domingo, 25 de junho de 2006

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Olimpíadas (VII)

E hoje é dia de mais um post olímpico!

Lake Placid 1932


Como já foi dito no post anterior, nas primeiras edições das Olimpíadas de Inverno o país onde aconteceria a Olimpíada de Verão do mesmo ano tinha prioridade na hora da escolha da sede. As Olimpíadas de 1932 aconteceriam nos Estados Unidos, que não quiseram perder a chance de hospedar os primeiros Jogos de Inverno fora da Europa, e indicaram logo sete cidades diferentes: Lake Placid, Bear Mountain, Yosemite Valley, Lake Tahoe, Duluth, Minneapolis e Denver. Na verdade, a primeira opção do Comitê Olímpico norte-americano era pela cidade de Big Pines, na Califórnia, onde o americano descendente de noruegueses Alf Engen tinha estabelecido o recorde de maior distância no salto com esqui, mas a cidade estava passando por uma falta crônica de neve, de forma que a escolhida foi a pequenina Lake Placid, de apenas 4.000 habitantes, localizada no estado de Nova Iorque.

À primeira vista, pode parecer que não foi uma escolha tão boa assim. Afinal, Lake Placid, ao contrário de Chamonix e St. Moritz, suas antecessoras, não tinha uma grande tradição de esportes de inverno. Apesar de ser procurada desde o final do Século XIX por turistas buscando pistas de esqui e trenó, não havia lá nenhuma pista ou trilha excepcional, que justificasse a escolha de uma sede tão pequena. Além disso, três anos antes havia acontecido a Quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, e toda a região, mergulhada na Grande Depressão, parecia incapaz de arcar com os custos de um evento deste porte. Os norte-americanos, porém, são conhecidos por gostar de exibir ao mundo como são bons em enfrentar dificuldades. Graças a isso, os Jogos de Inverno de 1932 podem não ter sido um megassucesso, mas também não foram nenhum fiasco.

Os Jogos de Lake Placid aconteceram entre 4 e 15 de fevereiro, e contaram com a participação de 251 atletas, sendo 22 mulheres, representando 14 nações em 14 provas de 7 esportes: bobsleding, combinado nórdico, esqui cross country, hóquei no gelo, patinação artística no gelo, patinação no gelo em velocidade e saltos com esqui. Curling, patinação no gelo em velocidade para mulheres e uma corrida de trenós puxados por cães foram os esportes de demonstração (clique aqui para ver todas as provas do programa). Um dos maiores destaques da competição foi novamente o time de hóquei do Canadá, que mais uma vez conquistou a medalha de ouro de forma invicta, marcando 32 gols e sofrendo quatro, vencendo cinco pelejas e empatando uma, justamente contra os donos da casa. A vitória do Canadá pode não ter sido nenhuma novidade, mas o local das competições foi: pela primeira vez, o torneio deste esporte foi disputado em um ginásio coberto.

Lake Placid já contava com boas pistas de esqui, mas não de bobsleding, aquele trenó parecido com um foguetinho, onde descem a montanha dois ou quatro atletas. Como a cidade não tinha um local propício para a construção de uma pista, o presidente do comitê organizador, Godfrey Dewey, doou terras pertencentes à sua família para que fosse construído lá um moderníssimo trajeto para os trenós. Nesta pista se consagrou Eddie Eagan, um dos quatro integrantes da equipe norte-americana, o único homem até hoje a conquistar medalhas de ouro olímpicas em esportes de inverno e de verão - em 1920, Eagan havia sido campeão dos meio-pesados no torneio de boxe.

A patinação artística viu dois bicampeonatos, o da jovem norueguesa Sonja Henie, de 19 anos, e o da dupla francesa Andrée e Pierre Brunet, que bateram os favoritos Beatrix Loughran e Sherwin Badger, dos EUA, por apenas quatro pontos. A maior aposta da patinação, porém, não conseguiria um novo triunfo: o sueco Gillis Grafström, tricampeão em 1920, 1924 e 1928, desta vez perdeu o ouro para o austríaco Karl Schäfer. Grafström deixaria de competir justamente após esta Olimpíada, e faleceria por envenenamento em 1938.

No geral, os atletas escandinavos mais uma vez dominariam o evento, mas o topo do já não-oficial quadro de medalhas ficaria com os donos da casa. Muitos dizem que foi graças a um arranjo que alterou o regulamento da patinação em velocidade: na Europa, as provas são disputadas com os atletas dois a dois na pista, os vencedores avançando rumo à final; na América do Norte, todos vão para a pista juntos, como em uma prova de atletismo, e quem chegar primeiro ganha. Os organizadores optaram por utilizar esta segunda forma de disputa, o que deu uma clara vantagem aos competidores norte-americanos. O comitê organizador, evidentemente, negou que tivesse escolhido a fórmula buscando favorecer seus atletas. Verdade ou não, o "formato americano" jamais seria utilizado novamente em Olimpíadas. Além disso, curiosamente, as três provas femininas da patinação em velocidade não fizeram parte do programa oficial, e as atletas ganharam as medalhas normalmente destinadas aos esportes de demonstração. Ainda assim este torneio foi uma espécie de avanço, já que às moças só seria permitido lutar por medalhas nesta prova a partir de 1960.

Los Angeles 1932


Desde depois dos Jogos de 1920 que os norte-americanos, mais especificamente a cidade de Los Angeles, pleiteavam sediar uma nova edição das Olimpíadas, em parte pelo prestígio, em parte para apagar o fiasco dos Jogos de 1904, os únicos até então realizados fora da Europa. O Barão de Coubertin, com medo de novas patriotadas, jamais permitiu um regresso dos Jogos à Terra do Tio Sam. Em 1925, porém, o Barão já não era mais o presidente do COI, embora continuasse mandando através de seu sucessor, o belga Henri de Baillet-Latour. O empresário William May Garland, figura importantíssima em Los Angeles, começou então a seduzir Latour, ofertando mundos e fundos caso a cidade fosse escolhida para uma futura edição do evento, tudo em prol do esporte, e para que os novos Jogos na América fossem inesquecíveis. Após os Jogos de 1928, quando o Barão já estava doente e pouco apitava nas decisões do COI, Latour aceitou as propostas de Garland, e escolheu Los Angeles como sede dos Jogos seguintes, em 1932, fazendo com que os Estados Unidos se tornassem a primeira nação a hospedar Jogos Olímpicos em duas cidades diferentes.

Para convencer o COI, Garland prometeu ampliar o já moderno estádio principal de Los Angeles, o Memorial Colyseum, permitindo que mais de 105.000 pessoas se acomodassem com todo o conforto. O estádio receberia ainda uma moderníssima pista de atletismo feita de turfa esmagada e equipada com os mais modernos equipamentos de cronometragem e fotografia de chegadas, além de um inédito sistema de arquivamento de resultados e distribuição para a imprensa, capaz de fornecer o resultado completo de qualquer prova a qualquer jornalista do planeta apenas trinta minutos após seu final, algo rapidíssimo para a época. Além disso, ao invés de utilizar hotéis e pousadas para abrigar os atletas, a cidade erigiria alojamentos próprios, setecentos chalés de dois aposentos cada, cercados por refeitórios que agradassem a todos os paladares do mundo, mais um quartel dos bombeiros, uma delegacia de polícia, um hospital completo, uma agência dos correios, um ginásio para treinamentos, biblioteca, lavanderia e várias lojas de equipamentos esportivos e recordações, tudo isso em uma belíssima área de um milhão de metros quadrados, cercada para a privacidade dos atletas. Tais alojamentos seriam a primeira Vila Olímpica da história dos Jogos, hoje parte dos alojamentos da University of Southern California. Mas a parte que mais agradou ao COI foi que, além de arcar sozinha com o custo de todas estas obras - e com o país ainda saindo da Grande Depressão - a Cidade de Los Angeles ainda se comprometia a custear parte das viagens das delegações que enviassem atletas, já que a cidade, localizada do lado do Oceano Pacífico na América do Norte, era inacreditavelmente longe da Europa e até mesmo da América do Sul, naquela época em que a maior parte das viagens ainda era feita de navio. Não bastasse isso tudo, em plena Lei Seca a cidade ainda conseguiu uma permissão especial para que os atletas europeus comemorassem suas vitórias bebendo vinho, como faziam em sua pátria natal.

Mesmo com tantas maravilhas e mimos, a distância ainda era um grande obstáculo, o que acabou reduzindo bastante o número de participantes em relação à edição anterior. Ainda assim, os melhores da época compareceram, o que manteve as competições em um nível altíssimo, ainda mais depois de uma alteração nas regras do COI, para que das finais individuais só pudessem participar no máximo três atletas de cada nacionalidade, regra esta que perdura até hoje. Ao todo, participaram dos Jogos de Los Angeles 1.408 atletas, sendo 127 mulheres, representando 37 nações em 117 provas de 16 esportes: atletismo, boxe, ciclismo, equitação, esgrima, ginástica artística, hóquei, levantamento de peso, luta olímpica, natação, pentatlo moderno, polo aquático, remo, saltos ornamentais, tiro esportivo e vela (clique aqui para ver todas as provas do programa). O futebol acabou ficando de fora do programa por falta de equipes inscritas, fato que irritou a FIFA, e a levou a criar a Copa do Mundo, cuja primeira edição seria disputada em 1930, desde então considerando o torneio de futebol olímpico como um evento menor. Futebol americano e lacrosse foram os esportes de demonstração. Os organizadores queriam também incluir o basquete, mas o COI não permitiu um terceiro esporte de demonstração, e não havia nações suficientes interessadas em transformá-lo em um esporte do programa regular. Mesmo com tantas modalidades, os organizadores dos Jogos de 1932 conseguiram fazer algo há tanto tempo pleiteado pelo COI: condensar o evento em duas semanas, entre 30 de julho e 14 de agosto.

Os principais destaques desta edição dos Jogos vieram do atletismo, embora alguns marcados por confusões da arbitragem. Para começar, na prova dos 100 metros rasos, dois atletas norte-americanos, Thomas Tolan e Ralph Metcalfe, cruzaram a linha de chegada rigorosamente juntos. Para a sorte dos fiscais, eles contavam com um moderníssimo equipamento de fotografia. Para azar dos fiscais, isso de pouco adiantou, pois as fotos mostravam que Metcalfe alcançara a faixa que delimitava a linha de chegada primeiro, mas Tolan, esticando o peito para a frente, a rompera antes. Após uma reunião de várias horas, os fiscais optaram por dar a vitória a Tolan, o primeiro negro a vencer a prova dos 100 metros. Para que o incidente não se repetisse, o COI e a Federação Internacional de Atletismo criaram uma regra segundo a qual seria declarado vencedor o atleta que primeiro tocasse a linha de chegada.

Mas isso não seria nada perto do que aconteceria nos 3.000 metros steeplechase, uma corrida com diversos obstáculos na pista, como barreiras e um fosso, composta de sete voltas e meia em torno da pista. Um dos fiscais se atrapalhou na contagem oficial das voltas, e os atletas acabaram percorrendo 3.400 metros. O resultado foi um tempo absurdamente alto para o vencedor, o finlandês Volmari Iso-Hollo, que teria batido o recorde mundial caso a distância "normal" tivesse sido percorrida. Uma espécie de "castigo" também foi aplicado quando o norte-americano Joey McCluskey, que ganharia a medalha de prata caso a volta a mais não tivesse sido dada perdeu a posição para o britânico Thomas Evenson nos últimos metros.

A maratona pela primeira vez foi vencida por um sul-americano, o argentino Juan Carlos Zabala, em uma chegada emocionante, na qual os quatro primeiros colocados adentraram o estádio praticamente juntos. Zabala foi de certa forma favorecido pela ausência do fantástico corredor finlandês Paavo Nurmi, acusado de profissionalismo por exagerar em despesas de viagem - uma tremenda bobagem, já que Nurmi era rico, e todo o dinheiro que gastara era dele mesmo. No total, a Argentina ganharia três ouros e uma prata, mas faria um verdadeiro papelão olímpico: os atletas se rebelaram contra o chefe da delegação, e se recusaram a competir enquanto este não fosse substituído. Após a substituição, alguns continuaram descontentes, e promoveram uma enorme baderna na Vila Olímpica. De volta à Argentina, muito foram punidos e suspensos.

O Brasil, infelizmente, não fez mais bonito. Após estar ausente dos Jogos de 1928, o país selecionou 82 atletas para enviar a Los Angeles. Somente treze deles, porém tinham condições financeiras para arcar com a longa viagem, e foram com o dinheiro do próprio bolso. Os demais foram colocados em um navio que transportava 50.000 sacas de café. Cada um deles dispunha de uma cota que deveria vender em cada parada do navio, e só poderiam participar dos Jogos os que conseguissem dinheiro suficiente para pagar suas despesas. Apenas 45 conseguiram; os 23 restantes ficaram retidos sem poder desembarcar do navio enquanto as competições se desenrolavam. O Brasil recebeu a ajuda de custo do comitê organizador, como todas as demais nações, mas preferiu usá-la para levar à Califórnia uma inchada comitiva de 300 pessoas, entre delegados, cartolas e "convidados especiais".

Um dos que não conseguiram desembarcar, Adalberto Cardoso, que correria os 10.000 metros do atletismo, acabou tomando uma decisão inusitada: quando o navio atracou em São Francisco, após sua parada em Los Angeles, Cardoso fugiu da embarcação, e decidiu voltar para Los Angeles de qualquer forma, andando, correndo, e pedindo carona. Chegou momentos antes da largada, e mesmo assim disputou a prova, chegando em último, mas sob os aplausos da platéia. Ao saber de sua jornada para competir, os jornais de Los Angeles o apelidaram de Iron Man, o Homem de Ferro. No geral, todos os atletas brasileiros que conseguiram participar dos jogos buscaram superar seus limites, mas não conseguiram nenhuma colocação expressiva, extenuados pela viagem. A única atuação realmente vergonhosa foi a do time de pólo aquático, que chegou até mesmo a ser expulso da competição, ao agredir o árbitro após duas derrotas consecutivas.

Para finalizar, as mulheres, presença cada vez mais garantida nos Jogos, apesar de um regulamento que dispunha que cada atleta só podia participar de no máximo três competições, visando "proteger as atletas", foram muito bem representadas em Los Angeles. Elas não puderam ficar hospedadas na Vila Olímpica, tomada por homens, sendo alojadas em pequenos hotéis, mas se destacaram em várias competições, como a natação, onde a norte-americana Helene Madison ganhou três medalhas de ouro, e o atletismo, onde outra norte-americana, Mildred Didrikson, ganharia dois ouros e uma prata.

Apelidada Babe, Didrikson, de 18 anos, era uma multiatleta, e competia no atletismo, basquete, beisebol, natação, saltos ornamentais e tênis. Nos Jogos de 1932, por exigência do regulamento, escolheu disputar as três provas nas quais era melhor: 80 metros com barreiras, arremesso do dardo e salto em altura. Nos dois primeiros, ganharia o ouro; no terceiro, apenas a prata, por ultrapassar o sarrafo na disputa final com a cabeça antes do torso, algo que o regulamento de então não permitia. Após as Olimpíadas, por emprestar seu rosto a uma campanha publicitária, Babe foi acusada de profissionalismo, e passou a se dedicar apenas ao basquete, onde defendeu a seleção norte-americana em diversas ocasiões. Depois disso, tornou-se ainda acrobata, tocava gaita em shows e foi campeã profissional de sinuca. Finalmente, decidiu se dedicar ao golfe, onde foi campeã mundial quatro vezes. Aos 39 anos, foi diagnosticado que ela tinha câncer de intestino, mas nem uma colostomia faria Babe se afastar do golfe, onde competiu até falecer, em 1956. Por tudo isso, Babe foi escolhida Atleta do Ano pela imprensa norte-americana em 1932, 1945, 1946, 1947 e 1950, e "Atleta do Meio Século" em 1950.

Mas mais curiosa ainda é a história da polonesa Stanislawa Walasiewicz, ouro nos 100 metros rasos. Sua família se mudou para os Estados Unidos quando ela tinha apenas 3 anos, e a rebatizou como Stella Walsh. Competindo desde a adolescência, Stella se tornou uma atleta fantástica, o que levou o Comitê Olímpico Norte-Americano a lhe propor a naturalização, para que ela pudesse defender as cores da América em torneios como as Olimpíadas. A Grande Depressão se abateu sobre o país, porém, e Stella teria que trabalhar para sobreviver. A única proposta de trabalho que recebeu foi para trabalhar como instrutora física no Departamento de Recreação de Cleveland, trabalho este que a transformaria em profissional e inelegível para os Jogos. De última hora, surgiu um convite para trabalhar na embaixada da Polônia, em Nova Iorque, mas com uma condição: que assumisse seu nome de batismo e competisse pela Polônia em 1932. Stanislawa aceitou, e ganhou o ouro com uma folga de meio metro sobre a canadense Hilde Strike.

Depois das Olimpíadas, Stanislawa continuou morando nos EUA, e continuou tentando se naturalizar. O ciúme e o rancor dos norte-americanos fariam com que sua naturalização só fosse aceita em 1947, o que fez com que na edição seguinte dos Jogos, em 1936, ela tivesse de competir novamente pela Polônia. Stanislawa foi morta em 1980, durante um assalto no estacionamento de um supermercado em Cleveland, quando o assaltante lhe deu dois tiros na cabeça. E é aí que entra o fato curioso: durante a autopsia, obrigatória em casos de assassinato nos EUA, os médicos descobriram que Stanislawa era uma hermafrodita, com alto índice de hormônios masculinos, algo que a impediria de participar das provas femininas caso fosse descoberto na época em que competia.

Série Olimpíadas

Lake Placid 1932
Los Angeles 1932

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sábado, 17 de junho de 2006

Escrito por em 17.6.06 com 0 comentários

Atari

Quem acompanha este blog há algum tempo sabe que, de vez em quando, eu falo sobre jogos de videogame. Sobre consoles, porém, só falei uma vez, quando o Neo Geo foi aposentado. Enquanto eu procurava o tema dessa semana, para variar um pouco depois de três posts seguidos sobre esportes, achei que seria uma boa idéia falar sobre mais um console. O escolhido foi um que fez parte da infância de muitos brasileiros, e que até hoje é considerado um dos que tem os jogos mais divertidos, apesar de nem poderem ser comparados com os atuais em termos de gráficos. O tema de hoje é o Atari 2600.

Atari 2600Considerado por muitos o primeiro videogame, apesar de na verdade já pertencer à Segunda Geração de consoles, o Atari 2600 veio ao mundo antes de mim, em 1977. Mas sua história começou muito antes, quando em 1970 o engenheiro Nolan Bushnell viu o jogo Spacewar, onde dois jogadores controlam cada um uma espaçonave que tem de atirar na do oponente, rodando em um computador PDP-1 na Universidade de Utah. Bushnell procurava novos jogos para máquinas de arcade, na época ainda majoritariamente mecânicas, como as de Pinball, e imaginou que um jogo eletrônico podia ser uma adição interessante. Ele então criou sozinho um pequeno computador capaz de rodar em um televisor preto-e-branco uma versão do jogo para apenas um jogador, onde uma nave atirava em dois discos voadores controlados pelo computador. Bushnell chamou sua invenção de Computer Space, e a vendeu para a fabricante de arcades Nutting Associates.

As máquinas da Nutting, porém, ficavam localizadas em bares, o que acabou fazendo de Computer Space um enorme fracasso devido ao fato de que, diferentemente do Pinball, não chamava a atenção dos habituais freqüentadores deste tipo de estabelecimento. Bushnell então começou a buscar uma nova idéia para um jogo eletrônico, e após ver um console Magnavox Odyssey rodando Pong, criou sua própria versão do jogo para arcades. A Nutting não quis investir, achando que Pong seria mais um fracasso, o que levou Bushnell e seu amigo Ted Dabney a fundar sua própria companhia, para produzir máquinas de arcade rodando jogos eletrônicos voltados ao público adolescente.

Bushnell e Dabney tiveram a idéia de chamar a empresa de Syzygy, um termo da astronomia que em português poderia ser traduzido como "conjunção planetária". Como já havia uma empresa registrada com este nome (uma fabricante de velas), Bushnell começou a procurar por outros nomes, por fim escolhendo Atari, um termo utilizado no jogo de tabuleiro japonês Go quando uma pedra está em risco de ser capturada pelo oponente.

A Atari foi fundada em 1972, e seu primeiro lançamento foi a versão de Pong para arcades, que fez tanto sucesso que acabou se tornando mais famosa que a versão do Magnavox Odyssey - e até mesmo que o próprio Magnavox Odyssey. Pensando neste fato, em 1975 Bushnell começou a projetar um videogame caseiro, nos moldes do Magnavox Odyssey, capaz de rodar todos os quatro jogos que a Atari já havia desenvolvido até então, e quantos mais a companhia produzisse. O Magnavox Odyssey havia sido o primeiro videogame do mundo, era preto-e-branco, não tinha som, e vinha com 12 jogos. Para trocar o jogo, o jogador substituía uma placa de circuito impresso em uma abertura especial do console. Na verdade, cada uma destas placas nada mais era que uma série de jumpers, circuitos abertos ou fechados, que diziam ao processador interno do console como ele deveria arrumar as imagens na tela e interpretar os movimentos do joystick, que só se movia para a esquerda e para a direita e não tinha nenhum botão de disparo.

River RaidBushnell queria que seu videogame fosse melhor que isso, até porque programar os quatro jogos da Atari em placas de circuito impresso seria muito difícil. O problema era que equipar o console com um processador capaz de interpretar diferentes jogos sairia muito caro. Este panorama mudou em 1976, quando foi lançado o microprocessador de 8 bits MOS-6502, fabricado pela Commodore e autoproclamado o mais barato do mercado, seis vezes mais barato que os processadores de 8 bits da Motorola ou Intel. A equipe da Atari começou a trabalhar em um console que usasse o MOS-6502 e um circuito integrado de memória RAM, o MOS-6532. A este protótipo, ao qual foi dado o nome de Stella, mais tarde foi adicionado um circuito lógico de CMOS e um circuito inventado pela própria Atari, conhecido como TIA (Television Interface Adapter), responsável por interpretar os sinais do processador e convertê-los em imagem e som de televisão. Com apenas quatro integrados, o Stella seria o computador mais barato do mercado, e ficou ainda mais barato depois que seu processador foi mudado para o MOS-6507, uma versão "menor" e ainda mais barata do MOS-6502.

Antes mesmo do lançamento do console, porém, ele ganhou um concorrente, o Channel F, produzido pela Fairchild Semiconductors e lançado em agosto de 1976, o primeiro videogame da Segunda Geração, capaz de rodar jogos bastante diferentes entre si utilizando cartuchos, e com joysticks que se moviam nas oito direções e tinham um botão de tiro. O Stella precisaria ser lançado o mais rápido possível, ou um bando de similares invadiria o mercado, e ele seria apenas mais um ao invés de uma revolução. A Atari, porém, não tinha dinheiro para começar uma produção em massa do console, o que levou Bushnell a vender a companhia à Warner Communications, hoje parte da AOL Time Warner, por 28 milhões de dólares e a promessa de que o Stella entraria em produção o quanto antes.

Após alguns ajustes, em 1977 finalmente foi lançado o videogame idealizado por Bushnell, oficialmente batizado de Atari Video Computer System, ou Atari VCS. Estima-se que tenham sido gastos mais de 100 milhões de dólares no projeto do console, que chegou ao mercado com um par de joysticks, paddles (uma espécie de joystick onde se gira o direcional ao invés de empurrar) opcionais, e nove jogos diferentes, que podiam ser adquiridos separadamente em cartuchos. Os cartuchos, por dentro, nada mais eram que uma placa de circuito impresso com uma ROM, um circuito integrado onde ficava gravado o jogo. As informações da ROM e dos joysticks eram interpretadas pelo processador e transmitidas pela TIA para a tela da TV. No início, porém, as vendas não foram lá essas coisas, principalmente porque a maioria das pessoas nem sabia do que um videogame se tratava, ou achava que o Channel F e o Atari VCS eram apenas clones do Magnavox Odyssey. Ao preço de 199 dólares, o Atari VCS só vendeu 250.000 unidades em 1977 e 550.000 de um total de 800.000 em 1978, o que fez com que a Warner tivesse de cobrir o prejuízo. O Channel F, apesar de mais barato, vendido a 169,95 dólares, vendeu ainda menos, o que levou a Fairchild a desistir de sua produção no início de 1979, e a retirar-se do mercado de videogames.

Space InvadersPara azar da Fairchild, porém, justamente em 1979 as vendas começaram a subir. Os programadores começavam a explorar toda a capacidade do processador, o que fazia com que os jogos ficassem cada vez melhores em matéria de gráficos e jogabilidade. Em 1979 foi vendido um milhão de consoles, e o Atari VCS foi o grande hit do Natal daquele ano. No ano seguinte, graças a uma conversão quase perfeita do grande sucesso dos arcades Space Invaders, as vendas dobraram para dois milhões de unidades. Mais e mais jogos continuariam sendo lançados nos anos seguintes, e as vendas continuariam dobrando: quatro milhões de consoles em 1981, e a impressionante marca de 8 milhões em 1982.

Mesmo com estas vendas astronômicas, 1982 marcou o início de uma era nada boa para a Atari. Neste ano foi lançado o Intellivision, da Mattel, que contava com uma maciça campanha de marketing que essencialmente dizia que os jogos do Intellivision eram melhores que os do Atari VCS. O Intellivision nunca chegou a ameaçar o Atari VCS, mas mesmo assim os programadores decidiram lançar um novo console para competir com ele. Na verdade, este novo console já estava em produção desde o lançamento do Atari VCS, pois os programadores da época acreditavam que a vida útil de um videogame seria de no máximo três anos. Além disso, buscando uma fatia no mercado dos computadores domésticos que começavam a virar moda no final dos anos 70, a Warner havia criado uma subdivisão da Atari para este fim, o que deu origem aos computadores Atari 400, lançado em 1978, e Atari 800, uma versão mais avançada, lançada em 1979.

Pois bem, para competir com o Intellivision, em 1982 foi lançada uma versão com gráficos e som melhores e velocidade de processamento maior do Atari VCS, batizada de Atari 5200 (o número de série de sua TIA). Retroativamente, o Atari VCS começou a ser chamado de Atari 2600, o nome que viria nas caixas a partir de então, e pelo qual o console seria conhecido até hoje. Apesar de mais avançado que o 2600, o 5200 não fez sucesso, basicamente por três motivos: o primeiro era que seus joysticks, apesar de terem dois botões de tiro, e a possibilidade de até quatro jogadores simultâneos por jogo (o console tinha quatro entradas para joystick) eram desajeitados de se segurar e quebravam fácil; em segundo lugar, pouco depois do lançamento do 5200 foi lançado um novo concorrente, o Colecovision, fabricado pela Coleco, que acabou abocanhando uma boa fatia do mercado; e, em terceiro lugar, o 2600 já contava com uma legião de fãs fiéis, e cada vez mais jogos eram produzidos para ele. Como o 5200 tinha poucos jogos e não rodava os jogos do 2600, muita gente preferia comprar um "ultrapassado" 2600 a um "moderno" 5200.

Pac ManAlém do prejuízo com o 5200, a Atari ainda sofreu baixas em 1982 quando as versões para o 2600 de Pac Man e ET, tidas como sucessos garantidos antes do lançamento, venderam menos da metade do esperado. Além disso, jogos fabricados por outros desenvolvedores, como Activision, Parker Brothers, Imagic e a própria Coleco, vendiam muito mais que os jogos produzidos pela Atari. Para piorar, a desenvolvedora Mystique começou a produzir jogos eróticos para o 2600, que mancharam a imagem de "adequado para toda a família" do console. A Atari processou a Mystique, e tentou uma ação para que só ela pudesse desenvolver jogos para o console, mas não foi bem sucedida. Esta ação pelo menos serviu de base para o modelo de hoje, segundo o qual as softhouses têm de ter seus jogos autorizados pela fabricante do console antes do lançamento.

Como se tudo isso já não fosse o bastante, as divisões de videogame, computadores e arcades da Atari não se comunicavam entre si, o que aumentava a chance de um projeto falhar. Pelo menos um realmente falhou, o Atari 2700, uma versão do 2600 que transmitiria seus dados para a TV sem fios, mas teve um problema de projeto que não conseguiram arrumar. Outra versão do 2600, a 2800, destinada ao mercado japonês, jamais foi lançada porque, em 1983, a Nintendo lançou lá seu Famicom (que viria a ser conhecido nos EUA como NES, ou Nintendo 8-bits), muito mais avançado até que o 5200, e que rapidamente dominou o mercado. A Atari teve a chance de fabricar o Famicom com exclusividade para os EUA, mas o acordo com a Nintendo foi por água abaixo quando a Coleco conseguiu uma licença para produzir o jogo Donkey Kong para o Colecovision. Mesmo assim, a Nintendo produziu vários jogos para o 2600, como o próprio Donkey Kong e Mario Bros.

Tendo prejuízo atrás de prejuízo, sem o contrato com a Nintendo, e com o mercado saturado de consoles e títulos, sem público para absorver a isso tudo, a Atari chegou ao fundo do poço em 1983, no que ficou conhecido como o crash dos videogames. A Warner teve um prejuízo de 500 milhões de dólares, o que a levou a vender a Atari. A divisão de videogames e a de computadores foram adquiridas pela Commodore (curiosamente, a fabricante do "cérebro" do Atari desde o início) em julho de 1984, e a de arcades pela Namco em 1985. Antes do crash, porém, os programadores da Atari já trabalhavam em uma nova versão do console, para substituir o 5200 e competir com o NES, à qual chamaram de Atari 7800. Esta versão era bem melhor que o 5200, com joysticks digitais (essencialmente iguais aos do NES, com dois botões e tudo), jogos tão bons quanto os primeiros do NES, e, o mais importante para muitos fãs, aceitava todos os jogos do 2600. O Atari 7800 foi lançado em 1986, junto com a primeira versão do 2600 fabricada pela Commodore, mais leve, de linhas mais modernas e mais barata (era vendida por 50 dólares), apelidada de Atari 2600 Jr. A Commodore ainda lançou um novo computador da Atari, o Atari ST, de 16 bits, que teve excelentes vendas na Europa, mas não tão boas nos EUA.

Sob o controle da Commodore, a Atari conseguiu se reerguer, e voltou a dar lucro. O mercado de videogames também voltou a crescer, afastando o risco de um novo crash, mesmo com muito mais consoles e títulos sendo lançados do que em 1983. A Atari ainda lançaria dois outros consoles, o portátil Lynx, em 1989, que mesmo sendo colorido não conseguiu superar as vendas do preto-e-branco Game Boy da Nintendo; e o Jaguar, lançado em 1993 para concorrer com o Playstation da Sony e o Saturn da Sega, mas que também falhou por ter uma quantidade muito pequena de jogos e softhouses interessadas em produzí-los. Depois disso, a companhia virou ela mesma uma softhouse, passando a produzir jogos ao invés de consoles. Atualmente, a Atari é uma subsidiária da Infogrames.

E o 2600, a estrela maior da companhia? Bem, seu sucesso foi tanto que ele só deixou de ser produzido em 1992, 15 anos após seu lançamento. Ainda hoje o Atari 2600 é tido como um dos videogames mais divertidos da História, um dos que tem a maior galeria de jogos (mais de 900), seu símbolo é um ícone dos anos 80, e seu nome é praticamente sinônimo de videogame em alguns países. Até hoje se vendem clones do Atari 2600 no mundo todo, capazes de rodar seus cartuchos ou que já vêm com os jogos na memória. Mas o mais impressionante é que até hoje são produzidos novos jogos para o sistema, seja para jogar em emuladores ou até mesmo para a venda, já que não é tão difícil assim montar um cartucho de Atari. Por essas e outras, o console ganhou o apelido de "o videogame que se recusou a morrer".
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domingo, 11 de junho de 2006

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Olimpíadas (VI)

E hoje teremos mais um post olímpico!

Sankt Moritz 1928


Os membros do COI podem ter muitos defeitos, mas bobos eles não são. O sucesso da Semana dos Jogos de Inverno de 1924 foi mais do que suficiente para garantir que, a cada nova edição dos Jogos Olímpicos, uma nova Semana dos Jogos de Inverno fosse realizada. Mas o COI sabia que grande parte deste sucesso vinha do fato de que a pequena Chamonix, muito mais apropriada à prática dos esportes de inverno, havia sido designada pelo Comitê Organizador como sede, ao invés de Paris, a sede das Olimpíadas de Verão daquele ano. Assim, em sua reunião seguinte, em 1926, o COI decidiu dissociar o evento das Olimpíadas principais, mudando seu nome para Jogos Olímpicos de Inverno, e criando uma nova regra, segundo a qual os Jogos de Inverno não precisariam ser na mesma sede que os Jogos de Verão, podendo ter cidades candidatas à sua realização. Para agradar a alguns membros mais tradicionalistas, foi criada uma cláusula segundo a qual o país sede da Olimpíada de Verão de cada ano teria prioridade na escolha da sede da Olimpíada de Inverno do mesmo ano. Em 1928, porém, a Holanda, que sediaria os Jogos daquele ano em Amsterdã, não se interessou em indicar possíveis candidatas. Assim, foram abertas as inscrições para cidades de outros países. Por coincidência, todas as três candidatas vieram da Suíça: Davos, Engelberg e St. Moritz. Acabou sendo escolhida a última, sede do na época já famoso clube de inverno Cresta Run.

A segunda edição dos Jogos Olímpicos de Inverno se realizou entre os dias 11 e 19 de fevereiro, reunindo 464 atletas, sendo 26 mulheres, que representaram 25 nações em 14 provas de 8 esportes: bobsleding, combinado nórdico, esqui cross country, hóquei no gelo, patinação artística no gelo, patinação no gelo em velocidade, saltos com esqui e skeleton, uma modalidade de trenó onde o atleta desce deitado de bruços, com a cabeça apontando para a frente. Pela primeira vez uma edição dos Jogos de Inverno teve esportes de demonstração, no caso a patrulha militar e o skijoring, uma modalidade de esqui onde o atleta é puxado por um cavalo (clique aqui para ver todas as provas do programa).

Mais uma vez os atletas escandinavos foram o destaque. O sueco Gillis Grafström, bicampeão em 1920 e 1924 na patinação artística, conseguiu seu terceiro ouro seguido, mesmo sofrendo com uma contusão no joelho; Clas Thunberg, da Finlândia, ganhou mais dois ouros na patinação em velocidade, aumentando seu total para cinco; o norueguês Johan Grøttumbråten conquistaria o ouro no combinado nórdico e no esqui cross country de 18 km; e a também norueguesa Sonja Henie, de apenas 15 anos, e que havia ficado em último quatro anos antes, conquistaria o ouro da patinação artística, arrancando aplausos entusiasmados de uma arena lotada. Também merecem destaque o time de hóquei no gelo do Canadá, que em três partidas marcou 38 gols e não sofreu nenhum; e os atletas japoneses, que, mesmo sem nenhum resultado expressivo, entraram para a História como os primeiros asiáticos a competir nos Jogos de Inverno.

O principal adversário dos atletas, porém, foi o calor. No quarto dia de competições, a temperatura chegou a inacreditáveis 25o Celsius, o que levou ao cancelamento da prova de 10.000 metros da patinação em velocidade devido à má condição do gelo da pista. Os competidores do esqui cross country, distância 50 km, também sofreriam com este calor. O único a parecer não se importar foi o sueco Per Erik Redlund, que conquistou o ouro com mais de 13 minutos de vantagem sobre o segundo colocado, a maior margem já alcançada até hoje em qualquer evento olímpico.

No geral, os entusiasmados atletas de inverno, satisfeitíssimos por terem uma Olimpíada só deles, fizeram do evento, mais uma vez, um sucesso. A consolidação dos Jogos de Inverno levou a um efeito colateral inesperado, o cancelamento dos Jogos Nórdicos, curiosamente o mesmo evento que impediu que a Semana de Jogos de Inverno começasse a ser realizada em 1912. Oficialmente, os Jogos Nórdicos programados para 1930 seriam cancelados por falta de neve, mas a falta de interesse dos atletas em disputar esta competição, já que agora tinham os Jogos Olímpicos, fez com que eles jamais voltassem a ser realizados novamente.

Amsterdã 1928


Após a Primeira Guerra Mundial, Amsterdã foi candidata a sede das Olimpíadas tanto de 1920 quanto de 1924. Coubertin, porém, decidiu dar as primeiras Olimpíadas do pós-guerra para a Bélgica, um dos países mais prejudicados na batalha, e as seguintes para sua própria pátria, que indicara Paris como candidata. Como forma de compensação, em sua reunião de 1921, o COI acertou que as Olimpíadas seguintes, de 1928, seriam realizadas, enfim, em Amsterdã. Apesar da inédita antecedência na escolha, o que garantia praticamente sete anos para preparar o evento, nem tudo foram flores para o povo holandês. Para começar, a Coroa era contra a organização dos jogos, na opinião da Rainha Guilhermina uma rememoração da Primeira Guerra, com nações se digladiando pela vitória dentro de solo holandês. A Igreja também se levantou contra o evento, acusando-o de pagão por homenagear os deuses da Grécia antiga. Com estas duas oposições de peso, era provável que os Jogos fracassassem, ou que mais uma vez acabassem ligados a uma feira qualquer para poder reduzir seus gastos. Felizmente, a população era amplamente a favor da Olimpíada, o que deu os organizadores a idéia de lançar uma espécie de loteria, cujo dinheiro arrecadado iria para a construção das instalações indispensáveis ao evento. O que não pôde ser arrecadado pela loteria foi patrocinado pela Companhia das Índias e pela Coca-Cola, o que garantiu que tudo saísse como o planejado, apesar dos percalços.

A jóia principal dos Jogos de 1928 foi, evidentemente, o Estádio Olímpico, um dos mais belos da Europa, com capacidade para 58.000 espectadores sentados, e mais uma espécie de "geral" para 9.000 de pé. Em uma de suas colunas, uma enorme pira permaneceria acesa durante toda a duração dos Jogos, idéia do arquiteto Jan Wils, um dos construtores do estádio. A idéia da pira foi muito bem aceita pelo COI, já que o fogo era um importante símbolo para os gregos, e com certeza piras como essas foram acesas durante os Jogos da Antiguidade. A pira de 1928, porém, seria acesa a distância, por um funcionário da Companhia Elétrica de Amsterdã. A idéia da Tocha Olímpica passando de mão em mão até acendê-la só seria introduzida duas Olimpíadas depois, em 1936.

Sob a pira dos Jogos de Amsterdã, participaram do evento 3.014 atletas, sendo 209 mulheres, competindo em 109 provas de 16 esportes: atletismo, boxe, ciclismo, equitação, esgrima, futebol, ginástica artística, hóquei, levantamento de peso, luta olímpica, natação, pentatlo moderno, polo aquático, remo, saltos ornamentais e vela. Outros três esportes foram incluídos como esportes de demonstração: corfebol, kaatsen e lacrosse (clique aqui para ver todas as provas do programa). 46 nações foram representadas, dentre elas, retornando aos jogos, Alemanha, Áustria, Bulgária e Hungria, os "vilões" da Primeira Guerra. O Brasil, mergulhado em uma grave crise econômica e acreditando que seus atletas não trariam bons resultados, declinou do convite, assim como a União Soviética, que, ao invés de enviar seus atletas aos Jogos, optou por organizar um torneio esportivo interno na mesma época. Os Jogos de Amsterdã se desenrolaram entre 17 de maio e 12 de agosto, 85 dias, apesar das tentativas do COI de compactá-los.

A população da Holanda, Bélgica, Alemanha, França, e até mesmo da Grã-Bretanha se mostraram entusiasmadíssimas com o evento, superlotando todas as pousadas e albergues da cidade, e fazendo com que todos os eventos tivessem praticamente sua lotação máxima. Muitos europeus decidiram ir assistir às Olimpíadas de carro, e, como Amsterdã não tinha estacionamento para todos, criaria novas vagas especiais nas vias públicas, identificadas com uma placa azul, quadrada, com a letra P (de park, estacionamento em inglês), que se tornaria o símbolo internacional das vagas de estacionamento após os Jogos. A cerimônia de abertura, tida como a mais bonita até então, também teve lotação esgotada, assim como um incidente desagradável: antes do desfile das nações, um manifestante bloqueou o portão por onde as delegações deveriam entrar, distribuindo panfletos antifranceses e antialemães. Revoltada com a organização, que além de deixar o manifestante chegar até ali ainda demorou para retirá-lo, a delegação francesa se recusou a desfilar. A da Alemanha, talvez por estar há tanto tempo sem participar do evento, decidiu desfilar assim mesmo.

Esta foi a primeira edição dos Jogos desde 1904 sem a presença do Barão de Coubertin, acometido de uma doença que o impediu de viajar. Mesmo assim, ele foi representado pelo belga Henri de Baillet-Latour, que no papel era o novo presidente do COI, mas na prática nada fazia sem se consultar antes com o Barão. Talvez pela doença, talvez pela idade avançada, Coubertin decidiu fazer uma verdadeira caça às bruxas contra o profissionalismo, que, segundo ele, iria destruir os Jogos. O principal reflexo desta posição tão radical foi a retirada do programa olímpico do tênis e do tiro, sob a alegação de que seus atletas eram patrocinados, apenas porque os tenistas costumavam receber raquetes e bolas, e os atiradores armas e munições, de graça de seus fabricantes. Muitos outros atletas foram impedidos de participar porque teriam suas viagens bancadas por empresas, e não pelo governo. Mas o COI fez vista grossa a pelo menos uma ajuda deste tipo: com pouco dinheiro em caixa, o governo da França se recusou a custear a viagem de seus atletas à Holanda. Para que os franceses não ficassem de fora, François Coty, dono da indústria de cosméticos que leva seu nome, decidiu bancar todas as despesas. Evidentemente, o Barão não considerou isto como patrocínio, e não reclamou do dinheiro doado por Coty.

1928 também foi a primeira Olimpíada em que as mulheres puderam participar do atletismo e da ginástica, com a polonesa Halina Konopacka, ouro no arremesso do disco, se tornando a primeira campeã olímpica do atletismo. A prova dos 800 metros, vencida pela alemã Lina Radke, terminaria com três atletas desmaiando de exaustão, o que faria com que nenhuma prova acima de 200 metros fosse "autorizada" para as mulheres até os Jogos de 1960. Também foi do atletismo que saiu a primeira musa dos Jogos, a atleta canadense do salto em altura Ethel Catherwood, apelidada Lily, de apenas 18 anos, linda e sempre sorridente, uma antítese de suas oponentes, de caras sempre fechadas. No dia da final, Lily esperou por três horas enrolada em um cobertor vermelho, enquanto as demais competidoras avançavam, até chegar na altura de 1,52m, quando apenas a holandesa Carolina Gisolf e a norte-americana Mildred Wiley ainda não haviam sido eliminadas. Então Lily saiu de seu cobertor, revelando um corpo escultural, e sob os aplausos de 65.000 espectadores saltou a altura de 1,59m, conquistando a medalha de ouro e uma bolsa de estudos de três mil dólares, uma fortuna na época, ofertada pelo governo canadense. Apaixonada por piano, após voltar da Holanda Lily se mudou para a Califórnia, onde foi estudar música, e nunca mais competiu no esporte.

O Canadá, aliás, estava em alta em 1928, com Percy Williams vencendo os 100 e os 200 metros rasos, para surpresa dos norte-americanos. Desde antes da viagem, os atletas do Tio Sam já se consideravam imbatíveis no atletismo e na natação, a ponto do chefe da delegação, Douglas McArthur, que viria a ser general na Segunda Guerra, prometer que arrebatariam todos os ouros que disputassem. Acabou que os EUA só ganhariam nove das 27 medalhas do atletismo, e seis das 11 da natação, duas delas conquistadas por Johnny Weissmuller, o futuro Tarzan do cinema. Ao retornar aos EUA, cobrado pela imprensa, McArthur se limitou a dizer que "os Jogos de 1928 se tornaram um modelo para outras competições". Uma posterior investigação descobriria que os atletas estavam tão certos de sua vitória que comeram demais durante a viagem, chegando em Amsterdã longe de sua condição física ideal.

Outros países que não estavam dentre os favoritos também fizeram bonito, como o Japão, com Mikio Oda se tornando o primeiro asiático a conquistar uma medalha de ouro, no salto triplo do atletismo, e seu compatriota Yoshi Tsuruta ganhando mais um ouro nos 200 metros estilo peito da natação. Um dos maiores destaques foi o time de hóquei da Índia, até então desconhecido, tendo jogado sua primeira partida internacional dois anos antes, contra a Nova Zelândia. Utilizando tacos mais curtos, no limite do regulamento, e com um estilo de jogo mais veloz que o dos europeus, baseado na troca de passes, a Índia seria campeã invicta, e daria início a uma seqüência vitoriosa que só seria interrompida em 1960, após trinta vitórias e seis medalhas de ouro seguidas.

A única bagunça olímpica, descontando o manifestante da cerimônia de abertura, ocorreu no boxe: na final dos médios, os jurados consideraram vencedor o italiano Piero Toscani, que havia lutado contra o tchecoslovaco Jan Hermanek. Em protesto, torcedores de Hermanek invadiram o ringue e o ergueram, como se conclamando-o campeão. De repente, eles levaram Hermanek até a mesa dos jurados, e jogaram o pugilista sobre os árbitros. Enquanto isso, começou uma monumental briga na platéia entre torcedores dos dois atletas, que só se encerrou com a intervenção da polícia.

O futebol, por pouco, também não foi prejudicado por um protesto. Foram convidados para o torneio, além das principais seleções européias, a Argentina, o Chile e o Uruguai. O trajeto entre a América do Sul e a Holanda, então feito de barco, levava no mínimo três semanas. Como precisavam se ambientar e treinar entre a chegada e o primeiro jogo, os jogadores sul-americanos precisariam passar vários meses fora de casa. Sendo amadores, como sustentariam suas famílias neste período? Para não ter que abrir mão das três seleções, o COI concordou em fornecê-las uma ajuda de custo, durante o tempo em que estivessem "à disposição" da Olimpíada. Acontece que a Grã-Bretanha, muito mais rica e mais próxima da Holanda, reclamou que esta ajuda configurava profissionalismo, e exigiu que ela se estendesse também ao seu time, sob pena dos britânicos desistirem da competição. O COI, felizmente, não se acuou e pagou para ver, e o Reino Unido acabou não enviando sua seleção de futebol para o certame.

Mesmo sem a presença dos inventores do futebol, o torneio de 1928 foi um dos mais bem sucedidos, e um dos motivos pelos quais a FIFA se animaria a realizar sua primeira Copa do Mundo, dali a dois anos. O Uruguai, que já havia ganhado o ouro em 1924, se sagraria bicampeão, iniciando o mito da Celeste Olímpica, e conquistando o direito de sediar a primeira Copa. Além disso, os Jogos de 1928 foram responsáveis pela criação de um termo hoje muito conhecido no futebol: na final, o Uruguai ganhou da Argentina por 2 a 1, em um segundo jogo, pois o primeiro terminara empatado em 1 a 1. Na volta para casa, as duas seleções agendaram um amistoso para o dia 2 de outubro, uma espécie de tira-teima ou melhor de três. Neste jogo, a Argentina ganharia por 1 a 0, com um gol de Onzari, que, ao cobrar um escanteio, colocou a bola direto dentro do gol. No dia seguinte, os jornais argentinos, bem ao estilo de nossos hermanos, anunciavam em suas manchetes que a Argentina havia ganhado com um "gol olímpico". O termo pegou, e é usado até hoje.

Série Olimpíadas

Sankt Moritz 1928
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domingo, 4 de junho de 2006

Escrito por em 4.6.06 com 0 comentários

Fórmula 1 (I)

Semana passada, enquanto eu escrevia sobre Indianápolis, percebi uma coisa curiosa: apesar de adorar Fórmula 1, nunca escrevi aqui sobre ela, exceto por um post meio genérico e meio sonolento há uns três anos. Como eu estou sempre procurando por assunto mesmo, achei que seria uma boa fazer uma série de posts sobre a história da categoria. Hoje vamos ter o primeiro. Os demais virão com o tempo, intercalados com mais posts sobre outros assuntos, como eu estou fazendo com os das Olimpíadas. Apertem os cintos!

1950-1959


O primeiro Campeonato Mundial de Fórmula 1 foi disputado em 1950, mas a história da categoria começa bem antes disso. Na verdade, as corridas de automóvel surgiram praticamente junto com os automóveis, tendo a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) sido fundada em 20 de junho de 1904. No início, porém, não existiam campeonatos, mas sim diversas provas "soltas", onde equipes inscreviam seus pilotos e lutavam por prêmios de acordo com sua classificação, como as 24 Horas de Le Mans e o Grand Prix de Paris, na França; o Troféu do Império Britânico, na Ilha de Man; a Coppa Acerbo, na Itália; e as 500 Milhas de Indianápolis, nos EUA. Nesta época, a palavra "Fórmula" já era usada pela FIA, não para denominar um campeonato, mas sim um conjunto de regras que os carros deveriam seguir. Assim, se um campeonato era disputado "pelas regras da Fórmula 2", os interessados em disputá-la deveriam construir seus carros de acordo com um manual da FIA chamado Fórmula 2.

A idéia de organizar um campeonato começou a florescer pouco antes da Segunda Guerra Mundial, quando as corridas européias, conhecidas como Grandes Prêmios, estavam no auge de sua popularidade. A idéia da FIA era atribuir pontos aos pilotos que as disputassem, oferecendo um prêmio especial ao piloto que somasse mais pontos no final do ano. A eclosão da Guerra, porém, levou ao cancelamento dos Grandes Prêmios durante sua duração, e ao adiamento da idéia. Somente em 1946 a FIA decidiu tentar colocar sua idéia em prática, definindo as regras de como os pontos seriam atribuídos. Como os Grandes Prêmios utilizavam fórmulas diferentes entre si, a FIA decidiu unificá-las, sob o nome de Fórmula A, mas como desde o início já estava acertado que o campeonato seria o evento mais importante da FIA, ele acabou sendo apelidado de Fórmula 1. Com o passar do tempo, o campeonato acabou sendo conhecido mais pelo apelido que pelo nome, que acabou sendo oficialmente mudado.

A primeira corrida realizada sob as regras da recém-criada Fórmula 1 foi o Grande Prêmio de Valentino, realizado em 1o de setembro de 1946 em Turim, Itália, e vencido pelo italiano Achille Varzi, pilotando um Alfa Romeo. Esta corrida ainda não valeu pontos para um campeonato, servindo mais como um teste. Após vários outros testes e reuniões da FIA, ficou acertado que somente equipes e pilotos inscritos para o campeonato, que começaria de fato em 1950, poderiam receber pontos. Uns vinte Grandes Prêmios eram disputados anualmente na Europa, mas a FIA selecionou apenas os seis mais famosos para seu primeiro Campeonato Mundial de Fórmula 1: Inglaterra, em Silverstone; Mônaco, nas ruas de Monte Carlo; Suíça, em Bremgarten; Bélgica, na estrada entre as cidades de Spa e Francorchamps; França, em Reims; e Itália, em Monza. A eles se somaram as 500 Milhas de Indianápolis, nos EUA, para um total de sete provas. Muitos pilotos que não estavam inscritos no campeonato de Fórmula 1 também disputaram estas provas, e muitos pilotos da Fórmula 1 disputaram provas que não eram do campeonato, de olho em seus prêmios.

Stirling Moss persegue Juan Manuel FangioAo todo, 18 equipes participaram do campeonato de 1950, inscrevendo mais de 50 pilotos, embora somente 22 tenham pontuado. Indianápolis foi um caso a parte: embora fizesse parte do campeonato, nenhum piloto inscrito a disputou, e a corrida não seguiu as regras da Fórmula 1. Nas demais corridas, os cinco primeiros pilotos a cruzar a linha de chegada ganhavam pontos, e os três piores de seus sete resultados eram descartados na soma final. Uma regra curiosa permitia que uma equipe começasse a corrida com um piloto e o substituísse, terminando-a com outro, o que fazia com que os pontos fossem divididos meio-a-meio pelos pilotos, independente de quem dirigisse mais voltas. Havia ainda um ponto extra para quem fizesse a volta mais rápida de cada corrida. No início, todos os carros de Fórmula 1 deveriam usar motores aspirados de 4 litros e meio, o que deu uma grande vantagem às equipes italianas, Alfa Romeo, Maseratti e Ferrari, que já estavam acostumadas com este tipo de motor. O primeiro campeonato, em 1950, foi vencido por Nino Farina, um italiano a bordo de um Alfa Romeo. Outros dois pilotos dirigindo Alfa Romeos, o argentino Juan Manuel Fangio e o italiano Luigi Fagioli, terminaram o campeonato na segunda e terceira posições. Na verdade, os Alfa Romeos ganharam todas as provas do campeonato à exceção de Indianápolis, e aparentemente iriam dominar a categoria.

Mas Enzo Ferrari, o fundador da equipe de mesmo nome, havia trabalhado para a Alfa Romeo, e estudando seu motor chegou a um novo, que colocou em seus carros vermelhos. O início da temporada de 1951 ainda viu um amplo domínio da Alfa Romeo, mas da metade para o fim os Ferrari começaram a incomodar, vencendo três corridas. Para a temporada de 1951, o regulamento continuou o mesmo, mas o GP de Mônaco foi substituído pelo da Alemanha, em Nürburgring, e o GP da Espanha, em Pedralbas, foi incluído, além de só se considerarem os quatro melhores resultados de cada piloto nas oito provas. O campeonato foi vencido por Juan Manuel Fangio, da Alfa Romeo, com seis pontos de vantagem sobre o italiano Alberto Ascari, da Ferrari. 1951 também marcou a estréia do primeiro brasileiro na Fórmula 1, Chico Landi, que correu o GP da Itália pela Ferrari. Landi ainda correria dois GPs em 1952, dois em 1953 e um em 1956, todos pela Maserati. Seu melhor resultado foi o 4o lugar no GP da Argentina de 1956.

A temporada de 1952 começaria com uma incrível surpresa: mesmo sendo uma equipe tão forte, a Alfa Romeo usava material considerado ultrapassado, com seus motores e equipamentos tendo sido construídos antes da Guerra, e um orçamento muito curto para poder desenvolvê-los. Sendo uma companhia estatal, a direção da Alfa pediu ao governo italiano que aumentasse seu orçamento para a temporada de 1952, o que foi negado. Diante da negativa, a equipe decidiu se retirar da Fórmula 1. Isto fez com que uma eventual disputa entre Alfa Romeo e Ferrari jamais acontecesse, com que a equipe do Cavalinho Rampante se tornasse o novo time invencível da Fórmula 1, e ainda colocou a FIA em uma sinuca de bico: ao divulgar as regras da Fórmula 1 para 1950, a FIA determinou que elas seriam revistas em 1954, visando aumentar a competitividade. O temor da Federação era de que, sem nenhuma equipe ter um motor capaz de bater os Ferrari, e não querendo gastar dinheiro para projetar um que seria forçosamente aposentado dali a dois anos, quando as regras fossem revistas, as demais equipes desistissem de disputar o campeonato, se concentrando nos GPs avulsos. Para tentar remediar isto, a FIA tomou uma decisão, no mínimo, estranha: o campeonato de Fórmula 1 de 1952 e 1953 seria disputado de acordo com as regras da Fórmula 2, com as quais as equipes já estavam acostumadas. Isto fez com que as equipes não desistissem do campeonato, mas, na prática, de nada adiantou, pois a Ferrari venceria todas as corridas menos Indianápolis, como a Alfa Romeo havia feito em 1950. Alberto Ascari, que seria o campeão naquele ano, venceu seis das oito provas. No calendário, o GP da França passou para entre Rouen e Les-Essarts, e o GP da Holanda, em Zandvoort, substituiu o da Espanha. Curiosamente, como o campeonato de Fórmula 1 estava sendo disputado pelas regras da Fórmula 2, a única prova da qual um carro de Fórmula 1 poderia participar eram as 500 Milhas de Indianápolis, que tinham suas próprias regras. Como tinha um carro pronto, Enzo Ferrari decidiu inscrever Alberto Ascari, o único piloto de Fórmula 1 a disputar a prova enquanto ela fazia parte do calendário. Ascari não foi bem na prova, abandonando após 40 voltas. 1952 também foi o ano de estréia do brasileiro Gino Bianco, que disputou os quatro últimos GPs da temporada pela Maserati, e teve como melhor resultado o 18o lugar no GP da Inglaterra.

A temporada de 1953 não teve muitas novidades além da inclusão do GP da Argentina, em Buenos Aires, e da volta do GP da França para Reims. Mais uma vez a Ferrari dominou, vencendo sete das nove provas, e fazendo de Alberto Ascari o primeiro bicampeão da Fórmula 1. Em 1954, porém, tudo mudou radicalmente, com o campeonato voltando a ser disputado sob as regras da Fórmula 1, após a revisão da FIA. Os motores passaram a ser atmosféricos de 2 litros e meio, mais acessíveis às equipes em geral. Mais equipes se juntaram às que disputavam o campeonato, como a italiana Lancia e a alemã Mercedes, que fizeram questão de contratar os dois melhores pilotos da época, Ascari e Fangio, respectivamente. A Mercedes trouxe para a Fórmula 1 todas as inovações tecnológicas possíveis, como válvulas desmodrômicas e injetores de combustível, o que possibilitou a Fangio andar acima dos 200 Km/h pela primeira vez na categoria, no GP da França. Fangio, aliás, venceu suas duas primeiras corridas na temporada correndo pela Maserati, e depois foi para a Flecha de Prata, onde venceu mais quatro, se tornando ele também bicampeão, 17 pontos à frente de seu compatriota José Froilán González, da Ferrari. O calendário continuou com nove provas, mas o GP da Espanha voltou para seu lugar, tirando o da Holanda.

O calendário de 1955 seria bem mais reduzido, com a saída dos GPs da Espanha, Alemanha, França e Suíça, a volta dos GPs de Mônaco e da Holanda, e a transferência do GP da Inglaterra para Aintree. Fangio deu outro passeio, vencendo quatro das sete provas e se tornando o primeiro tricampeão da Fórmula 1. Seu parceiro de equipe, Stirling Moss, considerado um dos maiores pilotos ingleses da história, venceria em casa, para um total de cinco vitórias da Marcedes em sete provas. Após a temporada de 1955, a Mercedes também se retiraria da Fórmula 1, para a qual só voltaria após 40 anos. A desculpa oficial foi a de que eles já haviam provado sua superioridade, mas na verdade esta decisão foi motivada por um violento acidente nas 24 Horas de Le Mans, onde um Mercedes matou 83 pessoas, e que cancelou todos os GPs restantes de 1955. No mesmo ano, Mônaco também viu um acidente espetacular, quando Alberto Ascari caiu no mar com seu Lancia após não conseguir fazer uma curva. Ele foi retirado aparentemente sem nenhum ferimento, mas morreu quatro dias depois, quando testava um carro esporte em Monza, o que fez com que muitos fãs acreditassem que ele tinha sofrido algum dano interno não notado pela medicina da época. Após o acidente de Ascari, a Lancia também saiu da Fórmula 1, passando toda a sua pesquisa e tecnologia para a Ferrari. Tragédias à parte, a temporada de 1955 viu a estréia de mais um brasileiro, Hernando da Silva Ramos, que correu três GPs em 1955 e três em 1956, todos pela Gordini, alcançando seu melhor resultado, um 5o lugar, no GP de Mônaco de 1956.

A temporada de 1956 viu a volta dos GPs da França e da Alemanha, o retorno do GP da Inglaterra a Silverstone, e a saída do GP da Holanda. Sem Mercedes, Fangio foi para a Ferrari, e Moss para a Maserati. Os dois ex-parceiros de equipe fizeram um duelo emocionante pelo título, que ficou com Fangio, o primeiro tetracampeão da categoria, por apenas dois pontos. Fangio e Moss venceram duas corridas cada, com mais duas vencidas pelo inglês Peter Collins e uma pelo italiano Luigi Musso, ambos da Ferrari. No total, a Ferrari "ajudada" pela Lancia ganhou cinco das oito provas e, descontando Indianápolis, Moss foi o único vencedor que não pilotava um carro vermelho.

Fangio trocaria de equipe mais uma vez em 1957, voltando para a Maserati, e travando mais um duelo espetacular com Moss, agora na Vanwall. Fangio teve quatro vitórias e Moss três. De fato, a única corrida que um dos dois não venceu foi Indianápolis. Fangio faria história se tornando pentacampeão, um fato que não seria igualado pelos próximos 45 anos. 1957 foi a primeira temporada de Fórmula 1 com duas corridas em um mesmo país, a Itália, com o GP da Itália e o GP de Pescara. As usuais modificações no calendário ainda incluíram novos retornos do GP da Inglaterra para Aintree e do GP da França para Rouen-Les-Essarts, e a saída do GP da Bélgica, substituído pelo de Pescara.

Após seu quinto título, Fangio, então com 46 anos, decidiu se aposentar. Mesmo sem ele, a temporada de 1958 foi cheia de emoções, principalmente devido a algumas modificações feitas pela FIA. O campeonato pela primeira vez teve 11 provas, o que o deixou bem mais disputado, e pela primeira vez chegou à África, com a inclusão do GP do Marrocos, em Ain-Diab. Além disso, fez sua estréia o GP de Portugal, em Boavista; retornaram os GPs da Bélgica e da Holanda; o GPs da Inglaterra e da França voltaram para Silverstone e Reims; e o GP de Pescara saiu do calendário. A disputa pelo título ficou entre os ingleses Moss, da Vanwall (que fez sua primeira corrida na temporada pela Cooper), e Mike Hawthorn, da Ferrari. Hawthorn só venceu uma prova contra quatro de Moss, mas graças a seus resultados nas demais provas, se tornou o primeiro inglês campeão da Fórmula 1. A Vanwall venceu seis das onze provas, três com Moss e três com o inglês Tony Brooks, conquistando o recém-inaugurado Campeonato de Construtores, que soma os pontos conquistados pelas equipes, e não pelos pilotos. A maior novidade de 1958 talvez tenha sido a estréia da primeira mulher na categoria, a italiana Maria Teresa de Filippis. Ela disputou quatro GPs neste ano pela Maserati, e o GP de Mônaco de 1959 pela Porsche. Seu melhor resultado foi um 10o lugar no GP da Bélgica de 1958.

1959 viu mais mudanças no calendário, com o GP de Portugal passando para Lisboa, o da Inglaterra voltando para Aintree, o da Alemanha indo para Charlottenburg, a saída dos GPs da Argentina e da Bélgica, e a entrada de uma segunda corrida nos EUA, o GP dos EUA, em Sebring. Mais um brasileiro estreou na categoria, Fritz d'Orey, que correu três GPs pela Maserati, chegando em 10o no GP da França e abandonando os outros dois. Mas 1959 ainda troxe uma grande novidade, uma nova tendência à Fórmula 1: o motor dos Cooper era bem menor que os dos demais carros, e localizado na parte traseira, e não na frente, como se usava até então. Foi com estes carros que, em 1958, Moss ganhou o GP da Argentina e o francês Maurice Trintignant o GP de Mônaco. Na época, ninguém deu muita bola, mas quando o australiano Jack Brabham se tornou o piloto a ser batido em 1959, as demais equipes começaram a ver que um motor traseiro poderia ter alguma vantagem. A Cooper ganharia cinco das nove provas de 1959, duas com Brabham, duas com Moss, e uma com o neozelandês Bruce McLaren, se tornando a campeã de construtores de 1959, e fazendo de Brabham o campeão de pilotos. Depois disso, outras equipes inglesas, como a Lotus e a BRM, também passaram a adotar motores traseiros semelhantes ao da Cooper. A maior resistência ao modelo vinha da Ferrari, pois, nas palavras de Enzo Ferrari, "os cavalos puxam o carro, e não empurram".

Lentamente, a Fórmula 1 começava a entrar em uma nova era. Mas isso é assunto para o próximo post da série. Hora de um pit stop.

Série Fórmula 1

1950-1959

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