segunda-feira, 16 de maio de 2016

Baralho (XIV)

E hoje concluiremos nossa série sobre os tarôs, com os quatro padrões regionais que ficaram de fora do post anterior!

Tarô Siciliano

Cartas - Trunfos

Dos três tarôs ainda fabricados na Itália, o Tarocco Siciliano é o menos comum, só constando do catálogo de uma fabricante, a Modiano - embora na Sicília ainda possam ser encontradas versões de baixo custo e baixa qualidade produzidas por pequenas fabricantes locais. Assim como o Tarô Bolonhês, ele só é usado para jogar um único jogo, chamado Tarocchi, popular apenas em sua Sicília natal.

A Sicília está localizada no sul da Itália, então faz sentido que, diferentemente do que ocorre com os tarôs de Piemonte e Bolonha, o Tarô Siciliano tenha naipes ao estilo dos padrões do centro-sul italiano, com espadas retas e desembainhadas, clavas para representar o naipe de Paus, taças tampadas e moedas decoradas com elaboradas flores. Há dois indícios, entretanto, de que esse tarô teria sido influenciado não pelos padrões italianos ou espanhóis, mas sim pelo hoje extinto Baralho Português; o primeiro deles é o de que, nas cartas de Espadas e Paus, as espadas e clavas se cruzam, algo que não acontece nos baralhos da Espanha e do centro-sul da Itália - onde as espadas e clavas ficam arrumadinhas umas ao lado das outras - mas ocorria no Baralho Português, o que pode ser confirmado através de espécimes encontrados em museus. O segundo indício é o de que, ao invés de Fantes, o Tarô Siciliano possui quatro Aias (conhecidas em italiano como donne, plural de donna, "mulher"). Não era exatamente incomum que baralhos do século XVII tivessem "valetes mulheres" - o Minchiate, por exemplo, tinha duas - mas apenas o Baralho Português tinha quatro, uma para cada naipe, exatamente como ocorre com o Tarô Siciliano.

As cartas do Tarô Siciliano são pequeninas, com apenas 50 mm de largura por 83 mm de altura, e suas figuras são impressas em um único sentido. Um baralho completo possui apenas 64 cartas: do 5 ao 10, mais Aia, Cavaleiro, Rainha e Rei de cada naipe, mais o Ás e o 4 de Ouros, e mais os 22 trunfos. As cartas de 4 a 10 possuem uma espécie de índice na parte superior e inferior (sendo o da inferior de ponta-cabeça) para facilitar sua identificação; esse índice é composto de um número, um ponto e uma letra que representa o naipe - S para espadas, B para Paus, C para Copas e O para Ouros; assim, a carta 5.S é o 5 de Espadas. As Aias, Cavaleiros, Rainhas e Reis não possuem tal índice, nem letra ou número algum.

É curioso notar que o único naipe que possui uma carta 4 é o de Ouros; nos outros três, estão presentes apenas as cartas do 5 ao 10. O naipe de Ouros também é o único que possui um Ás, que deve ser a carta mais curiosa do baralho, já que não é usada no jogo de Tarocchi, sendo, portanto, inútil. Na verdade, o Ás de Ouros acabaria incluído no baralho apenas para que, nele, pudesse ser aplicado o já famoso selo que comprovava o recolhimento dos impostos, e que não tinha espaço apropriado em nenhuma das demais cartas. Falando nisso, todos os indícios apontam para o fato de que o Tarô Siciliano já teria sido inventado com 63 cartas (com o Ás de Ouros sendo incluído depois para o total de 64), já que não existem versões antigas das cartas que faltam para completar as 78, e seria muito pouco provável que todas tivessem se perdido com o tempo, já que existem versões antigas das demais. A teoria mais provável é a de que os jogadores sicilianos usavam outros tarôs para jogar, removendo as cartas das quais não precisavam, até que, no século XVII, época do surgimento do Tarô Siciliano, as fabricantes da ilha começaram a produzir esse padrão, apenas com as cartas que seriam efetivamente usadas, e adaptado ao gosto da população local. O próprio Ás de Ouros pode ser usado para corroborar essa teoria, já que ele é absolutamente idêntico ao do Padrão Siciliano do baralho latino, enquanto todas as outras cartas são completamente diferentes.

Os trunfos do Tarô Siciliano são bastante diferentes, e várias teorias, nenhuma confirmada, já foram elaboradas para tentar definir sua origem; atualmente, a mais aceita é a de que o Tarô Siciliano teria evoluído a partir do Bolonhês, mas fortemente influenciado pelo Minchiate. O trunfo mais baixo de todos é uma carta exclusiva, que não está presente em nenhum outro tarô, atual ou extinto, chamada Miséria. A Miséria traz como figura um mendigo idoso, acorrentado a um bloco de pedra e com um prato de comida vazio na mão, sob uma faixa onde se lê Miseria, que faz com que essa seja a única carta de todo o baralho a trazer seu próprio nome. Já a carta mais alta de todas é o Louco, que aqui se chama "o Fugitivo", e traz a figura de um bobo da corte descalço, com uma bola na mão e tocando uma corneta. Nem a Miséria nem o Fugitivo possuem número. Os demais 20 trunfos possuem números, em algarismos arábicos, e são, na ordem: o Artista Performático, a Imperatriz, o Imperador, a Constância, a Temperança, a Fortitude, a Justiça, o Amor, a Carruagem, a Roda da Fortuna, o Enforcado, o Eremita, a Morte, o Navio, a Torre, a Estrela, a Lua, o Sol, Atlas e Júpiter.

Como vocês devem ter notado, quatro das cartas são bastante diferentes daquelas encontradas tradicionalmente: a Constância (representada por uma mulher segurando uma flâmula e um escudo, e também presente em um tarô hoje extinto, chamado Tarô de Mantegna, com o nome de "a Filosofia"), o Navio (em uma ilustração quase idêntica à do trunfo da Água do Minchiate), Atlas (com a figura do gigante carregando o mundo em seus ombros) e Júpiter (com o deus romano sentado em seu trono e segurando um raio). Atlas e Júpiter são analogias que substituem o Mundo e o Julgamento, o Navio substitui o Diabo, e a Constância foi incluída para que o número de trunfos permanecesse 22, já que o conjunto não possui o Papa ou a Papisa (mas possui a Miséria, que também teria substituído um dos dois). Também é interessante notar que a Força se chama a Fortitude, e traz a figura de uma mulher ao lado de uma coluna, ao invés de lutando com um leão.

A Fortitude não é a única carta com uma figura curiosa: na carta de Torre, não há qualquer raio, fogo ou desabamento, com a torre estando intacta e bem conservada; na Estrela, um homem cavalga tentando alcançá-la, mais uma vez em uma ilustração quase idêntica à do Minchiate; na Lua, um homem descansa sob uma árvore enquanto uma mulher aparentemente reclama de sua preguiça; e, no Sol, dois homens brigam, com um golpeando o outro com um bastão. Mas a carta mais bizarra é a do Enforcado, que realmente traz um homem enforcado, pendurado em uma árvore pelo pescoço ao invés de pelo pé como na figura tradicional; essa carta, inclusive, funciona como contraponto a uma teoria bastante difundida, a de que o Navio teria substituído o Diabo porque os jogadores da Sicília se recusavam a usar um baralho que tivesse a figura do diabo - ou seja, um homem morto por enforcamento tudo bem, mas o diabo, aí já é demais.

Tarô Francês ou Tarot Nouveau

Exemplos das Cartas - Trunfos

Criado no século XIX, o Tarô Francês surgiu para tentar agradar aos jogadores daquele país, que, já acostumados ao baralho "comum", tinham resistência a jogar com as cartas do tarô, que consideravam não somente difíceis de se identificar em meio às outras de sua mão, mas também de figuras estranhas e complicadas para um simples jogo de cartas. Por causa disso, todos os trunfos do Tarô Francês são diferentes dos tradicionais italianos, e suas demais cartas são equivalentes às de um baralho francês comum. Essas características fariam com que, no início, ele ganhasse o apelido de tarot nouveau ("tarô novo", em francês), para diferenciá-lo do "antigo", que era conhecido de forma geral como "Tarô Italiano", embora muitos de seus padrões regionais, como os hoje extintos Tarô de Besançon, Tarô de Paris e Tarô de Viéville, tenham surgido na França, e não na Itália.

Assim como um tarô tradicional, o Tarô Francês possui 78 cartas: do 1 ao 10 mais Valete, Cavaleiro, Dama e Rei de cada naipe, 21 trunfos e uma carta conhecida como escusa, que traz a figura de um menestrel, uma estela no lugar do símbolo do naipe, e faz o papel que seria do Louco em um tarô tradicional. As figuras dos Valetes, Damas e Reis usadas atualmente são "inéditas", não sendo equivalentes às de nenhum padrão regional do baralho francês, e foram criadas pela fabricante francesa Grimaud no início do século XX. Assim como no Padrão Parisiense do baralho francês, as cartas têm índices em seus quatro cantos, os Ases são identificados pelo número 1 (e não pela letra A), e símbolos do naipe que seriam sobrepostos pelos índices aparecem "cortados", inclusive nos Valetes, Cavaleiros, Damas e Reis, cujas figuras são bem trabalhadas, usam múltiplas cores, são impressas em ambos os sentidos das cartas, divididas por uma fina linha preta horizontal, e em seus índices trazem a primeira letra de seus nomes em francês: V, C, D e R, respectivamente. O menestrel da Escusa segue esse mesmo estilo, mas não tem letra alguma em seus índices.

Os trunfos do Tarô Francês também são impressos em ambos os sentidos da carta e divididos por uma fina linha preta horizontal, mas, diferentemente do que ocorre com as demais figuras, a ilustração da metade de cima é diferente daquela encontrada na metade de baixo. Os trunfos possuem números em algarismos arábicos em seus quatro cantos, e, entre os dois números de uma mesma metade, existe uma intrincada decoração em preto e branco, com o símbolo do fabricante, normalmente em vermelho, no centro. Essa decoração não é padronizada, com cada fabricante criando a sua própria. O símbolo do fabricante, novamente em vermelho, também costuma ser encontrado no 1 de Paus, e a maioria dos fabricantes também escreve seu nome logo abaixo dos índices dos Valetes, Cavaleiros, Damas, Reis e da Escusa.

Os trunfos do Tarô Francês são temáticos, e as ilustrações de cada carta sempre possuem uma dualidade: em algumas delas, uma das figuras mostra uma cena urbana enquanto a outra mostra uma cena rural, em outras há apenas personagens masculinos em uma das metades e femininos na outra etc. Os temas, na ordem dos trunfos são: a loucura individual, a infância, a adolescência, a idade madura, a idade avançada, a manhã, o meio-dia, a tarde, a noite, terra e ar, água e fogo, dança, compras, atividades ao ar livre, artes, primavera, verão, outono, inverno, jogos, e a loucura coletiva. Nenhum jogador, porém, se refere aos trunfos por seu tema, apenas por seu número.

O Tarô Francês é hoje um dos menos ameaçados de extinção: usado para jogar uma dezena de jogos, e sendo o baralho de tarô oficial da Associação Francesa de Jogadores de Baralho, ele é fabricado na França, Espanha, Bélgica, Suíça, Dinamarca e Canadá. As cartas podem ser encontradas em vários tamanhos, sendo mais comum o de 60 mm de largura por 113 mm de altura. Algumas fabricantes, como a espanhola Fournier, produzem uma "versão reduzida", de preço mais baixo, que conta apenas com os quatro Cavaleiros, a Escusa e os 21 trunfos, e que pode ser incorporada a qualquer baralho francês comum de verso igual para se formar um baralho de tarô.

Tarô Industrie und Glück

Exemplos das Cartas - Trunfos

O nome desse tarô significa "indústria e sorte" em alemão, e vem de uma inscrição encontrada em uma pedra no trunfo número 2. O porquê de essa pedra conter justamente essa frase, infelizmente, se perdeu no tempo. De qualquer forma, o Industrie und Glück é hoje o tarô mais popular na Alemanha, Áustria, Hungria e República Tcheca, países nos quais ainda é fabricado e onde é usado para jogar vários jogos - e onde é conhecido, simplesmente, como "tarô" (Tarock, em alemão, Tarokk em húngaro, e Taroky em tcheco), sendo Industrie und Glück uma espécie de apelido, usada apenas para diferenciá-lo de outros tarôs quando necessário.

Criado na Áustria no século XIX, originalmente o Industrie und Glück trazia, em seus trunfos, os mesmos temas do Tarô Francês, mas com roupas típicas, grupos étnicos e atividades próprias do Império Austro-Húngaro. Diferentemente do que ocorria com outros tarôs, era comum encontrar variações enfeitadas do Industrie und Glück, sendo as mais populares as que substituíam as figuras dos trunfos de 2 a 21 por cenas de diferentes cidades da região onde o baralho foi fabricado; após a queda do Império Austro-Húngaro, no fim da Primeira Guerra Mundial, a "versão original" foi se tornando cada vez menos popular, e acabou suplantada por uma dessas variações enfeitadas - justamente a que traz a tal da inscrição Industrie und Glück no trunfo 2 - que é a única fabricada até hoje, tendo passado a ser, portanto, a versão oficial do padrão. Vale citar que, nos baralhos fabricados atualmente na República Tcheca (e naqueles fabricados na antiga Tchecoslováquia), a inscrição Industrie und Glück não está presente (embora a pedra esteja), tendo sido removida após a Tchecoslováquia se separar do Império Austro-Húngaro, para evitar que o baralho tivesse uma inscrição no idioma oficial da Áustria, contra quem os tchecoslovacos se ressentiam na época.

Um baralho tradicional do Industrie und Glück possui apenas 54 cartas: do 1 ao 4 de Copas e Ouros, do 7 ao 10 de Espadas e Paus, mais Valete, Cavaleiro, Dama e Rei de cada um dos quatro naipes, a Escusa, e os 21 trunfos. Não é difícil, entretanto, encontrar versões desse baralho com todas as 78 cartas, principalmente porque uma delas é fabricada pela Piatnik, a maior fabricante de baralhos da Áustria - e uma das maiores do mundo. As cartas do Industrie und Glück costumam ter 62 mm de largura por 113 mm de altura, embora versões menores ou maiores também possam ser encontradas.

Nenhuma das cartas possui índices, com as do 1 ao 10 contando apenas com os símbolos dos naipes na quantidade correspondente. A arte dos Valetes, Cavaleiros, Damas, Reis e da Escusa lembram as dos baralhos alemães, sendo impressas em múltiplas cores nos dois sentidos da carta e divididas por uma linha horizontal imperceptível. Os Valetes de Paus e Ouros carregam escudos dentro dos quais se encontra escrito o nome do fabricante, e todos os quatro Cavaleiros portam espadas. A Escusa não possui qualquer símbolo, e tem a figura de um bobo da corte segurando um chapéu, no topo do qual outro bobo da corte, menorzinho, se equilibra.

Assim como os do Tarô Francês, os trunfos possuem figuras diferentes em cada metade da carta; nenhum deles, porém, possui tema, com todos trazendo cenas da vida cotidiana da Áustria do século XIX, a maioria delas retratando casais apaixonados. A principal característica dos trunfos, entretanto, é seu número, bem grande, em algarismos romanos, e presente apenas no canto superior esquerdo e inferior direito de cada carta. O único trunfo que tem nome próprio é o 1, que traz a figura de uma bailarina e a de um músico, e é conhecida como Pagat, palavra derivada do italiano Bagatto, nome do trunfo 1 (conhecido por aqui como o Mago) nos tarôs italianos.

Tiertarock

Exemplos das Cartas - Trunfos

Tier, em alemão, significa "animal", então, Tiertarock é o "tarô dos animais" - nome que o padrão recebeu devido a seus trunfos, que trazem figuras de animais. Embora cada trunfo tenha um "animal-padrão", assim como no Tarô Francês, há uma figura de cada lado da carta, sempre com uma dualidade: o macho em uma e a fêmea na outra, um animal domesticado em uma e seu equivalente selvagem na outra etc.

Assim como o Industrie und Glück, o Tiertarock tem apenas 54 cartas, do 1 ao 4 de Copas e Ouros, do 7 ao 10 de Espadas e Paus, mais Valete, Cavaleiro, Dama e Rei de cada um dos quatro naipes, a Escusa, e os 21 trunfos, nenhuma delas possuindo índices, e tendo 62 mm de largura por 110 mm de altura. Os Valetes, Cavaleiros, Damas e Reis lembram os do Padrão de Württemberg do baralho alemão, são impressos em ambos os sentidos da carta e divididos por uma fina linha preta horizontal. A Escusa, assim como a do baralho francês, traz um menestrel - embora em uma ilustração bem mais simples - mas não tem qualquer símbolo.

As cartas dos trunfos se assemelham às do Tarô Francês, com um espaço na parte superior e inferior onde se encontra um número em algarismos arábicos; a diferença é que esse espaço não possui qualquer decoração, sendo todo na cor salmão, e o número, bem grande, se localiza em seu centro, e não em seus cantos. O animal de cada trunfo, na ordem, é: homem, leão-marinho, cervo, cavalo, porco, pardal, raposa, elefante, pato, rinoceronte, lebre, carneiro, cachorro, leão, gato, pavão, bode, asno, vaca, urso e galo.

Criado na região sudoeste da Alemanha, próximo à fronteira com a Suíça, no século XIX, o Tiertarock é, hoje, talvez o tarô mais ameaçado de extinção: atualmente, ele só é produzido por uma única fabricante, a alemã ASS, que o comercializa com o nome de Adler-Cego - sendo Cego o nome do único jogo ainda jogado com ele. Mas, como o Cego também pode ser jogado com qualquer outro tarô, basta a ASS desistir de fabricá-lo para que ele desapareça.

3 enfiaram o nariz:

Escola de Cartomancia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Escola de Cartomancia disse...

Boa tarde!
Adorei o artigo.
Eu tenho esse Trunfo da Piatnik de 54 cartas, você sabe onde encontro instruções de como jogar, e o que significa cada carta?
Obrigada
Andréa

1:42 PM
Guil disse...

Olá Andréa
Em português, não. Em inglês, tem aqui: https://www.pagat.com/tarot/frtarot.html
Abraços!

6:18 PM

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