domingo, 28 de maio de 2006

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500 Milhas de Indianápolis

Gentlemen, start your engines!Hoje é um dia muito especial para os amantes do automobilismo. Para começar, acabou de ser disputado o GP de Mônaco, que, se não fosse realizado nas ruas de Monte Carlo, com direito a um túnel, talvez fosse a corrida mais chata do mundo, mas por ser o único circuito verdadeiramente de rua que sobrou, acaba sendo um dos mais aguardados pelos fãs. Além do GP de Mônaco, logo mais teremos outra grande prova: a nonagésima edição das 500 Milhas de Indianápolis, uma das mais importantes provas do automobilismo mundial. Eu, como apreciador do mundo da velocidade, já reservei meu lugar em frente à televisão, e durante um pouco mais de quatro horas me dedicarei a ver um monte de monopostos coloridos correrem em círculos uns atrás dos outros. Estarei torcendo pelos brasileiros, claro, mas não escondo que também ficarei bastante satisfeito se a norte-americana Danica Patrick levantar o troféu. Nada faz mais bem ao esporte que um ineditismo de vez em quando.

O autódromo onde a corrida se desenrola, chamado Indianapolis Motor Speedway, é considerado por alguns fãs como o templo máximo do automobilismo, recebendo apelidos humildes como The Greatest Race Course in the World ("o melhor circuito do mundo") e Racing Capital of the World ("a capital mundial das corridas"). Como ele fica nos Estados Unidos, é fácil de descobrir o porquê. Mas, exageros e brincadeiras à parte, Indianápolis merece respeito: foi o primeiro autódromo construído no mundo, em 1909, uma época onde corridas de automóveis mais pareciam paradas de sete de setembro, e se desenrolavam nas ruas das cidades ou em estradas, como alguns ralis de hoje em dia. Era uma época tão diferente que a pista sequer era pavimentada, mas formada por mais de três milhões de tijolos, o que lhe valeu o apelido de The Brickyard (algo como "o jardim dos tijolos"). Na época da pavimentação, em 1961, o asfalto foi aplicado sobre estes tijolos, que estão lá preservados até hoje, e uma pequena faixa deles foi mantida na linha de chegada, o que dá ao circuito um charme todo especial. Embora eu não saiba como os carros não se desgovernam por passar sobre uma faixa de tijolos em alta velocidade.

O Indianapolis Motor Speedway já abrigou muitas corridas diferentes, inclusive sendo a sede, desde 2000, do GP dos EUA de Fórmula 1. Mas a corrida que o tornou mundialmente conhecido foi as 500 Milhas de Indianápolis, apelidadas em inglês de Indy 500. Para esta corrida é utilizado o circuito principal, em formato elíptico, conhecido no meio como "oval", com quatro curvas para a esquerda, e um total de 2,5 milhas (um pouquinho mais de 4 Km) de extensão. O autódromo ainda conta com circuitos auxiliares localizados no interior do oval, como o da Fórmula 1, que compartilha com ele uma reta e uma curva. A corrida das 500 Milhas consiste em 200 voltas em torno do oval, e dura entre três e quatro horas, ao fim das quais o vencedor terá dirigido por 804,672 Km.

A primeira edição das 500 Milhas foi disputada em 1911, no dia do Memorial Day, um feriado norte-americano quando se homenageiam os mortos nas guerras das quais os EUA participaram. Como o Memorial Day cai numa segunda-feira (a última de maio), e corridas de automóvel tradicionalmente são realizadas aos domingos, esta tradição foi mantida em parte, sendo as 500 Milhas todo ano realizadas no domingo imediatamente anterior ao feriado. As 500 Milhas são a corrida mais antiga ainda disputada no mundo, e desde 1911 só não foram disputadas seis vezes, em 1917, 1918, 1942, 1943, 1944 e 1945, por causa da Primeira e Segunda Guerras Mundiais. Por este motivo, apesar da corrida já ter 95 anos, a deste ano será a 90a edição. As 500 Milhas também são o evento esportivo mais assistido do planeta, com uma estimativa de que pelo menos 320 milhões de pessoas estarão de olho na corrida deste ano, seja pessoalmente ou pela televisão.

Na época em que a prova começou a ser disputada, não havia campeonatos como os de hoje em dia, que seriam muito caros. As corridas eram disputadas separadamente, com as equipes construindo seus carros e inscrevendo seus pilotos individualmente para cada prova. Nas duas primeiras edições do evento todos os participantes eram norte-americanos, com os pilotos e equipes européias só começando a se interessar pelo evento a partir de 1913. O primeiro vencedor das 500 Milhas foi Ray Harroun, de 32 anos, que inventou o espelho retrovisor especificamente para competir na prova. Isto causou protestos de vários competidores, que tinham que virar a cabeça para trás se quisessem saber quem estava vindo, mas o espelho acabou sendo considerado legal, e se alastrando não somente para as demais categorias do automobilismo como também para os carros de passeio. O primeiro estrangeiro a vencer a corrida foi o francês Jules Goux, dirigindo um Peugeot, em 1913, feito que seria repetido por seu compatriota René Thomas no ano seguinte, e pelo inglês Dario Resta em 1916. Curiosidade: Gaston Chevrolet, o norte-americano dono da fábrica de carros que levava seu nome, também foi campeão em Indianápolis, em 1920.

Após Resta, os europeus, prejudicados pela Primeira Guerra Mundial, se afastariam do evento, fazendo com que, por mais de vinte anos, todos os pilotos e equipes das 500 Milhas fossem novamente norte-americanos. Quando os campeonatos de automobilismo começaram a surgir, a AAA (American Automobile Association, Associação Americana de Automobilismo) assumiu a organização da prova, incluindo-a no campeonato norte-americano de automobilismo. As 500 Milhas, porém, eram uma corrida sui generis, pois qualquer equipe que tivesse um piloto disposto a participar da corrida poderia inscrevê-lo, mesmo que ele não participasse do campeonato regular. Durante esta época, Indianápolis viu seu primeiro bicampeão, Tommy Milton, em 1921 e 1923; seu primeiro tricampeão, Louis Meyer, em 1928, 1933 e 1936; e o primeiro piloto a ganhar duas edições seguidas, Wilbur Shaw, em 1939 e 1940. Shaw, que também havia ganhado o título em 1937, foi o primeiro beneficiado pelo retorno das equipes européias à corrida em 1939, ganhando seus dois títulos consecutivos a bordo de uma Maseratti.

Em 1950 foi disputado o primeiro Campeonato Mundial de Fórmula 1, uma categoria criada pela Federação Internacional de Automobilismo para ser seu campeonato mais importante, algo como a Copa do Mundo do automobilismo. A corrida de Indianápolis já era mundialmente famosa nesta época, de forma que a FIA manifestou seu desejo de que as 500 Milhas fizessem parte do calendário. A prova realmente foi incluída, mas manteve sua característica, ou seja, mesmo pilotos que não estivessem disputando o campeonato de Fórmula 1 poderiam disputá-la. Isto fez com que apenas um piloto da Fórmula 1 se interessasse por disputar a prova, o italino Alberto Ascari, piloto da Ferrari, em 1952, que abandonou após 40 voltas. Ascari, aliás, foi o único piloto europeu a disputar as 500 Milhas enquanto elas fizeram parte do calendário da Fórmula 1. Vendo que seus pilotos e equipes não se interessavam por disputar a prova de Indianápolis, a FIA a retirou do calendário da Fórmula 1 após onze edições (entre 1950 e 1960). Enquanto Indianápolis fazia parte da Fórmula 1, o controle da prova e do campeonato norte-americano passou da AAA, que se retirou da organização de torneios, para o USAC (United States Auto Club) em 1956.

Indianapolis Motor SpeedwayIronicamente, após a retirada do circuito do calendário, muitos pilotos e ex-pilotos da Fórmula 1 passaram a se interessar por disputá-la de forma independente. O primeiro foi o australiano Jack Brabham, que pilotou um Cooper modifcado em 1961. Colin Chapman, o dono da equipe Lotus, atraído pelos vultosos prêmios em dinheiro, começou a inscrever seus carros e pilotos em 1963, o que faz com que o escocês Jim Clark se tornasse, em 1965, o primeiro europeu a vencer a corrida desde Resta, 49 anos antes. No ano seguinte o inglês Graham Hill se tornaria o único homem até hoje a conquistar a Tríplice Coroa do Automobilismo, vencendo as 500 Milhas de Indianápolis, as 24 Horas de Le Mans e o Grande Prêmio de Mônaco de Fórmula 1. O sucesso dos pilotos de Fórmula 1 nas 500 Milhas levou a um efeito colateral curioso: na Europa da época, os carros de corrida tinham o motor atrás, enquanto nos EUA o motor ficava na frente. Depois da vitória de Hill, todos os carros competindo em Indianápolis passaram a ter o motor atrás.

Após as vitórias de Clark e Hill, muitos europeus voltariam a competir nas 500 Milhas, embora nenhum deles se tornando vencedor. Indianápolis teria, porém, seu primeiro tetracampeão, o norte-americano A.J. Foyt, vencedor em 1961, 1964, 1967 e 1977. Em 1978 o controle da prova mudaria de mãos novamente: insatisfeitos com o USAC, donos de equipes e pilotos se reuniram e fundaram a CART (Championship Auto Racing Teams, algo como "equipes de corridas de automóveis para campeonatos"), que, a partir de 1980, organizaria as 500 Milhas e o campeonato norte-americano, renomeado para Fórmula Indy (Indy, como vocês devem ter notado, vem justamente de Indianápolis). Sob a organização da CART, a Fórmula Indy se tornaria muito mais internacional, com a maioria dos pilotos sendo estrangeiros, e provas em países como Canadá e Austrália. As 500 Milhas, como sempre, aceitariam pilotos e equipes independentes, que não estivessem disputando o campeonato regular de Fórmula Indy.

Foi na época da Fórmula Indy que as 500 Milhas tiveram mais uma vez um estrangeiro vencedor, o brasileiro Emerson Fittipaldi, primeiro em 1989, e depois se tornando o primeiro não-americano bicampeão da prova, em 1993. Entre estes dois títulos, o holandês Arie Luyendyk se tornaria, em 1990, o primeiro europeu a ganhar a prova desde Hill. Outro estrangeiro, o canadense Jacques Villeneuve, seria o vencedor em 1995.

Tanta internacionalização acabou irritando Tony George, o atual dono do circuito (que, como quase tudo nos EUA, é particular). Achando que a Fórmula Indy estava ficando muito mais parecida com a Fórmula 1 do que com o campeonato norte-americano que ela deveria substituir, ele decidiu por não renovar o contrato com a CART, e criar sua própria categoria, a Indy Racing League, ou IRL, que teria sua primeira temporada em 1996, e cuja estrela máxima, obviamente, seriam as 500 Milhas. Como sempre, a corrida aceitaria pilotos que não participassem do campeonato regular da IRL, mas, para evitar uma invasão de pilotos da CART, George criou a regra do 25/8: dos 33 pilotos que largam em Indianápolis, apenas oito podem ser de fora da IRL. Em outras palavras, mesmo que muitos pilotos que não competem na IRL se qualifiquem para a prova, apenas os oito melhores estarão no grid de largada, acompanhados por 25 pilotos da IRL.

Mas a ironia gosta de visitar Indianápolis, e desde que George criou a IRL, apenas três norte-americanos ganharam a corrida: Buddy Lazier em 1996, Eddie Cheever Jr. em 1998 e Buddy Rice em 2004. Arie Luyendyk se tornou o primeiro europeu bicampeão ao conquistá-la em 1997, Hélio Castroneves o segundo brasileiro bicampeão ao vencê-la em 2001 e 2002, e Gil de Ferran foi o terceiro brasileiro a conquistar a prova, em 2003. As demais edições foram vencidas pelo sueco Kenny Bräck em 1999, pelo colombiano Juan Pablo Montoya em 2000, e pelo inglês Dan Wheldon no ano passado.

No total, de 89 provas disputadas, 73 foram vencidas por pilotos norte-americanos. O Brasil é o segundo em número de vitórias, com cinco, seguido da Grã-Bretanha com quatro e da França e Holanda com duas cada. A corrida já teve três tetracampeões (A.J. Foyt, Al Unser e Rick Mears), cinco tricampeões (Louis Meyer, Wilbur Shaw, Mauri Rose, Bobby Unser e Johnny Rutherford) e oito bicampeões (Tommy Milton, Bill Vulkovich, Rodger Ward, Gordon Johncock, Emerson Fittipaldi, Arie Luyendyk, Al Unser Jr. e Hélio Castroneves). Castroneves, logo mais, pode se tornar o primeiro estrangeiro tricampeão da prova.

Sendo uma corrida tão antiga, as 500 Milhas têm uma série de tradições, respeitadas anualmente. Para começar, a qualificação é disputada em duas sessões durante o mês de maio, e não apenas no dia anterior à corrida, como de costume. O grid de largada em Indianápolis é composto por 33 carros, alinhados em 11 filas de três, e não de dois, como o usual no automobilismo. Os pilotos são posicionados no grid de acordo com a média da velocidade que alcançaram durante suas quatro voltas oficiais de qualificação, do mais veloz para o mais lento. Na sexta-feira anterior à prova, é feita uma festa beneficente na qual são homenageados os três últimos do grid de largada, conhecida como Last Row Party (a "festa da última fila").

No dia da prova ocorre uma grande festa, com um desfile de bandas, exibição de acrobacias aéreas, execução ao vivo das canções God Bless America, Back Home Again in Indiana ("novamente de volta para casa em Indiana") e do hino nacional norte-americano, e a soltura de milhares de balões coloridos. A última coisa antes da corrida começar é o famoso chamado "Gentlemen, start your engines" ("cavalheiros, liguem seus motores"). Quando mulheres estão presentes dentre os pilotos, o chamado, evidentemente, é alterado para "Lady (ou ladies) and gentlemen, start your engines". Até hoje, apenas quatro mulheres já disputaram a prova, todas norte-americanas: Janet Guthrie em 1977, 1978 e 1979; Lyn St. James em 1992, 1993, 1994, 1995, 1996, 1997 e 2000; Sarah Fisher em 2000 e 2004; e Danica Patrick em 2005 e este ano. Patrick, inclusive, é a única mulher a já ter liderado a prova, a que largou melhor (4a posição) e a que terminou na melhor posição (também 4o lugar).

Após a corrida, o vencedor tradicionalmente bebe um gole de leite direto de uma garrafa de vidro, tradição que começou em 1936 com Louis Meyer, e foi incorporada de vez depois que fabricantes de leite começaram a patrocinar o evento. O troféu da prova fica a cada ano maior, já que possui uma pequena representação do rosto de cada vencedor, sua velocidade média na prova e a data de sua vitória. O troféu deste ano, portanto, terá noventa cabecinhas em volta. Este troféu fica exposto no Motor Speedway, e o vencedor leva para casa uma pequena réplica, além do Pace Car (o carro que entra na pista quando há algum acidente e serve para limitar a velocidade dos competidores), e de um prêmio de um milhão de dólares. Falando em Pace Car, não é raro que alguma celebridade, como um ator de Hollywood ou atleta de renome, seja chamado para pilotá-lo durante a prova.

Enfim, as 500 Milhas são um acontecimento gigantesco, ao qual um fã do esporte e da velocidade como eu não pode ficar impassível. Portanto, com licença, vou ver carrinhos coloridos correndo uns atrás dos outros. Em círculos.
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domingo, 21 de maio de 2006

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Alice

Desde pequeno, eu adoro ler. Comecei com revistinhas da Mônica, passei para aqueles livrinhos infantis de poucas frases por página, dali para os X-Men, então para livros com mais texto que figuras, e não parei mais. Não me lembro quantos anos tinha quando comecei a ler os tais livros que tinham mais textos do que figuras, mas foi cedo. Minha mãe tinha - aliás, tem até hoje - uma coleção do Monteiro Lobato em um monte de volumes; alguns deles são histórias do próprio Lobato, como Reinações de Narizinho e A Chave do Tamanho, outros são traduções feitas por ele de histórias consagradas, como Robin Hood e Alice no País das Maravilhas. Aqui chegamos onde eu queria. Alice foi o segundo livro desta coleção que eu li (ou o terceiro, já que o primeiro foi Os Doze Trabalhos de Hércules, que era em dois volumes) e, apesar de - ou talvez exatamente por - ser totalmente sem pé nem cabeça, imediatamente me apaixonei pela história. Desde então, tudo o que tenha Alice me interessa: li Através do Espelho, assisti ao desenho da Disney, comprei o jogo da Electronic Arts, e estou até disposto a ver o filme que sai no ano que vem, embora sob protesto por Alice ser interpretada por Sarah Michelle Gellar. Já li três traduções diferentes do País das Maravilhas, e uma versão original em inglês que achei na internet, cortesia do Sr. Domínio Público. Minha única frustração em matéria de Alice é que provavelmente eu nunca vou conseguir assistir ao filme de 1933, com Gary Cooper e Cary Grant, mas a esperança é a última que morre.

Alice: Edição ComentadaHá algumas semanas, minha coleção de Alice ganhou um novo item, um livro que, desde a primeira vez que vi, achei extremamente curioso: Alice: Edição Comentada, com notas de Martin Gardner, um dos maiores especialistas mundiais em Lewis Carroll - o autor de Alice, para quem não sabe. Publicado no Brasil pela Jorge Zahar Editor, o livro é um tijolinho de 303 páginas, que reúne País das Maravilhas e Através do Espelho, ambos retraduzidos e com ilustrações originais de John Tenniel, mais um episódio inédito do Espelho, rascunhos de Tenniel, e duas enormes listas, uma de tudo o que Carroll escreveu e tudo o que escreveram sobre Carroll; e outra com todas as adaptações já feitas de Alice para outros meios, como cinema e TV. Fora as listas e os rascunhos, todo o resto é extensamente comentado por Gardner, com explicações sobre porque certas passagens do livro são daquele jeito, versões originais dos poemas satirizados por Carroll, explicações de trocadilhos e piadas que já se perderam no tempo, e muito mais. Dá um trabalhão para ler, mas fica muito mais "com pé e cabeça", e ainda ajuda a afastar rumores como "Alice morreu e o País das Maravilhas é o inferno", tão comuns entre os que procuram inventar explicações para a história.

Em grande parte, a dificuldade em se entender os livros de Alice vem do fato de que eles são um tipo de "piada interna". A menos que se conheça quem foi Lewis Carroll e por que ele decidiu escrever estes livros, o máximo que você pode fazer é entrar na viagem e se conformar por estar lendo nonsense. O post de hoje, mais do que homenagear a minha talvez personagem preferida de ficção, vai tentar jogar um pouco de luz sobre o assunto. Mas sem estragar o trabalho de Gardner; quem quiser que vá comprar um Alice Comentado como eu fui.

O homem que viria a ser conhecido como Lewis Carroll nasceu Charles Lutwidge Dodgson, em 27 de janeiro de 1832 em Cheshire, Inglaterra. Viveu praticamente toda sua vida em Oxford, onde se formou em matemática, e lecionava na faculdade de Christ Church, onde era considerado um professor de aulas sem graça, que chegou a escrever alguns livros com problemas divertidos, mas nenhum especialmente relevante. Anglicano, era extremamente religioso e muito ortodoxo, a não ser pela incapacidade de acreditar na danação eterna. Chegou a ser ordenado diácono, mas raramente pregava, e jamais chegou a ser pastor devido a duas deficiências físicas: era gago e surdo de um ouvido. Inimigo feroz da linguagem indecorosa e de diálogos picantes em peças de teatro, Dodgson era tido como esnobe, mas na verdade era excessivamente tímido, capaz de ficar horas em uma reunião sem proferir uma única palavra. Além disso, era um solteirão convicto, que jamais havia tido sequer uma namorada, rabugento, excêntrico e cheio de manias. Apesar disso tudo, era visto por seus amigos como uma figura gentil, e querido por grande parte da população da cidade.

Além de uns poucos amigos íntimos, Dodgson só se sentia à vontade na companhia de crianças. Mais especificamente, de meninas, já que os meninos ele não suportava e fazia o possível para não ter contato direto com eles. Dodgson adorava contar histórias, charadas, fazer truques de mágica, ensinar jogos e montar brinquedos para as meninas, e sua gagueira sumia quando conversava com elas. Se interessou pela fotografia quando esta arte ainda estava em seu início, apenas para poder tirar fotos de meninas. Se fosse hoje em dia, provavelmente ele seria considerado um pedófilo, mas não há qualquer prova de que Dodgson tenha tido qualquer interesse sexual por qualquer menina de Oxford que tenha convivido com ele. Pelo contrário, todas elas, depois de crescidas, continuaram se lembrando dele com carinho, e hoje já se tem acesso a vários diários de meninas da época que narram suas tardes agradáveis em sua companhia.

Lewis CarrollDodgson tinha muitas amiguinhas, mas uma delas era especial: Alice Liddell, a segunda das cinco filhas de seu amigo Henry George Liddell. De todas as meninas que conheceu na vida, Alice, sem dúvida, foi a que mais o impressionou, ao ponto de muitos acharem que ele se apaixonou por ela. Foi durante um passeio de barco no Rio Tâmisa, em 1862, do qual tomaram parte Dodgson, o reverendo Duckworth, Alice e suas irmãs Edith e Lorina que Alice no País das Maravilhas nasceu. Enquanto passeavam, Dodgson ia contando às irmãs Liddell a história de uma menina chamada Alice que, em tédio, segue um coelho branco através de sua toca, e acaba indo parar em um mundo fantástico, cheio de criaturas incríveis. Alice gostou tanto da história que, ao ser deixada em casa, pediu para que Dodgson escrevesse a história para ela, para que nunca mais a esquecesse. Dodgson havia inventado a história naquela hora, acrescentando mais elementos enquanto passeavam, mas mesmo assim se sentiu obrigado a atender àquele pedido, e ao chegar em casa passou a noite inteira escrevendo, transformado em livro aquela tarde tão agradável. Ao final, acrescentou algumas ilustrações, encadernou toscamente, e no dia seguinte o deu de presente a Alice, com o nome de Alice's Adventures Under Ground ("Aventuras de Alice nos Subterrâneos").

O livro ficou na casa dos Liddell, até ser visto por outro amigo de Dodgson, George MacDonald, que lhe mostrou a seus filhos, que adoraram. Desde que o havia entregue a Alice, Dodgson continuara expandindo a história, que já contava com mais de cem páginas. MacDonald então sugeriu que ele enviasse o livro para publicação, e indicou o artista John Tenniel, cartunista da famosa revista Punch, e que já tinha ilustrado uma das edições das Fábulas de Esopo, para fazer as ilustrações. Dodgson concordou, mas decidiu inventar o pseudônimo de Lewis Carroll, ao invés de publicá-lo sob seu nome original. Especula-se que este nome foi escolhido por ter o mesmo número de letras de Alice Liddell, e letras duplas nas mesmas posições, além de em "Lewis" e "Alice" as vogais e consoantes estarem em posições trocadas. Mas, como nem o próprio Dodgson jamais explicou porque escolheu se chamar Carroll, aparentemente é tudo coincidência.

A primeira edição impressa de Alice's Adventures in Wonderland ("Aventuras de Alice no País das Maravilhas"), o título pelo qual o livro seria conhecido definitivamente, saiu em julho de 1865, com uma tiragem de dois mil exemplares. Carroll e Tenniel não gostaram da qualidade da impressão, mandaram recolher tudo e encomendaram uma nova, que saiu em dezembro de 1865, mas com data de 1866. O livro se tornou uma sensação entre crianças e adultos, se esgotou rapidamente, e novas edições foram encomendadas, uma após a outra. O livro é produzido ininterruptamente até hoje, já tendo tido mais de 100 edições, e já foi traduzido para mais de cinqüenta idiomas. Um exemplar da primeira edição, a rejeitada pelos autores, foi vendido por um milhão e meio de dólares em 1998. Mesmo ainda sem saber deste futuro glorioso, o sucesso do livro fez Carroll abandonar a carreira de matemático, e se dedicar à de escritor de livros infantis. Infelizmente, nenhum de seus livros posteriores foi tão bem sucedido quanto a primeira aventura de Alice.

Alice no País das MaravilhasAlice no País das Maravilhas conta a história de uma menina de sete anos chamada Alice, que estando entediada de sua vida, decide seguir um coelho branco falante através de sua toca, e se vê perdida em um mundo fabuloso, onde os animais falam e se comportam como gente. Carroll não se preocupa com coisas como continuidade ou sentido, e simplesmente conta uma história onde os personagens vão se apresentando e as situações se sucedendo, até um clímax onde Alice descobre que tudo não passara de um sonho. Além do Coelho Branco, Alice também se encontra com o Gato de Cheshire, que está sempre sorrindo e tem o poder mágico de desaparecer; o Chapeleiro Louco e a Lebre de Março, presos em um chá da tarde infinito porque o Chapeleiro brigou com o Tempo e agora seu relógio não anda mais; a Tartaruga Falsa, dona da história mais triste do País das Maravilhas; a Lagarta, que fuma narguilé e fala de forma enigmática; a Duquesa, uma mulher muito feia cuja cozinheira adora pimenta e o filho se transforma em porco; e o Rei e a Rainha de Copas, soberanos do local, com os quais Alice participa de um estranho jogo de croquê e do confuso julgamento do Valete de Copas, acusado de roubar as tortas da Rainha. Aparentemente, a Alice do livro não é Alice Liddell, que era morena, com cabelo curto e uma franjinha, e tinha dez anos na época em que Carroll inventou a história.

Por ter sido escrito especialmente para Alice, o livro é cheio de citações que somente os moradores de Oxford, as irmãs Liddell ou os amigos de Carroll entenderiam. Os poemas que aparecem durante o texto são paródias de poemas e canções da época, muitos hoje esquecidos. Isto faz com que o livro seja considerado por muitos como "sem pé nem cabeça", e leva a múltiplas interpretações das passagens do texto, comparando os personagens com políticos, analisando-as à luz da psicanálise ou até mesmo da religião. Nos Estados Unidos há quem considere que o livro é, na verdade, uma história de terror, pois todas as criaturas tratam mal Alice, que está presa em um pesadelo onde é impotente e do qual não consegue sair, estando à mercê de uma rainha louca que manda decapitar todo mundo. Por causa disso, muitos pais não permitem que seus filhos o leiam até alcançar uma certa idade, um verdadeiro contrassenso para um livro infantil.

Cinco anos após a publicação do primeiro livro de Alice, Carroll decidiu publicar mais um, motivado por um encontro que teve com outra Alice, esta uma prima distante sua, durante um passeio em Onslow Square. Carroll já vinha escrevendo o livro desde bem antes, quando ensinava xadrez às irmãs Liddell, mas o encontro com sua prima Alice lhe deu o elemento que faltava: um espelho. Carroll conta que tinha o costume de mostrar às meninas um espelho, pedir para que elas segurassem uma laranja com a mão direita, e perguntá-las por que é que o reflexo a estava segurando com a mão esquerda. Sua prima Alice foi quem lhe deu a melhor resposta: "se eu estivesse do outro lado do espelho, a estaria segurando com a mão direita". Assim nasceu Through the Looking-Glass and What Alice Found There ("Através do Espelho e o que Alice Encontrou por Lá", também conhecido como "Alice Através do Espelho" ou "Aventuras de Alice no País do Espelho"), publicado pela primeira vez em 1871.

Seis meses após o sonho com o País das Maravilhas, Alice está brincando com suas duas gatinhas Kitty e Snowdrop, quando percebe que pode atravessar o espelho. Lá ela encontra um mundo mágico, onde tudo é ao contrário (se tem que correr muito para permanecer no mesmo lugar, mata-se a sede com um biscoito muito seco, primeiro se serve o bolo para depois cortá-lo, e outras pérolas). Os governantes do País do Espelho são dois Reis e duas Rainhas (Brancos e Vermelhos), envolvidos em um jogo de xadrez da vida real. Quando Alice manifesta à Rainha Vermelha seu desejo de também ser uma rainha, esta faz dela um peão, e promete que ela se tornará rainha tão logo alcance a última casa do tabuleiro (como um peão faria em um jogo de xadrez de verdade). Alice, então começa a atravessar o estranho País do Espelho, em sua busca pela coroa. O livro vem com um diagrama de xadrez que mostra os movimentos dos personagens do jogo capítulo a capítulo, até Alice se tornar rainha.

Alice Através do EspelhoNo geral, o livro é tão nonsense quanto o País das Maravilhas. Algumas passagens são mais coesas, em outras as coisas simplesmente mudam sem nenhuma explicação (como o trem que some quando Alice chega ao seu destino). Além das peças de xadrez, Alice também se encontra com personagens clássicos de histórias infantis da época, como os gêmeos Tweedledee e Tweedledum, o ovo gigante Humpty Dumpty, e até mesmo o Leão e o Unicórnio que ladeiam o brasão da Grã-Bretanha. O texto mais uma vez é permeado de poemas que satirizam obras famosas da época, e traz uma das obras-primas de Carroll, o Pargarávio (Jabberwocky no original), o poema mais nonsense da História, ainda assim com métrica e rima perfeitas. Falando em Carroll, um dos personagens da história, o Cavaleiro Branco, parece ter sido inspirado nele mesmo, com todos os seus maneirismos e sua tristeza por ter de abandonar Alice quando a história acaba. O livro também foi ilustrado por Tenniel, e um de seus capítulos, O Marimbondo de Peruca, foi suprimido a pedido do artista, que alegou ser incapaz de desenhar um marimbondo de peruca. No fim, Alice descobre que mais uma vez fora tudo um sonho, mas o livro deixa uma dúvida metafísica no ar: durante suas aventuras, Alice se encontra com o Rei Vermelho, que passa a história toda dormindo e sonhando com ela. No final do livro, era tudo um sonho, mas de quem? De Alice, ou do Rei Vermelho?

Através do Espelho hoje é considerado um clássico infantil, mas nunca foi tão famoso quanto seu antecessor, em parte porque muitas adaptações de Alice, como o filme de 1933 e o desenho da Disney, de 1951, "misturam" as duas aventuras, colocando personagens do País do Espelho no País das Maravilhas. Depois do espelho, Carroll deixou Alice um pouco de lado e publicou dois outros livros infantis, The Hunting of The Snark, de 1876, todo em versos; e Aventuras de Sílvia e Bruno, de 1889. Nenhum dos dois conseguiu chegar perto do sucesso de Alice, e ambos são praticamente desconhecidos. Carroll ainda publicaria um terceiro livro de Alice, The Nursery Alice, uma versão adaptada do País das Maravilhas para crianças de zero a cinco anos, publicado em 1889.

Lewis Carroll morreu em 14 de julho de 1898, em decorrência de uma bronquite. Mesmo não tendo sido especialmente genial ou reverenciado em vida, seu legado foi tão forte que hoje seus dois livros de Alice são considerados clássicos da literatura, tendo influenciado artistas como James Joyce e John Lennon. E transformaram Alice, de uma menininha comum de Oxford, em um dos ícones da ficção infantil, ao lado da Branca de Neve, Bela Adormecida e Cinderella.
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domingo, 14 de maio de 2006

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Olimpíadas (V)

Já que o post da semana passada foi mais curtinho, vamos falar mais um pouco das Olimpíadas, a partir de hoje incluindo também as de inverno! Semana que vem voltaremos à nossa programação normal.

Chamonix 1924


Desde a fundação do Comitê Olímpico Internacional, em 1894, havia planos para que os esportes chamados "de inverno" - aqueles disputados sobre neve ou gelo - fizessem parte dos Jogos Olímpicos. Como estes esportes dependiam de condições meteorológicas favoráveis, e o Barão de Coubertin não estava disposto a espichar os Jogos até que a temperatura começasse a cair, esportes de inverno só fizeram parte do programa olímpico em duas edições: em 1908, com a patinação artística no gelo, e em 1920, com a patinação artística no gelo e o hóquei no gelo.

Uma idéia alternativa foi proposta pelo conde italiano Eugenio d'Usseaux, durante uma reunião do COI em 1911: a criação de uma semana dedicada aos esportes de inverno, separada do restante das Olimpíadas. Usseaux pretendia que tal semana já acontecesse em 1912, mas os organizadores dos Jogos de Estocolmo não concordaram, pois a Suécia já iria sediar, em 1913, os Jogos Nórdicos, precisamente uma competição de esportes de inverno realizada a cada quatro anos. Usseaux então propôs que a primeira semana dedicada aos esportes de inverno acontecesse em 1916, quando seriam realizados os Jogos de Berlim. A idéia foi aceita e o programa foi escolhido, mas a Primeira Guerra Mundial acabaria por cancelar os Jogos de 1916, junto com sua semana de esportes de inverno.

Após os Jogos de 1920, os primeiros depois da Guerra, o COI teve uma importante reunião - sobre a qual você pode ler mais abaixo - onde o tema dos esportes de inverno novamente veio à baila. Ficou então decidido que cada cidade escolhida para ser a sede dos Jogos Olímpicos teria também de organizar uma Semana dos Jogos de Inverno, que, para todos os efeitos, seria considerada parte da Olimpíada, com suas medalhas contando como medalhas olímpicas, e seus campeões sendo registrados como campeões olímpicos.

Nesta mesma reunião de 1921, Paris foi escolhida como sede para os Jogos de 1924. Os organizadores, porém, decidiram não realizar a Semana de Inverno na capital francesa, mas na pequena cidade de Chamonix, ao pé do Mont Blanc, a 612 km de Paris, famosa por suas instalações apropriadas à prática dos esportes de inverno, e hoje conhecida como a meca do esqui e do snowboarding. A fama e a qualidade das instalações foram essenciais para o sucesso do evento, de modo que Chamonix se mostrou uma escolha mais do que acertada.

A Primeira Semana dos Jogos de Inverno se realizou entre 25 de janeiro e 5 de fevereiro (12 dias, na verdade), reunindo 258 atletas, sendo 11 mulheres, que representaram 16 nações em 16 provas de 9 esportes: bobsleding, combinado nórdico, curling, esqui cross country, hóquei no gelo, patinação artística no gelo, patinação no gelo em velocidade, patrulha militar e saltos com esqui (clique aqui para ver todas as provas do programa). Houve até uma pequena cerimônia de abertura, com direito a desfile das delegações, juramento do atleta, e discurso de Gaston Vidal, o presidente do comitê organizador.

O primeiro medalhista de inverno foi o americano Charles Jewtraw, nos 500 metros da patinação em velocidade. Ainda na patinação em velocidade, o finlandês Clas Thurnberg ganhou três medalhas de ouro, número também alcançado pelo norueguês Thorleif Haug, que ganhou duas no esqui cross country e uma no combinado nórdico. O time de hóquei no gelo do Canadá também foi um grande destaque, repetindo sua medalha de ouro de 1920 de forma invicta, vencendo todos os seus cinco oponentes, marcando 110 gols e sofrendo apenas 3.

Além do time de hóquei no gelo do Canadá, o único atleta a repetir em 1924 seu triunfo em 1920 foi o sueco Gillis Grafström, da patinação artística. A norueguesa Sonja Henie, também da patinação artística, de apenas 11 anos, também entrou para a história dos Jogos. Quando competiu, ela ficou em último, mas foi considerada a preferida do público, e nos anos seguintes ganharia três ouros olímpicos e um campeonato mundial.

A patrulha militar foi a única responsável por alguma confusão no evento. Hoje conhecida pelo nome de biatlo, esse curioso esporte reúne tiro com rifle e esqui cross country, e usava uma fórmula para converter os acertos e distância percorrida em pontos, para apontar o vencedor. Como ainda não havia uma federação de biatlo em 1924, houve controvérsia quanto à fórmula utilizada, e protesto de alguns atletas. Para piorar, em 1924 foi disputada a prova por equipes, que não existe mais desde 2004 justamente por ser considerada muito confusa, e, no dia da prova, nevou tanto que duas das seis equipes inscritas desistiriam de participar. Vale citar também que, originalmente, a patrulha militar e o curling foram incluídos no programa como esportes de demonstração, mas, posteriormente - a patrulha militar ainda em 1924, o curling em 2002 - o COI considerou ambos os esportes como parte do programa, digamos, oficial, o que fez com que essa edição dos Jogos de Inverno não tivesse esportes de demonstração. Tanto a patrulha militar quanto o curling ainda seriam esportes de demonstração em mais três edições dos jogos, com a patrulha militar só estreando de fato como parte do programa, já com o nome de biatlo, em 1960, e o curling somente em 1998.

Outra confusão, esta involuntária, ocorreu nos saltos com esqui. Inicialmente, o norueguês Thorleif Haug foi apontado como ganhador do bronze, e o americano Anders Haugen como quarto lugar. Em 1974, porém, um erro no registro causado pela similaridade dos sobrenomes dos atletas foi identificado, fazendo com que suas posições se invertessem. Em uma cerimônia oficial, Haugen, com 83 anos, também recebeu uma medalha de bronze do COI, que decidiu manter a de Haug, que não teve culpa no incidente, e registrar ambos como medalhistas olímpicos.

No geral, a Primeira Semana dos Jogos de Inverno foi um grande sucesso. E o COI ficou tão entusiasmado com este sucesso que em sua reunião seguinte, em 1926, decidiu nomear retroativamente o evento de 1924 como os primeiros Jogos Olímpicos de Inverno - ou, mais popularmente, Olimpíadas de Inverno. A partir de então, os Jogos Olímpicos passaram a ser conhecidos informalmente em muitos idiomas como Olimpíadas de Verão, para diferenciá-los. Em 1926 também ficou definido que os Jogos Olímpicos de Inverno ainda seriam Jogos Olímpicos oficiais tutelados pelo COI, mas independentes da Olimpíada que ocorreria no mesmo ano, sendo disputados, inclusive, em sedes separadas, sempre sendo escolhidas cidades apropriadas à prática dos esportes de inverno. Hoje, no hemisfério norte, as Olimpíadas de Inverno são um evento tão famoso quanto as Olimpíadas de Verão, e igualmente aguardado pelos atletas que delas participam.

Paris 1924


Por volta de 1920, o Comitê Olímpico Internacional já era uma organização forte, com 58 membros representando 42 países. Mesmo com esta boa representatividade, muita gente não levava fé em que os Jogos de 1920 pudessem ser realizados, devido à proximidade com a Primeira Guerra Mundial. Como vocês puderam ler semana passada, porém, os Jogos de Antuérpia foram muito bem sucedidos, o que motivou o COI a realizar uma reunião histórica em 1921. Nela, além de escolher a sede dos Jogos de 1924 e 1928, com uma até então inédita antecedência, seriam tomadas outras decisões importantíssimas, a maior delas a elaboração do Regulamento Geral do COI, um verdadeiro "manual de instruções" dos Jogos Olímpicos. Um dos pontos cruciais deste Regulamento era a definição do que seria um atleta amador, e a responsabilização dos Comitês Olímpicos Nacionais caso algum atleta fosse descoberto como profissional durante ou após os jogos, visando impedir que surgisse um novo Jim Thorpe. O Regulamento ainda assegurou a participação das mulheres nas Olimpíadas, embora de maneira algo machista, prevendo que competia ao COI definir de quais provas as moças poderiam participar; e estabeleceu os limites de quatro competidores de cada nação em provas individuais e de apenas um time de cada nação no caso de esportes coletivos. Nesta reunião ainda foram criados e definidos os Jogos Olímpicos de Inverno, que você pode ver aqui em cima.

Buscando repetir o sucesso dos Jogos de 1920, seis cidades se candidataram a sede dos Jogos de 1924, dentre elas, Paris. Embora Roma e Amsterdã fossem as mais entusiasmadas, a possibilidade de apagar o fracasso de 1900 fez com que o Barão de Coubertin dedicasse sua vida a fazer de Paris a sede, e destes Jogos os maiores da História. O Barão chegou a largar os negócios e a família, e a dilapidar seu patrimônio pessoal, tudo para provar que os Jogos eram uma alternativa à Guerra, uma forma pacífica e honrosa de se resolver disputas. Para sua felicidade e glória, os Jogos de 1924 realmente superariam todos os anteriores em termos de popularidade e qualidade de seus competidores. A editora Plumon se ofereceu para publicar um belíssimo guia, um livreto de capa dura com 318 páginas, das quais 50 eram propagandas, produzido por jornalistas do Paris Soir e do Chicago Tribune, impresso em francês, espanhol e inglês, tudo para que os muitos turistas presentes ao evento não tivessem dúvidas quanto aos locais onde as disputas ocorreriam e conhecessem os atletas. Ao todo, foram vendidos oito mil guias. A indústria Le Radiola inventou o radinho de pilha especialmente para a ocasião, para que os espectadores não perdessem um só detalhe do que estava acontecendo. Graças à evolução do telégrafo, correspondentes do Chicago Tribune enviavam três boletins por dia, mantendo os norte-americanos sempre bem informados sobre o desempenho de seus participantes. E, o mais importante, todo um complexo esportivo foi construído especialmente para a ocasião, incluindo velódromo, parque de equitação, piscina, ginásio, quadras de tênis, um campo de futebol, e, é claro, o Estádio Olímpico, com capacidade para 45 mil pessoas. As contendas do levantamento de peso, luta e boxe ocorreram no já famoso Cirque de Paris, o polo a cavalo no Bois de Boulogne, o remo na represa de Argenteuil, e a vela na majestosa represa de Meulan-aux-Mureaux. Enfim, tudo impressionantemente bem organizado para a época, tudo quase perfeito.

Quase, porque, mesmo com tanta organização, os Jogos de 1924 não estavam imunes aos muitos problemas inerentes a uma competição internacional de seu porte. O maior deles foi a falta de educação dos torcedores franceses, que fizeram questão de demonstrar que odiavam com todas as suas forças os atletas da Áustria e da Hungria, seus inimigos da Primeira Guerra; dos Estados Unidos, aos quais acusavam de profissionais, devido às bolsas que recebiam de suas universidades para praticar esportes; e da Grã-Bretanha, seus eternos rivais. Tamanhas foram as vaias e ameaças que o jornal The Times, de Londres, conclamou a Grã-Bretanha e os EUA a não mais enviar atletas às Olimpíadas, e a fazer campanha para sepultar de vez os Jogos. Gaston Vidal e o Barão de Coubertin acalmaram os ânimos, lembrando que os Jogos não eram uma disputa entre nações, mas sim entre atletas, e que seriam os nomes destes que figurariam para sempre nos registros, e não suas nacionalidades. Aparentemente, o argumento surtiu efeito, já que nem Estados Unidos nem Grã-Bretanha desistiram das Olimpíadas, embora, acreditem ou não, até hoje uma parcela da imprensa dos EUA pede o fim dos Jogos com o mesmo argumento de favorecimento dos anfitriões.

Outro acontecimento que poderia ter bagunçado os Jogos de 1924 foi um transbordamento do Rio Sena em 1923, que deixou centenas de desabrigados e casas destruídas. Sem dinheiro suficiente para a reconstrução e os Jogos, o governo sugeriu ao COI, para horror do Barão, que os realizasse simultaneamente a uma exposição, a I Exposição Internacional dos Esportes, que ocorreria em Paris alguns dias antes da data prevista para o início da Olimpíada. Por ser uma exposição de esportes, e restrita a um pequeno espaço da cidade, ao contrário das feiras enormes que fizeram naufragar as primeiras edições dos Jogos, o Barão acabou por concordar. Isto fez, porém, com que o comitê organizador tivesse que fazer uma verdadeira acrobacia de datas, e que os Jogos durassem muito mais do que o previsto. Além disso, como o Barão não quis mudar a data da Cerimônia de Abertura, curiosamente os Jogos de 1924 começaram em 20 de abril e terminaram em 27 de julho, mas só foram oficialmente abertos em 5 de julho. A Cerimônia de Abertura contou com missa solene na Catedral de Notre Dame, desfile das delegações, juramento do atleta, hasteamento da bandeira olímpica, e a apresentação do lema Citius, Altius, Fortius ("mais rápido, mais alto, mais forte" em latim), cunhado pelo frei Henri Didon especialmente para a ocasião, e que acabou se tornando o lema oficial dos Jogos Olímpicos.

Ao todo, participaram da segunda edição dos Jogos de Paris, que se tornou a primeira cidade a sediar duas Olimpíadas, 2.956 atletas, sendo 136 mulheres. 44 nações foram representadas, contando pela primeira vez com a Irlanda, finalmente separada da delegação do Reino Unido. As ausências mais sentidas foram as da Alemanha, ainda sem condições após a Primeira Guerra Mundial, e da União Soviética, que sequer fora convidada, apesar de já ser reconhecida como nação por muitos países do mundo. O programa olímpico contou com 127 provas de 19 esportes: atletismo, boxe, ciclismo, equitação, esgrima, futebol, ginástica artística, levantamento de peso, luta olímpica, natação, pentatlo moderno, polo, polo aquático, remo, rugby union, saltos ornamentais, tênis, tiro esportivo e vela (clique aqui para ver todas as provas do programa). Exageradamente, os organizadores ainda incluíram quatro esportes de demonstração, canoagem, canne de combat, pelota basca e savate, contrariando a recomendação do COI de que os esportes de demonstração deveriam ser apenas dois.

Os fundistas finlandeses repetiram em 1924 a performance arrebatadora de quatro anos antes: Paavo Nurmi ganhou os 1.500 metros e os 5.000 metros, mesmo com menos de uma hora de folga entre a chegada da primeira corrida e a largada da segunda, e a corrida cross country, disputada em um dia de calor fora do comum; Ville Ritola ganhou os 10.000 metros e os 3.000 metros steeplechase, e foi segundo nos 1.500 metros e 5.000 metros; Albin Steenroos foi ouro na Maratona; e a equipe finlandesa venceu os 3.000 metros por equipes e o cross country por equipes. Ainda no atletismo, os britânicos Harold Abrahams e Eric Liddell venceriam os 100 metros rasos e os 400 metros, respectivamente. Anos mais tarde, sua história seria contada no filme Carruagens de Fogo.

Abrahams e Liddell não foram os únicos atletas ligados ao cinema após os jogos: o americano Johnny Weissmuller, ouro na natação nos 100 metros estilo livre, 400 metros estilo livre, revezamento 4 por 200 metros estilo livre e bronze no pólo aquático, seria contratado em 1932 para viver Tarzan no cinema. Ao todo, Weissmuller faria 32 filmes, e se tornaria muito mais famoso por ser o homem-macaco do que medalhista olímpico.

A maioria das "bagunças olímpicas" desta edição dos Jogos foi causada pelo já citado exacerbado patriotismo francês: na final do rugby, após perder para os Estados Unidos, a plateia enfurecida não permitiu o hasteamento da bandeira nem a execução do hino americano; no tênis, a britânica Kitty McKane vencia a francesa Didi Vlasto por 6-0 e 3-0, quando uma pressão descomunal sobre o árbitro a deixou nervosa, e permitiu que Vlasto virasse e ganhasse o jogo; e no boxe, o britânico Henry Mallin, campeão em 1920 e um dos melhores peso-médios da história, quase foi tirado do torneio pelo desconhecido francês Roger Brouss, que lutou deslealmente e chegou a lhe dar uma mordida no peito. O árbitro, um belga, chegou a declarar Brouss vencedor, mas diante de um estardalhaço da torcida e da intervenção de um nobre sueco, voltou atrás e o desclassificou. Mallin acabaria por seguir na competição e ganhar o ouro.

O Brasil enviou apenas 11 atletas aos Jogos, nove do atletismo e dois do remo. Poderiam ter sido mais, pois, animado com a excelente performance de 1920, o Presidente Artur Bernardes destinou uma generosíssima verba à Confederação Brasileira de Desportos, visando treinar e custear a viagem de nossos melhores atletas. A verba causou uma verdadeira guerra política pelo controle da CBD, e acabou suspensa. O Brasil só não cancelou sua inscrição devido a um esforço da Federação Paulista de Atletismo, que recolheu dinheiro de empresas para custear a viagem dos nove atletas, que foram de navio de Santos a Cherbourg, já na França, de onde seguiriam de trem até Paris, onde se encontrariam com os dois remadores, os cariocas Carlos e Edmundo Castello Branco. Os remadores, inclusive, foram os mais bem sucedidos, chegando em quarto na prova dos double sculls, dentre cinco duplas participantes. Esgotados pela viagem de quase um mês, os nove paulistas pouco puderam fazer, sendo todos eliminados nas provas de classificação. Até mesmo Alfredo Gomes, primeiro campeão da São Silvestre, abandonou a prova do cross country no meio, esgotado. Tal performance fez com que o interesse brasileiro nas Olimpíadas diminuísse, ao ponto de sequer ser cogitada a participação do Brasil nos Jogos de 1928. O país só viria a enviar representantes novamente em 1932.

Ao final dos Jogos, o Barão de Coubertin, então com 61 anos e já cansado das dificuldades olímpicas, anunciou sua aposentadoria, algo que já vinha confidenciando a amigos. O suíço Godefroy de Bolay, vice-presidente do COI, acreditou que seria ele o sucessor ao cargo. Como seu último ato, porém, o Barão nomeou presidente do COI o conde belga Henri de Baillet-Latour. Latour, grande amigo do Barão, na verdade seria um testa-de-ferro. Através dele o barão continuaria mandando no COI, embora sem aparecer, até sua morte.


Série Olimpíadas

Chamonix 1924
Paris 1924

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domingo, 7 de maio de 2006

Escrito por em 7.5.06 com 0 comentários

Olimpíadas (IV)

E hoje vamos a mais um post sobre as Olimpíadas!

Antuérpia 1920


Além de defensor obstinado do esporte, o Barão de Coubertin também era um sonhador. Em 1912, após as Olimpíadas de Estocolmo, uma guerra de proporções jamais vistas parecia cada vez mais próxima, e várias nações, como o Reino Unido, França e Alemanha, já começavam a preparar seus exércitos para o pior. Ainda assim, o Barão escolheu Berlim para sede dos Jogos de 1916, pois imaginava que a mobilização para a realização de uma Olimpíada acalmaria os ânimos dos europeus, diminuindo as possibilidades de instauração de um conflito armado.

Infelizmente, os homens que fazem a guerra nem sempre se demovem com facilidade. Em junho de 1914, o Arquiduque Franz Ferdinand, do Império Austro-Húngaro, foi assassinado em Sarajevo por Gavrilo Princip, um nacionalista sérvio. O Império Austro-Húngaro já vinha querendo invadir a Sérvia há meses, e o assassinato de Ferdinand foi o pretexto de que eles precisavam. Um mês após o assassinato, o Império Austro-Húngaro invadiu a Sérvia, e a Alemanha se declarou favorável à invasão, sob protestos da França, que exigia sua neutralidade. A Rússia também protestou, e começou a mobilizar seus exércitos. Dia 1o de agosto a Alemanha declararia guerra à Rússia, e dia 3 à França, invadindo a Bélgica em seguida. Dia 4, a Grã-Bretanha decidiu se aliar à França, e declarou guerra à Alemanha. No início de 1915, Turquia e Bulgária se aliaram à Alemanha, e a Itália se aliou à França. Começava a Primeira Guerra Mundial, que só ganhou este nome após o envolvimento dos EUA, em 1917.

Os alemães, confiantes de que a Guerra seria curta, não retiraram a candidatura de Berlim. O Barão, porém, já começava a desconfiar que não haveria Olimpíadas nem em Berlim, nem em nenhum outro lugar. Em 1915, ele inaugurou a sede do COI em Zurique, na Suíça, um país neutro, para que o COI não fosse afetado pela Guerra. Seu primeiro ato na nova sede foi cancelar os Jogos de 1916, mas manter os de 1920, sem alterar a numeração, ou seja, os inexistentes Jogos de 1916 seriam a sexta edição, e os de 1920 a sétima. Por pouco o Barão não teria de adiar também os Jogos de 1920, já que a Guerra só terminaria com a assinatura do tratado de Versalhes, em julho de 1919.

Com milhares de mortos e a maioria dos países arrasada pela Guerra, o Barão teria de tomar providências sérias para fomentar o interesse em uma nova Olimpíada, a começar pela sede. Estrategicamente, ele escolheu Antuérpia, na Bélgica, uma das cidades que mais sofreram com a invasão alemã. A escolha surtiu o efeito esperado: felicíssimos com a oportunidade de mostrar ao mundo que a invasão não os havia derrotado, os belgas se mobilizaram para a realização dos Jogos de forma impressionante, principalmente devido à falta de dinheiro e à necessidade de reconstruções. Graças à ajuda financeira de comerciantes de diamantes, todas as obras necessárias ficaram prontas em tempo recorde, embora algumas tivessem imperfeições, como um desnível na pista de atletismo que transformava as raias de dentro em uma verdadeira piscina em dias de chuva. Também não puderam ser construídos alojamentos para os atletas, mas muitas casas de família e comércio se ofereceram para hospedá-los, tudo para que os Jogos não precisassem ser mais uma vez adiados. Em troca de toda esta boa vontade, o governo belga só fez uma exigência ao COI: Alemanha, Áustria, Hungria, Turquia e Bulgária, os "vilões" da Guerra, deveriam ser proibidos de participar. Coubertin não queria proibi-los, mas também não podia deixar de atender a um pedido tão bem motivado. A solução encontrada foi política e curiosa: o COI preparou os convites destinados aos Comitês Olímpicos dos cinco rejeitados, mas a organização, "inexplicavelmente", se esqueceu de postá-los. Ao ser indagado sobre o fato, o Barão lastimou a falta de memória dos organizadores, preservando a imagem do COI perante os cinco excluídos.

Mesmo com a exclusão dos cinco "esquecidos" e com a falta de dinheiro geral causada pela Guerra, Antuérpia viu um número recorde de 29 nações participantes, dentre elas, pela primeira vez, o Brasil. A Grã-Bretanha, porém, quase não atendeu ao convite do COI. À época, era ela a nação que mais incentivava o esporte, com extensivo programa governamental, e, aos olhos dos britânicos, era impossível que eles não ficassem com o primeiro lugar do quadro de medalhas, sempre perdendo para os EUA. Se dependesse dos dirigentes, não haveria um único atleta britânico em Antuérpia. Os atletas, porém, desejando competir após tanto tempo paralisados pela Guerra, se mobilizaram, e conseguiram convencer seus dirigentes de que sua participação era importante, mesmo que não tivessem o maior número de ouros. Este episódio, assim como os ânimos exaltados em algumas competições devido a rancores remanescentes da Guerra, levaram Coubertin a uma decisão: a partir daqueles Jogos, o COI não divulgaria mais o infame Quadro de Medalhas, que deixaria de ser oficial. Os jornalistas, se quisessem, que contabilizassem quem ganhou mais; para o COI, o que importava era o triunfo dos atletas, não de suas nações.

Os Jogos de Antuérpia começariam em 20 de abril, com uma cerimônia jamais vista, onde, além dos desfiles das delegações e de um pequeno espetáculo, haveria a leitura do juramento do atleta, a revoada de pombas brancas para simbolizar a paz, e o hasteamento da Bandeira Olímpica, com os cinco anéis entrelaçados, cada um representando um continente em busca da paz. Estas três inovações se tornariam novas tradições do COI, sendo realizados a cada edição dos Jogos até hoje. Foram competir em Antuérpia 2.607 atletas, dos quais 64 eram mulheres. A escolha do programa foi meio confusa, e até mesmo chegou a se considerar a exclusão da Maratona, que sempre dava confusão, fato que só não se concretizou graças a uma intervenção pessoal do Barão. Após muita discussão, ficou definido que os atletas competiriam em 156 provas de 24 esportes: atletismo, boxe, cabo de guerra, ciclismo, equitação, esgrima, futebol, ginástica artística, hóquei, hóquei no gelo, levantamento de peso, luta olímpica, natação, patinação artística no gelo, pentatlo moderno, polo, polo aquático, remo, rugby union, saltos ornamentais, tênis, tiro com arco, tiro esportivo e vela; mais corfebol como esporte de demonstração (clique aqui para ver todas as provas do programa). Tantas competições fizeram com que os Jogos mais uma vez durassem mais de cinco meses, só se encerrando a 12 de setembro.

O maior destaque dos Jogos de 1920 foram os finlandeses, finalmente livres para competir por sua própria bandeira. Levando apenas 64 atletas, eles conseguiram 34 medalhas, sendo 15 de ouro. Paavo Nurmi, então um estreante, conseguiria 3 delas, nos 10.000 metros, no Cross Country e no Cross Country por equipes; e Hannes Kolehmainen, que já havia ganhado o ouro nos 5.000 metros, 10.000 metros e Cross Country em 1912, desta vez ganhou a Maratona.

A Itália também fez bonito, ganhando 13 ouros, cinco deles na esgrima, com Nedo Nadi; e a Grã-Bretanha se tornaria tricampeã olímpica do pólo aquático, mesmo após uma final conturbada contra a Bélgica. Mas a história mais curiosa envolveu a delegação dos EUA: com pouco dinheiro, os dirigentes alugaram um cargueiro, que havia servido para transportar os caixões dos mortos na Guerra, para levar os atletas até a Bélgica. Viajando em condições deploráveis, ao fazer uma escala na Islândia muitos deles se amotinaram e abandonaram o navio. Viajando de favor, os amotinados ainda conseguiriam chegar a Antuérpia em 14 de agosto, e mesmo com tantas condições adversas, os EUA mais uma vez ganhariam mais medalhas que seus oponentes, um total de 96, sendo 41 de ouro, mais que o dobro da Suécia, "segunda colocada" não-oficial. De todas estas vitórias, a mais suada foi a do rugby: sem apoio dos dirigentes, uns poucos jogadores que desejavam ir aos Jogos decidiram bancar suas próprias viagens, na esperança de formar um time durante a viagem. Acabou que vários atletas de outras modalidades se uniram a eles para completar o mínimo necessário. Por sorte, além dos EUA só a França se inscreveu, e os norte-americanos ganharam o ouro com uma única vitória. Também merecem menção os dois ouros do remador Jack Kelly, que dali a 9 anos viria a se tornar pai da atriz e Princesa de Mônaco Grace Kelly.

O Brasil fez sua primeira participação olímpica em 1920, e fez bonito, ganhando três medalhas, uma de cada cor. O Comitê Olímpico Brasileiro só viria a ser fundado em 1935, mas desde 1913 o país contava com um representante no COI, o embaixador Raul Paranhos do Rio Branco, que conseguiu um convite para que o Brasil participasse dos Jogos de 1920. A Confederação Brasileira de Desportes montou uma delegação de 22 atletas, que iriam competir na natação, pólo aquático, remo e tiro. O pólo aquático acabaria na sexta colocação entre 12, após uma vitória, um empate e uma derrota; e o remo terminaria em quarto entre nove; mas seria do tiro que viriam as primeiras medalhas olímpicas brasileiras. E elas quase que não vêm, pois, após uma viagem de navio de 28 dias, os atletas perceberam que suas armas e munição haviam sido roubadas durante a viagem. Um dos atletas, Afrânio Antônio da Costa, era amigo do Coronel George Sanders, líder da equipe dos EUA, que decidiu emprestar aos brasileiros duas pistolas Colt e duas mil balas. Graças a isso, no dia 2 de agosto, Afrânio conquistaria a prata na pistola livre individual. Mais tarde, no mesmo dia, o Brasil ainda conseguiria um bronze na pistola livre por equipes. No dia seguinte, Guilherme Paraense se tornaria o primeiro campeão olímpico brasileiro, ao vencer a prova de tiro rápido individual. A equipe do tiro brasileiro encerraria sua participação com um quarto lugar no tiro rápido por equipes.

No final, os Jogos de 1920 foram uma grande demonstração de que, mesmo sem conseguir interromper a Guerra, o esporte pôde sobreviver a ela. E isto deu novo fôlego ao COI, que já planejava uma novidade para a edição seguinte, em 1924. Mas isso nós veremos na semana que vem.

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