sábado, 17 de janeiro de 2026

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A Família Monstro

Desde que eu fiz o post sobre a Família Addams, eu penso em escrever um sobre a Família Monstro. Após anos de adiamentos, vou escrevê-lo hoje. Hoje é dia de A Família Monstro no átomo!

Eu poderia começar esse post dizendo "ao contrário do que possa parecer", mas, nesse caso, é exatamente o que possa parecer: a Família Monstro foi criada especificamente para competir contra a Família Addams, com as duas tendo temática e histórias parecidas, e cada uma indo ao ar em um canal - a Família Addams na ABC, a Família Monstro na CBS, com a Família Monstro estreando apenas seis dias depois. Diferentemente do que costuma acontecer nesses casos, a Família Monstro foi mais bem sucedida, tendo maior audiência, roteiros considerados melhores, e uma carreira mais duradoura na syndicaton, quando a CBS vendeu os episódios para outros canais que quisessem exibi-los.

As origens da Família Monstro remontam, porém, à década de 1940, quando ainda nem existia televisão, com o primeiro projeto sendo oferecido ao estúdio de cinema Universal. Eu já devo ter falado isso aqui, mas os monstros que hoje consideramos "clássicos", como Drácula, o Monstro de Frankenstein e o Lobisomem, vieram de várias fontes diferentes, e ganharam seu lugar na cultura pop graças à Universal, que produziu filmes de grande sucesso com atores famosos, como Bela Lugosi, Boris Karloff e Lon Chaney, Jr. nas décadas de 1930 e 1940. Esses filmes fariam tanto sucesso que muitas das coisas que hoje temos como certezas sobre esses monstros, como Drácula não refletir no espelho e o Monstro de Frankenstein ter sido criado com eletricidade, não estão em seus respectivos livros, tendo sido inventadas para os filmes. Nos Estados Unidos, o papel da Universal na popularização desses monstros é tão grande que eles são conhecidos como "os monstros clássicos da Universal".

Pois bem, em 1943, o animador Bob Camplett procuraria a Universal e apresentaria a ideia de uma série para o cinema estrelada por uma família de monstros clássicos, em tom de comédia e produzida como animação. O projeto ficaria em pré-produção de 1943 a 1945, e depois acabaria engavetado, por algum motivo que se perdeu no tempo, provavelmente financeiro. Em 1963, os roteiristas Allan Burns e Chris Hayward, de outra série de animação, As Aventuras de Alceu e Dentinho, descobririam o projeto e decidiriam tentar ressuscitá-lo como uma série de TV, mas ainda como uma animação. A Universal contrataria outros dois roteiristas, Norm Liebman e Ed Haas, para escrever o roteiro de um piloto, que eles chamariam de Love Thy Monster ("ama a teu monstro").

Originalmente, Burns tinha pensado em copiar na cara de pau a Família Addams - que ainda não tinha uma série de TV, mas já era um sucesso nos quadrinhos - e criaria uma família monstruosa, mas inédita. Ao contratar Liebman e Haas, entretanto, o estúdio daria instruções explícitas para que eles usassem Drácula, o Monstro de Frankenstein e o Lobisomem, primeiro porque a Universal já tinha os direitos e já era conhecida por fazer filmes com esses monstros, segundo porque ela esperava que a popularidade dos filmes pudesse se transferir para a série. Para produtores, ela escolheria Joe Connelly e Bob Mosher, hoje considerados criadores da série, famosos por serem roteiristas de vários episódios de um programa de rádio extremamente popular chamado Amos 'n' Andy, mas na época mais conhecidos por terem sido os criadores de outra sitcom de grande sucesso, Leave It to Beaver, que teria seis temporadas, exibidas entre outubro de 1957 e junho de 1963.

Inicialmente, a série seria produzida em animação, mas, ao saber que sua rival MGM estava produzindo uma série com atores para a ABC, a Universal entraria em contato com a CBS e ofereceria uma série também com atores, apostando que a presença dos monstros clássicos fosse suficiente para que o canal a aceitasse. De fato a CBS aceitou, e o piloto de Liebman e Haas seria alterado, se transformando em My Fair Munster - um trocadilho com o nome da famosa peça de teatro que daria origem a um filme com Audrey Hepburn, conhecido no Brasil como Minha Querida Dama, que, curiosamente, estrearia nos cinemas cerca de um mês depois que A Família Addams e A Família Monstro estreassem na televisão. O nome escolhido para a série seria The Munsters, com Munster, que tem a mesma pronúncia de monster, "monstro" em inglês, sendo o sobrenome da família.

Como A Família Addams, A Família Monstro seria uma sitcom com episódios de meia hora, em preto e branco, estrelada por uma família excêntrica, que mora numa mansão decrépita e causa estranheza em quem os conhece por sua aparência e hábitos estranhos, apesar de seu bom coração e do amor que os membros da família demonstram uns para com os outros. A principal diferença entre as duas, como já foi dito, é que em A Família Addams eles são apenas esquisitos, enquanto em A Família Monstro a família é composta por versões dos monstros clássicos da Universal: o pai, Herman Monstro (Fred Gwynne), é o Monstro de Frankenstein; a mãe, Lily (Yvonne de Carlo) é um amálgama de uma vampira com a Noiva de Frankenstein; e o filho, Eddie (Butch Patrick) é um lobisomem. Completam a família o pai de Lily, conhecido apenas como Vovô (Al Lewis), mas chamado por alguns dos outros personagens de Conde (e por Lily, evidentemente, de Papai), que é uma versão caricata do Drácula; e a sobrinha de Herman, Marilyn (Beverly Owen até o episódio 13, Pat Priest nos demais), a única que é um ser humano normal - uma piada recorrente da série é que todos os candidatos a namorado de Marilyn, que é lindíssima para os padrões da época, fogem ao conhecer sua família, o que deixa Herman e Lily se lamentando que ela jamais conseguirá se casar por ser muito feia. A família também tem dois animais de estimação, o corvo Charlie (que fala com voz de Mel Blanc em alguns episódios e de Bob Hastings em outros) e o dragão Spot.

O primeiro piloto seria filmado nos estúdios da MCA no início de 1964; Gwynne e Lewis, que haviam trabalhado juntos na sitcom policial de comédia Car 54, Where Are You?, exibida pela NBC entre setembro de 1961 e abril de 1963, seriam os primeiros escolhidos para o elenco, já que a Universal achava que eles tinham boa química e bom timing de comédia. Owen seria escolhida para interpretar Marilyn após testes, assim como Joan Marshall, que havia participado de episódios de Jornada nas Estrelas e Além da Imaginação, escolhida para interpretar a esposa de Herman, que originalmente se chamaria Phoebe, e Nate Derman, que interpretaria Eddie.

Esse piloto jamais iria ao ar, porque a CBS não gostaria da atuação de Marshall nem do nome Phoebe, além de achar que a personagem se parecia demais com Mortícia Addams. Um segundo piloto seria filmado em abril de 1964, com de Carlo no papel, o nome da personagem sendo mudado para Lily, e sua aparência sendo alterada para lembrar a Noiva de Frankenstein, apesar de ela ser uma vampira. A CBS implicaria de novo, dessa vez com Derman, e um terceiro piloto seria filmado em maio, com Patrick como Eddie. A CBS aprovaria de Carlo e Patrick, mas acharia Eddie muito mimado, encomendando um quarto piloto, que teria alterações no roteiro e seria filmado em julho. Curiosamente, esse piloto também jamais iria ao ar, com um novo primeiro episódio sendo filmado para a estreia da série, o que faz com que a A Família Monstro tenha nada menos que quatro pilotos inéditos. O roteiro do piloto original, entretanto, seria reescrito e daria origem ao segundo episódio da série, também chamado My Fair Munster.

As caracteristicas de alguns personagens também seriam mudadas de um piloto para outro e ao longo da série, sempre para enfatizar que eram personagens cômicos, e não de terror: Herman, no primeiro piloto, tinha uma testa mais protuberante e era mais magro, com Gwynne passando a usar enchimento na roupa para ficar mais parecido com o monstro do filme, interpretado por Boris Karloff; apesar de Gwynne já ser bastante alto, com 1,96 m, a CBS queria que Herman fosse ainda mais alto, com o ator tendo que usar botas plataforma ao filmar. A expressão de Herman também era muito mais sombria nos pilotos, com o ator passando a fazer caretas ao longo da série para tornar o personagem mais cômico - seria de Gwynne a ideia de manter a boca aberta durante a maior parte do tempo, e a de que Herman gagueja quando está nervoso, ambas visando dar mais comicidade ao personagem. Herman era originalmente verde, mas, como a série era gravada em preto e branco, os produtores optaram por fazê-lo cinza-azulado, que filmava melhor.

O visual do Vovô também seria bastante alterado de um piloto para o outro e nos primeiros episódios da série: sua maquiagem era muito mais exagerada, suas sobrancelhas muito mais grossas e seu nariz muito mais pontudo no primeiro piloto, com essas características sendo suavizadas até chegar no ponto que os produtores consideraram ideal; no primeiro piloto, a pele do Vovô era azul, mas, para a série, a equipe de produção decidiria maquiá-lo com o mesmo cinza-azulado de Herman. No início da série, o cabelo de Lily tinha uma mancha branca muito maior, que foi sendo suavizada ao longo da primeira temporada, seu colar era um morcego, mais tarde alterado para uma estrela, e suas sobrancelhas eram angulares, com esse detalhe sendo abandonado após alguns episódios; assim como Herman e o Vovô, Lily também tinha um tom de pele cinza-azulado, aplicado em de Carlo antes das gravações. A maquiagem ficaria a cargo de Bud Westmore, que criaria várias técnicas usadas no cinema e na TV após o fim da série.

Além de Marilyn, o único personagem que teve sua aparência inalterada foi Eddie, com apenas a maquiagem sendo modificada para uma que fosse aplicada mais rápido na segunda temporada, para que Patrick não tivesse de ficar horas se maquiando; a maquiagem de Herman também seria alterada para a segunda temporada, para uma mais fácil de aplicar e que deixava o personagem com uma aparência ainda menos humana. A mansão na qual a família mora seria a mesma desde o primeiro piloto, mas receberia pequenas alterações na fachada para parecer mais sinistra quando a série começasse a ser de fato filmada, além da adição de uma torre e de um "puxadinho" onde morava Marilyn. A sala da mansão, onde ocorre a maior parte das histórias, era menor e mais cheia de objetos nos pilotos, sendo aumentada e se tornando mais limpa para facilitar a movimentação dos atores. Muitas das cenas com o Vovô eram gravadas em uma espécie de masmorra onde o personagem mora, construída em um estúdio diferente e inalterada desde o primeiro piloto.

No primeiro piloto, o endereço da mansão era Mockingbird Lane 43, na cidade de Camelot, Nova Jérsei, mas, para a série, ele seria alterado para Mockingbird Lane 1313, cidade de Mockingbird Heights, estado desconhecido - anos após o fim da série, seria "revelado" que o estado é a Califórnia, e que Mockingbird Heights é "uma pequena cidade próxima a Los Angeles", o que deixaria a Família Monstro em cantos opostos do país em relação à Família Addams, que mora no estado de Nova Iorque. A fachada da mansão seria originalmente construída nos estúdios da Universal para o filme Amor Tempestuoso, de 1946, e reutilizada em várias produções do estúdio, incluindo Leave it to Beaver, sendo reformada para A Família Monstro, após a qual também seria usada, com outras reformas, nas séries Shirley, de 1979, Coach, de 1989, e Desperate Housewives, de 2004, sendo demolida em 2013.

A série também contaria com dois carros criados especialmente para ela, o Munster Koach, carro da família obtido no episódio 4, no qual Lily compra um rabecão em uma loja de carros usados e o customiza para dar de presente de aniversário para Herman, e o DRAG-U-LA, dragster que o vovô monta para participar de uma corrida no episódio 36. O Munster Coach seria criado por Tom Daniel e construído por George Barris a partir de um Ford Model-T 1926 ao custo de 20 mil dólares, o que fez com que ele fosse o objeto de cena mais caro da série e um dos mais caros da década de 1960. Já o DRAG-U-LA, criado e construído por Barris, era um dragster cuja cabine era um caixão - um caixão de verdade, de madeira, comprado pela equipe de produção da série. Ambos existem até hoje, em exposição no Volo Auto Museum, na cidade de Volo, Illinois, próxima a Chicago, onde também se encontram o fusca Herbie, o KITT de Super Máquina, o Ecto-1 original dos Caça-Fantasmas e o General Lee de Os Gatões, dentre outros carros originais e réplicas de carros famosos de filmes e séries de TV.

A música de abertura, conhecida apenas como The Munsters Theme, se tornaria uma das mais famosas dos anos 1960, sendo indicada ao Grammy de Melhor Música de Abertura Composta para um Filme ou Série de TV. Ela seria de autoria do músico e arranjador Jack Marshall, e, curiosamente, originalmente possuía uma letra escrita por Bob Mosher, da qual a CBS não gostou, pedindo para que apenas o tema instrumental fosse usado.

A primeira temporada de A Família Monstro estrearia em 24 de setembro de 1964 - como já foi dito, seis dias depois de A Família Addams - e teria 38 episódios, o último exibido em 10 de junho de 1965. A crítica ficaria encantada, notando que, apesar dos personagens monstrusos, a estrutura era a mesma de qualquer família de sitcom: o pai bem-intencionado e trabalhador, a mãe carinhosa, o parente excêntrico que morava na mesma casa, a adolescente ingênua e a criança precoce. Muitos críticos, aliás, apontariam que a vantagem de A Família Monstro sobre A Família Addams seria que os Addams tinham alguns desses elementos, mas não todos, com o público já estando acostumado com a estrutura familiar dos Monstros e até mesmo se identificando com eles; ainda assim, as duas séries tinham muitos pontos em comum, como todos os membros da família serem honestos e bondosos apesar de suas excentricidades, e algumas de suas práticas serem contrárias ao ideal de vida em sociedade - como o "aspirador de pó" de Lily, que suja tudo ao invés de limpar.

A série também faria referências a grandes sucessos da época, como Papai Sabe Tudo, The Donna Reed Show e My Three Sons - com o Vovô dizendo que essa última era sobre "uma família maluca vivendo aventuras estranhas" - como se os Monstros as acompanhassem em sua televisão. O formato pouco convencional da série, com monstros como protagonistas, proporcionava aos roteiristas uma maior liberdade para fazer críticas sociais e comentários da época, o que também diferenciaria a série das demais e contribuiria para seu sucesso - uma fala de Herman para Eddie em um dos episódios, dizendo que não importa a aparência da pessoa, "e sim o tamanho de seu coração e a força de seu caráter", seria utilizada na luta pelos direitos civis que ocorreria na década de 1960 nos Estados Unidos, e costuma ser citada até hoje por grupos que lutam pelos direitos das minorias.

O sucesso da série seria tão grande que, em meio à primeira temporada, o oceanário Marineland of the Pacific, localizado na cidade de Palos Verdes, Califórnia, pagaria a CBS por um episódio especial no qual a Família Monstro visita o local, para atrair público para suas atrações. Chamado Marineland Carnival, o episódio seria filmado no Marineland em videotape - ao contrário do restante da série, filmado em película - e exibido pela CBS uma única vez, em 18 de abril de 1965, Sábado de Aleluia (véspera do Domingo de Páscoa), não estando presente no pacote vendido para syndication. A fita no qual ele estava gravado desapareceria misteriosamente, e o episódio seria considerado perdido até 1997, quando uma cópia foi doada de forma anônima para o Paley Center, uma espécie de museu do rádio e televisão localizado em Nova Iorque.

Outra prova do sucesso da série foi que Gwynne e Lewis seriam convidados para desfilar em 1964 na Parada do Dia de Ação de Graças da Macy's, em Nova Iorque, uma das mais famosas dos Estados Unidos; eles desfilariam caracterizados como Herman e o Vovô, dirigindo o Munster Koach. Gwynne também apareceria caracterizado como Herman, em 1965 e 1966, em vários programas de sucesso da televisão norte-americana da época, como The Red Skelton Show, The Danny Kaye Show e Murray The K - It's What's Happening, Baby.

O sucesso da primeira temporada também levaria, evidentemente, a uma segunda, de mais 32 episódios, para um total de 70, exibidos entre 16 de setembro de 1965 e 12 de maio de 1966. Infelizmente, a segunda temporada teria audiência muito mais baixa que a primeira, não por culpa dos roteiristas de A Família Monstro, mas devido a estreia de Batman na ABC, com quem nenhum outro canal conseguiria competir. Diante da baixa audiência, a CBS cancelaria a série antes mesmo de todos os 38 episódios previstos serem filmados, se comprometendo a levar ao ar os que já estavam prontos. Connelly e Mosher ainda tentariam convencer o canal a mudar o dia de exibição de A Família Monstro para que ele não coincidisse com o de Batman, mas seus argumentos esbarrariam num problema técnico: depois da estreia de Batman, que era transmitido a cores, a audiência de todas as séries em preto e branco cairia vertiginosamente. Algumas, como Perdidos no Espaço, cuja primeira temporada foi filmada e transmitida em preto e branco, passariam a ser a cores a partir da temporada seguinte, mas a Universal acharia que, por exigir alterações nas maquiagens e nos cenários para ser filmada em cores, A Família Monstro ficaria muito mais cara, suspendendo o financiamento.

Enquanto o cancelamento da série estava sendo discutido, porém, Connelly e Mosher convenceriam a Universal a financiar um filme para o cinema, em cores, chamado Munsters, Go Home!, que eles esperavam fazer sucesso e convencer o estúdio a investir numa terceira temporada. Escrito por Connelly, Mosher, George Tibbles e Earl Bellamy, todos roteiristas da série, e dirigido por Bellamy, que também dirigiu episódios da série, o filme coloca Herman como herdeiro de uma mansão na Inglaterra, com a família viajando para lá de navio para conhecer o local, e a tia de Herman, Lady Effigie (Hermione Gingold), e seus dois filhos, Freddie (Terry-Thomas) e Grace (Jeanne Arnold), que pertencem ao ramo inglês da Família Monstro (e, assim como Marilyn, são humanos) querendo expulsá-los de lá para que Freddie se torne o lorde da mansão no lugar de Herman, mas com todas as suas tentativas falhando, já que, de todas as formas possíveis, eles decidem justamente fingir que a casa é mal-assombrada, o que não incomoda absolutamente os Monstros. O filme conta com a participação de Gwynne, de Carlo, Lewis e Patrick, mas nele Marilyn é interpretada por Debbie Watson. Ele estrearia em 15 de junho de 1966, mas não faria o sucesso esperado, o que enterraria de vez a ideia de uma terceira temporada.

Logo após seu cancelamento, a CBS ofereceria a série para syndication, e sua exibição em vários canais por todos os Estados Unidos mostrariam que ela ainda era capaz de fazer sucesso, com a audiência das reprises sempre sendo considerada boa. Isso animaria a Universal a investir em uma nova série, que, para cortar custos, seria de animação. Um piloto seria produzido, com roteiro de Arthur Alsberg e Don Nelson, e acabaria recebendo o nome de The Mini-Munsters; a ideia era contar com todo o elenco original como dubladores, mas, devido a outros compromissos assumidos previamente pelos atores, apenas Lewis pôde aceitar e dublar o Vovô. A CBS não se interessaria em exibi-lo, e ele acabaria indo ao ar na ABC em 27 de outubro de 1973; o canal, porém, não gostaria dos índices de audiência e não encomendaria o restante da série, o que levaria ao cancelamento do projeto.

No final da década de 1970, o canal NBC procuraria a Universal e negociaria a produção de um filme para a TV com o elenco original de A Família Monstro. Chamado The Munster's Revenge, o filme teria roteiro de Alsberg e Nelson, e seria o último dirigido por Don Weis, que ficaria famoso dirigindo episódios de séries como M*A*S*H*, Além da Imaginação, Starsky e Hutch, CHiPs, dentre outros (mas, curiosamente, nenhum de A Família Monstro) e decidiria se aposentar após concluí-lo. O elenco contaria com Gwynne, de Carlo e Lewis, mas Eddie seria interpretado por K.C. Martel, e Marilyn por Jo McDonnell; no enredo, o Dr. Dustin Diablo (Sid Caesar) cria réplicas robóticas de Herman e do Vovô, que usa para cometer crimes, com a Família Monstro tendo de limpar seu nome com a ajuda do Fantasma da Ópera (Bob Hastings). O filme seria exibido pela NBC em 27 de fevereiro de 1981.

Em meados da década de 1980, o produtor Arthur L. Annecharico compraria da Universal os direitos da Família Monstro, e os usaria para, através de sua empresa, chamada The Arthur Company, em parceria com a MCA TV, produzir uma nova série, chamada The Munsters Today, a cores e contando no elenco com John Schuck como Herman, Lee Meriwether como Lily, Jason Marsden como Eddie, Hilary Van Dyke como Marilyn, e Howard Morton como o Vovô, cujo nome verdadeiro é revelado como sendo Vladimir Dracula. Originalmente, Annecharico queria que Gwynne, de Carlo e Lewis participassem da série, mas nenhum dos três aceitou, então ele decidiu levar o projeto adiante com novos atores; curiosamente, a série não seria um reboot, e sim uma continuação da original, com a família ficando em animação suspensa durante 22 anos, acordando na década de 1980 e tendo de se adaptar aos novos tempos - infelizmente, isso só seria mostrado em um piloto jamais televisionado, então todo mundo que assistia achava que era um remake ambientado nos dias atuais. A série seria um grande sucesso e mais longeva que a original, com três temporadas de 24 episódios cada, totalizando 72, exibidos entre 8 de outubro de 1988 e 8 de junho de 1991. Ao invés de negociar com um canal específico, Annecharico decidiria fazê-la desde o início em syndication, o que seria apontado como uma das razões do sucesso da série, mas também como responsável por seu cancelamento ainda com bons índices de audiência, já que ele falharia em obter patrocínio para uma quarta temporada. The Munsters Today seria indicado a três Emmys, de Melhor Maquiagem para as duas primeira temporadas e de Melhor Cabelereiro para a segunda, ganhando todos os três.

O sucesso de The Munsters Today motivaria a Fox a negociar com Annecharico a produção de outro filme para a TV, mas, durante as negociações, ele acabaria não renovando os direitos, que voltariam para a Universal. Isso causaria um atraso na produção do filme, que acabaria feito pela MCA TV em parceria com a Bodega Bay Productions, exibido pela Fox nos Estados Unidos em 31 de outubro de 1995 (dia do Halloween), mas com a Universal tendo os direitos de exibição internacional, tendo planos, inclusive, de lançá-lo nos cinemas em alguns países - embora eu não tenha conseguido descobrir se ela realmente o fez. Chamado Here Come the Munsters, o filme é ambientado antes dos eventos da série da década de 1960, e começa com Herman, Lily, Eddie e o Vovô morando na Transilvânia e aceitando um convite de Marilyn para se mudarem para os Estados Unidos. Embora na série fique claro que Marilyn é sobrinha de Herman, nesse filme ela é filha de uma prima dele, Elsa Munster Hyde (Judy Gold), que está em coma, o que leva Marilyn a pedir ajuda a Herman para encontrar seu pai, Norman Hyde (Max Grodénchik), que está desaparecido. Enquanto a família luta para se adaptar à vida na América, Herman descobre que, ao fazer um experimento para deixar Marilyn mais parecida com o resto da família, Hyde acabou se transformando em Brent Jekyll (Jeff Trachta), que não tem memórias de sua outra vida e está em campanha para se eleger deputado. O elenco conta como Edward Herrmann como Herman, Veronica Hamel como Lily, Robert Morse como o Vovô, Matthew Botuchis como Eddie, e Christine Taylor como Marilyn, e com a participação especial de de Carlo, Lewis, Patrick e Priest como uma família que tenta comer num restaurante onde Herman está trabalhando como garçom - Gwynne, infelizmente, havia falecido em 1993.

A Fox ficaria satisfeita com a audiência do filme e encomendaria mais um para o ano seguinte, com a MCA TV decidindo que seria um filme natalino. Assim, em The Munsters' Scary Little Christmas, Eddie está com saudades da Transilvânia, com a família decidindo fazer "um Natal tradicional transilvaniense" para animá-lo, convidando vários de seus amigos de lá para visitá-lo, como o Homem-Lobo, a Criatura da Lagoa Negra e a Múmia. Paralelamente a isso, Lily tenta vencer o concurso de casa mais bem decorada da rua, e o Vovô acidentalmente captura o Papai Noel com uma de suas máquinas, colocando o próprio Natal em risco. Exibido pela Fox em 17 de dezembro de 1996, o filme natalino não teria audiência tão boa quanto o anterior, e, por alguma razão, traria um elenco completamente diferente: Sam McMurray como Herman, Ann Magnuson como Lily, Sandy Baron como o Vovô, Bug Hall como Eddie, e Elaine Hendrix como Marilyn.

A próxima aparição da Família Monstro ocorreria apenas em 26 de outubro de 2012, em um filme para a TV chamado Mockingbird Lane, em referência ao endereço da mansão da Família Monstro na série original (com a tela-título sendo a placa da mansão mostrando o endereço "Mockingbird Lane 1313"). Originalmente, Mockingbird Lane seria um reboot da série ambientado nos dias atuais, com a NBC encomendando o piloto junto à Universal em novembro de 2011; se dizendo insatisfeita com o tom "sombrio e inconsistente" do piloto, entretanto, o canal cancelaria o pedido, se comprometendo a exibi-lo como um especial de Halloween. No especial, Eddie está entrando na puberdade e se transformando em lobisomem pela primeira vez, o que causa muita confusão com os vizinhos e traz muitas dúvidas para o menino; paralelamente a isso, o coração de Herman está falhando, e, segundo o Vovô, a única forma de restaurá-lo é com um "banquete de sangue", do qual Herman se recusa a participar. O elenco traz Jerry O'Connell como Herman, Portia de Rossi como Lily, Mason Cook como Eddie, Eddie Izzard como o Vovô, e Charity Wakefield como Marilyn, além de Cheyenne Jackson como Steve, vizinho que se apaixona por Lily e que o Vovô quer matar para o banquete de sangue, Beth Grant como a vizinha fofoqueira Marie, John Kassir como seu marido, e Guy Perry como um lobisomem.

A última produção envolvendo a Família Monstro foi um novo filme, chamado simplesmente The Munsters, uma produção do cantor Rob Zombie, fã de longa data da série, que planejava negociar os direitos com a Universal antes mesmo de lançar seu primeiro trabalho como roteirista e diretor de cinema, A Casa dos 1000 Corpos, de 2003. Na época, a Universal estava negociando com os Irmão Wayans, que planejavam produzir um filme no qual não atuariam, mas o projeto acabaria não indo para a frente; então foi a vez de a NBC negociar, primeiro para a produção de Mockingbird Lane, depois, em 2017, para uma série que seria produzida por Seth Meyers, mas também jamais sairia do papel. Zombie conseguiria convencer a Universal a se envolver na produção, e, quando ficaria claro que a NBC não seguiria adiante, o estúdio pediria para que ele desenvolvesse um filme voltado para o público infantil, protagonizado por Eddie. A pandemia interromperia o projeto e, quando ele voltasse à produção, em 2021, Zombie conseguiria convencer a Universal a fazer um filme estrelado por Herman e Lily.

Escrito e dirigido por Zombie, o filme é ambientado antes dos eventos da série, e mostra a criação de Herman na Transilvânia e como ele conheceu Lily; o único outro personagem da série presente é o Vovô, chamado por todos de Conde. O elenco conta com Sheri Moon Zombie, esposa de Rob, como Lily; Jeff Daniel Phillips como Herman; e Daniel Roebuck como o Conde; além de Richard Brake como o Dr. Henry Augustus Wolfgang, criador de Herman; Jorge Garcia como Floop, seu assistente corcunda; Sylvester McCoy como Igor, servo do Conde; Catherine Schell como Zoya Krupp, cigana e ex-esposa do Conde; Cassandra Peterson (mais conhecida como Elvira, a Rainha das Trevas) como a corretora de imóveis Barbara Carr, que vende a casa na Mockingbird Lane para Herman e Lily; e Tomas Boykin como Lester, irmão de Lily. Priest e Patrick fazem participações especiais, mas ambos apenas com suas vozes: a dela é a voz usada no sistema de som da Transylvania Airlines, e a dele é a do Homem de Lata, que atua como juiz de paz no casamento de Herman e Lily.

Filmado em Budapeste, Os Monstros estrearia em 18 de julho de 2022, mas a Universal optaria por não lançá-lo nos cinemas, ao invés disso conseguindo um acordo para que ele estreasse com exclusividade na Netflix - curiosamente, cerca de dois meses antes de Wandinha, a nova série do serviço de streaming envolvendo a Família Addams. A Netflix jamais divulgaria os números da audiência, mas a crítica não o receberia bem, dizendo que ele não tem história e que o charme dos personagens não bastava para sustentá-lo.
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sábado, 10 de janeiro de 2026

Escrito por em 10.1.26 com 0 comentários

Universo Cinematográfico Marvel (XV)

Conforme ameaçado quando eu fiz a série de posts sobre a Fase 4 do Universo Cinematográfico Marvel, hoje começo a série sobre a Fase 5!

Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania
Ant-Man and the Wasp: Quantumania
2023

Antes mesmo do lançamento de Homem-Formiga e a Vespa, em 2018, o diretor Peyton Reed deu uma entrevista na qual declarou que ainda havia muitos "elementos com os quais brincar" em um potencial terceiro filme da dupla, e que sua ideia era colocar em destaque o Reino Quântico, mencionado no primeiro filme e abordado com mais detalhes no segundo, no qual, de acordo com o diretor, "havíamos apenas molhado as pontinhas dos pés".

Após o lançamento de Vingadores: Ultimato, em 2019, Kevin Feige confirmaria que havia planos para novas aparições do Homem-Formiga, fosse em um filme próprio, fosse em outros filmes da franquia, já que ele era "uma das peças que não haviam sido removidas do tabuleiro"; Paul Rudd, intérprete do personagem, confirmaria que havia conversado sobre ambas as possibilidades, mas que nada ainda estava definido. Michael Douglas, intérprete de Hank Pym, por outro lado, confirmaria que as negociações para um terceiro filme do Homem-Formiga estavam adiantadas, enquanto Evangeline Lilly, intérprete da Vespa, diria não ter sido procurada, mas acreditar que "a jornada da personagem ainda não estava completa", e Michelle Pfeiffer se diria interessada em interpretar novamente Janet Van Dyne caso um terceiro filme saísse do papel. A Marvel confirmaria um terceiro filme, com Reed na direção, em novembro de 2019, com ele mesmo confirmando as presenças de Rudd, Lilly e Douglas, e as filmagens estando marcadas para começar em janeiro de 2021.

Por incrível que pareça, Reed não era uma unanimidade nos Marvel Studios, com um grupo grande de executivos preferindo que cada filme de um determinado herói tivesse diretores diferentes, para que diversas abordagens fossem mostradas, mas Feige bancaria a escolha argumentando que Reed conhecia como ninguém o universo do Homem-Formiga, e seria injusto não deixar que ele concluísse sua trilogia. Para o roteiro, a Marvel contrataria Jeff Loveness, que assinaria já durante os primeiros dias da quarentena da pandemia, quando os estúdios estavam suspendendo as novas produções; isso faria com que ele tivesse de trabalhar de casa, com Chris McKenna, Eric Pearson, Rudd e Erik Sommers contribuindo para o roteiro através de reuniões online, mas apenas Loveness sendo creditado. A pandemia também faria com que a Marvel não conseguisse manter a data de janeiro de 2020 para o início das gravações, com esta sendo adiada por tempo indeterminado em agosto de 2020.

Na mesma época, Reed confirmaria que o filme seria ambientado no Reino Quântico, e, portanto, muito diferente dos dois anteriores; segundo ele, suas principais referências para a construção do cenário seriam as revistas Heavy Metal dos anos 1970 e 1980, ilustrações de artistas de ficção científica, como Moebius, e fotografias de microscópios eletrônicos. Em setembro de 2020, Jonathan Majors seria confirmado no filme; como na série Loki ele havia interpretado um personagem considerado uma versão alternativa de Kang, o Conquistador, isso meio que confirmava que Kang seria o vilão do filme do Homem-Formiga. A confirmação ganharia força quando fosse divulgado que, antes de contratar Majors, Reed havia conversado com Kate Herron e Michael Waldron, respectivamente diretor e roteirista de Loki, sobre a melhor forma de integrar o personagem ao MCU. Reed declararia ter interesse em trabalhar com Majors desde que assistiu The Last Black Man in San Francisco, e que estava satisfeito com o fato de o vilão do filme ser um dos Classe A da Marvel, equiparável a Loki ou ao Dr. Destino.

Pfeiffer só seria confirmada no filme, com um papel de bastante dstaque, em dezembro de 2020, junto com Kathryn Newton no papel de Cassie Lang. Emma Fuhrmann, que interpretou a personagem em Vingadores: Ultimato, se diria entristecida por ter sido trocada por Newton, e declararia esperar poder ter um novo papel no MCU no futuro; Newton havia originalmente feito o teste para Kate Bishop na minissérie Gavião Arqueiro, papel que acabaria ficando com Hailee Steinfeld, mas os produtores gostaram tanto dela que decidiram convidá-la para interpretar Cassie, substituindo Fuhrmann. Após o anúncio de que Cassie estava no filme, Loveness declararia ter se inspirado em várias "comédias de pai e filha dos anos 1990", como O Pai da Noiva e Jumanji, para criar o relacionamento entre Scott e Cassie; ele também diria ter aproveitado o tempo extra que teve para escrever o roteiro, devido à pandemia, para experimentar "algo novo e estranho": o filme começa como uma aventura em família, mas logo se transforma em um épico de guerra e ficção científica.

Em fevereiro de 2021, antes de qualquer anúncio oficial da Marvel, o Ministro da Cultura e Turismo da Turquia confirmaria que as filagens haviam começado na Capadócia, e que mais filmagens estavam programadas para outras partes do país ainda naquele ano. No mesmo mês, seria confirmado que o personagem Dave, de Top T.I. Harris, não estaria no filme; boatos dariam conta de que a Marvel havia removido o personagem do filme após Harris ser acusado de abuso sexual pela cantora Tiny, mas Feige diria em entrevista à revista Variety que Dave jamais esteve em nenhuma versão do roteiro, bem como seu amigo Kurt, ou Luis, amigo de Scott e chefe dos dois - embora David Dastmalchian, que interpretou Kurt, tenha sido escalado para dublar um novo personagem, feito por computação gráfica. Na mesma entrevista, Feige confirmaria a estreia do filme para fevereiro de 2023, dois anos após o planejamento original.

Apesar do que disse o Ministro turco, as filmagens começariam oficialmente em julho de 2021, nos Pinewood Studios, na Inglaterra, mas teriam que ser interrompidas em setembro após grande parte da equipe de filmagens contrair um norovírus, que causa gastroenterite. Ao mesmo tempo, filmagens que seriam usadas apenas em cenas sem a presença dos atores ocorreriam em San Francisco e em Atlanta, nos Estados Unidos. Durante as filmagens, o ator Corey Stoll, que havia interpretado o vilão Darren Cross no primeiro filme, foi visto no set, o que gerou muitas especulações sobre se Cross estaria no filme ou se ele interpretaria um novo personagem. Também durante as filmagens, em uma entrevista sobre outro assunto, Bill Murray diria estar no filme, e que jamais havia se interessado por filmes de super-heróis, mas que havia decidido aceitar o convite de Reed por ser fã do filme As Apimentadas, dirigido por ele em 2000; em entrevistas subsequentes, Murray seria novamente perguntado sobre seu papel, mas diria não poder falar mais nada além de que seria "um cara mau". Curiosamente, a maior parte das cenas envolvendo o personagem de Murray seriam cortadas do roteiro durante as filmagens e jamais filmadas, o que transformaria seu papel em uma participação especial, e levaria a boatos de que os cortes foram uma represália por o ator ter vazado sua participação.

Sendo um filme ambientado em um Reino fantástico, obviamente Quantumania teve efeitos especiais em quase todas as suas cenas, divididos entre 15 empresas: Sony Pictures Imageworks, Industrial Light & Magic, Digital Domain, Moving Picture Company, Fin Design + Effects, Spin VFX, Rising Sun Pictures, Folks VFX, Barnstorm VFX, Base FX, Pixomondo, MARZ, Luma Pictures, Atomic Arts, Territory Studio e Stereo D. A sequência de abertura (que, na verdade, vem no final) ficaria a cargo da Perception, que emularia o visual do Reino Quântico, criado por computação gráfica, com imagens reais de fluidos viscosos e reações químicas. Por causa da pandemia, a pós-produção do filme teria quatro meses e meio a menos que o previsto inicialmente, o que faria com que alguns dos efeitos especiais só ficassem prontos na semana de estreia do filme, e fossem considerados "corridos" e "abaixo do padrão" por alguns críticos e espectadores; para economizar tempo, algumas empresas, como a IL&M, trabalhariam ao mesmo tempo em Quantumania e em Pantera Negra: Wakanda para Sempre, o que faria com que a maior parte dos esforços se concentrassem no filme do Pantera Negra, que iria estrear antes, o que também prejudicou a qualidade dos efeitos de Quantumania. Segundo a Disney, a correria na pós-produção estouraria o orçamento inicialmente reservado para o filme em mais de 125 milhões de dólares.

No filme, após os eventos de Vingadores: Ultimato, Scott Lang escreveu um livro e vive confortavelmente de suas vendas e divulgação, enquanto sua filha, Cassie, fundou uma ONG que ajuda pessoas afetadas pelo blip, e não tem um bom relacionamento com o pai. Um dia, quando Scott e Cassie estão visitando os pais de Hope, Cassie revela estar trabalhando em um dispositivo capaz de contactar o Reino Quântico; a mãe de Hope, Janet, que ficou presa lá durante décadas, entra em pânico e tenta desligar o dispositivo, mas os cinco acabam sugados para o Reino Quântico como resultado. Scott e Cassie vão parar numa cidade onde uma rebelião está se formando contra um tirano, enquanto Hope, Janet e Hank se veem em outra cidade, onde também residem vários dos aliados e inimigos que Janet fez durante seus anos no local. Os dois grupos, então, precisam se encontrar e conseguir uma forma de retornar à nossa dimensão - mas o tal tirano parece querer aproveitar a oportunidade para vir junto com eles e dominar tudo por aqui também.

O elenco conta com Paul Rudd como Scottt Lang / Homem-Formiga; Evangeline Lilly como Hope Van Dyne / Vespa; Jonathan Majors como Kang, o Conquistador; Michelle Pfeiffer como Janet Van Dyne; Michael Douglas como Hank Pym; Kathryn Newton como Cassie Lang; David Dastmalchian como Veb, criatura gelatinosa do Reino Quântico que secreta um muco que atua como tradutor universal; Katy O'Brian como Jenorra, líder da rebelião contra Kang; William Jackson Harper como Quaz, telepata que vive no Reino Quântico; Bill Murray como Lord Krylar, governador da cidade onde Hope, Janet e Hank vão parar, que tem um passado em comum com Janet; Corey Stoll como Daren Cross / M.O.D.O.K., que foi parar no Reinio Quântico após ser derrotado pelo Homem-Formiga no primeiro filme, e lá teve seu corpo modificado por Kang; e Randall Park como o agente do FBI Jimmy Woo. A cena pós-créditos é uma cena da segunda temporada de Loki, com a participação de Majors, Tom Hiddleston e Owen Wilson.

Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania teria uma pré-estreia em Los Angeles em 6 de fevereiro de 2023, mas estraria nos Estados Unidos e China somente em 17 de fevereiro, com a maioria dos outros países tendo suas estreias antes - aqui no Brasil, estrearia um dia antes, em 16 de fevereiro. Com orçamento de 388 milhões de dólares, renderia 476 milhões no mundo inteiro, sendo 214,5 milhões nos Estados Unidos, o que o faria ser considerado um fracasso de bilheteria - projeções da Disney antes do lançamento estimavam uma bilheteria mundial de pelo menos 600 milhões. A crítica tambem não receberia bem o filme, reclamando das atuações, do cenário confuso do Reino Quântico e do enredo pouco inspirado, mas elogiando as cenas de ação e a presença de Kang, "um vilão com potencial para mudar a história do MCU". Mesmo sendo um fracasso de público e crítica, Reed discutiria com a Marvel a possibilidade de um quarto filme do Homem-Formiga, com Rudd se dizendo interessado, mas Douglas declarando que só aceitaria fazê-lo se Pym morresse nele.

Para terminar, uma curiosidade: em setembro de 2022, Loveness seria confirmado como o roteirista do futuro filme dos Vingadores Avengers: The Kang Dynasty, que teria várias versões de Kang, de vários universos diferentes - com inclusive a cena intercréditos de Quantumania mostrando o Conselho dos Kangs, com a presença de outras variantes do vilão, como Immortus, Rama-Tut e Centurion, todos interpretados por Majors. Reed declararia que isso aumentava a importância de Quantumania, com o impacto da primeira aparição de Kang ser justamente nesse filme ter o potencial para torná-lo tão grandioso quanto os filmes dos Vingadores. As participações de Kang em Loki, na Fase 4, em Quantumania, na Fase 5, e como principal vilão de um filme dos Vingadores na Fase 6 fazia parte do plano da Marvel de agrupar as Fases 4, 5 e 6 como "A Saga do Multiverso", com as Fases 1, 2 e 3 sendo "A Saga do Infinito", e, assim como Thanos foi o vilão principal da primeira Saga, Kang seria o da segunda.

Em março de 2023, entretanto, Majors seria preso sob alegações de abuso moral, agressão e estrangulamento de sua namorada, Grace Jabbari, e a Disney começaria a discutir seu afatamento do MCU, com os primeiros boatos dizendo que a Marvel cogitava substituí-lo no papel de Kang por Will Smith. Na época, as filmagens de Avengers: The Kang Dynasty estavam previstas para começar no início de 2024, com o lançamento do filme estando programado para maio de 2025; a greve dos roteiristas de 2023 daria à Disney mais tempo para resolver a questão, mas Loveness pediria demissão do cargo de roteirista em abril de 2023, dias antes de a greve começar. Majors seria condenado em dezembro de 2023, após o que a Marvel decidiu atrasar a data de estreia do quinto filme dos Vingadores em um ano, para maio de 2026. Depois disso, Marvel e Disney decidiriam remover Kang totalmente do filme, substituindo-o pelo Dr. Destino e mudando seu título para Avengers: Doomsday. Com isso, a última aparição de Kang no MCU, na forma de uma variante, seria na segunda temporada de Loki.

Guardiões da Galáxia Vol. 3
Guardians of the Galaxy Vol. 3
2023

Em novembro de 2014, pouco depois do lançamento do primeiro Guardiões da Galáxia, o diretor e roteirista James Gunn diria em uma entrevista que já tinha ideias não só para um segundo filme da franquia, confirmado antes mesmo da estreia do primeiro, mas também para um terceiro. Em junho de 2015, contudo, Gunn declararia não ter certeza se um terceiro filme seria feito, e que isso dependeria de como ele se sentiria após terminar o segundo. Em abril de 2016, Feige declararia publicamente que um terceiro filme dos Guardiões estava nos planos da Marvel, para ser lançado "depois de 2020", mas somente em março de 2017 Gunn declararia estar "tentando entender" como esse filme poderia ser, e que ele com certeza seria feito, "a menos que algo horrível" acontecesse, completando com "o que é sempre possível, nunca se sabe". Algumas semanas depois, Gunn declararia que talvez não escrevesse ou dirigisse o filme, e que ainda estava pensando em qual seria seu grau de envolvimento com a produção; a amigos, ele diria não ter vontade de fazer um filme dos Guardiões sem a presença de Michael Rooker, cujo personagem, Yondu Udonta, havia morrido no final do segundo filme.

No final de abril, contudo, Gunn surpreenderia e anunciaria que voltaria para dirigir e escrever Guardiões da Galáxia Vol. 3, que seria ambientado após os eventos de Vingadores: Ultimato e concluiria a história dessa equipe dos Guardiões, pavimentando o caminho para que "novos e antigos heróis" assumissem seus lugares e tivessem protagonismo no MCU "pelos próximos dez anos". Ele também planejava ser uma espécie de "consultor do universo cósmico Marvel", atuando junto a futuras produções ambientadas no espaço para que elas tivessem uma sensação de continuidade. Isso faria com que ele incluísse na história Adam Warlock, um importante personagem cósmico dos quadrinhos, que ele havia pensado em adicionar já ao segundo filme, mas depois voltado atrás, e conversasse com Mark Hamill sobre a possibilidade de interpretar algum outro personagem cósmico. Gunn entregaria a primeira versão do roteiro no final de junho de 2018, e anunciaria que a Marvel havia reservado a data de maio de 2020 para a sua estreia.

Então, o "algo horrível" aconteceu: um mês depois de Gunn entregar o roteiro, personalidades de extrema-direita, lideradas por um comentarista político e teórico da conspiração, divulgaram tweets de 2008 nos quais Gunn faz piadas envolvendo estupro e pedofilia, e começaram uma campanha para que a Disney o demitisse. O presidente da Disney na época, Alan F. Horn, declararia que tais posicionamentos eram indefensáveis e inconsistentes com os valores defendidos pelo estúdio, e anunciaria a demissão imediata de Gunn. Gunn declararia apenas que os tweets eram muito antigos, e que ele havia evoluído como pessoa desde então, não desejando mais chocar as pessoas para fazer humor, mas que assumia total responsabilidade pelo que disse e aceitava as consequências de seus atos. Vários nomes famosos de Hollywood, como Rooker, a atriz Selma Blair, o comediante Bobcat Goldthwait e o ex-jogador de basquete e ator Kareem Abdul-Jabbar se posicionariam publicamente contra a demissão e pediriam a recontratação de Gunn, assim como um grupo de fãs que conseguiria mais de 300 mil assinaturas numa petição online. Em 30 de julho, seria divulgado um documento no qual todo o elenco dos filmes dos Guardiões declararia seu apoio a Gunn, e as edições de julho e agosto das revistas The Hollywood Reporter, Variety, Deadline Hollywood e Forbes trariam artigos discutindo a demissão de Gunn e como ela poderia interferir em futuras produções de Hollywood.

Em agosto, vazaria na imprensa que, como tweets de dez anos atrás não constituem quebra de contrato, as negociações entre Disney e Gunn quanto à sua demissão haviam se tornado "complicadas", e que era possível que o diretor recebesse entre 7 e 10 milhões de dólares pelo que já havia feito do filme, não sendo descartado que ele conseguisse na justiça retornar para dirigir ou esse, ou algum futuro filme da Marvel; a Disney não se declararia sobre o assunto, mas confirmaria que usaria o roteiro entregue por Gunn, sem revisões ou modificações. A Marvel chegaria a negociar oficialmente com Gunn seu retorno para dirigir Guardiões da Galáxia Vol. 3, mas Horn não aceitaria, e, durante a reunião marcada pela Marvel, confirmaria a demissão de Gunn. Diante disso, a pré-produção seria cancelada, com quem já havia sido contratado sendo liberado para outros projetos, e a produção seria adiada por tempo indeterminado, para que a Marvel encontrasse um substituto para Gunn - o preferido de Horn era Bradley Cooper, que havia feito sua estreia como diretor em Nasce uma Estrela, de 2018, mas que diria "não conseguir se imaginar dirigindo um filme que não escreveu". Após o cancelamento da pré-produção, Dave Bautista, que havia declarado que só aceitaria fazer o filme se o roteiro de Gunn fosse mantido, diria em uma nova entrevista já não ter certeza sobre seu retorno, devido à forma como a Disney lidou com a demissão de Gunn.

Livre de suas obrigações com a Marvel, Gunn seria procurado pela Warner, dona da DC, e aceitaria escrever e dirigir O Esquadrão Suicida. Um dia depois de assinar o contrato, em outubro de 2018, ele seria chamado para uma nova reunião na Disney, na qual Horn se diria "impressionado com a forma como ele respondeu à situação", e declararia ter mudado de ideia e decidido permitir que Gunn dirigisse Guardiões da Galáxia Vol. 3 se ele assim quisesse. Gunn, então, procuraria Feige, e ficaria acertado que a pré-produção de Guardiões da Galáxia Vol. 3 seria adiada até ele concluir O Esquadrão Suicida; isso seria mantido em segredo, porém, com Feige e Chris Pratt confirmando que Guardiões da Galáxia Vol. 3 relamente sairia do papel apenas em janeiro de 2019, e o próprio Gunn revelando que havia sido recontratado e dirigiria o filme em março de 2019. Antes disso, em dezembro de 2018, Adam McKay diria estar em negociações para dirigir o filme, mas, em abril de 2019, a revista Deadline Hollywood publicaria que a Marvel jamais chegou a negociar com qualquer outro diretor.

Em uma entrevista de maio de 2019, Gunn diria ter ficado extremamente triste com a demissão não devido ao motivo pelo qual ela ocorreu, mas porque ele havia feito de Rocky o protagonista do terceiro filme. Gunn diria que se identifica com Rocky, e que ele e o personagem eram "a mesma pessoa"; também segundo ele, a única explicação para que um personagem "maluco ao estilo Pernalonga" como Rocky existisse no MCU era que ele na verdade era profundamente triste, e usava o humor para esconder isso. Gunn escreveria o roteiro de forma que o passado de Rocky fosse contado em flashbacks ao estilo de O Poderoso Chefão - Parte II, e que os eventos desse passado fossem cruciais para a trama central do filme, completando que ficaria extremamente desapontado se outra pessoa contasse essa história em seu lugar.

Gunn também seria perguntado se ele havia ficado decepcionado com a morte de Gamora em Vingadores: Guerra Infinita, e responderia que não, e que inclusive os roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely o haviam procurado e discutido com ele seus planos para a personagem, informando-o de que ela iria morrer e perguntando o que ele achava disso. Markus e McFeely diriam em entrevistas posteriores que Gunn havia sido tão receptivo e colaborativo que eles haviam decidido trazer Gamora de volta em Vingadores: Ultimato somente para que ele pudesse contar com ela em Guardiões da Galáxia Vol. 3. Na mesma entrevista, ao ser perguntado se Yondu também voltaria, Gunn responderia que sua morte foi importante, que seu retorno anularia seu sacrifício, e que ele preferiria que os personagens que ele matava em seus filmes permanecessem mortos.

A pré-produção de Guardiões da Galáxia Vol. 3 estava marcada para começar em fevereiro de 2020, mas, por causa da pandemia, seria mais uma vez adiada indeterminadamente, com Gunn declarando que isso não alteraria em nada o planejamento inicial, com O Esquadrão Suicida sendo lançado em 2021 e Guardiões da Galáxia Vol. 3 "um pouco depois". Em agosto de 2020, ele entregaria a versão final do roteiro, e, com a pré-produção ainda paralisada, aceitaria um convite da Warner para escrever e dirigir Pacificador, série de TV que era um spin off de O Esquadrão Suicida. Em novebro de 2020, Gunn confirmaria que as filmagens de Guardiões da Galáxia Vol. 3 começariam no final de 2021, com o filme estreando no início de 2023, e que, concomitantemente ao filme, seria filmado o Guardiões da Galáxia: Especial de Festas, que seria lançado no final de 2022.

A pré-produção começaria efetivamente em abril de 2021, com Gunn declarando que Guardiões da Galáxia Vol. 3 era ambientado não somente após os eventos de Vingadores: Ultimato, mas também do Especial de Festas e de Thor: Amor e Trovão; segundo ele, o final de Ultimato, no qual Thor decide se unir aos Guardiões da Galáxia, foi definido durante a pós-produção e sem consultá-lo, então foi uma boa coisa Thor ter deixado a equipe no início de Amor e Trovão, já que ele "não compreendia bem" o personagem, que não estava em seus planos para o terceiro filme. Gunn faria pequenas mudanças no roteiro durante as filmagens, mas garantiria que a história permaneceu a mesma desde a primeira versão, entregue ainda antes de sua demissão, com apenas alguns ajustes finos sendo feitos aqui e ali; ele também diria que os três filmes dos Guardiões "contam uma só história", e que usaria o terceiro para fechar pontas soltas e aparar arestas.

Em entrevistas durante as filmagens, Gunn diria ter pensado em usar como vilão no filme o Aniquilador, mas, devido a complicações por sua história ser muito ligada à do Quarteto Fantástico, acabaria optando pelo Alto Evolucionário, que encaixava melhor com a história que ele havia pensado para o passado de Rocky. Para o papel, Gunn convidaria Chukwudi Iwuji, com quem já havia trabalhado em Pacificador. Para poupar tempo, o teste de figurino de Iwuji ocorreria durante a produção da primeira temporada de Pacificador, usando a equipe da série; a Marvel pagaria o favor permitindo que Gunn filmasse uma cena envolvendo duas participações especiais de peso em Pacificador durante as filmagens de Guardiões da Galáxia Vol. 3, usando a equipe do filme. Vale citar como curiosidade que a primeira versão do roteiro tinha um personagem escrito especificamente para Kumail Nanjiani, amigo pessoal de Gunn, removido após Nanjiani ser escalado para interpretar Kingo em Eternos.

Apesar de ter tido a intenção de incluir Adam Warlock no segundo filme, e a certeza de incluí-lo no terceiro, Gunn declararia que ele seria o personagem mais difícil de integrar à história, "como se ele fosse uma peça quadrada tendo de entrar num buraco redondo". Os atores George MacKay, Regé-Jean Page, David Corenswet e Aaron Pierre fariam o teste, com os dois últimos depois sendo escolhidos por Gunn para interpretar, respectivamente, Superman e John Stewart em seus futuros filmes da DC, mas o papel de Adam Warlock acabaria ficando com Will Pouter, segundo boatos, porque os executivos da Marvel queriam um ator fisicamente parecido com o personagem dos quadrinhos. Poulter diria ter feito um teste online antes do presencial, e que o nome do personagem só lhe foi revelado após ele ser confirmado no papel. Em entrevistas posteriores ao lançamento do filme, Gunn diria que a Marvel tinha planos para usar Adam Warlock em filmes futuros, embora não tenha revelado quais.

As filmagens começariam em Atlanta em novembro de 2021. A pedido de Gunn, apesar de ser um filme cósmico, os efeitos de computação gráfica foram mantidos no mínimo possível, com a maior parte dos efeitos sendo feito à moda antiga, com cenários, miniaturas, próteses e maquiagem - a nave dos Guardiões, a Bowie, era um cenário de quatro andares de altura. Os efeitos especiais ficariam a cargo das empresas Framestore, Weta FX, Sony Pictures Imageworks, Industrial Light & Magic, Rodeo FX, Rise FX, Crafty Apes, BUF, Lola VFX, Perception e Compuhire; Gunn diria ter pensado em usar o sistema StageCraft, da Industrial Light & Magic, desenvolvido para a série The Mandalorian, mas que a empresa, após visitar o set de filmagem, disse que isso não seria possível porque os cenários eram grandes demais. Cenas adicionais seriam gravadas em Londres, no final de 2021, e as filmagens se concluiriam em maio de 2022; algumas cenas teriam de ser regravadas em junho devido a "problemas técnicos".

No filme, após os Guardiões serem atacados por Adam Warlock a mando de Ayesha, governante dos Sovereign, Rocky fica à beira da morte, e a única forma de salvá-lo é os Guardiões invadirem uma empresa chamada Orgocorp para conseguir um código que desliga um dispositivo embutido em seu corpo. Eles não sabem, porém, que Rocky é o resultado de um experimento genético conduzido pelo líder da Orgocorp, conhecido apenas como Alto Evolucionário, cujo objetivo de vida é evoluir animais artificialmente até eles ficarem quase humanos, usando-os para povoar um planeta chamado Contra-Terra, no qual ele pretende criar uma sociedade perfeita, sem vícios, doenças ou crimes. Para obter o código, os Guardiões terão de viajar até a Contra-Terra e enfrentar o Alto Evolucionário em pessoa, que, agora que sabe a localização de Rocky, quer seu experimento de volta.

O elenco conta com Chris Pratt como Peter Quill / Senhor das Estrelas; Zoe Saldana como Gamora; Dave Bautista como Drax; Karen Gillan como Nebulosa; Pom Klementieff como Mantis; Vin Diesel como a voz de Groot; Bradley Cooper como a voz de Rocky; Will Poulter como Adam Warlock; Sean Gunn como Kraglin; Maria Bakalova como a voz do cão astronauta Cosmo; Chukwudi Iwuji como o Alto Evolucionário; Linda Cardellini como Lylla, lontra que foi a melhor amiga de Rocky em sua época com o Alto Evolucionário; Nathan Fillion como Mestre Karja, chefe de segurança da Orgocorp; Daniela Melchior como Ura, gerente da Orgocorp; Jennifer Holland como Kwol, recepcionista da Orgocorp; Sylvester Stallone como Stakar Ogord; Elizabeth Debicki como Ayesha; Miriam Shor e Nico Santos como os assistentes do Alto Evolucionário, Vim e Theel; e Gregg Henry como o avô de Quill. Participações especiais incluem Seth Green como a voz de Howard, o Pato; Kai Zen como Phyla, criança aparentemente humana que também é um dos experimentos do Alto Evolucionário; Asim Chaudry como a voz da morsa Dentes e Mikaela Hoover como a do coelho Chão, colegas de Rocky de quando ele era um experimento; Christopher Fairbank como o Corretor; e Stephen Blackehart como Steemie. Michael Rooker faz uma pequena aparição como Yondu; Lloyd Kaufmann, Pete Davidson, Dane DiLiegro e Rhett Miller fazem participações especiais como alienígenas; Molly C. Quinn faz uma pirata espacial; Sarah Alami faz uma residente de Luganenhum chamada Ssssaralami; Darla Delgado e Randy Havens interpretam um casal que ajuda os Guardiões na Contra-Terra; Michael Rosenbaum interpreta Martinex; Tara Strong faz a voz de Mainframe (que, no segundo filme, havia sido dublada por Miley Cyrus, que não pôde repetir o papel por conflito de agenda); Judy Greer e Reinaldo Faberlle dublam animais ciborgues que atuam como seguranças do Alto Evolucionário; Dee Bradley Baker dubla Blurp, animal alienígena mascote dos piratas espaciais; e Jared Gore é creditado como Krugarr, embora só tenha feito sua captura de movimentos, já que o personagem não fala.

Um dos experimentos do Alto Evolucionário, Lambshank, foi concebido  por Gunn especialmente para ser dublado por Stan Lee, com inclusive seu rosto originalmente lembrando o de Lee; Gunn planejava que Lee gravasse as falas de Lambshank em sua própria casa, ao invés de ter de viajar para Atlanta, devido à sua idade avançada, mas Lee faleceria antes que as gravações pudessem ser feitas, o que levaria Gunn a manter o personagem no filme, mas com outra aparência e apenas uma fala, dublada pelo próprio Gunn.

A trilha sonora seria mais uma vez um destaque à parte, contendo principalmente músicas dos anos 1990 e 2000, tocadas a partir do Zune de Quill, que ele recebeu no final do Vol. 2. Gunn diria ter muita dificuldade para selecionar as músicas, chegando a fazer uma lista preliminar com 181. Ele planejava abrir o filme com Roussian Roulette, de The Lords of the New Church, mas uma disputa sobre os direitos autorais da música fariam com que ela não estivesse disponível para licenciamento, o que levaria Gunn a optar por uma versão acústica de Creep, do Radiohead; para o encerramento, ele escolheria Dog Days Are Over, de Florence and the Machine, que, segundo ele, havia pensado em usar para fechar a trilogia desde que ainda estava trabalhando no primeiro filme. Assim como nos dois filmes anteriores, a trilha sonora seria lançada com o nome de Guardians of the Galaxy: Awesome Mix Vol. 3.

Após uma pré-estreia na China em 19 de abril, uma na França em 22 de abril (na Disneylândia) e uma em Hollywood em 27 de abril, Guardiões da Galáxia Vol. 3 estrearia quase no mundo todo em 3 de maio, e nos Estados Unidos em 5 de maio de 2023. A Disney produziria mais de 600 versões diferentes do filme, cada uma apropriada para um tipo de cinema, com pequenas variações em proporção de tela, frame rate e até no volume da trilha sonora incidental; a "versão padrão" era curiosa por si só, com cerca de 100 minutos usando a proporção de tela 2,39:1, mas os cerca de 50 minutos restante usando 1,85:1 - segundo Gunn, para que "a tela se abrisse em momentos-chave do filme". O orçamento do filme não seria divulgado, mas seria estimado na casa dos 250 milhões de dólares; a bilheteria seria de 359 milhões nos Estados Unidos e 486,6 milhões no restante do mundo, para um total de 845,6 milhões, sendo considerado um grande sucesso. O filme ainda teria o melhor rendimento de qualquer sequência da Marvel na segunda semana de exibição, e a menor diferença entre as bilheterias da primeira e segunda semanas desde Homem-Aranha: Sem Volta para Casa.

A crítica também seria muito positiva, considerando-o o melhor filme da Marvel pós-pandemia, elogiando sua carga emocional, suas sequências de ação - segundo Gunn, inspiradas nas do filme sul-coreano A Vilã - e a trilha sonora, que ajudava a destacar os principais momentos da história. Dentre os pontos negativos, alguns críticos consideraram o filme, de duas horas e meia, longo demais, e outros criticariam a forma como ele lida com a crueldade contra os animais, chamando-o de "brutal" e dizendo que amantes dos animais não teriam estômago para vê-lo. Apesar disso, a famosa organização de direitos dos animais PETA divulgaria um comunicado no qual considerava Guardiões da Galáxia Vol. 3 o filme "que mais fez pelos direitos dos animais nos últimos anos", e conferiu a Gunn um prêmio especial pela forma como ele retratou na tela os testes feitos em animais. Guardiões da Galáxia Vol. 3 seria indicado ao Oscar de Melhores Efeitos Especiais, mas perderia para Godzilla Minus One, ao Globo de Ouro de Melhor Performance nas Bilheterias e ao Grammy de Melhor Compilação de Trilha Sonora para uma Mídia Visual, perdendo ambos para Barbie.

Em abril de 2017, antes de toda a confusão de sua demissão e recontratação, Gunn diria em entrevistas que seria possível um quarto filme dos Guardiões, mas com uma nova equipe, já que ele planejava encerrar a história dessa no terceiro; em setembro de 2017, ele declararia que o terceiro filme seria o seu último como diretor e roteirista, mas que a Marvel poderia seguir fazendo novos filmes da equipe mantendo-o como consultor. Após o lançamento de Guardiões da Galáxia Vol. 3, Saldana confirmaria que essa foi sua última atuação como Gamora, mas que esperava que a Marvel contratasse outra atriz para que a personagem não saísse do MCU; Gillan, por outro lado, expressaria seu desejo de continuar interpretando Nebulosa, mesmo que em filmes de outros heróis, e Pratt indicaria estar disposto a seguir interpretando Quill em filmes de outros heróis, ou até mesmo em um filme solo do personagem - o que poderia ser uma dica para a enigmática frase no final do terceiro filme, "o lendário Senhor das Estrelas retornará".

Em dezembro de 2024, Gunn revelaria que, ao longo dos anos, foram travadas conversas para diversos spin offs da franquia, como um filme estrelado por Drax e Mantis (que acabaria virando o Especial de Festas), uma série de TV estrelada pelos piratas espaciais, e até mesmo um filme chamado "O Lendário Senhor das Estrelas", para o qual ele já tinha uma história completa; mais uma vez, ele diria ser improvável que ele escrevesse ou dirigisse qualquer um desses projetos, mas dava sua bênção para que a Marvel seguisse em frente sem ele. Até o momento, contudo, não há quaisquer planos para o retorno dos Guardiões da Galáxia na Fase 6.

Série Universo Cinematográfico Marvel

•Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania
•Guardiões da Galáxia Vol. 3

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sábado, 20 de dezembro de 2025

Escrito por em 20.12.25 com 0 comentários

Studio Ghibli (IX)

E hoje encerramos o ano de 2025 e a série sobre as produções do Studio Ghibli. Nos vemos 10 de janeiro!

A Tartaruga Vermelha
La Tortue Rouge
2016

No final de 2013, tanto Hayao Miyazaki quanto Isao Takahata, dois dos fundadores e principais diretores do Studio Ghibli, anunciariam suas aposentadorias. Diante disso, o presidente do Studio Ghibli, Koji Hoshino, tomaria uma decisão inusitada: os dois projetos do estúdio já em andamento, o filme As Memórias de Marnie e a série de TV Ronja: A Filha do Ladrão seriam concluídos, mas, depois disso, todo o departamento de produção do Studio Ghibli seria desmantelado, com todos os profissionais sendo liberados para encontrar novos empregos em outros estúdios, e ele e o produtor Toshio Suzuki se dedicariam apenas à manutenção do Ghibli Museum. Hoshino deixaria claro, porém, que, caso algum novo projeto de interesse fosse apresentado, o departamento de produção poderia ser reaberto, com os profissionais, antigos ou novos, sendo recontratados apenas para aquela produção.

Assim começaria um hiato de seis anos, durante o qual muitos achariam que o Studio Ghibli havia fechado as portas de vez, e só terminaria quando Hayao Miyazaki decidisse largar sua aposentadoria para trabalhar em O Menino e a Garça, que acabou adiado para que ele pudesse ajudar seu filho Goro em Aya e a Bruxa. Mas isso nós veremos mais a seguir ainda hoje; por enquanto, o que interessa é que, durante esse hiato, o Studio Ghibli trabalharia em sua primeira co-produção internacional: o filme francês A Tartaruga Vermelha.

Co-produzido pela Wild Bunch, Prima Linea Productions, Why Not Productions, Arte France Cinéma, CN4 Productions, Belvision - todas francesas - e Studio Ghibli, financiado pela Nippon Television Network, Dentsu, Hakudodo DY Media Partners, Walt Disney Japan, Mitsubishi Corporation e Toho - todas japonesas - A Tartaruga Vermelha surgiria como projeto em 2008, quando um dos co-fundadores da Wild Bunch, Vincent Maraval, visitou o Studio Ghibli para conhecer Hayao Miyazaki pessoalmente, levando a pedido do japonês uma cópia do curta animado Father and Daughter, escrito e dirigido pelo holandês Michaël Dudok de Wit, vencedor do Oscar de Melhor Curta Animado de 2001. Miyazaki perguntaria se Maraval tinha como entrar em contato com de Wit, e diria que, se algum dia o Studio Ghibli fosse fazer um filme dirigido por um estrangeiro, seria com de Wit. A Wild Bunch entraria em contato com de Wit em Londres, convidando-o para assinar um contrato para a direção de um filme. De início, de Wit não se mostraria interessado, mas mudaria de ideia ao descobrir que Miyazaki tinha interesse em trabalhar com ele.

Questões de ordem prática, porém, fariam com que o projeto levasse muitos anos para sair do papel, e com que de Wit e Miyazaki jamais trabalhassem juntos; a principal delas seria que, tendo de Wit um contrato com a Wild Bunch, Maraval queria que o filme fosse uma co-produção entre seu estúdio e o Studio Ghibli, enquanto Miyazaki preferia que de Wit escrevesse e dirigisse um filme para o Studio Ghibli sem o envolvimento dos franceses. Somente após a aposentadoria de Miyazaki que Suzuki conseguiria costurar o acordo que permitiria a realização do filme; a extensão do quanto o Studio Ghibli efetivamente contribuiu além de emprestar seu nome jamais foi oficialmente divulgada, mas Suzuki e Takahata são creditados como produtores, junto a Maraval, Pascal Caucheteux e Grégoire Sorlat.

O filme conta a história de um homem que naufraga em uma ilha "deserta", que conta apenas com árvores, um bambuzal e alguns animais como gaivotas e siris. Ele decide usar os bambus para construir uma jangada, mas suas tentativas de escapar são repetidamente frustradas por uma tartaruga de casco vermelho. A Tartaruga Vermelha não tem diálogos, contando apenas com a trilha sonora incidental, sons ambientes e um eventual "ei!" gritado pelo homem; a animação é no estilo europeu, com os personagens não tendo traços característicos de anime. Curiosamente, o logotipo do Studio Ghibli, apresentado no início, não tem fundo azul claro como em sua versão tradicional, e sim fundo vermelho - segundo Suzuki, uma referência não somente ao nome do filme, mas também ao fato de que o Studio Ghibli não era o estúdio de produção principal, mas apenas um parceiro.

De Wit co-escreveria o roteiro com o francês Pascale Ferran. Ele manifestaria o desejo de fazer a animação da forma tradicional, com papel e acetato, passando os desenhos para o computador apenas para colori-los, mas mudaria de ideia após fazer alguns testes numa mesa de desenho digital Cintiq; a equipe acabaria fazendo os planos de fundo no papel, com carvão e esfuminho, e os personagens diretamente na mesa digital, com as cores e efeitos de luz e sombra sendo adicionados digitalmente - a jangada e as tartarugas seriam criadas diretamente em computação gráfica, com os animadores então desenhando sobre elas cena a cena, para que sua aparência não destoasse do restante do filme. Algumas cenas com atores seriam filmadas, mas, ao contrário do que foi divulgado, o filme não usou efeitos de rotoscopia, usando as cenas filmadas apenas como referência para a animação.

A Tartaruga Vermelha estrearia na França em 29 de junho de 2016, após ser exibido no Festival de Cinema de Cannes, em 18 de maio, e no Festival Internacional de Cinema de Animação de Annecy, em 13 de junho. No Japão, distribuído pela Toho, estrearia em 17 de setembro, e seria lançado no ano seguinte em DVD e Blu-ray pela Disney, sendo tratado como um lançamento oficial do Studio Ghibli. Nas Américas, os direitos de distribuição ficariam com a Sony, com a estreia nos Estados Unidos ocorrendo em 20 de janeiro de 2017, e, no Brasil, em 16 de fevereiro. Na Europa, seria distribuído pela StudioCanal (exceto na França, onde a distribuição ficaria com a própria Wild Bunch), estreando ao longo de 2017 no Reino Unido, Alemanha, Espanha, Itália e Holanda.

O filme seria um fracasso de público - com orçamento de 10 milhões de euros, sua bilheteria, somando todo o planeta, ficaria na casa de 6,6 milhões - mas um grande sucesso de crítica, sendo destacados a beleza dos cenários, a simplicidade da história e a trilha sonora, composta por Laurent Perez del Mar. A Tartaruga Vermelha seria indicado ao Oscar de Melhor Filme de Animação, mas perderia para Zootopia.

Aya e a Bruxa
Aya to Majo
2020

Até 2019, um dos principais parceiros do Studio Ghibli era o canal de televisão Nippon TV, que financiava parcialmente suas produções em troca dos direitos de exibi-las na TV aberta alguns meses após o fim de sua exibição nos cinemas, e, em 1993, financiou integralmente Eu Posso Ouvir o Oceano, única das produções do Studio Ghibli a não ser exibida nos cinemas, apenas na televisão. Naquele ano, porém, seria outro canal de televisão japonês, a NHK, quem procuraria Goro Miyazaki propondo financiar integralmente um filme de animação que, então, ela exibiria com exclusividade.

Na época, o departamento de animação do Studio Ghibli estava fechado, Hayao Miyazaki estava oficialmente aposentado, e Takahata havia acabado de falecer. Goro, mesmo assim, decidiria aceitar a proposta, mas não sem antes falar com seu pai e com Suzuki, obtendo a aprovação de ambos, que inclusive o incentivaram a fazer o filme. Muitas publicações diriam que seria Hayao Miyazaki quem planejaria o filme, mas, em entrevistas, Goro diria que, após obter a aprovação, "não consultaria novamente os mais velhos", sendo responsável por escolher qual seria a história adaptada, quem trabalharia na produção, e por decidir que o filme seria o primeiro do Studio Ghibli a ser produzido integralmente por computação gráfica em 3D - ainda segundo Goro, ele era o único do estúdio que sabia como criar uma animação desse tipo, então não adiantaria nada se consultar com seu pai ou com Suzuki.

Goro escolheria a história Earwig and the Witch, de Dianna Wynne Jones, autora de outra obra adaptada pelo Studio Ghibli, O Castelo Animado. Escrito enquanto Jones lutava contra um câncer de pulmão e publicado já após a morte da autora, em 2011, o livro conta com uma protagonista feminina jovem e ousada, algo que Goro achava que combinava com outras produções do Studio Ghibli. No original em inglês, essa protagonista se chama Earwig, nome de um inseto conhecido aqui no Brasil como tesourinha e no Japão como Ayatsuru, por isso, no original japonês e na versão traduzida para o português, ela se chama Aya.

Aya é uma menina órfã que, sem saber, é filha de uma bruxa, que, na juventude, fez parte de uma banda de grande sucesso chamada Earwig. Aya cresceria em um orfanato, onde se valeria de seu carisma para praticamente comandar o lugar, sempre aprontando alguma para não ser adotada quando algum casal aparecia. Quando Aya tinha 10 anos, porém, um estranho casal, formado pela bruxa Bella Yaga e pelo misterioso Mandrake, vai ao orfanato e escolhe especificamente a menina, levando-a para sua casa mágica. Bella Yaga diz a Aya que não está interessada em uma filha, e sim em uma ajudante, pois já não está dando conta de fazer suas poções sozinha, e a menina diz que aceita, desde que a bruxa a ensine a também ser uma bruxa. Bella Yaga concorda, mas já na intenção de enganar Aya, colocando a menina para trabalhar como uma escrava, sempre arrumando uma desculpa para não ensiná-la. O temperamento da menina jamais aceitaria essa situação, porém, e, junto com o gato Thomas, que pode falar, Aya se põe a bolar um plano para se livrar do jugo da bruxa e aprender ela também como fazer suas poções.

Como a mãe de Aya fazia parte de uma banda, a música é um elemento importante do filme. A trilha sonora seria composta por Satoshi Takebe, e as duas músicas da banda Earwig, Don't Disturb Me, maior sucesso da banda e tema de Aya, e Atashi no Sekai Seifuku, que toca no enceramento do filme, seriam executadas por uma banda formada especialmente para gravá-las, com Sherina Munaf, uma das cantoras mais populares da Indonésia, nos vocais; Hiroki Kamemoto, da banda Glim Spanky, na guitarra; Kiyokazu Takano, da banda Mrs. Green Apple, no baixo; a cantora japonesa Kavka Shihido na bateria; e o próprio Takebe nos teclados - Munaf também dubla a mãe de Aya, nas poucas cenas em que ela fala alguma coisa, na versão original em japonês. Além dessa duas canções, o álbum da trilha sonora do filme, lançado em janeiro de 2021, contaria com duas faixas compostas especialmente pela Glim Spanky, de quem Goro Miyazaki era fã. Um álbum creditado à Earwig, chamado Earwig and the Witch Songbook: 13 Lime Avenue (o endereço da casa de Bella Yaga), seria lançado em janeiro de 2022, mas para ele a formação da banda contaria com Kamemoto, Shishido, Takebe, a vocalista da Glim Spanky, Remi Matsuo, e a baixista da banda Aooo, Hikaru Yamamoto.

Com roteiro de Keiko Niwa e Emi Gunji, Aya e a Bruxa teve uma exibição no Festival Lumière, na cidade francesa de Lyon, em 18 de outubro de 2020, e foi exibido pela NHK em 30 de dezembro do mesmo ano - o filme também teria uma exibição marcada no Festival de Cannes de 2020, cancelado devido à pandemia. A audiência seria a mais baixa de todas as produções do Studio Ghibli quando passaram na televisão, o que Suzuki atribuiria ao dia e horário escolhidos pelo canal - uma quarta-feira às 19h30, na antevéspera de ano novo. Com autorização da NHK, o filme também seria exibido nos cinemas japoneses, com a Toho, que o distribuiria, marcando sua estreia para abril de 2021; mais uma vez devido à pandemia, essa data acabaria adiada, e Aya e a Bruxa estrearia nos cinemas japoneses em 27 de agosto de 2021. A versão exibida nos cinemas era mais longa que a originalmente exibida pela NHK, contando com cenas extras descartadas durante a edição; essa versão também acabaria posteriormente exibida pela NHK, em 31 de dezembro de 2021, uma sexta-feira, às 15h, com audiência ainda mais baixa que a exibição anterior. Em 15 de março de 2024, também uma sexta-feira, não sei através de qual acordo, o filme seria exibido pela Nippon TV, às 21h, novamente com audiência baixíssima.

Nos cinemas, Aya e a Bruxa nâo faria melhor, se tornando o filme de menor bilheteria da história do Studio Ghibli, rendendo apenas 300 milhões de ienes. A crítica seria extremamente desfavorável, reclamando da falta de inspiração da história, de que a protagonista, arrogante e metida, não gerava empatia no público, e considerando a animação em 3D extremamente pobre, não só quando comparada à de gigantes norte-americanas como Disney e Pixar, mas também em relação a outros estúdios japoneses que lançavam filmes no mesmo formato. Críticos de fora do Japão seriam ainda mais virulentos, dizendo que era uma heresia o Studio Ghibli trocar os planos de fundo extremamente detalhados de suas produções tradicionais por cenários pobres e sem vida, e seus personagens repletos de expressões faciais por bonecas nas quais qualquer emoção humana estava ausente. Um crítico chegaria a comparar Aya e a Bruxa à restauração do quadro Ecce Homo, de García Martínez, pela beata Cecilia Giménez, que o desfigurou completamente.

Aya e a Bruxa seria o primeiro filme do Studio Ghibli desde a versão em VHS de Sussuros do Coração a não ser lançado em home video no Japão pela Walt Disney Japan, com o lançamento ficando a cargo da Pony Canyon; para aumentar a lista de insucessos, é até hoje o lançamento do Studio Ghibli de menor vendagem. A Disney também não se interessaria em distribuir o filme nos Estados Unidos, passando a tarefa para a GKids, que não somente o lançaria em home video, mas cuidaria de sua dublagem - na qual o nome mais famoso é o de Richard E. Grant, que dubla Mandrake; as canções do filme e a dublagem da mãe de Aya ficariam a cargo da cantora Kacey Musgraves - e ficaria responsável por sua distribuição nos cinemas. Na Europa, graças a um acordo firmado antes da produção de A Tartaruga Vermelha, os direitos de lançamento em home video e distribuição nos cinemas ficariam com a Wild Bunch, que acabaria distribuindo-o nos cinemas apenas na França; o filme acabaria também sendo exibido nos cinemas do Reino Unido, distribuído pelo Elysian Film Group. Segundo os números oficiais, o filme renderia 173 mil dólares nos cinemas dos Estados Unidos e quase 670 mil no restante do planeta, se tornando, também, o filme do Studio Ghibli de menor bilheteria internacional.

O Menino e a Garça
Kimitachi wa Do Ikiru ka
2023

Eu gosto de imaginar que, quando viu os números de Aya e a Bruxa, Hayao Miyazaki pensou "não posso deixar esse ser o último filme do Studio Ghibli", e decidiu abrir mão de sua aposentadoria para fazer mais um. A verdade, porém, é que ele decidiu reconsiderar sua aposentaria para dirigir mais um filme em 2016, enquanto trabalhava no curta Kemushi no Boro ("Boro, a lagarta"), lançado em 2018 e exibido exclusivamente no Museu Ghibli e no Ghibli Park. Miyazaki tomaria essa decisão justamente enquanto estava sendo produzido um documentário sobre sua aposentadoria, que acabaria também abordando-a, e ganhando o título de Never-Ending Man: Hayao Miyazaki (algo como "o homem interminável").

De início, Miyazaki decidiria adaptar o livro infantil The Book of Lost Things, do autor irlandês John Connolly, e, em julho de 2016, faria seu primeiro storyboard; mais tarde, ele decidiria incluir também elementos de Yurei-to ("a torre fantasma"), do japonês Edogawa Ranpo, um dos livros preferidos de sua infância. Suzuki anunciaria oficialmente o projeto em fevereiro de 2017, e, em maio, o estúdio começaria a procurar profissionais para trabalhar na produção, já que havia dispensado todo mundo quando Miyazaki e Takahata anunciaram suas aposentadorias. Ao saber que Miyazaki dirigiria o filme, vários profissionais que trabalharam com ele ao longo dos anos se candidataram para trabalhar no projeto, o que fez com que o Studio Ghibli conseguisse uma equipe em pouco tempo, e a pré-produção começasse antes do fim do mês. Em outubro, o título do filme, Kimitachi wa Do Ikiru ka (algo como "como você vive?"), seria revelado; esse título seria o mesmo de um romance publicado em 1937 escrito por Genzaburo Yoshino, mas o filme não seria uma adaptação dele, não trazendo nenhum de seus elementos.

Em entrevistas, Miyazaki diria que estava fazendo o filme para seu neto, como se dissesse "vovô está partindo para outro mundo, mas deixando esse filme". Suzuki não estabeleceria uma data de lançamento para o filme, mas Miyazaki desejava que ele fosse lançado durante as Olimpíadas de 2020, que ocorreriam em Tóquio. Em agosto de 2018, Suzuki diria achar pouco provável que isso pudesse ocorrer, e que o filme provavelmente só seria lançado em 2021 ou 2022, e, em uma entrevista à NHK, em dezembro de 2019, ele diria que o filme estava cerca de 15% pronto, e que Miyazaki, na juventude, conseguia fazer cerca de 10 minutos de animação por mês, mas agora, devido à idade avançada, só estava conseguindo fazer 1 minuto por mês. Na mesma entrevista, ele diria achar improvável que Miyazaki algum dia fosse se aposenrar, pois não aguentaria o ócio, e que, mesmo com o próprio Miyazaki dizendo que esse seria seu último filme, Suzuki achava que, enquanto ele vivesse, ainda iria querer fazer mais um e mais outro.

Para agilizar o projeto, Miyazaki não supervisionaria pessoalmente todas as etapas da produção, focando no roteiro e nos storyboards, com o diretor de animação Takeshi Honda supervisionando o processo de animação. Em março de 2020, Suzuki declararia que o projeto estava consumindo mais dinheiro que o inicialmente previsto, e que, para cobrir seus custos, o Studio Ghibli negociaria a disponibilização de todo o seu catálogo na Netflix. Miyazaki, que não tinha um smartphone e não sabia o que era streaming, de início foi contra, mas acabou convencido por Suzuki, que argumentou que o filme tinha potencial para ser o mais caro da história do cinema japonês, e que somente as formas de patrocínio usuais não conseguiriam financiá-lo.

Em maio de 2020, em uma entrevista à Entertainment Weekly, Suzuki diria que 60 animadores estavam trabalhando no projeto, e que, após três anos, somente 36 minutos estavam prontos, já que todo o filme estava sendo feito à mão, da forma tradicional, mas com mais frames do que os demais projetos do Studio Ghibli, o que significava mais desenhos. Em dezembro de 2020, ele declararia que, mesmo com as restrições da pandemia, o projeto não havia sido interrompido, e que o roteiro e os storyboards já estavam totalmente prontos, o que levava a uma estimativa de que o filme teria 125 minutos de duração. Suzuki estimava que seriam precisos mais três anos para alcançar essa meta, mas que a equipe estava trabalhando sem se preocupar com prazos, da mesma forma que em O Conto da Princesa Kaguya, que levou oito anos para ficar pronto.

No fim, a produção de O Menino e a Garça, desde o início da pré-produção até o final da pós-produção, levaria sete anos e meio, cinco deles dedicados à animação em si. Miyazaki, que escreveria sozinho o roteiro, acabaria usando apenas alguns elementos de The Book of Lost Things e de Yurei-to, criando uma história original, que não era adaptação de nenhum dos dois. Muitos diriam que o filme seria autobiográfico, com o protagonista, Mahito Maki, sendo um espelho da infância de Miyazaki: seu pai trabalhava em uma empresa que fabricava peças para aviões, sua mãe faleceu em um incêndio enquanto estava internada no hospital, e ele e o pai se mudaram para o interior durante a guerra. Suzuki confirmaria essa versão, e diria que ficou surpreso quando Miyazaki lhe apresentou a proposta, já que ele sempre evitava temas pessoais. Ele, Suzuki, era representado no filme pela garça, e Takahata pelo Tio-Avô; na primeira versão do roteiro, o Tio-Avô aparecia mais e tinha um papel de maior destaque, mas, após a morte de Takahata, Miyazaki decidiria dar mais foco ao relacionamento de Mahito com a garça.

No filme, Mahito tem cerca de dez anos, e, após perder a mãe, vai morar com o pai no interior, na casa de sua tia (irmã de sua mãe), que possui várias criadas, todas idosas. Mahito não se adapta à vida no local, não aceita que o pai agora está em um relacionamento com a tia, que inclusive está grávida, e acaba se tornando amigo de uma misteriosa garça falante, que lhe convence de que sua mãe está viva e morando no interior de uma misteriosa torre que teria sido construída pelo tio-avô de Mahito. Um dia, a tia de Mahito desaparece, e ele e uma das criadas acabam seguindo a garça até a torre, indo parar num mundo fantástico habitado por todo tipo de criaturas estranhas, supostamente também criado pelo Tio-Avô.

A principal mensagem do filme seria a de que cada um consegue criar seu próprio mundo, mas sua história estaria aberta a múltiplas interpretações, com algumas análises considerando que Miyazaki quis dizer que as crianças do pós-guerra tinham a chance de prolongar o caos no qual o Japão estava mergulhado ou criar um futuro melhor; outras dizendo que ele advogava a favor da relisiência em face da perda e do luto; e alguns até considerando que a verdadeira mensagem era a importância de cultivar amizades e alianças de confiança. O filme possui um final aberto, que permite que cada pessoa tire suas próprias conclusões quanto ao rumo que a vida de Mahito tomou, mas deixando claro que suas experiências abriram caminho para que ele seguisse sem nenhum peso na consciência ou impedimento moral.

Distribuído pela Toho, O Menino e a Garça estrearia nos cinemas japoneses em 14 de julho de 2023, sendo o primeiro filme do Studio Ghibli a ser lançado simultaneamente no formato tradicional, em IMAX, Dolby Atmos e DTS:X. Por opção de Suzuki, o filme não teria nenhuma campanha de marketing, incluindo trailers, fotos da produção e documentários para a TV, à exceção de um único pôster, distribuído para os cinemas, e que mostrava apenas a garça; segundo Suzuki, ele estaria preocupado que questões-chave do enredo fossem acidentalmente reveladas pelo material promocional, e acreditava que ir ao cinema sem saber nada contribuiria para a experiência dos espectadores. Miyazaki ficaria preocupado que a estratégia prejudicasse o desempenho do filme, e, após uma sessão de testes em fevereiro de 2023, na qual os espectadores tiveram de assinar um documento se comprometendo a não revelar nada, pediria desculpas, dizendo "talvez vocês não tenham entendido o filme, eu mesmo não o entendi".

A estratégia de Suzuki, porém, mesmo se não puder ser considerada responsável pela bilheteria do filme, com certeza não a prejudicou: somente no primeiro fim de semana, O Menino e a Garça renderia 1,8 bilhão de ienes, se tornando a maior bilheteria de estreia para um filme do Studio Ghibli. Somente no primeiro fim de semana, ele arrecadaria 2,1 bilhões, também um recorde, e, em setembro, entraria para a lista dos 20 animes mais assistidos de todos os tempos. A bilheteria aumentaria entre cem mil e trezentos mil ienes por semana, até que, em março de 2024, quando saiu de cartaz, o filme havia arrecadado 8,98 bilhões de ienes. Fontes da indústria do cinema se diriam perplexas com o sucesso rápido diante da ausência de publicidade, e alguns publicitários especializados em campanhas de filmes chegariam a temer por seus empregos, mas, no fim, o sucesso seria creditado ao bom nome do Studio Ghibli, à base de fãs sólida de Miyazaki, e à divulgação boca a boca nas redes sociais, sendo considerado difícil de ser imitado por outras produções.

O Menino e a Garça seria pré-vendido para exibição internacional sem deta definida de estreia, o que também era raro. Os direitos de exibição nos Estados Unidos e Canadá ficariam mais uma vez com a GKids, que inscreveria o filme no Festival Internacional de Cinema de Toronto, no qual ele foi o primeiro filme de animação a abrir o festival em sua história, e o filme de maior público na abertura do festival "em décadas". O filme também seria exibido no Festival Internacional de Cinema de Vancouver e no Festival de Cinema de Nova Iorque antes de sua estreia oficial, em 8 de dezembro de 2023. Suzuki daria permissão para que a GKids fizesse uma campanha de marketing para o filme, que incluiu um trailer oficial, um programa exibido na Netflix e uma sessão de gala apresentada por Guillermo del Toro. A dublagem em inglês contaria com Luca Padovan como Mahito, Robert Pattinson como a garça, Karen Fukuhara como Lady Himi, Gemma Chan como a tia de Mahito, Christian Bale como o pai de Mahito, Mark Hamill como o Tio-Avô, Florence Pugh como Kiriko, e Willem Dafoe, Dave Bautista, Mamoudou Athie, Tony Revolori e Dan Stevens como criaturas fantásticas. O Menino e a Garça seria o primeiro filme do Studio Ghibli a alcançar o primeiro lugar nas bilheterias dos Estados Unidos, onde renderia 292,2 milhões de dólares, mais do que qualquer outro anime.

Na Europa, os direitos de distribuição ficariam com a Goodfellas, novo nome da Wild Bunch, que o lançaria nos cinemas do Reino Unido, França, Itália, Alemanha e Espanha, além de exibi-lo no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián e no Festival de Cinema de Sitges, ambos na Espanha. No Brasil, O Menino e a Garça seria distribuído pela Sato Company, e estrearia nos cinemas em 22 de fevereiro de 2024. Na China, onde estrearia em 3 de abril de 2024, o filme renderia 171,5 milhões de yuans somente no dia da estreia, estabelecendo um recorde de bilheteria para um filme estrangeiro, e renderia no total 670 milhões, recorde para um filme de animação.

A crítica inicialmente ficaria dividida, mas acabaria sendo extremamente favorável, considerando o filme mais uma obra-prima de Miyazaki; muitos críticos o considerariam "maduro" e "complexo", e diriam se preocupar que quem não está acostumado ao ritmo dos filmes do Studio Ghibli não conseguisse aproveitá-lo em sua totalidade. A crítica internacional também aclamaria o filme, considerando-o o ápice da carreira de Miyazaki, e dizendo que é possível assistir o filme múltiplas vezes, a cada uma descobrindo uma coisa nova. O Menino e a Garça renderia a Miyazaki o sexto Prêmio Ofuji Noburo de sua carreira, e ganharia o prêmio de Melhor Filme de Animação na Academia Japonesa de Cinema, no Globo de Ouro (onde também seria indicado a Melhor Trilha Sonora, trilha essa a cargo de Joe Hisaishi) e no Oscar, se tornando o segundo filme do Studio Ghibli oscarizado, após A Viagem de Chihiro.

E aqui terminamos essa série sobre o Stuudio Ghibli, que, após a conclusão de O Menino e a Garça, mais uma vez dispensou seus profissionais e fechou seu departamento de animação. Com Miyazaki e Suzuki em idade avançada, e considerando que um próximo filme pode ter uma produção igualmente longa, me parece improvável que teremos mais. Mas, como diria Miyazaki, o que temos é imortal, e permanecerá nesse mundo durante muito tempo após termos partido.

Studio Ghibli

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sábado, 13 de dezembro de 2025

Escrito por em 13.12.25 com 0 comentários

1984

Existe uma discussão sobre se a ficção científica consegue prever o futuro ou se o inventa - um comunicador de Star Trek se parece com um telefone celular, mas porque Star Trek previu o futuro ou porque quem criou a aparência do telefone celular foi influenciado por Star Trek? Na maioria dos casos, pode-se argumentar que o que ocorreu foi a segunda hipótese, mas há algumas obras nas quais fica difícil negar que o autor teve algum vislubre do futuro ao criar sua história. Um dos melhores exemplos é o tema que eu escolhi para hoje, um livro que vem sendo frequentemente citado quando se fala em vigilância da sociedade e na ascensão de regimes totalitários. Hoje é dia de 1984 no átomo!

Publicado em 1949 com o título original de Nineteen Eighty-Four (assim mesmo, por extenso) e ambientado, evidentemente, em 1984, que, na época, devia ser um futuro longínquo, 1984 é uma das obras mais famosas de George Orwell. Nascido Eric Arthur Blair em 25 de junho de 1903 em Motihari, que hoje fica na Índia, mas na época era parte da Colônia de Bengala, Orwell cresceu no interior da Inglaterra, estudou na tradicional Eton College e, como sua família não tinha dinheiro para pagar uma universidade e suas notas não eram boas o suficientes para conseguir uma bolsa, foi ser policial na Birmânia (atual Myanmar), retornando à Inglaterra após contrair dengue, em 1927. Sua primeira experiência como escritor foi aos 11 anos, quando enviou duas poesias para um jornal local da região onde morava; seguiu escrevendo poesias durante a adolescência e, na juventude, passou para as crônicas. Ao retornar da Birmânia, decidiu se tornar escritor profissional, morando em Londres e em Paris, vivendo entre os pobres e escrevendo sobre a pobreza e suas mazelas.

Seu pseudônimo seria escolhido em 1933, quando um de seus romances, Na Pior em Paris e Londres, seria escolhido para publicação pelo editor Victor Gollancz. Orwell acharia que a publicação do livro poderia trazer vergonha à sua família, já que foi escrito a partir de experiências pessoais que ele viveu morando nas ruas das duas cidades e fingindo ser um mendigo; ele pediria para que Gollancz inventasse um pseudônimo, mas, ao invés disso, ele sugeriria quatro, com o autor escolhendo George Orwell por ser "um bom e sonoro nome inglês" - Gollancz havia criado o nome juntando o do santo padroeiro da Inglaterra, São Jorge, com o do Rio Orwell, na cidade de Suffolk, um dos locais preferidos do escritor.

Seu segundo livro, Dias na Birmânia, quase não seria publicado na Inglaterra, com Gollancz temendo ter problemas com o governo e somente aceitando após Orwell concordar em mudar nomes de locais e pessoas. Em seguida, Orwell escreveria A Filha do Reverendo (1935), romance de ficção no qual a vida de uma mulher vira de cabeça para baixo após ela acordar com amnésia; Moinhos de Vento (1936), sobre um homem que tem pavor do capitalismo e tenta viver sua vida sem se envolver com o sistema; O Caminho de Wigan (1937), obra de não-ficção que narra uma viagem que Orwell fez pelo norte da Inglaterra; Lutando na Espanha (1938), relato em primeira pessoa das experiências do autor lutando na Guerra Civil Espanhola; Coming Up for Air (1939), mais uma ficção crítica ao capitalismo, na qual um pai de família que trabalha como caixeiro viajante tenta voltar para casa, no interior da Inglaterra, no início da Segunda Guerra Mundial; e sua obra mais famosa de todas, A Revolução dos Bichos (de 1945, que, depois de cair em domínio público, também pode ser encontrado no Brasil com um título que é uma tradução literal de seu original, A Fazenda dos Animais), alegoria que usa animais de uma fazenda para criticar a União Soviética e o regime proposto por Stalin.

Enquanto escrevia seus romances, Orwell seguiria escrevendo crônicas, com mais de cem delas sendo publicadas em diversos jornais e revistas entre 1931 e 1952; durante seu tempo de vida, a maioria dessas crônicas seriam publicadas em cinco coletâneas, junto a cartas e outros textos do autor. Orwell faleceria em 21 de janeiro de 1950, aos 46 anos, do rompimento de uma artéria pulmonar, provavelmente causado por uma tuberculose mal curada.

1984 seria justamente seu último romance, publicado quatro anos após A Revolução dos Bichos. Ele é ambientado em um futuro distópico no qual só existem três nações: Oceania, Eurásia e Lestásia. Duas delas são sempre aliadas e estão em guerra contra a terceira, mas quem é amigo ou inimigo de quem muda frequentemente, porque todas as três têm governos totalitários, e a guerra é somente uma forma de manter o patriotismo da população aceso, sendo determinada mais por acordos do que por batalhas. A história se passa na Oceania, que, dentre outros territórios, abrange o que hoje é a Inglaterra; a Oceania é governada pelo Partido Socialista Inglês, cujo líder, o Grande Irmão, é uma figura messiânica cujo único objetivo é melhorar a vida do povo, sem nenhum interesse pessoal.

Para manter a população sempre submissa e se perpetuar no poder, o Partido faz uso de três expedientes: o primeiro é o ódio a um inimigo do estado, na figura de Emmanuel Goldstein, um antigo líder do Partido que, por razões puramente egoístas, quer derrubar o Grande Irmão para assumir o governo e instaurar um reinado de terror; Goldstein fundou uma organização chamada A Irmandade, que usa textos mentirosos para arregimentar membros para a sua causa. O segundo é o Ministério da Verdade, que tem o poder de literalmente alterar a história: seus membros passam o dia inteiro alterando livros, jornais e revistas para que a história sempre relate como o mundo era ruim antes de o Partido chegar ao poder, e como ele voltará a ser ruim caso a Oceania perca a guerra - quando o aliado e o inimigo da guerra mudam, toda a história é reescrita para que, na verdade, eles não tenham mudado, tendo sido sempre os mesmos. O terceiro, e mais famoso elemento do livro, é uma vigilância universal e constante: nenhum cidadão consegue fazer nem falar nada sem que o governo fique sabendo, e comportamentos considerados subversivos são identificados pela Polícia do Pensamento e punidos pelo Ministério do Amor.

O protagonista da história é Winston Smith, um funcionário do Ministério da Verdade que, após se deparar com uma determinada informação, passa a ter curiosidade sobre como o passado realmente era antes de o Partido assumir o poder, e não consegue evitar questionar tudo o que vivencia a partir de então. Um dia ele conhece Julia, que posa como uma obediente membro do Partido, mas na verdade é uma rebelde, e os dois se envolvem em um relacionamento de amor proibido e rebelião contra o sistema. Outro personagem de destaque do livro é O'Brien, colega de trabalho de Winston que tem um importante cargo dentro do Partido, e que Winston suspeita que, na verdade, faça parte da Irmandade, com Winston e Julia tentando descobrir se podem confiar nele e planejar como fazer para que eles também se unam ao grupo.

Em cartas a amigos, Orwell diria ter tido a inspiração para o livro em 1943, e cita como principal influência a Conferência de Teerã, reunião entre Joseph Stalin, Franklin D. Roosevelt e Winston Churchill para definir os rumos do pós-guerra. Orwell se preocupava com a divisão do planeta em "zonas de influência", com algumas regiões sendo comandadas pela União Soviética e outras pelos Estados Unidos, e pensaria em escrever uma crônica sobre o que poderia ocorrer caso os governos comandando essas zonas de influência se mostrassem também totalitários.

Em janeiro de 1944, um amigo lhe conseguiria uma cópia de Nós, de Yevgeny Zamyatin, e Orwell decidiria começar também a escrever um romance ambientado em um futuro distópico. Na época, ele já conseguia sobreviver apenas com um salário de jornalista, de forma que não teria pressa em terminar o livro; pouco antes do lançamento de A Revolução dos Bichos, ele diria em uma carta a Fredric Warburg, seu editor, que seu "romance do futuro distópico" só tinha 12 páginas, e que talvez não estivesse totalmente terminado antes de 1947. Em janeiro de 1946, ele escreveria uma resenha de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley - que havia sido seu professor de francês no colégio - para a revista Tribune, notando várias semelhanças entre o livro de Huxley e Nós e decidindo fazer o seu o mais dieferente possível, o que atrasaria ainda mais o processo.

Em maio de 1946, após ter escrito apenas 50 páginas e sofrendo de bronquiectasia, Orwell decidiria passar uma temporada na ilha escocesa de Jura, para tentar recuperar sua saúde e terminar o romance. Seu primeiro rascunho, enviado a Warburg em maio de 1947, seria descrito como "uma bagunça"; mesmo com a saúde se deteriorando cada vez mais, ele se recusaria a ver um médico enquanto não terminasse o texto, e o finalizaria na cama, após perder 12 kg, em novembro de 1947. Imediatamente após enviar essa versão a Warburg, ele seria internado em um hospital em Glasgow, onde seria diagnosticado com tuberculose. Ele receberia alta em julho de 1948, e imediatamente se colocaria a fazer no texto as alterações apontadas por Warburg; como a maioria de suas anotações estava à mão, ele pediria ao editor que fosse à Escócia datilografá-las, mas Warburg diria que isso só seria possível se Orwell estivesse presente para guiá-lo, com o texto sendo incompreensível na forma em que estava escrito. Orwell não aceitaria o arranjo, e decidiria ele mesmo fazer o trabalho a passos de tartaruga, tendo de parar por repetidas vezes por estar com febre ou tossindo tanto que não conseguia datilografar. Ele concluiria a versão final do texto em dezembro de 1948, a enviaria a Warburg em janeiro de 1949, e logo em seguida se internaria em um sanatório na cidade inglesa de Costwolds.

Pouco antes de terminar seu segundo rascunho, Orwell ouviria de Warburg que o livro precisava de um título, e daria ao editor duas opções, O Último Homem na Europa e 1984, com Warburg escolhendo a segunda por achar que era um título mais apropriado comercialmente. A história mais famosa sobre de onde Orwell tirou esse título, frequentemente citada em textos sobre o livro ou sobre o autor, é a de que 1984 é simplesmente uma inversão dos dois últimos dígitos de 1948, o ano no qual Orwell terminou de escrever o livro. Essa teoria é refutada por muitos críticos, que a consideram "uma ideia muito simples para um livro tão complexo".

Orwell não gostaria da versão final do livro, e frequentemente diria que poderia ter feito melhor se não estivesse doente; quem conviveu com ele, porém, diz que ele falava isso de todos os seus livros, sempre arrumando um motivo para dizer que eles poderiam ter sido melhores, e em muitos casos depreciando-os até receber os números das vendas. Warburg, por outro lado, consideraria 1984 uma obra prima, e se apressaria a lançá-lo o mais rápido possível, com o livro estando nas lojas em 8 de junho de 1949, apenas seis meses após a editora Secker & Warburg receber sua versão final, um tempo considerado curtíssimo para a época. Warburg gostava tanto do livro que recusaria uma proposta do Clube do Livro para lançar uma versão mais curta, sem o apêndice e sem o capítulo com os trechos do livro escrito por Goldstein, achando que isso mataria a história; segundo a editora, essa recusa pode ter feito com que ele deixasse de ganhar cerca de 40 mil libras.

A primeira tiragem de 1984 teria 25.575 cópias, que se esgotariam antes do final de 1949; duas outras tiragens, de cinco mil cópias cada, seriam lançadas em 1950, uma em março, outra em agosto. O livro seria lançado nos Estados Unidos pela Harcourt & Brace apenas cinco dias após seu lançamento no Reino Unido, em 13 de junho de 1949, com a primeira tiragem, de vinte mil cópias, se esgotando antes do fim do mês, e duas outras tiragens, de dez mil cópias cada, sendo lançadas em julho e setembro. Em 1970, 1984 se tornaria o primeiro romance de ficção científica a ultrapassar a marca de 8 milhões de cópias vendidas nos Estados Unidos, e, ora vejam só, em 1984, ele chegaria ao topo da lista dos livros mais vendidos no país em todos os tempos.

Em junho de 1952, a viúva de Orwell, Sonia Brownell, vendeu o único manuscrito sobrevivente de 1984 em um leilão de caridade por 50 libras. Esse é o único manuscrito sobrevivente de qualquer obra de Orwell, e atualmente se encontra na Biblioteca John Hay, na Universidade de Brown, em Rhode Island, Estados Unidos. O manuscrito serviria de base para Nineteen Eighty-Four: The Facsimile of the Extant Manuscript, livro de Peter Davison publicado em 1984 que reproduz todas as páginas do manuscrito, junto à transcrição do texto e notas, tentando chegar a uma espécie de "versão do autor" do livro, sem qualquer interferência no texto do editor, revisor ou outros profissionais.

Falando nisso, originalmente a versão norte-americana do livro possuía pequenas diferenças em relação à britânica; era comum na época revisar livros britânicos que fossem ser lançados nos Estados Unidos para adequar o texto ao inglês norte-americano em questões de ortografia e pontuação, mas, no caso de 1984, o revisor da Harcourt & Brace mudaria frases inteiras sem o conhecimento de Orwell, com todas as versões publicadas até 1997 reproduzindo essas alterações. Somente por ocasião do lançamento de The Complete Works of George Orwell Davison faria uma nova revisão para o inglês norte-americano do texto original de Orwell, sem nenhuma alteração que não fosse absolutamente necessária.

1984 seria aclamado pela crítica, que o consideraria um dos melhores romances políticos de todos os tempos; como é impossível agradar a todos, alguns autores o detestaram, como C.S. Lewis, que argumentou que o relacionamento de Julia e Winston não era verossímil, e Isaac Deutscher, que reclamou que o livro era "um mais puro exemplar da propaganda anti-comunista característica da Guerra Fria", e que Orwell havia tentado fazer uma crítica ao marxismo, mas sem compreender o que era, acabou se mostrando um "anarquista simplório". Houve também quem achasse que o livro era uma alegoria crítica às reformas socialistas propostas pelo primeiro-ministro britânico da época, Clement Attlee; Orwell negaria essa versão com veemência, e, em uma carta, escreveria que a história era uma sátira, sem inspiração em nenhum evento do mundo real, e que ele mesmo não acreditava que o futuro descrito no livro fosse possível.

O livro seria considerado subversivo em vários países, principalmente os comunistas; um crítico polonês diria que 1984 havia se tornado no mundo real o que o livro de Goldstein era na história, "um texto proibido e perigoso de se possuir, conhecido na íntegra apenas por alguns membros do Partido". Desertores da União Soviética diriam que Orwell, mesmo sem nunca ter vivido na Rússia, havia entendido perfeitamente como funcionava o governo de lá. Aliás, na União Soviética, ele seria banido até 1988, quando uma versão traduzida para o russo seria publicada em capítulos em um jornal da Moldova, com sua primeira publicação em forma de livro no país ocorrendo apenas em 1989. Curiosamente, duas versões traduzidas para o russo haviam sido lançadas anteriormente, uma na Alemanha Ocidental em 1957, outra na Itália em 1966; ambas eram frequentemente contrabandeadas para a União Soviética e se tornariam populares dentre os dissidentes do regime; após a dissolução da União Soviética, seria revelado que, em 1959, membros do Comitê Central do Partido Soviético teriam acesso a uma tradução oficial do livro, indisponível para a população em geral, mais uma vez equiparando Orwell a Goldstein.

Na China aconteceria algo semelhante: sua primeira tradução seria publicada em 1979, em capítulos, no jornal Traduções Selecionadas de Literatura Estrangeira, disponível apenas para membros do alto escalão do governo e intelectuais considerados "confiáveis politicamente". Uma versão em livro seria publicada em 1985, mas também com venda restrita. A primeira versão com venda liberada ao grande público ocorreria em 1988. Graças a essas publicações tardias nos países nos quais o livro era proibido, em 1989 1984 alcançaria a marca de traduções para 65 idiomas, mais do que qualquer outro romance em língua inglesa na época.

1984 seria um dos romances de maior impacto cultural de todos os tempos; pra começar, ele seria responsável pela criação do termo "orwelliano", adjetivo usado para se referir a algo que seria prejudicial ao bem estar da sociedade. Termos como novalíngua (linguagem usada especificamente para defender uma ideologia), duplopensar (defender dois pontos de vista contraditórios simultaneamente), polícia do pensamento, sala 101 e as expressões 2 + 2 = 5 e nós sempre estivemos em guerra contra a Lestásia, todos presentes no texto do livro, se tornaram comuns na lingua inglesa ao criticar regimes ou posturas autoritários ou que possam levar ao autoritarismo. Mas o termo mais famoso presente no romance é Big Brother, o nome em inglês do Grande Irmão, usado para qualquer situação na qual se acredita que o governo está vigiando ou controlando a vida da população, e escolhido por Jan de Mol para dar nome a seu reality show, no qual os participantes são vigiados 24 horas por dia.

Assim como todos os grandes livros de sucesso, 1984 seria adaptado para vários outros meios. Sua primeira adaptação seria feita ainda em 1949 para uma radionovela, transmitida nos Estados Unidos pela Rádio NBC. Sua primeira adaptação para a TV também seria feita nos Estados Unidos, pelo canal CBS, como um episódio da série Studio One exibido em setembro de 1953. A primeira adaptação britânica iria ao ar na BBC em dezembro de 1954 e atrairia um público recorde de 7 milhões de espectadores, que diminuiria conforme o programa avançava, já que muitos deles ficariam horrorizados com a forma como o governo totalitário era mostrado, especialmente a cena na qual Winston (Peter Cushing) é torturado na Sala 101. Dois anos depois, em 1956, estrearia a primeira adaptação para o cinema, dirigida por Michael Anderson, com roteiro de William Templeton (que escreveu o especial da CBS), e estrelando Edmond O'Brien como Winston, Michael Redgrave como O'Connor (O'Brien no livro; diz a lenda que o nome foi mudado para que não fosse o mesmo do ator principal), e Jan Sterling como Julia. O filme não seria muito fiel ao livro, inclusive mudando o final, e seria considerado pior que o especial da BBC pela crítica da época.

A adaptação mais famosa seria lançada para o cinema em 10 de outubro de 1984, escrita e dirigida por Michael Redford, com John Hurt como Winston, Richard Burton como O'Brien, e Suzanna Hamilton como Julia. Produzido pela Virgin Films com orçamento de 5,5 milhões de libras (quase nada), o filme seria um grande sucesso de público e crítica, rendendo 6,2 milhões de libras no Reino Unido, mais cerca de 2 milhões no exterior - incluindo um recorde de 62 mil dólares na única semana em que ficou em cartaz nos Estados Unidos, onde foi exibido apenas para que pudesse concorrer ao Oscar, embora ele acabasse não sendo indicado em categoria alguma. O filme também ficaria famoso por ser o último papel de Burton, que faleceria dois meses antes da estreia, e por sua trilha sonora ter sido composta pela banda Eurythmics, sendo lançada integralmente em seu álbum 1984 (For the Love of Big Brother).

O filme de 1984 também seria a última adaptação para o cinema ou TV do livro, com as subsequentes sendo todas para o teatro, ópera, balé e rádio, sendo especialmente elogiadas a de 2013, transmitida pela BBC Radio 4, com Christopher Eccleston como Winston, e a de 2024, lançada diretamente em streaming, com Andrew Garfield como Winston, Tom Hardy como o Grande Irmão, Cynthia Erivo como Julia, Andrew Scott como O'Brien, e trilha sonora de Matt Bellamy e Ilan Eshkeri executada por uma orquestra de 60 integrantes e gravada nos Abbey Road Studios. Também vale citar o livro Julia, de Sandra Newman, lançado em 2023 com autorização do espólio de Orwell, que conta a mesma história de 1984, mas sob o ponto de vista de Julia.

Na maior parte do planeta, 1984, assim como A Revolução dos Bichos e todos os demais textos de Orwell, entraria em domínio público em 1 de janeiro de 2021, o primeiro dia do ano seguinte ao aniversário de 70 anos da morte do autor. Nos Estados Unidos, onde a lei de direitos autorais é diferente e mais rígida, ele só se tornará domínio público em 2044, 95 anos após sua data de publicação original. Por mais sombrio e exagerado que seja o futuro no qual o livro é ambientado, fica difícil não imaginar, com tudo o que temos visto hoje, que Orwell não tenha tido um vislumbre do futuro ao escrever o texto, deixando-o não como um pastiche, mas como um alerta - de fato, em 2012 o governo dos Estados Unidos tentaria legalizar a vigilância através de GPS de indivíduos sem prévia autorização judicial, o que foi negado pela Suprema Corte com o argumento de que "se permitirmos isso, nada impedirá que o governo monitore 24 horas por dia todos os movimentos de todos os cidadãos dos Estados Unidos, produzindo algo que se parece muito com 1984".
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