segunda-feira, 10 de março de 2014

Godzilla (VI)

E vamos a mais Godzilla, hoje com uma espécie de "Trilogia Godzilla vs".

Godzilla vs. Hedorah
1971

Depois de A Vingança de Godzilla, o diretor Ishiro Honda e o roteirista Shinichi Sekizawa, talvez por vergonha, não quiseram mais se envolver com filmes de Godzilla, optando por se dedicar a outros projetos. Como a repercussão do filme também não foi lá essas coisas, a Toho nem fez pressão, e o resultado foi que, em 1970, não tivemos um novo filme de Godzilla.

Naquele ano, entretanto, o jovem diretor Yoshimitsu Banno, enquanto finalizava seu documentário O Nascimento das Ilhas Japonesas, visitou uma famosa praia na cidade de Yokkaichi, e ficou desolado em ver como ela estava poluída. Impressionado com a poluição, e preocupado com o futuro do planeta, ele decidiu escrever uma sinopse de um filme de monstro, no qual a ameaça é criada, justamente, pela poluição. Aproveitando o vácuo deixado por Sekizawa, ele decidiu colocar Godzilla no filme, para enfrentar o tal monstro. Banno apresentou a ideia ao produtor dos filmes de Godzilla, Tomoyuki Tanaka, que gostou e deu a luz verde.

Assim surgia Godzilla vs. Hedorah, que estrearia em 24 de julho de 1971, dirigido por Banno, com roteiro de Banno e Takeshi Kimura (de O Despertar dos Monstros) e efeitos especiais de Teruyoshi Nakano (de A Vingança de Godzilla), que assumiu a chefia do departamento após a morte de Eiji Tsuburaya, em 1970. Nele, um ser microscópico de origem alienígena, chamado Hedorah, vem parar na Terra e começa a se alimentar de nossa poluição, se tornando cada vez maior e mais perigoso - conforme se alimenta, Hedorah ganha poderes como o de produzir ácido, mudar de forma e expelir um gás venenoso, ameaçando a vida na Terra. Quem primeiro toma conhecimento de Hedorah é o biólogo Dr. Toru Yano (Akira Yamauchi), que, junto com seu filho Ken (Hiroyuki Kawase) tenta alertar as autoridades em vão - Ken, aliás, é quem batiza a criatura como Hedorah, seja lá por qual motivo, além de, aparentemente, ser fã de Godzilla, já que passa a primeira metade do filme repetindo seguidas vezes que Godzilla vai aparecer e destruir Hedorah.

Para êxtase de Ken, Godzilla realmente aparece, mas, infelizmente, ele não é imune ao ácido e ao veneno de Hedorah, e parece que não vai conseguir ganhar a batalha. Felizmente, o Dr. Yano tem uma ideia: desidratar o corpo do monstro, para que ele encolha novamente e perca os poderes. Enquanto os dois titãs lutam, as forças armadas japonesas partem para construir uma máquina capaz de realizar tal tarefa. No fim, Hedorah é derrotado, Godzilla lança um olhar de reprovação enquanto a humanidade comemora, e surge uma lição de moral: se não pararmos de poluir nosso planeta, Hedorah poderá voltar.

Banno considerou o filme um imenso sucesso, e ficou tão satisfeito que, assim que as filmagens acabaram, ele se pôs a escrever um roteiro para o filme seguinte, no qual Godzilla enfrentaria um novo monstro chamado Hitodah. Ele nunca chegou a definir como seria Hitodah ou quais seriam seus poderes, pois, antes disso, descartaria essa ideia para escrever Godzilla vs. Hedorah 2, no qual Hedorah retorna e Godzilla tem de enfrentá-lo novamente, mas, dessa vez, na África.

Aparentemente, porém, o único que gostou do filme foi Banno. A crítica caiu de pau em cima, considerando-o amadorístico, piegas e um dos piores filmes da série (e isso porque ele foi lançado depois de A Vingança de Godzilla, senão, muito provavelmente, seria considerado o pior de todos). O público também não concordou com a opinião de Banno, fazendo com que o filme fosse um fracasso de bilheteria. Além da lição de moral e da falta de explicação para Ken saber o nome do monstro e saber que Godzilla viria enfrentá-lo, uma cena do filme gerou bastante reclamações dos fãs: em dado momento, Hedorah muda de forma e sai voando; para persegui-lo, Godzilla lança sua baforada radioativa contra o chão com tanta força que voa também, conseguindo agarrá-lo e trazê-lo de volta para o chão. Mais tarde, em entrevistas, Banno declararia que pensou nessa cena propositalmente como cômica, "um momento de descontração em meio a um filme tão sério e pesado", declaração que muitos viram como desculpa esfarrapada.

Além do público e da crítica, quem não ficou nada satisfeito foi Tanaka, que, com sérios problemas de saúde, passou a maior parte das filmagens internado em um hospital, não podendo acompanhar a produção. Ao ver o resultado final, ele ficou tão insatisfeito que chamou Banno no hospital, disse na frente de todo mundo que ele arruinou Godzilla (vejam bem: dois anos depois de A Vingança de Godzilla, nunca é demais frisar), e prometeu que ele jamais dirigiria outro filme da Toho enquanto vivesse, o que enterrou todas as esperanças de que Godzilla vs. Hedorah 2 saísse do papel - embora Banno jure que o filme continuou em produção após seu afastamento, até ser descartado pelo novo diretor, Jun Fukuda, de Godzilla contra o Monstro do Mar. Banno, de fato, nunca mais dirigiu para a Toho, atuando, apenas, como assistente de direção ou produtor executivo.

Mas nem tudo foram pontos negativos no filme: Hedorah foi considerado um monstro criativo - além de ser um dos poucos da série original a atacar a Terra e enfrentar Godzilla por vontade própria, e não por estar sob o controle mental de algum vilão - e o filme não reaproveitou monstros ou cenas de filmes anteriores (exceto o próprio Godzilla, obviamente), o que parecia estar se tornando uma tendência. Godzilla foi interpretado mais uma vez por Haruo Nakajima, usando a mesma roupa dos outros dois filmes, o que ajudou a consolidar uma "imagem oficial" para Godzilla - até então, como era comum que a roupa mudasse de um filme para o outro, Godzilla tinha pequenas variações que tornavam difíceis a vida dos ilustradores e dos fabricantes de brinquedos, que preferiam usar sua aparência de King Kong vs. Godzilla, considerada a mais famosa.

Hedorah foi interpretado por Kenpachiro Satsuma, em seu primeiro papel em um filme da série. Satsuma, aliás, passou por maus bocados, já que a roupa de Hedorah era extremamente difícil de ser vestida e despida, levando quase uma hora para cada operação. Para azar de Satsuma, durante as filmagens, enquanto estava vestido, ele teve uma crise violenta de apendicite, precisando ser operado o mais depressa possível. Como não estavam conseguindo tirar toda a roupa em tempo hábil, tiraram só o que deu, e Satsuma acabou sendo operado parcialmente vestido de Hedorah - o que dificultou a aplicação da anestesia e fez com que ele sentisse dores horríveis durante a cirurgia.

Godzilla vs. Hedorah ganharia uma versão internacional da Toho, dublada em inglês para distribuição na Europa e Ásia, e uma versão norte-americana, produzida pela American International Pictures (AIP) para exibição nos Estados Unidos. Lançada em abril de 1972, a versão da AIP, chamada Godzilla vs. The Smog Monster ("Godzilla contra o Monstro da Fumaça") tinha dublagem diferente da versão da Toho, e trazia a música Save the Earth, cantada por Adryan Russ, durante os créditos iniciais - que, bizarramente, se tornou um grande sucesso, chegando a tocar nas rádios dos Estados Unidos.

Godzilla vs. Gigan
1972

Se Godzilla vs. Hedorah 2 chegou mesmo a entrar em produção, jamais saberemos, mas o fato é que, depois de despedir Banno, Tanaka realmente entrou em contato com Jun Fukuda, convidando-o para dirigir o filme seguinte de Godzilla.

Fukuda queria fazer um filme no estilo de O Despertar dos Monstros, com, no mínimo, seis monstros, incluindo Godzilla. A Toho gostou da ideia e convenceu Sekizawa a trabalhar em um novo roteiro, em parceria com Kimura. Sekizawa e Kimura chegaram a criar três novos monstros alienígenas para o filme, chamados Gigan (pronuncia-se "gáigan"), Megalon e Majin Tuo, que invadiriam a Terra e seriam detidos por Godzilla, Rodan e Varan. O nome provisório do projeto era Diretiva de Defesa da Terra.

Fukuda, porém, não gostou da primeira versão do roteiro, e pediu para que King Ghidorah fosse incluído no filme no lugar de Majin Tuo (que se parecia muito com um monstro de outro filme, Daimajin, lançado pelo estúdio Daiei em 1966). Sekizawa e Kimura, então, mudaram o nome do projeto para O Retorno de King Ghidorah, e não só substituíram Majin Tuo por Ghidorah, mas Megalon por um novo monstro, chamado Mogu, que podia voar e cuspir fogo.

Aí eles esbarraram em um outro problema: o orçamento. Do jeito que o roteiro estava, o filme sairia muito caro, principalmente porque a Toho teria de providenciar três novas roupas de monstro, para Gigan, Mogu e Varan - cuja roupa original estava danificada além de qualquer reparo - além de ter de reparar a roupa de Rodan, que também estava danificada. O diretor e os roteiristas, então, foram convencidos a usar apenas quatro monstros ao invés de seis, e a substituir Rodan e Varan por Anguirus, que tinha uma roupa nova em folha, criada especialmente para O Despertar dos Monstros. Assim surgiu Godzilla vs. Gigan, cujo nome original em japonês é Chikyu Kogeki Meirei: Gojira tai Gaigan ("Diretiva de Destruição da Terra: Godzilla vs. Gigan").

Gigan é um monstro ciborgue de origem desconhecida, uma criatura espacial com foices no lugar das mãos, uma serra circular no meio do peito, um bico de aço e um visor no lugar dos olhos, que permite que ele veja em infravermelho e dispare raios laser. Criado por Nakano, ele seria o primeiro oponente a fazer Godzilla sangrar - Tsuburaya era contra sangue em seus filmes, achando que cenas violentas poderiam traumatizar as crianças que assistiam os filmes, embora eu acho que essa preocupação diante do fato de que os monstros destroem prédios com pessoas dentro seja um tanto desnecessária - e seria interpretado por Kenpachiro Satsuma, que vestiu a roupa de Hedorah no filme anterior.

Gigan chega à Terra por obra dos alienígenas Caçadores do Espaço da Nebulosa-M, que se parecem com baratas gigantes. Seu planeta está morrendo, e eles querem destruir a humanidade para colonizar a Terra. Disfarçando-se de humanos, eles constroem um parque de diversões em Tóquio, cuja principal atração é a Torre Godzilla, construída no formato do monstro. Esse parque de diversões serve como seu disfarce - todos os alienígenas são empregados do parque - sua base de operações e sua principal arma: com a Torre, eles retransmitirão um sinal que controlará mentalmente Gigan e King Ghidorah, que virão à Terra destruí-la.

Os planos dos alienígenas são acidentalmente frustrados por Gengo Kotaka (Hiroshi Ishikawa), desenhista de mangá contratado como artista conceitual para projetar alguns brinquedos do parque. Gengo e seus amigos Tomoko Tomoe (Yuriko Hishimi) e Shosaku Takasugi (Minoru Takashima) encontram uma das fitas com os comandos mentais que os alienígenas usarão, e, sem saber do que se trata, a tocam. Embora o som da fita não seja audível por humanos, Godzilla e Anguirus o escutam, e, intrigados, decidem vir até Tóquio investigar. Após um mal-entendido com as forças armadas, que acham que Anguirus veio para destruir a cidade, os dois monstros chegam no parque bem na hora em que Gigan e King Ghidorah estão invadindo a Terra, e lutam para impedir a destruição do planeta. Enquanto isso, Gengo e seus amigos descobrem as reais intenções dos alienígenas, e têm de agir para salvar Godzilla: na boca da Torre Godzilla, há um imenso laser, que, a menos que seja desativado a tempo, será disparado contra Godzilla, matando-o.

Embora o roteiro não seja tão ruim, e a luta entre os monstros seja memorável, Godzilla vs. Gigan sofreria muito com o baixo orçamento - a Toho estava passando por sérias dificuldades financeiras no início da década de 1970, e, após dois fracassos seguidos, não queria investir muito dinheiro em um filme de Godzilla. Com o orçamento limitado, a equipe de produção teve mais uma vez de reaproveitar cenas dos filmes anteriores, o que levou a algumas gafes consideráveis: durante a luta de Godzilla e Anguirus contra King Ghidorah, as cenas se alternam entre dia e noite, e entre o parque de diversões e a ilha na qual a luta ocorre em O Despertar dos Monstros. Em uma das cenas, quando Godzilla está atacando King Ghidorah, Mothra, que nem estava no filme, pode ser vista ao lado de Godzilla, em uma cena claramente reaproveitada de Godzilla vs. Ghidrah. Além desses dois filmes, também seriam reaproveitadas cenas de Rodan, War of the Gargantuas e Godzilla contra o Monstro Zero, a maioria delas claramente em dissonância com o restante do filme. A trilha sonora também seria totalmente composta de músicas reaproveitadas de outros filmes da Toho, sem nenhuma composição original.

Haruo Nakajima vestiria a roupa de Godzilla pela última vez nesse filme; aos 43 anos, já não se sentia tão à vontade com a pesada e quente roupa de monstro, e, mesmo ainda orgulhoso de representar um dos personagens mais icônicos do Japão, decidiria se aposentar da carreira de dublê após as filmagens. Nakajima ainda tentaria uma carreira como ator "comum", atuando sem fantasia, mas, marcado por ter sido Godzilla, o único papel que conseguiria seria o de motorista do Primeiro Ministro japonês no filme-catástrofe Nihon Shinbotsu ("Japão Afunda", no qual o Japão é atingido por um enorme tsunami), de 1973. Assim como outros pontos do filme, a atuação de Nakajima também sofreria com o corte de orçamento: a roupa de Godzilla usada nas filmagens, a mesma dos três filmes anteriores, já estava bastante danificada, com escamas faltando e várias costuras aparentes; durante a luta de Godzilla contra Gigan, inclusive, dá para perceber que um pedaço da roupa se rasga e sai voando.

Godzilla vs. Gigan seria lançado em 12 de março de 1972, e mais uma vez teve uma baixa bilheteria, apenas um pouco maior que a de Godzilla vs. Hedorah. A crítica foi um pouco mais branda: embora tenha criticado pesadamente o uso de cenas reaproveitadas e o ritmo, considerado lento, elogiou o roteiro, a inclusão de Gigan ao rol de monstros da Toho, o fato de que tínhamos dois monstros de cada lado da luta, e a volta de Ghidorah e Anguirus. Graças a seguidas reapresentações na TV ao longo da década de 1980, o filme se tornou uma espécie de cult, e hoje é um dos mais famosos filmes de Godzilla.

Godzilla vs. Gigan também ganharia uma versão internacional, produzida pela Toho, e uma versão norte-americana, produzida pela Cinema Shares e lançada apenas em 1978. Com o título de Godzilla on Monster Island ("Godzilla na Ilha dos Monstros"), a versão norte-americana, além da óbvia dublagem em inglês, possui alguns pequenos cortes em cenas de violência para que o filme pudesse ser classificado como Livre, o que faz com que ela seja cinco minutos mais curta que a original. Um ponto curioso - e involuntariamente cômico - dessa versão é que, no filme original, quando escutam o som da fita, Godzilla e Anguirus "conversam" sobre como aquele som é estranho e que seria melhor investigar; na versão original japonesa, eles "falam" através de seus rugidos característicos, com a "tradução" sendo apresentada em legendas; na versão norte-americana, por outro lado, Godzilla e Anguirus foram dublados, o que faz com que, durante uma cena, eles falem em inglês alto e claro.

Godzilla vs. Megalon
1973

No início da década de 1970, aconteceu um boom do tokusatsu, motivado, principalmente, pelo sucesso do Kamen Rider. Praticamente todos os estúdios japoneses quiseram pegar uma carona na popularidade desses seriados, inclusive a Toho, que, mais que depressa, criou um chamado Godman, que estreou em outubro de 1972 na TV Nippon. Assim como Ultraman, Godman tinha o poder de ficar gigante para enfrentar monstros que ameaçavam Tóquio - sendo que a maioria desses monstros usavam roupas reaproveitadas de outras produções da Toho, como a do Gorossauro, a de Gabara e as dos monstros Sanda e Gaira, de War of the Gargantuas.

Além de fazer um seriado, a Toho planejava também fazer um filme para o cinema, e organizou um concurso através do qual crianças das escolas japonesas poderiam criar a aparência de um novo herói. O desenho vencedor foi uma espécie de mistura de Ultraman com Mazinger Z (robô gigfante cujo mangá foi lançado também em 1972), um robô gigante chamado por seu criador de Red Arone. Embora tenha gostado do desenho, a Toho não gostou do nome, e, antes de começar a produção do filme, decidiu mudá-lo para Jet Jaguar. Durante a pré-produção, foi decidido que Jet Jaguar enfrentaria Megalon, um dos monstros criados por Sekizawa e Kimura para o último filme de Godzilla mas não utilizados, que lembrava um enorme besouro com brocas no lugar das mãos.

A Toho chegou a produzir as roupas de Jet Jaguar e Megalon, a fazer alguns testes de filmagem e a desenhar alguns storyboards, mas, como Godman estava fazendo um relativo sucesso, e o dinheiro ainda estava escasso, acabaria optando por produzir mais um seriado de TV no mesmo estilo, chamado Greenman, para ir ao ar depois que Godman se encerrasse, engavetando o projeto do filme.

Tomoyuki Tanaka, porém, tinha outros planos, e, algumas semanas após o engavetamento, chamou Sekizawa e Kimura para reescrever o roteiro, dando um jeito de incluir também Godzilla e Gigan, para que o filme de Jet Jaguar se transformasse em mais um filme de Godzilla. Fukuda foi chamado mais uma vez para dirigir, e também contribuiu com ideias para o roteiro, sendo creditado como co-roteirista. Ao saber dos planos de Tanaka, a Toho deu a luz verde, mas com a condição de que as filmagens durassem apenas três semanas, se encaixando entre duas outras produções do estúdio previamente agendadas. Com isso, o novo filme, batizado de Godzilla vs. Megalon, entraria para a história como um dos filmes de produção mais veloz de todos os tempos, levando apenas seis meses, entre pré-produção, filmagens e edição, para ficar pronto.

Até a roupa de Godzilla ficaria pronta em tempo recorde: como a anterior já estava muito esculhambada, Nakano optaria por fazer uma nova ao invés de consertá-la; como havia uma certa correria para tudo ficar pronto antes do dia marcado para as filmagens começarem, sua equipe só teve uma semana para produzir a nova roupa, o menor tempo no qual uma roupa de monstro da Toho já foi produzida. Como Nakajima havia se aposentado após o lançamento do último filme, quem vestiu a roupa de Godzilla foi o dublê Shinji Takagi, na primeira e única vez em que teve seu nome creditado em uma produção do cinema.

No filme, a nação submarina de Seatopia (cujo imperador é interpretado pelo ator norte-americano Robert Dunham) está cansada de ser prejudicada pelos testes nucleares realizados pelo povo da superfície, e planeja uma retaliação. Secando um lago no qual os amigos inventores Goro Ibuki (Katsuhiko Sasaki) e Hiroshi Jinkawa (Yutaka Hayashi) estão relaxando, junto com o sobrinho de Goro, Rokuro (Hiroyuki Kawase), eles montam uma base de operações e tentam roubar Jet Jaguar, um robô no qual Goro e Hiroshi estão trabalhando. Seu plano é usar o robô para guiar Megalon, uma criatura gigantesca que habita Seatopia, e fazê-lo destruir as principais cidades do Japão.

Goro, Rokuro e Hiroshi são levados como reféns para Seatopia enquanto Jet Jaguar e Megalon atacam Tóquio, com o exército japonês tentando deter o monstro sem sucesso. Os seatopianos não sabem, porém, que Jet Jaguar possui um sistema de controle secundário, e, ao escapar de seus captores, Goro e Hiroshi o utilizam para fazer com que o robô chame Godzilla, o único capaz de deter Megalon. Sem as instruções de Jet Jaguar, Megalon fica perdido, sem saber o que fazer. Temendo o pior, os seatopianos decidem entrar em contato com os alienígenas da Nebulosa-M, para que eles enviem Gigan para ajudá-los. Assim, quando Godzilla e Jet Jaguar retornam, eles têm de enfrentar Megalon e Gigan.

Mais uma vez, o filme reutilizaria várias cenas de outros filmes, especialmente Godzilla vs. Ghidrah e Godzilla vs. Gigan, o que resulta em momentos curiosos como a presença de Anguirus junto a Godzilla quando Jet Jaguar aparece para chamá-lo - por que Anguirus optou por não ir com eles é um mistério. O filme também ficaria famoso por não ter nenhuma personagem feminina, exceto algumas seatopianas que nem têm falas. Isso gerou uma teoria de que seria um filme gay, estrelado por um "casal" formado por Goro e Hiroshi. A Toho nunca levou essas teorias a sério, e sua posição oficial quanto à ausência de mulheres foi a de que simplesmente não era necessária nenhuma mulher de destaque no filme.

Godzilla vs. Megalon estrearia em 17 de março de 1973, e teria uma bilheteria ainda mais baixa que seu antecessor. A crítica também não o pouparia, reclamando dos efeitos especiais, da roupa de Godzilla (que, segundo eles, parecia uma cruza do Godzilla original com o sapo Caco, dos Muppets), das inconsistências do roteiro - por que raios Megalon precisa que Jet Jaguar o guie em sua destruição? - e das atuações do elenco, todas pouco inspiradas.

Nos Estados Unidos, porém, o filme seria um imenso sucesso. Lançado pela Cinema Shares em 1976 com uma agressiva campanha de marketing - que incluía um poster que imitava o do King Kong lançado no mesmo ano, com Godzilla e Megalon se enfrentando no topo do World Trade Center - o filme usava o mesmo título e a mesma dublagem da versão internacional produzida pela Toho, mas, mais uma vez, com algumas cenas cortadas para que filme pudesse ser classificado como Livre. Godzilla vs. Megalon teria uma bilheteria inesperada nos cinemas, o que faria com que este fosse o primeiro filme de Godzilla a ser exibido em um dos principais canais de TV norte-americanos, a NBC, que, em 1977, o exibiu no horário nobre e apresentado por John Belushi fantasiado de Godzilla.

Curiosamente, o sucesso do filme nos Estados Unidos geraria a ira dos fãs japoneses: foi graças a ele que Godzilla passou a ser visto como "infantil", já que, na opinião dos norte-americanos, só as crianças se interessariam em ver gente vestida de monstros lutando entre si. Essa imagem levaria a produtos como o desenho animado do Godzilla (aquele com o Godzooky), produzido pela Hanna-Barbera e lançado em 1978, roupas, acessórios, material escolar e outros itens destinados às crianças em geral - mais ou menos como acontece por aqui com os super-heróis, tudo o que tinha Godzilla era automaticamente considerado "para crianças" - e ficaria fortemente arraigada no imaginário coletivo norte-americano até o final da década de 1990, quando Roland Emmerich decidiria produzir um filme mais próximo do original.

Diga-se de passagem, a Toho também teve sua parcela de culpa. Afinal, foi ela quem inventou Minilla, quem criou um menino que sonha com Godzilla, e quem achou que era uma boa ideia transformar um dos monstros mais ameaçadores do cinema japonês em parceiro de um Ultraman genérico.

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