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segunda-feira, 16 de maio de 2016

Escrito por em 16.5.16 com 3 comentários

Baralho (XIV)

E hoje concluiremos nossa série sobre os tarôs, com os quatro padrões regionais que ficaram de fora do post anterior!

Tarô Siciliano

Cartas - Trunfos

Dos três tarôs ainda fabricados na Itália, o Tarocco Siciliano é o menos comum, só constando do catálogo de uma fabricante, a Modiano - embora na Sicília ainda possam ser encontradas versões de baixo custo e baixa qualidade produzidas por pequenas fabricantes locais. Assim como o Tarô Bolonhês, ele só é usado para jogar um único jogo, chamado Tarocchi, popular apenas em sua Sicília natal.

A Sicília está localizada no sul da Itália, então faz sentido que, diferentemente do que ocorre com os tarôs de Piemonte e Bolonha, o Tarô Siciliano tenha naipes ao estilo dos padrões do centro-sul italiano, com espadas retas e desembainhadas, clavas para representar o naipe de Paus, taças tampadas e moedas decoradas com elaboradas flores. Há dois indícios, entretanto, de que esse tarô teria sido influenciado não pelos padrões italianos ou espanhóis, mas sim pelo hoje extinto Baralho Português; o primeiro deles é o de que, nas cartas de Espadas e Paus, as espadas e clavas se cruzam, algo que não acontece nos baralhos da Espanha e do centro-sul da Itália - onde as espadas e clavas ficam arrumadinhas umas ao lado das outras - mas ocorria no Baralho Português, o que pode ser confirmado através de espécimes encontrados em museus. O segundo indício é o de que, ao invés de Fantes, o Tarô Siciliano possui quatro Aias (conhecidas em italiano como donne, plural de donna, "mulher"). Não era exatamente incomum que baralhos do século XVII tivessem "valetes mulheres" - o Minchiate, por exemplo, tinha duas - mas apenas o Baralho Português tinha quatro, uma para cada naipe, exatamente como ocorre com o Tarô Siciliano.

As cartas do Tarô Siciliano são pequeninas, com apenas 50 mm de largura por 83 mm de altura, e suas figuras são impressas em um único sentido. Um baralho completo possui apenas 64 cartas: do 5 ao 10, mais Aia, Cavaleiro, Rainha e Rei de cada naipe, mais o Ás e o 4 de Ouros, e mais os 22 trunfos. As cartas de 4 a 10 possuem uma espécie de índice na parte superior e inferior (sendo o da inferior de ponta-cabeça) para facilitar sua identificação; esse índice é composto de um número, um ponto e uma letra que representa o naipe - S para espadas, B para Paus, C para Copas e O para Ouros; assim, a carta 5.S é o 5 de Espadas. As Aias, Cavaleiros, Rainhas e Reis não possuem tal índice, nem letra ou número algum.

É curioso notar que o único naipe que possui uma carta 4 é o de Ouros; nos outros três, estão presentes apenas as cartas do 5 ao 10. O naipe de Ouros também é o único que possui um Ás, que deve ser a carta mais curiosa do baralho, já que não é usada no jogo de Tarocchi, sendo, portanto, inútil. Na verdade, o Ás de Ouros acabaria incluído no baralho apenas para que, nele, pudesse ser aplicado o já famoso selo que comprovava o recolhimento dos impostos, e que não tinha espaço apropriado em nenhuma das demais cartas. Falando nisso, todos os indícios apontam para o fato de que o Tarô Siciliano já teria sido inventado com 63 cartas (com o Ás de Ouros sendo incluído depois para o total de 64), já que não existem versões antigas das cartas que faltam para completar as 78, e seria muito pouco provável que todas tivessem se perdido com o tempo, já que existem versões antigas das demais. A teoria mais provável é a de que os jogadores sicilianos usavam outros tarôs para jogar, removendo as cartas das quais não precisavam, até que, no século XVII, época do surgimento do Tarô Siciliano, as fabricantes da ilha começaram a produzir esse padrão, apenas com as cartas que seriam efetivamente usadas, e adaptado ao gosto da população local. O próprio Ás de Ouros pode ser usado para corroborar essa teoria, já que ele é absolutamente idêntico ao do Padrão Siciliano do baralho latino, enquanto todas as outras cartas são completamente diferentes.

Os trunfos do Tarô Siciliano são bastante diferentes, e várias teorias, nenhuma confirmada, já foram elaboradas para tentar definir sua origem; atualmente, a mais aceita é a de que o Tarô Siciliano teria evoluído a partir do Bolonhês, mas fortemente influenciado pelo Minchiate. O trunfo mais baixo de todos é uma carta exclusiva, que não está presente em nenhum outro tarô, atual ou extinto, chamada Miséria. A Miséria traz como figura um mendigo idoso, acorrentado a um bloco de pedra e com um prato de comida vazio na mão, sob uma faixa onde se lê Miseria, que faz com que essa seja a única carta de todo o baralho a trazer seu próprio nome. Já a carta mais alta de todas é o Louco, que aqui se chama "o Fugitivo", e traz a figura de um bobo da corte descalço, com uma bola na mão e tocando uma corneta. Nem a Miséria nem o Fugitivo possuem número. Os demais 20 trunfos possuem números, em algarismos arábicos, e são, na ordem: o Artista Performático, a Imperatriz, o Imperador, a Constância, a Temperança, a Fortitude, a Justiça, o Amor, a Carruagem, a Roda da Fortuna, o Enforcado, o Eremita, a Morte, o Navio, a Torre, a Estrela, a Lua, o Sol, Atlas e Júpiter.

Como vocês devem ter notado, quatro das cartas são bastante diferentes daquelas encontradas tradicionalmente: a Constância (representada por uma mulher segurando uma flâmula e um escudo, e também presente em um tarô hoje extinto, chamado Tarô de Mantegna, com o nome de "a Filosofia"), o Navio (em uma ilustração quase idêntica à do trunfo da Água do Minchiate), Atlas (com a figura do gigante carregando o mundo em seus ombros) e Júpiter (com o deus romano sentado em seu trono e segurando um raio). Atlas e Júpiter são analogias que substituem o Mundo e o Julgamento, o Navio substitui o Diabo, e a Constância foi incluída para que o número de trunfos permanecesse 22, já que o conjunto não possui o Papa ou a Papisa (mas possui a Miséria, que também teria substituído um dos dois). Também é interessante notar que a Força se chama a Fortitude, e traz a figura de uma mulher ao lado de uma coluna, ao invés de lutando com um leão.

A Fortitude não é a única carta com uma figura curiosa: na carta de Torre, não há qualquer raio, fogo ou desabamento, com a torre estando intacta e bem conservada; na Estrela, um homem cavalga tentando alcançá-la, mais uma vez em uma ilustração quase idêntica à do Minchiate; na Lua, um homem descansa sob uma árvore enquanto uma mulher aparentemente reclama de sua preguiça; e, no Sol, dois homens brigam, com um golpeando o outro com um bastão. Mas a carta mais bizarra é a do Enforcado, que realmente traz um homem enforcado, pendurado em uma árvore pelo pescoço ao invés de pelo pé como na figura tradicional; essa carta, inclusive, funciona como contraponto a uma teoria bastante difundida, a de que o Navio teria substituído o Diabo porque os jogadores da Sicília se recusavam a usar um baralho que tivesse a figura do diabo - ou seja, um homem morto por enforcamento tudo bem, mas o diabo, aí já é demais.

Tarô Francês ou Tarot Nouveau

Exemplos das Cartas - Trunfos

Criado no século XIX, o Tarô Francês surgiu para tentar agradar aos jogadores daquele país, que, já acostumados ao baralho "comum", tinham resistência a jogar com as cartas do tarô, que consideravam não somente difíceis de se identificar em meio às outras de sua mão, mas também de figuras estranhas e complicadas para um simples jogo de cartas. Por causa disso, todos os trunfos do Tarô Francês são diferentes dos tradicionais italianos, e suas demais cartas são equivalentes às de um baralho francês comum. Essas características fariam com que, no início, ele ganhasse o apelido de tarot nouveau ("tarô novo", em francês), para diferenciá-lo do "antigo", que era conhecido de forma geral como "Tarô Italiano", embora muitos de seus padrões regionais, como os hoje extintos Tarô de Besançon, Tarô de Paris e Tarô de Viéville, tenham surgido na França, e não na Itália.

Assim como um tarô tradicional, o Tarô Francês possui 78 cartas: do 1 ao 10 mais Valete, Cavaleiro, Dama e Rei de cada naipe, 21 trunfos e uma carta conhecida como escusa, que traz a figura de um menestrel, uma estela no lugar do símbolo do naipe, e faz o papel que seria do Louco em um tarô tradicional. As figuras dos Valetes, Damas e Reis usadas atualmente são "inéditas", não sendo equivalentes às de nenhum padrão regional do baralho francês, e foram criadas pela fabricante francesa Grimaud no início do século XX. Assim como no Padrão Parisiense do baralho francês, as cartas têm índices em seus quatro cantos, os Ases são identificados pelo número 1 (e não pela letra A), e símbolos do naipe que seriam sobrepostos pelos índices aparecem "cortados", inclusive nos Valetes, Cavaleiros, Damas e Reis, cujas figuras são bem trabalhadas, usam múltiplas cores, são impressas em ambos os sentidos das cartas, divididas por uma fina linha preta horizontal, e em seus índices trazem a primeira letra de seus nomes em francês: V, C, D e R, respectivamente. O menestrel da Escusa segue esse mesmo estilo, mas não tem letra alguma em seus índices.

Os trunfos do Tarô Francês também são impressos em ambos os sentidos da carta e divididos por uma fina linha preta horizontal, mas, diferentemente do que ocorre com as demais figuras, a ilustração da metade de cima é diferente daquela encontrada na metade de baixo. Os trunfos possuem números em algarismos arábicos em seus quatro cantos, e, entre os dois números de uma mesma metade, existe uma intrincada decoração em preto e branco, com o símbolo do fabricante, normalmente em vermelho, no centro. Essa decoração não é padronizada, com cada fabricante criando a sua própria. O símbolo do fabricante, novamente em vermelho, também costuma ser encontrado no 1 de Paus, e a maioria dos fabricantes também escreve seu nome logo abaixo dos índices dos Valetes, Cavaleiros, Damas, Reis e da Escusa.

Os trunfos do Tarô Francês são temáticos, e as ilustrações de cada carta sempre possuem uma dualidade: em algumas delas, uma das figuras mostra uma cena urbana enquanto a outra mostra uma cena rural, em outras há apenas personagens masculinos em uma das metades e femininos na outra etc. Os temas, na ordem dos trunfos são: a loucura individual, a infância, a adolescência, a idade madura, a idade avançada, a manhã, o meio-dia, a tarde, a noite, terra e ar, água e fogo, dança, compras, atividades ao ar livre, artes, primavera, verão, outono, inverno, jogos, e a loucura coletiva. Nenhum jogador, porém, se refere aos trunfos por seu tema, apenas por seu número.

O Tarô Francês é hoje um dos menos ameaçados de extinção: usado para jogar uma dezena de jogos, e sendo o baralho de tarô oficial da Associação Francesa de Jogadores de Baralho, ele é fabricado na França, Espanha, Bélgica, Suíça, Dinamarca e Canadá. As cartas podem ser encontradas em vários tamanhos, sendo mais comum o de 60 mm de largura por 113 mm de altura. Algumas fabricantes, como a espanhola Fournier, produzem uma "versão reduzida", de preço mais baixo, que conta apenas com os quatro Cavaleiros, a Escusa e os 21 trunfos, e que pode ser incorporada a qualquer baralho francês comum de verso igual para se formar um baralho de tarô.

Tarô Industrie und Glück

Exemplos das Cartas - Trunfos

O nome desse tarô significa "indústria e sorte" em alemão, e vem de uma inscrição encontrada em uma pedra no trunfo número 2. O porquê de essa pedra conter justamente essa frase, infelizmente, se perdeu no tempo. De qualquer forma, o Industrie und Glück é hoje o tarô mais popular na Alemanha, Áustria, Hungria e República Tcheca, países nos quais ainda é fabricado e onde é usado para jogar vários jogos - e onde é conhecido, simplesmente, como "tarô" (Tarock, em alemão, Tarokk em húngaro, e Taroky em tcheco), sendo Industrie und Glück uma espécie de apelido, usada apenas para diferenciá-lo de outros tarôs quando necessário.

Criado na Áustria no século XIX, originalmente o Industrie und Glück trazia, em seus trunfos, os mesmos temas do Tarô Francês, mas com roupas típicas, grupos étnicos e atividades próprias do Império Austro-Húngaro. Diferentemente do que ocorria com outros tarôs, era comum encontrar variações enfeitadas do Industrie und Glück, sendo as mais populares as que substituíam as figuras dos trunfos de 2 a 21 por cenas de diferentes cidades da região onde o baralho foi fabricado; após a queda do Império Austro-Húngaro, no fim da Primeira Guerra Mundial, a "versão original" foi se tornando cada vez menos popular, e acabou suplantada por uma dessas variações enfeitadas - justamente a que traz a tal da inscrição Industrie und Glück no trunfo 2 - que é a única fabricada até hoje, tendo passado a ser, portanto, a versão oficial do padrão. Vale citar que, nos baralhos fabricados atualmente na República Tcheca (e naqueles fabricados na antiga Tchecoslováquia), a inscrição Industrie und Glück não está presente (embora a pedra esteja), tendo sido removida após a Tchecoslováquia se separar do Império Austro-Húngaro, para evitar que o baralho tivesse uma inscrição no idioma oficial da Áustria, contra quem os tchecoslovacos se ressentiam na época.

Um baralho tradicional do Industrie und Glück possui apenas 54 cartas: do 1 ao 4 de Copas e Ouros, do 7 ao 10 de Espadas e Paus, mais Valete, Cavaleiro, Dama e Rei de cada um dos quatro naipes, a Escusa, e os 21 trunfos. Não é difícil, entretanto, encontrar versões desse baralho com todas as 78 cartas, principalmente porque uma delas é fabricada pela Piatnik, a maior fabricante de baralhos da Áustria - e uma das maiores do mundo. As cartas do Industrie und Glück costumam ter 62 mm de largura por 113 mm de altura, embora versões menores ou maiores também possam ser encontradas.

Nenhuma das cartas possui índices, com as do 1 ao 10 contando apenas com os símbolos dos naipes na quantidade correspondente. A arte dos Valetes, Cavaleiros, Damas, Reis e da Escusa lembram as dos baralhos alemães, sendo impressas em múltiplas cores nos dois sentidos da carta e divididas por uma linha horizontal imperceptível. Os Valetes de Paus e Ouros carregam escudos dentro dos quais se encontra escrito o nome do fabricante, e todos os quatro Cavaleiros portam espadas. A Escusa não possui qualquer símbolo, e tem a figura de um bobo da corte segurando um chapéu, no topo do qual outro bobo da corte, menorzinho, se equilibra.

Assim como os do Tarô Francês, os trunfos possuem figuras diferentes em cada metade da carta; nenhum deles, porém, possui tema, com todos trazendo cenas da vida cotidiana da Áustria do século XIX, a maioria delas retratando casais apaixonados. A principal característica dos trunfos, entretanto, é seu número, bem grande, em algarismos romanos, e presente apenas no canto superior esquerdo e inferior direito de cada carta. O único trunfo que tem nome próprio é o 1, que traz a figura de uma bailarina e a de um músico, e é conhecida como Pagat, palavra derivada do italiano Bagatto, nome do trunfo 1 (conhecido por aqui como o Mago) nos tarôs italianos.

Tiertarock

Exemplos das Cartas - Trunfos

Tier, em alemão, significa "animal", então, Tiertarock é o "tarô dos animais" - nome que o padrão recebeu devido a seus trunfos, que trazem figuras de animais. Embora cada trunfo tenha um "animal-padrão", assim como no Tarô Francês, há uma figura de cada lado da carta, sempre com uma dualidade: o macho em uma e a fêmea na outra, um animal domesticado em uma e seu equivalente selvagem na outra etc.

Assim como o Industrie und Glück, o Tiertarock tem apenas 54 cartas, do 1 ao 4 de Copas e Ouros, do 7 ao 10 de Espadas e Paus, mais Valete, Cavaleiro, Dama e Rei de cada um dos quatro naipes, a Escusa, e os 21 trunfos, nenhuma delas possuindo índices, e tendo 62 mm de largura por 110 mm de altura. Os Valetes, Cavaleiros, Damas e Reis lembram os do Padrão de Württemberg do baralho alemão, são impressos em ambos os sentidos da carta e divididos por uma fina linha preta horizontal. A Escusa, assim como a do baralho francês, traz um menestrel - embora em uma ilustração bem mais simples - mas não tem qualquer símbolo.

As cartas dos trunfos se assemelham às do Tarô Francês, com um espaço na parte superior e inferior onde se encontra um número em algarismos arábicos; a diferença é que esse espaço não possui qualquer decoração, sendo todo na cor salmão, e o número, bem grande, se localiza em seu centro, e não em seus cantos. O animal de cada trunfo, na ordem, é: homem, leão-marinho, cervo, cavalo, porco, pardal, raposa, elefante, pato, rinoceronte, lebre, carneiro, cachorro, leão, gato, pavão, bode, asno, vaca, urso e galo.

Criado na região sudoeste da Alemanha, próximo à fronteira com a Suíça, no século XIX, o Tiertarock é, hoje, talvez o tarô mais ameaçado de extinção: atualmente, ele só é produzido por uma única fabricante, a alemã ASS, que o comercializa com o nome de Adler-Cego - sendo Cego o nome do único jogo ainda jogado com ele. Mas, como o Cego também pode ser jogado com qualquer outro tarô, basta a ASS desistir de fabricá-lo para que ele desapareça.

Série Baralhos

Padrões Reginais do Tarô - Parte 2

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segunda-feira, 2 de maio de 2016

Escrito por em 2.5.16 com 0 comentários

Baralho (XIII)

Hoje começaremos a ver os sete padrões regionais de tarô que ainda são fabricados. O Tarô de Marselha não está dentre eles, porque há muitos anos já não é usado para jogar, apenas para cartomancia.

Todos os padrões serão ilustrados por sua respectiva carta do Louco. Para ver as demais, basta clicar nos links que seguem logo abaixo de seus nomes.

Tarô Piemontês

Cartas - Trunfos

Dos sete padrões regionais que ainda são usados para jogar, três são da Itália, e, destes, o mais popular e mais fácil de ser encontrado é o chamado Tarocco Piemontese. Surgido durante o século XVII, ele originalmente era apenas uma versão do Tarô de Marselha, com gráficos simplificados, adotada pelos fabricantes do norte da Itália, mas, ao longo dos anos, ganhou algumas características curiosas, que acabaram transformando-o em um padrão regional próprio.

As cartas do Tarô Piemontês possuem 62 mm de largura por 106 mm de altura, sendo, portanto, da mesma largura das de um baralho anglo-americano, mas mais altas. Originalmente, como as do Tarô de Marselha, as cartas eram impressas em um único sentido, mas, no século XIX, após uma queda de popularidade, as figuras passaram a ser impressas nos dois sentidos das cartas, divididas por uma fina linha horizontal, para que ficasse mais fácil para os jogadores visualizarem quais cartas tinham em mãos. A estratégia funcionou, tanto que ainda hoje o Tarô Piemontês consta do catálogo das principais fabricantes de baralhos italianas, é usado para jogar pelo menos cinco jogos diferentes, e pode ser encontrado por toda a Itália. O efeito colateral foi que as versões impressas em um único sentido desapareceram, restando hoje apenas alguns exemplares antigos bem conservados.

Outro efeito colateral foi que as cartas ficaram meio, vamos ser francos, esquisitas. Nem todas como a do Enforcado, na qual só dá para ver seus pés em ambos os sentidos da carta, mas, ainda assim, com detalhes estranhos: a mesa do Mago, os cavalos da Carruagem e o leão da Força, por exemplo, parecem deformados, como se tivesse sido feito um esforço para que coubessem na metade da carta. Isso sem falar que detalhes que estivessem apenas na parte inferior das cartas, como a moça fugindo do desabamento na carta da Torre e a lagosta na carta da Lua desapareceram por completo.

O Tarô Piemontês é o único tarô italiano ainda usado para jogar que conta com todas as 78 cartas de um tarô tradicional (do 2 ao 10 mais Ás, Fante, Cavaleiro, Rainha e Rei de cada um dos naipes de Espadas, Copas, Ouros e Paus, mais os 22 trunfos). Todas as cartas possuem uma fina borda de cantos arredondados. As cartas comuns do 2 ao 10 e mais os ases, curiosamente, não são impressas nos dois sentidos, seguindo o mesmo estilo dos demais padrões regionais do norte da Itália - espadas curvas e embainhadas, bastões que se assemelham a cetros cerimoniais, moedas com decoração no centro e taças arredondadas como cálices. As cartas de 2 a 10 são numeradas, mas cada naipe à sua maneira: nas de Espadas e Paus, os números são em algarismos romanos e impressos ao lado direito e esquerdo das figuras, sendo os números nas cartas de Espadas mais próximos às extremidades das cartas, e, nas de Paus, mais próximos ao seu centro. Nas cartas de Ouros, à exceção do 2, os números são em algarismos arábicos e impressos dentro das moedas, que ainda contam com uma decoração semelhante a uma estrela. Já nas cartas de Copas, novamente à exceção do 2, os números, também em algarismos arábicos, são impressos no canto superior esquerdo e inferior direito.

Os ases não são numerados, e possuem características dos estilos tanto do norte quanto do centro-sul da Itália: o de Espadas tem uma mão segurando a espada, que é reta e passa por dentro de uma coroa; o de Paus também é segurado por uma mão, embora se pareça com um galho serrado de árvore ao invés de com um bastão cerimonial; o de Copas é uma taça em cujo interior se encontram folhas e frutas; e o de Ouros é uma moeda vazada e ladeada por flores, no centro da qual devia ser aplicado um selo (na verdade um carimbo) que comprovava que a fabricante havia recolhido os impostos referentes à fabricação daquele baralho, obrigatório para todas as fabricantes italianas na época em que os baralhos começaram a ser fabricados em larga escala. Os Fantes, Cavaleiros, Rainhas e Reis também não possuem número, mas os Cavaleiros, Rainhas e Reis possuem seus nomes, escritos em italiano, impressos ao longo da borda, próximos à linha que divide as figuras. A razão pela qual os Fantes não têm nomes se perdeu com o tempo.

Os trunfos tanto têm números, em algarismos arábicos, nos cantos superior esquerdo e inferior direito das cartas, quanto seus nomes, em italiano, ao longo da borda, logo abaixo do número. O Louco, que parece estar caçando borboletas, é numerado com o zero, e os demais trunfos seguem a mesma ordem e numeração do Tarô de Marselha: o Mago, a Papisa, a Imperatriz, o Imperador, o Papa, os Enamorados, a Carruagem, a Justiça, o Eremita, a Roda da Fortuna, a Força, o Enforcado, a Morte, a Temperança, o Diabo, a Torre, a Estrela, a Lua, o Sol, o Julgamento e o Mundo. É curioso notar que dois trunfos têm nomes diferentes do tradicional: ao invés de "a Estrela", o nome diz, em italiano, "as Estrelas", no plural, e, ao invés de "o Julgamento", o nome da carta em italiano é "o Anjo".

Por fim, existe um detalhe curioso que não tem exatamente a ver com o Tarô Piemontês, e sim com o Padrão Piemontês, usado para jogos de baralho comuns. Esse detalhe está no fato de que o Padrão Piemontês não é um padrão regional do baralho latino, e sim do francês, ou seja, possui Rei, Dama e Valete ao invés de Rei, Cavaleiro e Fante, e os símbolos de seus naipes são aqueles com os quais estamos acostumados, com Espadas e Paus em preto e Copas e Ouros em vermelho. Especula-se que a razão para isso esteja no fato de que, localizada no norte da Itália, Piemonte é relativamente próxima à fronteira com a França, o que fez com que os jogos de baralho que se tornaram mais populares por lá viessem do país vizinho, e não de outras cidades italianas. Se for verdade, isso pode significar que, se o Tarô de Marselha jamais tivesse se tornado popular na França, talvez o Tarô Piemontês sequer existisse.

Tarô Bolonhês

Cartas - Trunfos

Criado no século XV, o Tarocco Bolognese é um dos tarôs mais antigos da Itália, o que faz com seja uma façanha ele ser fabricado e usado para jogar até hoje. Ele foi inspirado não no Tarô de Marselha, mas no Tarô de Ferrara, um padrão regional hoje extinto, originário de uma cidade próxima a Bolonha. Ao longo dos anos, entretanto, ele passaria por diversas modificações, até se estabelecer no estilo usado até hoje.

Originalmente, por exemplo, o Tarô Bolonhês também tinha 78 cartas; mas o jogo mais popular na cidade de Bolonha, chamado Tarocchini ("tarozinho", em italiano), usava apenas 62 (e era dessa característica que o jogo tirava seu nome). Com o passar do tempo, portanto, para evitar o desperdício, as fabricantes da região passaram a fabricá-lo apenas com as 62 cartas que a maioria dos jogadores utilizavam. Da mesma forma, originalmente as figuras eram impressas em um só sentido das cartas, mas, ao perceber que os jogadores preferiam cartas impressas nos dois sentidos, os fabricantes também efetuaram essa mudança. Segundo registros históricos, aliás, o Tarô Bolonhês foi o primeiro tarô italiano a usar figuras impressas em ambos os sentidos das cartas, e essa mudança provavelmente teria acontecido para tentar evitar que os jogadores abandonassem os jogos que usavam tarô em prol dos que usavam baralhos comuns.

Ao longo dos anos, as figuras do Tarô Bolonhês também foram sendo simplificadas, de forma que, no padrão atual, estabelecido no início do século XIX, as figuras humanas possuem traços bem simples, quase como se fossem bonequinhos. Também é uma característica desse tarô a de que as cartas são bastante coloridas, com cada ilustração às vezes usando seis cores diferentes, e com a pele das figuras humanas sendo coloridas em um tom de bege, algo raro nos baralhos italianos.

As cartas do Tarô Bolonhês têm 51 mm de largura por 103 mm de altura, sendo, portanto, finas e compridas. Um baralho completo, como foi dito, tem apenas 62 cartas: do 6 ao 10, mais Ás, Fante, Cavaleiro, Rainha e Rei de cada naipe, e mais os 22 trunfos. À exceção dos trunfos de 5 a 16, nenhuma das cartas possui qualquer número ou nome, embora seja relativamente fácil para um jogador acostumado identificar rapidamente quais cartas tem na mão apenas pelas figuras.

Embora Bolonha fique no centro da Itália, as figuras das cartas numéricas segue o estilo dos baralhos do norte da Itália, e não do centro-sul: espadas curvas e embainhadas, bastões cerimoniais, taças arredondadas como cálices (e, no caso, com duas bocas, já que estão impressas em ambos os sentidos) e moedas com interior decorado (no caso, por uma flor). O Ás de Espadas tem a figura de um dragão passando por dentro de uma coroa, o de Paus tem um cetro com uma coroa na base, o de Copas uma taça sob uma coroa, e o de Ouros é pobrezinho, apenas o nome do fabricante e uma moldura dentro da qual deveria ser colocado o selo dos impostos. Os Fantes, Cavaleiros, Rainhas e Reis são bastante coloridos e divididos por uma fina linha preta horizontal, com o detalhe curioso de que, pela posição em relação à cabeça de seus cavalos, os Cavaleiros de Ouros e Paus não estão montados, e sim ao lado dos mesmos. Também vale citar o detalhe de que, diferentemente das demais figuras, os Reis de Copas e Ouros não estão segurando os símbolos de seus naipes, que aparecem flutuando no ar pouco acima deles.

Diferentemente do que ocorreu com o Tarô Piemontês, quando as fabricantes passaram a produzir o Tarô Bolonhês com as figuras impressas nos dois sentidos das cartas, tomaram o cuidado de adaptar as figuras dos trunfos. Graças a isso, o Enforcado (que, nesse tarô, se chama "o Traidor"), por exemplo, aparece integralmente na carta, e não apenas seu pé; ainda assim, entretanto, detalhes, como a ampulheta na mão do Eremita, se perderam. Falando nisso, merece destaque a carta da Carruagem, que por incrível que pareça, não conta com uma carruagem em sua figura, apenas com seu condutor e dois cavalos. Também valem menção a carta da Roda da Fortuna, na qual o personagem que "desce" a Roda é claramente diferente daquele que "sobe", o que faz com que essa seja a única carta que não tem duas metades iguais; a do Mundo, que tem a presença do deus romano Mercúrio de pé sobre o planeta Terra; e a da Estrela, que retrata os Três Reis Magos seguindo a Estrela d'Alva rumo ao nascimento de Jesus.

Tendo o Tarô Bolonhês sido inspirado no Tarô de Ferrara, seus trunfos possuem algumas diferenças quanto à ordem e ao nome em relação ao Tarô de Marselha. Para começar, como já foi dito, apenas os trunfos de 5 a 16 são numerados; eles são, na ordem: o Amor, a Carruagem, a Virtude, a Justiça, a Força, a Roda da Fortuna, o Eremita, o Traidor, a Morte, o Diabo, a Torre e a Estrela. Depois da Estrela seguem, sem numeração, mas nessa ordem, a Lua, o Sol, o Mundo e o Anjo. O Louco, que está tocando uma espécie de corneta e um tambor, não tem número nem lugar fixo na ordem dos trunfos, e o Mago, aqui chamado de "o Artista Performático", é o primeiro dos trunfos, mas também não é numerado.

Os trunfos que faltam, que, na ordem, vêm entre o Artista Performático e o Amor, são uma das características mais marcantes do Tarô Bolonhês. Pela lógica, eles deveriam ser três (já que o Artista Performático, mesmo sem numeração, é o 1, e a numeração atesta que o Amor é o 5), mas, na verdade, são quatro, conhecidos coletivamente como "os Quatro Mouros". Não se sabe bem como os Mouros teriam entrado no baralho, mas é certo que a teoria de que eles teriam sido criados para evitar problemas com a Igreja e com a nobreza (já que substituem o Papa, a Papisa, o Imperador e a Imperatriz) não procede, por um motivo muito simples: nas primeira versões do baralho, eles eram os Quatro Papas, com a mudança de papas para mouros só ocorrendo no século XVIII - mudança que ocorreu tanto no nome das cartas quanto na aparência das figuras, que passaram a usar roupas e armas típicas dos mouros ao invés de vestes papais e cetros. Curiosamente, os baralhos fabricados nos séculos XVIII e XIX realmente tinham quatro cartas de Mouros diferentes - e as figuras nessas cartas tinham a pele marrom - mas, a partir do século XX, os baralhos passaram a ter apenas três mouros diferentes - e com a pele bege como as demais figuras - embora ainda sejam quatro cartas - o que se explica pelo fato de que uma das cartas (na figura que usei para exemplo dos trunfos nesse post, a terceira da primeira linha, que veste verde e segura uma lança) é "repetida", ou seja, o baralho tem duas dela.

Nos dias atuais, o Tarô Bolonhês vive uma dicotomia curiosa: ele ainda faz parte do catálogo das principais fabricantes italianas, e é vendido em toda a Itália; sua popularidade, porém, se restringe à província de Ferrara, onde é usado para se jogar um único jogo, o já citado Tarocchini. Apesar da facilidade com a qual ele é encontrado no mercado, sua sobrevivência depende daquela do jogo ao qual ele é destinado.

Para terminar, vale citar que o Tarô Bolonhês foi o responsável pelo surgimento do Padrão Bolonhês do baralho latino, quando, no século XVI, os jogadores começaram a usá-lo para jogar um jogo bastante popular na região, chamado Primiera. Como o Tarô, na época, tinha 78 cartas, mas o Primiera só usava 40, logo os fabricantes começaram a produzir versões especiais do baralho, apenas com as 40 cartas necessárias. A partir de então, o Tarô Bolonhês e o Padrão Bolonhês evoluíram em separado, dando origem a dois padrões regionais parecidos, mas distintos.

Tarô 1JJ Suíço

Cartas - Trunfos

Registros indicam que baralhos de tarô eram usados para jogar na Suíça desde o século XVII; apenas duzentos anos mais tarde, entretanto, no século XIX, é que surgiria o padrão regional que se tornaria o mais popular no país, a ponto de se tornar reconhecido internacionalmente como o Tarô Suíço.

Sua criação é creditada a Johannes Müller, da cidade de Diessenhofen, no norte da Suíça, que teria publicado sua primeira versão em 1831, inspirado no Tarô de Besançon, padrão hoje extinto criado na França, que, por sua vez, seria inspirado no Tarô de Marselha. A principal diferença entre o Tarô de Besançon e o de Marselha era que, ao invés das cartas do Papa e da Papisa, ele trazia cartas dos deuses romanos Júpiter, o rei dos deuses, e Juno, sua esposa. Esta característica seria copiada por Müller, e, anos mais tarde, daria origem ao próprio nome pelo qual o tarô é conhecido - o "1JJ", portanto, vem de Júpiter e Juno.

As cartas do Tarô 1JJ Suíço têm 61 mm de largura por 111 mm de altura, e suas figuras são impressas em um único sentido. Todos os trunfos, mais os Valetes, Cavaleiros, Rainhas e Reis, possuem seus respectivos nomes escritos, em francês, na base da carta. Os trunfos, à exceção do Louco, também possuem números em algarismos romanos no topo da carta, e as cartas dos naipes de 2 a 10 possuem números em romanos ou no topo e na base, ou nos lados direito e esquerdo; apenas os Ases não possuem nenhum número ou nome. O baralho completo possui as tradicionais 78 cartas: do 2 ao 10 mais Ás, Valete, Cavaleiro, Rainha e Rei de cada naipe, mais os 22 trunfos.

Não há grandes mistérios em relação às figuras do Tarô 1JJ Suíço. As ilustrações são bonitas, ricas em detalhes, coloridas e bem trabalhadas, muitas lembrando as do Tarô de Marselha. Os naipes seguem o estilo do norte da Itália, com espadas curvas e embainhadas, bastões cerimoniais, taças semelhantes a cálices e moedas decoradas com flores no interior. Como na Suíça não existia a obrigatoriedade do selo dos impostos, o Ás de Ouros é uma grande moeda, decorada com flores e folhas; os de Espadas e Paus são segurados por mãos e também decorados por folhas e flores, com uma coroa sobre o de Espadas, e o de Copas é uma grande taça tapada decorada por uma cruz suíça. Os trunfos, exceto pela presença de Júpiter e Juno, são os tradicionais, com o Louco agindo como curinga e os demais sendo, na ordem, o Mago, Juno, a Imperatriz, o Imperador, Júpiter, os Enamorados, a Carruagem, a Justiça, o Eremita, a Roda da Fortuna, a Força, o Enforcado, a Morte, a Temperança, o Diabo, a Casa de Deus, a Estrela, a Lua, o Sol, o Julgamento e o Mundo. Além de Júpiter e Juno, outro personagem mitológico, Hércules, faz uma participação, enfrentando o leão na carta da Força.

A maior curiosidade do Tarô 1JJ Suíço está no fato de que ele chegou a se extinguir, mas foi "salvo", o que talvez revele que há esperança para outros padrões extintos: como suas cartas eram grandes e impressas em um único sentido, aos poucos os jogadores suíços as foram abandonando, preferindo jogar com o Tarô Piemontês ou até mesmo com o Tarô Francês, que têm cartas menores e impressas em ambos os sentidos. No início do século XX, o Tarô Suíço já era considerado extinto, e sobrevivia apenas através de uns poucos exemplares do século XIX conservados em museus e por colecionadores.

Em 1974, entretanto, a fabricante suíça A.G. Müller lançaria uma edição especial desse tarô, com o nome de Tarot 1JJ, copiando as ilustrações da primeira edição criada por Johannes Müller. A A.G. Müller (que eu não sei se tem esse nome por ter sido fundada por algum descendente de Johannes Müller) não lançaria essa edição para ser usada em jogos, e sim em cartomancia, acompanhando, inclusive, um folheto que explicava como usar o tarô para ler o futuro. Por algum motivo, contudo, os jogadores se interessariam por essa edição, e passariam a utilizá-la para jogar os dois mais populares jogos de tarô da Suíça, o Troccas e o Troggu. Espantosamente, a popularidade desse baralho cresceria tanto nos anos seguintes que não somente a A.G. Müller o incluiria em seu catálogo de forma permanente, dessa vez como um baralho próprio para jogar, como também diversas outras fabricantes da França e da Itália passariam a produzi-lo, mantendo o nome de Tarô 1JJ Suíço, que, hoje em dia, é o oficial.

Hoje em dia, o Tarô 1JJ Suíço é fortemente associado ao Troccas e ao Troggu - sendo o baralho oficial para torneios desses dois jogos organizados pela Associação Suíça de Jogos de Cartas - mas é vendido por praticamente toda a Europa, ou seja, nada impede que suas cartas sejam usadas para outros jogos de tarô, se os jogadores assim quiserem.

Em breve, os quatro padrões que faltam!

Série Baralhos

Padrões Reginais do Tarô - Parte 1

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segunda-feira, 18 de abril de 2016

Escrito por em 18.4.16 com 0 comentários

Baralho (XII)

Há quase dez anos (Nota do Guil: cruzes!) eu fiz aqui no átomo uma série de posts sobre baralhos, falando não somente sobre a origem do baralho e curiosidades sobre ele, mas também, em detalhes, sobre todos os padrões regionais de baralho existentes. Essa é até hoje uma das minhas séries preferidas, não somente porque o resultado final ficou muito bom, mas também porque, enquanto pesquisava para fazê-la, eu mesmo pude aprender muitas coisas sobre um dos assuntos que eu mais gosto. Até hoje, de vez em quando retorno a lê-la para relembrar algum detalhe quando me dá vontade.

Acontece que, conforme eu expliquei no meu Post 500, essa série estava incompleta. Quando a escrevi, eu planejava, depois de falar sobre o Baralho Suíço (tema do último post da série até agora), prosseguir, falando sobre os baralhos de tarô. Para quem não conhece a história dos baralhos (ou não leu a série), pode parecer estranho eu resolver falar sobre tarô em seguida a baralhos, mas acontece que, originalmente, o tarô era usado apenas para jogos de baralho, tendo sua associação com a cartomancia - pela qual ele é bem mais conhecido hoje, ao ponto de quase todo mundo aqui no Brasil achar que ele só serve para ler o futuro - começado somente mais de três séculos após sua invenção. Esses novos posts acabaram nunca se concretizando porque, na época, ao invés de adicioná-los à série dos baralhos, eu planejava começar uma série sobre tarôs - ou seja, com o primeiro post sendo o Tarô (I) ao invés do Baralho (XII) - e decidi que seria melhor se eu deixasse um espaço grande, tipo de um ou dois meses, entre elas. Como eu encerrei a série dos baralhos próximo ao post de número 250, decidi que só começaria a dos tarôs depois dessa marca. E depois, envolvido com outros assuntos, esqueci, desanimei, e acabei deixando pra lá.

De lá pra cá, por várias vezes eu pensei em tirar a série dos tarôs da gaveta, mas sempre acabei desanimando por um motivo ou outro. Essa semana, porém, sem motivo algum aparente, me deu vontade de reler a série dos baralhos. E, ao fazê-lo, me deu vontade de escrever sobre os tarôs. E, ao pensar um pouco sobre o assunto, concluí que seria melhor - e mais lógico - se os tarôs não fizessem parte de uma série própria, e sim da mesma série que os baralhos. Tomado por esse novo ânimo, digitei as linhas que se seguem, ressuscitando a série dos baralhos após quase uma década. Fãs dos jogos de cartas, regozijem-se: hoje é dia de tarô no átomo!

A origem do tarô está intimamente ligada à origem dos baralhos europeus. Recapitulando rapidamente (uma história mais completa pode ser encontrada nos posts anteriores da série sobre baralhos), o baralho surgiu na Europa através de um jogo árabe chamado na'ib - palavra que significa "delegado", em árabe, e acabaria dando origem a naipe, o nome pelo qual nos referimos coletivamente aos quatro grupos (Espadas, Paus, Copas e Ouros) aos quais as cartas do baralho pertencem. No século XIV, o na'ib chegaria à Espanha, através dos mouros que se instalaram na Península Ibérica, e à Itália, através dos mamelucos, que tinham fortes laços comerciais com cidades italianas. É consenso dentre os estudiosos que o primeiro baralho europeu ao qual o na'ib daria origem seria o espanhol, com o italiano sendo inventado depois - embora não se saiba o quanto depois.

No norte da Itália, entretanto, mais precisamente nas cidades de Ferrara, Bolonha e Piemonte, o baralho sofreria uma espécie de mutação. Nessas cidades, era muito popular um jogo chamado trionfi ("triunfo"), que usava 78 cartas, sendo 22 delas especiais, que não pertenciam a nenhum naipe, traziam, cada uma, uma figura diferente, e ainda possuíam uma espécie de hierarquia, com umas valendo mais do que as outras - e com todas elas valendo mais que as cartas tradicionais do baralho. Com o tempo, o nome do jogo passou a ser utilizado pelos jogadores para se referir a essas cartas, que ficaram conhecidas também como trionfi - palavra que daria origem a trunfo, nome que usamos hoje quando queremos dizer que uma das cartas vale mais do que as outras. Não há registros históricos de que os 22 trunfos eram usados sozinhos, o que leva à suposição de que eles sempre foram usados em conjunto com um baralho comum. Infelizmente, também não há registros históricos de como os trunfos foram inventados - há uma teoria de que eles foram inspirados em um baralho alemão conhecido como Cartas de Caçada, criado no século XV, mas estudiosos italianos a refutam, dizendo não haver nenhum registro de que as Cartas de Caçada fossem conhecidas no norte da Itália. Há registros históricos, entretanto, que comprovam que o baralho de tarô é o mais antigo da Itália, com sua fabricação tendo começado antes mesmo da dos baralhos italianos comuns.

Se você é bom em matemática, já deve ter notado uma curiosidade: se o baralho de trionfi tinha 78 cartas, e 22 delas eram os trunfos, sobram 56 - e não 52, que é o número de cartas presente em um baralho comum. Isso acontece porque, enquanto um baralho comum possui três figuras, o baralho de trionfi - e, por consequência, o baralho de tarô - possui quatro. A figura a mais, no caso do tarô, é a Rainha, que não está presente nos baralhos espanhol e italiano, que contam apenas com Rei, "Valete" e Cavaleiro. "Valete" está entre aspas porque esse foi um termo cunhado apenas quando do surgimento do baralho francês, bem depois; os baralhos espanhóis possuem o sota, uma espécie de escudeiro ou secretário do cavaleiro, enquanto os baralhos italianos possuem o fante, uma espécie de cavalariço. Quando o baralho chegou à França, o "posto" mais semelhante ao sota e ao fante era o valet, uma espécie de secretário do Rei. Também é interessante notar que, quando o baralho chegou à França, eles decidiram trocar o Cavaleiro pela Rainha (conhecida por nós como Dama), o que faz com que muita gente pense que a "figura extra" do tarô é o cavaleiro.

Originalmente, os 22 trunfos não tinham qualquer numeração, devendo os jogadores decorar sua ordem. No início, eles também não tinham um padrão, com cada região ou fabricante determinando quais seriam suas figuras - há registros históricos, por exemplo, de um baralho cujos trunfos representavam deuses da mitologia grega, e de um com figuras de diferentes espécies de pássaros. A padronização só ocorreria quando as fabricantes começassem a usar prensas para criar seus baralhos - no início, cada carta tinha de ser desenhada e pintada à mão, mas, após o advento das prensas, passaria a ser usado um enorme bloco de madeira, no qual as cartas eram entalhadas, então cobertas com tinta, e pressionadas sobre uma grande folha de papel, como um carimbo, sendo cortadas depois. Apesar de ser mais prático e barato, esse método também fez com que as cartas ficassem menos detalhadas, pois era complicado gravar muitos detalhes no bloco de madeira, além do que era usado apenas um bloco para todo o baralho, de forma que, se o entalhador cometesse um erro crasso lá na última carta, todo o bloco acabava sendo inutilizado. Foi esse segundo motivo, aliás, que levou à padronização: era muito mais fácil para os entalhadores copiar de um modelo pronto do que criar todas as figuras a partir do zero.

Na hora de padronizar, ocorreria algo curioso com os trunfos: ao invés de figuras simples, como animais e plantas, ou até, vá lá, os deuses gregos, os trunfos escolhidos representavam figuras, digamos, esotéricas, como "o mago", "a papisa" (que é um papa mulher, algo que, exceto se você acreditar na lenda da Papisa Joana, jamais existiu), "o diabo" e "o julgamento" (divino, aquele que ocorrerá no Dia do Juízo Final). A razão exata pela qual esses trunfos, muitos deles de difícil compreensão para o homem comum da época, foram criados é incerta, mas a teoria mais aceita é a de que eles teriam sido criados inspirados no movimento humanista, que surgiu no século XIV e exaltava a superioridade do homem em relação à natureza, em contraste com a posição de humildade e subserviência pregada durante a Idade Média. Não era incomum que os trunfos fossem temáticos, e o tema desse conjunto, portanto, seria "a jornada do homem", contendo cartas que representavam pessoas comuns (como o mago e o eremita), figuras de poder (como o papa e o imperador), virtudes (como a força e a temperança), medos (como o enforcado e a morte) e corpos celestes (como as estrelas, o Sol e a Lua). É interessante registrar que a ordem de valor dessas cartas pode ter tido, no início, algum sentido que refletisse essa jornada - com a última carta sendo a morte, por exemplo - mas, como não havia numeração nas cartas originalmente, essa ordem pode ter mudado até se chegar na que temos hoje.

A configuração dos trunfos mais comum é, na ordem, o Mago, a Papisa, a Imperatriz, o Imperador, o Papa, os Enamorados, a Carruagem, a Justiça, o Eremita, a Roda da Fortuna, a Força, o Enforcado, a Morte, a Temperança, o Diabo, a Torre, a Estrela, a Lua, o Sol, o Julgamento, o Mundo e o Louco. O Louco não é exatamente parte dos trunfos, e, nos jogos de tarô, costuma ser usado como curinga. Nos tarôs em que os trunfos têm números, ele costuma não ter nenhum ou ser numerado como 0; os demais são numerados em romanos, do I ao XXI - curiosamente, a Morte é justamente o número XIII, e sua carta costuma não ter número, já que o 13 é considerado agourento, e, na carta da Morte, seria duplamente agourento. Vale citar que parte do misticismo associado às cartas em países como Brasil e Estados Unidos advém de problemas de tradução: o Mago, por exemplo, em francês é conhecido como Le Bateleur, que significa "o Prestidigitador", e, embora a prestidigitação seja realmente associada a magos e mágicos, a figura da carta mostra uma espécie de artista de rua, provavelmente daqueles que realizam pequenos truques em troca de dinheiro, como propor adivinhar debaixo de qual copo está a bolinha - em certas regiões da Itália, inclusive, essa carta é conhecida como "o Artista Performático" ou até mesmo "o Malabarista". Da mesma forma, o Enforcado originalmente era "o Pendurado", tanto que ele não está enforcado, e sim pendurado pelo pé. A Torre, por outro lado, no original é "a Casa de Deus", e, segundo a teoria mais aceita, sua ilustração - um raio atingindo uma torre e derrubando pessoas e pedras lá de cima - retrata a destruição da Torre de Babel. Curiosamente, em tarôs mais antigos, essa carta se chamava "o Raio", em alusão às forças da natureza, o que comprova que seu significado teria sido alterado para o do evento bíblico mais tarde.

A razão pela qual justamente esse conjunto foi escolhido pode ser a mais simples possível: era esse o conjunto usado pelo primeiro fabricante que aderiu à padronização, ou o mais popular na região por onde a padronização começou, por exemplo. Independentemente do motivo pelo qual justamente esses foram escolhidos, é consenso que essa seleção de trunfos foi o que levou o tarô a ser tão fortemente associado à cartomancia - afinal, se você tem cartas representando a morte, a roda da fortuna e a ira de Deus, deve haver mais nelas do que os olhos podem ver. Os primeiros registros históricos do uso do tarô para cartomancia datam apenas do século XVIII - mais de 300 anos após o surgimento dos primeiros baralhos de tarô, portanto - mas sua popularização para este fim se daria apenas no começo do século XX.

Em meados do século XIX, um comerciante de vinhos francês chamado Jean-Baptiste Alliette decidiria publicar um livro, sob o pseudônimo Etteilla (Alliette ao contrário), chamado (em tradução livre) Como Entreter a Si Mesmo com um Baralho, no qual, dentre outras coisas "ensinava" como ler o futuro usando as cartas de um baralho comum. O livro não vendeu bem, mas, coincidentemente, pouco após seu lançamento, um filósofo também francês, chamado Court de Gébelin, que se interessava por assuntos esotéricos, inventou uma história, a qual publicou em um dos livros de uma coleção em oito volumes sobre esoterismo que havia lançado, segundo a qual o tarô fora criado no Antigo Egito, através de instruções encontradas em um livro escrito por ninguém menos que Toth, o deus da sabedoria, e que cada uma de suas cartas representava um dos mistérios do universo. Como na época não existia internet para as pessoas pesquisarem e descobrirem que isso era uma grande besteira, um monte de gente acreditou. Não se sabe se Etteilla estava dentre eles ou se simplesmente viu uma oportunidade, mas, de qualquer forma, ele aproveitou e lançou uma nova edição de seu livro, chamada Como Entreter a Si Mesmo com um Baralho de Tarô, na qual "ensinava" como vislumbrar os segredos do universo contidos nas cartas de tarô. Dessa vez o livro seria um grande sucesso, e ajudaria a pavimentar o caminho para o uso do tarô na cartomancia.

Para ilustrar seu livro, Etteilla usaria figuras das cartas do Tarô de Marselha, um dos mais populares na França da época, e hoje um dos mais conhecidos no mundo. Curiosamente, ele não foi inventado em Marselha (que fica na França), mas sim em alguma cidade da Lombardia, na Itália, sendo que não se sabe exatamente em qual. No início do século XVI, a França invadiu e conquistou a Lombardia (que retornou para a Itália antes do final daquele mesmo século), e lá encontrou um dos tais blocos de madeira usados para prensar baralhos, já entalhado. Gostando dos desenhos, um dos oficiais franceses decidiu levá-lo para Marselha, onde ele foi copiado e se tornou um novo padrão, curiosamente conhecido na França como "Tarô Italiano" (para diferenciar do Tarô Francês, sobre o qual falaremos em breve). De lá, o "Tarô Italiano" se espalhou pela França, sendo que, no final do século XIX, praticamente todas as fabricantes francesas já o produziam. Ao longo dos anos, suas ilustrações foram mudando, principalmente para se modernizar, mas sempre mantiveram as mesmas características, tornando-o facilmente identificável quando comparado a outros tarôs.

Em 1930, a fabricante de baralhos francesa Grimaud o lançaria como uma edição especial, pela primeira vez usando o nome "Tarô de Marselha", com arte imitando a do século XVIII. Devido ao já crescente interesse do público pelo tarô para uso em cartomancia, essa edição logo se tornou um sucesso, e, como os desenhos eram de domínio público, o Tarô de Marselha acabaria sendo lançado por diversas outras fabricantes de baralho, material esotérico e até mesmo editoras de livros ao redor do mundo. Hoje, ele é erroneamente referenciado como "o primeiro tarô", e muitos acreditam que ele foi inventado especificamente para a cartomancia.

Pode não ter sido, mas outro muito famoso dentre os cartomantes foi: o tarô de Rider-Waite (hoje conhecido como Rider-Waite-Smith). Criado pelo "místico" A.E. Waite, ilustrado por Pamela Colman Smith, e publicado pela editora Rider Company (daí seu nome), o Rider-Waite trazia figuras bem mais esotéricas que as originais (inclusive substituindo os bastões por varinhas mágicas e as moedas por pentagramas), além de acompanhar um "manual" que ensinava a ler o futuro nas cartas. Inspirado no Tarô de Marselha, ele seria lançado pela primeira vez em 1910 nos Estados Unidos, país que não tem nenhuma tradição nos jogos de tarô, sendo hoje considerado um dos principais responsáveis pela associação global do tarô com a cartomancia - que teria sido "exportada" pelos norte-americanos para os demais países sem tarôs.

Uma das coisas que de Gébelin escreveu em seu livro, e que muita gente hoje acredita ser verdade, foi que o nome "tarô" vem do egípcio antigo, e que significa "estrada real". Como o tarô nada tem a ver com o Egito Antigo, isso, evidentemente, é apenas uma coincidência. A origem do nome, aliás, é bastante curiosa: no início, o baralho usava o mesmo nome do jogo para o qual era usado, sendo conhecido como carte da trionfi. Porém, conforme os baralhos comuns se popularizavam na Itália, mais e mais gente optava por jogar trionfi com um baralho comum e regras adaptadas. Como a mesma palavra era usada para denominar um jogo, um baralho e um conjunto de cartas dentro desse baralho, no século XVI os jogadores da Sicília decidiram começar a chamar o baralho por outro nome: tarocco - que também é o nome do tarô em italiano até hoje.

Tarocco, acreditem ou não, era o nome de uma variedade de laranja encontrada na Sicília. Esse nome acabaria dando origem a um verbo, taroccare, que hoje já não é mais usado, mas significava "cobrir com uma folha de ouro" - o que fazia com que o que fosse coberto ficasse da mesma cor da laranja tarocco, daí o verbo. O método do taroccare era usado principalmente em molduras de quadros e em móveis da nobreza, mas também tinha uma relação com o baralho: muitos dos baralhos árabes que chegaram à Sicília através dos comerciantes eram decorados com folhas de ouro, principalmente as cartas dos Reis. Esse costume seria imitado em vários "tarôs de luxo" produzidos na Itália no século XV, como o Tarô de Visconti, produzido sob encomenda para a família que governava a Lombardia, e cujos desenhos, belíssimos, seriam de certa forma imitados no Tarô de Marselha. Talvez por usar a técnica do taroccare, esses baralhos ficariam conhecidos como tarocchi, plural de tarocco.

Quando o tarô saiu da Itália e começou a se espalhar pela Europa, essa mudança de nome já havia acontecido, de forma que o nome tarocco (bem como trionfi, que ainda era usado para se referir aos trunfos) foi adaptado para diversos idiomas dos países vizinhos: na Alemanha, ele virou tarock; na Hungria, tarokk; e, na França, tarot, que acabou sendo usado também em outros países que não criaram seus próprios tarôs, como Espanha, Reino Unido e Portugal - nesse último, como se pode perceber, com a grafia sendo aportuguesada para tarô.

Falando em França, aliás, conforme se popularizava por lá o baralho francês - aquele que é o mais conhecido no Brasil, que tem os naipes de Espadas e Paus na cor preta e os de Copas e Ouros na cor vermelha - mais e mais jogadores passavam a ter resistência em jogar com as cartas do tarô, que consideravam complicadas e difíceis de se identificar com facilidade quando estivessem na mão. Para contornar esse problema, alguns fabricantes, no século XIX, decidiram adaptar o tarô para o baralho francês; para isso, eles pegaram um baralho comum, adicionaram um cavaleiro de cada naipe; uma carta sem naipe com a figura de um menestrel, que teria a mesma função do Louco; e 21 trunfos. Para não usar os trunfos "esotéricos" presentes no Tarô de Marselha, os fabricantes optaram por simplesmente decorar as cartas com cenas da vida cotidiana, e colocar grandes números nos cantos, para que ficasse fácil para o jogador identificar quais trunfos tinha em sua mão. Esse novo tipo de tarô logo ficaria conhecido como Tarô Francês, se se tornaria um grande sucesso não só na França, mas também na Alemanha e Hungria.

Como também aconteceu com o baralho, o tarô, seja italiano ou francês, teria diversos padrões regionais - desenhos-padrão para as cartas, adotados por todos os fabricantes de uma mesma região. Infelizmente, como os jogos de tarô nunca se tornaram tão populares quanto os jogos de baralho, a grande maioria deles sumiu - e os que resistem estão quase todos ameaçados de sumir também. A grande maioria dos padrões regionais seguia a mesma estrutura do tarô tradicional, com 56 cartas e 22 trunfos, e quase todos eles usavam os trunfos tradicionais, mas, evidentemente, havia exceções. Uma das mais notáveis era um padrão conhecido como Minchiate, usado para jogar um jogo de mesmo nome. Criado na cidade de Florença no século XVI, o Minchiate, cujo nome significa algo como "passatempo" no dialeto florentino, tinha nada menos que 97 cartas, sendo nada menos que 41 trunfos. Dos 22 tradicionais, 20 estão presentes, sendo as exceções o Papa e a Papisa, talvez removidos para evitar problemas com a Igreja; os 21 trunfos extras são o Grão-Duque, a Esperança, a Prudência, a Fé, a Caridade, os quatro elementos (Fogo, Água, Terra e Ar, nessa ordem) e os doze signos do zodíaco (Libra, Virgem, Escorpião, Áries, Capricórnio, Sagitário, Câncer, Peixes, Aquário, Leão, Touro e Gêmeos, nessa ordem). Em relação à ordem tradicional dos trunfos, o Grão-Duque substitui a Papisa, e os demais 20 extras ficam entre a Torre e a Estrela (com algumas outras mudanças na numeração dos 15 primeiros). É interessante notar que nem o Louco, nem os cinco últimos (a Estrela, a Lua, o Sol, o Mundo e o Julgamento) possuem números em suas cartas, e que nenhum dos trunfos nem nenhuma das figuras têm nomes escritos nas cartas. Outras características curiosas do Minchiate são que os valetes de Ouros e Copas são mulheres, enquanto os de Espadas e Paus são homens; e que os quatro cavaleiros na verdade não são cavaleiros, e sim centauros, tendo a metade superior do corpo de um homem e a inferior do corpo de um animal (Espadas e Paus de cavalos, Ouros de um leão, e Copas de um grifo).

O Minchiate chegou a ter dois padrões regionais distintos, Minchiate Etruria, que tinha desenhos mais elaborados e cores mais sóbrias, e o Minchiate al Leone, de desenhos mais simples e cores mais fortes e vivas. "Etruria" e "Leone" são nomes encontrados, respectivamente, no Trunfo XXX do Etruria (que tem uma espécie de selo onde se lê Carte di Etruria) e no 4 de Ouros do Leone (que tem uma placa que diz Carte Fine al Leone), e aparentemente seriam os nomes dos fabricantes que inventaram cada um desses padrões; curiosamente, apesar do Leone ter os desenhos mais simples - e, portanto, mais fáceis de gravar nos blocos de madeira - o Etruria, por ser mais famoso, é que se tornou o mais copiado pelos demais fabricantes. Ambos os padrões deixariam de ser fabricados no início do século XX, e o Minchiate desapareceria por completo entre as décadas de 1930 e 1940; hoje, ele sobrevive através de exemplares preservados e de edições especiais para colecionadores lançadas de tempos em tempos pelas fabricantes italianas, que imitam a arte do Etruria.

A remoção ou mudança de nome do Papa e da Papisa em padrões regionais para evitar problemas com a Igreja era comum - até mesmo no Raider-Waite eles se chamam, respectivamente, o Hierofante a a Alta-Sacerdotisa, nomes que também vêm sendo adotados em algumas versões modernas do Tarô de Marselha. Uma das substituições mais interessantes ocorreu em outro padrão regional já extinto, o Tarô Belga, que surgiu na parte francófona da Bélgica no século XVIII. Nele, o Papa foi substituído por Baco, o deus romano do vinho e das festas, e o interessante é que essa substituição pode ter sido motivada pela popularidade do baralho alemão no país, já que a ilustração usada na carta de Baco é quase idêntica às encontradas nas cartas do daus de Castanhas de alguns padrões regionais alemães, e que retrata Baco como uma criança sentada em um tonel de vinho. De forma mais curiosa ainda, a Papisa foi substituída por um personagem chamado Capitão Fracasso, originário da Commedia dell'Arte, uma peça de teatro cômica criada na Itália no século XVI, e que no século XVIII já era bastante popular em outros países europeus - mesmo assim, por ser um personagem tão específico, alguns fabricantes decidiriam nomeá-lo como "o Espanhol", devido às suas vestimentas. Outra característica curiosa do Tarô Belga é que a carta do Enforcado está, como pode ser comprovado pela forma como estão escritos seu número e nome, "de cabeça para baixo", ou seja, com a cabeça do homem na parte superior da carta e o pé na inferior, como se ele estivesse não pendurado pelo pé, e sim parado sobre um pé só sobre o tronco. O Tarô Belga também é um daqueles nos quais a carta da Torre se chama "o Raio", sendo que ela sequer tem a figura de uma torre, e sim de um pastor buscando abrigo para si e três ovelhas debaixo de uma árvore atingida por um raio, e, nele, o Louco é numerado como XXII. O Tarô Belga desapareceu por completo no início do século XIX, e hoje só sobrevive através de exemplares preservados e de uma edição especial lançada pela fabricante belga Carta Mundi em 1980 e já esgotada no mercado.

Para finalizar, vale citar que o tarô conta com um gigantesco número de variações enfeitadas. Infelizmente, todas elas foram criadas tendo em vista a cartomancia, e não os jogos de baralho. A esmagadora maioria dessas variações, portanto, foi inspirada ou no Tarô de Marselha ou no Rider-Waite, trazendo os mesmos trunfos, apenas com figuras diferentes; algumas poucas trazem seus próprios trunfos, mas sempre em número de 22. Também existem, mas em número bem menor, as variações enfeitadas do Tarô Francês, normalmente com temas "místicos" como Egito Antigo ou ciganos decorando os trunfos. Nada impede que essas variações sejam usadas para jogar, mas, como o tarô é um jogo cada vez mais de nicho, jogado por cada vez menos pessoas, é mais provável que elas prefiram o padrão regional com o qual aprenderam a jogar e já estão acostumadas.

Em breve, veremos os sete padrões regionais que ainda resistem nos dias de hoje! Até lá!

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sábado, 1 de dezembro de 2007

Escrito por em 1.12.07 com 2 comentários

Baralho (XI)

Hoje encerraremos a série de posts sobre baralhos, falando sobre o quarto e último tipo, o baralho suíço. Surgido no século XVI, o baralho suíço lembra o alemão em vários aspectos, mas é considerado um baralho diferente por um motivo muito simples: seus naipes são únicos, e não estão presentes em nenhum outro baralho que tenha sobrevivido.

9 de Escudos, séc XIXComo sobreviveram pouquíssimos exemplares originais do século XVI, não se sabe como o baralho suíço surgiu, ou por que seus naipes ficaram diferentes dos demais, mas alguns de seus elementos levam a crer que, assim como o baralho alemão, ele talvez seja também um descendente das Cartas de Caçada, que podem ter sido populares nas regiões do país de cultura alemã. Alguns dos primeiros baralhos suíços realmente lembravam as Cartas de Caçada, com naipes pitorescos como chapéus e penas; com o passar do tempo, eles foram sofrendo influências dos baralhos alemães e italianos, até que, um dia, se chegou ao padrão que resiste até hoje, cujos naipes são conhecidos como Eichel, Schilten, Rosen e Schellen. Como ocorre com o baralho alemão, estes naipes não têm nomes "oficiais" em português, mas eu os chamo de Castanhas, Escudos, Flores e Sinos - há quem chame as Flores de "Rosas", mas eu, particularmente, não acho que elas se pareçam com rosas.

Dois dos naipes do baralho suíço vieram claramente do baralho alemão, as Castanhas e os Sinos, bastante parecidos com seus primos mais do norte. A teoria mais provável para a origem das Flores - redondas e amarelas, com miolos vermelhos - é que elas tenham sido inspiradas pelas Moedas dos baralhos italianos, já que, em alguns padrões regionais, a decoração interna das Moedas se parece mesmo com uma flor. Os Escudos, porém, têm uma origem mais nebulosa, pois não se parecem com nada presente em nenhum outro baralho: nas cartas numéricas, eles são em preto-e-branco, nas figuras são coloridos, e cada escudo traz uma decoração diferente em seu interior; provavelmente eles sobreviveram de algum modelo das Cartas de Caçada, mas não há como se saber com certeza.

Um baralho suíço possui 36 cartas de 58 x 89 mm cada, sendo nove cartas de cada naipe. Quatro delas são numéricas, o 6, 7, 8 e 9, impressas em um único sentido da carta e decoradas com um número de naipes igual ao seu valor numérico, e mais um pequeno número no canto superior esquerdo e inferior direito (este invertido) para facilitar a identificação na mão; as outras cinco, em ordem de importância, são conhecidas como Banner, Under, Ober, Rei e Sau.

O Banner, para todos os efeitos, é o 10, e é talvez a evidência mais clara de que o baralho suíço descende das Cartas de Caçada, onde a carta 10 trazia uma bandeira com o símbolo do naipe no meio. Assim como esta carta, o Banner traz a figura de uma flâmula branca, azul e vermelha, presa à ponta de uma lança; em cada naipe a lança possui um esquema de cores diferente, mas sempre em amarelo, azul, vemelho e preto. Originalmente a flâmula era impressa em um único sentido da carta, justamente como nas Cartas de Caçada, mas atualmente o Banner é impresso nos dois sentidos, e em sua parte branca, evidentemente, traz o símbolo do naipe.

Rei de Sinos, 1789As três figuras do baralho suíço são as mesmas do baralho alemão, o Rei, Ober e Unter, que aqui se chama Under (porque esta é a pronúncia para "inferior" no dialeto da região onde o baralho surgiu). Também como no baralho alemão, os Unders representam "valetes menores", os Obers "valetes maiores", e os Reis, reis mesmo. As roupas dos Obers e Unders são curiosas e coloridas, principalmente a do Under de Sinos, que parece um bufão. Também é curioso notar que os Obers de Castanhas e Sinos e o Under de Flores estão fumando cachimbo, enquanto o Ober de Escudos fuma um cigarro. Os Reis usam coroas, estão sentados em seus tronos - com exceção do Rei de Flores - e seguram o símbolo de seu naipe, exceto o Rei de Escudos, que segura um cálice, e um detalhe que chama a atenção é a barba imensa do Rei de Castanhas. As figuras são impressas em azul, amarelo, vermelho e preto, e não têm índices, mas em compensação trazem o nome da figura (König, Ober ou Under) impresso no canto superior esquerdo e, invertido, no inferior direito.

Assim como o Banner, os Reis, Obers e Unders também eram originalmente impressos em um só sentido da carta, mas atualmente são impressos nos dois, e separados por uma linha bastante curiosa: para começar, ela é branca, mas tem uma fina borda preta; além disso, ela só toca a borda da carta nos Reis de Castanhas, Sinos e Escudos, nas demais figuras ela termina junto com o desenho da figura, como se só servisse mesmo para separar as duas ilustrações. Como se isso já não fosse o bastante, a linha é diagonal, mas não segue o mesmo sentido em todas as cartas: nos quatro Unders e no Ober de Castanhas ela é inclinada para a direita (/), enquanto nos quatro Reis e nos outros três Obers ela é inclinada para a esquerda (\); os graus de inclinação das linhas também são diferentes, sendo mais acentuado em algumas cartas que em outras.

Finalmente, temos o Sau, a carta que equivale ao Ás no baralho suíço, também chamado de Daus por influência do baralho alemão. O Sau traz dois símbolos do naipe acompanhados por uma decoração central, que nos de Sinos e Escudos costuma trazer o nome do fabricante. Há alguma controvérsia sobre se o Sau originalmente era o 2, como o Daus do baralho alemão, o que faria com que as cartas até hoje sejam impressas em um único sentido da carta, como as numéricas; ou se ele originalmente era o 1, como o Ás dos baralhos latinos, e ganhou dois símbolos do naipe porque passou a ser impresso em ambos os sentidos da carta. Como esta discussão não altera o valor do Sau, muita gente nem se atém a ela. O Sau mais curioso é o de Escudos, pois seus escudos não têm o mesmo formato dos demais, lembrando grandes corações, o que para alguns é um indício de que eles foram adaptados dos Corações do baralho alemão.

Banner de Flores, 1903O baralho suíço só possui um único padrão regional, conhecido simplesmente como "baralho suíço" ou Jass, o nome do único jogo que ainda é jogado com ele. Variações enfeitadas são bastante comuns, e podem ser divididas em dois tipos básicos: as fabricadas para serem dadas como brinde por empresas suíças, nas quais os naipes costumam ser alterados para objetos relacionados à empresa em questão; e as que mantêm os naipes originais mas mudam as figuras, normalmente usando personagens caricatos no lugar dos Reis, Obers e Unders. As variações enfeitadas mais famosas do baralho suíço foram criadas pela fabricante A. G. Müller, sendo a mais famosa a conhecida como Jass Plus, que traz ilustrações tridimensionais do artista canadense Raymond Inauen (também responsável pelo baralho Piquet Plus, da mesma fabricante). A A. G. Müller também criou duas "combinações" do baralho suíço com o francês, o Combi-Jass, na qual todas as cartas são divididas no meio na diagonal, com uma das metades tendo uma carta do baralho suíço e a outra a carta equivalente no baralho francês, padrão suíço moderno; e o Swiss Poker, composto de 53 cartas com grossas bordas, onde ficam quatro índices, um em cada canto, compostos por uma letra ou número mais um pequeno símbolo do naipe, ficando as ilustrações originais do baralho suíço em um quadrado interno, de fundo amarelo. Uma curiosidade sobre o Swiss Poker é que ele traz cartas que normalmente não existem no baralho suíço (os 2, 3, 4, 5 e até um curinga), e usa os índices do baralho francês para as figuras (A para os Sau, K para os Reis, Q para os Obers e J para os Unders).

Além de todas estas variações, o baralho suíço também possui uma "versão alternativa", chamada Kaiserjass. Originalmente utilizado para jogar a versão para 6 jogadores do Jass, o baralho do Kaiserjass é idêntico ao do Jass, exceto pelo número de cartas: são 48, sendo as extras um 3, 4 e 5 de cada naipe. Por esta razão, o Kaiserjass é muito valorizado por colecionadores, embora não seja muito comprado por jogadores, que preferem a versão normal, para 4 jogadores, do Jass.

Assim como ocorre com o baralho alemão, a sombra da extinção paira permanentemente sobre o baralho suíço. No passado, ele já foi fabricado na Áustria, Bélgica, França, Itália e Alemanha, além de pelas principais fabricantes suíças; hoje, ele só é fabricado pela A. G. Müller, que, ainda por cima, também foi comprada pela Carta Mundi. Por enquanto o catálogo da A. G. Müller ainda conta com uma farta variedade de baralhos suíços, mas ninguém sabe até quando, e por um motivo muito simples: a cada dia que passa, o baralho suíço perde popularidade. Como já foi dito, atualmente ele só é usado para jogar um único jogo, o Jass, e assim mesmo apenas nos cantões da suíça de cultura alemã. Felizmente, muitos jogadores e colecionadores destes cantões se esforçam para manter viva esta parte tão importante da tradição local, mas ainda assim o número de jogadores jovens que se interessa em aprender o Jass, e a adquirir um legítimo baralho suíço para jogá-lo, é muito pequeno, e o de jogadores dispostos a usar este baralho tão peculiar para jogar outros jogos é quase nula. Infelizmente, a possibilidade de que o Jass se torne um jogo de velhinhos e o baralho suíço uma peça de colecionador é a cada dia mais real.

Série Baralhos

Baralho Suíço

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sábado, 10 de novembro de 2007

Escrito por em 10.11.07 com 0 comentários

Baralho (X)

Hoje veremos os padrões regionais do baralho alemão. Como são só nove, decidi falar sobre todos eles de uma vez. Todos são ilustrados com um Rei de Folhas, mas clicando nele você verá as demais cartas do padrão.

Padrão da Bavária


O padrão da Bavária é um descendente direto do Altbayerisches, o padrão que deu origem a todos os atuais padrões do sul da Alemanha, e influenciou praticamente todos os demais. E isso não tem nada de estranho, já que ambos tiveram origem na mesma região, a Bavária. Talvez por esta razão, o padrão da Bavária é considerado um dos mais tradicionais - apesar de não ser o mais famoso - e foi o último a migrar para a versão de figuras impressas em ambos os sentidos da carta, tendo sido comercializado na versão em sentido único até a década de 1950.

Devido a este parentesco, o padrão da Bavária é o que mantém a maior quantidade de elementos em comum com os primeiros baralhos alemães, como as ilustrações dos Daus: o de Sinos é ilustrado com uma cena de uma caçada, onde um cachorro ataca um javali; o de Castanhas traz a figura de Baco bebendo vinho; o de Corações traz um Cupido; e o de Folhas uma taça com uma lança de onde brotam flores e as folhas do naipe. Outros elementos tradicionais são o Ober e o Unter de Folhas, que estão tocando tambor e flauta, respectivamente; o 10 em romanos (X) na parte superior e inferior central das cartas de valor 10; e os quatro Reis sentados em tronos e segurando cetros.

Um fato curioso sobre o Padrão da Bavária é que, mesmo sendo tão tradicional, ele existe em duas versões, uma criada pela ASS, outra pela F. X. Schmid. Estas versões eram conhecidas pelos jogadores e colecionadores pelo nome das cidades-sede de cada um dos fabricantes: Stralsund para o da ASS, Munique para o da Schmid. Ambas as versões eram bem semelhantes, mas com alguns detalhes diferentes: na versão Stralsund os quatro Reis são barbados, o Ober de Castanhas carrega um escudo triangular com a figura de um Sol, o Unter de Castanhas tem a cabeça virada para a direita, e os corações centrais das cartas 9 e 10 de Corações são amarelos e azuis; na versão Munique, dois Reis são barbeados e dois só usam bigode, o Ober de Castanhas carrega um escudo oval com uma cruz, o Unter de Castanhas está olhando para baixo, e todos os corações são vermelhos. A versão Stralsund era mais famosa, considerada por alguns como a "original", e foi a que acabou sendo copiada pelos demais fabricantes; a versão Munique, por outro lado, passou anos sendo fabricada apenas pela Schmid.

Ainda mais curioso foi o fato de que, depois que a Carta Mundi comprou a Schmid e a incorporou à ASS, era de se esperar que a versão de Munique fosse descontinuada, mas aconteceu justamente o contrário: a Carta Mundi decidiu descontinuar sua versão Stralsund, e comercializar a Munique sob o nome de Tarock Schafkopf, ou seja, um baralho próprio para jogar os dois jogos mais populares da Bavária, o Tarock (que pouco tem a ver com o Tarô) e o Schafkopf (que curiosamente significa "cabeça de ovelha").

Independente da versão, um baralho no padrão da Bavária possui 36 cartas (6, 7, 8, 9, 10, Unter, Ober, Rei e Daus de cada naipe) de 56 x 100 mm cada. Cada carta possui uma fina borda e um índice em cada um de seus quatro cantos, composto de uma letra ou número e uma miniatura do naipe. A versão de Munique atualmente só é fabricada na Alemanha (pela ASS, que pertence à belga Carta Mundi), mas a versão de Stralsund se espalhou pela Europa, e hoje é fabricada na Alemanha, Áustria, Polônia e Espanha.

Padrão da Francônia


Também descendente do Altbayerisches, no passado o padrão da Francônia até desfrutou de uma relativa popularidade, mas hoje em dia ele só é fabricado pela Nürnberger e pela ASS, que o vende como uma versão especial do baralho de Tarock Schafkopf.

Apesar de também ter evoluído do Altbayerisches, algumas das cartas do padrão da Francônia apresentam diferenças em relação aos demais baralhos do sul da Alemanha, como os quatro Daus, que nada têm a ver com os bávaros: o de Castnhas tem um leão, o de Folhas uma águia, o de Corações apenas uma decoração com folhas em torno de um círculo onde é impresso o nome do fabricante, e o de Sinos muitas vezes não tem decoração alguma além dos símbolos do naipe. É claro que em outras cartas as ilustrações tradicionais foram mantidas, como os Reis sentados em tronos e empunhando cetros, o Ober de folhas tocando tambor e o Unter tocando flauta, e o X nas cartas de valor 10.

Assim como o padrão da Bavária, o da Francônia possui 36 cartas de 56 x 100 mm, com uma fina borda e índices nos quatro cantos. As figuras são impressas em ambos os sentidos da carta, divididas por uma linha preta quase imperceptível, tanto que no Ober de Folhas ambas as figuras parecem estar tocando o mesmo tambor.

Padrão da Saxônia


A Saxônia fica no norte da Alemanha, então este padrão nada tem a ver com o Altbayerisches. Ele descende de algum outro padrão bem antigo, cujo nome e origem se perdeu no tempo. Como se isso não bastasse, o próprio padrão da Saxônia sofreu muitas mudanças através dos tempos, o que acabou fazendo com que ele ficasse com três versões.

A primeira, original, era impressa em um único sentido da carta, e trazia ilustrações simples e muitos detalhes curiosos, como animais reais e mitológicos decorando as cartas numéricas, e salsichas decorando as cartas de sinos; esta versão desapareceu no início do século XX, mas acabou sendo ressucitada através de uma edição especial lançada pela Spielkartenfabrik Altenburg em 1993. Esta versão também era conhecida como Schwerterkarten ("cartas de espadas") por causa do brasão do Arquiduque de Mechsen, que tinha duas espadas cruzadas, e estava presente nos Daus de Folhas e Castanhas.

A segunda versão do padrão surgiu em 1931, e foi criada pela Spielkartenfabrik Altenburg para substituir a versão original. Esta era impressa nos dois sentidos da carta, com ilustrações mais bonitas e mais bem trabalhadas, e hoje em dia é conhecida como versão Altenburg, o nome da cidade onde foi criada.

A terceira versão surgiu pouco depois da segunda, e foi criada pela ASS, que baseou seus desenhos nos da versão Altenburg. Esta é a versão que ilustra este post, e que ficou conhecida como versão Chemnitz, nome de uma da cidade no leste da Alemanha onde este padrão se tornou o mais popular. A versão Chemnitz é praticamente idêntica à Altenburg, mas tem figuras um pouco menores e um ou outro detalhe diferente nos Daus.

Seja qual for a versão, o padrão da Saxônia tem 32 cartas (7, 8, 9, 10, Unter, Ober, Rei e Daus de cada naipe) de 58 x 87 mm. Nas duas versões mais recentes as cartas possuem bordas finas e índices nos quatro cantos, e as figuras são divididas por uma linha imperceptível. As cartas numéricas possuem uma pequena decoração no centro da carta; os Daus de Folhas e Corações são decorados com brasões, sendo que no centro do de Folhas se lê "proibidas imitações"; o Daus de Sinos traz uma cena onde um casal namora em frente a uma coluna com uma coruja no topo, enquanto um terceiro personagem espiona detrás desta coluna; e o Daus de Castanhas traz um animal (na versão de Altenburg um urso, na de Chemnitz um leão). As versões de Altenburg e de Chemnitz também foram de certa forma influenciadas pelo Altbayerisches, já que seus Reis estão sentados e empunhando cetros, e os 10 possuem o X sobre os naipes.

Infelizmente, o padrão da Saxônia está fadado à extinção: nenhuma de suas três versões faz parte atualmente do catálogo de nenhuma fabricante da Alemanha. Alguns baralhos fabricados pela ASS e pela Spielkartenfabrik Altenburg antes de ambas serem compradas pela Carta Mundi ainda podem ser encontrados no mercado, mas provavelmente o padrão sumirá do mapa quando todos eles forem vendidos.

Padrão de Württemberg


Originário da região da Suábia, o padrão de Württemberg é um dos mais recentes, tendo surgido por volta de 1870; por esta razão, ele nunca teve uma versão com as figuras impressas em um único sentido da carta, já tendo nascido com figuras impressas nos dois sentidos. Apesar da Suábia ficar no sul da Alemanha, ele não foi inspirado no Altbayerisches, mas nos baralhos de Tarô, muito populares por lá no final do século XIX, o que pode ser confirmado pelos Obers, que se encontram montados a cavalo, como se fossem os cavaleiros do Tarô.

Originalmente, o baralho de Württemberg tinha 36 cartas, mas atualmente ele só é encontrado em uma versão de 48 cartas, na verdade dois baralhos de 24 cartas (7, 10, Unter, Ober, Rei e Daus de cada naipe) vendidas juntas e com o mesmo verso. Esta configuração é apropriada para dois jogos muito populares no sul da Alemanha, o Gaigel e o Binokel; por esta razão, a ASS comercializa o padrão de Württemberg com o nome de Gaigel Binokel. O padrão é atualmente fabricado na Alemanha, Áustria e Espanha.

As cartas do padrão de Württemberg têm 56 x 100 mm, possuem uma fina borda e índices nos quatro cantos; com exceção dos Daus, todas as cartas são divididas no meio por uma fina linha preta. Os Daus trazem figuras relacionadas ao vinho, como cachos de uva, folhas de parreira, garrafas e taças; os Reis têm figuras grandes, ocupando praticamente toda a carta; os Obers, como já se disse, estão montados a cavalo, e trazem a palavra "Ober" impressa próximo a suas cabeças, para facilitar a identificação; e os Unters usam chapéus e roupas típicas do final do século XIX, se assemelhando mais a viajantes que aos guerreiros de outros padrões alemães.

Padrão da Prússia


Mais um padrão do norte da Alemanha, o da Prússia é um dos mais interessantes, principalmente por guardar pouquíssimos elementos em comum com os demais padrões. É um padrão relativamente recente, tendo surgido por volta de 1840 com figuras impressas em um único sentido da carta; as primeiras versões com figuras impressas em ambos os sentidos começaram a surgir já em 1865, mas não eram muito populares, pois omitiam as belas cenas de cidades prussas presentes nas cartas numéricas. Após a Primeira Guerra Mundial, começaram a surgir "versões híbridas", onde os Daus, Reis, Obers e Unters eram impressos em ambos os sentidos, mas as cartas numéricas não, mantendo as tais cenas das cidades. Esta foi a versão que sobreviveu, e as cidades se tornaram a marca registrada do padrão.

Ainda assim, não existe um "conjunto oficial" de cidades para o baralho (tipo "o 8 de Sinos traz a figura de Nuremberg"). Como a Prússia era independente na época da criação do baralho, as cartas traziam cenas das cidades da Prússia; após sua incorporação pela Alemanha, algumas cartas tiveram suas cidades "trocadas" por cidades alemãs. Como após a Segunda Guerra a Alemanha perdeu parte de seu território para a Polônia, cidades que passaram a ser polonesas foram retiradas do baralho e substituídas por outras. E, é claro, cada fabricante queria incluir sua cidade no baralho, se esta já não estivesse lá. Por esta razão, praticamente cada tiragem do baralho prusso é diferente das demais, embora as figuras para os Daus, Reis, Obers e Unters tenham sempre sido mantidas.

Os Reis, Obers e Unters, por falar nisso, também estão intimamente ligados à Prússia: os quatro Reis, que originalmente estavam de pé, e não sentados em tronos, representam os quatro Reis da coalizão que impediu que Napoleão dominasse a Prússia; os Obers representam membros da burguesia, e os Unters são os trabalhadores das classes mais baixas. Este também é o único padrão alemão com três figuras femininas, e elas estão nos Daus: as deusas Diana no de Folhas, Minerva no de Corações e Ceres no de Sinos; o Daus de Castanhas traz o deus Baco, no único ponto que este padrão tem em comum com o Altbayerisches além do X nas cartas 10. As cartas possuem bordas, mas não índices; as numéricas ainda têm números em seus quatro cantos, sendo os dois inferiores dentro de círculos, e, além da figura da cidade, trazem uma legenda, com seu nome e algum título, quando apropriado. Algumas versões mais recentes trazem pontos turísticos da Alemanha no lugar de algumas cidades.

O padrão da Prússia tem 32 cartas de 56 x 100 mm, e, infelizmente, é mais um fadado à extinção: ele já não faz parte do catálogo de nenhuma fabricante alemã desde a década de 1980, a não ser sob a forma de duas edições especiais lançadas pela ASS, uma em 1998 e outra em 2005. Ele só ainda não foi considerado totalmente extinto graças a uma edição fabricada pela polonesa KZWP; esta edição, porém, traz figuras bem mais simples, índices em polonês equivalentes aos do baralho francês (K de Król para os Reis, D de Dama para os Obers, e W de Walet para os Unters) e cidades polonesas nas cartas numéricas. Muitos colecionadores nem consideram esta como uma versão do padrão prusso, preferindo chamá-lo de "padrão polonês". Mesmo assim, pode ser que no futuro ela seja a única versão sobrevivente deste padrão tão bonito.

Padrão Quatro Estações ou Guilherme Tell


Este padrão não é originário da Alemanha, mas da Áustria, onde foi inventado pela Piatnik no século XIX, como uma edição enfeitada que trazia personagens e cenas da famosa história de Guilherme Tell; por esta razão, o baralho se tornou conhecido em diversos países da Europa como "padrão Guilherme Tell", ou apenas "padrão Tell". Seu outro nome, "padrão Quatro Estações", vem do fato de que seus Daus têm ilustrações que representam as quatro Estações do Ano: Verão para o de Sinos, Primavera para o de Corações, Outono para o de Folhas, e Inverno para o de Castanhas.

O padrão Quatro Estações poderia ter continuado como uma simples variação enfeitada, se não tivesse chegado até a Hungria, onde, sabe-se lá o porquê, alcançou uma popularidade absurda, ao ponto de se transformar no padrão nacional da Hungria, substituindo o baralho francês em todos os jogos tradicionais húngaros; de fato, em toda a Europa Oriental este padrão é conhecido como "baralho húngaro", e é fortemente associado à Hungria. Em sua Áustria natal, ele ainda goza de certa popularidade, e é conhecido como Doppeldeutsche ("alemão duplo", em referência às figuras impressas nos dois sentidos da carta). Na Alemanha, curiosamente, ele não é muito conhecido, exceto por colecionadores, e não costuma ser usado para jogar.

A principal característica do padrão, evidentemente, é que suas cartas estão relacionadas à história de Guilherme Tell. Cada Ober e cada Unter representa um dos personagens da história (o próprio Guilherme Tell, caso você esteja imaginando, é o Ober de Castanhas), trazendo, inclusive, o nome do personagem impresso ao longo da borda vertical da carta. Algumas cartas numéricas também trazem, entre os naipes, cenas da história e paisagens típicas da Áustria. Os Reis são "genéricos", ou seja, não representam personagens, mas estão os quatro montados a cavalo, o que também pode ser considerado um traço típico do padrão. Os Daus, como já foi dito, trazem cenas referentes às Estações do ano, e o nome da estação correspondente está escrito na parte central superior e inferior de cada carta. As cartas possuem uma fina borda, e são divididas no meio por uma fina linha preta; não possuem índices, mas todas as cartas numéricas são marcadas por algarismos romanos.

Ao chegar na Hungria, o baralho sofreu certas adaptações, o que fez com que ele, assim como outros padrões alemães, tenha duas versões oficiais, a húngara e a austríaca. Ambas são idênticas, exceto por alguns detalhes: para começar, os nomes dos personagens e Estações do Ano, evidentemente, estão escritos em alemão na versão austríaca, e em húngaro na húngara; o Unter de Corações usa uma touquinha e uma roupa simples na versão austríaca, enquanto na húngara ele está bem melhor vestido; Guilherme Tell está em poses diferentes, segurando sua besta com a mão esquerda na versão húngara e com a mão direita na austríaca; e os quatro Daus da versão austríaca trazem cenas bem diferentes das da versão húngara. Além disso, a versão húngara tem apenas 32 cartas (o suficiente para jogar os jogos tradicionais húngaros), enquanto a austríaca tem 36 (mais apropriada para jogos da Áustria). O 6 de Sinos da versão austríaca é conhecido como "Weli", e em alguns jogos que só usam 32 cartas ele serve como curinga.

O padrão Tell é atualmente fabricado na Áustria, Hungria, República Tcheca e Eslováquia. Curiosamente, suas cartas não têm um tamanho padrão, mas costumam ser comercializadas como "Classe B" (menores, com de 60 x 100 mm a 62 x 110 mm) ou "Classe A" (maiores, com de 72 x 111 mm a 77 x 119 mm). A Piatnik também possui uma versão especial em formato redondo.

Padrão de Salzburgo


Este é mais um padrão originário da Áustria, conhecido por lá como Einfachdeutsch ("alemão único"), para diferenciá-lo do padrão anterior. Assim como o Quatro Estações, este padrão ganhou muita popularidade ao migrar para outro país, no caso a Itália, onde foi adaptado para os jogos locais e ganhou o nome de Salisburghesi. Também como o Quatro Estações, esta migração fez com que o padrão de Salzburgo se tornasse um padrão de duas versões, a austríaca, original do século XIX, e a italiana, que começou a ser fabricada na década de 1980. A única diferença entre ambas, porém, está no número de cartas: a austríaca tem 36, enquanto a italiana tem 40 (5, 6, 7, 8, 9, 10, Unter, Ober, Rei e Daus de cada naipe), o número apropriado para se jogar os jogos italianos.

O padrão de Salzburgo é mais um dos descendentes do Altbayerisch, mas desta vez de forma indireta, já que não foi adaptado do próprio Altbayerisch, mas do padrão da Bavária. Por esta razão, apesar das figuras do padrão de Salzburgo serem bem mais simples que as da Bavária, muitas semelhanças entre os dois padrões podem ser apontadas, principalmente nas cartas dos Daus, Reis, Obers e Unters. Como o padrão de Salzburgo jamais se transformou em um padrão de figuras impressas em ambos os sentidos da carta, muitas das ilustrações originais do padrão da Bavária sobrevivem em suas cartas numéricas, embora algumas outras tenham mudado ao longo do tempo, em especial o 6 de Sinos, que se transformou no popular Weli dos jogos austríacos.

As cartas do padrão de Salzburgo têm 57 x 101 mm, e possuem figuras de traços simples, mas muito coloridas; nenhuma carta possui índices, mas os 10 têm o tradicional X no topo. Curiosamente, as quatro cartas extras da versão italiana (os quatro 5) possuem a mesma figura, uma serpente multicolorida mordendo o próprio rabo e formando uma espécie de moldura, com o nome do fabricante impresso no meio - e esta mesma serpente também está presente no 7 de Corações, em ambas as versões. Atualmente, o padrão de Salzburgo é fabricado pelas principais fabricantes italianas, e pela austríaca Piatnik.

Padrão de Praga


Este padrão surgiu na Tchecoslováquia, no final do século XIX. Atualmente, ele é considerado mais um dos descendentes do Altbayerisches, mas na verdade ele foi adaptado de um outro padrão já extinto, o de Regensburg, que, por sua vez, havia sido adaptado do Altbayerisches. O resultado é que, embora muitas das ilustrações do padrão de Praga lembrem cartas dos demais padrões descendentes do Altbayerisches (os da Bavária, Francônia e Salzburgo), muitas outras apresentam detalhes únicos, como as coroas enormes e arredondadas dos Reis, e as figuras no geral remetem a padrões mais antigos, como o de sentido único da Saxônia.

O baralho de Praga, conhecido em tcheco como Jednohlavé ("uma cabeça") ou Mariášové karty ("cartas para Mariáš", o jogo mais popular da região), possui 32 cartas de 63 x 100 mm cada, impressas nas cores amarela, vermelha, verde e marrom. Algumas cartas possuem cenas inusitadas (minha preferida é o 8 de Sinos), os quatro Daus trazem brasões de diversas cidades tchecas, o Daus de Castanhas tem a figura de um estranho urso estilizado, e os Daus de Castanhas e Corações trazem a frase "à vitória". Atualmente o baralho é fabricado na Áustria, República Tcheca, Eslováquia e Croácia.

Padrão Neu Altenburg


Este é o mais recente de todos os padrões regionais de todas as espécies de baralho: foi criado no ano de 1964 pela Spielkartenfabrik Altenburg, que planejava transformá-lo no padrão nacional da Alemanha Oriental. Para chegar a este objetivo, assim que o lançou a fabricante retirou de seu catálogo quase todos os demais padrões regionais, meio que obrigando a população a comprá-lo se quisesse jogar. Embora este não tenha sido um método muito elogiável, acabou dando talvez mais certo do que eles esperavam: a Alemanha Oriental se foi, mas hoje o padrão é o mais popular da Alemanha, sendo inclusive conhecido por muitos jogadores e colecionadores como "padrão alemão". Seu nome "oficial", Neu Altenburg (ou Neues Altenburger, termo gramaticalmente mais correto), é uma referência à cidade onde foi criado, e ao fato dele ser recente ("neu" significa "novo").

Quando foi criado, o padrão de Neu Altenburg era patenteado pela Spielkartenfabrik Altenburg, e só ela podia produzi-lo; com o fim da Alemanha Oriental, esta restrição foi suspensa, e diversas outras fabricantes o adicionaram a seus catálogos. Hoje ele divide com o padrão de Berlim (do baralho francês) o posto de carro-chefe do catálogo da ASS, que o comercializa em duas versões, apropriadas para os dois jogos mais populares, da Alemanha, o Skat e o Doppelkopf, a primeira com 32 cartas e a segunda com dois baralhos de 24 cartas cada e verso igual, totalizando 48 cartas. As cartas têm 59 x 91 mm; suas figuras são impressas em ambos os sentidos (como é um padrão muito recente, jamais existiu na versão de sentido único) e divididas por uma fina linha preta; e todas as cartas possuem índices, com exceção dos Daus, que trazem figuras ligadas à nobreza, como espadas e mantos. A versão comercializada atualmente é conhecida como "tipo II", pois a original foi considerada muito feia e não vendeu bem, então decidiram dar uma melhorada nas ilustrações.

Curiosamente, após "dominar" o padrão alemão a Spielkartenfabrik Altenburg parece ter tentado também expulsar o baralho francês da Alemanha Oriental, pois em 1969 lançou o "tipo III" do baralho, que trazia não Reis, Obers e Unters, mas Reis, Damas e Valetes (que tinham as figuras dos Unters), inclusive com os índices apropriados em alemão (K, D e B). A fabricante esperava que o tipo III fosse utilizado para jogar jogos que usassem o baralho francês, mas acabou que ele não pegou (talvez por causa dos naipes diferentes), e foi retirado do catálogo ainda na década de 1970; alguns exemplares, porém, ainda podem ser encontrados no mercado, e são bastante prezados por colecionadores.

A seguir, o baralho suíço!

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