sábado, 15 de novembro de 2025

Escrito por em 15.11.25 com 0 comentários

Studio Ghibli (VIII)

Está acabando! Hoje, mais três produções do Studio Ghibli, incluindo sua primeira série de TV!

O Conto da Princesa Kaguya
Kaguya-Hime no Monogatari
2013

Uma das mais famosas fábulas japonesas é Taketori no Monogatari, ou, em tradução livre, "a lenda do cortador de bambu", que fala de um homem de meia-idade, casado e sem filhos, que trabalha cortando e vendendo bambu, até que, um dia, encontra um bebê dentro de um dos bambus. O bebê cresce rapidamente, se torna uma linda moça, e atrai a atenção de diversos pretendentes ricos, dentre eles ninguém menos que o Imperador do Japão. A fábula é de autor desconhecido, e ninguém sabe ao certo quando ela foi escrita, sendo estimado entre o final do século IX e o início do século X, durante o período Heian, com seu manuscrito sobrevivente mais antigo datando de bem mais tarde, do ano 1592.

Seja como for, é costume no Japão que as crianças leiam essa fábula, e, assim, Isao Takahata, quando criança, também o fez. Mas, segundo ele, não gostou. Takahata diria ter tido dificuldade para simpatizar com a menina, achando-a arrogante, prepotente e antipática, e não entendendo como ela se transformou de um bebê em uma jovem tão rapidamente, e então parou de envelhecer na mesma velocidade, permanecendo jovem até o fim da história. Com todas essas reclamações, Takahata não ficaria nada satisfeito quando, em 1960, a Toei Animation, para a qual ele trabalhava, decidiria adaptar a fábula para um longa-metragem animado, colocando-o à frente do projeto. Já adulto, Takahata decidiria reler a fábula para ver como poderia torná-la interessante, e concluiria que a história deveria focar mais nos sentimentos da moça, mostrando como ela se sentia sendo considerada especial por todos os demais personagens, justificando, assim, seu comportamento.

O projeto da Toei acabaria engavetado, e Takahata esqueceria a história até 2009, quando o presidente da Nippon TV, Seiichiro Ujiie, procuraria o Studio Ghibli e perguntaria por que já haviam se passado dez anos desde o último filme de Takahata, Meus Vizinhos, os Yamada. Grande fã de Takahata, Ujiie queria que ele fizesse mais um longa-metragem, e não aceitaria um "não" como resposta, chegando a pagar ao produtor Toshio Suzuki 5 bilhões de ienes para serem investidos exclusivamente na produção. Infelizmente, Ujiie faleceria, de falência múltipla dos órgãos, aos 84 anos, em março de 2011, não chegando a ver o filme concluído - ele ainda conseguiria, porém, ler a versão final do roteiro, escrita por Takahata e Riko Sakaguchi, e ver alguns storyboards.

Ao se sentar para conversar com Suzuki sobre o novo projeto, a primeira ideia que Takahata teve foi a de adaptar a fábula do cortador de bambu, mas tendo como protagonista a menina nascida dentro da planta. Segundo ele, a melhor forma de fazer com que os espectadores se conectassem com a história seria transportando-os para a época na qual ela ocorre, e, para isso, seria fundamental que a animação tivesse traços simples, reminescentes das pinturas do período Heian, ao invés de desenhos realísticos como as animações modernas. Meus Vizinhos, os Yamada utilizava um estilo próprio de animação, no qual os desenhos pareciam aquarelados, imitando o estilo das tirinhas dos jornais japoneses, o que fez com que ele fosse o segundo mais caro do Studio Ghibli até então, atrás apenas de Princesa Mononoke; como, dessa vez, dinheiro não era problema, Takahata decidiria usar mais uma vez o estilo, mas com planos de fundo aquarelados bem detalhados - em contraste com Meus Vizinhos, os Yamada, que praticamente não tinha plano de fundo nenhum.

Para auxiliá-lo na tarefa, Takahata chamaria os animadores Kazuo Oga, que pintaria os planos de fundo realmente com aquarelas, e o animador Osamu Tanabe, que criaria os personagens, muitas vezes desenhando-os com nanquim ou carvão. Assim como Meus Vizinhos, os Yamada, a animação teria três etapas, com primeiro os fundos e personagens sendo produzidos de forma tradicional, então tudo sendo digitalizado, e as folhas digitalizadas sendo combinadas através de computação para criar a ilusão de movimento. A trilha sonora ficaria a cargo de Shin-Ichiro Ikebe, que, no início de 2013, alegaria razões pessoais para deixar o cargo, sendo substituído por Joe Hisaishi, na única vez em que Hisaishi compôs a trilha de um filme de Takahata.

Como a história era centrada na moça, e não no cortador de bambu, Takahata decidiria chamar o filme de Kaguya-Hime no Monogatari, "a lenda da Princesa Kaguya", sendo Kaguya ("reluzente") também o nome pelo qual a moça é chamada na fábula original. Takahata também faria na história todas as alterações que julgasse necessárias para que o público simpatizasse com a princesa e concordasse com suas decisões; isso acabaria fazendo com que o filme tivesse uma forte mensagem feminista, denunciando a subserviência imposta às mulheres japonesas não somente na época da fábula, mas também na atual. O filme também faria uma severa crítica à noção de beleza, mostrando que as mulheres do Japão Feudal praticamente tinham de se mutilar para serem consideradas belas, algo que não está tão distante assim em nossa realidade de cirurgias plásticas e aplicações de botox. Como é tradicional nas produções Ghibli, a Princesa Kaguya é uma jovem forte e determinada, que não se curva facilmente às pressões da sociedade - embora, no filme, isso cobre um preço.

Outra crítica que o filme faz é sobre a desigualdade econômica e a distribuição de riqueza - o cortador de bambu e sua esposa são extremamente pobres, e veem na filha adotiva a chance de ascenderem socialmente, sem notar que isso causa a infelicidade da moça. Para marcar o contraste entre riqueza e felicidade, todas as cenas ambientadas na zona rural, onde Kaguya é feliz, usam traços finos, simples e cores de tons vívidos, enquanto as cenas na capital, onde ela vive na riqueza, possuem traços duros, padrões geométricos e cores foscas. A pedido de Takahata, ao longo do filme os olhos de Kaguya iriam gradualmente perdendo o brilho, uma referência sutil ao fato de que, quanto mais ela se afastava da vida simples no campo, mais infeliz ficava - tão sutil que a maioria dos espectadores só percebe ao assistir o filme uma segunda vez, após serem informados desse fato.

No filme, o cortador de bambu encontra um bebê dentro de uma planta e a leva para morar com ele e sua esposa, em uma choupana simples no meio do bambuzal. A bebê cresce rapidamente e logo vira uma bela menina, que faz amizade com as outras crianças do vilarejo e ganha o apelido de Takenoko, o "pequeno bambu". Cada vez que o cortador de bambu retorna ao bambuzal, porém, ele encontra, dentro de uma planta, algum tipo de riqueza - ouro, joias, e sedas finas para fazer quimonos - tomando isso como um sinal dos céus de que a menina não deve ser criada naquele fim de mundo, e sim na capital, onde será tratada como uma princesa. Com a menina já adolescente, o cortador usa o dinheiro encontrado no bambu para comprar uma casa na capital, para onde se muda com a esposa e a menina, e contratar uma professora de boas maneiras, para que ela consiga um bom casamento.

Em seu décimo-quinto aniversário, a menina recebe a visita de um especialista em nomes da alta sociedade, que decide que ela deve se chamar Kaguya, e logo espalha que ela é a moça mais bonita que ele já viu, tanto que ele decide somente se referir a ela como Princesa. A fofoca do especialista também atrai muitos pretendentes para a garota, que fica trancada em uma espécie de jaula, acompanhada de uma serviçal, enquanto o cortador de bambu decide qual seria o marido ideal para ela. Um dia, chegam ao mesmo tempo cinco pretendentes riquíssimos, e o cortador decide que ela poderá escolher qual prefere; Kaguya, entretanto, para desespero de seu pai adotivo, dá a cada um uma tarefa impossível, dizendo que somente se casará com aquele que conseguir cumpri-la. Cego pela oportunidade de se tornar um nobre através do casamento da filha, o cortador não percebe que tudo o que ele faz a deixa cada vez mais infeliz, o que passa a ameaçar a própria existência da menina.

Como Hayao Miyazaki estava trabalhando em Vidas ao Vento ao mesmo tempo em que Takahata poroduzia O Conto da Princesa Kaguya, os dois combinariam de repetir o que fizeram com Meu Amigo Totoro e Túmulo dos Vagalumes, lançando ambos os filmes em sessão dupla; imprevistos com os storyboards de O Conto da Princesa Kaguya, porém, fariam com que Vidas ao Vento ficasse pronto na data prevista, estreando em julho, enquanto o filme de Takahata só ficaria pronto cerca de quatro meses depois, estreando, distribuído pela Toho, em 23 de novembro de 2013. Seu processo de produção seria documentado e lançado como um especial da Nippon TV, chamado Isao Takahata e sua Lenda da Princesa Kaguya, exibido em março de 2015.

Gastando nada menos que 7 bilhões de ienes para ser concluído, O Conto da Princesa Kaguya é até hoje o filme japonês mais caro da história. A boa notícia seria que ele estrearia já na primeira posição, rendendo 284 milhões de ienes apenas no primeiro dia, também um recorde; a má seria que, ao fim de sua exibição no Japão, ele teria rendido apenas 2,47 bilhões, sendo o décimo-primeiro filme mais assistido do ano no país. Apesar do fracasso nas bilheterias, Suzuki se declararia satisfeito com o filme - talvez porque, dos 7 bilhões que ele gastou, 5 eram da Nippon TV, que ele não precisaria devolver.

Por alguma razão, a Disney decidiria não lançar O Conto da Princesa Kaguya nos Estados Unidos, o que levaria o próprio Studio Ghibli a decidir dublá-lo em inglês, contratando o produtor Frank Marshall, da Amblin Entertainment, para supervisionar o projeto. A dublagem em inglês conta com Chlöe Grace Moretz como Kaguya, Caitlyn Leone como Takenoko, James Caan como o cortador de bambu, Mary Steenburgen como sua esposa e a narradora da história, Darren Criss como o melhor amigo de Takenoko, Lucy Liu como a professora de boas maneiras, George Segal como o especialista da alta sociedade, Hynden Walch como a serviçal de Kaguya, Beau Bridges como o Imperador, e Dean Cain, James Marsden, Oliver Platt, Daniel Dae Kim e John Cho como os pretendentes. O filme estrearia nos Estados Unidos, distribuído pela GKIDS, em 17 de outubro de 2014, após ser exibido nos festivais de Cannes e de Toronto; outros países a exibi-lo nos cinemas seriam Coreia do Sul, França, Espanha, Portugal, Alemanha, Itália, Turquia, Rússia e Brasil, onde estrearia em 16 de julho de 2015.

A crítica ficaria absolutamente encantada com o filme, elogiando a beleza de seus traços, a profundidade de seu roteiro e considerando-o "um tesouro da animação moderna com apelo eterno". Muitas publicações especializadas o elegeriam o melhor filme de animação da década de 2010, com o famoso site IndieWire considerando-o o melhor de todo o Século XXI. O Conto da Princesa Kaguya ganharia o prêmio de Melhor Filme no festival de cinema da Mainichi Shimbun, e seria indicado ao Oscar de Melhor Filme de Animação, perdendo para Big Hero 6.

O Conto da Princesa Kaguya seria o último filme de Isao Takahata. Assim como Miyazaki, ele decidiria se aposentar, aceitando retornar apenas para trabalhar como produtor em A Tartaruga Vermelha, de 2016. Nessa época, ele seria diagnosticado com câncer de pulmão, e faleceria, aos 82 anos, em abril de 2018. Uma cerimônia em sua homenagem, que contou com um discurso de Miyazaki, seria realizada no mês seguinte no Ghibli Museum, em Tóquio.

As Memórias de Marnie
Omoide no Marnie
2014

When Marnie Was There
é um livro escrito pela inglesa Joan G. Robinson, publicado em 1967. Conhecida até então por escrever livros para crianças bem pequenas, esse foi o primeiro livro de Robinson para jovens leitores, e logo se tornou um gigantesco sucesso, sendo indicado para a Carnegie Medal, o mais importante prêmio literário do Reino Unido, e traduzido para mais de dez idiomas - embora, até onde eu consegui descobrir, jamais tenha sido lançado no Brasil. Ele conta a história de uma menina chamada Anna, que, passando por problemas de saúde, é enviada para passar uma temporada na região pantanosa de Norfolk, onde ficará com um casal de idosos amigos de sua mãe adotiva, com quem Anna não tem uma boa relação. Lá, em uma mansão no meio do pântano, aparentemente abandonada, ela conhece uma menina chamada Marnie, que logo se torna sua melhor amiga e a ajudará a aprender mais sobre suas origens.

Hayao Miyazaki leu o livro pouco após seu lançamento no Japão, em 1971, e sempre o considerou um de seus livros infantis preferidos. Durante anos, ele conversou com Suzuki sobre a possibilidade de adaptá-lo para um filme do Studio Ghibli, mas, sempre envolvido em outros projetos, nunca tinha tempo de começar a escrever um roteiro. Em 2012, enquanto Miyazaki trabalhava em Vidas ao Vento, Suzuki decidiria oferecer o projeto a Hiromasa Yonebayashi, diretor de O Mundo dos Pequeninos, a quem ele queria dar mais oportunidades dentro do Studio Ghibli. Yonebayashi leria o livro e gostaria da história, mas diria a Suzuki "ter dificuldades para visualizá-la como um filme", inicialmente recusando o convite.

Ao longo dos dias seguintes, porém, Yonebayashi teria várias novas ideias para o roteiro, como fazer de Anna uma artista e, como havia feito em O Mundo dos Pequeninos, transferir a ambientação para o Japão, que também tem uma área pantanosa semelhante a Norfolk, no norte de Hokkaido, onde estão localizadas, dentre outras, as cidades de Kushiro e Nemuro. O principal motivador de Yonebayashi, entretanto, seria a possibilidade de fazer um filme que mostrasse às crianças japonesas que se sentiam isoladas, como Anna, que elas também teriam oportunidades de fazer amigos, não estando relegadas à solidão eterna. Yonebayashi levaria todas essas ideias a Suzuki, que concordaria e daria luz verde ao projeto; curiosamente, uma coisa que ele não mudou foi que, mesmo a história sendo ambientada no Japão, e todos os personagens ganhando nomes japoneses (Anna seguiria sendo Anna, mas Anna Sasaki), Marnie continuaria tendo um nome caracteristicamente britânico e sendo, assim como no livro, loira de olhos azuis. Miyazaki seria contrário a essa decisão, e chegaria a dizer que era um truque barato para atrair espectadores usando a imagem de Marnie nos pôsteres do filme, mas o produtor Yoshiaki Nishimura, selecionado por Suzuki para a produção, bancaria a decisão, dizendo que era necessário que Marnie fosse o mais diferente de Anna possível, e que não havia qualquer intenção oculta de influenciar o público usando a aparência de Marnie.

No filme, Anna Sasaki tem 12 anos e mora com sua mãe adotiva em Sapporo; sofrendo de asma, sem uma boa relação com a mãe, e sem conseguir fazer amigos na escola, ela odeia a própria vida, e só consegue encontrar alguma alegria em seus desenhos. Quando o médico da família recomenda que ela passe uma temporada "em algum local onde o ar seja mais puro", a mãe de Anna decide mandá-la para passar uma temporada com sua irmã (tia de Anna) e seu cunhado (que, no filme, são bem mais jovens que no livro), que moram em uma pequena cidade na zona rural de Hokkaido. Lá, Anna descobre uma antiga mansão, da qual um dos acessos só pode ser alcançado quando a maré está baixa, que, apesar de parecer abandonada, é o lar de Marnie, uma menina da mesma idade de Anna que passa a maior parte de seus dias com sua governanta, já que seus pais são ricos e vivem viajando. Anna e Marnie logo se tornam melhores amigas e confidentes, o que faz com que Anna aos poucos se torne menos retraída, mais sociável, e conquiste a todos na cidade com seu jeito espontâneo. Mas, sem que Anna saiba, Marnie também tem uma ligação íntima com seu passado.

Yonebayashi escolheria a animadora Makiko Futaki, que já havia trabalhado em praticamente todos os filmes do Studio Ghibli, sendo assistente de direção em Contos de Terramar, para ser a diretora de animação de Memórias de Marnie; Futaki, que já havia feito isso em Akira, de 1988, decidiria que o foco da animação deveria estar nos movimentos dos personagens e nos planos de fundo, ao invés de em suas aparências e expressões faciais, o que resultaria em personagens de feições simples, mas extremamente complexos para serem animados, e planos de fundo absurdamente detalhados, muitos deles pintados à mão numa época em que as cores de filmes animados para o cinema eram predominantemente digitais. A mansão onde mora Marnie seria criada por Yohei Taneda, que viajou para Hokkaido para encontrar construções nas quais se inspirar, decidindo usar como base uma casa de veraneio que viu por acaso em Karuizawa, pequena cidade próxima a Nagano; Yonebayashi pediria a Taneda que desenhasse a mansão como se fosse "mais um dos personagens do filme que tomam conta de Anna". Já o silo que fica sobre uma colina da cidade onde moram os tios de Anna é uma licença poética, já que não existe nada parecido no Japão, e seria inspirado no Burnham Overy Staithe Windmill, moinho de vento que é uma das principais atrações turísticas de Norfolk.

A trilha sonora ficaria a cargo de Takatsugu Muramatsu, em sua estreia no Studio Ghibli. A música-tema do filme, Fine on the Outside, seria escrita e gravada pela norte-americana Priscilla Ahn, que receberia autorização do Studio Ghibli para incluí-la em seu álbum Just Know That I Love You, lançado três dias antes da estreia do filme nos cinemas. Por ideia de Muramatsu, a trilha sonora de Memórias de Marnie seria um álbum duplo, com o primeiro disco trazendo apenas músicas instrumentais compostas "para refletir a personalidade dos personagens e dos locais mostrados no filme", e o segundo tendo as músicas que realmente tocam durante o filme, incluindo Fine on the Outside.

Memórias de Marnie estrearia nos cinemas japoneses em 19 de julho de 2014, distribuído pela Toho, e seria um grande sucesso, rendendo 379 milhões de ienes em seu primeiro fim de semana, passando dos 2 bilhões antes de completar seu primeiro mês, e fechando a bilheteria japonesa com 3,53 bilhões de ienes - o orçamento não foi oficialmente divulgado pelo Studio Ghibli, mas Yonebayashi diria que ficou na casa de 1,15 bilhão de ienes. A crítica seria extremamente positiva, considerando-o "uma beleza visual e narrativa". O filme seria indicado ao prêmio de Animação do Ano da Academia Japonesa de Cinema e ao Oscar de Melhor Filme de Animação, perdendo esse último para Divertida Mente. Após a estreia do filme nos cinemas, o livro de Robinson teria suas vendas catapultadas, sendo relançado no Japão, Itália e Espanha, onde estava há anos fora de catálogo, lançado pela primeira vez na China, e relançado nos Estados Unidos pela Harper Collins como parte de sua linha de clássicos.

Além de no Japão, Memórias de Marnie estrearia nos cinemas, ao longo de 2015, no Reino Unido, Estados Unidos, Canadá, Austrália, França, Espanha, Itália, Alemanha, Turquia, Coreia do Sul, China e Brasil, onde estreou em 19 de novembro. Nos Estados Unidos, o filme teria uma pré-estreia durante o Festival Internacional de Filmes Infantis de Nova Iorque, e, quando estreasse oficialmente nos cinemas, faria grande sucesso e arrecadaria 561 milhões de dólares somando as bilheterias nos Estados Unidos e Canadá, número impressionante para uma produção estrangeira. No Reino Unido, teria pré-estreia no Festival de Cinema de Londres, e, quando foi lançado em home video, se tornou o terceiro filme em língua estrangeira em vendas, atrás apenas do francês Sobrevivendo a Auschwitz e de Ip Man 3, de Hong Kong. Mais uma vez, a dublagem em inglês ficaria a cargo da Disney, que escalaria Hailee Steinfeld como Anna, Kiernan Shipka como Marnie, Vanessa Williams como a pintora Hisako, Geena Davis como a mãe adotiva de Anna, e Grey Griffin e John C. Reilly como os tios de Anna.

Suzuki tinha planos para que, após as aposentadorias de Hayao Miyazaki e Isao Tahakata, Yonebayashi se tornasse um dos principais diretores do Studio Ghibli, ao lado de Goro Miyazaki, mas Memórias de Marnie acabaria sendo na verdade o último filme dirigido por Yonebayashi para o Studio Ghibli, já que, em abril de 2015, ele se transferiria para o Studio Ponoc, fundado por Nishimura, que sairia do Studio Ghibli logo após o lançamento de Memórias de Marnie nos cinemas. Memórias de Marnie também seria o último filme da carreira de Futaki, que faleceria em maio de 2016, aos 57 anos, em decorrência de uma doença desconhecida.

Ronja: A Filha do Ladrão
Sanzoku no Musume Ronja
2014

Uma das autoras preferidas de Hayao Miyazaki é a sueca Astrid Lindgren. Desde a década de 1980, ele tentou conseguir os direitos de uma adaptação de sua obra mais famosa, Píppi Meialonga, de 1945, mas sempre sem sucesso; quando estava produzindo O Serviço de Entregas da Kiki, ele chegaria a viajar para a Suécia e entrar em contato com a agente de Lindgren, mas a autora respeitosamente se recusaria a se encontrar com Miyazaki para tratar de qualquer licenciamento. Lindgren faleceria em 2002, aos 94 anos, e Miyazaki segue até hoje sem conseguir adaptar nenhuma de suas obras.

Em 2013, porém, o estúdio de animação malaio Polygon Pictures, subsidiário de um estúdio japonês de mesmo nome, mas especializado em animação por computação gráfica, conseguiria os direitos de adaptação de outra obra de Lindgren, o livro Ronja: A Filha do Ladrão, originalmente publicado em 1981. Para conseguir o financiamento necessário, o estúdio recorreria, através de seu controlador japonês, ao canal de televisão NHK. Alguém da NHK deveria saber do interesse de Miyazaki em adaptar uma das obreas de Lindgren, porque eles entrariam em contato com o Studio Ghibli, e costurariam um acordo para que o Studio Ghibli e a Polygon Pictures fossem parceiros na produção - junto com a NHK Enterprises e o serviço norte-americano de internet Dwango. Como Hayao Miyazaki já estava aposentado, ele passaria a tarefa para seu filho, Goro.

Toda a parte de animação da série ficaria a cargo da Polygon Pictures, que usaria uma técnica pouco comum: primeiro, cada personagem era criado no computador de forma tridimensional, para depois uma versão desenhada à mão do mesmo personagem ser digitalizada e combinada ao modelo em 3D. Isso deixaria os personagens com um estilo parecido com o cel-shading, mas bem próximo das animações feitas à mão pelo Studio Ghibli. Os planos de fundo, por outro lado, eram totalmente pintados à mão, com apenas os rios sendo feitos por computação gráfica e adicionados aos cenários junto com os personagens. Os personagens que chamavam mais atenção eram as harpias, aves de rapina com cabeça de mulher; extremamente detalhadas, elas levariam horas para ficar todas prontas se a equipe de produção não tivesse recorrido a um artifício: existe apenas uma harpia, usada diversas vezes para representar várias diferentes, cada uma com uma pequena mudança feita já na pós-produção, como a cor do cabelo ou dos olhos.

O Studio Ghibli ficaria, digamos, com a parte de bastidores. Goro Miyazaki faria os storyboards de todos os episódios, também ficando responsável pela direção de todos eles; Hiroyuki Kawasaki escreveria os roteiros; Katsuya Kondo criaria a aparência de todos os personagens; Toshio Suzuki desenharia o logotipo da série; e Satoshi Takebe ficaria responsável pela trilha sonora, com as músicas de abertura e encerramento sendo criadas por Kazuyoshi Saito - que simplesmente tocou todos os instrumentos na música de encerramento. A música de abertura é cantada, por Mari Natsuki, e o encerramento, com música instrumental, traz arte conceitual da série criada por Kondo e Goro Miyazaki.

Na série, Ronja (que se pronuncia "Rônia") é a filha única de Mattis, chefe de um bando de ladrões que mora em um castelo pertencente à família de Mattis, localizado em um penhasco após um desfiladeiro, o que torna quase impossível que ele seja encontrado, quanto mais invadido, deixando-os a salvo das forças da lei. A esposa de Mattis, Lovis, é a única mulher no castelo, e atua como uma espécie de mãe para todo o bando, fazendo comida, obrigando-os a tomar banho e separando eventuais brigas. O único ladrão que parece ter a cabeça no lugar é o idoso Skalle-Pete, que conheceu o pai de Mattis e atua como um conselheiro do bando; os demais, incluindo Mattis, agem todos como crianças, achando a vida de ladrão muito divertida e reagindo exageradamente a qualquer acontecimento fora da rotina. Ao todo, o bando conta com 11 ladrões (formando uma dúzia com Mattis), que atendem pelo nome de Fjosok, Pelje, Tjorm, Sturkas, Knotas, Tjegge, Jutis, Joen, Labbas, Turre e Lil-Klippen.

A série é ambientada em uma Escandinávia medieval fantástica; em volta do castelo, há uma floresta conhecida como "Mata de Mattis", pela qual passa uma trilha usada por carruagens de nobres, com Mattis e seu bando os assaltando e vivendo da venda e do consumo dos itens que roubam. A Mata também é habitada por seres fantásticos, como as harpias, que odeiam todos os humanos, matando-os por puro prazer; os anões cinza, que se parecem com pequenas corujas, são extremamente territoriais mas igualmente covardes, roubando coisas que os humanos deixam desprotegidas, mas só atacando se estiverem em número bem maior; e os rumphobs, anõezinhos pacíficos peludos, narigudos e de pés enormes, que moram nos subterrâneos e se comunicam através de murmúrios. Mas o principal perigo da Mata, pelo menos para Mattis e seu bando, é um bando rival, liderado pelo ladrão Borkas, também composto por 12 ladrões (e pela esposa de Borkas, Undis), que teima em assaltar as mesmas carruagens que o bando de Mattis, deixando-os sem tesouros.

O primeiro episódio é o do nascimento de Ronja, e, nos dois primeiros, ela é um bebê. No final do segundo episódio ocorre uma passagem de tempo, e Ronja passa a ter uns sete anos; a partir de então, a série acompanha um ano inteiro de sua vida, começando no outono, passando pelo inverno, primavera, verão, e terminando quando o outono chega novamente. O foco de cada episódio está em Ronja descobrindo conceitos como coragem, amizade, família e até mesmo amor, na figura de Birk Borkasson, único menino de sua idade na Mata - que também é filho de ninguém menos que Borkas, o rival de Mattis. Ronja e Birk se consideram irmãos, e, em um dos episódios, chegam a fugir de suas respectivas casas para morar em uma caverna, se apoiando e brigando como se fossem um casal.

Ronja: A Filha do Ladrão teria 26 episódios, exibidos pela NHK entre 11 de outubro de 2014 e 28 de março de 2015. A audiência seria boa, mas a crítica ficaria dividida, elogiando a beleza da animação e a fidelidade da série ao livro, mas reclamando do ritmo lento e do "romance" entre Ronja e Birk. Além de no Japão, a série seria exibida na televisão na Inglaterra, Escócia (dublada em gaélico escocês), Estados Unidos, Suécia, Noruega, Dinamarca, Islândia, China e Taiwan; em diversos países, dentre eles o Brasil, ela faz ou já fez parte do catálogo do Amazon Prime Video, que começou a disponibilizá-la em janeiro de 2017. A versão em inglês traz Gillian Anderson como a narradora e uma versao cantada da música de encerramento como música de abertura. Apesar de não ter sido indicada a nenhum prêmio no Japão, Ronja: A Filha do Ladrão ganharia o Emmy Internacional de Melhor Programa Voltado para Crianças.

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