo como ela e até mesmo falando com sotaque lusitano - sem saber que Beiçola e Etelvina são a mesma pessoa, o Tio Juvenal chega a se apaixonar por Etelvina, e quer levá-la para morar com ele em Governador Valadares. Outro acontecimento importante da quarta temporada é que Bebel e Agostinho se mudam para a casa ao lado, de propriedade de Beiçola, com Agostinho sempre tendo dificuldades para pagar o aluguel e Lineu vendo que o genro ter saído de sua casa não significava que estaria livre dele.

Com a casa ficando com um quarto livre, o Tio Juvenal vai morar com Lineu e Nenê, permitindo aos roteiristas mais uma vez explorar situações que precisariam de um idoso aposentado na casa; infelizmente, Francisco Milani estaria com a saúde deteriorada ao final da quarta temporada, não renovando contrato para a quinta e vindo a falecer em agosto de 2005 - diferentemente de Seu Flor, o Tio Juvenal não faleceria na série, com os personagens comentando que ele ainda morava em Governador Valadares, mas sem ser dada nenhuma explicação do porquê de ele jamais voltar a visitar a sobrinha.

A quinta temporada, de mais 36 episódios, exibidos entre 7 de abril e 22 de dezembro de 2005, contaria com a estreia de Paulo Wilson, vulgo Paulão da Regulagem (Evandro Mesquita), mecânico dono de uma oficina na rua da casa dos Silva que passa a ter um caso com Marilda, e com a participação especial de Virginia Cavendish como Maria Padilha, funcionária gostosona da repartição, em quem Mendonça fica de olho após terminar com Marilda, cismando que Maria e Lineu tem um caso; o ponto alto da temporada seria a participação de Tuco no Big Brother Brasil (em uma edição fictícia), com o personagem finalmente ganhando uma profissão: ex-BBB.

Após ganhar a oficina do Paulão na quinta temporada, a rua cenográfica ganharia, na sexta, o Esporte Clube Paivense, do qual Lineu é presidente e vários personagens da série são sócios; várias histórias da sexta temporada, que teria 37 episódios, exibidos entre 6 de abril e 21 de dezembro de 2006, envolveriam o clube e as tentaivas de Agostinho de ganhar algum dinheiro extra com suas instalações. A sexta temporada veria a estreia de três personagens importantes: Maria Angelina Carvalho, apelido Gina (Natália Lage), moça de família portuguesa que Tuco quer namorar somente para conseguir a cidadania e ir morar na Europa; Abigail Rocha (Márcia Manfredini), vizinha fofoqueira e invejosa, que não gosta de Nenê; e Genilson (William Guimarães), ex-motorista de ônibus e assistente de Beiçola na pastelaria, o que lhe renderia o apelido de Beiçolinha - Gina e Dona Abigail ficariam até o final da 11a temporada, enquanto Genilson ficaria até o final da série.

Na sexta temporada a abertura ganharia uma nova versão, mais uma vez contando com um álbum de fotos, como a primeira, mas nessa os rostos dos atores subsituíam os das pessoas em fotos cedidas pelo departamento de arte da Globo, usando um efeito no qual eles pareciam pular das fotos, mostrando claramente que os membros da família Silva (e Marilda) não eram originalmente as pessoas nas fotos. Na sétima temporada, Marcos Oliveira entraria para o elenco fixo, o que faria com que a abertura fosse levemente alterada, para também contar com fotos de Beiçola; em 2008, ocorreria uma nova alteração, com a entrada no elenco fixo de Tonico Pereira e Evandro Mesquita, e a abertura passando a mostrar também fotos de Mendonça e Paulão - além disso, a abertura seria convertida para o formato widescreen, já que, naquele ano, as televisões nesse formato começavam a se popularizar no Brasil.

Enquanto a sexta temporada estava no ar, seria gravado um filme para o cinema, chamado simplesmente A Grande Família - O Filme. Com direção de Maurício Farias, roteiro de Eduardo Figueira, Flavio Nascimento e Guel Arraes, e contando com Marco Nanini, Marieta Severo, Andréa Beltrão, Pedro Cardoso, Guta Stresser, Lúcio Mauro Filho, Tonico Pereira e Marcos Oliveira, no filme Lineu tem certeza de que vai morrer, e desiste de ir ao tradicional baile onde conheceu Nenê. Achando que ele perdeu o interesse nela, Nenê decide convidar para o baile um ex-namorado, Carlinhos (Paulo Betti), o que dá origem a várias confusões, dentre elas Mendonça achar que Lineu e Nenê estão se separando e querer de qualquer jeito que ele namore uma nova funcionária, Marina (Dira Paes). O filme é ambientado entre a sexta e a sétima temporadas, e, originalmente, sua história seria canônica - ele leva em conta tudo o que havia acontecido até a sexta temporada, e as temporadas seguintes deveriam levar em conta tudo o que acontece nele - mas, após a estreia da sétima temporada, ficaria claro que o filme é fora de cronologia, com vários de seus eventos sendo recontados de forma diferente em episódios da série. O filme estrearia em 26 de janeiro de 2007 e seria um sucesso moderado, com excelente bilheteria no primeiro fim de semana, mas caindo a cada semana subsequente, o que faria com que ele ficasse apenas seis semanas em cartaz.

Um dos fatos do filme que seria recontado na série seria a gravidez de Bebel: após anos tentando, ela finalmente consegue engravidar, dando a luz a um menino que decide chamar de Florianinho, em homenagem ao avô. Florianinho acaba se tornando o único neto de Lineu e Nenê, já que, na sétima temporada, é revelado que Nelsinho não é filho de Tuco, mas de seu amigo Fumaça (Rodrigo Penna), que teve um caso com Viviane pouco antes de ela e Tuco começarem a namorar - para piorar a situação, Fumaça é ex-namorado de Gina, e, sem saber qual dos dois quer, a moça decide namorar Fumaça e Tuco ao mesmo tempo. Ao longo da sétima temporada, que teve 37 episódios, exibidos de 12 de abril a 20 de dezembro de 2007, começariam a circular rumores de que esta seria a última, com inclusive membros do elenco dando declarações de que o nascimento de Florianinho seria um excelente ponto para encerrar a saga da família Silva. Os índices de audiência seguiriam altíssimos, entretanto, e, após uma reunião com a cúpula da Globo, todo o elenco principal aceitaria renovar para mais cinco anos de série.

A oitava temporada seria exibida entre 3 de abril e 18 de dezembro de 2008, com mais 38 episódios. Desta vez, quem decidiria ter dois namorados ao mesmo tempo seria Marilda, se alternando entre Paulão e Mendonça. Lineu decide se aposentar do serviço público, mas, incapaz de ficar em casa sem fazer nada, se aproveita de sua formação em veterinária para abrir uma pet shop em sociedade com Gina, colocando Tuco como seu funcionário. A história da pet shop não agradaria ao público, e, na nona temporada, sem maiores explicações, Lineu voltaria a ser fiscal sanitário e subordinado a Mendonça. A nona temporada, que teria mais 36 episódios, exibidos entre 16 de abril e 17 de dezembro de 2009, aliás, seria recheada de eventos polêmicos, como Lineu e Nenê descobrirem que seu casamento foi anulado porque o padre era casado e tendo de se casar de novo; Agostinho descobrindo que tem uma irmã, Fátima (Fabíula Nascimento); e Bebel, precisando de dinheiro, aceitando ser barriga de aluguel para o filho de um casal de amigos. Durante a nona temporada, a série chegaria a seu episódio de número 300, um especial no qual Tuco decide gravar um documentário sobre sua família para inscrever em um festival; em outro episódio especial, Nenê ganha ingressos para um show de Roberto Carlos.

Ao final da nona temporada, Andréa Beltrão pediria para sair de A Grande Família para atuar ao lado de Fernanda Torres em Tapas & Beijos, que teria roteiros de Cláudio Paiva e seria dirigido por Maurício Farias, marido de Andréa na vida real. Com isso, no início da décima temporada, que teria 36 episódios, exibidos entre 8 de abril e 23 de dezembro de 2010, Marilda viaja em busca de um grande amor e não volta mais, passando o salão para o nome de Nenê. A décima temporada teria a estreia de Pajé Murici (Luís Miranda), um vidente charlatão cujo nome verdadeiro é Craudionor, que seguiria na série até o final.

A décima-primeira temporada teria 38 episódios, exibidos entre 7 de abril e 22 de dezembro de 2011, e teria como maior destaque Agostinho e Paulão se tornando sócios em uma frota de táxis, na qual Tuco também vai trabalhar, após terminar seu namoro com Gina. A décima-primeira temporada traria dois personagens novos, que ficariam até o final da série: Danielle da Padaria (Nina Morena), periguete que dá em cima de Agostinho e por quem Paulão é apaixonado; e o irmão gêmeo de Paulão, Fábio (também interpretado por Evandro Mesquita), que é gay. Uma participação de destaque seria Laura Cardoso como Glória, a mãe de Lineu, que o abandonou na infância e agora retorna na velhice querendo reatar relações com o filho.

Para a nona temporada, a série teria uma nova abertura, que mostraria os personagens em diversos momentos de seu dia a dia, com a câmera "voando" por várias partes da cidade ao passar de um para outro, e traria Natália Lage creditada junto ao restante do elenco. Essa abertura seria modificada para a décima temporada, removendo Andréa Beltrão, e novamente para a décima-primeira, removendo Natália Lage. Uma abertura totalmente nova seria feita para a décima-segunda temporada: de computação gráfica e imitando os desenhos da Hanna-Barbera da década de 1970, ela mostraria os personagens em diversos momentos históricos, desde a pré-história até os tempos atuais; essa abertura também seria usada na décima-terceira temporada, com uma alteração na paleta de cores e o rosto de Florianinho estando à mostra - na décima-segunda, ele estava coberto por um elmo. A maior diferença, entretanto, seria que, para a décima-terceira temporada, a música-tema seria cantada na abertura por Ivete Sangalo; a justificativa da Globo para a mudança seria que a gravação de Dudu Nobre estava datada e não combinava com a nova abertura.

Entre a décima-primeira e a décima-segunda temporadas ocorreria uma passagem de tempo de quatro anos, durante os quais Lineu estaria em coma após ser atropelado. Ao acordar, ele tem de se acostumar a várias novidades, principalmente a de que Florianinho (antes interpretado por várias crianças diferentes) agora é um pré-adolescente de 12 anos (Vinícius Moreno), que parece ter herdado a malandragem de Agostinho e o jeito mimado de Bebel. Agostinho e Bebel agora são ricos, graças à frota de táxis de Agostinho, que tem como motoristas ele mesmo, Paulão e Murici; Tuco, que de vez em quando também dirige um dos táxis, se tornou um comediante de sucesso; e Nenê é dona de uma loja de roupas, que abriu para poder sustentar a família enquanto Lineu estava internado. A princípio, a loja foi aberta em sociedade com Kelly Aparecida (Katiuscia Canoro), uma mulher espevitada, levemente brega e divorciada de três maridos; Kelly seria criada como uma substituta de Marilda, tendo características semelhantes, mas não agradaria ao público e sumiria sem maiores explicações, sendo trocada por Everaldo Júnior (Fábio Porchat), filho de um amigo de infância de Lineu que a substitui como sócio na loja. Uma história recorrente da décima-segunda temporada é que Danielle está grávida, mas não sabe se o pai é Paulão ou Fábio; uma participação especial de destaque seria Luiz Fernando Guimarães como o Deputado Fontes, que ajuda Agostinho a se candidatar a vereador.

Durante a décima-segunda temporada, seria noticiado que Pedro Cardoso e Guta Stresser haviam brigado, que ele teria dito que ela é péssima atriz e que apareceria para gravar bêbada, e que ela teria ameaçado pedir demissão. Embora algumas postagens da atriz tenham dado a entender que o incidente realmente ocorreu, logo foram colocados panos quentes, e Lúcio Mauro Filho encerraria a polêmica dizendo que brigas entre o elenco eram normais devido ao estresse das gravações, mas que o grupo sempre passava por cima de tudo e seguia unido. No final de 2012, também surgiriam boatos de que Marco Nanini e Tonico Pereira haviam brigado, mas que não foram adiante, de forma que não se sabe qual situação teria desencadeado a briga nem como ela terminou.

A décima-segunda temporada teria mais 38 episódios, exibidos de 5 de abril a 20 de dezembro de 2012, e seria a última do contrato assinado pelo elenco após a sétima; como os índices de audiência ainda eram altíssimos, a Globo os covenceria a assinar para uma décima-terceira, mais curta, com 26 episódios exibidos entre 4 de abril e 26 de setembro de 2013, quando a série foi substituída no horário das quintas-feiras por The Voice Brasil. No final da décima-segunda temporada, Agostinho seria preso, e, ao sair da cadeia no início da décima-terceira, encontraria Bebel como dona da frota de táxis e empresária bem sucedida, ficando com extremos ciúmes de Paulão, sócio e braço-direito da moça e referência de pai de Florianinho, o que levaria a uma crise em seu casamento. Personagens novos da décima-terceira temporada seriam Lurdinha (Maria Clara Gueiros), vizinha de Nenê que a imita, é apaixonada por Paulão e rival de Bebel; e Caveira (Danton Mello), colega de cela de Agostinho na prisão. Ao final da temporada, Lineu consegue finalmente se aposentar.

Após o final da décima-terceira temporada, o elenco voltaria a pressionar a direção da Globo para que essa fosse a última, usando a aposentadoria de Lineu como justificativa. A Globo faria uma contra-proposta, e a última acabaria sendo a décima-quarta, de 23 episódios, exibida entre 10 de abril e 11 de setembro de 2014, com direito a matérias e reportagens em vários programas da emissora sobre o encerramento da série após mais de uma década de sucesso. A última temporada teria uma nova abertura, parecida com a usada entre 2002 e 2006, com a música-tema sendo cantada por Zeca Pagodinho. Nela, Lurdinha se torna a empregada da família Silva, e Nenê vai trabalhar como cozinheira no restaurante de Braga (Álamo Facó), rapaz que vê em Lineu e Nenê os pais que nunca teve. A última temporada teria participação especial de vários atores famosos, como Deborah Secco e Tony Ramos, e contaria com Marilda em alguns episódios. A série se encerraria com Bebel grávida de trigêmeos, após 485 episódios.

A Grande Família seria um dos programas de maior audiência da Globo no século XXI: alguns episódios chegariam a registrar números mais altos que o capítulo da novela que veio imediatamente antes, enquanto outros chegariam perto da audiência do Jornal Nacional. Como é comum em seriados tão longos, a audiência das últimas temporadas seria menor que a das primeiras, mas, mesmo assim, o programa teria uma das menores diferenças de audiência ao longo dos anos, registrando por volta de 10% de público perdido. Além de ser um sucesso de público, o seriado seria também um grande sucesso de crítica, sendo considerado um dos melhores programas humorísticos da história da televisão brasileira e vencendo por duas vezes o prêmio da APCA; seriam extremamente elogiadas as performances de Marco Nanini, Marieta Severo, Andréa Beltrão, Tonico Pereira e, principalmente, Pedro Cardoso, indicado ao Emmy Internacional de melhor ator. Até mesmo o vice-presidente do canal norte-americano ABC, de propriedade da Disney, ficaria encantado com a série, e conversaria com a Globo sobre a possibilidade de conseguir os direitos para a realização de uma versão norte-americana, numa negociação que jamais seria concretizada.

Em 2017, a Globo criaria o programa O Álbum da Grande Família, que reapresentaria vários episódios da série, alguns editados, alguns condensados, fora de ordem e iniciados com uma narração de Marco Naninni sobre o tema do episódios do dia, enquanto fotos desse episódio eram mostradas em um álbum semelhante ao da abertura da série. Originalmente, O Álbum da Grande Família seria exibido entre 20 de março a 28 de abril de 2017, de segunda a sexta-feira, no horário posteriormente ocupado pelo programa Conversa com Bial; ele retornaria com "novos" episódios entre 21 de janeiro e 27 de setembro de 2019, mais uma vez de segunda a sexta, ocupando o horário deixado vago após o fim do Video Show, sendo substituído por Se Joga. Em 6 de dezembro de 2020, somente com episódios de Natal e o nome O Álbum de Natal da Grande Família, ele retornaria como parte da programação especial de fim de ano da Globo, e, em 26 de abril de 2025, voltaria ao ar como parte das comemorações pelos 60 anos da Rede Globo.

A Grande Família também seria reexibida, na íntegra, no Canal Viva, entre 6 de agosto de 2018 e 7 de junho de 2025, de segunda a sexta-feira às 22h, com maratonas aos sábados em diversos horários; a partir de 10 de junho de 2025, a série passaria a ser exibida no canal Multishow. Desde 31 de outubro de 2022, A Grande Família e O Álbum da Grande Família também estão disponíveis na íntegra no serviço de streaming GloboPlay, com formato de exibição, aberturas, vinhetas de intervalo e encerramento originais.
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sábado, 22 de novembro de 2025

Escrito por em 22.11.25 com 0 comentários

Chaves

Assim como muitos de minha geração, eu cresci vendo Chaves. Era um dos meus programas de televisão preferidos, e, até hoje, acho que algumas de suas piadas e situações são muito mais divertidas do que de outros programas humorísticos da época ou atuais. Eu poderia ter escrito esse post sobre Chaves há muito mais tempo, mas, durante alguns anos, por alguma razão, gostar de Chaves era considerado vergonhoso por boa parte da comunidade online, e eu, estupidamente, ficava com vergonha de assumir que gostava e acabava desistindo. Atualmente, não somente parece que esse preconceito bobo acabou, como também eu estou ligando cada vez menos para o que os outros acham ou deixam de achar, de forma que decidi que iria finalmente escrever esse post. Assim, hoje é dia de Chaves no átomo!


Chaves foi criação de Roberto Gómez Bolaños, que, na época, já era considerado um dos maiores humoristas do México. Nascido em 21 de fevereiro de 1929 na Cidade do México, Bolaños seria boxeador amador, se formaria em engenharia mecânica e começaria sua carreira nas artes como dramaturgo, escrevendo várias peças de teatro a partir dos 25 anos de idade; devido a sua baixa estatura (1,62 m) e à velocidade com que escrevia as peças, ele ganharia o apelido de Chespirito, uma corruptela de "pequeno Shakespeare" em espanhol. Essas peças de teatro, sempre sucessos de público, lhe renderiam um convite para escrever roteiros para a televisão, com Chespirito sendo, entre 1960 e 1965, o roteirista principal de dois dos programas de maior audiência do México da época, Cómicos y Canciones e El Estudio de Pedro Vargas. Na mesma época, ele seria roteirista dos filmes para o cinema da dupla cômica Viruta y Capulina.

A estreia de Chespirito como ator ocorreria na série El Ciudadano Gómez, criada e escrita por ele e oferecida à Televisión Independiente de México, na qual contracenaria com outros atores que convidaria para seus projetos futuros, como Rubén Aguirre e María Antonieta de las Nieves. Apesar de ter sido gravada em 1968, a série seria engavetada por decisão do proprietário da emissora, que decidiria levá-la ao ar somente quando precisasse de algum programa para competir em audiência com seu canal rival, o Telesistema Mexicano, e acabaria estreando somente em 25 de janeiro de 1969. Antes disso, o produtor Sergio Peña, que havia estado presente durante as gravações de alguns episódios de El Ciudadano Gómez, convidaria Chespirito para participar do programa de variedades Sábados de la Fortuna, uma espécie de Programa Sílvio Santos do México, que ficava no ar o dia inteiro apresentando concursos, números musicais e segmentos humorísticos, que passariam a ser escritos e protagonizados por Chespirito, ganhando o apelido de Chespirotadas.

Uma dessas Chespirotadas seria La Mesa Cuadrada, sátira de um telejornal com a participação de de las Nieves como a apresentadora (chamada Mococha Pecochocha), Aguirre como o Professor Jirafales, Ramón Valdés como o Engenheiro Tirado Alanís, César Costa como o Capitão Costa Del Ocho, e Chespirito como o médico Dr. Chapatín; os cinco se sentavam em torno de uma mesa quadrada, Mococha sorteava uma "carta de um telespectador", e os profissionais respondiam a dúvida contida na carta da forma mais absurda possível. Esse quadro faria tanto sucesso que se tornaria um programa independente, Los Supergenios de la Mesa Cuadrada, que estrearia em 15 de outubro de 1970, com episódios de uma hora de duração.

Chespirito, porém, não gostava do programa, pois as cartas dos telespectadores (escritas pela equipe de redação do programa) sempre falavam sobre temas sociais e políticos da época, criando a necessidade de que o programa fosse gravado o mais perto de ir ao ar possível, para que os assuntos não ficassem velhos, mas a emissora insistia que eles fossem gravados com semanas de antecedência. Assim, aos poucos, ele começaria a reduzir a duração do esquete da mesa quadrada, a introduzir outros esquetes, como um no qual o Dr. Chapatín atendia pacientes em seu consultório, e outro que seria uma sátira aos super-heróis norte-americanos, estrelado por uma das criações mais famosas de Chespirito, o Chapolim Colorado. Em janeiro de 1971, Chespirito convenceria a emissora a mudar o nome do programa para Chespirito y La Mesa Cuadrada, e, em maio, o esquete da mesa quadrada seria eliminado totalmente, com o programa passando a se chamar, simplesmente, Chespirito.

Seria em Chespirito que finalmente estrearia o Chaves, como um esquete de 10 minutos de duração, em 20 de junho de 1971. Como Chespirito era um programa humorístico voltado para o público adulto, Chaves, originalmente, também seria voltado para adultos, por isso a decisão de colocar os próprios atores regulares do programa para interpretar as crianças, ao invés de contratar atores mirins. O sucesso do esquete, porém, seria tamanho, tanto com adultos quanto com crianças, que a Televisa, que absorveria a Televisión Independiente de México por razões de mercado em 8 de janeiro de 1973, decidiria transformá-lo em um programa separado, de meia hora de duração, exibido em horário nobre. Assim, em 20 de fevereiro de 1973, iria ao ar o último episódio de Chespirito, e, na semana seguinte, em 26 de fevereiro de 1973, estrearia a nova série El Chavo del Ocho.

Aqui vale a pena explicar esse título: embora o nome do personagem tenha sido traduzido no Brasil para Chaves, Chavo, no México, não é um nome próprio, e sim uma palavra genérica para se referir a qualquer menino, mais ou menos equivalente ao inglês kid. E, ainda que, em sua série própria, Chaves aparentemente more no barril - que o próprio Chaves, em vários episódios, diz ser apenas seu "esconderijo preferido" - nos esquetes do programa Chespirito seria explicado que ele fugiu do orfanato onde sua mãe o abandonou e foi parar na vila, onde uma "simpática senhora" o convidou para morar com ela no apartamento de número 8; portanto, El Chavo del Ocho seria algo como "o garoto da casa 8" - uma teoria popular dentre os fãs dizia que o título era uma referência ao fato de que a Televisión Independiente de México era o canal 8, mas aí não faria sentido manter o título quando o seriado foi para a Televisa, que era o canal 2.

Também vale citar que a "vila do Chaves" é um tipo de construção destinada a pessoas pobres conhecida no México como vecindad, com aquelas portas dando acesso não a casas, mas a apartamentos, que têm o pátio como área comum. O principal cenário da série mostra um pátio no qual estão localizados o barril do Chaves, um tanque de lavar roupa, as portas dos apartamentos 14, 71 e 72, e uma escada que leva ao apartamento 23 - cujo morador jamais foi revelado e o interior jamais foi mostrado - além de objetos de cena como brinquedos, caixotes e bujões de gás. À esquerda desse pátio, em relação a quem está assistindo, ao lado da escada, fica o portão de entrada da vila, e, à direita, entre os apartamentos 71 e 72, há um corredor que leva a um segundo pátio, com um chafariz. A porta do apartamento 8 jamais é mostrada, e pode ficar ou nesse segundo pátio, ou na "quarta parede", o lado da vila onde está a tela da televisão. Cenários fora da vila também são usados em alguns episódios, com o mais comum sendo a sala de aula na escola onde as crianças estudam.

Pois bem, todo o elenco de Chespirito seria aproveitado em Chaves, a começar pelo próprio Chespirito, que interpreta Chaves, um menino de 8 anos órfão e extremamente pobre, ingênuo e pouco inteligente, mas de bom coração, que aparentemente ficou abandonado aos próprios recursos, já que a simpática senhora do apartamento 8 nunca apareceu - há quem diga que ela era casada com o Capitão Costa, que por isso tinha o sobrenome "Del Ocho", e que ele foi transferido para outra cidade e levou ela, mas não o Chaves. O melhor amigo de Chaves é Quico (Carlos Villagrán), que tem 9 anos e mora com sua mãe no apartamento 14. Quico tem uma condição financeira melhor que a dos outros moradores da vila, e está sempre exibindo brinquedos e roupas novas - seu falecido pai, que ele tinha como maior ídolo, era um oficial da marinha, por isso ele está sempre vestido de marinheiro. Quico é ao mesmo tempo arrogante e invejoso, o que faz com que ele esteja sempre se metendo em confusões com Chaves e com a outra criança protagonista da série, Chiquinha (María Antonieta de las Nieves; em espanhol, o nome da personagem é La Chilindrina, nome de um pão doce tradicional mexicano feito com açúcar mascavo e apelido tradicional mexicano para crianças sardentas). Inteligente e levada na mesma proporção, Chiquinha, que também tem 8 anos, está sempre tentando levar vantagem sobre os meninos, envolvendo-os em planos mirabolantes dos quais ela será a beneficiada; mesmo que pareça não perceber, ela é apaixonada por Chaves.

O pai de Chiquinha, que mora com ela no apartamento 72, é o Seu Madruga (Ramón Valdés; Don Ramón no original). Desempregado, preguiçoso e devendo 14 meses de aluguel, Seu Madruga passa a maior parte do tempo se envolvendo em confusões com as crianças, embora tenha pouca paciência com elas. Já a mãe de Quico, Dona Florinda (Florinda Meza; Doña Florinda no original), é uma dona de casa viúva que vive da pensão do falecido marido, mantendo a pose de classe alta e se referindo aos demais moradores da vila como "gentalha", mesmo que sua situação não seja tão diferente da deles; Dona Florinda mima Quico, se referindo a ele como "Tesouro", e sempre dá razão ao menino, mesmo quando ele está errado. A outra moradora da vila é Dona Clotilde (Angelines Fernández; Doña Clotilde no original), idosa solteirona apaixonada pelo Seu Madruga e chamada pelas crianças de "A Bruxa do 71", em alusão à sua aparência e ao número do apartamento onde mora.

Dona Florinda é apaixonada pelo Professor Girafales (Rubén Aguirre; Profesor Jirafales no original), professor de Chaves, Quico e Chiquinha na escola, que frequentemente vai à vila visitá-la e tomar uma xícara de café; romântico e gentil, Girafales tem paciência quase infinita com as crianças, que o chamam de Professor Linguiça devido à sua altura, mas se irrita facilmente com outros assuntos. O dono da vila, que aparece para cobrar aluguel e resolver outros assuntos de seu interesse, é o milionário Senhor Barriga (Édgar Vivar; Señor Barriga no original - o nome verdadeiro do personagem é Zenón Barriga y Pesado, dois sobrenomes que realmente existem no México), de quem Seu Madruga está sempre tentando escapar, a quem Chavez frequentemente agride acidentalmente, e alvo de piadas por ser obeso. Outro personagem adulto recorrente é Dona Neves (María Antonieta de las Nieves; Doña Nieves no original), avó do Seu Madruga e bisavó de Chiquinha, que os visita de vez em quando e é pouco mais que Chiquinha com uma peruca grisalha.

O Senhor Barriga tem um filho igualmente obeso, da mesma idade de Chaves, Quico e Chiquinha, chamado Nhonho (Édgar Vivar; Ñoño no original), alvo de bullying por parte das outras crianças, e que, apesar de ser rico, não é soberbo como Quico, e frequenta a mesma escola dos demais. Outras crianças da série são Popis (Florinda Meza), sobrinha de Dona Florinda que também estuda na mesma escola dos outros, e de vez em quando vai à vila visitar a tia e brincar com as outras crianças, sempre acompanhada de sua boneca Serafina; Godínez (Horacio Gómez Bolaños, irmão de Chespirito na vida real), aluno que nunca está prestando atenção na aula e responde com absurdos às perguntas do Professor Girafales; e Paty (Ana Lillian de la Macorra), menina bonita da escola por quem Chaves é apaixonado, o que a torna alvo do ódio de Chiquinha.

Não é surpresa para ninguém que os personagens crianças eram interpretados por adultos - com Meza, Vivar e de las Nieves interpretando um personagem adulto e uma criança cada - mas uma grande curiosidade quanto ao elenco diz respeito às idades dos atores em relação a dos seus personagens: quando a primeira temporada estreou, Chespirito tinha 42 anos, Villagrán 27 e de las Nieves 21, enquanto Meza tinha apenas 22 - ou seja, a Dona Florinda era cinco anos mais nova que o Quico - e Vivar tinha 23 - fazendo com que o dono da vila e um dos dois únicos adultos responsáveis da série por pouco não fosse o mais jovem do elenco. Os demais atores tinham idades mais próximas de seus personagens, com Valdés tendo 48 anos quando estreou a primeira temporada, Fernández 49, e Aguirre 37.

A escolha do elenco se daria sem testes, praticamente por imposição de Chespirito. Aguirre era amigo de anos de Chespirito, roteirista assim como ele, e ambos haviam escrito juntos algumas peças de teatro e roteiros de televisão, decidindo ambos atuarem juntos quando receberam a chance das Chespirotadas. Valdés era um conhecido ator de cinema, cuja carreira estava em decadência, com Chespirito decidindo dar uma chance de ele revitalizá-la na televisão. De las Nieves originalmente era uma dubladora e narradora, com apenas sua voz sendo transmitida durante anúncios e propagandas da Televisión Independiente de México; Chespirito achava sua voz bonita e pediu para conhecê-la, se impressionando também com sua beleza física - sem a maquiagem de Chiquinha, de las Nieves é considerada uma das mulheres mais bonitas da televisão mexicana. A princípio ela não aceitaria o convite de Chespirito, argumentando que não queria ser atriz de comédia, mas acabaria mudando de ideia quando ele respondesse que "não existem atores de comédia ou de drama, apenas atores".

Villagrán, originalmente, também não era ator, mas jornalista; amigo de Aguirre, ele mostrou em uma festa seu truque de inflar as bochechas, que Aguirre chamava de "talento oculto", e, após contar algumas piadas com a cara bochechuda, foi prontamente convidado por Chespirito para o programa. Já Vivar era um ator iniciante recomendado a Chespirito por um amigo em comum; ele chegaria sem avisar durante a gravação de um dos esquetes de Chespirito, achou graça em uma das cenas e riu em voz alta, o que fez com que o diretor tivesse de interromper as gravações porque a risada dele foi gravada. Após essa primeira má impressão, Chespirito diria a Vivar que, se ele aceitasse entrar para o programa, deveria gravar sem ponto eletrônico, ao que ele respondeu "o que é isso?", sendo contratado imediatamente. Assim como Valdés, Fernández era uma antiga atriz de cinema espanhola radicada no México que já não recebia muitos papéis, sendo convidada para o da Bruxa do 71, que seria apenas uma participação especial, mas acabaria se tornando um personagem fixo. Meza, por outro lado, era uma atriz iniciante, que estava em outra série, La Media Naranja, onde também interpretava uma mulher mais velha, impressionando Chespirito com seu talento - os dois se apaixonariam durante as gravações de Chaves, e acabariam se casando em 1977. Finalmente, Horacio, irmão de Chespirito, jamais havia pensado em ser ator, cuidando da promoção da série, mas foi convidado pelo irmão para interpretar Godínez para que pudesse receber um salário de ator e complementar sua renda.

A direção dos episódios ficaria a cargo de Enrique Segoviano, e a produção da série com Carmen Ochoa; Chespirito seria o responsável pelos roteiros, contando com a ajuda de Aguirre em alguns episódios. Muitas das características dos personagens seriam criadas pelos próprios atores: Villagrán criaria o choro de Quico, apoiado numa parede e fazendo som vibrante, e Aguirre decidiria que Girafales falaria "tá, tá, tá, tá" ao ficar irritado porque de fato um de seus professores na escola fazia isso, e ele achava engraçado. Os episódios seriam gravados nos estúdios da Televisa em San Ángel, e os figurinos ficariam a cargo da Compañía Casa Tostado, da Cidade do México, famosa por sua linha de fantasias.

Chaves seria uma das primeiras séries mexicanas a usar o recurso da claque, aquelas risadas gravadas reproduzidas após cada piada; segundo Villagrán, a Televisa teria acesso a um estudo feito nos Estados Unidos, segundo o qual ouvir a claque fazia com que os espectadores rissem junto, achando a piada mais engraçada. A claque e todos os demais efeitos de sonoplastia, assim como alguns efeitos especiais precários, quando necessário, eram adicionados aos episódios durante a pós-produção, nos estúdios da Televisa na Cidade do México. Para música de abertura da série, Chespirito escolheria The Elephant Never Forgets, releitura feita pelo francês Jean-Jacques Perrey da Marcha Turca, de Ludwig van Beethoven; a música se tornaria uma das mais populares do México graças ao seriado. A trilha sonora seria composta por Ángel Álvarez, e lançada em 1977 em um LP chamado Así cantamos y vacilamos en la vecindad del Chavo.

A primeira temporada de Chaves teria 39 episódios de cerca de meia hora cada (incluindo os comerciais), exibidos entre 26 de fevereiro e 31 de dezembro de 1973. De início, a série seria muito criticada, com seu humor sendo considerado bobo, vulgar e repetitivo, e o fato de a maioria das piadas fazerem uso de alguma forma de violência fazendo com que o programa fosse classificado como "não recomendável" por várias entidades de classificação da programação mexicana; o público parecia não se importar, porém, e a audiência crescia dia após dia, com o programa fechando o ano de 1973 como o mais assistido da Televisa e um dos mais assistidos do país. Segundo alguns críticos, o segredo do sucesso de Chaves pode estar no fato de que as situações vividas pelos personagens são "universais", facilitando a identificação do público sem importar sua idade, classe social ou faixa etária.

Pouco antes do início das gravações da segunda temporada começarem, de las Nieves revelaria estar grávida, tendo de deixar o elenco. Ela não ficaria sem trabalhar, entretanto, aceitando um convite da Televisión Azteca para apresentar o programa Pampa Pipiltzin. Por causa disso, nenhum dos episódios da segunda temporada conta com Chiquinha, com Seu Madruga explicando que ela tinha ido "estudar em Guanajuato" (cidade do interior do México) onde estava "morando com as tias". Seria para substituir Chiquinha que Chespirito criaria a personagem Popis, que não existia na primeira temporada, após uma tentativa de introduzir na série uma afilhada do Seu Madruga chamada Malicha (María Luisa Alcalá) não ter dado certo. A segunda temporada teria mais 42 episódios, exibidos entre 7 de janeiro e 28 de outubro de 1974. Também em 1974, seria lançada uma revista em quadrinhos com os personagens do seriado.

De las Nieves e Chiquinha voltariam para a terceira temporada, de mais 40 episódios, exibidos entre 13 de janeiro e 10 de novembro de 1975. Nessa época, a série teria picos de 60 pontos de audiência no México, e seus episódios seriam vendidos para Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Equador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Porto Rico, República Dominicana, Uruguai e Venezuela, com a estimativa de que 350 milhões de lationamericanos assistiam a seus episódios. A partir da quarta temporada, de 45 episódios, exibidos entre 5 de janeiro e 27 de dezembro de 1976, Chaves começaria a ser vendido para países que não tiham o espanhol como idioma oficial, sendo um dos primeiros produtos mexicanos a serem dublados para exibição na televisão estrangeira. Hoje, estima-se que Chaves tenha sido exibido em cerca de 90 países, dublado em 50 idiomas diferentes. O primeiro país que não tinha o espanhol como idioma oficial para o qual o seriado foi vendido seria os Estados Unidos, onde seria exibido em inglês e em espanhol, se tornando o programa nesse idioma mais assistido na faixa etária entre 6 e 11 anos de idade em todos os tempos. Em seguida, Chaves seria vendido para a União Soviética, China, Índia, Itália, Marrocos, Angola, Guiné Equatorial e Espanha - o que faria com que o único país que tem o espanhol como idioma oficial no qual ele jamais foi exibido seja Cuba.

A quinta temporada teria mais 40 episódios, exibidos entre 6 de janeiro e 26 de dezembro de 1977, dentre eles o famoso Vamos Todos a Acapulco, primeiro filmado em ambiente externo, e um dos raros com duas partes. Também em 1977, o elenco do programa começaria a se apresentar ao vivo, dançando, cantando e interpretando pequenos esquetes, primeiro no México, depois internacionalmente, normalmente em grandes estádios e arenas, para acomodar mais público. Fora do México, as apresentações mais impressionantes ocorreriam no Estádio Nacional do Chile, para 80 mil pessoas; nos estádios Malvinas Argentinas e Mario Alberto Kempes, na Argentina; no Coliseo Amauta, no Peru; e no Madison Square Garden, em Nova Iorque, Estados Unidos.

Infelizmente, como costuma acontecer nesses casos, o grande sucesso levaria também a ações questionáveis, e a sexta temporada, de 39 episódios, exibidos entre 27 de março e 11 de dezembro de 1978, seria um divisor de águas para a série: durante as gravações, Chespirito e Villagrán se desentenderiam, e Villagrán pediria permissão para sair do programa e criar seu próprio, estrelado por Quico, a qual foi concedida por Chespirito. Assim, em um dos episódios, Dona Florinda revela que Quico foi morar com sua avó rica, porque "não aguentava mais conviver com a gentalha", e Nhonho passaria a ser o novo melhor amigo de Chaves. Antes do inicio da produção de Quico, porém, Villagrán processaria Chespirito, alegando ter sido ele o criador do personagem Quico. A justiça mexicana decidiria a favor de Chespirito, fazendo com que Quico fosse cancelado e Villagrán pouco voltasse a falar com Chespirito pelo resto da vida.

Antes da saída de Villagrán, os produtores Valentín Pimstein e Fabián Arnaud procuraram Chespirito e pediram para que ele escrevesse o roteiro de um filme de cinema ou do Chaves, ou do Chapolim. Chespirito se recusou, alegando que ambos os seriados eram produtos característicos da televisão, e que seria difícil encontrar para eles uma história inédita que se sustentasse durante mais de vinte minutos. Ele faria uma contraproposta, aceita pelos produtores, de um filme com o mesmo elenco de Chaves, chamado El Chanfle, sobre um homem que trabalha para um clube de futebol e deseja vender uma pistola para pagar pelos exames e parto de sua esposa grávida. Contando com participações especiais do Dr. Chapatín e de Dona Neves, o filme estrearia nos cinemas mexicanos em 18 de janeiro de 1979, fazendo grande sucesso; Villagrán, que interpreta um jogador de futebol, teria papel de destaque, mas seria frio e distante com seus colegas de elenco durante as gravações.

Ao final da sexta temporada, Valdés também pediria para sair da série, alegando razões pessoais. Sem querer substituir Seu Madruga, mas tendo dificuldade em escrever as piadas com dois personagens a menos, Chespirito criaria um novo, o carteiro Jaiminho (Raúl Chato Padilla, de 62 anos; Jaimito el Cartero, no original). Natural da cidade de Tangamandápio, que existe na vida real e ficaria famosa por ser frequentemente citada pelo personagem, Jaiminho, cujo nome verdadeiro era Jaime Garabito, era um carteiro que entregava cartas na vila, sempre caminhando ao lado de sua bicicleta - porque, para passar na entrevista de emprego, ele mentiu que sabia andar de bicicleta - e trabalhando o mínimo possível, pois, segundo ele sempre dizia, estava tentando evitar a fadiga. Jaiminho substituiria Seu Madruga em muitas das interações com Chaves, Dona Florinda e Sr. Barriga, mas também permitiria piadas novas, por não ser um morador da vila e a princípio só aparecer lá a trabalho.

A sétima temporada, com Jaiminho, mas sem Quico e Seu Madruga, que, segundo Chiquinha, arrumou um emprego em outra cidade, teria 50 episódios, exibidos entre 29 de janeiro de 1979 e 7 de janeiro de 1980. Sem dois dos mais populares personagens da série, a audiência cairia vertiginosamente, e a Televisa decidiria cancelar Chaves enquanto a temporada ainda estava em produção.

Esse não seria o fim de Chaves, porém: após o cancelamento, retornaria ao ar a série Chespirito, que reestrearia em 28 de janeiro de 1980 com o exato mesmo formato, de esquetes curtos com personagens variados. Chespirito seguiria fazendo esquetes de Chaves para o programa, e contaria até mesmo com um breve retorno de Valdés para episódios gravados em 1981. Chespirito ainda iria ao ar até 25 de setembro de 1995, mas o último esquete de Chaves iria ao ar em 12 de junho de 1992; naquele ano, Vivar teve de se afastar das gravações com problemas cardiovasculares, e Chespirito, já com 63 anos, decidiria que era hora de parar de interpretar Chaves, declarando em entrevistas que "o pior que pode acontecer a um ser humano é parar de evoluir". Anos mais tarde, ele confessaria ter pensado em gravar um esquete final ao fim do qual Chaves morreria atropelado ao tentar salvar outro menino órfão, encerrando a saga do personagem definitivamente, mas seria convencido por sua filha, psicóloga, de que isso poderia aumentar a taxa de suicídios entre as crianças mexicanas.

Ainda hoje, Chaves é um dos maiores fenômenos da televisão mundial, sendo ainda exibido em dezenas de canais e serviços de streaming em todo o planeta; estima-se que, desde 1992, somente com as reprises, a Televisa já tenha lucrado 1,7 bilhão de dólares. Os direitos, entretanto, não pertencem ao canal, mas ao Grupo Chespirito, atualmente comandado por Meza e pelo filho mais velho de Chespirito, Roberto Gómez Fernández - em 2020, inclusive, problemas na renegociação dos contratos levariam a um atrito entre a Televisa e o Grupo, que fariam com que todos os programas que contassem com personagens de Chaves, Chapolim ou outras criações de Chespirito ficassem impedidos de ir ao ar no mundo inteiro, com a situação somente se normalizando em setembro de 2024.

Seria Gómez Fernández quem criaria a mais recente encarnação do personagem, El Chavo Animado, (também conhecido como El Chavo, la serie animada ou El Chavo del 8 Animado; simplesmente Chaves aqui no Brasil), série de animação que estrearia na Televisa em 21 de outubro de 2006, na qual alguns episódios são adaptações de esquetes de Chespirito e episódios da série original, mas muitos são roteiros inéditos. A série animada teria sete temporadas (de 26, 26, 26, 22, 15, 13 e 7 episódios, respectivamente, para um total de 125), o último exibido em 6 de junho de 2014; assim como os da série original, eles atualmente são reprisados à exaustão, em mais de 90 países. Villagrán e Vivar não aprovariam a série animada - que conta com todos os personagens, exceto Chiquinha, mas nenhum deles dublado por seus atores originais - alegando que ela "desumanizava os personagens" e era "uma ação mercantilista para ganhar dinheiro com o público infantil".

No Brasil, Chaves estrearia em 24 de agosto de 1984, no SBT, junto com Chapolim, dentro do programa TV Powww!; após passarem pelo programa do Bozo, Chaves e Chapolim se tornariam atrações "soltas", exibidas no horário do almoço. O sucesso seria gigantesco e Chaves seria um dos poucos programas do SBT a ter mais audiência que a Globo, que no horário transmitia o jornal local, o Globo Esporte e o Jornal Hoje; isso faria com que a Globo, por repetidas vezes, tentasse comprar os direitos de exibição para tirar o programa do SBT, sempre sem sucesso.

O SBT não compraria todos os episódios, sendo calculado que seriam comprados e dublados em português por volta de 175 dos 295 episódios disponíveis, que eram exibidos em ordem aleatória, sem respeitar temporadas ou a ordem em que foram exibidos no México. Como era comum na época, o seriado também era apresentado pelo SBT sem a abertura ou os créditos finais originais; somente em 2000 o canal brasileiro criaria uma abertura própria, com uma música de sua autoria, que mostrava os rostos dos personagens em meio a uma contagem regressiva. Outra curiosidade seria que as fitas compradas pelo SBT viriam com uma única trilha de áudio, sendo impossível dublá-las sem apagar a trilha sonora original; por causa disso, o SBT substiuiria as músicas originais da trilha por músicas genéricas, tiradas de um catálogo britânico de músicas licenciáveis para televisão chamado Bruton Music: Kids and Cartoons.

Até 2010, o SBT seria o único canal brasileiro a exibir Chaves; naquele ano, o grupo Turner compraria os direitos de exibição em TV por assinatura para toda a América Latina, e, no Brasil, Chaves passaria a ser exibido primeiro no canal Cartoon Network, então no Boomerang e no TBS, todos de propriedade da Turner. Esse contrato finalizaria em 2018 e não seria renovado, dando à Globo a chance de finalmente comprar Chaves, mas apenas para exibição em TV por assinatura, com o seriado, incluindo episódios inéditos jamais exibidos no Brasil, sendo televisionado pelo canal Multishow. Após a suspensão das exibições internacionais em 2020, Sílvio Santos tentaria negociar diretamente com o Grupo Chespirito para que Chaves seguisse sendo exibido pelo SBT e fizesse parte de seu novo serviço de streaming, o +SBT. Essas negociações jamais se concretizariam, entretanto, e, quando o novo contrato entre o Grupo Chespirito e a Televisa fosse assinado, Chaves voltaria ao ar no Brasil na TV aberta no SBT (em uma versão remasterizada em alta definição por inteligência artificial), na TV por assinatura no Multishow, e em streaming no Amazon Prime Video. Em julho de 2025, ele sairia do catálogo do Prime Video, mas desde então passaria a ser disponibilizado pelo GloboPlay e pela Netflix, com uma nova dublagem encomendada pela Televisa; a ideia é que os catálogos desses serviços contem com todos os episódios produzidos, e não somente os originalmente exibidos pelo SBT.

Como a exibição no Brasil começaria anos depois de a série ter saído do ar no México, surgiria uma lenda urbana de que todo o elenco havia morrido em um acidente de avião no final dos anos 1970, ou seja, estávamos assistindo a um seriado no qual todos os atores já haviam falecido. Na verdade, o primeiro ator do elenco de Chaves a nos deixar seria Valdés, que faleceria em 1988 - quatro anos depois da estreia de Chaves no Brasil - aos 63 anos, de câncer no estômago. Além de Valdés e de Chespirito, os outros atores já falecidos são Padilla, que faleceu em 1994, aos 75 anos, de infarto; Fernández, aos 69 anos, também em 1994, de falência renal crônica; e Aguirre, aos 82 anos, em 2016, de pneumonia. Meza atualmente é empresária, Vivar é produtor e ator de cinema, de las Nieves está aposentada, e Villagrán vive da fama que adquiriu como Quico, fazendo palestras e comparecendo a convenções.

Villagrán, que seria impedido de usar o personagem Quico com fins comerciais no México, conseguiria um contrato para produzir uma série chamada El Niño de Papel, na Venezuela, em 1981. Nessa série, exibida pelo canal RCTV, Kiko (escrito com K, talvez para evitar problemas judiciais) usa uma roupa de marinheiro de cor branca, mora com a mãe (que não é Dona Florinda) em um apartamento, e vende jornais nas ruas. A série teria 49 episódios e seria relativamente bem sucedida, mas muitos espectadores escreviam cartas para a RCTV reclamando que o seriado era muito diferente de Chaves.

Para tentar remediar a situação, Villagrán criaria uma nova série, chamada Federrico, que estrearia em 1982 e seria praticamente uma cópia de Chaves, mas tendo como personagem principal Kiko, que mora em uma vila praticamente idêntica à Vila do Chaves com sua mãe, Carlota - que, como vocês devem imaginar, é praticamente idêntica à Dona Florinda. Outros personagens da série são o menino órfão Yoyo, melhor amigo de Kiko (e que é o equivalente de Chaves), o vizinho mal-humorado Moncho Valdez (equivalente ao Seu Madruga, inclusive também interpretado por Valdés), o namorado de Carlota, Don Salomón (uma mistura do Professor Girafales com o Senhor Barriga), e os amigos de Federrico na escola, Pichicho (filho de Don Salomón e equivalente a Nhonho), Marucha (equivalennte a Chiquinha, mas sem ser filha de Moncho) e Paty (equivalente a Popis). A série teria 43 episódios. Talvez devido à ameaça de uma ação judicial, para a "segunda temporada", que se chamaria Las Nuevas Aventuras de Federrico e estrearia em 1983, Kiko, que agora tinha pai e mãe, morava num condomínio de luxo, onde vivia aventuras ao lado das crianças da primeira temporada. Essa segunda temporada teria 20 episódios e não faria sucesso, sendo inclusive encurtada.

Em 1986, Villagrán tentaria novamente com Kiko Botones, no qual Kiko, já mais velho, trabalha em um hotel de Caracas, usando uma roupa vermelha; também produzida e exibida pela RCTV, a série contaria com a presença de atores venezuelanos famosos, como Irma Palmieri, Simón García e Virgilio Galindo, mas não faria sucesso, e seria cancelada após apenas 24 episódios. Se você está se perguntando qual dessas séries foi a exibida aqui no Brasil pela Bandeirantes, a resposta é todas (ou quase): a emissora compraria alguns episódios de El Niño de Papel, Las Nuevas Aventuras de Federrico e Kiko Botones e exibiria tudo misturado e fora de ordem entre 1991 e 1992 com o nome de Kiko; somente Federrico é inédita no Brasil.

Após o encerramento de Kiko Botones, Villagrán retornaria ao México e conseguiria um contrato para a produção de ¡Ah qué Kiko!, exibida pelo canal Imevisión entre junho de 1987 e fevereiro de 1988, com um total de 29 episódios. Nela, Don Ramón (interpretado por Valdés, mas bem diferente do Seu Madruga) é o gerente de uma mercearia na qual Kiko, agora adolescente mas ainda sempre vestido com seu tradicional uniforme de marinheiro, trabalha como entregador. Outros personagens de destaque são Toto, menino pobre amigo de Kiko; Pamela, moça por quem Don Ramón é apaixonado; sua sobrinha, Nena; e Don Cejudo, o dono da mercearia. Essa série seria lançada no Brasil em DVD, com os nomes de Ah! Que Kiko! ou Kiko e Sua Turma; na dublagem, talvez para apelar aos fãs de Chaves, Don Ramón seria chamado de Seu Madruga, enquanto Don Cejudo seria o Seu Brancelha - com ambos os nomes fazendo referência às grossas sobrancelhas do personagem.

Já de las Nieves, após o encerramento definitivo de Chaves, em 1992, seguiria se apresentando como Chiquinha em programas de televisão, peças de teatro e eventos para os fãs. Durante muito tempo, Chespirito pareceu não se importar, mas, em 2002, entraria com um processo na justiça mexicana para impedi-la. O processo seria encerrado em 2005 com um acordo que permitia que de las Nieves seguisse usando Chiquinha como bem entendesse, mas removia a personagem de todas as futuras produções do Chaves, incluindo a série animada, na qual a menina principal é Popis. Alegando que de las Nieves estava descumprindo o acordo, Chespirito a processaria novamente em 2010. Essa disputa judicial faria com que os dois se afastassem, jamais voltando a se falar. De las Nieves seguiria interpretando Chiquinha até 2021, quando, aos 75 anos de idade e 48 "de Chiquinha", decidiu se aposentar da personagem, entrando para o Livro dos Recordes como a atriz a interpretar uma mesma personagem pelo maior tempo contínuo.

Chespirito faleceria em 28 de novembro de 2014, aos 85 anos; após conviver por muitos anos com Doença de Parkinson e problemas de próstata que levariam a duas cirurgias, ele teria uma parada cardíorrespiratória em sua residência, em Cancún. Após encerrar Chaves, em 1992, ele jamais aceitaria interpretar novamente o personagem; em entrevistas, diria que "os personagens existem e vivem na imaginação, e assim ficarão".
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sábado, 15 de novembro de 2025

Escrito por em 15.11.25 com 0 comentários

Studio Ghibli (VIII)

Está acabando! Hoje, mais três produções do Studio Ghibli, incluindo sua primeira série de TV!

O Conto da Princesa Kaguya
Kaguya-Hime no Monogatari
2013

Uma das mais famosas fábulas japonesas é Taketori no Monogatari, ou, em tradução livre, "a lenda do cortador de bambu", que fala de um homem de meia-idade, casado e sem filhos, que trabalha cortando e vendendo bambu, até que, um dia, encontra um bebê dentro de um dos bambus. O bebê cresce rapidamente, se torna uma linda moça, e atrai a atenção de diversos pretendentes ricos, dentre eles ninguém menos que o Imperador do Japão. A fábula é de autor desconhecido, e ninguém sabe ao certo quando ela foi escrita, sendo estimado entre o final do século IX e o início do século X, durante o período Heian, com seu manuscrito sobrevivente mais antigo datando de bem mais tarde, do ano 1592.

Seja como for, é costume no Japão que as crianças leiam essa fábula, e, assim, Isao Takahata, quando criança, também o fez. Mas, segundo ele, não gostou. Takahata diria ter tido dificuldade para simpatizar com a menina, achando-a arrogante, prepotente e antipática, e não entendendo como ela se transformou de um bebê em uma jovem tão rapidamente, e então parou de envelhecer na mesma velocidade, permanecendo jovem até o fim da história. Com todas essas reclamações, Takahata não ficaria nada satisfeito quando, em 1960, a Toei Animation, para a qual ele trabalhava, decidiria adaptar a fábula para um longa-metragem animado, colocando-o à frente do projeto. Já adulto, Takahata decidiria reler a fábula para ver como poderia torná-la interessante, e concluiria que a história deveria focar mais nos sentimentos da moça, mostrando como ela se sentia sendo considerada especial por todos os demais personagens, justificando, assim, seu comportamento.

O projeto da Toei acabaria engavetado, e Takahata esqueceria a história até 2009, quando o presidente da Nippon TV, Seiichiro Ujiie, procuraria o Studio Ghibli e perguntaria por que já haviam se passado dez anos desde o último filme de Takahata, Meus Vizinhos, os Yamada. Grande fã de Takahata, Ujiie queria que ele fizesse mais um longa-metragem, e não aceitaria um "não" como resposta, chegando a pagar ao produtor Toshio Suzuki 5 bilhões de ienes para serem investidos exclusivamente na produção. Infelizmente, Ujiie faleceria, de falência múltipla dos órgãos, aos 84 anos, em março de 2011, não chegando a ver o filme concluído - ele ainda conseguiria, porém, ler a versão final do roteiro, escrita por Takahata e Riko Sakaguchi, e ver alguns storyboards.

Ao se sentar para conversar com Suzuki sobre o novo projeto, a primeira ideia que Takahata teve foi a de adaptar a fábula do cortador de bambu, mas tendo como protagonista a menina nascida dentro da planta. Segundo ele, a melhor forma de fazer com que os espectadores se conectassem com a história seria transportando-os para a época na qual ela ocorre, e, para isso, seria fundamental que a animação tivesse traços simples, reminescentes das pinturas do período Heian, ao invés de desenhos realísticos como as animações modernas. Meus Vizinhos, os Yamada utilizava um estilo próprio de animação, no qual os desenhos pareciam aquarelados, imitando o estilo das tirinhas dos jornais japoneses, o que fez com que ele fosse o segundo mais caro do Studio Ghibli até então, atrás apenas de Princesa Mononoke; como, dessa vez, dinheiro não era problema, Takahata decidiria usar mais uma vez o estilo, mas com planos de fundo aquarelados bem detalhados - em contraste com Meus Vizinhos, os Yamada, que praticamente não tinha plano de fundo nenhum.

Para auxiliá-lo na tarefa, Takahata chamaria os animadores Kazuo Oga, que pintaria os planos de fundo realmente com aquarelas, e o animador Osamu Tanabe, que criaria os personagens, muitas vezes desenhando-os com nanquim ou carvão. Assim como Meus Vizinhos, os Yamada, a animação teria três etapas, com primeiro os fundos e personagens sendo produzidos de forma tradicional, então tudo sendo digitalizado, e as folhas digitalizadas sendo combinadas através de computação para criar a ilusão de movimento. A trilha sonora ficaria a cargo de Shin-Ichiro Ikebe, que, no início de 2013, alegaria razões pessoais para deixar o cargo, sendo substituído por Joe Hisaishi, na única vez em que Hisaishi compôs a trilha de um filme de Takahata.

Como a história era centrada na moça, e não no cortador de bambu, Takahata decidiria chamar o filme de Kaguya-Hime no Monogatari, "a lenda da Princesa Kaguya", sendo Kaguya ("reluzente") também o nome pelo qual a moça é chamada na fábula original. Takahata também faria na história todas as alterações que julgasse necessárias para que o público simpatizasse com a princesa e concordasse com suas decisões; isso acabaria fazendo com que o filme tivesse uma forte mensagem feminista, denunciando a subserviência imposta às mulheres japonesas não somente na época da fábula, mas também na atual. O filme também faria uma severa crítica à noção de beleza, mostrando que as mulheres do Japão Feudal praticamente tinham de se mutilar para serem consideradas belas, algo que não está tão distante assim em nossa realidade de cirurgias plásticas e aplicações de botox. Como é tradicional nas produções Ghibli, a Princesa Kaguya é uma jovem forte e determinada, que não se curva facilmente às pressões da sociedade - embora, no filme, isso cobre um preço.

Outra crítica que o filme faz é sobre a desigualdade econômica e a distribuição de riqueza - o cortador de bambu e sua esposa são extremamente pobres, e veem na filha adotiva a chance de ascenderem socialmente, sem notar que isso causa a infelicidade da moça. Para marcar o contraste entre riqueza e felicidade, todas as cenas ambientadas na zona rural, onde Kaguya é feliz, usam traços finos, simples e cores de tons vívidos, enquanto as cenas na capital, onde ela vive na riqueza, possuem traços duros, padrões geométricos e cores foscas. A pedido de Takahata, ao longo do filme os olhos de Kaguya iriam gradualmente perdendo o brilho, uma referência sutil ao fato de que, quanto mais ela se afastava da vida simples no campo, mais infeliz ficava - tão sutil que a maioria dos espectadores só percebe ao assistir o filme uma segunda vez, após serem informados desse fato.

No filme, o cortador de bambu encontra um bebê dentro de uma planta e a leva para morar com ele e sua esposa, em uma choupana simples no meio do bambuzal. A bebê cresce rapidamente e logo vira uma bela menina, que faz amizade com as outras crianças do vilarejo e ganha o apelido de Takenoko, o "pequeno bambu". Cada vez que o cortador de bambu retorna ao bambuzal, porém, ele encontra, dentro de uma planta, algum tipo de riqueza - ouro, joias, e sedas finas para fazer quimonos - tomando isso como um sinal dos céus de que a menina não deve ser criada naquele fim de mundo, e sim na capital, onde será tratada como uma princesa. Com a menina já adolescente, o cortador usa o dinheiro encontrado no bambu para comprar uma casa na capital, para onde se muda com a esposa e a menina, e contratar uma professora de boas maneiras, para que ela consiga um bom casamento.

Em seu décimo-quinto aniversário, a menina recebe a visita de um especialista em nomes da alta sociedade, que decide que ela deve se chamar Kaguya, e logo espalha que ela é a moça mais bonita que ele já viu, tanto que ele decide somente se referir a ela como Princesa. A fofoca do especialista também atrai muitos pretendentes para a garota, que fica trancada em uma espécie de jaula, acompanhada de uma serviçal, enquanto o cortador de bambu decide qual seria o marido ideal para ela. Um dia, chegam ao mesmo tempo cinco pretendentes riquíssimos, e o cortador decide que ela poderá escolher qual prefere; Kaguya, entretanto, para desespero de seu pai adotivo, dá a cada um uma tarefa impossível, dizendo que somente se casará com aquele que conseguir cumpri-la. Cego pela oportunidade de se tornar um nobre através do casamento da filha, o cortador não percebe que tudo o que ele faz a deixa cada vez mais infeliz, o que passa a ameaçar a própria existência da menina.

Como Hayao Miyazaki estava trabalhando em Vidas ao Vento ao mesmo tempo em que Takahata poroduzia O Conto da Princesa Kaguya, os dois combinariam de repetir o que fizeram com Meu Amigo Totoro e Túmulo dos Vagalumes, lançando ambos os filmes em sessão dupla; imprevistos com os storyboards de O Conto da Princesa Kaguya, porém, fariam com que Vidas ao Vento ficasse pronto na data prevista, estreando em julho, enquanto o filme de Takahata só ficaria pronto cerca de quatro meses depois, estreando, distribuído pela Toho, em 23 de novembro de 2013. Seu processo de produção seria documentado e lançado como um especial da Nippon TV, chamado Isao Takahata e sua Lenda da Princesa Kaguya, exibido em março de 2015.

Gastando nada menos que 7 bilhões de ienes para ser concluído, O Conto da Princesa Kaguya é até hoje o filme japonês mais caro da história. A boa notícia seria que ele estrearia já na primeira posição, rendendo 284 milhões de ienes apenas no primeiro dia, também um recorde; a má seria que, ao fim de sua exibição no Japão, ele teria rendido apenas 2,47 bilhões, sendo o décimo-primeiro filme mais assistido do ano no país. Apesar do fracasso nas bilheterias, Suzuki se declararia satisfeito com o filme - talvez porque, dos 7 bilhões que ele gastou, 5 eram da Nippon TV, que ele não precisaria devolver.

Por alguma razão, a Disney decidiria não lançar O Conto da Princesa Kaguya nos Estados Unidos, o que levaria o próprio Studio Ghibli a decidir dublá-lo em inglês, contratando o produtor Frank Marshall, da Amblin Entertainment, para supervisionar o projeto. A dublagem em inglês conta com Chlöe Grace Moretz como Kaguya, Caitlyn Leone como Takenoko, James Caan como o cortador de bambu, Mary Steenburgen como sua esposa e a narradora da história, Darren Criss como o melhor amigo de Takenoko, Lucy Liu como a professora de boas maneiras, George Segal como o especialista da alta sociedade, Hynden Walch como a serviçal de Kaguya, Beau Bridges como o Imperador, e Dean Cain, James Marsden, Oliver Platt, Daniel Dae Kim e John Cho como os pretendentes. O filme estrearia nos Estados Unidos, distribuído pela GKIDS, em 17 de outubro de 2014, após ser exibido nos festivais de Cannes e de Toronto; outros países a exibi-lo nos cinemas seriam Coreia do Sul, França, Espanha, Portugal, Alemanha, Itália, Turquia, Rússia e Brasil, onde estrearia em 16 de julho de 2015.

A crítica ficaria absolutamente encantada com o filme, elogiando a beleza de seus traços, a profundidade de seu roteiro e considerando-o "um tesouro da animação moderna com apelo eterno". Muitas publicações especializadas o elegeriam o melhor filme de animação da década de 2010, com o famoso site IndieWire considerando-o o melhor de todo o Século XXI. O Conto da Princesa Kaguya ganharia o prêmio de Melhor Filme no festival de cinema da Mainichi Shimbun, e seria indicado ao Oscar de Melhor Filme de Animação, perdendo para Big Hero 6.

O Conto da Princesa Kaguya seria o último filme de Isao Takahata. Assim como Miyazaki, ele decidiria se aposentar, aceitando retornar apenas para trabalhar como produtor em A Tartaruga Vermelha, de 2016. Nessa época, ele seria diagnosticado com câncer de pulmão, e faleceria, aos 82 anos, em abril de 2018. Uma cerimônia em sua homenagem, que contou com um discurso de Miyazaki, seria realizada no mês seguinte no Ghibli Museum, em Tóquio.

As Memórias de Marnie
Omoide no Marnie
2014

When Marnie Was There
é um livro escrito pela inglesa Joan G. Robinson, publicado em 1967. Conhecida até então por escrever livros para crianças bem pequenas, esse foi o primeiro livro de Robinson para jovens leitores, e logo se tornou um gigantesco sucesso, sendo indicado para a Carnegie Medal, o mais importante prêmio literário do Reino Unido, e traduzido para mais de dez idiomas - embora, até onde eu consegui descobrir, jamais tenha sido lançado no Brasil. Ele conta a história de uma menina chamada Anna, que, passando por problemas de saúde, é enviada para passar uma temporada na região pantanosa de Norfolk, onde ficará com um casal de idosos amigos de sua mãe adotiva, com quem Anna não tem uma boa relação. Lá, em uma mansão no meio do pântano, aparentemente abandonada, ela conhece uma menina chamada Marnie, que logo se torna sua melhor amiga e a ajudará a aprender mais sobre suas origens.

Hayao Miyazaki leu o livro pouco após seu lançamento no Japão, em 1971, e sempre o considerou um de seus livros infantis preferidos. Durante anos, ele conversou com Suzuki sobre a possibilidade de adaptá-lo para um filme do Studio Ghibli, mas, sempre envolvido em outros projetos, nunca tinha tempo de começar a escrever um roteiro. Em 2012, enquanto Miyazaki trabalhava em Vidas ao Vento, Suzuki decidiria oferecer o projeto a Hiromasa Yonebayashi, diretor de O Mundo dos Pequeninos, a quem ele queria dar mais oportunidades dentro do Studio Ghibli. Yonebayashi leria o livro e gostaria da história, mas diria a Suzuki "ter dificuldades para visualizá-la como um filme", inicialmente recusando o convite.

Ao longo dos dias seguintes, porém, Yonebayashi teria várias novas ideias para o roteiro, como fazer de Anna uma artista e, como havia feito em O Mundo dos Pequeninos, transferir a ambientação para o Japão, que também tem uma área pantanosa semelhante a Norfolk, no norte de Hokkaido, onde estão localizadas, dentre outras, as cidades de Kushiro e Nemuro. O principal motivador de Yonebayashi, entretanto, seria a possibilidade de fazer um filme que mostrasse às crianças japonesas que se sentiam isoladas, como Anna, que elas também teriam oportunidades de fazer amigos, não estando relegadas à solidão eterna. Yonebayashi levaria todas essas ideias a Suzuki, que concordaria e daria luz verde ao projeto; curiosamente, uma coisa que ele não mudou foi que, mesmo a história sendo ambientada no Japão, e todos os personagens ganhando nomes japoneses (Anna seguiria sendo Anna, mas Anna Sasaki), Marnie continuaria tendo um nome caracteristicamente britânico e sendo, assim como no livro, loira de olhos azuis. Miyazaki seria contrário a essa decisão, e chegaria a dizer que era um truque barato para atrair espectadores usando a imagem de Marnie nos pôsteres do filme, mas o produtor Yoshiaki Nishimura, selecionado por Suzuki para a produção, bancaria a decisão, dizendo que era necessário que Marnie fosse o mais diferente de Anna possível, e que não havia qualquer intenção oculta de influenciar o público usando a aparência de Marnie.

No filme, Anna Sasaki tem 12 anos e mora com sua mãe adotiva em Sapporo; sofrendo de asma, sem uma boa relação com a mãe, e sem conseguir fazer amigos na escola, ela odeia a própria vida, e só consegue encontrar alguma alegria em seus desenhos. Quando o médico da família recomenda que ela passe uma temporada "em algum local onde o ar seja mais puro", a mãe de Anna decide mandá-la para passar uma temporada com sua irmã (tia de Anna) e seu cunhado (que, no filme, são bem mais jovens que no livro), que moram em uma pequena cidade na zona rural de Hokkaido. Lá, Anna descobre uma antiga mansão, da qual um dos acessos só pode ser alcançado quando a maré está baixa, que, apesar de parecer abandonada, é o lar de Marnie, uma menina da mesma idade de Anna que passa a maior parte de seus dias com sua governanta, já que seus pais são ricos e vivem viajando. Anna e Marnie logo se tornam melhores amigas e confidentes, o que faz com que Anna aos poucos se torne menos retraída, mais sociável, e conquiste a todos na cidade com seu jeito espontâneo. Mas, sem que Anna saiba, Marnie também tem uma ligação íntima com seu passado.

Yonebayashi escolheria a animadora Makiko Futaki, que já havia trabalhado em praticamente todos os filmes do Studio Ghibli, sendo assistente de direção em Contos de Terramar, para ser a diretora de animação de Memórias de Marnie; Futaki, que já havia feito isso em Akira, de 1988, decidiria que o foco da animação deveria estar nos movimentos dos personagens e nos planos de fundo, ao invés de em suas aparências e expressões faciais, o que resultaria em personagens de feições simples, mas extremamente complexos para serem animados, e planos de fundo absurdamente detalhados, muitos deles pintados à mão numa época em que as cores de filmes animados para o cinema eram predominantemente digitais. A mansão onde mora Marnie seria criada por Yohei Taneda, que viajou para Hokkaido para encontrar construções nas quais se inspirar, decidindo usar como base uma casa de veraneio que viu por acaso em Karuizawa, pequena cidade próxima a Nagano; Yonebayashi pediria a Taneda que desenhasse a mansão como se fosse "mais um dos personagens do filme que tomam conta de Anna". Já o silo que fica sobre uma colina da cidade onde moram os tios de Anna é uma licença poética, já que não existe nada parecido no Japão, e seria inspirado no Burnham Overy Staithe Windmill, moinho de vento que é uma das principais atrações turísticas de Norfolk.

A trilha sonora ficaria a cargo de Takatsugu Muramatsu, em sua estreia no Studio Ghibli. A música-tema do filme, Fine on the Outside, seria escrita e gravada pela norte-americana Priscilla Ahn, que receberia autorização do Studio Ghibli para incluí-la em seu álbum Just Know That I Love You, lançado três dias antes da estreia do filme nos cinemas. Por ideia de Muramatsu, a trilha sonora de Memórias de Marnie seria um álbum duplo, com o primeiro disco trazendo apenas músicas instrumentais compostas "para refletir a personalidade dos personagens e dos locais mostrados no filme", e o segundo tendo as músicas que realmente tocam durante o filme, incluindo Fine on the Outside.

Memórias de Marnie estrearia nos cinemas japoneses em 19 de julho de 2014, distribuído pela Toho, e seria um grande sucesso, rendendo 379 milhões de ienes em seu primeiro fim de semana, passando dos 2 bilhões antes de completar seu primeiro mês, e fechando a bilheteria japonesa com 3,53 bilhões de ienes - o orçamento não foi oficialmente divulgado pelo Studio Ghibli, mas Yonebayashi diria que ficou na casa de 1,15 bilhão de ienes. A crítica seria extremamente positiva, considerando-o "uma beleza visual e narrativa". O filme seria indicado ao prêmio de Animação do Ano da Academia Japonesa de Cinema e ao Oscar de Melhor Filme de Animação, perdendo esse último para Divertida Mente. Após a estreia do filme nos cinemas, o livro de Robinson teria suas vendas catapultadas, sendo relançado no Japão, Itália e Espanha, onde estava há anos fora de catálogo, lançado pela primeira vez na China, e relançado nos Estados Unidos pela Harper Collins como parte de sua linha de clássicos.

Além de no Japão, Memórias de Marnie estrearia nos cinemas, ao longo de 2015, no Reino Unido, Estados Unidos, Canadá, Austrália, França, Espanha, Itália, Alemanha, Turquia, Coreia do Sul, China e Brasil, onde estreou em 19 de novembro. Nos Estados Unidos, o filme teria uma pré-estreia durante o Festival Internacional de Filmes Infantis de Nova Iorque, e, quando estreasse oficialmente nos cinemas, faria grande sucesso e arrecadaria 561 milhões de dólares somando as bilheterias nos Estados Unidos e Canadá, número impressionante para uma produção estrangeira. No Reino Unido, teria pré-estreia no Festival de Cinema de Londres, e, quando foi lançado em home video, se tornou o terceiro filme em língua estrangeira em vendas, atrás apenas do francês Sobrevivendo a Auschwitz e de Ip Man 3, de Hong Kong. Mais uma vez, a dublagem em inglês ficaria a cargo da Disney, que escalaria Hailee Steinfeld como Anna, Kiernan Shipka como Marnie, Vanessa Williams como a pintora Hisako, Geena Davis como a mãe adotiva de Anna, e Grey Griffin e John C. Reilly como os tios de Anna.

Suzuki tinha planos para que, após as aposentadorias de Hayao Miyazaki e Isao Tahakata, Yonebayashi se tornasse um dos principais diretores do Studio Ghibli, ao lado de Goro Miyazaki, mas Memórias de Marnie acabaria sendo na verdade o último filme dirigido por Yonebayashi para o Studio Ghibli, já que, em abril de 2015, ele se transferiria para o Studio Ponoc, fundado por Nishimura, que sairia do Studio Ghibli logo após o lançamento de Memórias de Marnie nos cinemas. Memórias de Marnie também seria o último filme da carreira de Futaki, que faleceria em maio de 2016, aos 57 anos, em decorrência de uma doença desconhecida.

Ronja: A Filha do Ladrão
Sanzoku no Musume Ronja
2014

Uma das autoras preferidas de Hayao Miyazaki é a sueca Astrid Lindgren. Desde a década de 1980, ele tentou conseguir os direitos de uma adaptação de sua obra mais famosa, Píppi Meialonga, de 1945, mas sempre sem sucesso; quando estava produzindo O Serviço de Entregas da Kiki, ele chegaria a viajar para a Suécia e entrar em contato com a agente de Lindgren, mas a autora respeitosamente se recusaria a se encontrar com Miyazaki para tratar de qualquer licenciamento. Lindgren faleceria em 2002, aos 94 anos, e Miyazaki segue até hoje sem conseguir adaptar nenhuma de suas obras.

Em 2013, porém, o estúdio de animação malaio Polygon Pictures, subsidiário de um estúdio japonês de mesmo nome, mas especializado em animação por computação gráfica, conseguiria os direitos de adaptação de outra obra de Lindgren, o livro Ronja: A Filha do Ladrão, originalmente publicado em 1981. Para conseguir o financiamento necessário, o estúdio recorreria, através de seu controlador japonês, ao canal de televisão NHK. Alguém da NHK deveria saber do interesse de Miyazaki em adaptar uma das obreas de Lindgren, porque eles entrariam em contato com o Studio Ghibli, e costurariam um acordo para que o Studio Ghibli e a Polygon Pictures fossem parceiros na produção - junto com a NHK Enterprises e o serviço norte-americano de internet Dwango. Como Hayao Miyazaki já estava aposentado, ele passaria a tarefa para seu filho, Goro.

Toda a parte de animação da série ficaria a cargo da Polygon Pictures, que usaria uma técnica pouco comum: primeiro, cada personagem era criado no computador de forma tridimensional, para depois uma versão desenhada à mão do mesmo personagem ser digitalizada e combinada ao modelo em 3D. Isso deixaria os personagens com um estilo parecido com o cel-shading, mas bem próximo das animações feitas à mão pelo Studio Ghibli. Os planos de fundo, por outro lado, eram totalmente pintados à mão, com apenas os rios sendo feitos por computação gráfica e adicionados aos cenários junto com os personagens. Os personagens que chamavam mais atenção eram as harpias, aves de rapina com cabeça de mulher; extremamente detalhadas, elas levariam horas para ficar todas prontas se a equipe de produção não tivesse recorrido a um artifício: existe apenas uma harpia, usada diversas vezes para representar várias diferentes, cada uma com uma pequena mudança feita já na pós-produção, como a cor do cabelo ou dos olhos.

O Studio Ghibli ficaria, digamos, com a parte de bastidores. Goro Miyazaki faria os storyboards de todos os episódios, também ficando responsável pela direção de todos eles; Hiroyuki Kawasaki escreveria os roteiros; Katsuya Kondo criaria a aparência de todos os personagens; Toshio Suzuki desenharia o logotipo da série; e Satoshi Takebe ficaria responsável pela trilha sonora, com as músicas de abertura e encerramento sendo criadas por Kazuyoshi Saito - que simplesmente tocou todos os instrumentos na música de encerramento. A música de abertura é cantada, por Mari Natsuki, e o encerramento, com música instrumental, traz arte conceitual da série criada por Kondo e Goro Miyazaki.

Na série, Ronja (que se pronuncia "Rônia") é a filha única de Mattis, chefe de um bando de ladrões que mora em um castelo pertencente à família de Mattis, localizado em um penhasco após um desfiladeiro, o que torna quase impossível que ele seja encontrado, quanto mais invadido, deixando-os a salvo das forças da lei. A esposa de Mattis, Lovis, é a única mulher no castelo, e atua como uma espécie de mãe para todo o bando, fazendo comida, obrigando-os a tomar banho e separando eventuais brigas. O único ladrão que parece ter a cabeça no lugar é o idoso Skalle-Pete, que conheceu o pai de Mattis e atua como um conselheiro do bando; os demais, incluindo Mattis, agem todos como crianças, achando a vida de ladrão muito divertida e reagindo exageradamente a qualquer acontecimento fora da rotina. Ao todo, o bando conta com 11 ladrões (formando uma dúzia com Mattis), que atendem pelo nome de Fjosok, Pelje, Tjorm, Sturkas, Knotas, Tjegge, Jutis, Joen, Labbas, Turre e Lil-Klippen.

A série é ambientada em uma Escandinávia medieval fantástica; em volta do castelo, há uma floresta conhecida como "Mata de Mattis", pela qual passa uma trilha usada por carruagens de nobres, com Mattis e seu bando os assaltando e vivendo da venda e do consumo dos itens que roubam. A Mata também é habitada por seres fantásticos, como as harpias, que odeiam todos os humanos, matando-os por puro prazer; os anões cinza, que se parecem com pequenas corujas, são extremamente territoriais mas igualmente covardes, roubando coisas que os humanos deixam desprotegidas, mas só atacando se estiverem em número bem maior; e os rumphobs, anõezinhos pacíficos peludos, narigudos e de pés enormes, que moram nos subterrâneos e se comunicam através de murmúrios. Mas o principal perigo da Mata, pelo menos para Mattis e seu bando, é um bando rival, liderado pelo ladrão Borkas, também composto por 12 ladrões (e pela esposa de Borkas, Undis), que teima em assaltar as mesmas carruagens que o bando de Mattis, deixando-os sem tesouros.

O primeiro episódio é o do nascimento de Ronja, e, nos dois primeiros, ela é um bebê. No final do segundo episódio ocorre uma passagem de tempo, e Ronja passa a ter uns sete anos; a partir de então, a série acompanha um ano inteiro de sua vida, começando no outono, passando pelo inverno, primavera, verão, e terminando quando o outono chega novamente. O foco de cada episódio está em Ronja descobrindo conceitos como coragem, amizade, família e até mesmo amor, na figura de Birk Borkasson, único menino de sua idade na Mata - que também é filho de ninguém menos que Borkas, o rival de Mattis. Ronja e Birk se consideram irmãos, e, em um dos episódios, chegam a fugir de suas respectivas casas para morar em uma caverna, se apoiando e brigando como se fossem um casal.

Ronja: A Filha do Ladrão teria 26 episódios, exibidos pela NHK entre 11 de outubro de 2014 e 28 de março de 2015. A audiência seria boa, mas a crítica ficaria dividida, elogiando a beleza da animação e a fidelidade da série ao livro, mas reclamando do ritmo lento e do "romance" entre Ronja e Birk. Além de no Japão, a série seria exibida na televisão na Inglaterra, Escócia (dublada em gaélico escocês), Estados Unidos, Suécia, Noruega, Dinamarca, Islândia, China e Taiwan; em diversos países, dentre eles o Brasil, ela faz ou já fez parte do catálogo do Amazon Prime Video, que começou a disponibilizá-la em janeiro de 2017. A versão em inglês traz Gillian Anderson como a narradora e uma versao cantada da música de encerramento como música de abertura. Apesar de não ter sido indicada a nenhum prêmio no Japão, Ronja: A Filha do Ladrão ganharia o Emmy Internacional de Melhor Programa Voltado para Crianças.
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