segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Godzilla (V)

Hoje continuaremos com a série sobre a carreira de Godzilla nos cinemas. Ele já foi vilão. Ele já foi herói. Agora ele vai ser ridículo.

O Filho de Godzilla
Son of Godzilla
1967

Por alguma razão inexplicável, a cada filme Godzilla fazia mais e mais sucesso entre as crianças. Brinquedos e bonecos inspirados no que deveria ser a representação do horro atômico vendiam cada vez mais, e crianças japonesas de divertiam fingindo que eram Godzilla enquanto pisoteavam cidades de mentira. Nada mais natural, portanto, que a Toho também quisesse tornar seus filmes mais atraentes para o público infantil.

O primeiro passo para isso, como todos sabem, é incluir uma criança ou pré-adolescente na trama, para que o público jovem tenha com quem se identificar. Mas, no caso de Godzilla, não bastava ser uma criança humana. Como as crianças gostavam de Godzilla, teria de ser um mini-Godzilla. Um Minilla. O filho de Godzilla.

Se você está se perguntando como pode um monstro pré-histórico alterado pela radiação que estava em hibernação há milhares de anos ter um filho - fora a explicação meia-boca de que ele é hermafrodita e se reproduz sozinho, que, pensando bem, até foi bom não terem usado - a resposta é muito simples: desde Godzilla Contra-Ataca, já havia ficado estabelecido que existiam dois Godzillas, o que foi morto pelo Destruidor de Oxigênio no primeiro filme e o que enfrentou Anguirus no segundo, sendo congelado ao final e depois libertado em King Kong vs. Godzilla. Acontece que o primeiro Godzilla era fêmea, e, em algum momento em que não vimos, cruzou com o segundo Godzilla, que é macho, e colocou um ovo numa ilha isolada do Oceano Pacífico chamada Ilha Sogell.

No início de O Filho de Godzilla, uma equipe de cientistas que inclui o Dr. Tsunezo Kusumi (Tadao Takashima) e o Dr. Hujisaki (Akihiko Hiraki) está justamente na Ilha Sogell, tentando aperfeiçoar um equipamento capaz de controlar o clima da Terra. A experiência deveria ser secreta, mas o irritante repórter Goro Maki (Akira Kubo) descobre que ela está ocorrendo, e vai até a ilha tentar entrevistar os cientistas. Logo depois da chegada de Goro, o equipamento começa a apresentar um defeito estranho, e a equipe é atacada por um enxame de louva-deus gigantes, os quais uma moça nativa da ilha, chamada Saeko (Beverly Maeda), chama de Kamakuras. Ao investigar de onde vêm os Kamakuras, os cientistas, o repórter e a jovem encontram um estranho ovo.

Examinando o ovo, os cientistas descobrem que o ser chocando lá dentro está emitindo ondas psíquicas, que estão interferindo com o funcionamento do equipamento e irritando os Kamakuras. Em meio aos exames, o ovo choca, e lá de dentro sai um Godzilla em miniatura, ao qual os cientistas decidem chamar Minilla. Logo, a razão das ondas psíquicas fica clara: elas atuam como um localizador, para que papai Godzilla encontre seu filho quando o ovo choque. Em instantes, portanto, Godzilla chega à ilha, e se põe a destruir tudo que encontra pela frente, incluindo a base onde os cientistas testavam o equipamento.

Godzilla enxota os Kamakuras e se põe a treinar seu filho, que cresce rapidamente, ficando da metade do tamanho do pai em questão de horas. Como ainda é um bebê, Minilla tem dificuldades para proferir seu rosnado e para usar o sopro atômico, conseguindo apenas alguns anéis de fumaça na maioria das vezes. Enquanto Minilla está sendo treinado, os Kamakuras atacam novamente, e ameaçam a vida de Saeko. Talvez achando que ela é sua mãe, Minilla parte para salvá-la, mas acaba acidentalmente despertando uma ameaça ainda maior, a aranha gigante Kumonga, que aprisiona Minilla, Reiko, Goro, os cientistas e alguns Kamakuras em sua teia. Cabe a Godzilla, portanto, enfrentar essa nova monstruosidade para salvar seu herdeiro.

O Filho de Godzilla teve roteiro de Shinichi Sekizawa e Kazue Chiba, foi dirigido por Jun Fukuda e teve efeitos especiais de Sadamasa Arikawa (mesma dupla de Godzilla contra o Monstro do Mar). Esse seria o primeiro filme da série no qual Haruo Nakajima não seria o único a vestir a roupa de Godzilla; como ele já estava envolvido com as filmagens de King Kong 2, só pôde gravar algumas cenas, sendo o monstro interpretado em algumas outras por Yu Sekida e nas demais por Seiji Onaka. Minilla, que era uma versão menor e mais fofinha de Godzilla, teria sua roupa vestida por um anão, cujo nome artístico era apenas Machan. Uma curiosidade em relação à roupa de Godzilla é que, como no filme anterior Nakajima teve muitas dificuldades para gravar as cenas nas quais Godzilla aparecia dentro d'água, para esse a equipe criaria uma nova roupa com isolamento térmico e impermeável, especialmente para esse tipo de cena.

Com o título original de Kaiju-to no Kessen: Gojira no Musuko ("A Batalha Decisiva da Ilha dos Monstros: O Filho de Godzilla"), o filme teria orçamento bem mais baixo que os anteriores, mas, mesmo assim, conseguiria manter o mesmo padrão nos efeitos especiais. Estreando em 16 de dezembro de 1967, foi um grande sucesso de público - especialmente entre as crianças - mas dividiu a crítica, que elogiou as lutas entre Godzilla, os Kamakuras e Kumonga, mas achou o roteiro fraco, o clima muito infantil, e as cenas do treinamento de Minilla incoerentes com o que tínhamos visto da personalidade de Godzilla até então - no final do filme, aliás, Godzilla dá um abraço carinhoso em seu filho, cena que foi alvo de muitas reclamações dos fãs.

Assim como seus antecessores, O Filho de Godzilla teve uma versão norte-americana, mas dessa vez ela é fiel ao original, tendo sido apenas dublada e tido os créditos iniciais, em japonês, removidos. Curiosamente, na dublagem, Saeko se chama Reiko, os Kamakuras são Gimantis, e Kumonga se chama Spiega. A versão norte-americana de O Filho de Godzilla, produzida pela Walter Reade Organization, nunca seria exibida nos cinemas, tendo sido lançada diretamente na televisão em 1969. O filme também teria uma versão internacional da Toho, hoje mais fácil de ser encontrada que a da Walter Reade.

O Despertar dos Monstros
Destroy All Monsters
1968


Godzilla era o mais famoso, mas não o único monstro gigante protagonista dos filmes da Toho. Já citei aqui filmes como Mothra, Rodan e War of the Gargantuas, mas o estúdio também produziu outros menos famosos, como Atragon e Varan. Em 1968, ao todo, a Toho já tinha produzido 19 filmes de kaiju. Para o vigésimo, portanto, ela queria algo especial.

Assim, O Despertar dos Monstros não é somente o nono filme de Godzilla, ele é um gigantesco crossover, um tributo e homenagem a todos os filmes de monstro da Toho. Nele estão presentes nada menos que onze monstros: Godzilla, Mothra, Rodan, King Ghidorah, Anguirus, Minilla, Kumonga, Baragon (vilão do filme Frankenstein vs. Baragon, de 1965), Manda (do filme Atragon, de 1963), Varan (do filme de mesmo nome, de 1957) e Gorossauro (de King Kong 2, de 1967). Ebirah e um monstro chamado Maguma (do filme Gorath, de 1962) também estavam na versão original do roteiro, mas foram retirados após uma revisão.

O roteiro, aliás, ficou a cargo de Takeshi Kimura e Ishiro Honda, que voltaria a dirigir um filme de Godzilla - além de um tributo a seus filmes de monstros, a Toho planejava fazer desse o último filme de Godzilla, e, com esse argumento, conseguiu convencer Honda a voltar à direção e Eiji Tusburaya a voltar a chefiar os efeitos especiais. Também como seria um filme especial, o último de Godzilla, e contaria com uma dezena de monstros, a Toho concordou em custear um orçamento bem maior que o de costume - quase o dobro do gasto para fazer o primeiro Godzilla.

Ambientado em 1999, o filme é o primeiro a não ser ambientado no mesmo ano de seu lançamento. Nessa época, todos os monstros gigantes da Terra já foram derrotados, recolhidos e aprisionados pelo Comitê Científico das Nações Unidas na Ilha dos Monstros, uma ilha ao sul do Japão onde foi construído uma espécie de zoológico, com um sistema de segurança especial que impede que eles escapem ou briguem entre si.

Mas, quando o filme começa, as comunicações com a Ilha dos Monstros são misteriosamente interrompidas, e os monstros começam a aparecer ao redor do mundo, atacando importantes cidades - Godzilla ataca Nova Iorque, Rodan ataca Moscou, Mothra ataca Pequim, Manda ataca Londres e Gorossauro ataca Paris. O Dr. Yoshida (Jun Tazaki), do Comitê Científico, pede que o Capitão Katsuo Yamabe (Akira Kubo) vá até a Ilha dos Monstros para ver o que está acontecendo. Lá chegando, ele encontra a equipe responsável pelos monstros, liderada pelo Dr. Otani (Yoshio Tsuchiya), dominada mentalmente por uma raça de alienígenas, todas do sexo feminino, chamada Kilaaks. A líder das Kilaaks (Kyoko Ai) revela que, assim como os membros da equipe, os monstros também estão sob controle mental, e que a humanidade deve se render a elas, ou será destruída pelas criaturas.

Se recusando a se render, os humanos lutam bravamente contra os monstros, mas tudo não passa de uma distração para que as Kilaaks consigam seu verdadeiro objetivo: montar uma base permanente no Monte Fuji, protegida por King Ghidorah, da qual lançarão seu ataque final. A única forma de derrotar Ghidorah é virando os próprios monstros contra ele - mas, para isso, será preciso interromper o controle mental.

Dos onze monstros do filme, Godzilla, Rodan, Mothra, Manda, Gorossauro e King Ghidorah são os que mais aparecem - sendo Godzilla, mais uma vez, o protagonista. Anguirus, Minilla e Kumonga aparecem na batalha final e em algumas cenas no início. Já Baragon e Varan só aparecem na batalha final, e em cenas curtíssimas. Isso ocorreu porque as roupas de Baragon e Varan estavam em estado lastimável - a de Varan ficou dez anos em um depósito, sofrendo as ações do tempo, enquanto a de Baragon foi reciclada para a série Ultraman, onde foi bastante alterada, tornando-a quase irreconhecível. Várias cenas de Baragon e Varan foram filmadas, com a equipe de efeitos especiais fazendo os reparos necessários durante as filmagens, mas, na hora da edição, Honda e Tsuburaya não gostaram do resultado e decidiram descartá-las, e Baragon e Varan só não foram limados do filme porque acabaram aparecendo durante a batalha final. Curiosamente, originalmente era Baragon quem atacava Paris, mas, após Honda descartar as cenas filmadas, regravaram novas com Gorossauro, a curiosidade ficando por conta do fato de que as cenas envolvendo os humanos não foram refilmadas - ou seja, é Gorossauro quem aparece na tela, mas todos se referem a ele como Baragon. Além disso, por um descuido técnico, é o rugido de Baragon que é ouvido durante o ataque, e não o de Gorossauro.

Lançado em 1 de agosto de 1968 com o nome original de Kaiju Shoshingeki ("o ataque dos monstros"), o filme foi um gigantesco (mais uma vez, sem trocadilho) sucesso de público, e criou um fenômeno curioso na crítica: ao mesmo tempo que todos concordavam que o enredo era um fiapo e o roteiro era praticamente inexistente, todos também glorificavam os efeitos especiais e elogiavam a batalha final - para muitos, até hoje a mais épica de todos os filmes de kaiju. O Despertar dos Monstros se tornaria rapidamente um grande clássico, um favorito dos fãs, e faria com que a Toho desistisse de encerrar a série de Godzilla.

Assim como todos os demais, o filme ganharia uma versão norte-americana, lançada em 1969 e produzida pela Titan Productions, que, além da dublagem, só fez três alterações: remover os créditos em japonês do início, adicionar créditos em inglês no final, e cortar uma cena na qual Minilla fecha os olhos quando King Ghidorah ataca Anguirus. Essa versão é hoje muito difícil de ser encontrada, praticamente só existindo a versão internacional da Toho.

A Vingança de Godzilla
All Monsters Attack
1969

Acreditem ou não, quando eu disse que Godzilla ia ficar ridículo, não estava me referindo a O Filho de Godzilla. Tudo bem que aquele foi um filme feito pensando nas crianças, e tinha cenas constrangedoras do treinamento de Minilla, mas ainda era um filme de Godzilla em sua essência, com estrutura até bastante parecida com Godzilla contra o Monstro do Mar, seu antecessor direto. O pior ainda estava por vir.

Com o sucesso de O Despertar dos Monstros, a Toho decidiu voltar atrás em sua decisão de cancelar a série de Godzilla e fazer um décimo filme. Além disso, ela seguiu em seu planejamento de que Godzilla deveria ter filmes que tivessem apelo junto ao público infantil. Apesar de satisfeita com o desempenho de O Filho de Godzilla, a Toho considerava que seu enredo não era propriamente voltado às crianças, e pediu especificamente que Sekizawa escrevesse um filme de Godzilla no estilo de um filme infantil - com direito a protagonistas infantis, lição de moral e os monstros falando japonês. O resultado foi A Vingança de Godzilla.

Nesse filme, o solitário menino Ichiro Miki (Tomonori Yazaki), que passa as tardes sozinho em seu apartamento de um bairro violento e poluído de Tóquio porque ambos seus pais estão trabalhando, tem com únicos amigos o fabricante de brinquedos Shinpei Yanami (Eisei Amamoto) e a menina Sachiko (Hidemi Ito), e é atormentado por uma gangue de valentões liderados por Sancho (Junichi Ito). Em seus sonhos, porém, ele visita a Ilha dos Monstros, assiste a batalhas de Godzilla contra Ebirah e contra os Kamakuras, e é amigo de Minilla, que o confidencia também sofrer bullying nas mãos de um monstro chamado Gabara. Nesses mesmos sonhos, porém, Ichiro vê Godzilla ensinar Minilla a enfrentar Gabara, e aprende que é necessário ter coragem e se impor na vida, encontrando dentro de si o que precisa para finalmente derrotar os valentões.

A Vingança de Godzilla foi dirigido mais uma vez por Honda - que sabe-se lá como foi convencido a participar desse pastiche - e teve efeitos especiais de Teruyoshi Nakano - embora Tsuburaya, que não se envolveu no filme por motivos de saúde, seja creditado como chefe da equipe "por respeito". Lançado em 20 de dezembro de 1969, com o título original de Gojira Minira Gabara Oru Kaiju Daishingeki ("Godzilla, Minilla, Gabara: O Grande Ataque de Todos os Monstros"), o filme foi massacrado pela crítica e não fez muito sucesso dentre o público, sendo até hoje o menos rentável filme de Godzilla e considerado pelos fãs como o pior de todos.

Além de ter um enredo demasiadamente infantil e efeitos especiais pobres, um dos motivos que levaram ao insucesso foi o grande número de cenas reaproveitadas - durante seus sonhos, Ichiro vê Godzilla enfrentando Ebirah, os Kamakuras, Kumonga e alguns jatos militares, e treinando Minilla para que ele enfrente Gabara; nenhuma dessas cenas, porém, era nova, tendo sido todas reutilizadas de Godzilla contra o Monstro do Mar, O Filho de Godzilla e O Despertar dos Monstros. Nessas cenas, aliás, outros monstros, como Gorossauro, Manda, Anguirus e um condor gigante também aparecem - e Rodan é citado, mas não chega a aparecer - daí o nome original envolver um ataque de "todos os monstros".

O filme também chegou a ser dublado e lançado nos Estados Unidos em 1971 pela Maron Films, com o nome de Godzilla's Revenge - que acabou traduzido para o português ao invés do original. A versão norte-americana não possui qualquer edição, apenas a dublagem e a substituição de algumas canções, que no original eram cantadas por um coral de crianças japonesas, por outras instrumentais. Uma das características mais curiosas da versão norte-americana é que, enquanto Minilla, na versão japonesa, quando fala com Ichiro, tem uma voz "normal", na versão norte-americana ele tem uma voz caricata, característica de desenhos animados, o que não contribuiu em nada para a popularidade do filme. É interessante também notar que A Vingança de Godzilla é o primeiro filme desde Godzilla contra o Monstro Zero a não ter uma versão internacional produzida pela Toho.

Além disso, A Vingança de Godzilla é o primeiro filme da série a quebrar a cronologia contínua: desde o primeiro filme, cada filme seguinte é uma continuação do anterior, ambientado alguns meses ou anos após seu antecessor imediato. Esse, porém, não pode ser ambientado após O Despertar dos Monstros, já que aquele era ambientado em 1999 e esse é claramente ambientado no final dos anos 1960, sendo mais provável que ele seja ambientado após O Filho de Godzilla, mas sem jamais deixar isso claro. Essa "continuidade misteriosa" seria usada durante os próximos cinco filmes da série, com nenhum deles explicitando quando seria ambientado em relação aos demais, deixando a cargo dos fãs estabelecer a ordem que achassem mais lógica.

Finalmente, vale citar que esse é o primeiro filme de Godzilla no qual ele não existe no mundo real - todas as ocasiões em que ele aparece são sonhos de Ichiro. Talvez propositalmente, o filme não deixa claro se Godzilla, em sua ambientação, é um personagem real ou fictício - ou seja, nunca ficamos realmente sabendo se Ichiro vive no mundo da continuidade dos filmes, nos quais Godzilla existe e é uma ameaça real, ou em um mundo semelhante o nosso, onde Godzilla é um personagem de ficção.

1 enfiaram o nariz:

Cristina disse...

Achei seu blog pelo Google Alerts. Muito bons seus textos sobre a franquia Godzilla. Pena que o lagartão tem tão poucos fãs no Brasil.

11:44 AM

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