Hoje é um dia muito especial para os amantes do automobilismo. Para começar, acabou de ser disputado o GP de Mônaco, que, se não fosse realizado nas ruas de Monte Carlo, com direito a um túnel, talvez fosse a corrida mais chata do mundo, mas por ser o único circuito verdadeiramente de rua que sobrou, acaba sendo um dos mais aguardados pelos fãs. Além do GP de Mônaco, logo mais teremos outra grande prova: a nonagésima edição das 500 Milhas de Indianápolis, uma das mais importantes provas do automobilismo mundial. Eu, como apreciador do mundo da velocidade, já reservei meu lugar em frente à televisão, e durante um pouco mais de quatro horas me dedicarei a ver um monte de monopostos coloridos correrem em círculos uns atrás dos outros. Estarei torcendo pelos brasileiros, claro, mas não escondo que também ficarei bastante satisfeito se a norte-americana Danica Patrick levantar o troféu. Nada faz mais bem ao esporte que um ineditismo de vez em quando.O autódromo onde a corrida se desenrola, chamado Indianapolis Motor Speedway, é considerado por alguns fãs como o templo máximo do automobilismo, recebendo apelidos humildes como The Greatest Race Course in the World ("o melhor circuito do mundo") e Racing Capital of the World ("a capital mundial das corridas"). Como ele fica nos Estados Unidos, é fácil de descobrir o porquê. Mas, exageros e brincadeiras à parte, Indianápolis merece respeito: foi o primeiro autódromo construído no mundo, em 1909, uma época onde corridas de automóveis mais pareciam paradas de sete de setembro, e se desenrolavam nas ruas das cidades ou em estradas, como alguns ralis de hoje em dia. Era uma época tão diferente que a pista sequer era pavimentada, mas formada por mais de três milhões de tijolos, o que lhe valeu o apelido de The Brickyard (algo como "o jardim dos tijolos"). Na época da pavimentação, em 1961, o asfalto foi aplicado sobre estes tijolos, que estão lá preservados até hoje, e uma pequena faixa deles foi mantida na linha de chegada, o que dá ao circuito um charme todo especial. Embora eu não saiba como os carros não se desgovernam por passar sobre uma faixa de tijolos em alta velocidade.
O Indianapolis Motor Speedway já abrigou muitas corridas diferentes, inclusive sendo a sede, desde 2000, do GP dos EUA de Fórmula 1. Mas a corrida que o tornou mundialmente conhecido foi as 500 Milhas de Indianápolis, apelidadas em inglês de Indy 500. Para esta corrida é utilizado o circuito principal, em formato elíptico, conhecido no meio como "oval", com quatro curvas para a esquerda, e um total de 2,5 milhas (um pouquinho mais de 4 Km) de extensão. O autódromo ainda conta com circuitos auxiliares localizados no interior do oval, como o da Fórmula 1, que compartilha com ele uma reta e uma curva. A corrida das 500 Milhas consiste em 200 voltas em torno do oval, e dura entre três e quatro horas, ao fim das quais o vencedor terá dirigido por 804,672 Km.
A primeira edição das 500 Milhas foi disputada em 1911, no dia do Memorial Day, um feriado norte-americano quando se homenageiam os mortos nas guerras das quais os EUA participaram. Como o Memorial Day cai numa segunda-feira (a última de maio), e corridas de automóvel tradicionalmente são realizadas aos domingos, esta tradição foi mantida em parte, sendo as 500 Milhas todo ano realizadas no domingo imediatamente anterior ao feriado. As 500 Milhas são a corrida mais antiga ainda disputada no mundo, e desde 1911 só não foram disputadas seis vezes, em 1917, 1918, 1942, 1943, 1944 e 1945, por causa da Primeira e Segunda Guerras Mundiais. Por este motivo, apesar da corrida já ter 95 anos, a deste ano será a 90a edição. As 500 Milhas também são o evento esportivo mais assistido do planeta, com uma estimativa de que pelo menos 320 milhões de pessoas estarão de olho na corrida deste ano, seja pessoalmente ou pela televisão.
Na época em que a prova começou a ser disputada, não havia campeonatos como os de hoje em dia, que seriam muito caros. As corridas eram disputadas separadamente, com as equipes construindo seus carros e inscrevendo seus pilotos individualmente para cada prova. Nas duas primeiras edições do evento todos os participantes eram norte-americanos, com os pilotos e equipes européias só começando a se interessar pelo evento a partir de 1913. O primeiro vencedor das 500 Milhas foi Ray Harroun, de 32 anos, que inventou o espelho retrovisor especificamente para competir na prova. Isto causou protestos de vários competidores, que tinham que virar a cabeça para trás se quisessem saber quem estava vindo, mas o espelho acabou sendo considerado legal, e se alastrando não somente para as demais categorias do automobilismo como também para os carros de passeio. O primeiro estrangeiro a vencer a corrida foi o francês Jules Goux, dirigindo um Peugeot, em 1913, feito que seria repetido por seu compatriota René Thomas no ano seguinte, e pelo inglês Dario Resta em 1916. Curiosidade: Gaston Chevrolet, o norte-americano dono da fábrica de carros que levava seu nome, também foi campeão em Indianápolis, em 1920.
Após Resta, os europeus, prejudicados pela Primeira Guerra Mundial, se afastariam do evento, fazendo com que, por mais de vinte anos, todos os pilotos e equipes das 500 Milhas fossem novamente norte-americanos. Quando os campeonatos de automobilismo começaram a surgir, a AAA (American Automobile Association, Associação Americana de Automobilismo) assumiu a organização da prova, incluindo-a no campeonato norte-americano de automobilismo. As 500 Milhas, porém, eram uma corrida sui generis, pois qualquer equipe que tivesse um piloto disposto a participar da corrida poderia inscrevê-lo, mesmo que ele não participasse do campeonato regular. Durante esta época, Indianápolis viu seu primeiro bicampeão, Tommy Milton, em 1921 e 1923; seu primeiro tricampeão, Louis Meyer, em 1928, 1933 e 1936; e o primeiro piloto a ganhar duas edições seguidas, Wilbur Shaw, em 1939 e 1940. Shaw, que também havia ganhado o título em 1937, foi o primeiro beneficiado pelo retorno das equipes européias à corrida em 1939, ganhando seus dois títulos consecutivos a bordo de uma Maseratti.
Em 1950 foi disputado o primeiro Campeonato Mundial de Fórmula 1, uma categoria criada pela Federação Internacional de Automobilismo para ser seu campeonato mais importante, algo como a Copa do Mundo do automobilismo. A corrida de Indianápolis já era mundialmente famosa nesta época, de forma que a FIA manifestou seu desejo de que as 500 Milhas fizessem parte do calendário. A prova realmente foi incluída, mas manteve sua característica, ou seja, mesmo pilotos que não estivessem disputando o campeonato de Fórmula 1 poderiam disputá-la. Isto fez com que apenas um piloto da Fórmula 1 se interessasse por disputar a prova, o italino Alberto Ascari, piloto da Ferrari, em 1952, que abandonou após 40 voltas. Ascari, aliás, foi o único piloto europeu a disputar as 500 Milhas enquanto elas fizeram parte do calendário da Fórmula 1. Vendo que seus pilotos e equipes não se interessavam por disputar a prova de Indianápolis, a FIA a retirou do calendário da Fórmula 1 após onze edições (entre 1950 e 1960). Enquanto Indianápolis fazia parte da Fórmula 1, o controle da prova e do campeonato norte-americano passou da AAA, que se retirou da organização de torneios, para o USAC (United States Auto Club) em 1956.
Ironicamente, após a retirada do circuito do calendário, muitos pilotos e ex-pilotos da Fórmula 1 passaram a se interessar por disputá-la de forma independente. O primeiro foi o australiano Jack Brabham, que pilotou um Cooper modifcado em 1961. Colin Chapman, o dono da equipe Lotus, atraído pelos vultosos prêmios em dinheiro, começou a inscrever seus carros e pilotos em 1963, o que faz com que o escocês Jim Clark se tornasse, em 1965, o primeiro europeu a vencer a corrida desde Resta, 49 anos antes. No ano seguinte o inglês Graham Hill se tornaria o único homem até hoje a conquistar a Tríplice Coroa do Automobilismo, vencendo as 500 Milhas de Indianápolis, as 24 Horas de Le Mans e o Grande Prêmio de Mônaco de Fórmula 1. O sucesso dos pilotos de Fórmula 1 nas 500 Milhas levou a um efeito colateral curioso: na Europa da época, os carros de corrida tinham o motor atrás, enquanto nos EUA o motor ficava na frente. Depois da vitória de Hill, todos os carros competindo em Indianápolis passaram a ter o motor atrás.Após as vitórias de Clark e Hill, muitos europeus voltariam a competir nas 500 Milhas, embora nenhum deles se tornando vencedor. Indianápolis teria, porém, seu primeiro tetracampeão, o norte-americano A.J. Foyt, vencedor em 1961, 1964, 1967 e 1977. Em 1978 o controle da prova mudaria de mãos novamente: insatisfeitos com o USAC, donos de equipes e pilotos se reuniram e fundaram a CART (Championship Auto Racing Teams, algo como "equipes de corridas de automóveis para campeonatos"), que, a partir de 1980, organizaria as 500 Milhas e o campeonato norte-americano, renomeado para Fórmula Indy (Indy, como vocês devem ter notado, vem justamente de Indianápolis). Sob a organização da CART, a Fórmula Indy se tornaria muito mais internacional, com a maioria dos pilotos sendo estrangeiros, e provas em países como Canadá e Austrália. As 500 Milhas, como sempre, aceitariam pilotos e equipes independentes, que não estivessem disputando o campeonato regular de Fórmula Indy.
Foi na época da Fórmula Indy que as 500 Milhas tiveram mais uma vez um estrangeiro vencedor, o brasileiro Emerson Fittipaldi, primeiro em 1989, e depois se tornando o primeiro não-americano bicampeão da prova, em 1993. Entre estes dois títulos, o holandês Arie Luyendyk se tornaria, em 1990, o primeiro europeu a ganhar a prova desde Hill. Outro estrangeiro, o canadense Jacques Villeneuve, seria o vencedor em 1995.
Tanta internacionalização acabou irritando Tony George, o atual dono do circuito (que, como quase tudo nos EUA, é particular). Achando que a Fórmula Indy estava ficando muito mais parecida com a Fórmula 1 do que com o campeonato norte-americano que ela deveria substituir, ele decidiu por não renovar o contrato com a CART, e criar sua própria categoria, a Indy Racing League, ou IRL, que teria sua primeira temporada em 1996, e cuja estrela máxima, obviamente, seriam as 500 Milhas. Como sempre, a corrida aceitaria pilotos que não participassem do campeonato regular da IRL, mas, para evitar uma invasão de pilotos da CART, George criou a regra do 25/8: dos 33 pilotos que largam em Indianápolis, apenas oito podem ser de fora da IRL. Em outras palavras, mesmo que muitos pilotos que não competem na IRL se qualifiquem para a prova, apenas os oito melhores estarão no grid de largada, acompanhados por 25 pilotos da IRL.
Mas a ironia gosta de visitar Indianápolis, e desde que George criou a IRL, apenas três norte-americanos ganharam a corrida: Buddy Lazier em 1996, Eddie Cheever Jr. em 1998 e Buddy Rice em 2004. Arie Luyendyk se tornou o primeiro europeu bicampeão ao conquistá-la em 1997, Hélio Castroneves o segundo brasileiro bicampeão ao vencê-la em 2001 e 2002, e Gil de Ferran foi o terceiro brasileiro a conquistar a prova, em 2003. As demais edições foram vencidas pelo sueco Kenny Bräck em 1999, pelo colombiano Juan Pablo Montoya em 2000, e pelo inglês Dan Wheldon no ano passado.
No total, de 89 provas disputadas, 73 foram vencidas por pilotos norte-americanos. O Brasil é o segundo em número de vitórias, com cinco, seguido da Grã-Bretanha com quatro e da França e Holanda com duas cada. A corrida já teve três tetracampeões (A.J. Foyt, Al Unser e Rick Mears), cinco tricampeões (Louis Meyer, Wilbur Shaw, Mauri Rose, Bobby Unser e Johnny Rutherford) e oito bicampeões (Tommy Milton, Bill Vulkovich, Rodger Ward, Gordon Johncock, Emerson Fittipaldi, Arie Luyendyk, Al Unser Jr. e Hélio Castroneves). Castroneves, logo mais, pode se tornar o primeiro estrangeiro tricampeão da prova.
Sendo uma corrida tão antiga, as 500 Milhas têm uma série de tradições, respeitadas anualmente. Para começar, a qualificação é disputada em duas sessões durante o mês de maio, e não apenas no dia anterior à corrida, como de costume. O grid de largada em Indianápolis é composto por 33 carros, alinhados em 11 filas de três, e não de dois, como o usual no automobilismo. Os pilotos são posicionados no grid de acordo com a média da velocidade que alcançaram durante suas quatro voltas oficiais de qualificação, do mais veloz para o mais lento. Na sexta-feira anterior à prova, é feita uma festa beneficente na qual são homenageados os três últimos do grid de largada, conhecida como Last Row Party (a "festa da última fila").
No dia da prova ocorre uma grande festa, com um desfile de bandas, exibição de acrobacias aéreas, execução ao vivo das canções God Bless America, Back Home Again in Indiana ("novamente de volta para casa em Indiana") e do hino nacional norte-americano, e a soltura de milhares de balões coloridos. A última coisa antes da corrida começar é o famoso chamado "Gentlemen, start your engines" ("cavalheiros, liguem seus motores"). Quando mulheres estão presentes dentre os pilotos, o chamado, evidentemente, é alterado para "Lady (ou ladies) and gentlemen, start your engines". Até hoje, apenas quatro mulheres já disputaram a prova, todas norte-americanas: Janet Guthrie em 1977, 1978 e 1979; Lyn St. James em 1992, 1993, 1994, 1995, 1996, 1997 e 2000; Sarah Fisher em 2000 e 2004; e Danica Patrick em 2005 e este ano. Patrick, inclusive, é a única mulher a já ter liderado a prova, a que largou melhor (4a posição) e a que terminou na melhor posição (também 4o lugar).
Após a corrida, o vencedor tradicionalmente bebe um gole de leite direto de uma garrafa de vidro, tradição que começou em 1936 com Louis Meyer, e foi incorporada de vez depois que fabricantes de leite começaram a patrocinar o evento. O troféu da prova fica a cada ano maior, já que possui uma pequena representação do rosto de cada vencedor, sua velocidade média na prova e a data de sua vitória. O troféu deste ano, portanto, terá noventa cabecinhas em volta. Este troféu fica exposto no Motor Speedway, e o vencedor leva para casa uma pequena réplica, além do Pace Car (o carro que entra na pista quando há algum acidente e serve para limitar a velocidade dos competidores), e de um prêmio de um milhão de dólares. Falando em Pace Car, não é raro que alguma celebridade, como um ator de Hollywood ou atleta de renome, seja chamado para pilotá-lo durante a prova.
Enfim, as 500 Milhas são um acontecimento gigantesco, ao qual um fã do esporte e da velocidade como eu não pode ficar impassível. Portanto, com licença, vou ver carrinhos coloridos correndo uns atrás dos outros. Em círculos.
Há algumas semanas, minha coleção de Alice ganhou um novo item, um livro que, desde a primeira vez que vi, achei extremamente curioso: Alice: Edição Comentada, com notas de Martin Gardner, um dos maiores especialistas mundiais em Lewis Carroll - o autor de Alice, para quem não sabe. Publicado no Brasil pela Jorge Zahar Editor, o livro é um tijolinho de 303 páginas, que reúne País das Maravilhas e Através do Espelho, ambos retraduzidos e com ilustrações originais de John Tenniel, mais um episódio inédito do Espelho, rascunhos de Tenniel, e duas enormes listas, uma de tudo o que Carroll escreveu e tudo o que escreveram sobre Carroll; e outra com todas as adaptações já feitas de Alice para outros meios, como cinema e TV. Fora as listas e os rascunhos, todo o resto é extensamente comentado por Gardner, com explicações sobre porque certas passagens do livro são daquele jeito, versões originais dos poemas satirizados por Carroll, explicações de trocadilhos e piadas que já se perderam no tempo, e muito mais. Dá um trabalhão para ler, mas fica muito mais "com pé e cabeça", e ainda ajuda a afastar rumores como "Alice morreu e o País das Maravilhas é o inferno", tão comuns entre os que procuram inventar explicações para a história.
No geral, o livro é tão nonsense quanto o País das Maravilhas. Algumas passagens são mais coesas, em outras as coisas simplesmente mudam sem nenhuma explicação (como o trem que some quando Alice chega ao seu destino). Além das peças de xadrez, Alice também se encontra com personagens clássicos de histórias infantis da época, como os gêmeos Tweedledee e Tweedledum, o ovo gigante Humpty Dumpty, e até mesmo o Leão e o Unicórnio que ladeiam o brasão da Grã-Bretanha. O texto mais uma vez é permeado de poemas que satirizam obras famosas da época, e traz uma das obras-primas de Carroll, o Pargarávio (Jabberwocky no original), o poema mais nonsense da História, ainda assim com métrica e rima perfeitas. Falando em Carroll, um dos personagens da história, o Cavaleiro Branco, parece ter sido inspirado nele mesmo, com todos os seus maneirismos e sua tristeza por ter de abandonar Alice quando a história acaba. O livro também foi ilustrado por Tenniel, e um de seus capítulos, O Marimbondo de Peruca, foi suprimido a pedido do artista, que alegou ser incapaz de desenhar um marimbondo de peruca. No fim, Alice descobre que mais uma vez fora tudo um sonho, mas o livro deixa uma dúvida metafísica no ar: durante suas aventuras, Alice se encontra com o Rei Vermelho, que passa a história toda dormindo e sonhando com ela. No final do livro, era tudo um sonho, mas de quem? De Alice, ou do Rei Vermelho?
Desde a fundação do Comitê Olímpico Internacional, em 1894, havia planos para que os esportes chamados "de inverno" - aqueles disputados sobre neve ou gelo - fizessem parte dos Jogos Olímpicos. Como estes esportes dependiam de condições meteorológicas favoráveis, e o Barão de Coubertin não estava disposto a espichar os Jogos até que a temperatura começasse a cair, esportes de inverno só fizeram parte do programa olímpico em duas edições: em 1908, com a patinação artística no gelo, e em 1920, com a patinação artística no gelo e o hóquei no gelo.
Além do time de hóquei no gelo do Canadá, o único atleta a repetir em 1924 seu triunfo em 1920 foi o sueco Gillis Grafström, da patinação artística. A norueguesa Sonja Henie, também da patinação artística, de apenas 11 anos, também entrou para a história dos Jogos. Quando competiu, ela ficou em último, mas foi considerada a preferida do público, e nos anos seguintes ganharia três ouros olímpicos e um campeonato mundial.
Por volta de 1920, o Comitê Olímpico Internacional já era uma organização forte, com 58 membros representando 42 países. Mesmo com esta boa representatividade, muita gente não levava fé em que os Jogos de 1920 pudessem ser realizados, devido à proximidade com a Primeira Guerra Mundial. Como vocês puderam ler semana passada, porém, os Jogos de Antuérpia foram muito bem sucedidos, o que motivou o COI a realizar uma reunião histórica em 1921. Nela, além de escolher a sede dos Jogos de 1924 e 1928, com uma até então inédita antecedência, seriam tomadas outras decisões importantíssimas, a maior delas a elaboração do Regulamento Geral do COI, um verdadeiro "manual de instruções" dos Jogos Olímpicos. Um dos pontos cruciais deste Regulamento era a definição do que seria um atleta amador, e a responsabilização dos Comitês Olímpicos Nacionais caso algum atleta fosse descoberto como profissional durante ou após os jogos, visando impedir que surgisse um novo Jim Thorpe. O Regulamento ainda assegurou a participação das mulheres nas Olimpíadas, embora de maneira algo machista, prevendo que competia ao COI definir de quais provas as moças poderiam participar; e estabeleceu os limites de quatro competidores de cada nação em provas individuais e de apenas um time de cada nação no caso de esportes coletivos. Nesta reunião ainda foram criados e definidos os Jogos Olímpicos de Inverno, que você pode ver aqui em cima.
A maioria das "bagunças olímpicas" desta edição dos Jogos foi causada pelo já citado exacerbado patriotismo francês: na final do rugby, após perder para os Estados Unidos, a plateia enfurecida não permitiu o hasteamento da bandeira nem a execução do hino americano; no tênis, a britânica Kitty McKane vencia a francesa Didi Vlasto por 6-0 e 3-0, quando uma pressão descomunal sobre o árbitro a deixou nervosa, e permitiu que Vlasto virasse e ganhasse o jogo; e no boxe, o britânico Henry Mallin, campeão em 1920 e um dos melhores peso-médios da história, quase foi tirado do torneio pelo desconhecido francês Roger Brouss, que lutou deslealmente e chegou a lhe dar uma mordida no peito. O árbitro, um belga, chegou a declarar Brouss vencedor, mas diante de um estardalhaço da torcida e da intervenção de um nobre sueco, voltou atrás e o desclassificou. Mallin acabaria por seguir na competição e ganhar o ouro.
Além de defensor obstinado do esporte, o Barão de Coubertin também era um sonhador. Em 1912, após as Olimpíadas de Estocolmo, uma guerra de proporções jamais vistas parecia cada vez mais próxima, e várias nações, como o Reino Unido, França e Alemanha, já começavam a preparar seus exércitos para o pior. Ainda assim, o Barão escolheu Berlim para sede dos Jogos de 1916, pois imaginava que a mobilização para a realização de uma Olimpíada acalmaria os ânimos dos europeus, diminuindo as possibilidades de instauração de um conflito armado.
A Itália também fez bonito, ganhando 13 ouros, cinco deles na esgrima, com Nedo Nadi; e a Grã-Bretanha se tornaria tricampeã olímpica do pólo aquático, mesmo após uma final conturbada contra a Bélgica. Mas a história mais curiosa envolveu a delegação dos EUA: com pouco dinheiro, os dirigentes alugaram um cargueiro, que havia servido para transportar os caixões dos mortos na Guerra, para levar os atletas até a Bélgica. Viajando em condições deploráveis, ao fazer uma escala na Islândia muitos deles se amotinaram e abandonaram o navio. Viajando de favor, os amotinados ainda conseguiriam chegar a Antuérpia em 14 de agosto, e mesmo com tantas condições adversas, os EUA mais uma vez ganhariam mais medalhas que seus oponentes, um total de 96, sendo 41 de ouro, mais que o dobro da Suécia, "segunda colocada" não-oficial. De todas estas vitórias, a mais suada foi a do rugby: sem apoio dos dirigentes, uns poucos jogadores que desejavam ir aos Jogos decidiram bancar suas próprias viagens, na esperança de formar um time durante a viagem. Acabou que vários atletas de outras modalidades se uniram a eles para completar o mínimo necessário. Por sorte, além dos EUA só a França se inscreveu, e os norte-americanos ganharam o ouro com uma única vitória. Também merecem menção os dois ouros do remador Jack Kelly, que dali a 9 anos viria a se tornar pai da atriz e Princesa de Mônaco Grace Kelly.