segunda-feira, 12 de maio de 2014

Godzilla (VIII)

E hoje retomaremos a série sobre os filmes de Godzilla! A partir de hoje, veremos a segunda série de filmes do monstro, que ficaria conhecida como Série Heisei.

E o que significa "Heisei"? Como eu já expliquei na série sobre o Kamen Rider (a qual vocês não têm obrigação de ler, e justamente por isso eu vou explicar de novo, embora agora de forma mais resumida), o Japão, além de contar o tempo em dias, semanas, meses e anos, o conta também em Eras, costume que pegou emprestado dos chineses, que dividiam sua história em dinastias - com a diferença de que, enquanto uma dinastia é o período no qual todos os imperadores de uma mesma família governaram, cada Era representa o reinado de um único imperador. Cada Era é, também, batizada não de acordo com o nome do imperador, mas com um apelido que ele mesmo escolhe, assim que assume o trono.

Assim, durante a maior parte do século XX, o Japão viveu a Era Showa ("harmonia iluminada"), na qual reinava o Imperador Hirohito. Quando Hirohito faleceu, em 7 de janeiro de 1989, a Era Showa terminou. A Era atual, que começou quando seu filho, Akihito, assumiu o trono, no dia seguinte ao do falecimento do pai, se chama Era Heisei ("paz em todos os lugares").

A rigor, o primeiro filme de Godzilla produzido após o hiato que sucedeu O Terror de Mechagodzilla ainda foi produzido na Era Showa; mas, como ele era um reboot, e os produtores estavam mesmo querendo um apelido qualquer para diferenciar as duas séries de filmes (tipo "série clássica" e "nova geração" ou coisa do tipo), aproveitaram que a Era Heisei começou antes do lançamento do filme seguinte, copiaram o que a Toei fez com os Kamen Rider, e, retroativamente, batizaram as duas séries como "Série Showa" e "Série Heisei".

Assim, os quinze filmes que vimos até agora eram todos da Série Showa (também conhecida entre os fãs como Série Clássica). Os que veremos a partir de hoje, que não mantêm relação com eles, pertencem à Série Heisei.

O Retorno de Godzilla
The Return of Godzilla
1984

Como vimos no final do último post, na década de 1970 o cinema japonês como um todo, e a Toho, produtora dos filmes de Godzilla, em particular, estavam passando por sérias crises. Por conta disso, os filmes de Godzilla, com raras exceções, eram grandes fracassos, o que não justificava que a Toho os continuasse produzindo. Assim, após O Terror de Mechagodzilla, ela decidiria não investir mais na série, colocando-a em suspenso.

Conforme o ano de 1984 se avizinhava, porém, um dilema se apresentava: seria o ano do trigésimo aniversário do filme original, data que a Toho não poderia deixar passar em branco; por outro lado, a fama de Godzilla já estava mais do que prejudicada, e não compensaria produzir um filme que já nasceria com fama negativa e sem certeza de bom público.

Foi o produtor Tomoyuki Tanaka - mesmo dos filmes da Série Showa - quem trouxe a solução: um reboot. Ou quase. Ao invés de continuação de (ou pelo menos de ambientado no mesmo universo que) O Terror de Mechagodzilla, o novo filme seria uma continuação direta do Godzilla original, como se Godzilla tivesse sido derrotado em 1954 mas retornado em 1984, ignorando todos os acontecimentos dos outros 14 filmes produzidos nesse período. Alardeando esse fato, e fazendo o filme bastante parecido com o original, a Toho garantiria, pelo menos, que a imagem de Godzilla não fosse associada aos seus mais recentes fracassos cinematográficos, aumentando o interesse do público.

O novo filme realmente é bem parecido com o original: um barco pesqueiro está próximo a uma ilha japonesa em meio a uma tempestade, quando é atacado por um monstro. Investigando o caso, o repórter Goro Maki (Ken Tanaka) encontra um único sobrevivente, Hiroshi Okumura (Shin Takuma), que diz ter sido o monstro nenhum outro senão Godzilla, que teoricamente havia sido morto há trinta anos. Temendo que a notícia de que Godzilla está vivo cause pânico, o governo japonês decide manter as investigações sobre o caso em segredo, mas se vê forçado a revelar suas suspeitas quando um submarino soviético é atacado e destruído por Godzilla - como estamos em plena Guerra Fria, os soviéticos culpam os norte-americanos pelo incidente, e ameaçam retaliar.

Logo após uma reunião de representantes dos governos do Japão, União Soviética e Estados Unidos, Godzilla ataca uma ilha japonesa onde está instalado um reator nuclear, visando aparentemente se alimentar da energia gerada por ele. Para tentar detê-lo, o governo japonês usa um novo jato experimental, chamado Super-X; o cientista Professor Hayashida (Yosuke Natsuki), porém, acredita ter encontrado uma forma de atrair Godzilla para um local remoto, e planeja testá-la para retirá-lo da cidade antes do ataque. Com um plano ambicioso, o cientista atrai Godzilla até um vulcão, no qual ele fica preso após a cratera ser destruída com explosivos.

Lançado em 15 de dezembro de 1984, o novo filme, no Japão, se chamaria apenas Godzilla (ou melhor, Gojira), e criaria uma nova característica para o monstro: ao invés de simplesmente ter sido modificado pela energia nuclear, Godzilla agora era feito de energia nuclear - por isso ele se alimenta da energia gerada por usinas nucleares, e, em uma das cenas do filme, é revelado que Godzilla tem o poder de lançar sua baforada porque seu coração é semelhante a um reator nuclear. Uma outra característica criada para esse filme ajudaria a explicar como Godzilla sobreviveu ao Destruidor de Oxigênio: ele tem a capacidade de regenerar qualquer dano, levando tempo proporcional à gravidade do dano sofrido - ele teria, portanto, passado trinta anos regenerando o dano causado pelo Destruidor de Oxigênio, que não teria sido suficiente para matá-lo.

Tomoyuki Tanaka tentaria convencer Ishiro Honda a dirigir o reboot, mas, imaginando que o filme acabaria ficando como os fracassos da Série Showa, e tendo sido convidado para trabalhar com Akira Kurosawa, ele recusaria, e a direção acabaria ficando a cargo de Koji Hashimoto. O roteiro ficaria a cargo de Shuichi Nagahara, que, em 1980, havia proposto à Toho um filme no qual Godzilla enfrentaria um monstro capaz de mudar de forma chamado Bagan; muitos elementos desse filme acabariam sendo aproveitados, como, por exemplo, o Super-X. Os efeitos especiais ficariam mais uma vez a cargo de Teruyoshi Nakano, que consideraria O Retorno de Godzilla a obra-prima de sua carreira - curiosamente, seria também a última, pois, depois desse filme, ele seria substituído na função pela Toho sem maiores explicações, e, após só conseguir emprego em um estúdio da Coreia do Norte, para o qual realizaria três filmes, decidiria se aposentar.

A roupa de Godzilla seria vestida por Kenpachiro Satsuma, que, nos filmes anteriores, havia interpretado Hedorah e Gigan. Satsuma teve de assumir o posto de última hora, pois Toru Kawai, intérprete de Godzilla nos dois últimos filmes, desistiria às vésperas de começarem as gravações. Para infelicidade de Satsuma, a roupa de Godzilla era muito quente, muito pesada e moldada para se ajustar a Kawai, não a ele; por conta disso, o coitado passaria por outro perrengue, perdendo quase sete quilos durante as gravações e quase chegando a desmaiar de calor. Além da roupa de Godzilla, foram produzidos um animatronic de seis metros de altura, apelidado "Cybot Godzilla", para as cenas em close - extremamente criticado por se parecer claramente com um boneco, além de ser bastante diferente da roupa vestida por Satsuma - e um modelo em "tamanho real" do pé do monstro.

Além de Satsuma, outra adição de última hora ao elenco foi o ator Yosuke Natsuki: originalmente, o intérprete do Professor Hayashida seria o veterano Akihiko Hirata, o Dr. Sekizawa do filme original; Hirata, entretanto, faleceria de câncer pouco antes da produção começar. Visando atrair o público, a Toho escalaria atores famosos da época para o elenco, como Ken Tanaka, Keiju Kobayashi (que interpreta o primeiro ministro) e a bela Yasuko Sawaguchi, que interpreta a principal personagem feminina do filme, Naoko, irmã de Hiroshi Okumura.

O filme seria um enrome sucesso no Japão, rendendo mais que o dobro do que custou e agradando à crítica, que consideraria que "Godzilla retornou em grande estilo". Inspirada por essa frase, a Toho chamaria sua versão internacional de The Return of Godzilla; dublada em inglês em Hong Kong, essa versão seria lançada por lá em 1985, mas só chegaria à Europa (e apenas ao Reino Unido) em 1990. Hoje, essa é considerada a mais rara de todas as versões internacionais da Toho, e é a única que não existe em DVD.

Os direitos para exibição do filme nos Estados Unidos foram comprados pela New World Pictures, que, devido à imagem distorcida do público norte-americano da época, de que Godzilla era alguma espécie de personagem humorístico, planejava editar o filme e transformá-lo em uma comédia pastelão. O que impediu essa catástrofe foi eles terem contratado Raymond Burr para repetir o papel do repórter Steve Martin, o qual interpretou na versão norte-americana do filme original, Godzilla: King of the Monsters. Burr se opôs a essa ideia com todas as suas forças, argumentando de que a alegoria da era atômica que Godzilla representava deveria ser levada a sério, e não tratada como comédia, até conseguir convencer os executivos da New World. Ainda assim, as exibições nos cinemas foram precedidas do curta humorístico Bambi vs. Godzilla, que a New World já havia comprado para este fim e não desejava descartar, o que fazia com que o público ficasse sem saber se o filme seria sério ou não.

Ainda assim, como de costume, muitas cenas foram editadas, tiveram sua ordem alterada ou foram simplesmente removidas - tanto que, mesmo com dez minutos extras, resultantes das novas cenas gravadas por Burr, o filme norte-americano tem 16 minutos a menos que o original japonês. A edição mais infame foi em uma cena na qual o soviético Coronel Kashirin (Luke Johnson) tenta impedir, sem sucesso, o lançamento de um míssil nuclear contra Godzilla, se desvencilhando de vários soldados para apertar o botão de cancelamento; graças ao trabalho de edição, na versão norte-americana o Coronel se desvencilha dos soldados para pressionar o botão de lançamento, assumindo, sozinho, a responsabilidade pelo uso de uma arma nuclear - edição essa que talvez tenha sido motivada pela Guerra Fria, durante a qual era de bom tom mostrar todos os soviéticos como vilões, mesmo em um filme de Godzilla. Outra mudança curiosa foi a do nome de Hiroshi Okumura, que na versão norte-americana se chama Kenny.

Todas as cenas de Burr o colocam como uma espécie de consultor do governo norte-americano - afinal, ele estava presente durante o primeiro ataque de Godzilla - e se passam no Pentágono - diferentemente do que ocorre no filme dos anos 1950, ele não "contracena" com os personagens japoneses. É curioso notar que, sempre que aparece, o personagem de Burr é referenciado como "Sr. Martin" - isso porque, em 1985, o ator de comédias Steve Martin já era bem conhecido, e não iria pegar bem um personagem com seu nome em um filme supostamente sério. O filme norte-americano também conta com várias cenas de Godzilla: King of the Monsters, que atuam como flashbacks e recapitulação do primeiro ataque de Godzilla, e tem uma trilha sonora instrumental diferente, que originalmente pertencia ao filme Defcon 4.

Lançada com o título de Godzilla 1985 (em alusão ao ano de seu lançamento), a versão norte-americana não só foi um gigantesco fracasso de público como também foi detonada pela crítica. Isso fez com que as produtoras norte-americanas não se interessassem mais em lançar os filmes de Godzilla da Toho nos cinemas dos Estados Unidos - o que deve ter sido até bom, tendo em vista a qualidade dessas versões.

Godzilla vs. Biollante
1989

O Retorno de Godzilla foi considerado um sucesso, mas, dessa vez, a Toho preferiu não ir com muita sede ao pote e não começar a produzir um novo filme para a série de imediato. Após muitas reuniões sobre qual seria a melhor estratégia a seguir, seria escolhida a sugestão de Tomoyuki Tanaka, de que Godzilla deveria novamente enfrentar outros monstros, mas não como herói, e sim para defender seus próprios interesses - mais ou menos como em Godzilla Contra-Ataca, no qual ele enfrenta Anguirus, mas destrói tudo em sua volta e causa terror e pânico, e não porque quer salvar o Japão, mas simplesmente porque não vai com a cara do rival.

Tanaka também sugeriria que Godzilla enfrentasse um monstro totalmente novo, e não algum reciclado da Série Clássica, e que, mais uma vez, a Toho fizesse um concurso para escolher o roteiro, para chamar a atenção do público. O roteiro vencedor seria o de Shinichiro Kobayashi, dentista de profissão e escritor amador de contos de ficção científica. Curiosamente, apesar de o vilão e a ideia geral terem sido mantidas, quase nada foi aproveitado desse roteiro, com o diretor Kazuki Omori decidindo ele mesmo reescrevê-lo.

Em 1984, após Godzilla ser novamente derrotado, um grupo de cientistas do laboratório norte-americano Bio-Major procurou dentre os destroços de Tóquio amostras de tecido do monstro, mas não conseguiram retornar com elas para os Estados Unidos, pois foram roubados. Paralelamente a isso, no Oriente Médio, o cientista japonês Genshiro Shiragami (Koji Takahashi) trabalha em um projeto secreto, quando seu laboratório é atacado. Durante o ataque, sua única fiha, Erika (Yasuko Sawaguchi), é morta.

Cinco anos se passam. Shiragami agora se dedica ao estudo da energia psíquica das flores (?), em parceria com a vidente Miki Saegusa (Megumi Odaka). Secretamente, porém, ele estuda as células de Godzilla, buscando desenvolver uma arma biológica capaz de destruir o monstro de uma vez por todas caso ele volte a atacar. Quando espiões da Bio-Major descobrem esse fato, eles atacam o laboratório de Shiragami - mas, dessa vez, o ataque é repelido por uma rosa gigante, a qual o cientista chama de Biollante.

Para criar Biollante, Shiragami misturou DNA de uma rosa comum, de Godzilla e de sua falecida filha Erika. Por que ele achou que isso seria uma boa ideia, é um mistério. Seja como for, a Bio-Major decide chantagear o governo do Japão, exigindo que as amostras de tecido sejam entregues, caso contrário, eles libertarão Godzilla do vulcão onde ele foi aprisionado no final do filme anterior. O governo aceita e envia um emissário, mas um assassino de aluguel impede a troca, fazendo com que Godzilla seja libertado.

Godzilla ruma diretamente para Biollante - provavelmente porque reconhece na flor seu próprio DNA - e mais uma batalha de proporções épicas se avizinha. Para tentar impedir que Tóquio seja mais uma vez destruída, o governo envia um novo jato, o Super-X II, enquanto Shiragami, não querendo que sua criação seja destruída, passa a trabalhar com afinco na arma biológica que deterá a ameaça do monstro para sempre.

Godzilla vs. Biollante contou com uma equipe totalmente nova: além de Omori, que fez sua estreia na direção de filmes de kaiju, estreariam Koichi Kawakita como chefe da equipe de efeitos especiais e Koichi Sugiyama como compositor da trilha sonora - curiosamente, até então Sugiyama havia sido responsável apenas por trilhas sonoras de games, como os da série Dragon Quest. Dos antigos, restariam Tanaka, que atuaria como co-produtor, ao lado de Shougo Tomiyama, e Satsuma, que vestiria mais uma vez a roupa de Godzilla. Kawakita chegaria a experimentar filmar a batalha de Godzilla contra Biollante em stop motion e até mesmo em computação gráfica, mas, como não gostou do resultado, acabou ficando com os atores fantasiados mesmo.

Estreando em 16 de dezembro de 1989, o filme fez bastante sucesso entre o público e a crítica, que o considerou o primeiro filme de Godzilla original em anos. Isso animaria a Toho a retomar a produção em massa, criando uma nova série - que só a partir de então, e retroativamente pegando o filme anterior, passaria a ser referenciada como Série Heisei.

Godzilla vs. Biollante também ganharia uma versão internacional, dublada em inglês em Hong Kong e lançada na Europa e Ásia. Essa versão chegou a ser negociada com a Miramax para ser lançada nos cinemas dos Estados Unidos, mas, quando as negociações estavam quase concluídas, o estúdio norte-americano, repentinamente, desistiu. A Toho chegou a entrar na justiça dos Estados Unidos contra a Miramax alegando quebra de contrato, em uma ação que durou dois anos e terminou com um acordo entre as partes. No fim, a Miramax desistiria de lançar o filme nos cinemas e o passaria para a HBO, que também desistiria de exibi-lo na TV, lançando-o diretamente em VHS em 1992. Essa seria a primeira versão internacional de um filme de Godzilla lançado sem nenhuma modificação nos Estados Unidos.

0 enfiaram o nariz:

Postar um comentário