domingo, 27 de fevereiro de 2005

Escrito por em 27.2.05 com 0 comentários

Centésimo Post

Este é o centésimo post do átomo. Claro que é um post como qualquer outro, mas eu senti vontade de escrever alguma coisa especial, para aproveitar o número redondo. Afinal, em um blog que só tem um post por semana, ou às vezes nem isso, 100 posts demoram um pouquinho para passar. É um sinal de que eu realmente devo ter muto assunto.

Quando eu comecei esse blog, não fazia a menor idéia do que fazer com ele. Estava satisfeito com o BLOGuil, e praticamente só registrei o nome porque achei que átomo era um nome legal para um blog. Já que eu tinha meu próprio blog mesmo, comecei a escrever minhas opiniões sobre diversos assuntos, a princípio sem freqüência definida, postando sempre que tivesse vontade. Mas não estava feliz. Ficou meio com cara de livro de auto-ajuda, e eu não sou muito de gostar de ficar escrevendo conselhos.

Então eu tive a idéia de escrever sobre as coisas que eu gosto. Essa me agradou mais. Afinal, sempre haveria uma coisa ou outra sobre meus assuntos preferidos que nem eu sabia, e pesquisar para escrever sobre eles era uma ótima forma de me inteirar das novidades.

Escrever para o átomo dá trabalho. Eu sempre procuro pesquisar nos sites oficiais, ou, quando isso não é possível, em locais renomados e confiáveis, sejam sites, revistas, manuais... É claro que sempre haverá o risco de uma ou outra coisa que não seja certa vir parar aqui, mas selecionando bem as fontes, este risco é muito menor. Já me perguntaram porque eu não ponho as fontes ao final de cada post. É uma boa pergunta. No início, eu nem achava que isso fosse necessário. Hoje, eu acho que não faz falta. A maioria das coisas vem mesmo dos sites oficiais ou da Wikipedia, é só catar por lá.

Algumas pessoas, porém, têm o sangue mais quente. Mais de uma vez já me xingaram por achar que o que eu escrevi estava errado ou simplesmente porque não gostaram do assunto que eu escolhi para a semana. Acho que ninguém precisa chegar a tanto, mas infelizmente quem expõe suas idéias na internet, esta Terra de Ninguém, está sujeito a este tipo de coisa. No início, eu deletava este tipo de comentário. Hoje, eu deixo pra lá. É claro que eu fico chateado, afinal, eu tenho maior trabalho para fazer o post e vem um sujeito avacalhar com ele. Mas não é nada que vá fazer eu fechar o blog ou perder meu sono.

Mesmo assim, com todo esse trabalho para fazer os posts, com todos estes insatisfeitos malcriados, ainda é divertido escrever para o átomo. Nem sempre eu arrumo assuntos que me agradem a tempo, o que me leva a postar uma letra de música ou a pular o fim de semana, mas ainda assim é interessante pesquisar, selecionar e escrever o post. Pouco me importa se ninguém vai ler, eu posto assim mesmo.

Como isso aqui não me rende um centavo, o dia que eu não estiver mais me divertindo, eu paro. Mas por enquanto ninguém precisa se preocupar. Já tenho muitos novos posts em mente, e espero que vocês estejam gostando tanto de lê-los quanto eu gosto de escrevê-los. Obrigado por ler o átomo, e voltem sempre. Mais do que feito para mim, ele é dedicado a vocês.
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domingo, 20 de fevereiro de 2005

Escrito por em 20.2.05 com 0 comentários

Sentai (II)

Logo que eu mudei o estilo do átomo para "um blog de falar das coisas que eu gosto", fiz um post sobre os Sentai, os famosos heróis japoneses de um grupo de cinco, tipo Changeman. Na época, fiz um post genérico, mencionando os Sentai existentes, e dizendo do que se tratava. Domingo passado, estreou no Japão o 29o seriado de Sentai da História, o que reavivou meu interesse pela assunto, e me motivou a fazer um novo post.

Para falar a verdade, eu já vinha querendo fazer mais posts sobre Tokusatsu há algum tempo (o único que eu concretizei foi o do Cybercop), mas eu sempre achava "puxa, ninguém vai querer ler sobre isso". Só que ultimamente eu ando com uma certa dificuldade de arrumar temas pra cá, e, além do mais, pode ser uma boa propaganda, ou seja, vai que alguém se interessa pelo assunto depois de ler meus posts, não é mesmo?

Assim, começarei hoje uma série de posts sobre os Sentai, do primeiro até o último! E antes que alguém fuja daqui e só volte quando eles tiverem terminado, gostaria de avisar que não os colocarei seguidos, mas sim intercalados com outros posts sobre outros assuntos de meu interesse, até para não acabar cansando vocês, nem enchendo meu saco de ter que escrever sempre sobre as mesmas coisas. Dito isto, vamos em frente!

O início
1954-1974


O primeiro seriado de Sentai produzido foi Go Ranger, do qual falaremos em breve. Mas Go Ranger, evidentemente, não foi o primeiro Tokusatsu. Tokusatsu, em japonês, significa algo como "ação ao vivo", sendo um termo bastante abrangente, utilizado para denominar qualquer programa de TV no qual atores façam o papel de super-heróis combatendo monstros inimigos. O primeiro Tokusatsu da História foi Godzilla, em seu filme para o cinema, de 1954. Como Godzilla é um monstro, este é um ponto controverso, sendo que, para muitos, o primeiro Tokusatsu seria Supergiant, de 1957, uma espécie de Super-Homem japonês.

Vestido com collant e capa, Supergiant enfrentava inimigos humanos, sendo pouco mais que uma cópia dos heróis americanos. Um ano depois, em 1958, surgiria o primeiro herói japonês mascarado, Gekko Kamen ("Máscara do Luar"), que também tinha oponentes humanos, e não tinha superpoderes. O primeiro Tokusatsu a introduzir o "monstro da semana", ou seja, um monstro inimigo a cada episódio, foi Marine Kong, de 1960. Marine Kong, porém, assim como Godzilla, era um monstro (parecido com um gorila de pelúcia), o que faz com que muitos também não o incluam na lista (quanto preconceito!).

Para falar a verdade, o primeiro Tokusatsu com cara de Tokusatsu foi Ultra Q, de 1966. Neste seriado, detetives humanos enfrentavam vários monstros gigantes, alienígenas ou produtos de experiências mal-sucedidas. O sucesso de Ultra Q levou à criação de Ultraman, até hoje um dos mais populares heróis do Japão, com inúmeras séries e seqüências. Também lançado em 1966, Ultraman tinha o poder de ficar gigante, para melhor meter a porrada nos monstros inimigos.

1966 também foi o ano de estréia do famosíssimo National Kid, produzido pela emissora Toei, com patrocínio da Panasonic (que, na época, se chamava National). National Kid foi o primeiro herói de Tokusatsu em tamanho humano com superpoderes, e tinha como inimigos os infames Incas Venuzianos, e alguns mostros de vez em quando, como o Celacanto (aquele que provoca maremotos). Mas o herói que popularizou o gênero no Japão só surgiria em 1971: Kamen Rider, o "Cavaleiro Mascarado". Um humano comum com o poder de se transformar em super-herói e "destransformar" quando quisesse, e com um monstro novo para enfrentar a cada capítulo, Kamen Rider pode ser considerado o pai de todos os demais Tokusatsu modernos.

A idéia de criar um grupo de cinco heróis de uma vez só veio com o sucesso de um anime, Gatchaman, de 1972, conhecido por aqui como Batalha dos Planetas ou G-Force. A popularidade do desenho animou a Toei a produzir um seriado com atores no mesmo estilo. Outros dois anime tiveram influência crucial na criação dos Sentai: Tetsujin 28 (o famoso Robô Gigante), de 1963, e Getter Robo, de 1974. Juntando elementos de todas estas séries, a Toei criaria seu mais bem sucedido estilo de Tokusatsu.

Himitsu Sentai Go Ranger
1975

Go Ranger


"Sentai" significa "esquadrão". O Esquadrão Secreto de Cinco Patrulheiros (Himitsu Sentai Go Ranger) foi o precursor do gênero, o primeiro seriado a apresentar não um, mas cinco heróis unidos em defesa da Terra. Lançado pela Toei em 1975, foi também a série mais comprida até hoje, com 84 episódios e um filme para o cinema, só tendo se encerrado em 1977. Na verdade, os produtores se recusavam a terminar a série por causa de seu sucesso, só o fazendo quando já não tinham mais para onde levar a história.

Uma organização criminosa conhecida como Black Cross decide dominar o Japão, e começa destruindo as bases japonesas da organização EAGLE (Earth Guard League, ou "Liga de Guarda da Terra", uma organização militar responsável pela segurança do mundo inteiro). No total, cinco bases são destruídas, tendo apenas um único sobrevivente em cada. Estes sobreviventes são escolhidos pela EAGLE para formar o esquadrão Go Ranger, equipados com armas e armaduras que lhes conferirão poderes sobre-humanos. Além de proteger o japão, os Go Rangers têm como objetivo destruir a Black Cross e seus monstros, antes que o mundo inteiro esteja em perigo.

O clima em Go Ranger é de espionagem (algo que devia estar em alta na época) e seus episódios se parecem um pouco com filmes do 007. Os Go Rangers são, como era de se esperar, cinco, e possuem os sugestivos codinomes de Aka Ranger ("ranger vermelho"), Ao Ranger ("ranger azul"), Ki Ranger ("ranger amarelo"), Momo Ranger ("ranger cor-de-rosa", a única mulher) e Mido Ranger ("ranger verde"). No capítulo 55 o Ki Ranger original foi substituído e se tornou um dos diretores da EAGLE. O segundo Ki Ranger, porém, morreu no capítulo 67 (atingido na barriga por um monstro cuja mão parecia um abridor de latas), e o original teve de retornar. O esquadrão foi reunido e suas missões são determinadas pelo Comandante Edogawa Kenpachi, um dos diretores da EAGLE. O quartel general dos Go Rangers é localizado sob um restaurante, o Snack Gon, onde trabalha a Agente Especial 007 (sim, é isso mesmo), uma agente da EAGLE disfarçada.

Os Go Rangers não tinham robô gigante, mas tinham motocicletas, um helicóptero e um tanque, para ajudá-los na luta contra o mal. Acreditem ou não, eles destruíam os monstros da Black Cross chtando neles uma bola de futebol, que, no meio da distância percorrida entre o chute e a cabeça do monstro, se transformava na maior fraqueza do mesmo (por exemplo, se fosse um monstro de gelo, ela virava uma bola de fogo).

Os vilões da Black Cross eram ciborgues cujo objetivo era a extinção da Raça Humana. Seu comandante era o Black Cross Fuhrer, que no último capítulo se revelou como sendo uma personificação do Castelo Black Cross, a base dos vilões. Abaixo dele vinham quatro Generais, e então os Monstros da Semana e os Zolders, os "soldados genéricos" que apareciam para apanhar dos Go Rangers.

JAKQ Dengekitai
1977


JAKQ


O nome deste Sentai pode ser traduzido como Tropa de Choque JAKQ. JAKQ se pronuncia "djaca", embora não seja realmente uma palavra, mas sim a simples junção das letras J, A, K e Q, já que parece que quiseram fazer um Sentai inspirado em um baralho. Mais curto que seu antecessor, JAKQ teve apenas 35 episódios, e, diferentemente de Go Ranger, não fez muito sucesso.

Desta vez os vilões eram uma organização criminosa internacional conhecida pelo sugestivo nome de Crime. Para combater o Crime (?) a ISSIS (International Science Special Investigation Squad, "Esquadrão de Investigação Especial Científica Internacional", quem inventou um nome desses????) desenvolve um ambicioso projeto: transformar quatro jovens em ciborgues, cada um alimentado por um tipo de energia, com armas e poderes sobre-humanos! Pode parecer meio drástico, mas, como em todo Sentai, o Crime não utiliza apenas humanos normais, mas também robôs e monstros grotescos, vindos do planeta Shine.

A ISSIS tem sua base em Nova York, e é comandada pelo Comandante Robert (que, por alguma razão, é japonês). O comandante do braço japonês da ISSIS é Kujirai Daisuke, também conhecido como Joker. Daisuke escolhe pessoalmente os quatro jovens para o projeto JAKQ entre os melhores agentes da ISSIS. Assim, eles deixam de ser humanos comuns para se tornar Spade Ace (vermelho, alimentado por energia atômica), Dia Jack (azul, energia elétrica), Heart Queen (rosa, a única mulher, energia magnética) e Clover King (verde, energia gravitacional). Cada membro da equipe também possui uma arma personalizada: Ace tem uma mistura de arco e flecha e vara de pescar, Jack usa uma espada, Queen tem um bumerangue em forma de Q que também serve para influenciar a mente dos soldados do Crime, e King tem uma luva com uma corrente que também usa como maça.

Inicialmente, JAKQ seria mais sério e adulto que Go Ranger, com temas como drogas e prostituição. Essa estratégia, porém, não deu certo, e a partir do capítulo 23 a série foi suavizada, com a introdução de novos personagens. Destes, o mais notável é Big One, um quinto integrante da equipe, de uniforme branco, e alimentado por todas as quatro formas de energia dos demais simultaneamente. Mestre dos disfarces e das piadas sem graça, Big One foi o primeiro integrante de um Sentai a ser inserido no decorrer da série, e substituiu Kujirai como líder da equipe. Outros personagens satíricos inseridos mais tarde foram Hime Tamasaburou, o cozinheiro da ISSIS, e um hamster ciborgue falante.

Os JAKQ também não tinham robô gigante, mas cada um deles tinha seu próprio carro (exceto Clover King, que tinha uma moto), além de um jato e um tanque coletivo. JAKQ também foi o primeiro Sentai a incluir uma "geringonça de transformação", enormes cápsulas onde os agentes entravam para se transformar nos JAKQ (os Go Rangers simplesmente diziam "Go", e se transformavam instantaneamente). Para destruir os monstros, os quatro o circundavam e disparavam um raio de sua energia pelas mãos, algo conhecido como "técnica Kovak". Com a entrada de Big One, eles passaram a utilizar uma bazuca conhecida como Big Bomber, se tornando também o primeiro Sentai a usar uma bazuca para dar cabo dos monstros.

A organização criminosa Crime é liderada por Shine, do planeta Shine, mas isso é segredo. Para todos os efeitos, o líder é Iron Claw, um ciborgue. Abaixo de Iron Claw vêm os Chefões do Crime e Soldados do Crime, humanos, e os Monstros da Semana. O objetivo do Crime é dominar todo o crime do mundo, para ter um lucro estratosférico. Como a polícia comum não pode com eles, foram criados os JAKQ.

Mesmo com a mudança da série para temas mais leves, o sucesso não veio, e JAKQ foi encerrado antes do previsto (eram para ser 39 episódios). Existe ainda um filme para o cinema onde os Go Rangers e os JAKQ unem forças contra um inimigo comum, um crossover das duas equipes, algo que, anos mais tarde, se tornaria praticamente uma tradição dos Sentai.

Série Sentai

Go Ranger
JAKQ

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domingo, 13 de fevereiro de 2005

Escrito por em 13.2.05 com 0 comentários

Stan Lee

No mundo de hoje, não basta ser bem sucedido. Algumas pessoas, por mais alto que seja o status que tenham alcançado, não recebem o devido valor, muitas vezes por preconceito, inveja, ou simplesmente pela sociedade achar que aquilo que estão fazendo "não é importante". Uma das pessoas que eu admiro, e que é o tema do post de hoje, se enquadra neste perfil. Mesmo tendo atingido um patamar de destaque em sua carreira, poucos o consideram uma referência, ou até mesmo um destaque. Esta pessoa é Stan Lee.

Stan Lee revolucionou os quadrinhos de super-heróis, praticamente definindo o estilo como o conhecemos hoje. Criou centenas de personagens - sem exagero - cada um com sua própria origem, história e personalidade. Seus personagens até hoje são temas de histórias em quadrinhos, livros, filmes, jogos e tudo o que é mercahndising. Apesar disto, você não encontrará seu nome na lista dos mais importantes autores de ficção do século XX. Tudo isso porque os quadrinhos são considerados uma "arte menor". Muito injusto, se alguém deseja minha opinião.



Nascido Stanley Martin Lieber, em 28 de dezembro de 1922, Stan "The Man" Lee começou sua carreira aos 16 anos na Timely Comics, trabalhando como copiador - "o garoto que tirava xerox". O dono da Timely, Martin Goodman, era casado com sua prima. Em 1941, uma das edições do Capitão América - na época publicado pela Timely - precisava de um texto tapa-buraco para uma de suas páginas. Lee decidiu apresentar um texto a Goodman, que, impressionado com o talento do rapaz, decidiu publicá-lo. Este foi o primeiro trabalho publicado de Stan Lee, que pela primeira vez assinava este nome. O texto foi bem recebido, e Goodman decidiu nomear Lee editor e roteirista de quadrinhos. Tendo sido nomeado aos 17 anos, Lee é até hoje o editor mais jovem da História.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Lee se alistou no Batalhão de Comunicações, e recebeu a tarefa de escrever manuais, filmes de treinamento, slogans e charges. Seu trabalho era tão bom que ele recebeu a classificação de Dramaturgo Militar - título este somente conferido a nove homens na História do Exército Americano.

Ao retornar da Guerra, Lee escreveu histórias de vários gêneros, mais notadamente romance, faroeste e ficção científica. Na época, havia acabdo de surgir o Comics Code Authority, uma entidade que alegava que os quadrinhos corrompiam a juventude através de sexo e violência. Sob pressão do CCA, os editores não podiam publicar muitas de suas histórias. Tal interferência em seu trabalho fez com que Lee parasse de gostar de criar roteiros, e considerasse abandonar o ramo.

No fim da década de 50, porém, a DC Comics (antiga Detective Comics) causou um boom nas histórias de super-heróis ao lançar a Liga da Justiça, uma equipe que reunia todos os seus heróis mais famosos. Até então, os quadrinhos que mais vendiam eram os de faroeste e piratas. Com o lançamento da Liga, os super-heróis assumiram o primeiro lugar. Querendo entrar neste filão, Goodman pediu a Lee que criasse uma equipe de super-heróis, e decidiu mudar o nome da Timely para Marvel Comics, um nome mais adequado para uma editora de super-heróis (nome este que Stan Lee diz ter sido ele o criador).

Sem saber como proceder, já que nunca havia criado um super-herói antes, Lee decidiu seguir um conselho de sua esposa, que lhe disse para escrever o tipo de história que mais o agradasse, e, se isto não combinasse com super-heróis e ele fosse demitido, não fazia mal, já que ele já estava querendo sair mesmo. Graças a este conselho, a carreira de Lee e a história dos super-heróis mudou completamente.

Até então, super-heróis eram seres inatingíveis, sem falhas de caráter, inabaláveis, cujo único objetivo na vida era combater o mal. Basta olhar para as primeiras histórias do Super-Homem, Batman ou Capitão América. Eram histórias direcionadas para crianças e pré-adolescentes, onde o maniqueísmo era componente essencial. Lee decidiu criar histórias para um público de uma faixa etária alguns anos mais a frente. Ele decidiu que seus heróis teriam mau-humor, depressão, ambição, egoísmo, vaidade, preocupações quanto a pagar as contas e impressionar as garotas, e até mesmo ficariam doentes. Todas estas coisas que nós humanos comuns sofremos, mas às quais os heróis eram invulneráveis. O que aparentemente seria um fracasso se transformou em um imenso sucesso, por atender exatamente aos anseios da geração baby boom, os nascidos durante ou logo após a Guerra, em uma época onde os sonhos eram mais difíceis, mas também mais esperançosos.

Para atender ao pedido de Goodman e criar sua própria equipe de super-heróis, Lee chamou o desenhista Jack Kirby. Juntos, eles criaram o Quarteto Fantástico, uma família de super-heróis, com todos os problemas que uma típica família americana possuía. Foi um imenso sucesso. Dois dos personagens das histórias do Quarteto eram reformulações dos antigos heróis da Timely, o Tocha Humana e o Príncipe Submarino. A versão de Lee era tão "fantástica", porém, que hoje em dia muitos nem sabem que estes personagens já existiam antes da Segunda Guerra (e que o Tocha Humana original, só para constar, era um andróide).

O sucesso e popularidade quase imediata do Quarteto fez com que a demanda por super-heróis crescesse. Lee, então, criou, nesta ordem, o Incrível Hulk, o Homem de Ferro, Thor, os Vingadores (uma "resposta" à Liga da Justiça, ou seja, uma única equipe com todos os principais heróis Marvel), os X-Men (novamente em parceria com Jack Kirby), o Demolidor (em parceria com Bill Everett), o Dr. Estranho e, finalmente, em 1962, sua mais famosa criação, o Homem-Aranha, em parceria com Steve Ditko. Somando todos os heróis e vilões que saíram da mente de Lee durante todos estes anos, a conta chega a mais de cem.

Durante a década de 60, Lee escreveu os roteiros, dirigiu a arte e editou praticamente todos os títulos da Marvel. Além disso, ele moderava as sessões de cartas, escrevia uma coluna mensal chamada Stan's Soapbox e ainda criava material promocional. Sua mais pitoresca frase de efeito, "Excelsior!" (algo como "excelente!", uma gíria antiga e hoje pouco utilizada), se tornou tão famosa que passou a ser o slogan do Estado de Nova York. Seu método de criação de histórias, onde o roteirista escreve uma breve sinopse e os desenhistas criam uma espécia de storyboard (um roteiro em quadrinhos) se tornou tão famoso que hoje em dia é utilizado por várias editoras, e é conhecido como o "método Marvel".

Stan Lee ainda conseguiu a proeza de mudar o posicionamento do CCA. Em 1971, o Departamento de Saúde, Educação e Bem Estar dos EUA pediu à Marvel que publicasse uma história sobre os perigos das drogas. Lee então criou uma história onde um amigo do Homem-Aranha se tornava dependente de pílulas para dormir. O CCA considerou que as drogas não eram essenciais para o contexto da história, e proibiu sua publicação. Lee não quis nem saber, e publicou a história assim mesmo, em Amazing Spider-Man no 96, até hoje a única revista pós-CCA a sair sem o selo de aprovação da autoridade. A revista foi um sucesso de vendas, e a Marvel ganhou um prêmio por ajudar a conscientizar os jovens contra as drogas. Diante disso, o CCA mudou seu regulamento, para permitir que os quadrinhos fizessem representações negativas das drogas, além de tornar menos rígidos outros artigos.

No final da década de 70, Lee se tornou o presidente da Marvel Comics, e começou a expandir seus negócios, criando a Marvel Entertainment, que cuidaria de desenhos, filmes e seriados. Lee sempre atuou como conselheiro de tudo o que a Marvel Entertainment produzia, embora confesse que nem tudo o que foi feito ficou de seu agrado. Atualmente, ele e seu novo sócio Avi Arad trabalham como produtores executivos dos novos filmes Marvel, e Stan Lee sempre faz uma "pontinha" em cada um deles. Além disso, Lee trabalha em seu mais novo projeto, Striperella, uma super-heróina estilo adulto, que pode ser assistida por aqui no Multishow.

Stan Lee é tão respeitado no meio que, em 2000, foi convidado pela DC Comics, a maior concorrente da Marvel, para escrever uma série em quadrinhos. Com o nome de Just Imagine, a série teve cinco edições, onde apresentava o Super-Homem, Batman, Mulher Maravilha, Lanterna Verde e Flash como eles seriam se tivessem sido inventados por Stan Lee, e não por seus criadores originais.

Como eu já disse, é uma pena que os quadrinhos não sejam respeitados como literatura. Stan Lee, para mim, é o mais importante autor do gênero, e deveria ser reconhecido como tal.
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