sábado, 22 de novembro de 2025

Escrito por em 22.11.25 com 0 comentários

Chaves

Assim como muitos de minha geração, eu cresci vendo Chaves. Era um dos meus programas de televisão preferidos, e, até hoje, acho que algumas de suas piadas e situações são muito mais divertidas do que de outros programas humorísticos da época ou atuais. Eu poderia ter escrito esse post sobre Chaves há muito mais tempo, mas, durante alguns anos, por alguma razão, gostar de Chaves era considerado vergonhoso por boa parte da comunidade online, e eu, estupidamente, ficava com vergonha de assumir que gostava e acabava desistindo. Atualmente, não somente parece que esse preconceito bobo acabou, como também eu estou ligando cada vez menos para o que os outros acham ou deixam de achar, de forma que decidi que iria finalmente escrever esse post. Assim, hoje é dia de Chaves no átomo!


Chaves foi criação de Roberto Gómez Bolaños, que, na época, já era considerado um dos maiores humoristas do México. Nascido em 21 de fevereiro de 1929 na Cidade do México, Bolaños seria boxeador amador, se formaria em engenharia mecânica e começaria sua carreira nas artes como dramaturgo, escrevendo várias peças de teatro a partir dos 25 anos de idade; devido a sua baixa estatura (1,62 m) e à velocidade com que escrevia as peças, ele ganharia o apelido de Chespirito, uma corruptela de "pequeno Shakespeare" em espanhol. Essas peças de teatro, sempre sucessos de público, lhe renderiam um convite para escrever roteiros para a televisão, com Chespirito sendo, entre 1960 e 1965, o roteirista principal de dois dos programas de maior audiência do México da época, Cómicos y Canciones e El Estudio de Pedro Vargas. Na mesma época, ele seria roteirista dos filmes para o cinema da dupla cômica Viruta y Capulina.

A estreia de Chespirito como ator ocorreria na série El Ciudadano Gómez, criada e escrita por ele e oferecida à Televisión Independiente de México, na qual contracenaria com outros atores que convidaria para seus projetos futuros, como Rubén Aguirre e María Antonieta de las Nieves. Apesar de ter sido gravada em 1968, a série seria engavetada por decisão do proprietário da emissora, que decidiria levá-la ao ar somente quando precisasse de algum programa para competir em audiência com seu canal rival, o Telesistema Mexicano, e acabaria estreando somente em 25 de janeiro de 1969. Antes disso, o produtor Sergio Peña, que havia estado presente durante as gravações de alguns episódios de El Ciudadano Gómez, convidaria Chespirito para participar do programa de variedades Sábados de la Fortuna, uma espécie de Programa Sílvio Santos do México, que ficava no ar o dia inteiro apresentando concursos, números musicais e segmentos humorísticos, que passariam a ser escritos e protagonizados por Chespirito, ganhando o apelido de Chespirotadas.

Uma dessas Chespirotadas seria La Mesa Cuadrada, sátira de um telejornal com a participação de de las Nieves como a apresentadora (chamada Mococha Pecochocha), Aguirre como o Professor Jirafales, Ramón Valdés como o Engenheiro Tirado Alanís, César Costa como o Capitão Costa Del Ocho, e Chespirito como o médico Dr. Chapatín; os cinco se sentavam em torno de uma mesa quadrada, Mococha sorteava uma "carta de um telespectador", e os profissionais respondiam a dúvida contida na carta da forma mais absurda possível. Esse quadro faria tanto sucesso que se tornaria um programa independente, Los Supergenios de la Mesa Cuadrada, que estrearia em 15 de outubro de 1970, com episódios de uma hora de duração.

Chespirito, porém, não gostava do programa, pois as cartas dos telespectadores (escritas pela equipe de redação do programa) sempre falavam sobre temas sociais e políticos da época, criando a necessidade de que o programa fosse gravado o mais perto de ir ao ar possível, para que os assuntos não ficassem velhos, mas a emissora insistia que eles fossem gravados com semanas de antecedência. Assim, aos poucos, ele começaria a reduzir a duração do esquete da mesa quadrada, a introduzir outros esquetes, como um no qual o Dr. Chapatín atendia pacientes em seu consultório, e outro que seria uma sátira aos super-heróis norte-americanos, estrelado por uma das criações mais famosas de Chespirito, o Chapolim Colorado. Em janeiro de 1971, Chespirito convenceria a emissora a mudar o nome do programa para Chespirito y La Mesa Cuadrada, e, em maio, o esquete da mesa quadrada seria eliminado totalmente, com o programa passando a se chamar, simplesmente, Chespirito.

Seria em Chespirito que finalmente estrearia o Chaves, como um esquete de 10 minutos de duração, em 20 de junho de 1971. Como Chespirito era um programa humorístico voltado para o público adulto, Chaves, originalmente, também seria voltado para adultos, por isso a decisão de colocar os próprios atores regulares do programa para interpretar as crianças, ao invés de contratar atores mirins. O sucesso do esquete, porém, seria tamanho, tanto com adultos quanto com crianças, que a Televisa, que absorveria a Televisión Independiente de México por razões de mercado em 8 de janeiro de 1973, decidiria transformá-lo em um programa separado, de meia hora de duração, exibido em horário nobre. Assim, em 20 de fevereiro de 1973, iria ao ar o último episódio de Chespirito, e, na semana seguinte, em 26 de fevereiro de 1973, estrearia a nova série El Chavo del Ocho.

Aqui vale a pena explicar esse título: embora o nome do personagem tenha sido traduzido no Brasil para Chaves, Chavo, no México, não é um nome próprio, e sim uma palavra genérica para se referir a qualquer menino, mais ou menos equivalente ao inglês kid. E, ainda que, em sua série própria, Chaves aparentemente more no barril - que o próprio Chaves, em vários episódios, diz ser apenas seu "esconderijo preferido" - nos esquetes do programa Chespirito seria explicado que ele fugiu do orfanato onde sua mãe o abandonou e foi parar na vila, onde uma "simpática senhora" o convidou para morar com ela no apartamento de número 8; portanto, El Chavo del Ocho seria algo como "o garoto da casa 8" - uma teoria popular dentre os fãs dizia que o título era uma referência ao fato de que a Televisión Independiente de México era o canal 8, mas aí não faria sentido manter o título quando o seriado foi para a Televisa, que era o canal 2.

Também vale citar que a "vila do Chaves" é um tipo de construção destinada a pessoas pobres conhecida no México como vecindad, com aquelas portas dando acesso não a casas, mas a apartamentos, que têm o pátio como área comum. O principal cenário da série mostra um pátio no qual estão localizados o barril do Chaves, um tanque de lavar roupa, as portas dos apartamentos 14, 71 e 72, e uma escada que leva ao apartamento 23 - cujo morador jamais foi revelado e o interior jamais foi mostrado - além de objetos de cena como brinquedos, caixotes e bujões de gás. À esquerda desse pátio, em relação a quem está assistindo, ao lado da escada, fica o portão de entrada da vila, e, à direita, entre os apartamentos 71 e 72, há um corredor que leva a um segundo pátio, com um chafariz. A porta do apartamento 8 jamais é mostrada, e pode ficar ou nesse segundo pátio, ou na "quarta parede", o lado da vila onde está a tela da televisão. Cenários fora da vila também são usados em alguns episódios, com o mais comum sendo a sala de aula na escola onde as crianças estudam.

Pois bem, todo o elenco de Chespirito seria aproveitado em Chaves, a começar pelo próprio Chespirito, que interpreta Chaves, um menino de 8 anos órfão e extremamente pobre, ingênuo e pouco inteligente, mas de bom coração, que aparentemente ficou abandonado aos próprios recursos, já que a simpática senhora do apartamento 8 nunca apareceu - há quem diga que ela era casada com o Capitão Costa, que por isso tinha o sobrenome "Del Ocho", e que ele foi transferido para outra cidade e levou ela, mas não o Chaves. O melhor amigo de Chaves é Quico (Carlos Villagrán), que tem 9 anos e mora com sua mãe no apartamento 14. Quico tem uma condição financeira melhor que a dos outros moradores da vila, e está sempre exibindo brinquedos e roupas novas - seu falecido pai, que ele tinha como maior ídolo, era um oficial da marinha, por isso ele está sempre vestido de marinheiro. Quico é ao mesmo tempo arrogante e invejoso, o que faz com que ele esteja sempre se metendo em confusões com Chaves e com a outra criança protagonista da série, Chiquinha (María Antonieta de las Nieves; em espanhol, o nome da personagem é La Chilindrina, nome de um pão doce tradicional mexicano feito com açúcar mascavo e apelido tradicional mexicano para crianças sardentas). Inteligente e levada na mesma proporção, Chiquinha, que também tem 8 anos, está sempre tentando levar vantagem sobre os meninos, envolvendo-os em planos mirabolantes dos quais ela será a beneficiada; mesmo que pareça não perceber, ela é apaixonada por Chaves.

O pai de Chiquinha, que mora com ela no apartamento 72, é o Seu Madruga (Ramón Valdés; Don Ramón no original). Desempregado, preguiçoso e devendo 14 meses de aluguel, Seu Madruga passa a maior parte do tempo se envolvendo em confusões com as crianças, embora tenha pouca paciência com elas. Já a mãe de Quico, Dona Florinda (Florinda Meza; Doña Florinda no original), é uma dona de casa viúva que vive da pensão do falecido marido, mantendo a pose de classe alta e se referindo aos demais moradores da vila como "gentalha", mesmo que sua situação não seja tão diferente da deles; Dona Florinda mima Quico, se referindo a ele como "Tesouro", e sempre dá razão ao menino, mesmo quando ele está errado. A outra moradora da vila é Dona Clotilde (Angelines Fernández; Doña Clotilde no original), idosa solteirona apaixonada pelo Seu Madruga e chamada pelas crianças de "A Bruxa do 71", em alusão à sua aparência e ao número do apartamento onde mora.

Dona Florinda é apaixonada pelo Professor Girafales (Rubén Aguirre; Profesor Jirafales no original), professor de Chaves, Quico e Chiquinha na escola, que frequentemente vai à vila visitá-la e tomar uma xícara de café; romântico e gentil, Girafales tem paciência quase infinita com as crianças, que o chamam de Professor Linguiça devido à sua altura, mas se irrita facilmente com outros assuntos. O dono da vila, que aparece para cobrar aluguel e resolver outros assuntos de seu interesse, é o milionário Senhor Barriga (Édgar Vivar; Señor Barriga no original - o nome verdadeiro do personagem é Zenón Barriga y Pesado, dois sobrenomes que realmente existem no México), de quem Seu Madruga está sempre tentando escapar, a quem Chavez frequentemente agride acidentalmente, e alvo de piadas por ser obeso. Outro personagem adulto recorrente é Dona Neves (María Antonieta de las Nieves; Doña Nieves no original), avó do Seu Madruga e bisavó de Chiquinha, que os visita de vez em quando e é pouco mais que Chiquinha com uma peruca grisalha.

O Senhor Barriga tem um filho igualmente obeso, da mesma idade de Chaves, Quico e Chiquinha, chamado Nhonho (Édgar Vivar; Ñoño no original), alvo de bullying por parte das outras crianças, e que, apesar de ser rico, não é soberbo como Quico, e frequenta a mesma escola dos demais. Outras crianças da série são Popis (Florinda Meza), sobrinha de Dona Florinda que também estuda na mesma escola dos outros, e de vez em quando vai à vila visitar a tia e brincar com as outras crianças, sempre acompanhada de sua boneca Serafina; Godínez (Horacio Gómez Bolaños, irmão de Chespirito na vida real), aluno que nunca está prestando atenção na aula e responde com absurdos às perguntas do Professor Girafales; e Paty (Ana Lillian de la Macorra), menina bonita da escola por quem Chaves é apaixonado, o que a torna alvo do ódio de Chiquinha.

Não é surpresa para ninguém que os personagens crianças eram interpretados por adultos - com Meza, Vivar e de las Nieves interpretando um personagem adulto e uma criança cada - mas uma grande curiosidade quanto ao elenco diz respeito às idades dos atores em relação a dos seus personagens: quando a primeira temporada estreou, Chespirito tinha 42 anos, Villagrán 27 e de las Nieves 21, enquanto Meza tinha apenas 22 - ou seja, a Dona Florinda era cinco anos mais nova que o Quico - e Vivar tinha 23 - fazendo com que o dono da vila e um dos dois únicos adultos responsáveis da série por pouco não fosse o mais jovem do elenco. Os demais atores tinham idades mais próximas de seus personagens, com Valdés tendo 48 anos quando estreou a primeira temporada, Fernández 49, e Aguirre 37.

A escolha do elenco se daria sem testes, praticamente por imposição de Chespirito. Aguirre era amigo de anos de Chespirito, roteirista assim como ele, e ambos haviam escrito juntos algumas peças de teatro e roteiros de televisão, decidindo ambos atuarem juntos quando receberam a chance das Chespirotadas. Valdés era um conhecido ator de cinema, cuja carreira estava em decadência, com Chespirito decidindo dar uma chance de ele revitalizá-la na televisão. De las Nieves originalmente era uma dubladora e narradora, com apenas sua voz sendo transmitida durante anúncios e propagandas da Televisión Independiente de México; Chespirito achava sua voz bonita e pediu para conhecê-la, se impressionando também com sua beleza física - sem a maquiagem de Chiquinha, de las Nieves é considerada uma das mulheres mais bonitas da televisão mexicana. A princípio ela não aceitaria o convite de Chespirito, argumentando que não queria ser atriz de comédia, mas acabaria mudando de ideia quando ele respondesse que "não existem atores de comédia ou de drama, apenas atores".

Villagrán, originalmente, também não era ator, mas jornalista; amigo de Aguirre, ele mostrou em uma festa seu truque de inflar as bochechas, que Aguirre chamava de "talento oculto", e, após contar algumas piadas com a cara bochechuda, foi prontamente convidado por Chespirito para o programa. Já Vivar era um ator iniciante recomendado a Chespirito por um amigo em comum; ele chegaria sem avisar durante a gravação de um dos esquetes de Chespirito, achou graça em uma das cenas e riu em voz alta, o que fez com que o diretor tivesse de interromper as gravações porque a risada dele foi gravada. Após essa primeira má impressão, Chespirito diria a Vivar que, se ele aceitasse entrar para o programa, deveria gravar sem ponto eletrônico, ao que ele respondeu "o que é isso?", sendo contratado imediatamente. Assim como Valdés, Fernández era uma antiga atriz de cinema espanhola radicada no México que já não recebia muitos papéis, sendo convidada para o da Bruxa do 71, que seria apenas uma participação especial, mas acabaria se tornando um personagem fixo. Meza, por outro lado, era uma atriz iniciante, que estava em outra série, La Media Naranja, onde também interpretava uma mulher mais velha, impressionando Chespirito com seu talento - os dois se apaixonariam durante as gravações de Chaves, e acabariam se casando em 1977. Finalmente, Horacio, irmão de Chespirito, jamais havia pensado em ser ator, cuidando da promoção da série, mas foi convidado pelo irmão para interpretar Godínez para que pudesse receber um salário de ator e complementar sua renda.

A direção dos episódios ficaria a cargo de Enrique Segoviano, e a produção da série com Carmen Ochoa; Chespirito seria o responsável pelos roteiros, contando com a ajuda de Aguirre em alguns episódios. Muitas das características dos personagens seriam criadas pelos próprios atores: Villagrán criaria o choro de Quico, apoiado numa parede e fazendo som vibrante, e Aguirre decidiria que Girafales falaria "tá, tá, tá, tá" ao ficar irritado porque de fato um de seus professores na escola fazia isso, e ele achava engraçado. Os episódios seriam gravados nos estúdios da Televisa em San Ángel, e os figurinos ficariam a cargo da Compañía Casa Tostado, da Cidade do México, famosa por sua linha de fantasias.

Chaves seria uma das primeiras séries mexicanas a usar o recurso da claque, aquelas risadas gravadas reproduzidas após cada piada; segundo Villagrán, a Televisa teria acesso a um estudo feito nos Estados Unidos, segundo o qual ouvir a claque fazia com que os espectadores rissem junto, achando a piada mais engraçada. A claque e todos os demais efeitos de sonoplastia, assim como alguns efeitos especiais precários, quando necessário, eram adicionados aos episódios durante a pós-produção, nos estúdios da Televisa na Cidade do México. Para música de abertura da série, Chespirito escolheria The Elephant Never Forgets, releitura feita pelo francês Jean-Jacques Perrey da Marcha Turca, de Ludwig van Beethoven; a música se tornaria uma das mais populares do México graças ao seriado. A trilha sonora seria composta por Ángel Álvarez, e lançada em 1977 em um LP chamado Así cantamos y vacilamos en la vecindad del Chavo.

A primeira temporada de Chaves teria 39 episódios de cerca de meia hora cada (incluindo os comerciais), exibidos entre 26 de fevereiro e 31 de dezembro de 1973. De início, a série seria muito criticada, com seu humor sendo considerado bobo, vulgar e repetitivo, e o fato de a maioria das piadas fazerem uso de alguma forma de violência fazendo com que o programa fosse classificado como "não recomendável" por várias entidades de classificação da programação mexicana; o público parecia não se importar, porém, e a audiência crescia dia após dia, com o programa fechando o ano de 1973 como o mais assistido da Televisa e um dos mais assistidos do país. Segundo alguns críticos, o segredo do sucesso de Chaves pode estar no fato de que as situações vividas pelos personagens são "universais", facilitando a identificação do público sem importar sua idade, classe social ou faixa etária.

Pouco antes do início das gravações da segunda temporada começarem, de las Nieves revelaria estar grávida, tendo de deixar o elenco. Ela não ficaria sem trabalhar, entretanto, aceitando um convite da Televisión Azteca para apresentar o programa Pampa Pipiltzin. Por causa disso, nenhum dos episódios da segunda temporada conta com Chiquinha, com Seu Madruga explicando que ela tinha ido "estudar em Guanajuato" (cidade do interior do México) onde estava "morando com as tias". Seria para substituir Chiquinha que Chespirito criaria a personagem Popis, que não existia na primeira temporada, após uma tentativa de introduzir na série uma afilhada do Seu Madruga chamada Malicha (María Luisa Alcalá) não ter dado certo. A segunda temporada teria mais 42 episódios, exibidos entre 7 de janeiro e 28 de outubro de 1974. Também em 1974, seria lançada uma revista em quadrinhos com os personagens do seriado.

De las Nieves e Chiquinha voltariam para a terceira temporada, de mais 40 episódios, exibidos entre 13 de janeiro e 10 de novembro de 1975. Nessa época, a série teria picos de 60 pontos de audiência no México, e seus episódios seriam vendidos para Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Equador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Porto Rico, República Dominicana, Uruguai e Venezuela, com a estimativa de que 350 milhões de lationamericanos assistiam a seus episódios. A partir da quarta temporada, de 45 episódios, exibidos entre 5 de janeiro e 27 de dezembro de 1976, Chaves começaria a ser vendido para países que não tiham o espanhol como idioma oficial, sendo um dos primeiros produtos mexicanos a serem dublados para exibição na televisão estrangeira. Hoje, estima-se que Chaves tenha sido exibido em cerca de 90 países, dublado em 50 idiomas diferentes. O primeiro país que não tinha o espanhol como idioma oficial para o qual o seriado foi vendido seria os Estados Unidos, onde seria exibido em inglês e em espanhol, se tornando o programa nesse idioma mais assistido na faixa etária entre 6 e 11 anos de idade em todos os tempos. Em seguida, Chaves seria vendido para a União Soviética, China, Índia, Itália, Marrocos, Angola, Guiné Equatorial e Espanha - o que faria com que o único país que tem o espanhol como idioma oficial no qual ele jamais foi exibido seja Cuba.

A quinta temporada teria mais 40 episódios, exibidos entre 6 de janeiro e 26 de dezembro de 1977, dentre eles o famoso Vamos Todos a Acapulco, primeiro filmado em ambiente externo, e um dos raros com duas partes. Também em 1977, o elenco do programa começaria a se apresentar ao vivo, dançando, cantando e interpretando pequenos esquetes, primeiro no México, depois internacionalmente, normalmente em grandes estádios e arenas, para acomodar mais público. Fora do México, as apresentações mais impressionantes ocorreriam no Estádio Nacional do Chile, para 80 mil pessoas; nos estádios Malvinas Argentinas e Mario Alberto Kempes, na Argentina; no Coliseo Amauta, no Peru; e no Madison Square Garden, em Nova Iorque, Estados Unidos.

Infelizmente, como costuma acontecer nesses casos, o grande sucesso levaria também a ações questionáveis, e a sexta temporada, de 39 episódios, exibidos entre 27 de março e 11 de dezembro de 1978, seria um divisor de águas para a série: durante as gravações, Chespirito e Villagrán se desentenderiam, e Villagrán pediria permissão para sair do programa e criar seu próprio, estrelado por Quico, a qual foi concedida por Chespirito. Assim, em um dos episódios, Dona Florinda revela que Quico foi morar com sua avó rica, porque "não aguentava mais conviver com a gentalha", e Nhonho passaria a ser o novo melhor amigo de Chaves. Antes do inicio da produção de Quico, porém, Villagrán processaria Chespirito, alegando ter sido ele o criador do personagem Quico. A justiça mexicana decidiria a favor de Chespirito, fazendo com que Quico fosse cancelado e Villagrán pouco voltasse a falar com Chespirito pelo resto da vida.

Antes da saída de Villagrán, os produtores Valentín Pimstein e Fabián Arnaud procuraram Chespirito e pediram para que ele escrevesse o roteiro de um filme de cinema ou do Chaves, ou do Chapolim. Chespirito se recusou, alegando que ambos os seriados eram produtos característicos da televisão, e que seria difícil encontrar para eles uma história inédita que se sustentasse durante mais de vinte minutos. Ele faria uma contraproposta, aceita pelos produtores, de um filme com o mesmo elenco de Chaves, chamado El Chanfle, sobre um homem que trabalha para um clube de futebol e deseja vender uma pistola para pagar pelos exames e parto de sua esposa grávida. Contando com participações especiais do Dr. Chapatín e de Dona Neves, o filme estrearia nos cinemas mexicanos em 18 de janeiro de 1979, fazendo grande sucesso; Villagrán, que interpreta um jogador de futebol, teria papel de destaque, mas seria frio e distante com seus colegas de elenco durante as gravações.

Ao final da sexta temporada, Valdés também pediria para sair da série, alegando razões pessoais. Sem querer substituir Seu Madruga, mas tendo dificuldade em escrever as piadas com dois personagens a menos, Chespirito criaria um novo, o carteiro Jaiminho (Raúl Chato Padilla, de 62 anos; Jaimito el Cartero, no original). Natural da cidade de Tangamandápio, que existe na vida real e ficaria famosa por ser frequentemente citada pelo personagem, Jaiminho, cujo nome verdadeiro era Jaime Garabito, era um carteiro que entregava cartas na vila, sempre caminhando ao lado de sua bicicleta - porque, para passar na entrevista de emprego, ele mentiu que sabia andar de bicicleta - e trabalhando o mínimo possível, pois, segundo ele sempre dizia, estava tentando evitar a fadiga. Jaiminho substituiria Seu Madruga em muitas das interações com Chaves, Dona Florinda e Sr. Barriga, mas também permitiria piadas novas, por não ser um morador da vila e a princípio só aparecer lá a trabalho.

A sétima temporada, com Jaiminho, mas sem Quico e Seu Madruga, que, segundo Chiquinha, arrumou um emprego em outra cidade, teria 50 episódios, exibidos entre 29 de janeiro de 1979 e 7 de janeiro de 1980. Sem dois dos mais populares personagens da série, a audiência cairia vertiginosamente, e a Televisa decidiria cancelar Chaves enquanto a temporada ainda estava em produção.

Esse não seria o fim de Chaves, porém: após o cancelamento, retornaria ao ar a série Chespirito, que reestrearia em 28 de janeiro de 1980 com o exato mesmo formato, de esquetes curtos com personagens variados. Chespirito seguiria fazendo esquetes de Chaves para o programa, e contaria até mesmo com um breve retorno de Valdés para episódios gravados em 1981. Chespirito ainda iria ao ar até 25 de setembro de 1995, mas o último esquete de Chaves iria ao ar em 12 de junho de 1992; naquele ano, Vivar teve de se afastar das gravações com problemas cardiovasculares, e Chespirito, já com 63 anos, decidiria que era hora de parar de interpretar Chaves, declarando em entrevistas que "o pior que pode acontecer a um ser humano é parar de evoluir". Anos mais tarde, ele confessaria ter pensado em gravar um esquete final ao fim do qual Chaves morreria atropelado ao tentar salvar outro menino órfão, encerrando a saga do personagem definitivamente, mas seria convencido por sua filha, psicóloga, de que isso poderia aumentar a taxa de suicídios entre as crianças mexicanas.

Ainda hoje, Chaves é um dos maiores fenômenos da televisão mundial, sendo ainda exibido em dezenas de canais e serviços de streaming em todo o planeta; estima-se que, desde 1992, somente com as reprises, a Televisa já tenha lucrado 1,7 bilhão de dólares. Os direitos, entretanto, não pertencem ao canal, mas ao Grupo Chespirito, atualmente comandado por Meza e pelo filho mais velho de Chespirito, Roberto Gómez Fernández - em 2020, inclusive, problemas na renegociação dos contratos levariam a um atrito entre a Televisa e o Grupo, que fariam com que todos os programas que contassem com personagens de Chaves, Chapolim ou outras criações de Chespirito ficassem impedidos de ir ao ar no mundo inteiro, com a situação somente se normalizando em setembro de 2024.

Seria Gómez Fernández quem criaria a mais recente encarnação do personagem, El Chavo Animado, (também conhecido como El Chavo, la serie animada ou El Chavo del 8 Animado; simplesmente Chaves aqui no Brasil), série de animação que estrearia na Televisa em 21 de outubro de 2006, na qual alguns episódios são adaptações de esquetes de Chespirito e episódios da série original, mas muitos são roteiros inéditos. A série animada teria sete temporadas (de 26, 26, 26, 22, 15, 13 e 7 episódios, respectivamente, para um total de 125), o último exibido em 6 de junho de 2014; assim como os da série original, eles atualmente são reprisados à exaustão, em mais de 90 países. Villagrán e Vivar não aprovariam a série animada - que conta com todos os personagens, exceto Chiquinha, mas nenhum deles dublado por seus atores originais - alegando que ela "desumanizava os personagens" e era "uma ação mercantilista para ganhar dinheiro com o público infantil".

No Brasil, Chaves estrearia em 24 de agosto de 1984, no SBT, junto com Chapolim, dentro do programa TV Powww!; após passarem pelo programa do Bozo, Chaves e Chapolim se tornariam atrações "soltas", exibidas no horário do almoço. O sucesso seria gigantesco e Chaves seria um dos poucos programas do SBT a ter mais audiência que a Globo, que no horário transmitia o jornal local, o Globo Esporte e o Jornal Hoje; isso faria com que a Globo, por repetidas vezes, tentasse comprar os direitos de exibição para tirar o programa do SBT, sempre sem sucesso.

O SBT não compraria todos os episódios, sendo calculado que seriam comprados e dublados em português por volta de 175 dos 295 episódios disponíveis, que eram exibidos em ordem aleatória, sem respeitar temporadas ou a ordem em que foram exibidos no México. Como era comum na época, o seriado também era apresentado pelo SBT sem a abertura ou os créditos finais originais; somente em 2000 o canal brasileiro criaria uma abertura própria, com uma música de sua autoria, que mostrava os rostos dos personagens em meio a uma contagem regressiva. Outra curiosidade seria que as fitas compradas pelo SBT viriam com uma única trilha de áudio, sendo impossível dublá-las sem apagar a trilha sonora original; por causa disso, o SBT substiuiria as músicas originais da trilha por músicas genéricas, tiradas de um catálogo britânico de músicas licenciáveis para televisão chamado Bruton Music: Kids and Cartoons.

Até 2010, o SBT seria o único canal brasileiro a exibir Chaves; naquele ano, o grupo Turner compraria os direitos de exibição em TV por assinatura para toda a América Latina, e, no Brasil, Chaves passaria a ser exibido primeiro no canal Cartoon Network, então no Boomerang e no TBS, todos de propriedade da Turner. Esse contrato finalizaria em 2018 e não seria renovado, dando à Globo a chance de finalmente comprar Chaves, mas apenas para exibição em TV por assinatura, com o seriado, incluindo episódios inéditos jamais exibidos no Brasil, sendo televisionado pelo canal Multishow. Após a suspensão das exibições internacionais em 2020, Sílvio Santos tentaria negociar diretamente com o Grupo Chespirito para que Chaves seguisse sendo exibido pelo SBT e fizesse parte de seu novo serviço de streaming, o +SBT. Essas negociações jamais se concretizariam, entretanto, e, quando o novo contrato entre o Grupo Chespirito e a Televisa fosse assinado, Chaves voltaria ao ar no Brasil na TV aberta no SBT (em uma versão remasterizada em alta definição por inteligência artificial), na TV por assinatura no Multishow, e em streaming no Amazon Prime Video. Em julho de 2025, ele sairia do catálogo do Prime Video, mas desde então passaria a ser disponibilizado pelo GloboPlay e pela Netflix, com uma nova dublagem encomendada pela Televisa; a ideia é que os catálogos desses serviços contem com todos os episódios produzidos, e não somente os originalmente exibidos pelo SBT.

Como a exibição no Brasil começaria anos depois de a série ter saído do ar no México, surgiria uma lenda urbana de que todo o elenco havia morrido em um acidente de avião no final dos anos 1970, ou seja, estávamos assistindo a um seriado no qual todos os atores já haviam falecido. Na verdade, o primeiro ator do elenco de Chaves a nos deixar seria Valdés, que faleceria em 1988 - quatro anos depois da estreia de Chaves no Brasil - aos 63 anos, de câncer no estômago. Além de Valdés e de Chespirito, os outros atores já falecidos são Padilla, que faleceu em 1994, aos 75 anos, de infarto; Fernández, aos 69 anos, também em 1994, de falência renal crônica; e Aguirre, aos 82 anos, em 2016, de pneumonia. Meza atualmente é empresária, Vivar é produtor e ator de cinema, de las Nieves está aposentada, e Villagrán vive da fama que adquiriu como Quico, fazendo palestras e comparecendo a convenções.

Villagrán, que seria impedido de usar o personagem Quico com fins comerciais no México, conseguiria um contrato para produzir uma série chamada El Niño de Papel, na Venezuela, em 1981. Nessa série, exibida pelo canal RCTV, Kiko (escrito com K, talvez para evitar problemas judiciais) usa uma roupa de marinheiro de cor branca, mora com a mãe (que não é Dona Florinda) em um apartamento, e vende jornais nas ruas. A série teria 49 episódios e seria relativamente bem sucedida, mas muitos espectadores escreviam cartas para a RCTV reclamando que o seriado era muito diferente de Chaves.

Para tentar remediar a situação, Villagrán criaria uma nova série, chamada Federrico, que estrearia em 1982 e seria praticamente uma cópia de Chaves, mas tendo como personagem principal Kiko, que mora em uma vila praticamente idêntica à Vila do Chaves com sua mãe, Carlota - que, como vocês devem imaginar, é praticamente idêntica à Dona Florinda. Outros personagens da série são o menino órfão Yoyo, melhor amigo de Kiko (e que é o equivalente de Chaves), o vizinho mal-humorado Moncho Valdez (equivalente ao Seu Madruga, inclusive também interpretado por Valdés), o namorado de Carlota, Don Salomón (uma mistura do Professor Girafales com o Senhor Barriga), e os amigos de Federrico na escola, Pichicho (filho de Don Salomón e equivalente a Nhonho), Marucha (equivalennte a Chiquinha, mas sem ser filha de Moncho) e Paty (equivalente a Popis). A série teria 43 episódios. Talvez devido à ameaça de uma ação judicial, para a "segunda temporada", que se chamaria Las Nuevas Aventuras de Federrico e estrearia em 1983, Kiko, que agora tinha pai e mãe, morava num condomínio de luxo, onde vivia aventuras ao lado das crianças da primeira temporada. Essa segunda temporada teria 20 episódios e não faria sucesso, sendo inclusive encurtada.

Em 1986, Villagrán tentaria novamente com Kiko Botones, no qual Kiko, já mais velho, trabalha em um hotel de Caracas, usando uma roupa vermelha; também produzida e exibida pela RCTV, a série contaria com a presença de atores venezuelanos famosos, como Irma Palmieri, Simón García e Virgilio Galindo, mas não faria sucesso, e seria cancelada após apenas 24 episódios. Se você está se perguntando qual dessas séries foi a exibida aqui no Brasil pela Bandeirantes, a resposta é todas (ou quase): a emissora compraria alguns episódios de El Niño de Papel, Las Nuevas Aventuras de Federrico e Kiko Botones e exibiria tudo misturado e fora de ordem entre 1991 e 1992 com o nome de Kiko; somente Federrico é inédita no Brasil.

Após o encerramento de Kiko Botones, Villagrán retornaria ao México e conseguiria um contrato para a produção de ¡Ah qué Kiko!, exibida pelo canal Imevisión entre junho de 1987 e fevereiro de 1988, com um total de 29 episódios. Nela, Don Ramón (interpretado por Valdés, mas bem diferente do Seu Madruga) é o gerente de uma mercearia na qual Kiko, agora adolescente mas ainda sempre vestido com seu tradicional uniforme de marinheiro, trabalha como entregador. Outros personagens de destaque são Toto, menino pobre amigo de Kiko; Pamela, moça por quem Don Ramón é apaixonado; sua sobrinha, Nena; e Don Cejudo, o dono da mercearia. Essa série seria lançada no Brasil em DVD, com os nomes de Ah! Que Kiko! ou Kiko e Sua Turma; na dublagem, talvez para apelar aos fãs de Chaves, Don Ramón seria chamado de Seu Madruga, enquanto Don Cejudo seria o Seu Brancelha - com ambos os nomes fazendo referência às grossas sobrancelhas do personagem.

Já de las Nieves, após o encerramento definitivo de Chaves, em 1992, seguiria se apresentando como Chiquinha em programas de televisão, peças de teatro e eventos para os fãs. Durante muito tempo, Chespirito pareceu não se importar, mas, em 2002, entraria com um processo na justiça mexicana para impedi-la. O processo seria encerrado em 2005 com um acordo que permitia que de las Nieves seguisse usando Chiquinha como bem entendesse, mas removia a personagem de todas as futuras produções do Chaves, incluindo a série animada, na qual a menina principal é Popis. Alegando que de las Nieves estava descumprindo o acordo, Chespirito a processaria novamente em 2010. Essa disputa judicial faria com que os dois se afastassem, jamais voltando a se falar. De las Nieves seguiria interpretando Chiquinha até 2021, quando, aos 75 anos de idade e 48 "de Chiquinha", decidiu se aposentar da personagem, entrando para o Livro dos Recordes como a atriz a interpretar uma mesma personagem pelo maior tempo contínuo.

Chespirito faleceria em 28 de novembro de 2014, aos 85 anos; após conviver por muitos anos com Doença de Parkinson e problemas de próstata que levariam a duas cirurgias, ele teria uma parada cardíorrespiratória em sua residência, em Cancún. Após encerrar Chaves, em 1992, ele jamais aceitaria interpretar novamente o personagem; em entrevistas, diria que "os personagens existem e vivem na imaginação, e assim ficarão".

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