domingo, 11 de junho de 2006

Olimpíadas (VI)

E hoje teremos mais um post olímpico!

Sankt Moritz 1928


Os membros do COI podem ter muitos defeitos, mas bobos eles não são. O sucesso da Semana dos Jogos de Inverno de 1924 foi mais do que suficiente para garantir que, a cada nova edição dos Jogos Olímpicos, uma nova Semana dos Jogos de Inverno fosse realizada. Mas o COI sabia que grande parte deste sucesso vinha do fato de que a pequena Chamonix, muito mais apropriada à prática dos esportes de inverno, havia sido designada pelo Comitê Organizador como sede, ao invés de Paris, a sede das Olimpíadas de Verão daquele ano. Assim, em sua reunião seguinte, em 1926, o COI decidiu dissociar o evento das Olimpíadas principais, mudando seu nome para Jogos Olímpicos de Inverno, e criando uma nova regra, segundo a qual os Jogos de Inverno não precisariam ser na mesma sede que os Jogos de Verão, podendo ter cidades candidatas à sua realização. Para agradar a alguns membros mais tradicionalistas, foi criada uma cláusula segundo a qual o país sede da Olimpíada de Verão de cada ano teria prioridade na escolha da sede da Olimpíada de Inverno do mesmo ano. Em 1928, porém, a Holanda, que sediaria os Jogos daquele ano em Amsterdã, não se interessou em indicar possíveis candidatas. Assim, foram abertas as inscrições para cidades de outros países. Por coincidência, todas as três candidatas vieram da Suíça: Davos, Engelberg e St. Moritz. Acabou sendo escolhida a última, sede do na época já famoso clube de inverno Cresta Run.

A segunda edição dos Jogos Olímpicos de Inverno se realizou entre os dias 11 e 19 de fevereiro, reunindo 464 atletas, sendo 26 mulheres, que representaram 25 nações em 14 modalidades de 8 esportes: bobsleding, combinado nórdico, esqui cross country, hóquei no gelo, patinação artística no gelo, patinação no gelo em velocidade, saltos com esqui e skeleton, uma modalidade de trenó onde o atleta desce deitado de bruços, com a cabeça apontando para a frente. Pela primeira vez uma edição dos Jogos de Inverno teve esportes de demonstração, no caso o biatlo e o skijoring, uma modalidade de esqui onde o atleta é puxado por um cavalo.

Mais uma vez os atletas escandinavos foram o destaque. O sueco Gillis Grafström, bicampeão em 1920 e 1924 na patinação artística, conseguiu seu terceiro ouro seguido, mesmo sofrendo com uma contusão no joelho; Clas Thunberg, da Finlândia, ganhou mais dois ouros na patinação em velocidade, aumentando seu total para cinco; o norueguês Johan Grøttumbråten conquistaria o ouro no combinado nórdico e no esqui cross country de 18 Km; e a também norueguesa Sonja Henie, de apenas 15 anos, e que havia ficado em último quatro anos antes, conquistaria o ouro da patinação artística, arrancando aplausos entusiasmados de uma arena lotada. Também merecem destaque o time de hóquei no gelo do Canadá, que em três partidas marcou 38 gols e não sofreu nenhum; e os atletas japoneses, que, mesmo sem nenhum resultado expressivo, entraram para a História como os primeiros asiáticos a competir nos Jogos de Inverno.

O principal adversário dos atletas, porém, foi o calor. No quarto dia de competições, a temperatura chegou a inacreditáveis 25o Celsius, o que levou ao cancelamento da prova de 10.000 metros da patinação em velocidade devido à má condição do gelo da pista. Os competidores do esqui cross country, distância 50 Km, também sofreriam com este calor. O único a parecer não se importar foi o sueco Per Erik Redlund, que conquistou o ouro com mais de 13 minutos de vantagem sobre o segundo colocado, a maior margem já alcançada até hoje em qualquer evento olímpico.

No geral, os entusiasmados atletas de inverno, satisfeitíssimos por terem uma Olimpíada só deles, fizeram do evento, mais uma vez, um sucesso. A consolidação dos Jogos de Inverno levou a um efeito colateral inesperado, o cancelamento dos Jogos Nórdicos, curiosamente o mesmo evento que impediu que a Semana de Jogos de Inverno começasse a ser realizada em 1912. Oficialmente, os Jogos Nórdicos programados para 1930 seriam cancelados por falta de neve, mas a falta de interesse dos atletas em disputar esta competição, já que agora tinham os Jogos Olímpicos, fez com que eles jamais voltassem a ser realizados novamente.

Amsterdã 1928


Após a Primeira Guerra Mundial, Amsterdã foi candidata a sede das Olimpíadas tanto de 1920 quanto de 1924. Coubertin, porém, decidiu dar as primeiras Olimpíadas do pós-guerra para a Bélgica, um dos países mais prejudicados na batalha, e as seguintes para sua própria pátria, que indicara Paris como candidata. Como forma de compensação, em sua reunião de 1921, o COI acertou que as Olimpíadas seguintes, de 1928, seriam realizadas, enfim, em Amsterdã. Apesar da inédita antecedência na escolha, o que garantia praticamente sete anos para preparar o evento, nem tudo foram flores para o povo holandês. Para começar, a Coroa era contra a organização dos jogos, na opinião da Rainha Guilhermina uma rememoração da Primeira Guerra, com nações se degladiando pela vitória dentro de solo holandês. A Igreja também se levantou contra o evento, acusando-o de pagão por homenagear os deuses da Grécia antiga. Com estas duas oposições de peso, era provável que os Jogos fracassassem, ou que mais uma vez acabassem ligados a uma feira qualquer para poder reduzir seus gastos. Felizmente, a população era amplamente a favor da Olimpíada, o que deu os organizadores a idéia de lançar uma espécie de loteria, cujo dinheiro arrecadado iria para a construção das instalações indispensáveis ao evento. O que não pôde ser arrecadado pela loteria foi patrocinado pela Companhia das Índias e pela Coca-Cola, o que garantiu que tudo saísse como o planejado, apesar dos percalços.

A jóia principal dos Jogos de 1928 foi, evidentemente, o Estádio Olímpico, um dos mais belos da Europa, com capacidade para 58.000 espectadores sentados, e mais uma espécie de "geral" para 9.000 de pé. Em uma de suas colunas, uma enorme pira permaneceria acesa durante toda a duração dos Jogos, idéia do arquiteto Jan Wils, um dos construtores do estádio. A idéia da pira foi muito bem aceita pelo COI, já que o fogo era um importante símbolo para os gregos, e com certeza piras como essas foram acesas durante os Jogos da Antigüidade. A pira de 1928, porém, seria acesa à distância, por um funcionário da Companhia Elétrica de Amsterdã. A idéia da Tocha Olímpica passando de mão em mão até acendê-la só seria introduzida duas Olimpíadas depois, em 1936.

Sob a pira dos Jogos de Amsterdã, participaram do evento 3.014 atletas, sendo 209 mulheres, competindo em 109 modalidades de 17 esportes: atletismo, boxe, ciclismo, equitação, esgrima, futebol, ginástica, halterofilismo, hóquei, luta greco-romana, luta livre, natação, pentatlo moderno, pólo aquático, remo, saltos ornamentais e vela. Outros três esportes foram incluídos como esportes de demonstração: corfebol, kaatsen (uma espécie de tênis jogado sem raquetes) e lacrosse. 46 nações foram representadas, entre elas, retornando aos jogos, Alemanha, Áustria, Bulgária e Hungria, os "vilões" da Primeira Guerra. O Brasil, mergulhado em uma grave crise econômica e acreditando que seus atletas não trariam bons resultados, declinou do convite, assim como a União Soviética, que ao invés de enviar seus atletas aos Jogos optou por organizar um torneio esportivo interno na mesma época. Os Jogos de Amsterdã se desenrolaram entre 17 de maio e 12 de agosto, 85 dias, apesar das tentativas do COI de compactá-los.

A população da Holanda, Bélgica, Alemanha, França, e até mesmo da Grã-Bretanha se mostraram entusiasmadíssimas com o evento, superlotando todas as pousadas e albergues da cidade, e fazendo com que todos os eventos tivessem praticamente sua lotação máxima. A cerimônia de abertura, tida como a mais bonita até então, também teve lotação esgotada, assim como um incidente desagradável: antes do desfile das nações, um manifestante bloqueou o portão por onde as delegações deveriam entrar, distribuindo panfletos antifranceses e antialemães. Revoltada com a organização, que além de deixar o manifestante chegar até ali ainda demoraram para retirá-lo, a delegação francesa se recusou a desfilar. A da Alemanha, talvez por estar há tanto tempo sem participar do evento, decidiu desfilar assim mesmo.

Esta foi a primeira edição dos Jogos desde 1904 sem a presença do Barão de Coubertin, acometido de uma doença que o impediu de viajar. Mesmo assim, ele foi representado pelo belga Henri de Baillet-Latour, que no papel era o novo presidente do COI, mas na prática nada fazia sem se consultar antes com o Barão. Talvez pela doença, talvez pela idade avançada, Coubertin decidiu fazer uma verdadeira caça às bruxas contra o profissionalismo, que segundo ele iria destruir os Jogos. O principal reflexo desta posição tão radical foi a retirada do programa olímpico do tênis e do tiro, sob a alegação de que seus atletas eram patrocinados, apenas porque os tenistas costumavam receber raquetes e bolas, e os atiradores armas e munições, de graça de seus fabricantes. Muitos outros atletas foram impedidos de participar porque teriam suas viagens bancadas por empresas, e não pelo governo. Mas o COI fez vista grossa a pelo menos uma ajuda deste tipo: com pouco dinheiro em caixa, o governo da França se recusou a custear a viagem de seus atletas à Holanda. Para que os franceses não ficassem de fora, François Coty, dono da indústria de cosméticos que leva seu nome, decidiu bancar todas as despesas. Evidentemente, o Barão não considerou isto como patrocínio, e não reclamou do dinheiro doado por Coty.

1928 também foi a primeira Olimpíada em que as mulheres puderam participar do atletismo e da ginástica, com a polonesa Halina Konopacka, ouro no arremesso do disco, se tornando a primeira campeã olímpica do atletismo. A prova dos 800 metros, vencida pela alemã Lina Radke, terminaria com três atletas desmaiando de exaustão, o que faria com que nenhuma prova acima de 200 metros fosse "autorizada" para as mulheres até os Jogos de 1960. Também foi do atletismo que saiu a primeira musa dos Jogos, a atleta canadense do salto em altura Ethel Catherwood, apelidada Lily, de apenas 18 anos, linda e sempre sorridente, uma antítese de suas oponentes, de caras sempre fechadas. No dia da final, Lily esperou por três horas enrolada em um cobertor vermelho, enquanto as demais competidoras avançavam, até chegar na altura de 1,52m, quando apenas a holandesa Carolina Gisolf e a norte-americana Mildred Wiley ainda não haviam sido eliminadas. Então Lily saiu de seu cobertor, revelando um corpo escultural, e sob os aplausos de 65.000 espectadores saltou a altura de 1,59m, conquistando a medalha de ouro e uma bolsa de estudos de três mil dólares, uma fortuna na época, ofertada pelo governo canadense. Apaixonada por piano, após voltar da Holanda Lily se mudou para a Califórnia, onde foi estudar música, e nunca mais competiu no esporte.

O Canadá, aliás, estava em alta em 1928, com Percy Williams vencendo os 100 e os 200 metros rasos, para surpresa dos norte-americanos. Desde antes da viagem, os atletas do Tio Sam já se consideravam imbatíveis no atletismo e na natação, a ponto do chefe da delegação, Douglas McArthur, que viria a ser general na Segunda Guerra, prometer que arrebatariam todos os ouros que disputassem. Acabou que os EUA só ganhariam nove das 27 medalhas do atletismo, e seis das 11 da natação, duas delas conquistadas por Johnny Weissmuller, o futuro Tarzan do cinema. Ao retornar aos EUA, cobrado pela imprensa, McArthur se limitou a dizer que "os Jogos de 1928 se tornaram um modelo para outras competições". Uma posterior investigação descobriria que os atletas estavam tão certos de sua vitória que comeram demais durante a viagem, chegando em Amsterdã longe de sua condição física ideal.

Outros países que não estavam dentre os favoritos também fizeram bonito, como o Japão, com Mikio Oda se tornando o primeiro asiático a conquistar uma medalha de ouro, no salto triplo do atletismo, e seu compatriota Yoshi Tsuruta ganhando mais um ouro nos 200 metros estilo peito da natação. Um dos maiores destaques foi o time de hóquei da Índia, até então desconhecido, tendo jogado sua primeira partida internacional dois anos antes, contra a Nova Zelândia. Utilizando tacos mais curtos, no limite do regulamento, e com um estilo de jogo mais veloz que o dos europeus, baseado na troca de passes, a Índia seria campeã invicta, e daria início a uma seqüência vitoriosa que só seria interrompida em 1960, após trinta vitórias e seis medalhas de ouro seguidas.

A única bagunça olímpica, descontando o manifestante da cerimônia de abertura, ocorreu no boxe: na final dos médios, os jurados consideraram vencedor o italiano Piero Toscani, que havia lutado contra o tchecoslovaco Jan Hermanek. Em protesto, torcedores de Hermanek invadiram o ringue e o ergueram, como se conclamando-o campeão. De repente, eles levaram Hermanek até a mesa dos jurados, e jogaram o pugilista sobre os árbitros. Enquanto isso, começou uma monumental briga na platéia entre torcedores dos dois atletas, que só se encerrou com a intervenção da polícia.

O futebol, por pouco, também não foi prejudicado por um protesto. Foram convidados para o torneio, além das principais seleções européias, a Argentina, o Chile e o Uruguai. O trajeto entre a América do Sul e a Holanda, então feito de barco, levava no mínimo três semanas. Como precisavam se ambientar e treinar entre a chegada e o primeiro jogo, os jogadores sul-americanos precisariam passar vários meses fora de casa. Sendo amadores, como sustentariam suas famílias neste período? Para não ter que abrir mão das três seleções, o COI concordou em fornecê-las uma ajuda de custo, durante o tempo em que estivessem "à disposição" da Olimpíada. Acontece que a Grã-Bretanha, muito mais rica e mais próxima da Holanda, reclamou que esta ajuda configurava profissionalismo, e exigiu que ela se estendesse também ao seu time, sob pena dos britânicos desistirem da competição. O COI, felizmente, não se acuou e pagou para ver, e o Reino Unido acabou não enviando sua seleção de futebol para o certame.

Mesmo sem a presença dos inventores do futebol, o torneio de 1928 foi um dos mais bem sucedidos, e um dos motivos pelos quais a FIFA se animaria a realizar sua primeira Copa do Mundo, dali a dois anos. O Uruguai, que já havia ganho o ouro em 1924, se sagraria bicampeão, iniciando o mito da Celeste Olímpica, e conquistando o direito de sediar a primeira Copa. Além disso, os Jogos de 1928 foram responsáveis pela criação de um termo hoje muito conhecido no futebol: na final, o Uruguai ganhou da Argentina por 2 a 1, em um segundo jogo, pois o primeiro terminara empatado em 1 a 1. Na volta para casa, as duas seleções agendaram um amistoso para o dia 2 de outubro, uma espécie de tira-teima ou melhor-de-três. Neste jogo, a Argentina ganharia por 1 a 0, com um gol de Onzari, que, ao cobrar um escanteio, colocou a bola direto dentro do gol. No dia seguinte, os jornais argentinos, bem ao estilo de nossos hermanos, anunciavam em suas manchetes que a Argentina havia ganho com um "gol olímpico". O termo pegou, e é usado até hoje.

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