segunda-feira, 31 de março de 2014

Godzilla (VII)

E seguimos com nossa série do Godzilla! Se um Godzilla já incomoda muita gente, dois Godzillas incomodam muito mais!

Godzilla vs. Mechagodzilla
1974

No início da década de 1970, os filmes de Godzilla já eram considerados produções secundárias para a Toho - que, afogada em dívidas, não via nenhuma vantagem em fazer um grande investimento em uma série que, filme após o outro, só trazia fracassos. Para o aniversário de vinte anos do primeiro filme, que ocorreria em 1974, porém, ela decidiria agir diferente e abrir o cofre, para garantir, pelo menos, uma comemoração digna.

A primeira providência foi contratar o famoso escritor de ficção científica Masami Fukushima para escrever uma história, que seria transformada em roteiro pelo já escolado Shinichi Sekizawa e pelo diretor do filme, Jun Fukuda. Esse roteiro trazia uma nova tentativa de um povo extraterrestre, chamado Garuga, de dominar a Terra, usando, para isso, um monstro mecânico chamado Garugan. O clímax do filme seria uma grande batalha na cidade de Okinawa, entre Godzilla, Mothra, Baragon e Garugan. O produtor Tomoyuki Tanaka gostaria do roteiro, mas pediria algumas modificações.

Enquanto faziam as modificações, Fukuda e seu colega Hiroyasu Yamaura chegariam à conclusão de que Mothra não tinha nada a ver com a história, já que a Ilha Infante não estava envolvida, e que seria melhor substituí-la por um personagem equivalente, que atuasse como deus protetor de Okinawa. Felizmente, na mitologia local existe uma criatura desse tipo, chamada Shisa, uma espécie de leãozinho do qual os moradores possuem estátuas e enfeites para proteção e boa sorte. Fukuda e Yamaura, então, criariam um kaiju baseado no Shisa, o qual Yamaura chamaria de King Barugan. Como esse nome já se parecia com Baragon e Garugan, os outros dois monstros do filme, Fukuda acabaria decidindo alterá-lo para King Caesar, nome que, em japonês, tem a mesma sonoridade de Shisa.

Os outros dois monstros do roteiro original, por um acaso, também acabariam dançando: apesar da vontade de Fukuda em usar Baragon - monstro originalmente criado para Frankenstein vs. Baragon e que chegou a ser escalado para O Despertar dos Monstros, mas acabaria só aparecendo em poucas cenas por sua roupa estar em estado lamentável, sendo substituído nas demais por Gorossauro - a Toho se recusaria a gastar dinheiro consertando a roupa, já que o considerava um monstro antigo e sem charme. A solução, portanto, seria usar mais uma vez Anguirus, cuja roupa estava praticamente nova. Como Anguirus e Baragon eram até parecidos - ambos eram quadrúpedes e lembravam dinossauros - Fukuda não fez qualquer alteração no roteiro, o que fez com que Anguirus apresentasse, pela primeira vez, duas habilidades que, até então, pertenciam a Baragon, a de cavar rápido e a de saltar longe.

Já Garugan acabaria removido do roteiro por uma questão de marketing. O roteiro original previa que Garugan, que era um monstro metálico, chegaria à Terra disfarçado de Godzilla, e a destruição que causasse seria atribuída ao monstro mais famoso. Diante disso, Fukuda achou que seria melhor se o monstro fosse, desde o início, uma cópia mecânica de Godzilla, ao invés de simplesmente um outro monstro disfarçado dele. Mudando a aparência do monstro, nada mais natural que mudar também seu nome para Mechagodzilla, para não deixar dúvidas de que se trata de um Godzilla mecânico. Com essa alteração na história, Fukuda acabaria também mudando a origem do monstro, do planeta Garuga para um buraco negro.

Godzilla vs. Mechagodzilla seria lançado em 21 de março de 1974. Nele, dois irmãos, Masahiko (Kazuya Aoyama) e Keisuke Shimizu (Masaaki Daimon) descobrem, separados mas quase que simultaneamente, nas imediações de Okinawa, um pedaço de um metal que não existe na Terra e uma câmara contendo vários artefatos e uma profecia, que diz que um monstro virá destruir Okinawa, mas outro virá salvá-la. Os irmãos levam suas descobertas ao Professor Hideto Miyajima (Akihiko Hirata) e à arqueóloga Saeko Kaneshiro (Reiko Tajima), que afirma existir, dentre os artefatos, provas da existência do lendário King Caesar, protetor de Okinawa.

Logo após tais descobertas, Godzilla surge e começa a destruir a cidade, para desespero da população, que não entende o motivo do ataque. Mais perplexos ainda eles ficam quando Anguirus aparece e ataca Godzilla, sendo derrotado e tendo de fugir - mas não sem antes rasgar um pedaço da pele do lagarto, revelando um estranho brilho metálico. Após a batalha, Keisuke encontra, no local, outro pedaço do estranho metal. Quando o Godzilla verdadeiro aparece para enfrentar o impostor, o Professor Miyajima não tem dúvidas: o falso Godzilla se trata de uma arma, construída por um povo alienígena para destruir a Terra.

Esses alienígenas, que se parecem com macacos, vêm do Terceiro Planeta do Buraco Negro, e pretendem usar seu robô, que o Professor apelida de Mechagodzilla, para destruir toda a população da Terra, preparando-a para a colonização. Disfarçados de humanos, eles vivem entre nós há anos, e um deles até tenta roubar os artefatos descobertos por Keisuke, sendo impedido por Nanbara (Shin Kishida), agente da Interpol que já desconfiava da existência de alienígenas em nosso planeta, e seguia os suspeitos para tentar descobrir seu plano.

Como Mechagodzilla é poderoso demais para ser vencido por Godzilla - que, assim como Anguirus, foi seriamente ferido em sua primeira batalha - Nanbara decide levar os demais para uma invasão à base dos alienígenas, buscando descobrir algum segredo do robô ou, até mesmo, sabotá-lo. Eles não sabem, porém, que um dos artefatos que Saeko carrega, uma pequena estátua de King Caesar, é nada menos que o antigo e lendário protetor espiritual da cidade, que, através de um ritual realizado por uma sacerdotiza Azumi (Barbara Lynn), pode voltar à vida e auxiliar Godzilla em sua batalha.

O filme faria bastante sucesso entre os fãs - renderia mais do que os quatro últimos somados - e seria elogiado pela crítica pelos efeitos especiais, pelas batalhas entre os monstros e por sua trilha sonora. Isso motivaria a Toho a reservar um orçamento maior para o próximo filme da série, com a esperança de revitalizá-la.

Além da versão internacional da Toho, lançada na Europa e Ásia, o filme ganharia uma versão norte-americana produzida pela Cinema Shares, mesma de Godzilla vs. Megalon, e lançada nos Estados Unidos em 1977. Curiosamente, Godzilla vs. Mechagodzilla é considerado o mais sangrento da série: Teruyoshi Nakano, o responsável pelos efeitos especiais, preferia assim, e acreditava que essa era a única forma de Godzilla competir de igual para igual com filmes de monstros de outros estúdios, como a série Gamera; com isso, Anguirus tem sua mandíbula quebrada de forma violenta por Mechagodzilla, que ainda lança um raio no pescoço de Godzilla que faz jorrar sangue. Apesar disso, e diferentemente do que fez com o filme anterior, a Cinema Shares não removeria nenhuma dessas cenas, se limitando a remover os créditos iniciais, mudar a tela de título, e editar uma cena na qual Nanbara estrangula um dos invasores. O finalzinho do filme, no qual os habitantes de Okinawa celebram a vitória de King Ceasar, também foi cortado, deixando o filme 8 minutos mais curto.

A versão norte-americana faria bastante sucesso, mas seria lembrada por um fato inusitado: originalmente, a Cinema Shares a lançaria com o nome de Godzilla vs. The Bionic Monster ("Godzilla contra o Monstro Biônico"), mas, com uma semana em cartaz, teve de mudar seu nome pára Godzilla vs. The Cosmic Monster ("Godzilla contra o Monstro Cósmico") graças a um processo da Universal, que produzia as séries O Homem de Seis Milhões de Dólares e A Mulher Biônica, e, acreditem ou não, detinha os direitos para uso da palavra "biônico" nos Estados Unidos.

O Terror de Mechagodzilla
Terror of Mechagodzilla
1975

Após o sucesso de Godzilla vs. Mechagodzilla, a Toho decidiria abrir o cofre novamente, para tentar revitalizar a série. Usando a prática do "em time que está ganhando não se mexe", ela decidiria que o vilão do filme seguinte seria, mais uma vez, Mechagodzilla. Em uma atitude ousada e surpreendente, porém - talvez visando chamar a atenção do público - ao invés de incumbir um de seus roteiristas da tarefa de escrevê-lo, a Toho decidiria promover um concurso para escolher o roteiro. A vencedora seria Yukiko Takayama, que criaria um enredo sério e soturno, no qual Godzilla tem de enfrentar dois monstros, Mechagodzilla e o novo Titanossauro.

O filme é uma continuação direta do anterior: após os eventos de Godzilla vs. Mechagodzilla, uma equipe da Interpol vasculha o fundo do mar, buscando recolher os destroços de Mechagodzilla para aprender mais sobre seus construtores. Subitamente, eles são atacados pelo Titanossauro e desaparecem. A Interpol, então, reúne uma segunda equipe, liderada pelo oceanólogo Akira Ichinose (Katsuhiko Sasaki) e pelo agente Jiro Murakoshi (Katsumasa Uchida), para investigar as origens do monstro. Essa equipe acaba descobrindo que o Titanossauro é uma criação do cientista louco Shinji Mafune (Akihiko Hirata), que deseja usá-lo para destruir a humanidade. Ao procurar o cientista, porém, a Interpol é informada por sua filha, Katsura (Tomoko Ai), que ele está morto, e que, em seu testamento, pediu para que ela destruísse todas as suas anotações sobre o monstro.

Sem que Katsura saiba, porém, seu pai está vivo e de conchavo com os alienígenas do Terceiro Planeta do Buraco Negro, que desejam construir um segundo Mechagodzilla, ainda mais poderoso, e usá-lo em conjunto com Titanossauro para exterminar a população da Terra e reconstruir o planeta de acordo com seus desejos. Investigando Tsuda (Toru Ibuki), amigo do cientista que, na verdade, é um dos alienígenas disfarçado, Murakoshi acaba descobrindo esses planos, e começa a traçar uma ofensiva para impedi-los. Akira, entretanto, põe tudo a perder ao se apaixonar por Katsura e contar a ela que seu pai está vivo e tramando a destruição do planeta - isso porque Katsura, na verdade, é uma ciborgue criada pelo líder dos alienígenas, Mugal (Goro Matsumi), o que faz com que ela revele aos vilões os planos da Interpol.

Com isso, os vilões conseguem deter os avanços dos heróis, e Mafune, ansioso por colocar o plano em prática, solta Titanossauro para destruir uma cidade próxima. O ataque de Titanossauro, contudo, acaba chamando a atenção de Godzilla, que surge para enfrentar o monstro e um segundo Mechagodzilla, controlado por Katsura, enquanto Akira e Murakoshi buscam uma forma de sabotar os planos dos alienígenas, já que Godzilla, sozinho, não será páreo para derrotar as duas ameaças.

Como estava tentando revitalizar a franquia, a Toho conseguiu convencer Ishiro Honda a voltar a dirigir, e Akira Ifukube a voltar a compor a trilha sonora - o último filme da série com trilha sonora original de Ifukube (descontando aqueles nas quais suas músicas foras reutilizadas) havia sido O Despertar dos Monstros. Esse seria o último filme de Godzilla dirigido por Honda, que preferiria se dedicar definitivamente a outros projetos a partir de então - ele até chegaria a topar dirigir mais um na década de 1990, mas faleceria pouco antes das filmagens começarem. Os efeitos especiais ficariam mais uma vez a cargo de Teruyoshi Nakano, e a roupa de Godzilla seria vestida por Toru Kawai, que já o havia "interpretado" no filme anterior - assim como Ise Mori, que vestiu a roupa de Mechagodzilla em ambos os filmes.

O roteiro original de Takayama seria revisado quatro vezes - todas pela própria autora - mas sempre por razões orçamentárias. A primeira versão, por exemplo, trazia dois novos monstros chamados Titãs, que, no final, se combinariam e formariam o Titanossauro; para não ter de criar duas novas roupas de monstro e investir nos efeitos especiais que fariam a combinação, a Toho pediria para que o Titanossauro fosse um monstro só desde o começo. O roteiro de Takayama, aliás, seria extremamente elogiado por ter um tom mais adulto que os últimos filmes de Godzilla, sendo praticamente uma volta às origens do monstro. E, além de dilemas morais e da já tradicional violência própria de Nakano, esse seria o primeiro filme de Godzilla a trazer nudez, na cena em flashback que mostra a transformação de Katsura em ciborgue, quando seus seios estão à mostra durante a operação.

Por conta disso, o filme seria severamente editado em sua versão norte-americana, chamada The Terror of Godzilla, lançada pela Bob Conn Enterprises em 1978. Tentando conseguir que o filme fosse classificado como Livre, a empresa editaria várias cenas e removeria todas as de violência e a dos seios expostos, o que resultaria em cinco minutos a menos de filme e grande prejuízo narrativo - em bom português, o filme ficou sem pé nem cabeça. Henry Saperstein, o produtor que negociou os direitos do filme com a Toho e os passou para Bob Conn, ficou extremamente insatisfeito com essa versão, e preparou uma diferente, que usava o mesmo título da versão internacional da Toho (Terror of Mechagodzilla) e não somente restaurava todas as cenas cortadas - exceto a dos seios expostos; monstros sangrando tudo bem, mas peitinho de fora não pode - como também incluía um prólogo que contava a origem de Godzilla, usando cenas de Godzilla contra o Monstro Zero, Godzilla contra o Monstro do Mar, O Filho de Godzilla e A Vingança de Godzilla, o que faria com que ela fosse seis minutos mais longa que a original japonesa.

A versão de Saperstein jamais seria exibida nos cinemas, sendo negociada diretamente com a televisão para exibição a partir do final de 1978. Em meados da década de 1980, porém, os canais de TV passariam a preferir exibir a versão de Bob Conn, mas usando o título da segunda versão. Isso gerou uma certa confusão quando o filme foi lançado em vídeo, em 1994, pela Paramount: o título era Terror of Mechagodzilla e o tempo descrito na embalagem era de 89 minutos, mas o filme gravado na fita era The Terror of Godzilla, de 78 minutos. Curiosamente, Saperstein não sabia disso, acreditando que o filme comercializado pela Paramount era a sua versão; apenas durante uma entrevista, em 1995, é que ele descobriria a mancada, ao ser perguntado por um repórter por que ele achava que a Paramount teria feito isso.

Voltando à versão original japonesa, ela teria o título de Mekagojira no Gyakushuu ("Mechagodzilla Contra-Ataca"), que remeteria ao segundo filme da série, e seria lançada em 15 de março de 1975. Infelizmente, apesar de razoavelmente elogiado pela crítica, o filme não faria o sucesso esperado, se tornando um dos dois únicos filmes da série - junto com A Vingança de Godzilla - a ter menos de um milhão de espectadores no Japão.

Nem toda a culpa pelo mau desempenho nas bilheterias foi do filme em si, porém: ao longo da década de 1970, o cinema japonês atravessaria uma grande crise, causada, principalmente, pelo aumento da popularidade da televisão - basicamente, as pessoas preferiam assistir a programas de TV do que sair de casa e ir ao cinema. Isso levaria muitos estúdios a ter de se reinventar, e a maioria deles a falir próximo ao final da década. Diante desse cenário, a Toho decidiria colocar a série de Godzilla em hiato - mas não cancelá-la, já que as críticas haviam sido favoráveis. Nos anos seguinte, vários roteiros seriam analisado, mas nenhum chegaria a despertar o interesse de se produzir um novo filme de Godzilla.

Por conta disso, depois de O Terror de Mechagodzilla, a série de filmes fez uma longa pausa. Aproveitando o ensejo, a série de posts também fará uma pausa maior que o normal, retornando em breve com mais filmes. Até lá!

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