domingo, 14 de maio de 2006

Olimpíadas (V)

Já que o post da semana passada foi mais curtinho, vamos falar mais um pouco das Olimpíadas, a partir de hoje incluindo também as de inverno! Semana que vem voltaremos à nossa programação normal.

Chamonix 1924


Desde a fundação do Comitê Olímpico Internacional, em 1894, haviam planos para que os esportes chamados "de inverno" - aqueles disputados sobre neve ou gelo - fizessem parte dos Jogos Olímpicos. Como estes esportes dependiam de condições meteorológicas favoráveis, e o Barão de Coubertin não estava disposto a espichar os Jogos até que a temperatura começasse a cair, esportes de inverno só fizeram parte do programa olímpico em duas edições: em 1908, com a patinação artística no gelo, e em 1920, com a patinação artística no gelo e o hóquei no gelo.

Uma idéia alternativa foi proposta pelo conde italiano Eugenio d'Usseaux, durante uma reunião do COI em 1911: a criação de uma semana dedicada aos esportes de inverno, separada do restante das Olimpíadas. Usseaux pretendia que tal semana já acontecesse em 1912, mas os organizadores dos Jogos de Estocolmo não concordaram, pois a Suécia já iria sediar, em 1913, os Jogos Nórdicos, precisamente uma competição de esportes de inverno realizada a cada quatro anos. Usseaux então propôs que a primeira semana dedicada aos esportes de inverno acontecesse em 1916, quando seriam realizados os Jogos de Berlim. A idéia foi aceita e o programa foi escolhido, mas a Primeira Guerra Mundial acabaria por cancelar os Jogos de 1916, junto com sua semana de esportes de inverno.

Após os Jogos de 1920, os primeiros depois da Guerra, o COI teve uma importante reunião - sobre a qual você pode ler mais abaixo - onde o tema dos esportes de inverno novamente veio à baila. Ficou então decidido que cada cidade escolhida para ser a sede dos Jogos Olímpicos teria também de organizar uma Semana dos Jogos de Inverno, que, para todos os efeitos, seria considerada parte da Olimpíada, com suas medalhas contando como medalhas olímpicas, e seus campeões sendo registrados como campeões olímpicos.

Nesta mesma reunião de 1921, Paris foi escolhida como sede para os Jogos de 1924. Os organizadores, porém, decidiram não realizar a Semana de Inverno na capital francesa, mas na pequena cidade de Chamonix, ao pé do Mont Blanc, a 612 Km de Paris, famosa por suas instalações apropriadas à prática dos esportes de inverno, e hoje conhecida como a meca do esqui e do snowboarding. A fama e a qualidade das instalações foram essenciais para o sucesso do evento, de modo que Chamonix se mostrou uma escolha mais do que acertada.

A Primeira Semana dos Jogos de Inverno se realizou entre 25 de janeiro e 5 de fevereiro (12 dias, na verdade), reunindo 258 atletas, sendo 11 mulheres, que representaram 16 nações em 16 modalidades de 9 esportes: biatlo, bobsleding, combinado nórdico, curling, esqui cross country, hóquei no gelo, patinação artística no gelo, patinação no gelo em velocidade e saltos com esqui. Houve até uma pequena cerimônia de abertura, com direito a desfile das delegações, juramento do atleta, e discurso de Gaston Vidal, o presidente do comitê organizador.

O primeiro medalhista de inverno foi o americano Charles Jewtraw, nos 500 metros da patinação em velocidade. Ainda na patinação em velocidade, o finlandês Clas Thurnberg ganhou três medalhas de ouro, número também alcançado pelo norueguês Thorleif Haug, que ganhou duas no esqui cross country e uma no combinado nórdico. O time de hóquei no gelo do Canadá também foi um grande destaque, repetindo sua medalha de ouro de 1920 de forma invicta, vencendo todos os seus cinco oponentes, marcando 110 gols e sofrendo apenas 3.

Além do time de hóquei no gelo do Canadá, o único atleta a repetir em 1924 seu triunfo em 1920 foi o sueco Gillis Grafström, da patinação artística. A norueguesa Sonja Henie, também da patinação artística, de apenas 11 anos, também entrou para a história dos Jogos. Quando competiu, ela ficou em último, mas foi considerada a preferida do público, e nos anos seguintes ganharia três ouros olímpicos e um campeonato mundial.

O biatlo foi o único responsável por alguma confusão no evento. À época conhecido como "patrulha militar em esqui", este esporte reúne tiro com rifle e esqui cross country, e usava uma fórmula para converter os acertos e distância percorrida em pontos, para apontar o vencedor. Como ainda não havia uma federação de biatlo em 1924, houve controvérsia quanto à fórmula utilizada, e protesto de alguns atletas. Outra confusão, esta involuntária, ocorreu nos saltos com esqui. Iniciamente, o norueguês Thorleif Haug foi apontado como ganhador do bronze, e o americano Anders Haugen como quarto lugar. Em 1974, porém, um erro no registro causado pela similaridade dos sobrenomes dos atletas foi identificado, fazendo com que suas posições se invertessem. Em uma cerimônia oficial, Haugen, com 83 anos, também recebeu uma medalha de bronze do COI, que decidiu manter a de Haug, que não teve culpa no incidente, e registrar ambos como medalhistas olímpicos.

No geral, a Primeira Semana dos Jogos de Inverno foi um grande sucesso. E o COI ficou tão entusiasmado com este sucesso que em sua reunião seguinte, em 1926, decidiu nomear retroativamente o evento de 1924 como os primeiros Jogos Olímpicos de Inverno - ou, mais popularmente, Olimpíadas de Inverno. A partir de então, os Jogos Olímpicos passaram a ser conhecidos informalmente em muitos idiomas como Olimpíadas de Verão, para diferenciá-los. Em 1926 também ficou definido que os Jogos Olímpicos de Inverno ainda seriam Jogos Olímpicos oficiais tutelados pelo COI, mas independentes da Olimpíada que ocorreria no mesmo ano, sendo disputados, inclusive, em sedes separadas, sempre sendo escolhidas cidades apropriadas à prática dos esportes de inverno. Hoje, no hemisfério norte, as Olimpíadas de Inverno são um evento tão famoso quanto as Olimpíadas de Verão, e igualmente aguardado pelos atletas que delas participam.

Paris 1924


Por volta de 1920, o Comitê Olímpico Internacional já era uma organização forte, com 58 membros representando 42 países. Mesmo com esta boa representatividade, muita gente não levava fé em que os Jogos de 1920 pudessem ser realizados, devido à proximidade com a Primeira Guerra Mundial. Como vocês puderam ler semana passada, porém, os Jogos de Antuérpia foram muito bem sucedidos, o que motivou o COI a realizar uma reunião histórica em 1921. Nela, além de escolher a sede dos Jogos de 1924 e 1928, com uma até então inédita antecedência, seriam tomadas outras decisões importantíssimas, a maior delas a elaboração do Regulamento Geral do COI, um verdadeiro "manual de instruções" dos Jogos Olímpicos. Um dos pontos cruciais deste Regulamento era a definição do que seria um atleta amador, e a responsabilização dos Comitês Olímpicos Nacionais caso algum atleta fosse descoberto como profissional durante ou após os jogos, visando impedir que surgisse um novo Jim Thorpe. O Regulamento ainda assegurou a participação das mulheres nas Olimpíadas, embora de maneira algo machista prevendo que competia ao COI definir de quais provas as moças poderiam participar; e estabeleceu o limite de quatro competidores de cada nação em provas individuais, e de apenas um time de cada nação no caso de esportes coletivos. Nesta reunião ainda foram criados e definidos os Jogos Olímpicos de Inverno, que você pode ver aqui em cima.

Buscando repetir o sucesso dos Jogos de 1920, seis cidades se candidataram a sede dos Jogos de 1924, dentre elas, Paris. Embora Roma e Amsterdã fossem as mais entusiasmadas, a possibilidade de apagar o fracasso de 1900 fez com que o Barão de Coubertin dedicasse sua vida a fazer de Paris a sede, e destes Jogos os maiores da História. O Barão chegou a largar os negócios e a família, e a dilapidar seu patrimônio pessoal, tudo para provar que os Jogos eram uma alternativa à Guerra, uma forma pacífica e honrosa de se resolver disputas. Para sua felicidade e glória, os Jogos de 1924 realmente superariam todos os anteriores em termos de popularidade e qualidade de seus competidores. A editora Plumon se ofereceu para publicar um belíssimo guia, um livreto de capa dura com 318 páginas, das quais 50 eram propagandas, produzido por jornalistas do Paris Soir e do Chicago Tribune, impresso em francês, espanhol e inglês, tudo para que os muitos turistas presentes ao evento não tivessem dúvidas quanto aos locais onde as disputas ocorreriam, e conhecessem os atletas. Ao todo foram vendidos oito mil guias. A indústria Le Radiola inventou o radinho de pilha especialmente para a ocasião, para que os espectadores não perdessem um só detalhe do que estava acontecendo. Graças à evolução do telégrafo, correspondentes do Chicago Tribune enviavam três boletins por dia, mantendo os norte-americanos sempre bem informados sobre o desempenho de seus participantes. E, o mais importante, todo um complexo esportivo foi construído especialmente para a ocasião, incluindo velódromo, parque de equitação, piscina, ginásio, quadras de tênis, um campo de futebol, e, é claro, o Estádio Olímpico, com capacidade para 45 mil pessoas. As contendas do halterofilismo, luta e boxe ocorreram no já famoso Cirque de Paris, o pólo a cavalo no Bois de Boulogne, o remo na represa de Argenteuil, e a vela na majestosa represa de Meulan-aux-Mureaux. Enfim, tudo impressionantemente bem organizado para a época, tudo quase perfeito.

Quase, porque, mesmo com tanta organização, os Jogos de 1924 não estavam imunes aos muitos problemas inerentes a uma competição internacional de seu porte. O maior deles foi a falta de educação dos torcedores franceses, que fizeram questão de demonstrar que odiavam com todas as suas forças os atletas da Áustria e da Hungria, seus inimigos da Primeira Guerra; dos Estados Unidos, aos quais acusavam de profissionais, devido às bolsas que recebiam de suas universidades para praticar esportes; e da Grã-Bretanha, seus eternos rivais. Tamanhas foram as vaias e ameaças que o jornal The Times, de Londres, conclamou a Grã-Bretanha e os EUA a não mais enviar atletas às Olimpíadas, e a fazer campanha para sepultar de vez os Jogos. Gaston Vidal e o Barão de Coubertin acalmaram os ânimos, lembrando que os Jogos não eram uma disputa entre nações, mas sim entre atletas, e que seriam os nomes destes que figurariam para sempre nos registros, e não suas nacionalidades. Aparentemente, o argumento surtiu efeito, já que nem Estados Unidos nem Grã-Bretanha desistiram das Olimpíadas, embora, acreditem ou não, até hoje uma parcela da imprensa dos EUA pede a fim dos Jogos com o mesmo argumento de favorecimento dos anfitriões.

Outro acontecimento que poderia ter bagunçado os Jogos de 1924 foi um transbordamento do Rio Sena em 1923, que deixou centenas de desabrigados e casas destruídas. Sem dinheiro suficiente para a reconstrução e os Jogos, o governo sugeriu ao COI, para horror do Barão, que os realizasse simultaneamente a uma exposição, a I Exposição Internacional dos Esportes, que ocorreria em Paris alguns dias antes da data prevista para o início da Olimpíada. Por ser uma exposição de esportes, e restrita a um pequeno espaço da cidade, ao contrário das feiras enormes que fizeram naufragar as primeiras edições dos Jogos, o Barão acabou por concordar. Isto fez, porém, com que o comitê organizador tivesse que fazer uma verdadeira acrobacia de datas, e que os Jogos durassem muito mais do que o previsto. Além disso, como o Barão não quis mudar a data da Cerimônia de Abertura, curiosamente os Jogos de 1924 começaram em 20 de abril e terminaram em 27 de julho, mas só foram oficialmente abertos em 5 de julho. A Cerimônia de Abertura contou com missa solene na Catedral de Notre Dame, desfile das delegações, juramento do atleta, hasteamento da bandeira olímpica, e a apresentação do lema Citius, Altius, Fortius ("mais rápido, mais alto, mais forte" em latim), cunhado pelo frei Henri Didon especialmente para a ocasião, e que acabou se tornando o lema oficial dos Jogos Olímpicos.

Ao todo, participaram da segunda edição dos Jogos de Paris, que se tornou a primeira cidade a sediar duas Olimpíadas, 2.956 atletas, sendo 136 mulheres. 44 nações foram representadas, contando pela primeira vez com a Irlanda, finalmente separada da delegação do Reino Unido. As ausências mais sentidas foram as da Alemanha, ainda sem condições após a Primeira Guerra Mundial, e da União Soviética, que sequer fora convidada, apesar de já ser reconhecida como nação por muitos países do mundo. O programa olímpico contou com 20 esportes: atletismo, boxe, ciclismo, equitação, esgrima, futebol, ginástica, halterofilismo, luta greco-romana, luta livre, natação, pentatlo moderno, pólo a cavalo, pólo aquático, remo, rugby, saltos ornamentais, tênis, tiro e vela. Exageradamente, os organizadores ainda incluíram quatro esportes de demonstração: canoagem, canne de combat, pelota basca e savate, contrariando a recomendação do COI de que os esportes de demonstração deveriam ser apenas dois.

Os fundistas finlandeses repetiram em 1924 a performance arrebatadora de quatro anos antes: Paavo Nurmi ganhou os 1.500 metros e os 5.000 metros, mesmo com menos de uma hora de folga entre a chegada da primeira corrida e a largada da segunda, e a corrida cross country, disputada em um dia de calor fora do comum; Ville Ritola ganhou os 10.000 metros e os 3.000 metros steeplechase, e foi segundo nos 1.500 metros e 5.000 metros; Albin Steenroos foi ouro na Maratona; e a equipe finlandesa venceu os 3.000 metros por equipes e o cross country por equipes. Ainda no atletismo, os britânicos Harold Abrahams e Eric Liddell venceriam os 100 metros rasos e os 400 metros, respectivamente. Anos mais tarde, sua história seria contada no filme Carruagens de Fogo.

Abrahams e Liddell não foram os únicos atletas ligados ao cinema após os jogos: o americano Johnny Weissmuller, ouro na natação nos 100 metros estilo livre, 400 metros estilo livre, revezamento 4 por 200 metros estilo livre e bronze no pólo aquático, seria contratado em 1932 para viver Tarzan no cinema. Ao todo, Weissmuller faria 32 filmes, e se tornaria muito mais famoso por ser o homem-macaco do que medalhista olímpico.

A maioria das "bagunças olímpicas" desta edição dos Jogos foi causada pelo já citado exacerbado patriotismo francês: na final do rugby, após perder para os Estados Unidos, a plateia enfurecida não permitiu o hasteamento da bandeira nem a execução do hino americano; no tênis, a britânica Kitty McKane vencia a francesa Didi Vlasto por 6-0 e 3-0, quando uma pressão descomunal sobre o árbitro a deixou nervosa, e permitiu que Vlasto virasse e ganhasse o jogo; e no boxe, o britânico Henry Mallin, campeão em 1920 e um dos melhores peso-médios da história, quase foi tirado do torneio pelo desconhecido francês Roger Brouss, que lutou deslealmente e chegou a lhe dar uma mordida no peito. O árbitro, um belga, chegou a declarar Brouss vencedor, mas diante de um estardalhaço da torcida e da intervenção de um nobre sueco, voltou atrás e o desclassificou. Mallin acabaria por seguir na competição e ganhar o ouro.

O Brasil enviou apenas 11 atletas aos Jogos, nove do atletismo e dois do remo. Poderiam ter sido mais, pois, animado com a excelente performance de 1920, o Presidente Artur Bernardes destinou uma generosíssima verba à Confederação Brasileira de Desportos, visando treinar e custear a viagem de nossos melhores atletas. A verba causou uma verdadeira guerra política pelo controle da CBD, e acabou suspensa. O Brasil só não cancelou sua inscrição devido a um esforço da Federação Paulista de Atletismo, que recolheu dinheiro de empresas para custear a viagem dos nove atletas, que foram de navio de Santos a Cherbourg, já na França, de onde seguiriam de trem até Paris, onde se encontrariam com os dois remadores, os cariocas Carlos e Edmundo Castello Branco. Os remadores, inclusive, foram os mais bem sucedidos, chegando em quarto na prova dos double sculls, dentre cinco duplas participantes. Esgotados pela viagem de quase um mês, os nove paulistas pouco puderam fazer, sendo todos eliminados nas provas de classificação. Até mesmo Alfredo Gomes, primeiro campeão da São Silvestre, abandonou a prova do cross country no meio, esgotado. Tal performance fez com que o interesse brasileiro nas Olimpíadas diminuísse, ao ponto de sequer ser cogitada a participação do Brasil nos Jogos de 1928. O país só viria a enviar representantes novamente em 1932.

Ao final dos Jogos, o Barão de Coubertin, então com 61 anos e já cansado das dificuldades olímpicas, anunciou sua aposentadoria, algo que já vinha confidenciando a amigos. O suíço Godefroy de Bolay, vice-presidente do COI, acreditou que seria ele o sucessor ao cargo. Como seu último ato, porém, o Barão nomeou presidente do COI o conde belga Henri de Baillet-Latour. Latour, grande amigo do Barão, na verdade seria um testa-de-ferro. Através dele o barão continuaria mandando no COI, embora sem aparecer, até sua morte.

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