Há quinze anos, lá em 2008, eu fiz uma série de quatro posts sobre os filmes do 007, parando após algumas especulações sobre Quantum of Solace, que estava prestes a ser lançado. De lá pra cá, foram lançados mais três filmes, e, como Daniel Craig chegou ao fim de sua jornada como o agente secreto mais famoso do cinema, com o próximo filme tendo um novo ator no papel principal, me parece justo completar essa série também. Assim, hoje, é mais uma vez dia de James Bond no átomo!
Para começar esse post, porém, eu vou ter que andar um pouquinho para trás. Como nós vimos lá em 2008, após uma série de fracassos estrelados por Pierce Brosnan, a EON Productions, responsável pela adaptação dos livros do 007 para o cinema (sim, se você não sabe que os filmes do 007 são parcialmente baseados em livros, por favor leia os posts anteriores), decidiria não por uma sequência, e sim por um reboot, começando a história toda do zero, totalmente adaptada para o século XXI. Assim, Casino Royale, que estreou em novembro de 2006, primeiro da série com Daniel Craig no papel principal, ignoraria todos os 20 filmes anteriores, e mostraria um jovem James Bond, pouco tempo depois de conseguir sua licença para matar, em sua primeira missão internacional de grande importância, durante a qual conhece o agente da CIA Felix Leiter (Jeffrey Wright) e o grande amor de sua vida, Vesper Lynd (Eva Green).
O reboot também permitiria à EON fazer uma coisa que jamais havia acontecido em 45 anos de filmes do 007: os cinco filmes estrelados por Craig são sequenciais, com uma única história, e os eventos de cada um se refletindo nos seguintes. Até então, embora alguns elementos de filmes anteriores fossem citados ou mostrados nos filmes seguintes, a maioria deles se parecia com easter eggs ou fanservice, com cada filme sendo mais como uma história solta, com começo, meio e fim e sem nenhuma influência das anteriores ou sobre as seguintes. Isso funcionou relativamente bem durante as décadas de 1960, 1970 e 1980, quando as séries de televisão também seguiam uma estrutura parecida, mas foi considerado pela MGM como um dos principais fatores para o fracasso dos filmes do fim da década de 1990, uma época na qual o público já estranhava a mudança de intérprete para Bond sem nenhuma explicação e o fato de que ele parecia não ter memórias de suas aventuras prévias. Os cinco filmes de Craig, portanto, são uma espécie de "série dentro da série", seguindo a estrutura de continuações que já é familiar ao público do cinema.
Com esse fator em mente, o filme seguinte, Quantum of Solace, seria uma continuação direta de Casino Royale, tanto que a pré-produção de ambos os filmes seria conjunta, e começaria já em 2005. Quantum of Solace é o título de um conto escrito por Ian Fleming, o criador do 007, em 1959, mas o filme não tem absolutamente nada a ver com o conto, sendo um roteiro totalmente original; no Brasil, o título desse conto já foi traduzido para O Quantum do Refrigério e para o quase pornográfico A Medida do Consolo, de forma que, sem uma tradução melhor, e sem querer mudar completamente o título, a Sony do Brasil optaria por deixá-lo quase no original, com o filme em nosso país se chamando 007 Quantum of Solace.
O filme começa pouquíssimo tempo após o final de Casino Royale, com Bond descobrindo através do Sr. White (Jesper Christensen) que uma organização criminosa chamada Quantum (talvez para dar um sentido ao nome do filme) possui agentes infiltrados no MI6, o serviço secreto britânico, um deles o guarda-costas de M (Judi Dench). Investigando esse guarda-costas após um atentado frustrado contra a vida de sua chefe, Bond acaba conhecendo a Bond Girl da vez, Camille Montes (a atriz ucraniana Olga Kurylenko), namorada do ambientalista Dominic Greene (Mathieu Amalric), que aparentemente faz parte da Quantum e secretamente está ajudando o General Medrano (Joaquín Cosío), exilado após tentar dar um golpe de estado em seu país natal, a Bolívia, a concretizar esse golpe e tomar o poder, com Greene, em troca, recebendo um terreno aparentemente sem valor no meio do deserto - para complicar ainda mais a situação, Medrano foi o responsável pela morte de toda a família de Camille, que busca vingança. Bond, então, decide viajar para a Bolívia, para descobrir qual seria o interesse de Greene nesse terreno, enquanto busca mais informações sobre a Quantum, seus infiltrados e seu propósito.
Wright também participa do filme como Leiter, enviado pela CIA porque o governo dos Estados Unidos fez um acordo com Greene, segundo o qual, com Medrano no poder, todos os direitos de exploração de petróleo encontrado em solo boliviano pertenceriam a empresas norte-americanas. No melhor estilo dos filmes de 007, o vilão também tem um capanga excêntrico e chamativo, Elvis (Anatole Taubman), um assassino meio incompetente que só faz parte da Quantum porque é primo de Greene; e uma garota bonita e de nome estranho que faz uma breve parceria com Bond, a agente Strawberry Fields (Gemma Arterton), que trabalha no consulado britânico na Bolívia. Apesar disso, Quantum of Solace faria um esforço para se distanciar de normas e conceitos estabelecidos na série original de Bond, como o vilão caricato ou a Bond Girl que é pouco mais que uma donzela em perigo - Camille tem seu próprio plano para assassinar Medrano e não se deixa seduzir por Bond facilmente, enquanto Greene se comporta praticamente como um empresário corrupto do mundo real. Também vale dizer que esse filme marca a primeira aparição do chefe de pessoal de M, Bill Tanner (Rory Kinnear), que também estaria presente nos três filmes seguintes.
A produção de Quantum of Solace seria conturbada e marcada por muitas desavenças, desde um protesto no Chile porque as cenas no deserto foram filmadas lá ao invés de na Bolívia, passando por uma reclamação do governo boliviano pela forma como o país seria retratado, até uma pequena revolta por Kurylenko interpretar uma boliviana - o que tentou ser apaziguado com o argumento de que a personagem é "descendente de russos e bolivianos"; no início, os produtores cogitaram escolher uma atriz latina, e consideraram até as brasileiras Juliana Paes e Fernanda Lima, mas optaram por Kurylenko por sua performance em Hitman. Durante a pré-produção, o diretor seria Roger Mitchell, de um Lugar Chamado Notting Hill, que já havia trabalhado com Craig em Amor para Sempre, mas desistiria por achar que o roteiro estava sendo reescrito muitas vezes, o que poderia ser um indicativo de que a versão final não teria qualidade; ele seria substituído por Marc Forster, que se diria surpreso por ter sido convidado, já que não era fã de Bond e sequer tinha assistido Casino Royale, mas aceitaria após ver que o reboot tinha "humanizado" o personagem, que já não era mais um superespião inabalável. Forster participaria de mais uma reescritura do roteiro, principalmente por não querer fazer um filme longo - segundo ele, um bom filme de espionagem deve ser "rápído como uma bala".
Segundo a lenda, a versão final do roteiro ficaria pronta duas horas antes de ser declarada a greve dos roteiristas de 2007. Embora isso tenha permitido que as filmagens começassem sem atrasos, também significou que nenhum roteirista podia estar presente no set, e que mudanças no roteiro durante as filmagens tinham de ser feitas por Forster ou até mesmo por Craig. Em entrevistas posteriores, Craig declararia ter odiado a experiência e não estar disposto a nunca mais fazer um filme dessa forma. Após o final da greve, um roteirista não creditado seria contratado para reescrever as cenas com as quais o diretor ainda não estava satisfeito, e algumas delas acabariam refilmadas.
Quantum of Solace seria o único filme da série a trazer a famosa "sequência do revólver" no final do filme ao invés de no começo - segundo Forster, isso seria feito para simbolizar que a "história de origem" de Bond, iniciada no filme anterior, estava finalizada. A música da abertura, Another Way to Die, pela primeira vez seria um dueto, cantado por Alicia Keys e Jack White, escolhidos após os produtores cogitarem as cantoras Amy Winehouse, Beyoncé, Leona Lewis e Duffy. Mais uma vez, para que o filme tivesse o "estilo 007", seria usado o mínimo de efeitos de computação possível, com todas as principais cenas usando dublês - inclusive, após dois acidentes graves, um deles no qual um Aston Martin caiu dentro de um lago na Itália, começaram a correr rumores sobre uma "maldição", e que o filme não devia ser concluído. Os principais efeitos de computação seriam usados na cena do incêndio, para que o fogo e a fumaça parecessem estar mais próximos dos atores do que realmente estavam, e na perseguição de barcos.
Quantum of Solace estrearia no Reino Unido em 31 de outubro de 2008, e nos Estados Unidos em 14 de novembro. Com orçamento não revelado, mas estimado entre 200 e 230 milhões de dólares, renderia quase 590 milhões considerando a bilheteria global, e seria considerado pela Sony como um grande sucesso; ainda assim, a crítica consideraria o filme "decepcionante", e elegeria Greene "o pior vilão de Bond de todos os tempos". O filme é hoje considerado o mais fraco dos cinco de Craig, com o ator conjecturando que a greve dos roteiristas pode ter tido um papel nessa percepção, e que talvez tivesse sido melhor adiar a estreia para ter um roteirista presente durante as filmagens. Apesar das críticas negativas, como a bilheteria foi boa, e como Craig já tinha mesmo contrato para três filmes, a EON decidiria seguir em frente e começar a produção do próximo.
A intenção de Barbara Broccoli e Michael G. Wilson, produtores da série, era que um filme estrelado por Craig estreasse a cada dois anos, como ocorreu durante a maior parte da carreira do 007; assim, a estreia do filme seguinte seria marcada para 2010. Entretanto, o roteiro, que originalmente seria escrito por Peter Morgan, sofreria uma série de atrasos, e esse ano chegaria sem que as filmagens tivessem começado; para piorar a situação, a MGM, responsável pela distribuição dos filmes da franquia, e que desde 2005 fazia parte de um consórcio do qual um dos donos era a Sony, em 2010 entraria com um pedido judicial de reorganização, uma espécie de falência prevista na lei dos Estados Unidos que, ao invés de dissolver a empresa, muda seu comando, que passaria para alguns de seus principais credores. Diante de todos esses problemas, a EON decidiria contratar novos roteiristas e adiar a estreia do filme para 2012, quando o primeiro filme de James Bond faria seu aniversário de 50 anos.
Chamado Skyfall (007 Operação Skyfall no Brasil, skyfall é a "queda do céu"), o vigésimo-terceiro filme da série seria dirigido por Sam Mendes, de Beleza Americana e Estrada para a Perdição, contratado pouco após a estreia de Quantum of Solace, quando Forster declararia não ter interesse em dirigir o filme seguinte. Durante a pré-produção, surgiriam boatos de que o filme se chamaria Carte Blanche, e seria uma adaptação de um romance do 007 escrito por Jeffery Deaver e publicado em 2011, se tornando, assim, o primeiro filme a não ser nem uma adaptação de um romance de Fleming, nem um roteiro original; Barbara Broccoli se apressaria a desmentir esses boatos, mas manteria o nome oficial do filme em segredo até novembro de 2011. O nome Skyfall não aparece em nenhum dos romances de Fleming, e foi criado pelos roteiristas do filme para "soar misterioso" e "cativar a imaginação do público"; ao contrário do que o título em português dá a entender, não há nenhuma operação no filme chamada Skyfall - embora haja um motivo para o filme ter esse nome, que eu não vou revelar porque é meio que um spoiler.
Do elenco dos filmes anteriores, retornam apenas Craig como Bond, Dench como M e Kinnear como Tanner; por outro lado, três outros agentes do MI6 de interesse estreiam no reboot nesse filme: a Bond Girl da vez é ninguém menos que Eve Moneypenny (Naomie Harris), que na série original era a secretária de M, mas aqui é uma agente de campo do MI6, com direito a tiro, porrada e bomba; Q (Ben Whinshaw), o responsável pelas traquitanas que Bond usa em suas missões, retorna em uma versão mais jovem e moderna, conectado à internet e meio geek; e Gareth Mallory (Ralph Fiennes) é um ex-tenente das forças especiais que, ao final do filme, se tornará o novo M, em um encontro entre a série nova e a antiga - o escritório do novo M, da porta à mesa, é praticamente uma réplica do escritório original dos filmes da década de 1960, inclusive com Moneypenny sendo designada para ser sua assistente.
O enredo do filme envolve uma série de ataques cibernéticos, incluindo vazamento de dados sensíveis, orquestrada contra o MI6 por Raoul Silva (Javier Bardem), ex-agente do próprio MI6 que culpa M por ter sido capturado e torturado, e agora busca vingança - uma série de decisões questionáveis de M durante a investigação do caso levam o governo a interpretar que ela estaria também levando para o lado pessoal e a recomendar seu afastamento, com Bond se tornando seu único aliado e único disposto a seguir no encalço de Silva. Silva possui dois aliados, a femme fatale Sévérine (Bérénice Marlohe), uma espécie de "anti-Bond Girl" e o mercenário Patrice (Ola Rapace, ex-marido da hoje bem mais famosa Noomi Rapace, que tem esse sobrenome por causa dele). Albert Finney, um dos mais populares atores britânicos, faz uma participação especial como Kincaid, que tem uma ligação com a infância de Bond; de início, os produtores pensaram em chamar Sean Connery, como uma espécie de homenagem pelo 50o aniversário do primeiro filme, mas depois tiveram medo de que sua presença em outro papel que não o de Bond fosse malvisto pelo público, com Mendes sugerindo Finney - segundo Mendes, aliás, também foi dele a ideia de trazer Moneypenny e Q de volta, e de ter um vilão "histriônico, ao estilo dos da série original", ao invés dos sérios e sisudos dos dois filmes anteriores.
De forma pouco usual para um filme do 007, a maioria das filmagens ocorreria na Inglaterra, com apenas algumas poucas cenas sendo filmadas na Turquia e África do Sul; a equipe de produção pensaria em filmar na Índia, mas, devido à demora para obtenção das permissões, acabaria desistindo, e filmaria na China, mas sem a presença de nenhum dos atores do elenco principal, que faria em estúdios na Inglaterra suas cenas ambientadas na China. Até mesmo a ilha onde fica o quartel-general de Silva, inspirada na ilha japonesa de Hashima, e que no filme fica nos arredores de Macau, seria basicamente criada por computação gráfica, com todas as cenas lá ambientadas sendo filmadas na Inglaterra. Embora as cenas de ação ainda usassem principalmente efeitos à moda antiga, Skyfall teria muito mais efeitos de computação gráfica que seus dois predecessores.
Skyfall estrearia no Reino Unido em 26 de outubro de 2012, e duas semanas depois nos Estados Unidos; seria o primeiro filme estrelado por Craig a trazer a famosa "sequência do revólver" logo no início, ao estilo dos 20 primeiros filmes. A música-tema, escrita, composta e gravada pela cantora Adele, também se chamaria Skyfall, e seria a primeira música-tema de um filme do 007 a ganhar o Grammy de Melhor Canção Escrita pra uma Mídia Visual e o Oscar de Melhor Canção Original - sendo a quarta indicada ao Oscar, depois de Live and Let Die, Nobody Does It Better e For Your Eyes Only, todas de filmes estrelados por Roger Moore - o que faria com que Skyfall se tornasse o primeiro filme do 007 desde Goldfinger a ganhar um Oscar - e o primeiro da história a ganhar dois, já que levaria também o de Melhor Edição de Som. Skyfall também seria o primeiro 007 a passar da casa do bilhão, rendendo 1,109 bilhão de dólares quando somadas as bilheterias do mundo todo, se tornando o segundo filme mais rentável de 2012, atrás apenas de Os Vingadores, e, até então, o filme de maior bilheteria da história da Sony e da MGM. A crítica também seria bastante positiva, considerando-o um dos melhores filmes da série.
Em 2013, Mendes diria em entrevistas não ter interesse em dirigir também o filme seguinte, o que levaria a EON a convidar o dinamarquês Nicolas Winding Refn, que recusaria. Mas, enquanto a EON procurava por outro diretor, Mendes leria o primeiro rascunho do roteiro, ficaria empolgado com as possibilidades que ele trazia para o futuro da franquia, e decidiria voltar atrás, se tornando o primeiro a dirigir dois filmes seguidos do 007 desde John Glen (que dirigiu cinco, entre For Your Eyes Only, de 1981, e Licence to Kill, de 1989).
Um dos motivos que convenceriam Mendes a seguir na direção seria que, após ele trazer de volta Moneypenny, Q e o M original, a EON decidiria trazer de volta também Ernst Stavro Blofeld e a SPECTRE. Como quem acompanhou essa série de posts sabe, a última vez que vimos a organização criminosa internacional e o arqui-inimigo de Bond em um filme oficial foi em Diamonds Are Forever, de 1971; isso porque, dez anos antes, em 1961, quando o livro Thunderball foi lançado, o produtor Kevin McClory entraria na justiça, alegando ter sido ele, e não Fleming, o criador de Blofeld e da SPECTRE. Quando a EON decidisse adaptar Thunderball, em 1965, O caso seria resolvido com um acordo fora dos tribunais, segundo o qual a EON teria os direitos durante dez anos, ao fim dos quais McClory não teve interesse em renovar, pois planejava fazer seu próprio filme do 007 - lançado em 1983 com o nome de Never Say Never Again. Depois disso, McClory e a EON ficariam "de mal", e nunca mais negociariam. Somente após o falecimento de McClory, em 2006, a MGM começaria a negociar com seus herdeiros a compra dos direitos sobre os personagens e organizações criados por ele, finalmente os obtendo justamente em 2013, quando começaria a produção do vigésimo-quarto filme.
Chamado simplesmente Spectre (007 contra Spectre no Brasil - após a MGM comprar os direitos, o nome da organização deixaria de ser uma sigla), o filme traria Bond descobrindo acidentalmente a existência de uma organização criminosa internacional que tem como símbolo um polvo, comandada pelo misterioso Franz Oberhauser (Christoph Waltz). Suspenso por M após agir sem autorização, e às turras com o chefe de uma nova organização de segurança britânica, que fundiu o MI5 e o MI6 e quer acabar com o programa 00, a quem decide chamar de C (Andrew Scott), Bond decide ir ao funeral de um assassino ligado à organização, durante o qual salva a viúva (Monica Bellucci) e descobre que o Sr. White está morrendo e tem uma filha, a psiquiatra Madeleine Swann (Léa Seydoux), Bond girl da vez e alvo de um dos assassinos da organização, conhecido como Sr. Hinx (Dave Bautista). Enquanto salva a vida se Madeleine, Bond se apaixona por ela, e Q descobre que Le Chiffre, Dominic Greene e Raoul Silva todos tinham ligação com a organização, que Madeleine revela se chamar Spectre. Cabe a Bond, então, descobrir qual seria o grande plano da organização, precisando, para isso, encontrar Oberhauser - que, desculpem o spoiler, é ninguém menos que Blofeld.
Spectre estrearia no Reino Unido em 26 de Outubro de 2015, e nos Estados Unidos em 6 de novembro. Com bilheteria mundial de 880,7 milhões de dólares, seria o sexto filme mais rentável do ano e o segundo mais rentável de Bond, atrás apenas de Skyfall. Com a presença da Spectre liberada, o filme teve que fazer uma pequena retcon nos dois primeiros com Craig, transformando a Quantum de uma organização criminosa independente em um braço da Spectre - por isso o retorno de Mr. White, e por isso a revelação de que os vilões dos dois primeiros filmes também tinham ligações com a Spectre, com Silva também entrando nos quadros da organização para uma maior sensação de continuidade. Spectre também seria o primeiro filme desde Casino Royale a usar elementos das obras de Fleming, com Blofeld sendo filho de Hannes Oberhauser, personagem que, nos livros, foi tutor de Bond em sua adolescência. Além de Craig, retornariam a seus papéis Fiennes, Harris, Whishaw, Kinnear, Christensen e Dench, em sua última aparição como M, exatos 20 anos após sua estreia em GoldenEye.
Com orçamento final não revelado, mas estimado entre 250 e 275 milhões de dólares - um hacker que invadiu os e-mails da Sony divulgou a insatisfação da empresa com o fato de que o orçamento se aproximava dos 300 milhões - Spectre foi um dos filmes mais caros da história do cinema. Após fimar Skyfall inteiramente com câmeras digitais e não ficar satisfeito com o resultado, Mendes decidiria usar também câmeras Kodak 35 mm para algumas cenas, o que encareceria o filme. As filmagens ocorreriam no Reino Unido, Marrocos, México, Áustria e em Roma, onde protestos de moradores locais contra filmagens de cenas de perseguição e contra mostrar para o mundo pixações e lixo nas ruas romanas levariam à mudança ou cancelamento de várias cenas. As cenas no México também deram problema, pois envolviam uma procissão do Dia dos Mortos, que teve que ser criada do zero, fechando uma praça e grande parte de seu entorno. Boatos correram de que o roteiro do filme teria sido alterado a pedido do Governo Mexicano, que oficialmente negou ter exigido ser retratado positivamente para liberar as filmagens.
Para a música-tema seria escolhida a banda Radiohead, que, ao invés de compor uma canção nova, enviaria à produção Man of War, gravada na década de 1990 mas jamais lançada. Quando os produtores reclamaram que essa música não poderia concorrer ao Oscar de Melhor Canção Original, eles gravaram uma chamada Spectre, que foi rejeitada pelos produtores por ser muito melancólica - e, segundo boatos, porque os produtores acharam que eles tinham feito de má vontade. Após "desconvidar" o Radiohead, os produtores convidariam o cantor Sam Smith, que pediria para que a palavra Spectre não estivesse nem no título, nem na letra da música, gravando Writing's on the Wall, que, apesar de uma recepção morna por parte da crítica, seria a primeira música-tema de um filme do 007 a alcançar o primeiro lugar da parada de sucessos britânica, além de conseguir um segundo Oscar de Melhor Canção Original consecutivo.
O roteiro do 25o filme de Bond começaria a ser escrito já em 2016. Após Mendes anunciar que preferiria trabalhar em outros projetos, Christopher Nolan seria convidado, mas recusaria; Dennis Villeneuve chegaria a ser anunciado, mas desistiria em dezembro de 2017, para filmar Duna. Em fevereiro de 2018, Danny Boyle aceitaria dirigir, mas com a condição de que o roteiro que vinha sido escrito até então fosse descartado, e um novo fosse escrito por John Hodge; Boyle queria que o filme fosse ambientado na Rússia e explorasse o passado de Bond, algo com o que Broccoli e Wilson não concordavam. Felizmente para eles, Boyle e Hodge se desentenderiam em agosto daquele ano, e ambos se demitiriam; Cary Joji Fukunaga seria comfirmado como diretor no mês seguinte, se tornando o primeiro norte-americano a dirigir um filme oficial do 007. O filme entraria oficialmente em produção em abril de 2019, com filmagens na Noruega e Jamaica, que tiveram de ser interrompidas após Craig torcer o tornozelo e precisar de uma pequena cirurgia.
Junto com o anúncio do início da produção, seria anunciado o título do filme, No Time to Die (007 Sem Tempo Para Morrer, no Brasil); o título seria muito criticado, mas Barbara Broccoli alegaria ser um legítimo título ao estilo dos de Fleming, que cria expectativa mas só faz sentido após o fim da história. Desde o início, Craig, então já com 51 anos, deixaria claro que esse seria seu último filme como Bond, recusando uma proposta de 100 milhões de dólares para fazer mais dois; com isso, Broccoli pediria aos roteiristas para que amarassem todas as pontas soltas dos demais filmes e fizessem desse um verdadeiro último capítulo, para que, ao invés de o seguinte simplesmente substituir o intérprete de Bond, conte uma nova história.
O vilão da vez é Lyutsifer Safin (Rami Malek), especialista em venenos que cria uma toxina capaz de matar somente quem tem um DNA específico, que deseja se vingar da Spectre porque toda sua família foi morta pelo Sr. White. Bond, que está aposentado e vivendo no Caribe, se envolve na história a pedido de Leiter, que pede ajuda para investigar o sequestro de um cientista envolvido em um projeto secreto, Valdo Obruchev (David Dencik), que teria sido levado para Cuba. Craig, Waltz, Seydoux (primeira Bond girl a estar em dois filmes), Fiennes, Harris, Whishaw, Kinnear e Wright (primeiro ator a interpretar Leiter três vezes) repetem seus papéis dos filmes anteriores; outros personagens de destaque são Logan Ash (Billy Magnussen), parceiro de Leiter na investigação; Primo (Dali Benssalah), capanga de Safin que tem um olho biônico; a agente da CIA de codinome Paloma (Ana de Armas), parceira de Bond em Cuba; e a nova agente 007 (Lashana Lynch), que substituiu Bond no MI6.
Após Craig se recuperar, as filmagens seriam retomadas, ocorrendo na Inglaterra, Itália, Cuba e Ilhas Faroes; No Time to Die seria o primeiro 007 filmado em IMAX, e o que teria o maior número de efeitos especiais gerados por computação gráfica, com quatro empresas, incluindo a Industrial Light & Magic, trabalhando na pós-produção. A música-tema ficaria a cargo de Billie Eilish, mais jovem artista, com 18 anos, ao gravar uma, e seria a terceira consecutiva a conquistar o Oscar de Melhor Canção Original, e segunda a ganhar o Grammy de Melhor Canção Escrita pra uma Mídia Visual. A música We Have All the Time in the World, de Louis Armstrong, originalmente da trilha de On Her Majesty's Secret Service, toca nos créditos finais do filme.
Quando começou a pandemia, No Time to Die estava em pós-produção; mesmo assim, sua estreia seria atrasada em mais de um ano, somente ocorrendo em 28 de setembro de 2021 no Reino Unido e em 8 de outubro nos Estados Unidos; esse seria o primeiro filme do 007 a ser distribuído nos cinemas pela Universal (exceto nos Estados Unidos, onde foi distribuído pela United Artists), que fez uma oferta melhor para a MGM quando a obrigatoriedade de distribuição pela Sony expirou em 2015. Com orçamento estimado em 301 milhões de dólares, que faz com que ele seja um dos filmes mais caros da história e de longe o 007 mais caro de todos, renderia 774,2 milhões ao somar as bilheterias do mundo inteiro, se tornando o quarto filme mais rentável do ano, mas, ainda assim, dando prejuízo para a MGM - que estimou que precisaria de pelo menos 800 milhões para cobrir todos os custos de produção e divulgação. A crítica seria extremamente positiva, apesar de achar o filme longo demais e a atmosfera sombria demais.
Com o fim da carreira de Craig como 007, já começaram as especulações sobre o futuro da franquia. Como é pouco provável que nunca mais façam nenhum, resta saber quem será o próximo ator a assumir o manto de James Bond; o preferido dos fãs é Idris Elba, que é britânico e seria o primeiro Bond negro, mas, sendo apenas três anos mais novo que Craig (Elba atualmente está com 52, Craig com 55), parece ser uma escolha pouco provável. A lista de prováveis candidatos é eclética e inclui Henry Cavill (que chegou a ser cogitado para Casino Royale), Aaron Taylor-Johnson, Harry Styles, Will Poulter, Tom Hardy, Richard Madden, Taron Egerton, Dev Patel, Theo James e até mesmo Robert Pattinson. Seja quem for, quando ele tiver feito uns cinco filmes, eu retomo essa série.
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Para começar esse post, porém, eu vou ter que andar um pouquinho para trás. Como nós vimos lá em 2008, após uma série de fracassos estrelados por Pierce Brosnan, a EON Productions, responsável pela adaptação dos livros do 007 para o cinema (sim, se você não sabe que os filmes do 007 são parcialmente baseados em livros, por favor leia os posts anteriores), decidiria não por uma sequência, e sim por um reboot, começando a história toda do zero, totalmente adaptada para o século XXI. Assim, Casino Royale, que estreou em novembro de 2006, primeiro da série com Daniel Craig no papel principal, ignoraria todos os 20 filmes anteriores, e mostraria um jovem James Bond, pouco tempo depois de conseguir sua licença para matar, em sua primeira missão internacional de grande importância, durante a qual conhece o agente da CIA Felix Leiter (Jeffrey Wright) e o grande amor de sua vida, Vesper Lynd (Eva Green).
O reboot também permitiria à EON fazer uma coisa que jamais havia acontecido em 45 anos de filmes do 007: os cinco filmes estrelados por Craig são sequenciais, com uma única história, e os eventos de cada um se refletindo nos seguintes. Até então, embora alguns elementos de filmes anteriores fossem citados ou mostrados nos filmes seguintes, a maioria deles se parecia com easter eggs ou fanservice, com cada filme sendo mais como uma história solta, com começo, meio e fim e sem nenhuma influência das anteriores ou sobre as seguintes. Isso funcionou relativamente bem durante as décadas de 1960, 1970 e 1980, quando as séries de televisão também seguiam uma estrutura parecida, mas foi considerado pela MGM como um dos principais fatores para o fracasso dos filmes do fim da década de 1990, uma época na qual o público já estranhava a mudança de intérprete para Bond sem nenhuma explicação e o fato de que ele parecia não ter memórias de suas aventuras prévias. Os cinco filmes de Craig, portanto, são uma espécie de "série dentro da série", seguindo a estrutura de continuações que já é familiar ao público do cinema.
Com esse fator em mente, o filme seguinte, Quantum of Solace, seria uma continuação direta de Casino Royale, tanto que a pré-produção de ambos os filmes seria conjunta, e começaria já em 2005. Quantum of Solace é o título de um conto escrito por Ian Fleming, o criador do 007, em 1959, mas o filme não tem absolutamente nada a ver com o conto, sendo um roteiro totalmente original; no Brasil, o título desse conto já foi traduzido para O Quantum do Refrigério e para o quase pornográfico A Medida do Consolo, de forma que, sem uma tradução melhor, e sem querer mudar completamente o título, a Sony do Brasil optaria por deixá-lo quase no original, com o filme em nosso país se chamando 007 Quantum of Solace.
O filme começa pouquíssimo tempo após o final de Casino Royale, com Bond descobrindo através do Sr. White (Jesper Christensen) que uma organização criminosa chamada Quantum (talvez para dar um sentido ao nome do filme) possui agentes infiltrados no MI6, o serviço secreto britânico, um deles o guarda-costas de M (Judi Dench). Investigando esse guarda-costas após um atentado frustrado contra a vida de sua chefe, Bond acaba conhecendo a Bond Girl da vez, Camille Montes (a atriz ucraniana Olga Kurylenko), namorada do ambientalista Dominic Greene (Mathieu Amalric), que aparentemente faz parte da Quantum e secretamente está ajudando o General Medrano (Joaquín Cosío), exilado após tentar dar um golpe de estado em seu país natal, a Bolívia, a concretizar esse golpe e tomar o poder, com Greene, em troca, recebendo um terreno aparentemente sem valor no meio do deserto - para complicar ainda mais a situação, Medrano foi o responsável pela morte de toda a família de Camille, que busca vingança. Bond, então, decide viajar para a Bolívia, para descobrir qual seria o interesse de Greene nesse terreno, enquanto busca mais informações sobre a Quantum, seus infiltrados e seu propósito.
Wright também participa do filme como Leiter, enviado pela CIA porque o governo dos Estados Unidos fez um acordo com Greene, segundo o qual, com Medrano no poder, todos os direitos de exploração de petróleo encontrado em solo boliviano pertenceriam a empresas norte-americanas. No melhor estilo dos filmes de 007, o vilão também tem um capanga excêntrico e chamativo, Elvis (Anatole Taubman), um assassino meio incompetente que só faz parte da Quantum porque é primo de Greene; e uma garota bonita e de nome estranho que faz uma breve parceria com Bond, a agente Strawberry Fields (Gemma Arterton), que trabalha no consulado britânico na Bolívia. Apesar disso, Quantum of Solace faria um esforço para se distanciar de normas e conceitos estabelecidos na série original de Bond, como o vilão caricato ou a Bond Girl que é pouco mais que uma donzela em perigo - Camille tem seu próprio plano para assassinar Medrano e não se deixa seduzir por Bond facilmente, enquanto Greene se comporta praticamente como um empresário corrupto do mundo real. Também vale dizer que esse filme marca a primeira aparição do chefe de pessoal de M, Bill Tanner (Rory Kinnear), que também estaria presente nos três filmes seguintes.
A produção de Quantum of Solace seria conturbada e marcada por muitas desavenças, desde um protesto no Chile porque as cenas no deserto foram filmadas lá ao invés de na Bolívia, passando por uma reclamação do governo boliviano pela forma como o país seria retratado, até uma pequena revolta por Kurylenko interpretar uma boliviana - o que tentou ser apaziguado com o argumento de que a personagem é "descendente de russos e bolivianos"; no início, os produtores cogitaram escolher uma atriz latina, e consideraram até as brasileiras Juliana Paes e Fernanda Lima, mas optaram por Kurylenko por sua performance em Hitman. Durante a pré-produção, o diretor seria Roger Mitchell, de um Lugar Chamado Notting Hill, que já havia trabalhado com Craig em Amor para Sempre, mas desistiria por achar que o roteiro estava sendo reescrito muitas vezes, o que poderia ser um indicativo de que a versão final não teria qualidade; ele seria substituído por Marc Forster, que se diria surpreso por ter sido convidado, já que não era fã de Bond e sequer tinha assistido Casino Royale, mas aceitaria após ver que o reboot tinha "humanizado" o personagem, que já não era mais um superespião inabalável. Forster participaria de mais uma reescritura do roteiro, principalmente por não querer fazer um filme longo - segundo ele, um bom filme de espionagem deve ser "rápído como uma bala".
Segundo a lenda, a versão final do roteiro ficaria pronta duas horas antes de ser declarada a greve dos roteiristas de 2007. Embora isso tenha permitido que as filmagens começassem sem atrasos, também significou que nenhum roteirista podia estar presente no set, e que mudanças no roteiro durante as filmagens tinham de ser feitas por Forster ou até mesmo por Craig. Em entrevistas posteriores, Craig declararia ter odiado a experiência e não estar disposto a nunca mais fazer um filme dessa forma. Após o final da greve, um roteirista não creditado seria contratado para reescrever as cenas com as quais o diretor ainda não estava satisfeito, e algumas delas acabariam refilmadas.
Quantum of Solace seria o único filme da série a trazer a famosa "sequência do revólver" no final do filme ao invés de no começo - segundo Forster, isso seria feito para simbolizar que a "história de origem" de Bond, iniciada no filme anterior, estava finalizada. A música da abertura, Another Way to Die, pela primeira vez seria um dueto, cantado por Alicia Keys e Jack White, escolhidos após os produtores cogitarem as cantoras Amy Winehouse, Beyoncé, Leona Lewis e Duffy. Mais uma vez, para que o filme tivesse o "estilo 007", seria usado o mínimo de efeitos de computação possível, com todas as principais cenas usando dublês - inclusive, após dois acidentes graves, um deles no qual um Aston Martin caiu dentro de um lago na Itália, começaram a correr rumores sobre uma "maldição", e que o filme não devia ser concluído. Os principais efeitos de computação seriam usados na cena do incêndio, para que o fogo e a fumaça parecessem estar mais próximos dos atores do que realmente estavam, e na perseguição de barcos.
Quantum of Solace estrearia no Reino Unido em 31 de outubro de 2008, e nos Estados Unidos em 14 de novembro. Com orçamento não revelado, mas estimado entre 200 e 230 milhões de dólares, renderia quase 590 milhões considerando a bilheteria global, e seria considerado pela Sony como um grande sucesso; ainda assim, a crítica consideraria o filme "decepcionante", e elegeria Greene "o pior vilão de Bond de todos os tempos". O filme é hoje considerado o mais fraco dos cinco de Craig, com o ator conjecturando que a greve dos roteiristas pode ter tido um papel nessa percepção, e que talvez tivesse sido melhor adiar a estreia para ter um roteirista presente durante as filmagens. Apesar das críticas negativas, como a bilheteria foi boa, e como Craig já tinha mesmo contrato para três filmes, a EON decidiria seguir em frente e começar a produção do próximo.
A intenção de Barbara Broccoli e Michael G. Wilson, produtores da série, era que um filme estrelado por Craig estreasse a cada dois anos, como ocorreu durante a maior parte da carreira do 007; assim, a estreia do filme seguinte seria marcada para 2010. Entretanto, o roteiro, que originalmente seria escrito por Peter Morgan, sofreria uma série de atrasos, e esse ano chegaria sem que as filmagens tivessem começado; para piorar a situação, a MGM, responsável pela distribuição dos filmes da franquia, e que desde 2005 fazia parte de um consórcio do qual um dos donos era a Sony, em 2010 entraria com um pedido judicial de reorganização, uma espécie de falência prevista na lei dos Estados Unidos que, ao invés de dissolver a empresa, muda seu comando, que passaria para alguns de seus principais credores. Diante de todos esses problemas, a EON decidiria contratar novos roteiristas e adiar a estreia do filme para 2012, quando o primeiro filme de James Bond faria seu aniversário de 50 anos.
Chamado Skyfall (007 Operação Skyfall no Brasil, skyfall é a "queda do céu"), o vigésimo-terceiro filme da série seria dirigido por Sam Mendes, de Beleza Americana e Estrada para a Perdição, contratado pouco após a estreia de Quantum of Solace, quando Forster declararia não ter interesse em dirigir o filme seguinte. Durante a pré-produção, surgiriam boatos de que o filme se chamaria Carte Blanche, e seria uma adaptação de um romance do 007 escrito por Jeffery Deaver e publicado em 2011, se tornando, assim, o primeiro filme a não ser nem uma adaptação de um romance de Fleming, nem um roteiro original; Barbara Broccoli se apressaria a desmentir esses boatos, mas manteria o nome oficial do filme em segredo até novembro de 2011. O nome Skyfall não aparece em nenhum dos romances de Fleming, e foi criado pelos roteiristas do filme para "soar misterioso" e "cativar a imaginação do público"; ao contrário do que o título em português dá a entender, não há nenhuma operação no filme chamada Skyfall - embora haja um motivo para o filme ter esse nome, que eu não vou revelar porque é meio que um spoiler.
Do elenco dos filmes anteriores, retornam apenas Craig como Bond, Dench como M e Kinnear como Tanner; por outro lado, três outros agentes do MI6 de interesse estreiam no reboot nesse filme: a Bond Girl da vez é ninguém menos que Eve Moneypenny (Naomie Harris), que na série original era a secretária de M, mas aqui é uma agente de campo do MI6, com direito a tiro, porrada e bomba; Q (Ben Whinshaw), o responsável pelas traquitanas que Bond usa em suas missões, retorna em uma versão mais jovem e moderna, conectado à internet e meio geek; e Gareth Mallory (Ralph Fiennes) é um ex-tenente das forças especiais que, ao final do filme, se tornará o novo M, em um encontro entre a série nova e a antiga - o escritório do novo M, da porta à mesa, é praticamente uma réplica do escritório original dos filmes da década de 1960, inclusive com Moneypenny sendo designada para ser sua assistente.
O enredo do filme envolve uma série de ataques cibernéticos, incluindo vazamento de dados sensíveis, orquestrada contra o MI6 por Raoul Silva (Javier Bardem), ex-agente do próprio MI6 que culpa M por ter sido capturado e torturado, e agora busca vingança - uma série de decisões questionáveis de M durante a investigação do caso levam o governo a interpretar que ela estaria também levando para o lado pessoal e a recomendar seu afastamento, com Bond se tornando seu único aliado e único disposto a seguir no encalço de Silva. Silva possui dois aliados, a femme fatale Sévérine (Bérénice Marlohe), uma espécie de "anti-Bond Girl" e o mercenário Patrice (Ola Rapace, ex-marido da hoje bem mais famosa Noomi Rapace, que tem esse sobrenome por causa dele). Albert Finney, um dos mais populares atores britânicos, faz uma participação especial como Kincaid, que tem uma ligação com a infância de Bond; de início, os produtores pensaram em chamar Sean Connery, como uma espécie de homenagem pelo 50o aniversário do primeiro filme, mas depois tiveram medo de que sua presença em outro papel que não o de Bond fosse malvisto pelo público, com Mendes sugerindo Finney - segundo Mendes, aliás, também foi dele a ideia de trazer Moneypenny e Q de volta, e de ter um vilão "histriônico, ao estilo dos da série original", ao invés dos sérios e sisudos dos dois filmes anteriores.
De forma pouco usual para um filme do 007, a maioria das filmagens ocorreria na Inglaterra, com apenas algumas poucas cenas sendo filmadas na Turquia e África do Sul; a equipe de produção pensaria em filmar na Índia, mas, devido à demora para obtenção das permissões, acabaria desistindo, e filmaria na China, mas sem a presença de nenhum dos atores do elenco principal, que faria em estúdios na Inglaterra suas cenas ambientadas na China. Até mesmo a ilha onde fica o quartel-general de Silva, inspirada na ilha japonesa de Hashima, e que no filme fica nos arredores de Macau, seria basicamente criada por computação gráfica, com todas as cenas lá ambientadas sendo filmadas na Inglaterra. Embora as cenas de ação ainda usassem principalmente efeitos à moda antiga, Skyfall teria muito mais efeitos de computação gráfica que seus dois predecessores.
Skyfall estrearia no Reino Unido em 26 de outubro de 2012, e duas semanas depois nos Estados Unidos; seria o primeiro filme estrelado por Craig a trazer a famosa "sequência do revólver" logo no início, ao estilo dos 20 primeiros filmes. A música-tema, escrita, composta e gravada pela cantora Adele, também se chamaria Skyfall, e seria a primeira música-tema de um filme do 007 a ganhar o Grammy de Melhor Canção Escrita pra uma Mídia Visual e o Oscar de Melhor Canção Original - sendo a quarta indicada ao Oscar, depois de Live and Let Die, Nobody Does It Better e For Your Eyes Only, todas de filmes estrelados por Roger Moore - o que faria com que Skyfall se tornasse o primeiro filme do 007 desde Goldfinger a ganhar um Oscar - e o primeiro da história a ganhar dois, já que levaria também o de Melhor Edição de Som. Skyfall também seria o primeiro 007 a passar da casa do bilhão, rendendo 1,109 bilhão de dólares quando somadas as bilheterias do mundo todo, se tornando o segundo filme mais rentável de 2012, atrás apenas de Os Vingadores, e, até então, o filme de maior bilheteria da história da Sony e da MGM. A crítica também seria bastante positiva, considerando-o um dos melhores filmes da série.
Em 2013, Mendes diria em entrevistas não ter interesse em dirigir também o filme seguinte, o que levaria a EON a convidar o dinamarquês Nicolas Winding Refn, que recusaria. Mas, enquanto a EON procurava por outro diretor, Mendes leria o primeiro rascunho do roteiro, ficaria empolgado com as possibilidades que ele trazia para o futuro da franquia, e decidiria voltar atrás, se tornando o primeiro a dirigir dois filmes seguidos do 007 desde John Glen (que dirigiu cinco, entre For Your Eyes Only, de 1981, e Licence to Kill, de 1989).
Um dos motivos que convenceriam Mendes a seguir na direção seria que, após ele trazer de volta Moneypenny, Q e o M original, a EON decidiria trazer de volta também Ernst Stavro Blofeld e a SPECTRE. Como quem acompanhou essa série de posts sabe, a última vez que vimos a organização criminosa internacional e o arqui-inimigo de Bond em um filme oficial foi em Diamonds Are Forever, de 1971; isso porque, dez anos antes, em 1961, quando o livro Thunderball foi lançado, o produtor Kevin McClory entraria na justiça, alegando ter sido ele, e não Fleming, o criador de Blofeld e da SPECTRE. Quando a EON decidisse adaptar Thunderball, em 1965, O caso seria resolvido com um acordo fora dos tribunais, segundo o qual a EON teria os direitos durante dez anos, ao fim dos quais McClory não teve interesse em renovar, pois planejava fazer seu próprio filme do 007 - lançado em 1983 com o nome de Never Say Never Again. Depois disso, McClory e a EON ficariam "de mal", e nunca mais negociariam. Somente após o falecimento de McClory, em 2006, a MGM começaria a negociar com seus herdeiros a compra dos direitos sobre os personagens e organizações criados por ele, finalmente os obtendo justamente em 2013, quando começaria a produção do vigésimo-quarto filme.
Chamado simplesmente Spectre (007 contra Spectre no Brasil - após a MGM comprar os direitos, o nome da organização deixaria de ser uma sigla), o filme traria Bond descobrindo acidentalmente a existência de uma organização criminosa internacional que tem como símbolo um polvo, comandada pelo misterioso Franz Oberhauser (Christoph Waltz). Suspenso por M após agir sem autorização, e às turras com o chefe de uma nova organização de segurança britânica, que fundiu o MI5 e o MI6 e quer acabar com o programa 00, a quem decide chamar de C (Andrew Scott), Bond decide ir ao funeral de um assassino ligado à organização, durante o qual salva a viúva (Monica Bellucci) e descobre que o Sr. White está morrendo e tem uma filha, a psiquiatra Madeleine Swann (Léa Seydoux), Bond girl da vez e alvo de um dos assassinos da organização, conhecido como Sr. Hinx (Dave Bautista). Enquanto salva a vida se Madeleine, Bond se apaixona por ela, e Q descobre que Le Chiffre, Dominic Greene e Raoul Silva todos tinham ligação com a organização, que Madeleine revela se chamar Spectre. Cabe a Bond, então, descobrir qual seria o grande plano da organização, precisando, para isso, encontrar Oberhauser - que, desculpem o spoiler, é ninguém menos que Blofeld.
Spectre estrearia no Reino Unido em 26 de Outubro de 2015, e nos Estados Unidos em 6 de novembro. Com bilheteria mundial de 880,7 milhões de dólares, seria o sexto filme mais rentável do ano e o segundo mais rentável de Bond, atrás apenas de Skyfall. Com a presença da Spectre liberada, o filme teve que fazer uma pequena retcon nos dois primeiros com Craig, transformando a Quantum de uma organização criminosa independente em um braço da Spectre - por isso o retorno de Mr. White, e por isso a revelação de que os vilões dos dois primeiros filmes também tinham ligações com a Spectre, com Silva também entrando nos quadros da organização para uma maior sensação de continuidade. Spectre também seria o primeiro filme desde Casino Royale a usar elementos das obras de Fleming, com Blofeld sendo filho de Hannes Oberhauser, personagem que, nos livros, foi tutor de Bond em sua adolescência. Além de Craig, retornariam a seus papéis Fiennes, Harris, Whishaw, Kinnear, Christensen e Dench, em sua última aparição como M, exatos 20 anos após sua estreia em GoldenEye.
Com orçamento final não revelado, mas estimado entre 250 e 275 milhões de dólares - um hacker que invadiu os e-mails da Sony divulgou a insatisfação da empresa com o fato de que o orçamento se aproximava dos 300 milhões - Spectre foi um dos filmes mais caros da história do cinema. Após fimar Skyfall inteiramente com câmeras digitais e não ficar satisfeito com o resultado, Mendes decidiria usar também câmeras Kodak 35 mm para algumas cenas, o que encareceria o filme. As filmagens ocorreriam no Reino Unido, Marrocos, México, Áustria e em Roma, onde protestos de moradores locais contra filmagens de cenas de perseguição e contra mostrar para o mundo pixações e lixo nas ruas romanas levariam à mudança ou cancelamento de várias cenas. As cenas no México também deram problema, pois envolviam uma procissão do Dia dos Mortos, que teve que ser criada do zero, fechando uma praça e grande parte de seu entorno. Boatos correram de que o roteiro do filme teria sido alterado a pedido do Governo Mexicano, que oficialmente negou ter exigido ser retratado positivamente para liberar as filmagens.
Para a música-tema seria escolhida a banda Radiohead, que, ao invés de compor uma canção nova, enviaria à produção Man of War, gravada na década de 1990 mas jamais lançada. Quando os produtores reclamaram que essa música não poderia concorrer ao Oscar de Melhor Canção Original, eles gravaram uma chamada Spectre, que foi rejeitada pelos produtores por ser muito melancólica - e, segundo boatos, porque os produtores acharam que eles tinham feito de má vontade. Após "desconvidar" o Radiohead, os produtores convidariam o cantor Sam Smith, que pediria para que a palavra Spectre não estivesse nem no título, nem na letra da música, gravando Writing's on the Wall, que, apesar de uma recepção morna por parte da crítica, seria a primeira música-tema de um filme do 007 a alcançar o primeiro lugar da parada de sucessos britânica, além de conseguir um segundo Oscar de Melhor Canção Original consecutivo.
O roteiro do 25o filme de Bond começaria a ser escrito já em 2016. Após Mendes anunciar que preferiria trabalhar em outros projetos, Christopher Nolan seria convidado, mas recusaria; Dennis Villeneuve chegaria a ser anunciado, mas desistiria em dezembro de 2017, para filmar Duna. Em fevereiro de 2018, Danny Boyle aceitaria dirigir, mas com a condição de que o roteiro que vinha sido escrito até então fosse descartado, e um novo fosse escrito por John Hodge; Boyle queria que o filme fosse ambientado na Rússia e explorasse o passado de Bond, algo com o que Broccoli e Wilson não concordavam. Felizmente para eles, Boyle e Hodge se desentenderiam em agosto daquele ano, e ambos se demitiriam; Cary Joji Fukunaga seria comfirmado como diretor no mês seguinte, se tornando o primeiro norte-americano a dirigir um filme oficial do 007. O filme entraria oficialmente em produção em abril de 2019, com filmagens na Noruega e Jamaica, que tiveram de ser interrompidas após Craig torcer o tornozelo e precisar de uma pequena cirurgia.
Junto com o anúncio do início da produção, seria anunciado o título do filme, No Time to Die (007 Sem Tempo Para Morrer, no Brasil); o título seria muito criticado, mas Barbara Broccoli alegaria ser um legítimo título ao estilo dos de Fleming, que cria expectativa mas só faz sentido após o fim da história. Desde o início, Craig, então já com 51 anos, deixaria claro que esse seria seu último filme como Bond, recusando uma proposta de 100 milhões de dólares para fazer mais dois; com isso, Broccoli pediria aos roteiristas para que amarassem todas as pontas soltas dos demais filmes e fizessem desse um verdadeiro último capítulo, para que, ao invés de o seguinte simplesmente substituir o intérprete de Bond, conte uma nova história.
O vilão da vez é Lyutsifer Safin (Rami Malek), especialista em venenos que cria uma toxina capaz de matar somente quem tem um DNA específico, que deseja se vingar da Spectre porque toda sua família foi morta pelo Sr. White. Bond, que está aposentado e vivendo no Caribe, se envolve na história a pedido de Leiter, que pede ajuda para investigar o sequestro de um cientista envolvido em um projeto secreto, Valdo Obruchev (David Dencik), que teria sido levado para Cuba. Craig, Waltz, Seydoux (primeira Bond girl a estar em dois filmes), Fiennes, Harris, Whishaw, Kinnear e Wright (primeiro ator a interpretar Leiter três vezes) repetem seus papéis dos filmes anteriores; outros personagens de destaque são Logan Ash (Billy Magnussen), parceiro de Leiter na investigação; Primo (Dali Benssalah), capanga de Safin que tem um olho biônico; a agente da CIA de codinome Paloma (Ana de Armas), parceira de Bond em Cuba; e a nova agente 007 (Lashana Lynch), que substituiu Bond no MI6.
Após Craig se recuperar, as filmagens seriam retomadas, ocorrendo na Inglaterra, Itália, Cuba e Ilhas Faroes; No Time to Die seria o primeiro 007 filmado em IMAX, e o que teria o maior número de efeitos especiais gerados por computação gráfica, com quatro empresas, incluindo a Industrial Light & Magic, trabalhando na pós-produção. A música-tema ficaria a cargo de Billie Eilish, mais jovem artista, com 18 anos, ao gravar uma, e seria a terceira consecutiva a conquistar o Oscar de Melhor Canção Original, e segunda a ganhar o Grammy de Melhor Canção Escrita pra uma Mídia Visual. A música We Have All the Time in the World, de Louis Armstrong, originalmente da trilha de On Her Majesty's Secret Service, toca nos créditos finais do filme.
Quando começou a pandemia, No Time to Die estava em pós-produção; mesmo assim, sua estreia seria atrasada em mais de um ano, somente ocorrendo em 28 de setembro de 2021 no Reino Unido e em 8 de outubro nos Estados Unidos; esse seria o primeiro filme do 007 a ser distribuído nos cinemas pela Universal (exceto nos Estados Unidos, onde foi distribuído pela United Artists), que fez uma oferta melhor para a MGM quando a obrigatoriedade de distribuição pela Sony expirou em 2015. Com orçamento estimado em 301 milhões de dólares, que faz com que ele seja um dos filmes mais caros da história e de longe o 007 mais caro de todos, renderia 774,2 milhões ao somar as bilheterias do mundo inteiro, se tornando o quarto filme mais rentável do ano, mas, ainda assim, dando prejuízo para a MGM - que estimou que precisaria de pelo menos 800 milhões para cobrir todos os custos de produção e divulgação. A crítica seria extremamente positiva, apesar de achar o filme longo demais e a atmosfera sombria demais.
Com o fim da carreira de Craig como 007, já começaram as especulações sobre o futuro da franquia. Como é pouco provável que nunca mais façam nenhum, resta saber quem será o próximo ator a assumir o manto de James Bond; o preferido dos fãs é Idris Elba, que é britânico e seria o primeiro Bond negro, mas, sendo apenas três anos mais novo que Craig (Elba atualmente está com 52, Craig com 55), parece ser uma escolha pouco provável. A lista de prováveis candidatos é eclética e inclui Henry Cavill (que chegou a ser cogitado para Casino Royale), Aaron Taylor-Johnson, Harry Styles, Will Poulter, Tom Hardy, Richard Madden, Taron Egerton, Dev Patel, Theo James e até mesmo Robert Pattinson. Seja quem for, quando ele tiver feito uns cinco filmes, eu retomo essa série.
James Bond |
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Daniel Craig |
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Desta vez, porém, eles procuraram pouco. Assumindo a produção, Barbara Broccoli, filha de Albert, e Michael G. Wilson, co-produtor dos últimos três filmes, decidiram contratar Pierce Brosnan, 42 anos, que já havia sido considerado para o papel quando Roger Moore deu lugar a Dalton. Barbara e Wilson também escolheram para a direção o neozelandês Martin Campbell, sem nenhum grande sucesso no currículo, mas considerado bastante promissor. Finalmente, para aproveitar a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética, os produtores decidiram fazer do novo filme uma "modernização" de Bond - já considerado por muitos críticos como "ultrapassado" e "sem lugar no mundo atual". Assim surgiu GoldenEye.
Desta vez, Bond deve enfrentar um magnata das telecomunicações, Elliot Carver (Jonathan Pryce), que possui o singelo plano de usar sua influência na mídia para engenderar alguns eventos que levariam à Terceira Guerra Mundial, para obter vantagens financeiras, evidentemente. Carver possui dois capangas de respeito - o tecno-terrorista Henry Gupta (Ricky Jay) e o fortão Stamper (Götz Otto, que ganhou o papel dizendo no teste que era "grande, mau e alemão") - e, ainda por cima, é casado com uma ex-namorada de Bond, Paris (Teri Hatcher). A Bond Girl do filme é uma agente chinesa, Wai Lin (Michelle Yeoh), que também investiga as empresas de Carver, devido ao aumento de sua influência no sudeste asiático. Bond também conta mais uma vez com a ajuda de Jack Wade, e o filme introduz um novo personagem recorrente, o agente do MI6 Charles Robinson (Colin Salmon), que também participaria dos dois filmes seguintes.
A escolha de Craig, porém, não foi pacífica: pela primeira vez, os fãs se revoltaram contra a decisão dos produtores, alegando que o ator não se enquadrava na descrição de Bond presente nos livros, principalmente por ser louro. Até mesmo um site, danielcraigisnotbond.com chegou a ser posto na ar para expressar seu descontentamento. Apesar disso, a EON manteve sua decisão, e o futuro provaria que ela o faria bem: a maioria dos críticos foi extremamente elogiosa quanto à interpretação de Craig, e aparentemente até os fãs acabaram se rendendo após o filme, já que ele foi confirmado também para os dois próximos.
Tanto que o próximo filme, Quantum of Solace (ainda sem título no Brasil, mas provavelmente não será a tradução literal, "a medida do consolo"), será uma seqüência direta dele. Dirigido por Marc Forster (de De Volta à Terra do Nunca) e com estréia prevista para o final deste ano, o filme tira seu título de um dos contos do livro For Your Eyes Only, embora o enredo seja totalmente diferente.
O filme tem uma das seqüências de abertura mais curiosas da série, onde Bond está visitando o túmulo de sua esposa quando é atacado por Blofeld (John Hollis, dublado por Robert Rietty). Bond consegue se livrar da armadilha do vilão e o mata, acabando com sua ameaça de uma vez por todas. Embora o nome de Blofeld não seja citado em momento algum, é claramente o vilão, e esta seqüência foi incluída por dois motivos: primeiro porque a "morte" de Blofeld em Diamonds Are Forever foi meio subentendida, propositalmente, já que a EON ainda tinha esperanças de usá-lo em um outro filme, mas, como Kevin McClory, o dono dos direitos sobre o personagem, jamais permitiu, eles decidiram demonstrar de uma vez por todas que o vilão estava morto. Em segundo lugar, porque havia um boato de que Moore, cansado do papel, não aceitaria repeti-lo, então a cena serviria para apresentar um novo Bond ao público. Moore acabou aceitando voltar ao papel, mas a cena foi mantida assim mesmo.
Assim como seu antecessor, Octopussy tira seu nome de um conto, o principal do livro Octopussy and The Living Daylights, décimo-quarto e último da série, publicado dois anos após a morte de Fleming, em 1966. Sua primeira edição trazia apenas dois contos (evidentemente, Octopussy e The Living Daylights), mas a partir da segunda edição foi incluído The Property of a Lady, e, em 2002, o último conto de Fleming que permanecia inédito, 007 in New York - a única de suas histórias a trazer "007" no nome.
Essencialmente, Never Say Never Again (no Brasil, 007 Nunca Mais Outra Vez) é uma refilmagem de Thunderball, mas, embora o enredo seja o mesmo, o filme é bastante diferente. Nele, a organização criminosa SPECTRE, liderada por Ernst Stavro Blofeld (Max von Sydow) rouba dois mísseis nucleares norte-americanos, e exige bilhões de dólares para não usá-los contra o mundo. Bond é então enviado para as Bahamas, onde enfrentará um dos agentes da SPECTRE, Maximilian Largo (Klaus Maria Brandauer), tentará escapar da perigosa Fatima Blush (Barbara Carrera) e se envolverá com a Bond Girl Domino Petachi (Kim Basinger), namorada de Largo; tudo isso contando com a ajuda do agente da CIA Felix Leiter (Bernie Casey) e do atrapalhado Nigel Small-Fawcett (Rowan Atkinson, conhecido por aqui como Mr. Bean). Curiosamente, neste filme Bond é considerado um agente velho e à beira da aposentadoria, e M (Edward Fox) só aceita enviá-lo em missão quando descobre que a SPECTRE está envolvida. Também curiosamente, o filme parece ignorar os demais, já que Bond e Blofeld não se conhecem.
A View to a Kill foi o sétimo e último filme de Roger Moore como 007, que, ao fim de seu contrato, evidentemente não tinha interesse nenhum em renová-lo. Assim, começou uma nova busca por um novo Bond, onde foram considerados Lewis Collins, Sam Neil, Pierce Brosnan - que quase ficou com o papel, não fosse ele o protagonista da série de detetive Remington Steele, da NBC - e Timothy Dalton, que após bater na trave por pelo menos duas vezes, finalmente ficou com o papel, aos 40 anos de idade.
Quarto filme dirigido por Glen, The Living Daylights teve um orçamento de 40 milhões de dólares, e estreou em junho de 1987, rendendo 51 milhões nos Estados Unidos, e 191 milhões no mundo inteiro. A música-tema foi interpretada pela banda a-ha, mas The Living Daylights foi o primeiro filme da série a utilizar uma música diferente da música-tema durante os créditos finais, no caso, If There Was A Man, interpretada por Chrissie Hynde, dos Pretenders. O filme gerou pelo menos um incidente curioso: o esquema de Whitaker utiliza veículos e embalagens da Cruz Vermelha para traficar ópio, o que fez com que a famosa organização humanitária ameaçasse processar a MGM, e rendeu um aviso na abertura do filme de que o símbolo da Cruz Vermelha foi usado sem autorização.
A estréia de Lazenby no papel de Bond aconteceu em On Her Majesty's Secret Service (traduzido no Brasil para 007 a Serviço Secreto de Sua Majestade), adaptação do décimo-primeiro livro da série, de 1963. Na verdade, OHMSS estava em uma espécie de fila de espera: a intenção da EON era lançá-lo após Goldfinger, mas, como acabaram chegando a um acordo quanto aos direitos de Thunderball, optaram por este. OHMSS então seria lançado após Thunderball, mas a produção optou por You Only Live Twice por encontrar dificuldades com as locações, que na época das filmagens não tinham neve suficiente para algumas das cenas do filme. Após algum planejamento, OHMSS finalmente conseguiu ser filmado para estrear em dezembro de 1969, pela primeira vez simultaneamente nos Estados Unidos e Reino Unido.
Sem Lazenby, os produtores consideraram convidar John Gavin, Michael Gambon, e até mesmo Adam West, o Batman da série de TV, para interpretar Bond. Irritados, os executivos da United Artists deram uma espécie de ultimato: ou Connery voltava para o papel, ou não haveria filme algum. Aos 41 anos, Connery não cogitava interpretar o 007 novamente, mas a UA insistiu que ele deveria, e que dinheiro não era problema. Após muitas negociações, Connery aceitou voltar em troca da promessa de que a UA cobriria todos os gastos dos próximos dois filmes estrelados por ele, e do equivalente hoje a 20 milhões de dólares, com os quais fundou a Scottish International Education Trust, que até hoje possibilita que jovens atores escoceses estudem interpretação e consigam seus primeiros papéis sem ter de sair da Escócia.
Para se tornar o oitavo filme, a EON escolheu o segundo livro, de 1954. Live and Let Die (no Brasil, Com 007 Viva e Deixe Morrer) leva Bond mais uma vez ao Caribe e aos Estados Unidos, desta vez na trilha do Dr. Kananga (Yaphet Kotto), nativo da fictícia nação de San Monique, aparentemente o respeitável dono de uma cadeia de restaurantes em Nova Iorque e Nova Orleans, mas que também é o líder de uma das mais violentas gangues do Harlem, possui um guarda-costas com mão de gancho (Julius Harris) e um plano maligno segundo o qual distribuirá duas toneladas de heroína de graça, falindo todos os demais traficantes da droga e conseguindo um monopólio no setor. Como bom caribenho, Kananga também é adepto do vodu, aliado do Barão Samedi (Geoffrey Holder), que aparenta ser o deus do vodu em pessoa; e namorado de Solitaire (Jane Seymour), que tem o poder de prever o futuro, dando uma imensa vantagem ao vilão. Como se tudo isso já não bastasse, Kananga ainda pode ser mais velho do que aparenta, pois diz ter usado os serviços de vidência da mãe de Solitaire, antes dela perder seus poderes junto com sua virgindade. Como Solitaire é a Bond Girl do filme, algo me diz que em breve ele terá de arrumar outra vidente.
TMwtGG foi o último filme produzido em parceria por Broccoli e Saltzman; após seu lançamento, Saltzman decidiu abandonar a EON, e vendeu sua parte para a United Artists. Isto fez com que os direitos sobre a obra de Fleming fossem rediscutidos e renegociados, o que acabou atrasando a produção do filme seguinte.
Apesar do atraso e dos problemas com roteiro, The Spy Who Loved Me foi extremamente bem recebido, sendo considerado um dos melhores filmes de James Bond, e o melhor com Roger Moore. Com orçamento de 14 milhões de dólares, o filme rendeu 185,4 milhões no mundo inteiro, sendo 46 milhões apenas nos Estados Unidos. Tanto sucesso acabou fazendo com que ele seguisse um curioso caminho inverso: pouco após sua estréia, foi lançada uma versão em livro, escrita por Christopher Wood e publicado pela editora Gridrose.
Aparentemente poucos sabem, mas Bond não foi criado especialmente para o cinema. Seu criador foi o escritor e jornalista inglês Ian Fleming, Comandante da Marinha Britânica durante a Segunda Guerra Mundial, que decidiu usar sua experiência de trabalho com inteligência militar para escrever romances de espionagem. Fleming criou Bond aos 44 anos, em janeiro de 1952, durante uma temporada em sua casa de praia na Jamaica, curiosamente batizada por ele com o nome de GoldenEye, em homenagem a uma operação militar de mesmo nome que visava vigiar e proteger Gibraltar, uma ilha pertencente ao Reino Unido localizada entre a Espanha e a África. Os que o conheceram dizem, inclusive, que Bond seria um alter ego do próprio Fleming, já que ambos teriam características físicas semelhantes e os mesmos gostos em se tratando de comida, roupas e mulheres. De fato, muitos pesquisadores já tentaram encontrar espiões reais ou fictícios que tivessem servido de inspiração para o 007, mas o próprio Fleming jamais confirmou qualquer fonte de inspiração que não fosse sua própria carreira militar. Até o nome do agente secreto parece não ter tido qualquer fonte relacionada à espionagem: segundo Fleming, ele buscava um nome comum, capaz de fazer com que um espião passasse despercebido no meio de outros cidadãos; enquanto procurava, Fleming, um apaixonado por ornitologia, viu sobre sua mesa em GoldenEye um livro escrito pelo ornitólogo James Bond - e pegou seu nome emprestado.
Apesar de ser o primeiro filme, Dr. No traz um Bond já veterano, praticamente no auge de sua carreira, com permissão para matar (representada pelo 00 de seu código), enviado para as mais difíceis missões, e que nunca falha. Mulherengo e apreciador das boas coisas da vida, como roupas e relógios caros e martinis de vodca "batidos, não mexidos", Bond é um Comandante reservista da Marinha Britânica, membro da Ordem de São Miguel e São Jorge, que após a "aposentadoria" ingressou como agente do Serviço Secreto de Inteligência Britânico, também conhecido como MI6. Neste primeiro filme, ele é enviado para a Jamaica por seu chefe, conhecido apenas como "M" (Bernard Lee), para investigar o assassinato de outro agente britânico, e, auxiliado pelo agente da CIA Felix Leiter (Jack Lord), descobrir se este evento tem algo a ver com a recente sabotagem de testes de foguetes norte-americanos em Cabo Canaveral. Sua investigação o acaba levando ao recluso Dr. No (Joseph Wiseman), que, como dá nome ao filme, deve ser no mínimo o vilão, responsável pelo assassinato e pelas sabotagens. Além de cientista renegado, Dr. No é membro da organização terrorista SPECTRE (cujo nome vem da sigla "SPecial Executive for Counter-intelligence, Terrorism, Revenge and Extortion", algo como "Agência Especial de Contra-Informação, Terrorismo, Vingança e Extorsão"), uma organização criminosa que planeja dominar o mundo, mas não é ligada a nenhuma nação em particular, o que permitia que o filme fosse apolítico.
Mas o filme também tem um enredo: seguindo um plano do gênio enxadrista tchecoslovaco Kronsteen (Vladek Sheybal), a SPECTRE planeja roubar uma máquina decodificadora dos soviéticos, colocar a culpa nos britânicos, vendê-la novamente a eles, e ainda se vingar de Bond pela morte do Dr. No. A execução da missão ficará a cargo da soviética Rosa Klebb (Lotte Lenya), ex-membro da SMERSH, escolhida pelo líder da SPECTRE em pessoa (que era tão secreto que até nos créditos o nome do ator que o interpretava, Anthony Dawson, apareceu simplesmente como "?"), auxiliada pelo assassino Grant (Robert Shaw), que tem a missão de nada menos do que matar Bond. Este, sem saber que sua vida corre perigo (ou sabendo, já que teoricamente a vida de agentes secretos sempre corre perigo) é enviado por M ao encontro de Tatiana Romanova (Daniela Bianchi), a Bond Girl da vez, funcionária da embaixada soviética em Istanbul. Tatiana é enganada por Klebb, que finge estar confiando a ela uma missão preparada pelo governo, segundo a qual ela deve fingir ser uma desertora desejando entregar a decodificadora, sob a condição de que o 007 em pessoa venha buscá-las e levá-las para Londres.
Depois de Goldfinger, finalmente chegou a vez de Thunderball, aquele que deveria ter sido o primeiro filme de Bond, mas acabou virando o nono livro da série. Devido a este incidente, praticamente assim que a EON anunciou que iria filmá-lo, Kevin McClory e Jack Whittingham reclamaram seus direitos. Na verdade, ambos já lutavam na justiça desde 1961, o ano da publicação de Thunderball, alegando que eram co-autores do roteiro que daria origem ao livro - e, subseqüentemente, ao filme da EON - tendo Fleming publicado-o sem o devido crédito. Após um primeiro julgamento, ficou determinado que McClory possuía direitos sobre o enredo e alguns dos personagens. Como Goldfinger havia sido um tremendo sucesso, Broccoli e Saltzman temiam que McClory usasse estes direitos para lançar um "007 paralelo" e ganhar algum dinheiro na onda do original. Como eles não estavam dispostos a enfrentar uma nova batalha judicial, procuraram McClory e Whittingham, e ficou acertado que a dupla receberia uma parcela dos lucros com a produção, além de ser creditada no filme como autores do roteiro original. Embora isto tenha resolvido as coisas em 1964, não encerrou a questão, e disputas na justiça britânica quanto aos direitos autorais do livro persistem até hoje.
O quinto filme da série 007 só estrearia nos cinemas dois meses depois de Casino Royale, em junho de 1967, com um dia de diferença entre as estréias do Reino Unido e dos Estados Unidos. You Only Live Twice (no Brasil, Com 007 Só Se Vive Duas Vezes) era uma adaptação do décimo-segundo livro da série, último publicado antes da morte de Fleming. Desta vez, Bond seria enviado ao Japão para investigar o desaparecimento de uma espaçonave norte-americana. Como era a época da Guerra Fria, os Estados Unidos imediatamente colocaram a culpa na União Soviética, o que poderia levar a um conflito de proporções catastróficas. Trabalhando em conjunto com o agente do serviço secreto japonês Tigre Tanaka (Tetsuro Tamba), sua assistente Aki (Akiko Wakabayashi, de King Kong vs Godzilla e Ultra Q) e com a Bond Girl Kissy Suzuki (Mie Hama), Bond acaba descobrindo, nada surpreendentemente, que na verdade era tudo um plano da SPECTRE, que planejava colocar as duas maiores potências do mundo uma contra a outra, roubando espaçonaves soviéticas para colocar a culpa nos Estados Unidos e vice-versa, para emergir como potência dominante após o conflito. Neste filme, Bond finalmente se vê cara-a-cara com o líder da SPECTRE, o megalomaníaco Ernst Stavro Blofeld (Donald Pleasence).