domingo, 14 de outubro de 2018

Automobilismo (I)

Ainda no assunto "posts que eu sempre pensei em fazer e desisti", de vez em quando eu penso em fazer um post sobre automobilismo - a última, talvez não coincidentemente, foi quando eu fiz um sobre motociclismo. Eu já falei sobre várias categorias de automobilismo aqui no átomo - mais precisamente, sobre Fórmula 1, Fórmula Indy, Nascar e sobre a American Le Mans e a Rolex, que não existem mais - mas nunca fiz um post sobre automobilismo propriamente, falando sobre suas origens e modalidades. Isso será corrigido hoje - e semana que vem, pois, mais uma vez, foi assunto demais, e, quando isso acontece, é melhor dividir. Para abrir o post da maneira já tradicional: hoje é dia de automobilismo no átomo!

O automobilismo existe praticamente desde que inventaram o automóvel; ao contrário do que a lógica pressupõe, porém, não foram os motoristas que de repente resolveram apostar corrida pra ver quem tinha o carro mais veloz, e sim os fabricantes que decidiram organizar as primeiras provas, que serviriam como demonstrações da qualidade de seus carros. A primeira prova automobilística de que se tem registro seria disputada em 1867, na cidade de Manchester, Inglaterra, e contaria com dois carros que cumpririam a espantosa distância de... 13 km. Hoje em dia isso não é nada, mas, para a época, deve ter sido uma verdadeira proeza, principalmente porque esses primeiros carros eram construídos de forma quase artesanal por pequenos negócios familiares, sob encomenda das pessoas abastadas que queriam trocar suas carruagens por um modelo que não usasse cavalos.

A primeira corrida disputada por carros fabricados por montadoras - ou o mais próximo disso na época - seria disputada na França, em 1894. Patrocinada pela revista Le Petit Journal, a prova seria disputada na estrada entre as cidades de Paris e Rouen, em um percurso de 127 km, e contaria com carros fabricados por Peugeot, Panhard e De Dion-Bouton, sendo aberta a qualquer um que tivesse um carro de um desses três fabricantes e se dispusesse a tentar concluir o percurso com ele, além de contar com a presença dos primeiros pilotos profissionais da história, motoristas contratados pelos fabricantes para participar da prova guiando seus modelos mais modernos. Ao todo, 102 "pilotos" se inscreveram, mas, após uma prova classificatória de 50 km nos arredores de Paris, somente 25 foram selecionados para a prova em si. O vencedor foi o Conde Jules-Albert de Dion, guiando um De Dion-Bouton (fabricado por sua própria empresa, diga-se de passagem), que concluiu o percurso em 6 horas e 48 minutos, a uma velocidade média de 19 km/h. De Dion, porém, não receberia o prêmio principal, pois seu carro tinha um "carona", um fogueiro - profissional que cuida da temperatura de uma caldeira, necessário para evitar que o motor do carro usado por de Dion superaquecesse. Após o fim da prova, os comissários decidiram que isso era ilegal, e deram a premiação para o segundo colocado, Albert Lemaître, que pilotava um Peugeot, e chegou três minutos e meio depois de de Dion.

A corrida seria um sucesso tão grande que, no ano seguinte, os franceses decidiriam organizar um evento ainda maior, a Paris-Bordeaux-Paris, com extensão de 1.178 km, que levavam cerca de 48 horas para serem percorridos pelos carros da época. Também em 1895, seria disputada a primeira corrida de automóveis nos Estados Unidos, a Chicago Times-Herald Race, disputada no Dia de Ação de Graças, e que levava esse nome por ser patrocinada pelo jornal The Chicago Times-Herald. Com um percurso de 87,5 km entre as cidades de Chicago e Evanston, cumprido em cerca de sete horas, ela contaria com seis participantes, e seria vencida por John Frank Duryea, pilotando um carro de sua própria fábrica, a Duryea. Dois anos depois, em 1897, seria montado o primeiro autódromo do mundo, em Nice, França, cidade na qual, em março daquele ano, durante a "semana da velocidade", seria disputada a primeira prova de circuito, a primeira prova de montanha (modalidade que veremos semana que vem), e a primeira prova de arrancadas da história. As instalações, entretanto, seriam temporárias, fechando várias ruas da cidade, e sendo desmontadas ao fim do evento.

Vários outros autódromos do tipo seriam montados em diversas cidades europeias no final do século XIX; eles nunca se tornariam populares, porém, com os pilotos e o público ainda preferindo as provas disputadas nas estradas. O primeiro passo para a mudança viria com uma tragédia: em 1903, Marcel Renault, dono da fábrica de mesmo nome, morreria em um acidente fatal próximo à cidade de Angoulême durante a corrida Paris-Madrid. Esse seria o último de nove acidentes fatais em solo francês ocorridos em provas disputadas em estradas, o que levaria o governo francês a banir provas desse tipo em todo o território nacional. A proibição estimularia a construção de diversos autódromos, não somente na França como em toda a Europa, com as corridas em estradas só se mantendo populares na Itália. O primeiro autódromo permanente do mundo seria construído em Surrey, Inglaterra, com uma pista de concreto de 4,43 km de extensão, inaugurado em junho de 1907.

Para tentar burlar a proibição, os organizadores de corridas em estradas começariam a criar provas cada vez mais longas e que passassem por todo tipo de terreno. Eles promoviam essas provas não como eventos esportivos, e sim como raids, termo usado na época em francês para expedições exploratórias; esse termo, mais tarde, daria origem ao nome rally. O primeiro rally do qual se tem registro foi a corrida Pequim-Paris, disputada em 1907 em um percurso de nada menos que 15.000 km. Os primeiros rallies, devido às suas dificuldades, atraíam apenas um punhado de participantes cada, mas logo se tornariam populares em toda a Europa e nos Estados Unidos, com o rally Nova Iorque-Seattle de 1909 sendo o primeiro disputado integralmente em solo norte-americano.

Um segundo passo para a popularização dos autódromos seria dado em 1909, com a construção do Indianapolis Motor Speedway, lar das 500 Milhas de Indianápolis, disputadas desde 1911, e primeiro autódromo construído especificamente para corridas de automóveis nos Estados Unidos - alguns outros, como o Milwaukee Mile e o Knoxville Raceway, são mais antigos, mas foram originalmente construídos para corridas de cavalos, e mais tarde convertidos em autódromos. O sucesso das corridas em Indianápolis levaria à construção de mais autódromos nos Estados Unidos, e à popularização das corridas em autódromos por lá - além de ajudar a definir a preferência dos norte-americanos por ovais, diferentemente do que ocorre com os europeus, que preferem circuitos mistos.

Com as corridas de automóveis crescendo em popularidade em todo o planeta, se viu necessária a criação de um órgão para regulá-las internacionalmente, pois detalhes como quais modelos de carros poderiam participar, quais procedimentos poderiam ser realizados no carro durante a prova, e até mesmo os procedimentos de segurança de cada corrida eram definidos pelos organizadores, sendo diferentes para cada prova. Um dos problemas para a criação de uma federação internacional era que poucos países tinham federações nacionais, e a mais forte delas, a dos Estados Unidos, não estava muito interessada em participar da regulação de corridas de automóveis na Europa. Assim, em 1922, foi a Associação Internacional dos Automóvel Clubes Reunidos (AIACR, da sigla em francês), que decidiu tomar uma providência.

Quase todos os países possuem um Automóvel Clube, uma organização particular como se fosse um clube mesmo, que oferece a oportunidade de os motoristas se reunirem, trocarem ideias sobre carros, participarem de eventos que envolvam carros, e outras atividades automobilísticas. A maioria dos Automóvel Clubes também presta auxílio e oferece capacitação a seus membros; em muitos países, o Automóvel Clube faz o papel que o Detran faz no Brasil, regulando todo o processo de obtenção de carteira de motorista, desde a fiscalização das auto-escolas até a emissão do documento em si. O Brasil também tem um Automóvel Clube, fundado em 1907 por um grupo que contava com Alberto Santos Dumont, o pai da aviação, primeira pessoa a trazer um automóvel para o Brasil (um Peugeot, em 1891). Embora seja um órgão de prestígio, o ACDB não é muito famoso justamente porque temos o Detran, que assume a parte governamental da coisa, fazendo com que só seja membro do ACDB quem realmente tem interesse em usufruir de seus benefícios, como, por exemplo, colecionadores.

Em 1904, vários Automóvel Clubes da Europa decidiriam se reunir e criar o AIACR, que seria como uma "união internacional dos Automóvel Clubes", para que os membros do Automóvel Clube de um país também pudessem contar com o suporte do de outro caso estivesse viajando, por exemplo. Ao longo dos anos, o AIACR foi expandindo sua área de atuação, até se tornar um dos mais importantes organismos internacionais do planeta. Em 1922, sentindo que era necessária sua intervenção no automobilismo, o AIACR criaria a Comissão Esportiva Internacional (CSI), que, para todos os efeitos, atuaria como a federação internacional do automobilismo. Durante a Segunda Guerra Mundial, todos os eventos automobilísticos regulados pela CSI seriam suspensos; quando eles foram retomados, em 1948, o AIACR decidiria focar mais na parte esportiva que na parte do dia a dia dos Automóvel Clubes, e, por isso, mudaria seu nome para Federação Internacional de Automobilismo (FIA, da sigla em francês).

É importante notar que, apesar da mudança de nome, a FIA manteve todas as atribuições do AIACR, ou seja, ela ainda é o órgão máximo não somente para o automobilismo, mas também para os Automóvel Clubes. Isso, na prática, produz dois efeitos curiosos: primeiro, a FIA possui 246 membros, sendo que somente 145 deles são federações nacionais de automobilismo, com o restante sendo Automóvel Clubes e outros órgãos nacionais ligados a automóveis; segundo, além de ser filiada a organizações esportivas, como o Comitê Olímpico Internacional, a FIA é filiada a organizações como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD), e a Organização Mundial do Turismo (UNWTO), o que absolutamente não é comum para uma federação esportiva. O Brasil é representado na FIA por três instituições: a Confederação Brasileira de Automobilismo, o Automóvel Clube Brasileiro (que não é o ACDB, e cuida basicamente de assistência, como serviços de guincho e mecânico) e a Associação Automobilística do Brasil.

Antes que alguém estranhe, sim a FIA é filiada ao COI; isso porque o automobilismo é um dos esportes reconhecidos pelo Comitê Olímpico Internacional, sendo a FIA reconhecida pelo órgão como a federação que regula este esporte internacionalmente. Apesar disso, não há nenhuma chance de, um dia, termos automobilismo nas Olimpíadas, porque a Carta Olímpica, documento que rege a competição, proíbe a presença de esportes motorizados. Ainda assim, o reconhecimento garante que a FIA seguirá os ideais do olimpismo em todas as suas competições, mantendo o esporte saudável, amigável e livre de doping, por exemplo.

Atualmente, a FIA reconhece sete modalidades do automobilismo. A mais popular, de longe, é a chamada circuito, na qual cada prova consiste em um determinado número de voltas em um circuito fechado, que pode ser permanente, como um autódromo, ou temporário, como os circuitos de rua, criados através do fechamento temporário de algumas ruas e avenidas de uma cidade. Alguns circuitos são praticamente uma mistura dos dois tipos, usando não as ruas da cidade, mas as vias de um parque, por exemplo, como o Circuito de Melbourne, na Austrália, ou o de Belle Isle, em Detroit, Estados Unidos; para a FIA, esses ainda são considerados circuitos de rua. Para a FIA, não faz diferença se o circuito é "oval" ou "misto", tendo sido essa definição criada pela imprensa e pela organização de alguns campeonatos - os circuitos "ovais", aliás, nem são ovais no sentido geométrico da palavra, sendo na verdade retângulos ou triângulos com os ângulos arredondados, ou em formato de estádio, ou seja, compostos por dois semicírculos ligados por duas retas.

Na modalidade circuito, os pilotos competem todos juntos. Normalmente, é realizado um "treino" (cujo nome oficial é "sessão de qualificação") um ou mais dias antes da corrida, no qual cada piloto tentará dar a volta mais rápida possível; os resultados dessa sessão servirão para definir em qual ordem os pilotos se posicionarão para a largada. Não existem regras gerais da FIA para determinar a ordem de largada, com cada campeonato definindo suas próprias. O mais comum é que os pilotos sejam alinhados da volta mais rápida para a mais lenta, ou seja, aquele que fez a volta mais rápida larga em primeiro, com o segundo sendo o que fez a segunda volta mais rápida, e assim sucessivamente; alguns campeonatos, porém, usam o critério da maior velocidade média, com o piloto que obtiver a maior velocidade média em uma de suas voltas de classificação largando em primeiro, seguido do que obteve a segunda maior velocidade média em uma de suas voltas, e assim por diante; também não é incomum que um campeonato use os dois sistemas, usando o tempo de volta em algumas provas e a velocidade média em outras. Também não é proibido um campeonato ou uma prova usar um outro sistema qualquer para determinar a ordem de largada - por exemplo, em campeonatos que têm rodadas duplas, ou seja, duas provas no mesmo circuito em um mesmo fim de semana, a ordem de largada da segunda prova pode ser determinada pelos resultados da primeira, e, em alguns campeonatos, caso não seja possível ocorrer o treino, como, por exemplo, devido a chuva forte, os pilotos largam na ordem de sua classificação no campeonato.

Pelas regras da FIA, a largada pode ser "parada" ou "lançada". Normalmente, antes da largada, há uma ou mais "voltas de apresentação", nas quais os pilotos aquecem os carros, seguindo um carro especial chamado Carro de Segurança (também conhecido por seu nome em inglês, Safety Car, ou como Pace Car, o "carro do ritmo"). Se a largada for parada, após a volta de apresentação o Carro de Segurança sai da pista, os pilotos param seus carros em posições previamente marcadas, e, a um sinal da organização (normalmente uma luz que se apaga ou acende), os colocam em movimento e a corrida começa; se a largada for lançada, os carros continuam em movimento após o Carro de Segurança deixar a pista, mas ultrapassagens só podem ocorrer depois que eles tiverem cruzado a linha de largada. Pode ocorrer de, durante a prova, o Carro de Segurança ter de entrar na pista para ditar o ritmo da corrida, como no caso de detritos na pista ou de um carro parado em local perigoso, situações nas quais não é recomendável que os carros atinjam sua velocidade máxima; nesse caso, as ultrapassagens ficam proibidas até o Carro de Segurança deixar a pista, e, quando isso ocorre, há uma largada lançada.

Uma prova da modalidade circuito pode ser determinada pelo número de voltas ou por tempo. Caso a prova seja por número de voltas, a extensão total que os pilotos precisam percorrer para completar a prova é dividida pela extensão do circuito para se determinar o número de voltas, e o primeiro piloto a completar todas elas será o vencedor - por exemplo, na prova das 500 Milhas de Indianápolis são disputadas 200 voltas, porque o circuito tem 2,5 milhas de extensão, e na Fórmula 1 cada prova precisa ter a distância mínima de 305 km, então circuitos mais curtos têm provas com mais voltas (como o Grande Prêmio de Mônaco, que tem 78), e circuitos mais longos têm provas com menos voltas (como o Grande Prêmio da Bélgica, que tem 44). Caso seja uma corrida por tempo, um cronômetro se inicia na regressiva assim que os carros cruzam a linha de largada. Quando esse cronômetro chega ao zero, a corrida não termina imediatamente com quem está na frente ganhando, é preciso dar mais uma volta, que só começa a contar quando o piloto que está na primeira posição cruza a linha de chegada com o cronômetro zerado. Uma prova como as 24 Horas de Le Mans, por exemplo, não dura 24 horas exatas, e sim 24 horas, mais o tempo de uma volta, mais o tempo que o piloto que está em primeiro levará para abrir essa última volta quando o cronômetro zerar. Normalmente, provas disputadas pelo número de voltas possuem um tempo-limite que deve ser obedecido; caso esse tempo se esgote, é usada a mesma regra, devendo ser dada mais uma volta após o cronômetro zerar, que começa a contar quando o primeiro piloto cruza a linha de chegada.

O normal na modalidade circuito é que as provas sejam organizadas em campeonatos - embora existam provas "soltas", aquelas nas quais todos correm, ganham prêmios de acordo com sua colocação, e acabou. O número mínimo de provas (chamadas "etapas") para um campeonato é duas, mas não há máximo - o WEC possui oito etapas, a Nascar Cup Series tem 36. Independentemente do número de etapas, a cada uma delas os pilotos ganham pontos de acordo com a posição na qual terminam a corrida, e, ao final da última etapa, aquele com mais pontos é declarado campeão. Alguns campeonatos também conferem pontos extras por feitos realizados durante cada etapa, como por fazer a volta mais rápida ou por passar o maior número de voltas na liderança. Além de determinar o campeão dentre os pilotos, é comum que seja definido o campeão dentre as equipes (na Fórmula 1 chamadas de "construtores"), somando todos os pontos dos pilotos de uma mesma equipe, ou até mesmo em outras classes, como o campeão dentre os fabricantes de motores, por exemplo.

A modalidade circuito é subdivida em cinco categorias, determinadas pelo tipo de carro usado na prova: monoposto, turismo, GT, stock e truck. Os carros da categoria monoposto (popularmente chamados aqui no Brasil de "fórmula", e conhecidos em inglês como open wheel, "rodas abertas", pois não têm paralamas) são construídos especificamente para corridas, tendo formato aerodinâmico e visando sempre alcançar a maior velocidade e estabilidade. O nome "monoposto" vem do fato de que cada carro só comporta um passageiro; a maioria dos campeonatos de monopostos tem "fórmula" no nome porque, no início, todos os carros participantes daquele campeonato tinham de ser construídos de acordo com um manual, chamado fórmula, divulgado pela organização. O monoposto foi uma criação do norte-americano Ray Harroun, que, além de ser piloto e mecânico, construía seus próprios carros; ele criaria o primeiro monoposto para competir na primeira prova das 500 Milhas de Indianápolis, em 1911. Como Harroun ganhou a corrida, logo outros fabricantes também começaram a investir no modelo, que se tornaria popular nos anos seguintes tanto nos Estados Unidos quanto na Europa por ser mais veloz em comparação com os demais modelos usados na época.

No outro lado do espectro, temos os carros da categoria turismo, que são idênticos aos colocados à venda pelas montadoras em suas concessionárias, exceto por modificações feitas em nome da segurança e da velocidade - se você estiver vendo uma prova de turismo e se interessar por um carro, pode ir na concessionária que você vai encontrar um igualzinho, apenas com menos itens de segurança, sem os aerofólios e com um motor menos potente. O nome "turismo" remonta às primeiras corridas nas estradas francesas, quando os jornais fizeram uma associação entre os pilotos que tinham de ir de uma cidade à outra com os turistas que usavam a mesma estrada para viajar a lazer. Os carros de turismo são uma evolução direta dos pioneiros das corridas, mantendo a tradição de competir usando carros disponíveis para o público em geral.

A categoria GT (de gran turismo) utiliza os chamados carros esporte, que podem ser considerados híbridos dos monopostos e turismo: são carros fabricados especificamente para correr, mas que também são vendidos pelas montadoras. No início, os carros esporte vendidos não possuíam nenhuma modificação em relação aos usados nas corridas, mas hoje, assim como os turismo, os GT possuem modificações em nome da segurança dos pilotos. Também fazem parte da categoria GT os chamados protótipos, carros de corrida que usam conceitos inovadores, muitos desses conceitos sendo depois utilizados nos carros de rua. Embora cada carro só corra com um ocupante, pelas regras da FIA todos os carros da categoria GT devem ter dois lugares, o que faz com que muitos protótipos tenham a aparência de um "monoposto para dois" - e com as rodas cobertas, outra exigência da FIA para essa categoria. Os GT surgiram na década de 1950 como uma evolução dos carros de turismo, quando fabricantes como Ferrari, Mercedes, Maserati, Jaguar e Aston Martin começaram a produzir carros que eram ao mesmo tempo velozes e resistentes para as corridas e apropriados para uso no dia a dia. Conforme esses carros se popularizavam dentre os pilotos, provas que originalmente eram de turismo, como as 24 Horas de Le Mans, passaram a ser disputadas integralmente por carros esporte, o que levaria a FIA a passar a considerar o GT como uma categoria em separado.

A categoria GT possui uma disciplina chamada endurance, que tem regras um pouco diferentes das demais provas de circuito. Criada na década de 1920 por fabricantes que queriam provar que seus carros eram os mais resistentes e de menor consumo - afinal, quanto menos tempo eles passassem reabastecendo, menos tempo gastariam para completar a corrida - as provas de endurance são extremamente longas: pelas regras da FIA, cada prova deve ter no mínimo quatro horas de duração, embora campeonatos nacionais e regionais tenham provas mais curtas. Outra característica do endurance é que suas provas contam com carros de mais de uma classe na pista simultaneamente, com os pontos sendo distribuídos de acordo com a classificação do piloto em sua classe; em outras palavras, se forem quatro classes, cada prova terá quatro vencedores, um para cada classe - embora possam ser conferidos pontos extras para o "vencedor geral", aquele que efetivamente cruzou a linha de chegada em primeiro lugar.

Devido ao grande tempo de duração de suas provas, no endurance cada carro conta com mais de um piloto. Para evitar que um dos pilotos seja sobrecarregado, o que poderia ocorrer, por exemplo, se a equipe considerar que um tem desempenho claramente superior ao dos outros, há um tempo máximo que cada piloto pode permanecer no comando do carro, tanto de forma contínua quanto no somado após a corrida; esse tempo é determinado pela organização de cada prova, e varia bastante: no Weathertech, nenhum piloto pode dirigir durante mais de duas horas consecutivas ou oito horas no total, enquanto nas 24 Horas de Le Mans nenhum piloto pode dirigir durante mais de quatro horas consecutivas a cada intervalo de seis horas (ou seja, obrigatoriamente tem de descansar duas se dirigiu quatro), nem por mais de 14 horas no total. Campeonatos de endurance costumam ter provas de diferentes durações, o que faz com que, devido ao limite de tempo para cada piloto, em algumas delas a equipe conte com três pilotos, em outras com apenas dois. Para o campeonato de pilotos, contam apenas os pontos das provas em que cada piloto deu pelo menos uma volta - ou seja, em uma prova em que um piloto não guia, ele também não ganha pontos, mesmo que os outros com os quais ele divide o carro pontuem. Apesar de ser uma disciplina tão fortemente ligada à duração, algumas provas de endurance podem ser definidas pela distância, como as 1.000 Milhas de Sebring, composta por 267 voltas no circuito localizado na cidade de mesmo nome, na Flórida, Estados Unidos, e que costumam ser concluídas em cerca de oito horas.

Já os carros da categoria stock são uma espécie de meio-termo entre os monopostos e os turismo: são construídos especificamente para corridas, mas com aparência que lembra um carro produzido pelas montadoras. Explicando melhor, toda a parte mecânica de um stock é construída de acordo com as regras do campeonato, sendo a parte visível apenas uma "casca" que imita a aparência de um carro disponível para venda - alguns não têm nem mesmo faróis, apenas adesivos que lembram faróis. Se você for numa concessionária atrás de um carro que viu em uma prova de stock, vai encontrar um parecido, mas não igual. Curiosamente, nos primórdios das provas de stock, eram usados, na verdade, carros de turismo, já que as regras determinavam que só poderiam ser usados carros que estivessem à venda nas concessionárias - sendo essa, inclusive, a origem do nome stock, que, em inglês, significa "estoque". Os carros de stock como existem hoje foram uma criação da Nascar, a entidade que regula as corridas de stock nos Estados Unidos, que, na década de 1970, quis padronizar os carros usados por seus pilotos, motivada por uma certa trapaça das montadoras, que basicamente inventavam um carro de corridas e o colocavam à venda com poucas unidades e um preço absurdo, somente para cumprir a parte do regulamento que dizia que o modelo precisava estar à venda para ser usado nas provas da Nascar. Por uma questão cultural, nos Estados Unidos apenas os carros da Nascar são considerados stock; todos os outros, como, por exemplo, os usados na Stock Car Brasil, são considerados pelos norte-americanos como sendo carros de turismo.

Truck, em inglês, significa "caminhão", então é por isso mesmo que essa categoria tem esse nome: ao invés de carros, as corridas são disputadas com caminhões. Mas não caminhões "inteiros", o que provavelmente seria inviável, e sim apenas a parte da frente, da carroceria, sem a caçamba. Assim como os carros da categoria turismo, os caminhões da categoria truck são dos mesmos modelos disponíveis para venda nas concessionárias, apenas com modificações em nome da segurança e da velocidade. A categoria truck foi criada nos Estados Unidos, em 1979, quando um grupo de pilotos decidiu se unir e fundar a Associação Americana de Corrida de Caminhões (ATRA, da sigla em inglês), que disputou uma única prova, no oval do Atlanta Motor Speedway. O primeiro campeonato com múltiplas provas seria disputado em 1982, também nos Estados Unidos; a FIA começaria a regular essa categoria em 1984, e, no ano seguinte, organizaria o primeiro campeonato europeu, o primeiro com provas em mais de um país. Hoje, a categoria truck é a menos popular da modalidade circuito, mas diversas federações nacionais vêm investindo para popularizá-la.

Sem sombra alguma de dúvida, o mais importante campeonato da categoria monoposto (e talvez de todo o automobilismo) é o Campeonato Mundial de Fórmula 1. Criado pela FIA em 1950 justamente para ser seu principal campeonato (por isso o número 1 no nome), o Mundial de Fórmula 1 reunia todas as principais provas do automobilismo da época: as 500 Milhas de Indianápolis e seis provas europeias conhecidas como Grandes Prêmios (ou Grands Prix, em francês, que na época era tipo o idioma oficial dos esportes); por causa disso, até hoje as provas da Fórmula 1 (e algumas de outras categorias, por contaminação) são chamadas de Grandes Prêmios (GPs, para abreviar).

Atualmente, o Mundial de Fórmula 1 conta com 21 provas (Austrália, Bahrein, China, Azerbaijão, Espanha, Mônaco, Canadá, França, Áustria, Grã-Bretanha, Alemanha, Hungria, Bélgica, Itália, Cingapura, Rússia, Japão, Estados Unidos, México, Brasil e Emirados Árabes), e, já há algum tempo, apesar de ainda conseguir manter sua popularidade, vem sendo alvo de críticas dos fãs do esporte, que consideram que fatores como o alto custo financeiro para as equipes, ou o domínio de uma equipe em relação às demais, estariam acabando com muito de sua graça e seu charme - na década de 1970, era comum ter mais de vinte equipes competindo em cada temporada; hoje, a FIA luta para conseguir manter o número mínimo de dez, sendo que, a cada temporada, uma ou duas conseguem uma vantagem tão grande sobre os demais que apenas seus pilotos têm chances reais de luta pelo título. O maior campeão da história da Fórmula 1 é o alemão Michael Schumacher, com sete títulos (1994, 1995, 2000, 2001, 2002, 2003 e 2004), seguido do argentino Juan Manuel Fangio, com cinco (1951, 1954, 1955, 1956 e 1957). O atual campeão é o inglês Lewis Hamilton, que, em 2017, conquistou seu quarto título (os demais em 2008, 2014 e 2015), e pode igualar Fangio em 2018. O Brasil tem três campeões de Fórmula 1, os tricampeões Ayrton Senna (1988, 1990 e 1991) e Nelson Piquet (1981, 1983 e 1987), e o bicampeão Emerson Fittipaldi (1972 e 1974). Desde 1958, a Fórmula 1 premia também as equipes vencedoras, em uma competição conhecida como Mundial de Construtores, da qual a Ferrari é a recordista de títulos, com 16.

Além do Mundial de Fórmula 1, a FIA organiza, atualmente, dois Mundiais das categorias de acesso, a Fórmula 3 (até 2017 chamada de GP3 Series) e a Fórmula 2 (até 2016 chamada de GP2 Series), além de várias competições nacionais e regionais da Fórmula 4. O caminho normal para um piloto da Fórmula 1 é começar pela Fórmula 4, passar para a Fórmula 3, então pela Fórmula 2 e só então chegar na Fórmula 1, mas existem inúmeras exceções, pois existem várias outras competições que não são reguladas pela FIA, e sim por entidades nacionais, continentais ou privadas, como a Fórmula 1000, a Fórmula Atlantic, a Fórmula Continental, a Fórmula Ford, a Fórmula Volkswagen, a Fórmula Renault e a Super Fórmula. Cada um desses campeonatos possui suas próprias especificações pra a construção dos carros, e seu próprio regulamento quando às provas, pontuação e itens como troca de pneus e reabastecimento.

Outro campeonato da FIA que merece ser mencionado é a Fórmula E, cujos carros são elétricos. Criada em 2014 para estimular o desenvolvimento e a popularização dos carros elétricos - e, dizem, para servir como teste, pois a FIA almejaria que, no futuro, todas as suas categorias usassem carros elétricos - a Fórmula E ainda não conseguiu se popularizar, mas, a cada temporada, atrai mais fabricantes e equipes. Atualmente, suas temporadas começam no final de um ano e terminam na metade do ano seguinte (ou seja, a atual é a temporada 2018-2019, que começa em dezembro), e contam com 13 provas (atualmente, Arábia Saudita, Marrocos, Chile, México, Hong Kong, China, Itália, França, Mônaco, Alemanha, Suíça e uma rodada dupla nos Estados Unidos). O Brasil já teve dois campeões, Nelsinho Piquet (na temporada inaugural, 2014-2015) e Lucas di Grassi (2016-2017); os únicos outros pilotos a serem campeões foram o suíço Sébastien Buemi (2015-2016) e o francês Jean-Éric Vergne (2017-2018).

Dentre os campeonatos que não são regulados pela FIA, o mais popular é a Fórmula Indy, cujo nome verdadeiro é IndyCar Series. Criada em 1979 por uma entidade privada chamada CART (sigla em inglês para Campeonato das Equipes de Corrida Automobilística), a Fórmula Indy era uma evolução do Campeonato Nacional de Automobilismo dos Estados Unidos, no qual todas as equipes e pilotos eram norte-americanos, e todas as provas eram disputadas nos Estados Unidos; com a criação da CART, pilotos e equipes estrangeiras passaram a ser também admitidos, e, aos poucos, até mesmo provas em outros países passariam a fazer parte do campeonato. Essa "internacionalização" levaria a um racha na categoria, já que, em 1996, o dono do autódromo onde são realizadas as 500 Milhas de Indianápolis, alegando que a CART estava privilegiando os estrangeiros em detrimento de seus compatriotas, resolveu não renovar o contrato com a CART e criar seu próprio campeonato, o qual chamou de Indy Racing League (IRL) - como vocês podem imaginar, esse "Indy" vem justamente de Indianápolis, local de sua prova mais famosa, tendo sido o nome "Fórmula Indy" criado no Brasil, quando as primeiras provas começaram a ser transmitidas pelas redes de televisão daqui, para tentar associar a categoria à Fórmula 1.

Depois do racha, existiriam duas "Fórmulas Indy", a da CART e a da IRL. Em 2003, a CART iria à falência, e, no ano seguinte, o campeonato passaria a ser organizado por outra entidade privada, chamada ChampCar. Mas isso não daria muito certo, e, aos poucos, os pilotos e equipes da CART/ChampCar se transfeririam para a IRL (que também já vinha contando cada vez mais com pilotos e equipes estrangeiros), até que, em 2008, a ChampCar encerraria suas atividades, e a IndyCar, que já vinha organizando o campeonato da IRL desde 2003 (quando o campeonato passou a se chamar oficialmente IndyCar Series), se tornaria a única organizadora da Fórmula Indy. Depois da fusão, todos os campeonatos da CART, ChampCar, IRL e IndyCar passaram a ser considerados válidos para as estatísticas da IndyCar; graças a isso, o Brasil tem quatro campeões da Fórmula Indy: Emerson Fittipaldi (1989), Gil de Ferran (2000 e 2001, CART), Cristiano da Matta (2002, CART) e Tony Kanaan (2004, IndyCar). O maior campeão é o neozelandês Scott Dixon, com cinco títulos (2003, 2008, 2013, 2015 e 2018), que também é o atual campeão. Atualmente, o campeonato da Fórmula Indy conta com 17 provas, sendo uma disputada no Canadá e 16 nos Estados Unidos, incluindo as 500 Milhas de Indianápolis.

Na categoria turismo, a principal competição da FIA é a Copa do Mundo de Turismo, conhecida pela sigla de seu nome em inglês, WTCR. A atual WTCR foi criada em 1987 com o nome de Campeonato Mundial de Turismo (WTCC), e mudou de nome em 2018, não tendo nada a ver com outro campeonato chamado Copa do Mundo de Turismo, disputado entre 1993 e 1995. Atualmente, a WTCR conta com dez etapas (Marrocos, Hungria, Alemanha, Holanda, Portugal, Eslováquia, Japão, Macau e duas na China, em Ningbo e Wuhan), sendo que cada etapa é uma rodada tripla, com uma prova no sábado e duas no domingo. Participam da WTCR os carros Honda Civic, Peugeot 308, Volkswagen Golf, Hyundai i30, Alfa Romeo Giulietta, Audi RS3 e Seat León, todos, como manda a regra, idênticos às suas versões à venda, exceto por modificações em nome da segurança e da velocidade. O maior campeão é o francês Yvan Muller, com quatro títulos (2008, 2010, 2011 e 2013), o primeiro conquistado com um Seat León e os demais com um Chevrolet Cruze; o atual campeão é o sueco Thed Björk, campeão pela primeira vez em 2017 com um Volvo Polestar, e que esse ano correrá com um Hyundai i30.

Como usa carros de fábrica, a categoria turismo possui um grande número de competições nacionais, pois é mais fácil organizar uma competição de turismo que uma competição de monopostos. Duas competições nacionais se destacam devido ao elevado nível de seus pilotos e suas provas: a australiana Supercars e a alemã DTM (sigla para "mestres do turismo alemão" em alemão). A Supercars é disputada desde 1997, e sua temporada hoje conta com 16 provas, todas disputadas na Austrália; três carros estão à disposição das equipes: o Ford Falcon, o Nissan Altima e o Holden Commodore. Uma curiosidade da Supercars é que três de suas provas seguem as regras do endurance, requerendo dois pilotos para cada carro: a Sandown 500, a Gold Coast 600 e a Bathurst 1000. Os pontos dessas provas também contam para um outro campeonato, a Enduro Cup, que tem seu próprio campeão ao final do ano. As demais provas são todas rodadas duplas, exceto a prova noturna Sydney SuperNight 300, que é uma prova única, e a Melbourne 400, que é uma rodada quádrupla, com duas provas no sábado e duas no domingo. Todas as provas da Supercars trazem em seu nome o número de quilômetros percorridos, sendo que nas rodadas duplas (e quádrupla) esse número é a soma de todas as provas - ou seja, a Melbourne 400 tem quatro provas de 100 km cada. O atual e maior campeão da Supercars é o australiano Jamie Whincup, com sete títulos (2008, 2009, 2011, 2012, 2013, 2014 e 2017).

Já a DTM teve seu primeiro campeonato realizado em 1984, mas foi cancelada em 1996 por motivos financeiros. A DTM atual, conhecida como "nova DTM", começou a ser disputada em 2000. Seu calendário atualmente conta com dez provas, todas rodadas duplas; embora, para todos os efeitos, a DTM seja o campeonato alemão de turismo, apenas cinco das provas são disputadas na Alemanha (em Lausitz, Nuremberg, Nürburgring e as de abertura e encerramento, em Hockenheim), com as demais sendo disputadas na Hungria, Holanda, Grã-Bretanha, Itália e Áustria. Três carros estão à disposição das equipes, o Mercedes-AMG C63, o Audi RS5 e o BMW M4. O maior campeão é o alemão Bernd Schneider, com cinco títulos (1995, 2000, 2001, 2003 e 2006); o atual campeão é o inglês Gary Paffett, que em 2018 conquistou seu segundo título (o primeiro em 2005). A DTM é hoje considerada o campeonato de turismo mais popular do mundo, sendo transmitida para centenas de países e tendo audiência esmagadoramente maior que a WTCR.

Na categoria GT, a maior competição da FIA é o Campeonato Mundial de Endurance, conhecido pela sigla WEC, de seu nome em inglês. Assim como a Fórmula 1, o WEC foi criado reunindo em um mesmo campeonato (quase todas) as principais provas de endurance do planeta, incluindo as 24 Horas de Le Mans - mas não as 24 Horas de Nürburgring, por isso o "quase". O WEC, entretanto, é muito mais recente que a Fórmula 1, tendo sua primeira temporada sido disputada apenas em 2012 - entre 1981 e 1985, foi disputado um outro Campeonato Mundial de Endurance da FIA, mas que não tem nada a ver com o WEC atual, e não conta para suas estatísticas. Entre 1953 e 1992, a FIA organizou um outro campeonato, chamado Campeonato Mundial de Carros Esporte (WSC), que reunia provas de endurance e de curta duração, do qual o WEC é considerado o sucessor, embora o WSC também não conte para as estatísticas do WEC. É comum pilotos de outros campeonatos, como a Fórmula 1 e a Fórmula Indy, competirem no WEC, cujas provas são espaçadas e evitam coincidir com as dos demais campeonatos da FIA.

Até 2017, o WEC era disputado todo em um mesmo ano (como a Fórmula 1), mas, a partir de 2018, a FIA decidiu que ele começaria na metade de um ano e terminaria na metade do ano seguinte (como a a Fórmula E), para que as 24 Horas de Le Mans, tradicionalmente disputadas no mês de junho, passassem a ser a prova de encerramento de cada temporada. Com isso, a temporada atual, 2018-2019, ficou sendo uma temporada de transição, com duas provas das 24 Horas de Le Mans e duas das 6 Horas de Spa-Francorchamps dentre suas 8 provas; a partir da próxima temporada, 2019-2020, o calendário voltará à normalidade, com oito provas diferentes: 4 Horas de Silverstone (Grã-Bretanha), 6 Horas de Fuji (Japão), 4 Horas de Xangai (China), 8 Horas do Bahrein (Bahrein), 6 Horas de São Paulo (Brasil), 1.000 Milhas de Sebring (Estados Unidos), 6 Horas de Spa-Francorchamps (Bélgica) e 24 Horas de Le Mans (França).

Assim como outras competições de Endurance, o WEC tem na pista quatro classes ao mesmo tempo: as LMP1 e LMP2 são destinadas aos protótipos, sendo que na LMP2 todos os carros devem usar o mesmo motor e devem usar chassis de fabricantes autorizadas pela FIA, enquanto na LMP1 cada equipe é livre para construir seu próprio chassis e pode usar o motor que quiser. Já as classes LMGTE Pro e a LMGTE Am são destinadas aos carros esporte de fábrica, com a Pro contando com pilotos profissionais e a Am contando com pilotos amadores. Os carros usados nas classes LMGTE são Ferrari 488, Ford GT, BMW M8, Porsche 911 e Aston Martin Vantage. Ao final da temporada, é coroado um campeão para cada uma das quatro classes, sendo comum empates, já que cada carro conta com dois ou três pilotos; também são premiados o Campeão de Construtores das classes LMP1 e LMGTE Pro, e o Campeão das Equipes das classes LMP2 e LMGTE Am. O Brasil já teve um piloto campeão no WEC, Bruno Senna, campeão em 2017 na LMP2 empatado com um de seus colegas de carro, o francês Julien Canal. Os demais atuais campeões são o alemão Timo Bernhard e os neozelandeses Brandon Hartley e Earl Bamber na LMP1; o inglês James Calado e o italiano Alessandro Pier Guidi na LMGTE Pro; e o canadense Paul Dalla Lana, o português Pedro Lamy e o austríaco Mathias Lauda na LMGTE Am.

Se o WEC fosse a Fórmula 1, sua Fórmula Indy seria o WeatherTech SportsCar Championship, organizado pela norte-americana Associação Internacional de Esportes a Motor (IMSA), e que surgiu da fusão de duas competições sobre as quais eu já fiz posts aqui no átomo, a American Le Mans Series e a Rolex Sports Cars Series. Disputada desde 2014, a Weathertech conta atualmente com 12 provas, sendo 11 nos Estados Unidos e uma no Canadá; duas delas têm duração de uma hora e quarenta minutos, outras seis duram duas horas e quarenta minutos, e as outras quatro duram 6, 10, 12 e 24 horas - sendo que os pontos obtidos nessas quatro também contam para um outro campeonato, o Campeonato Norte-Americano de Endurance. A prova de abertura de cada temporada, realizada em janeiro, é a tradicional prova das 24 Horas de Daytona; a de encerramento, em outubro, é a Petit Le Mans, tradicional prova de 10 horas disputada no circuito de Road Atlanta; as outras duas provas de endurance são as 12 Horas de Sebring, disputadas no mesmo circuito da prova do WEC, e as 6 Horas do Glen, disputadas no tradicional circuito de Watkins Glen.

O Weathertech possui três classes: a classe P é destinada aos protótipos, enquanto as classes GTLM e GTD são destinadas a carros esporte, sendo que as equipes da GTLM são controladas pelas montadoras, enquanto as da GTD possuem um "dono pessoa física". Os carros usados nas GT são Ferrari 488, BMW M8, Ford GT, Porsche 911, Chevrolet Corvette, Lamborghini Huracán, Lexus RCF, Audi R8, Mercedes-AMG GT e Acura NSX. O Brasil possui três títulos na Weathertech, todos na classe P, dois com Christian Fittipaldi, que, ao lado do português João Barbosa, foi campeão em 2014 e 2015, e um com Felipe Nasr, campeão em 2018 ao lado do norte-americano Eric Curran; na época da American Le Mans Series, outro brasileiro, Jaime Mello, foi campeão ao lado do finlandês Mika Salo na classe GT2 em 2007. Os demais atuais campeões da Weathertech são o dinamarquês Jan Magnussen e o espanhol Antonio García na GTLM e os norte-americanos Bryan Sellers e Madison Snow na GTD.

A categoria GT possui ainda duas provas "soltas" famosíssimas. A primeira é o Grand Prix de Macau, disputado anualmente desde 1954, sempre no mês de novembro. A segunda é a já citada prova das 24 Horas de Nürburgring, disputada anualmente desde 1970, e que, no quesito popularidade de corridas longas, talvez só perca para Le Mans. Devido à extensão da pista usada (cerca de 25 km), por volta de 200 carros podem participar da prova ao mesmo tempo, o que a torna um espetáculo à parte. Quando a FIA criou o WEC, planejava incluir Nürburgring em seu campeonato, mas seus organizadores preferiram manter o modelo atual, aberto a qualquer um que possa competir. Devido ao grau de dificuldade da pista, cada carro em Nürburgring deve ter quatro pilotos, sendo que cada um só pode dirigir por no máximo 150 minutos contínuos (duas horas e meia), e, toda vez que sai do carro, só pode retornar à corrida após duas horas, com um limite total de 14 horas por piloto.

Atualmente, a FIA não organiza nenhum campeonato de stock, o que faz com que o principal dessa categoria seja a Nascar Cup Series. A Nascar (acrônimo em inglês para Associação Nacional para Corridas de Stock Cars) é uma organização privada fundada nos Estados Unidos em 1948 para organizar corridas de stock - que já existiam, mas eram uma bagunça, com algumas tendo as regras decididas pelos donos dos autódromos, outras pelos organizadores, outras pelos próprios pilotos. Hoje, a Nascar organiza três campeonatos nacionais e diversos campeonatos estaduais e regionais nos Estados Unidos, além de um campeonato nacional no Canadá, um no México, e um campeonato continental na Europa. De todos esses, a Nascar Cup Series, disputada anualmente desde 1949, é o que conta com os principais pilotos e equipes, sendo considerado o maior campeonato de stock do planeta. O calendário atual da Nascar Cup Series conta com nada menos que 36 provas, todas disputadas nos Estados Unidos, incluindo as tradicionais 500 Milhas de Daytona, que abrem a temporada, a Coca-Cola 600, prova de 600 milhas disputada na cidade de Charlotte, as 500 Milhas de Darlington, as 400 Milhas de Indianápolis e as 500 Milhas de Talladega, disputadas no autódromo de mesmo nome, um dos mais famosos do mundo, localizado na cidade de Lincoln, Alabama - juntas, essas cinco provas são conhecidas como as "Joias da Coroa" da Nascar. Os carros usados na Nascar Cup Series lembram três modelos disponíveis para a venda, o Chevrolet Impala, o Toyota Camri e o Ford Fusion, com o modelo sendo determinado pelo motor que cada equipe usa - todas as equipes que usam motor Toyota devem usar a carroceria que lembra o Camri, por exemplo. Embora todas as equipes sejam norte-americanas, o campeonato é aberto a pilotos de todas as nacionalidades; ainda assim, os norte-americanos são a esmagadora maioria, e todos os campeões até hoje nasceram nos Estados Unidos. Três pilotos dividem o título de maior campeão, todos com sete títulos cada: Richard Petty (1964, 1967, 1971, 1972, 1974, 1975 e 1979), Dale Earnhardt (1980, 1986, 1987, 1990, 1991, 1993 e 1994) e Jimmie Johnson (2006, 2007, 2008, 2009, 2010, 2013 e 2016). O atual campeão é Martin Truex, Jr.

A principal competição do automobilismo brasileiro também é da categoria stock, a Stock Car Brasil, disputada anualmente desde 1979. Atualmente, o calendário da Stock conta com 12 etapas, todas realizadas em território brasileiro; a primeira é a chamada Corrida de Duplas, na qual cada carro conta com dois pilotos, seu próprio piloto da Stock e um convidado, sendo comum a participação de pilotos brasileiros e estrangeiros de categorias como a Fórmula 1 e a Fórmula Indy. As demais etapas são todas rodadas duplas, com uma prova no sábado e uma no domingo, exceto duas: a sexta, chamada Corrida do Milhão, que premia seu vencedor com um milhão de Reais, e a última, chamada A Grande Final. A Grande Final e a Corrida de Duplas são disputadas em Interlagos; a Corrida do Milhão e uma das etapas regulares em Goiânia; as demais etapas regulares são disputadas em Curitiba, Nova Santa Rita, Londrina, Santa Cruz do Sul, Campo Grande, Cascavel, Mogi Guaçu e Tarumã. Cada corrida dura 40 minutos mais uma volta. Atualmente, todas as equipes correm com um carro que lembra o Chevrolet Cruze, embora, no passado, já tenha havido a possibilidade de escolha entre modelos diferentes. O maior campeão da Stock Car Brasil é Ingo Hoffman, com nada menos que 12 títulos (1980, 1985, 1989, 1990, 1991, 1992, 1993, 1994, 1996, 1997, 1998 e 2002); o atual campeão é Daniel Serra, que ganhou seu primeiro título em 2017.

Finalmente, na categoria truck, o principal campeonato da FIA é o Campeonato Europeu de Truck, disputado desde 1985. O nome "europeu" vem do fato de que todas as provas são disputadas na Europa, com a competição sendo aberta a pilotos de todas as nacionalidades; desde 2006, a FIA busca parceiros para realizar provas em outros continentes e transformar o campeonato em Mundial, mas as equipes são contra devido ao aumento de custos representado pelas viagens. O calendário atual conta com oito provas (Itália, Hungria, Alemanha, Eslováquia, República Tcheca, Bélgica, França e Espanha), todas rodadas quádruplas, com duas provas no sábado e duas no domingo. O atual e maior campeão é o alemão Jochen Hahn, com cinco títulos (2011, 2012, 2013, 2016 e 2018). Aqui no Brasil também temos uma competição de truck, chamada Copa Truck, disputada desde 1996 (até 2016 com o nome de Fórmula Truck). O campeonato conta com nove provas, mas com rodadas duplas, sendo sete disputadas no Brasil (Cascavel, Guaporé, Campo Grande, Goiânia, Belo Horizonte e duas em Interlagos), uma no Uruguai e uma na Argentina; o atual e maior campeão é Felipe Giaffone, com cinco títulos (2007, 2009, 2011, 2016 e 2017).

E por hoje chega, porque esse post já está imenso. Semana que vem, as outras seis modalidades!

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