sábado, 26 de janeiro de 2008

Escrito por em 26.1.08 com 0 comentários

Hóquei

É raro, mas de vez em quando eu fico sem assunto para escrever aqui no átomo. No início isto era mais freqüente, e eu costumava preencher o espaço com letras de música. Depois do advento dos posts em várias partes, passei a me programar, escolhendo o tema de cada semana com várias de antecedência, e o problema foi minimizado. Ainda assim, às vezes o "prazo fatal" vai se aproximando, e eu não faço a menor idéia do que escrever. Nestas ocasiões, costumo ler o meu Perfil, para ver o que está escrito nele que ainda não foi abordado em posts, mas algumas vezes não me dá vontade de escrever sobre nenhum destes temas. Como hoje, por exemplo.

Hoje, porém, acabei encontrando um tema meio que sem querer. Quando vi que não tinha vontade de escrever sobre nada do meu Perfil, decidi que iria escrever sobre algum esporte. Afinal de contas, eu adoro esportes, e, tirando os posts das Olimpíadas, este é um assunto que não dá as caras por aqui com muita freqüência. A princípio pensei em escrever sobre punhobol - idéia que ainda não foi totalmente descartada - mas depois, em um lampejo, decidi escrever sobre hóquei.

Hóquei na GramaNão que eu seja especialmente fã de hóquei, até porque este esporte não costuma ser transmitido por aqui. O motivo que me levou a escolhê-lo como tema foi um comentário de um amigo: "toda vez que se fala em hóquei, em penso em hóquei no gelo". De fato, aposto que muitos de vocês também fazem esta associação, já que, em parte por causa da NHL, o hóquei no gelo realmente é mais famoso por aqui. Ele não é, porém, o hóquei original: este é jogado em um campo gramado, parecido com o de futebol, evidentemente sem patins, e com uma bolinha ao invés de um disco. Em países onde é necessário diferenciar o hóquei original de alguma variação, como o do gelo, ele costuma ser chamado de hóquei na grama - ou, em países de língua inglesa, field hockey, ou "hóquei de campo".

O hóquei é considerado o esporte coletivo mais antigo da história: embora não se possa precisar quando o ser humano começou a tentar acertar uma bolinha dentro de um gol usando um taco, existem registros de que esportes semelhantes eram praticados no Antigo Egito há mais de 4.000 anos. Ao longo dos séculos, esportes deste tipo foram praticados na Arábia, Pérsia, Etiópia e nos Impérios Azteca e Romano, até que, na Idade Média, um verdadeiro batalhão deles se espalhou por toda a Europa, cada um com um nome diferente. A primeira menção ao nome hockey data de 1527, uma referência nos estatutos de Galway, uma cidade da Irlanda, à época parte da Grã-Bretanha, onde o jogo era proibido por atrapalhar o trabalho alheio e treinos de arqueiria (pois é). Ninguém sabe de onde veio o nome hóquei, mas especula-se que pode ter sido uma corruptela de comocke, o nome de um dos jogos aparentados com ele que era muito popular na Irlanda na época. Outra teoria diz que hóquei deriva de hook, palavra inglesa para "gancho", talvez pelo formato curvo do taco.

Seja lá de onde veio o nome, o fato é que a imensa popularidade do hóquei na Europa começou a decair com o passar dos anos, até que, no século XIX, torneios intercolegiais disputados na Inglaterra acabaram reacendendo o interesse da população, e os primeiros clubes de hóquei começaram a surgir, começando pelo Blackheath, fundado em 1849. Mas o esporte era bem diferente do que conhecemos hoje, com mais contato físico, e usando um campo bem maior e um cubo de borracha ao invés de uma bola. A versão moderna do jogo só surgiria em 1871, quando os sócios do Clube de Críquete de Teddington procuravam uma atividade esportiva para o inverno, quando o críquete não era praticado. Tentando criar um novo esporte, eles misturaram as regras do hóquei com as do futebol, e usaram uma bola e um campo de críquete, que era o que tinham à mão. A primeira codificação das regras do hóquei foi feita em 1874, e em 1886 surgiu a Hockey Association, que congregava sete clubes de Londres e um de Cambridge.

Assim como ocorria com outros esportes, especialmente o futebol, nem todos os clubes concordaram em adotar as mesmas regras, principalmente o Blackheath, que insistia em jogar pelas regras antigas. Isto foi um obstáculo à popularização do jogo, já que torneios eram relativamente raros, e a Hockey Association não conseguia mais membros. A colonização, porém, daria uma mãozinha ao esporte: no final do século XIX, levado pelo exército, o hóquei alcançou grande popularidade em todo o Império Britânico, e jogos internacionais começaram a ser disputados em 1895. Em 1908, os organizadores das Olimpíadas de Londres conseguiram incluir o hóquei no programa, o que contribuiu para que o esporte pouco a pouco se espalhasse por toda a Europa. No ano seguinte, as associações de hóquei da Inglaterra, Bélgica e França decidiram se unir e criar uma associação internacional, mas a Federação Internacional de Hóquei (FIH) só surgiria em 1924, por iniciativa de Paul Léautey, presidente da associação francesa, que se chateou pelo esporte não ter sido incluído no programa dos Jogos de 1924, em Paris. No início, a FIH contava com apenas 7 membros, mas este número foi crescendo ao longo dos anos, e hoje já são 112, incluindo o Brasil.

No início, o hóquei masculino era dominado pela Índia e pelo Paquistão, ambos ex-colônias britânicas, com a Índia ganhando seis medalhas de ouro olímpicas consecutivas entre 1928 e 1956, até ter sua seqüência interrompida pelo Paquistão em 1960. A partir de 1976, o domínio destes países foi caindo devido a uma questão técnica: os campos de grama natural foram gradativamente substituídos por grama sintética, que deixa o jogo mais veloz. Como a maioria dos campos na Índia e no Paquistão é de grama natural, mais barata, eles acabaram ficando com uma certa desvantagem, e as potências do esporte passaram a ser a Alemanha, Holanda e Austrália, tanto no masculino como no feminino. O segundo torneio mais importante do hóquei após as Olimpíadas é a Copa do Mundo de Hóquei, disputada pela primeira vez em 1971 no masculino e 1974 no feminino. No início, o torneio ocorria em intervalos irregulares, mas atualmente é disputado a cada quatro anos. No masculino o maior vencedor é o Paquistão, com quatro títulos, e no feminino é a Holanda, com seis. No Brasil o esporte ainda está em desenvolvimento, de forma que todos os atletas são amadores, e o país não consegue resultados expressivos - no último Pan-Americano, por exemplo, terminou em último perdendo todos os jogos, tanto no masculino quanto no feminino.

o campoO hóquei pode parecer exótico, mas é um esporte fácil de ser compreendido, e até bastante parecido com o futebol. É disputado em um campo de 91,4 por 55 metros, dividido no meio por uma linha. Centralizado nos cantos menores fica um gol, de 2,14 metros de altura por 3,66 de largura; a 14,63 metros do gol há um semicírculo que o circunda, conhecido como linha de tiro ou arco; e a 22,9 metros do gol fica uma linha conhecida como "linha de 23 metros". Se você achou as medidas meio quebradas, não se assuste: como o hóquei foi criado na Inglaterra, as medidas eram em Unidades Imperiais, como pés e jardas; em 2000 a FIH as converteu para metros, mas manteve as mesmas distâncias. Nos principais torneios, como as Olimpíadas e a Copa do Mundo, o campo é forrado com grama sintética, mas em algumas competições ainda são utilizados gramados naturais. Uma partida de hóquei dura dois tempos de 35 minutos cada, sendo que, assim como no futebol, o relógio não pára.

Um time de hóquei é composto de 11 jogadores em campo e 5 reservas. Por incrível que pareça, não há nas regras exigência de posição para nenhum deles - um time pode até atuar sem goleiro, se quiser - mas os times costumam atribuir aos jogadores posições de defesa, meio-de-campo e ataque, e de vez em quando líbero. A quantidade de jogadores em cada posição depende do esquema defensivo/ofensivo do time, mas os jogadores de hóquei costumam ser bem menos especializados que os de futebol ou rugby, de forma que mudar a formação no decorrer de uma partida é relativamente simples. As substituições são ilimitadas e podem ser feitas a qualquer momento, exceto durante um pênalti.

Cada jogador - inclusive o goleiro - atua munido de um taco, que pode ser feito de madeira, fibra de vidro, fibra de carbono ou até mesmo kevlar, mas nunca metal ou plástico. O taco tem 90 cm de comprimento e uma curvatura na ponta, que o deixa parecido com um J. Os jogadores usam este taco para conduzir uma bola de 75 mm de diâmetro, feita de cortiça envolvida em plástico duro, até o gol, que em todos os aspectos exceto o tamanho é igual ao do futebol. Graças a rígidas regras visando a segurança dos jogadores, nenhuma proteção extra além do uniforme é requerida, embora alguns jogadores usem protetores bucais semelhantes aos do boxe para evitar qualquer eventualidade. Os goleiros, por outro lado, devem usar capacete com grade e protetores para as pernas e pés, além de protetores para os seios no caso das mulheres; opcionalmente, os goleiros podem vestir luvas e protetores peitorais, de pescoço, para os braços e para as genitais. Esta proteção extra é requerida porque o goleiro pode defender a bola com qualquer parte de seu corpo, e normalmente os jogadores não economizam força na hora de mandar a bola para o gol.

À exceção do goleiro, os jogadores só podem tocar a bola com o taco, mas se esta bater acidentalmente em alguma parte de seu corpo que não resulte em vantagem para o jogador, o jogo segue normalmente; por outro lado, interromper a trajetória da bola sem ser com o taco - com os pés, por exemplo - é considerado falta. Os jogadores que não têm a bola também devem usar o taco apenas para roubar a bola do adversário, não podendo bater com um taco no outro nem no corpo dos jogadores. A bola também deve sempre correr rente ao chão, exceto se um jogador a lançou em direção ao gol; erguer a bola é absolutamente proibido. Finalmente, um jogador só pode atirar a bola em direção ao gol de dentro do arco, e os goleiros podem sair do gol jogando, desde que usem somente o taco e não passem da linha de 23 metros. As regras possuem mais algumas sutilezas, mas o básico é isso: conduza a bola usando o taco e passando-a para seus companheiros até que um dos jogadores bata nela em direção ao gol. Para assegurar que as regras serão cumpridas, o jogo de hóquei conta com dois árbitros, ambos com a mesma autoridade, e com uma mesa, que cuida da cronometragem, placar e substituições.

Hóquei no GeloE como o hóquei foi parar no gelo? Bem, antes de falarmos do famoso hóquei no gelo, temos que fazer um pequeno desvio e falar de outro esporte aparentado com o hóquei, o bandy. Lá naquela época em que um monte de esportes com tacos se popularizou na Europa, alguns deles se chamavam bandy, palavra que significava "jogar as coisas para frente e para trás". Uma das versões do bandy era jogada não somente em gramados no verão, mas em lagos congelados no inverno. Com a codificação das regras do hóquei, o bandy passou a ser jogado apenas no inverno, e suas regras foram modificadas para fazer melhor uso do gelo. A primeira codificação das regras do bandy foi feita em 1891 pela National Bandy Association da Inglaterra, mas apenas em 1955 foi fundada a Federação Internacional de Bandy (FIB), que hoje conta com 21 membros, todos do hemisfério norte exceto a Austrália. A mais importante competição do bandy é o Campeonato Mundial, cuja versão masculina é disputada a cada dois anos desde 1957, com a União Soviética, 14 títulos, como a maior vencedora, seguida da Suécia com 8; e a feminina desde 2004, com a Suécia vencendo ambas as edições já disputadas. O bandy masculino foi esporte de demonstração na Olimpíada de Inverno de Oslo, em 1952, mas apenas três nações participaram, com a Suécia ganhando o ouro, a Noruega a prata e a Finlândia o bronze. Desde então a FIB luta para que o esporte seja integrado ao programa olímpico, mas ainda sem sucesso.

O bandy é jogado em um campo de gelo ao ar livre, de 90 a 110 por 45 a 65 metros; centralizado nos lados menores fica um gol de 2,1 metros de altura por 3,5 de largura, envolto em um semicírculo de 17 metros de raio a partir do centro do gol, que constitui a área. Todo o campo é cercado por uma parede de 15 cm de altura, que impede que a bola saia. Cada time de bandy tem 11 jogadores - sendo que um obrigatoriamente é o goleiro - e 4 reservas. Os jogadores vestem capacetes, protetores bucais e usam patins de gelo, e carregam um taco idêntico ao do hóquei, com o qual conduzirão a bola - também idêntica à do hóquei - em direção ao gol. Diferentemente do que ocorre com o hóquei, as regras do bandy permitem que os jogadores usem os patins para interromper a trajetória da bola, mas não para conduzi-la. Os goleiros podem defender a bola com qualquer parte do corpo, e dentro da área podem manipular a bola com as mãos - no bandy, aliás, os goleiros podem sair jogando normalmente, desde que usem apenas o taco. A única proteção obrigatória para os goleiros é uma grade no capacete, mas eles costumam usar várias outras proteções opcionais. Uma partida de bandy tem dois tempos de 45 minutos cada, sendo que o relógio não pára, e é oficiada por um único árbitro, auxiliado por dois assistentes que correm às laterais do campo.

Quando os imigrantes ingleses chegaram à América, trouxeram vários jogos semelhantes ao hóquei com eles. Assim como o bandy, um destes jogos era jogado no gelo ao invés de em um gramado. Esta variação do jogo se tornou especialmente popular no Canadá, onde o registro do primeiro jogo oficial data de 1875 em Montreal, embora registros não-oficiais relatem jogos que teriam ocorrido desde 1825. A primeira codificação das regras aconteceu em 1877 por estudantes da Universidade McGill, que batizaram o jogo de hóquei no gelo. Rapidamente o esporte se espalhou para os Estados Unidos, e voltou à Europa, onde se tornou um excelente passatempo para os meses de inverno. Em 1908 foi fundada a Federação Internacional de Hóquei no Gelo (IIHF, da sigla em inglês), que hoje conta com 65 membros.

acima: hóquei no gelo; abaixo: bandyComo o hóquei no gelo se desenvolveu totalmente separado de seu primo na grama, as regras ficaram bastante diferentes, de forma que a única semelhança entre ambos é o uso de um taco. O hóquei no gelo não é disputado ao ar livre, mas em um rinque, semelhante ao de patinação, de 60 por 30 metros, com os cantos arredondados, cuja marcação mais relevante são duas linhas azuis, cada uma a 9 metros da linha vermelha que divide o rinque em dois, e servem para delimitar a área de ataque de cada time. Todo o rinque é cercado por um muro de 1 metro de altura, que evita que o puck, um pequeno disco de borracha vulcanizada de 76 mm de diâmetro e 25,4 mm de altura que faz o papel da bola, saia do rinque. O mais curioso do rinque é que o gol - pequenininho, com 1,22 metro de altura por 1,83 de largura - não fica em seu final, mas a 4 metros do fim do rinque, ou seja, é possível passar por trás do gol jogando normalmente. Um jogo de hóquei no gelo tem três tempos de 20 minutos cada, com o relógio só andando quando o puck está em jogo.

Um time de hóquei no gelo é composto de seis jogadores: um goleiro, três atacantes (central, direito e esquerdo) e dois defensores. Cada time pode ter 12 reservas, mas apenas um destes pode ser um goleiro reserva. Cada jogador usa patins de gelo e carrega um taco de 1,63 metro de comprimento, com um final inclinado, semelhante a um L, de 32 cm, com o qual conduzirá o puck na direção do gol - um jogador pode usar os patins para aparar o puck, mas não para conduzi-lo. O hóquei no gelo é um esporte de bastante contato físico, portanto os jogadores devem usar capacetes, joelheiras, cotoveleiras, luvas e protetores bucais, de ombro, peito, pescoço, queixo e genitais. O goleiro usa a mesma proteção, mas reforçada, incluindo uma grade no capacete e um taco mais largo, o que faz com que ele seja talvez o atleta mais bem protegido de todos os esportes. O contato físico inerente ao esporte acabou deixando o hóquei no gelo com fama de esporte onde a porrada rola solta; realmente, na liga profissional norte-americana, a NHL, brigas entre os jogadores em pleno jogo são freqüentes, mas a IIHF condena veementemente esta postura, e jogadores que brigam durante torneios internacionais oficiais costumam ser punidos com firmeza.

Um jogo de hóquei no gelo é oficiado por quatro árbitros, sendo que dois têm a função de validar gols e marcar faltas, enquanto outros dois prestam atenção nas regras de impedimento e icing: segundo o impedimento, um jogador do time que tem a posse do puck não pode passar da linha azul que delimita sua área de ataque antes do puck passar por ela, e a regra do icing diz que um jogador não pode jogar o puck de trás da linha que divide o campo para trás da linha do gol. Ambas as situações são consideradas falta. Fora isso, as regras são as mesmas de sempre: use o taco para conduzir o puck até o gol.

O hóquei no gelo é esporte olímpico desde 1920, quando foi disputado na versão masculina nas Olimpíadas de Verão de Antuérpia; em 1924 passou a ser disputado nas Olimpíadas de Inverno, e nos Jogos de 1998 finalmente estreou a versão feminina. No início o esporte era dominado pelo Canadá, que ganhou os quatro primeiros ouros, mas depois a União Soviética repetiu a façanha, ganhando entre 1964 e 1976 - hoje, cada um tem sete títulos; no feminino, os Estados Unidos ganharam a primeira edição, e o Canadá as duas seguintes. O Campeonato Mundial de Hóquei no Gelo é organizado pela IIHF desde 1920, e tem como maior campeão o Canadá, com 24 títulos, seguido da União Soviética com 22. No feminino, disputado a cada dois anos desde 1990, o Canadá ganhou 9 dos 10 títulos disputados, e os Estados Unidos ganharam o outro.

Hóquei sobre PatinsAlém destas versões no gelo, o hóquei também ganhou variações jogadas em quadras, começando pelo hóquei sobre patins. Que, curiosamente, quando foi inventado em 1878 na Inglaterra, não tinha as regras do hóquei, mas do pólo, e se chamava "roller polo". Apesar de contar com alguns entusiastas na Inglaterra e nos Estados Unidos, onde chegou em 1882, o hóquei sobre patins só começou a se popularizar após a Primeira Guerra Mundial, e suas regras, já mais parecidas com as do hóquei que com as do pólo, só foram codificadas em 1924. Desde 1930 o hóquei sobre patins é regulado pela Federação Internacional de Esportes sobre Rodas (FIRS, da sigla em francês), a mesma que regula a patinação artística e em velocidade. Ao todo, 60 países, incluindo o Brasil, praticam o esporte, sendo que os mais fortes no masculino são Portugal, que tem 15 títulos no mundial disputado a cada dois anos desde 1936, e a Espanha, que tem 13 - o melhor resultado do Brasil foi o 4o lugar, conseguido em 1991 e 1995. O mundial feminino é disputado desde 1992, e Espanha e Argentina têm três títulos cada; o Brasil tem dois quarto lugares, em 1996 e 1998, e dois vice-campeonatos, em 2002 e 2004. O hóquei sobre patins masculino foi esporte de demonstração nas Olimpíadas de Barcelona, em 1992 - a Argentina foi ouro, o Brasil terminou em 5o - e fez parte do programa dos World Games de 1981, 85, 89, 93 e 2001, com o Brasil ganhando a prata em 2001.

O hóquei sobre patins tem bem mais a ver com o hóquei na grama que com o no gelo: é um esporte de habilidade, onde qualquer contato físico mais forte é punido com faltas; por conta disso, os jogadores não usam qualquer equipamento de proteção além de joelheiras e luvas, apenas o goleiro usa um protetor peitoral e um capacete com grade ou tela de plástico. Os patins devem ser daquele modelo com quatro rodinhas, sendo duas de cada lado, e não podem ser usados para parar a bola. O taco tem entre 90 e 115 cm de comprimento, e o mesmo formato do taco do hóquei na grama, sendo que o taco do goleiro é mais curto. A bolinha é feita de borracha vulcanizada, com 23 cm de circunferência, e normalmente em uma cor que contraste com a da quadra, pois o esporte é rapidíssimo, e os espectadores costumam ter dificuldades para ver a bola. Um time de hóquei sobre patins tem 5 jogadores - um goleiro, dois atacantes e dois defensores - e 5 reservas, sendo que um deve ser um goleiro.

A quadra do hóquei sobre patins tem entre 34 e 44 metros de comprimento por entre 17 a 22 de largura, e é dividida no meio por uma linha. A 3 metros do fim da quadra fica a área, um quadrado de 9 por 5,4 metros, na borda posterior do qual fica o gol, de 1,05 metro de altura por 1,7 metro de largura - assim como no hóquei no gelo, é possível passar por trás do gol. Também como no hóquei no gelo, em volta de toda a quadra há um muro de 1 metro de altura, para evitar que a bola saia. Uma partida de hóquei sobre patins tem dois tempos de 25 minutos cada, onde o relógio só anda se a bola estiver em jogo. O jogo é oficiado por um único árbitro, auxiliado por uma mesa.

O hóquei sobre patins é freqüentemente confundido com um primo distante, o hóquei inline. Este, porém, é bem mais recente, tendo surgido na década de 1990 nos Estados Unidos, usa patins inline, aqueles onde as quatro rodinhas são no meio, uma atrás da outra, e é muito mais parecido com o hóquei no gelo: seus tacos são idênticos aos do hóquei no gelo, sua quadra é praticamente idêntica a um rinque sem gelo, e é usado até mesmo um puck, mas feito de plástico e mais leve. As regras também são basicamente as mesmas, com as seguintes diferenças: contato físico só é permitido em um nível mínimo, e apenas em roubadas de puck; cada time tem 5 jogadores, sendo um goleiro, e 5 reservas; e não existem as regras do impedimento e do icing. Uma partida de hóquei inline tem quatro tempos de 10 minutos cada, sendo que o relógio não pára.

O hóquei inline ainda sofre de um estranho caso de dupla personalidade, sendo regulado tanto pela IIHF quanto pela FIRS, que organizam cada uma seus próprios torneios, incluindo seu próprio mundial. Ambos os mundiais masculinos são disputados anualmente, o da FIRS desde 1995 com 10 títulos dos Estados Unidos, e o da IIHF desde 1996, com os Estados Unidos também sendo os maiores campeões, mas com 4 títulos, à frente de Finlândia e Suécia com 3; o mundial feminino só existe na versão FIRS, é disputado desde 2002, e Estados Unidos e Canadá têm 3 títulos cada. O hóquei inline masculino fez parte do programa dos World Games de 2005, com os Estados Unidos ganhando o ouro, e já está confirmado para os de 2009. O Brasil é filiado à IIHF, e é o atual campeão mundial da Division I masculina, uma espécie de "segunda divisão" do esporte.

acima: hóquei sobre patins, hóquei inline; abaixo: hóquei indoor, floorbolAlém destas duas versões a patins, existe uma versão "a pé", o hóquei indoor, criado na Alemanha na década de 1950 para que os jogadores de hóquei tivessem um passatempo no inverno, quando os campos estavam congelados. O hóquei indoor passou a ser regulado pela FIH em 1968, e os primeiros jogos internacionais foram disputados em 1972; desde então o esporte vem crescendo na Europa e no mundo, com 84 países, inclusive o Brasil, dentre seus praticantes, sendo os mais fortes a Alemanha, Bélgica e Holanda. A primeira Copa do Mundo de Hóquei Indoor foi disputada por homens e mulheres pela primeira vez em 2003, e será realizada a cada quatro anos; no masculino ambas as edições já realizadas foram vencidas pela Alemanha, e no feminino a primeira foi vencida pela Alemanha e a segunda pela Espanha. O hóquei indoor foi esporte convidado nos World Games de 2005, com a Alemanha ganhando ambos os ouros, e já está confirmado nos de 2009.

As regras do hóquei indoor são praticamente as mesmas do hóquei na grama, com as adaptações necessárias ao campo menor: a quadra tem de 36 a 44 por de 18 a 22 metros, o gol tem 2 metros de altura por 3 de largura, o arco circunda o gol a uma distância de 9 metros, e ao redor da quadra uma placa de 15 cm de altura impede a saída da bola. A bola e os tacos são idênticos aos do hóquei na grama, mas os jogadores não podem bater na bola, apenas apará-la e conduzi-la, exceto de dentro do arco, quando tentam marcar um gol. Um time de hóquei indoor tem 6 jogadores, sendo um goleiro, e 6 reservas, e uma partida dura dois tempos de 20 minutos cada. As demais regras são as mesmas do hóquei na grama.

Mas existe ainda um outro esporte de quadra, que não deve ser confundido com o hóquei indoor, o floorbol. Criado na Suécia no início da década de 70 para ser um "esporte escolar" inspirado no bandy, o floorbol rapidamente se espalhou pela Europa, e logo os primeiros campeonatos para adultos também começaram a ser disputados, o que levou à formação, em 1986, da Federação Internacional de Floorbol (IFF, da sigla em inglês), que hoje conta com 40 membros, inclusive o Brasil. O campeonato mundial de floorbol é disputado a cada dois anos, desde 1996 no masculino, com a Suécia ganhando todos os seis títulos, e desde 1999 (com uma edição inaugural em 1991) no feminino, com a Suécia também sendo a maior campeã, com três títulos. Em 1997, o floorbol masculino foi esporte convidado nos World Games de Lahti, e a Suécia também ganhou a medalha de ouro por lá. Além da Suécia, os países mais fortes no floorbol são Finlândia, Suíça e República Tcheca.

O floorbol é disputado em uma quadra bastante parecida com a do hóquei sobre patins, de 40 por 20 metros, em torno do qual há uma placa de 50 cm de altura, para evitar que a bola saia. A 3 metros do final da quadra fica a área, um quadrado de 5 por 4 metros, onde fica um gol de 1,15 metro de altura por 1,6 de largura. O objetivo todos vocês já sabem, é conduzir a bola com o taco até o gol, mas embora a bola e o taco lembrem os do hóquei, são exclusivos para este esporte: o taco é feito de plástico ou fibra de carbono, tem 99 cm de comprimento, a parte curva feita de plástico duro, lembra um taco de golfe, e é oco. A bola, de 72 mm de diâmetro, também é feita de plástico duro e é oca, com 26 furos de 11 mm ao seu redor, para facilitar a mobilidade. Cada time é composto por seis jogadores, sendo um goleiro, e 14 reservas, incluindo um goleiro reserva. Os jogadores, que podem usar os pés para parar a bola, mas não para conduzi-la, não usam qualquer equipamento além do taco; o goleiro veste proteções para as pernas, uma camisa acolchoada, luvas e um capacete com grade, mas curiosamente não tem direito a um taco, devendo colocar a bola em jogo com as mãos. Uma partida de floorbol tem dois tempos de 20 minutos, sendo que o relógio não pára, a não ser nos três minutos finais de cada tempo, quando só anda quando a bola está em jogo. A partida é oficiada por dois árbitros, ambos com a mesma autoridade.

Hóquei SubaquáticoFinalmente, vamos encerrar este post falando do hóquei mais exótico de todos, o hóquei subaquático. Este curioso esporte é jogado no fundo de uma piscina com de 1,8 a 3 metros de profundidade, onde é pintado um campo de jogo de 25 por 15 metros. Centralizado nos lados mais curtos fica o gol, parecido com uma caixa, de 20 cm de largura, 10 de altura e 3 metros de comprimento. O objetivo é simples: os jogadores devem submergir e usar seus tacos para jogar um puck dentro deste gol. Uma partida de hóquei subaquático tem dois tempos de 15 minutos cada, durante os quais o relógio não pára.

Cada time é composto por seis jogadores, divididos entre atacantes e defensores, e quatro reservas. Como jogar o puck dentro do gol debaixo d'água já é complicado o suficiente, não existe goleiro. O equipamento é estritamente controlado para que os jogadores não aumentem seu peso, o que facilitaria permanecer submerso: toucas parecidas com as do pólo aquático, óculos de mergulho, pés-de-pato, snorkels e o taco; além destes itens, o "uniforme" de jogo não pode ser mais do que uma sunga para os homens ou um maiô para as mulheres, exceto pelo uso de luvas, que são opcionais. O taco é curto, com 25 cm de comprimento e a ponta curva, e feito de plástico; deve ser leve a ponto de flutuar, e cada time deve usar tacos de cor diferente, normalmente um branco e o outro preto. O puck tem 8 cm de diâmetro, 3 cm de altura, e pesa 1,5 Kg, pois é feito de chumbo envolvido em plástico rosa fluorescente, para facilitar a visualização.

O hóquei subaquático é um esporte de fôlego: os jogadores devem tomar ar, submergir, fazer as jogadas que conseguirem, e subir para respirar - os momentos mais curiosos são os inícios e reinícios, quando o puck é colocado no meio da área de jogo e os jogadores, cada um com a mão no canto onde fica seu gol, saem nadando para ver quem irá alcançá-lo primeiro. Qualquer contato físico intencional é expressamente proibido, assim como tocar no puck com a mão livre ou usá-la para atrapalhar os demais jogadores – mas bloquear um taco com outro é permitido. Curiosamente, mas também bastante óbvio, dois dos árbitros se revezam embaixo d'água para poder tomar conta do que está acontecendo, enquanto um outro fica andando pela borda da piscina, e serve como auxílio aos outros dois e como comunicação entre eles e a mesa. Para que o público possa acompanhar o jogo sem ter que entrar na água, várias câmeras são espalhadas pela piscina, e suas imagens são mostradas em telões ao redor desta.

O hóquei subaquático foi inventado em 1954 por um grupo de mergulhadores de um clube da Inglaterra, que no início o tratavam como um passatempo, mas naquele mesmo ano decidiram codificá-lo. Durante muito tempo a Marinha Britânica o utilizou como treinamento de fôlego, e assim, em 1962, ele acabou chegando ao Canadá e à Austrália. Embora nunca tenha se tornado um esporte muito popular, o hóquei subaquático é bastante praticado em clubes ao redor do mundo, e regulado desde 1975 pela Confederação Mundial de Atividades Subaquáticas (CMAS), uma espécie de federação internacional de todos os esportes disputados embaixo d'água. Atualmente, 44 países praticam profissionalmente este esporte, cuja competição mais importante é o campeonato mundial, disputado a cada dois anos desde 1980. As nações mais fortes são a Austrália - nove vezes campeã mundial no masculino e sete no feminino – o Canadá e a Nova Zelândia.

Bem, é isso. Ficou um pouco grande, mas são oito esportes pelo preço de um. É claro que estes não são os únicos esportes com hóquei no nome, nem os únicos que usam tacos para jogar uma bola ou disco dentro de um gol, mas com certeza são os mais famosos. E até que eu consegui bastante assunto para um post onde eu não tinha nenhum.
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sábado, 19 de janeiro de 2008

Escrito por em 19.1.08 com 1 comentário

Blade Runner

Eu nunca entendi muito bem o conceito de cult. Um filme cult não é necessariamente um filme que tenha feito sucesso, não é necessariamente um filme bom, nem é necessariamente um filme que tenha muitos fãs, mas por outro lado existem alguns filmes que são considerados cult e foram grandes sucessos, são ótimos, e têm milhares de fãs. Em outras palavras, os mecanismos que transformam um filme em cult são para mim totalmente incompreensíveis. Isso não quer dizer, que fique bem claro, que eu detesto filmes cult, ou algo do tipo; na verdade eu gosto de muitos deles, só gostaria de saber quem é que aponta o dedo e diz que um filme pode ou não pode se tornar cult.

Após esta introdução altamente filosófica, acho que já deu para perceber que eu vou hoje falar de um filme cult. Um filme que hoje é visto como um grande clássico da ficção científica, mas que na época de seu lançamento fez tanto barulho quanto um estalinho de São João. Um filme que fez parte da minha lista de favoritos desde que eu o assisti pela primeira vez, mas que, graças a uma certa confusão por parte da Warner Bros, somente pude adquirir em DVD no Natal passado. O tema de hoje é Blade Runner.

Sim, como eu disse, atualmente Blade Runner é um clássico da ficção científica, e até influenciou outros filmes e até livros, mas em 1982, quando foi lançado, chegou a ser considerado um fracasso de público e crítica: consumindo 28 milhões de dólares para ficar pronto - valor que hoje já é considerado alto, mas que na época era maior ainda - arrecadou apenas 6,15 milhões em seu primeiro fim de semana, e 26 milhões no total. Parte deste desempenho se deveu ao fato de que dois outros filmes de ficção científica mais bem cotados, O Enigma de Outro Mundo e E.T., o Extraterrestre, estrearam quase no mesmo dia, e parte foi culpa dos críticos, que, dentre outras coisas, o acusaram de ter um monte de clichês, de valorizar mais os efeitos especiais que o enredo, e de ter um ritmo tão lento que deveria se chamar "Blade Crawler" (um trocadilho com o fato de que runner significa "corredor", enquanto crawler é "rastejador").

Com o passar do tempo, porém, Blade Runner foi se tornando uma referência. Profeticamente, o filme antecipou temas como a influência da cultura asiática nos Estados Unidos, expansão desenfreada das metrópoles, globalização, clonagem, engenharia genética e mudanças climáticas. Seu clima de filme noir, com muitas seqüências escuras, contribuiu para que o filme ganhasse uma pequena mas sólida base de fãs. Além disso, uma confusão feita pela Warner Bros à época da finalização do filme fez com que o diretor Ridley Scott ficasse inconformado com a versão do filme que foi aos cinemas, e lutasse durante anos por uma "versão do diretor", o que manteve o filme de certa forma vivo na mídia. Quando esta nova versão estreou nos cinemas norte-americanos dez anos após o lançamento do filme original, em 1992, a base de fãs já não era tão pequena assim, e o filme conseguiu arrecadar mais 4 milhões de dólares - pouco, mas um bom número em se tratando de um relançamento.

Blade Runner, que em português ganhou o subtítulo O Caçador de Andróides, é inspirado em um conto do autor norte-americano Philip K. Dick, que tem o curioso nome de Do Androids Dream of Electric Sheep? (algo mais ou menos como "Será que Andróides Sonham com Carneirinhos Elétricos?"), publicado em 1968. O nome "Blade Runner", que é quase impossível de ser traduzido de forma a resultar em algo compreensível, veio de outro livro, The Bladerunner, escrito por Alan E. Nourse e publicado em 1974. Este livro e o filme, pórém, têm pouco em comum além da ambientação em um futuro tenebroso; Scott decidiu usar o mesmo nome porque achou que ele combinava com o clima do filme. Embora um filme baseado no livro de Nourse já estivesse sendo considerado, Scott conseguiu com o autor os direitos para o uso do título sem maiores problemas. Dick, por outro lado, sequer sabia que um filme baseado em um conto seu estava sendo escrito, e demonstrou uma certa preocupação ao descobrir; mas após ler a versão final do roteiro e assistir a um especial de 40 minutos produzido pela Warner para divulgar o projeto, deu sua total aprovação, declarando que a ambientação estava justamente como ele imaginava. Dick faleceu em decorrência de um derrame quatro meses antes da estréia do filme, mas o sucesso de Blade Runner, ainda que tardio, possibilitou que seus contos fossem redescobertos pelo público, e garantiu diversas outras adaptações, que renderam filmes como O Vingador do Futuro, Minority Report, O Homem Duplo e O Vidente.

O tal "futuro tenebroso" onde o filme se passa é o ano de 2019, quando a humanidade já alcançou grandes avanços na ciência, que possibilitaram a colinização espacial e a criação de diversas colônias fora da Terra. A construção destas colônias, porém, requer trabalho muitas vezes perigoso à saúde e integridade física dos seres humanos; para contornar este problema, foram criados os replicantes, andróides idênticos em aparência a um humano comum, mas imunes à dor, com grande força física, e tão inteligentes quanto os cientistas que os criaram. Os replicantes, porém, não são autômatos: possuem consciência, e são capazes de tomar suas próprias decisões. Como uma medida de segurança, portanto, a Tyrell Corporation, a empresa que os criou, fez com que eles tivessem um ciclo de vida curto, "morrendo" quatro anos após sua data de ativação.

Um dia, cansados de serem submetidos a trabalhos perigosos, humilhantes e degradantes, e ainda por cima fadados a morrer tão cedo, alguns replicantes se rebelaram contra os humanos que os criaram. Após uma violenta insurreição em uma das colônias espaciais, os replicantes foram declarados ilegais na Terra, e uma unidade especial da polícia foi criada para exterminar qualquer replicante que se atrevesse a vir a nosso planeta. Estes policiais se tornaram conhecidos como Blade Runners (ou, na versão em português, Caçadores de Andróides), e seu trabalho não era considerado assassinato ou extermínio, mas apenas "retirada" de robôs defeituosos.

O enredo do filme começa quando quatro replicantes, Leon (Brion James), Zhora (Joanna Cassidy), Pris (Daryl Hannah) e Roy (Rutger Hauer), conseguem chegar clandestinamente à Terra. Sabendo que estão com os dias contados, os quatro, liderados por Roy, planejam invadir a Tyrell Corporation e obrigar seu criador, Dr. Eldon Tyrell (Joe Turkel), a remover a limitação de vida, para que eles possam viver como humanos normais. Em busca deste objetivo, eles acabam conseguindo a ajuda do cientista J.F. Sebastian (William Sanderson), que simpatiza com os replicantes por sofrer de uma rara doença degenerativa, que fará com que ele também tenha uma vida curta.

Mas por mais nobres que sejam seus objetivos, os replicantes ainda são ilegais e sujeitos à retirada. E é aí que entra o protagonista, o Blade Runner aposentado Rick Deckard (Harrison Ford), convencido a voltar à ativa com um novo parceiro, Gaff (Edward James Olmos), após o Blade Runner que estava investigando o caso ser mortalmente ferido pelos replicantes. A princípio, seria apenas mais uma missão comum, se Deckard não começasse a sentir remorsos e outros sentimentos contraditórios pelos replicantes, principalmente após se apaixonar por Rachael (Sean Young), uma replicante de última geração, tão parecida com um ser humano que tem até memórias falsas de sua infância.

Embora não tenha muito tempo para discuti-los a fundo, Blade Runner toca em temas como a definição de humanidade - embora tenham consciência e sentimentos, os replicantes não são considerados humanos por serem artificiais - e o avanço descontrolado da civilização tecnológica, a ponto de ameaçar a natureza - animais verdadeiros, por exemplo, já quase não existem, tendo sido substituídos por animais criados por engenharia genética. Além de basear-se no conto de Dick, Scott foi buscar inspiração nas tragédias gregas, na filosofia da religião, na poesia de William Blake, no filme Metropolis de Fritz Lang, na história em quadrinhos The Long Tomorrow de Dan O'Bannon e Moebius, e até mesmo na Bíblia, o que fez com que Blade Runner se tornasse um dos mais profundos filmes de ficção científica da história, digno de longas discussões sobre seus elementos.

Com todas estas referências em mente, Ridley Scott fez de Blade Runner um projeto extremamente pessoal seu. Ainda assim, a versão que foi às telas do cinema não foi a visão original do diretor. Isto ocorreu porque a Warner Bros, produtora do filme, achou que os custos estavam muito altos, e se negou a liberar mais dinheiro quando os gastos alcançaram 28 milhões de dólares. Na prática, Scott foi proibido de terminar o filme da forma como queria, e um grupo de empresários e investidores assumiu a produção. Sob a batuta da Warner, eles incluíram um final feliz que não estava previsto (usando filmagens que não haviam sido aproveitadas no filme O Iluminado) e uma narração, através da qual Deckard explicava alguns elementos do filme, já que, segundo eles, o público que havia assistido à sessão teste tinha tido dificuldades para entender o enredo - segundo Scott, seu plano original era filmar novas cenas para explicar estes elementos, mas a Warner não permitiu. O desempenho de Ford na narração é tão fraco que deu origem a uma lenda segundo a qual ele teria interpretado mal de propósito, no intuito do estúdio rejeitar as falas e não usá-las, mas o próprio Ford já declarou que leu as falas da melhor forma que pôde, mas elas é que foram mal escritas, daí o resultado ruim - embora anos mais tarde, talvez contraditoriamente, ele tenha assumido ter feito a narração contrariado pelo fato dela não representar os interesses do diretor.

Graças a toda esta confusão, Blade Runner acabou ficando com sete versões diferentes. A primeira delas foi justamente a versão teste, que tem 113 minutos e foi exibida para platéias selecionadas em Denver, Dallas e Londres em Março de 1982. Uma segunda versão teste, de 118 minutos, foi exibida em San Diego em maio de 1982. A que seria a "versão final" hoje é conhecida como Domestic Cut ou Theatrical Cut, tem 115 minutos, e foi a que estreou nos cinemas dos Estados Unidos em 25 de junho de 1982. A versão que estreou na maior parte dos outros países (mas não no Brasil, que comprou a versão americana) entre 1982 e 1983, é hoje conhecida como International Cut, e tem 117 minutos, graças a três cenas violentas removidas da versão americana. E se você achou isso besteira, a quinta versão é a que passou na televisão norte-americana a partir de 1986, editada para remover cenas "inadequadas", e acabou com 86 minutos.

Estas poderiam ser as únicas versões, mas em 1990, talvez para ganhar um dinheirinho extra, a Warner decidiu lançar nos cinemas de Los Angeles e São Francisco a versão teste, picaretamente rebatizada como "versão do diretor". A procura por ingressos foi tão grande que a Warner decidiu lançar uma versão do diretor "verdadeira" nos cinemas de todo o país no aniversário de dez anos do filme. Embora Ridley Scott tenha gostado da idéia, na época ele estava envolvido com as filmagens de Thelma & Louise, e não pôde trabalhar diretamente na edição do filme. A versão acabou montada pelo editor assistente da versão original, Les Healey, e pelo restaurador de filmes Michael Arick. Sob supervisão de Scott, eles removeram as cenas violentas da versão internacional, a narração e o final feliz, e inseriram dicas de que Deckard poderia ser ele também um replicante. Embora esta versão, de 115 minutos e conhecida hoje como Director's Cut, tenha feito sucesso nos cinemas, desagradou a muitos fãs puristas, que consideraram que o clima do filme foi alterado. Pessoalmente, eu gostei de terem removido a narração, mas achei que Deckard replicante era um pouco além da conta, por isso eu ainda não tinha comprado o DVD, já que a Versão do Diretor era a única disponível no Brasil até o mês passado.

Assim como eu, Ridley Scott também não ficou totalmente satisfeito com a Versão do Diretor, e no ano 2000 resolveu fazer uma nova versão, desta vez envolvendo-se diretamente em todos os estágios. O filme foi totalmente restaurado através dos negativos originais, os efeitos especiais ganharam novo tratamento, o som foi remasterizado, e algumas cenas foram estendidas ou cortadas, resultando em uma versão de 117 minutos conhecida como Final Cut, ou, finalmente, a Versão Final. O plano era lançá-la em DVD no Natal de 2001, mas alguns dos investidores que concluíram o filme em 1982 entraram na justiça alegando serem os detentores dos direitos sobre o filme. A Warner só conseguiu resolver esta disputa em 2006, e decidiu esperar 2007, quando Blade Runner faria 25 anos, para lançá-la. O filme foi lançado em alguns cinemas dos Estados Unidos e Austrália em outubro, e nos formatos DVD e Blu-Ray em dezembro. Aqui no Brasil foi lançada uma versão em DVD com três discos, incluindo a Theatrical Cut, a International Cut, a Director's Cut e a Final Cut, mais três horas de documentários e making ofs, mas o original norte-americano tem cinco discos, e traz também as outras três versões do filme. Alguns fãs mais ardorosos já começaram a reclamar, mas não se sabe se a Warner lançará este pacotão por aqui - eu acho pouquíssimo provável, já que até hoje eles ainda não resolveram lançar as versões estendidas de O Senhor dos Anéis.

Seja qual for sua versão preferida, Blade Runner entrou para a história ao mostrar um futuro cada vez mais possível se a humanidade não parar para prestar atenção nos valores que realmente importam. São poucos os filmes de ficção científica que 25 anos após seu lançamento conseguem continuar estimulando debates. De minha parte, eu espero que inventem logo aquela maquininha que amplia fotos sem limite. Isso sim é que é tecnologia.
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sábado, 12 de janeiro de 2008

Escrito por em 12.1.08 com 2 comentários

Pica-Pau

Quando eu era criança, não existiam canais a cabo que passavam desenhos animados 24 horas por dia; o mais perto que tínhamos disso era o SBT, que passava um programa infantil atrás do outro, das primeiras horas da manhã até o finalzinho da tarde, então a chance de que a qualquer hora que você ligasse a televisão estivesse passando um desenho era bem grande. Mesmo sem um canal especializado, porém, tínhamos dezenas de desenhos no ar, em uma espécie de luta pelo ibope que levava os canais a tentar adquirir sempre as últimas novidades - infelizmente, nem todas elas boas - mantendo as pobres crianças ligadas em sua programação ao invés de na da concorrente. E, mesmo com todas as "novidades" sendo exibidas diariamente, você pode confirmar com qualquer criança dos anos 80 que um dos melhores desenhos que podíamos assistir na época era o Pica-Pau, que já era bem velho quando o conhecemos.

Claro que o sucesso do Pica-Pau não é nenhum assombro - como bem disse um amigo meu, seus desenhos devem estar dentre os mais criativos jamais feitos - mas ainda assim é curioso que ele tenha conseguido derrotar a pesada concorrência da época, sendo tão bem sucedido ao ponto de frases como "vodu é pra jacu", "ei, moço, podemos brincar por aqui", "e lá vamos nós" e tantas outras terem ficado gravadas para sempre na mente das crianças da época. Sério, pergunte a alguém uma frase memorável do He-Man ou dos Thundercats, vamos ver se alguém se lembra (só não vale a musiquinha do Gorpo com a Drielle).

Mesmo sendo um desenho de tanto sucesso - inclusive é exibido até hoje, agora na Record - alguns fatos sobre o Pica-Pau permanecem desconhecidos da população em geral. Há quem ache, por exemplo, que o desenho era produzido para a televisão, ou que os episódios mais novos eram da própria década de 80, com apenas aqueles do "Pica-Pau Maluco" sendo mais antigos. Para estas pessoas, pode ser incrível descobrir que ambas as assertivas anteriores são falsas. Portanto, para trazer ao mundo algumas verdades sobre a vida do pássaro de cabeça vermelha e risada engraçada mais querido dos desenhos animados, hoje no átomo teremos um post dedicado ao Pica-Pau! Como se vocês já não soubessem disso...

he he he HE he!Apesar de seu sucesso no Brasil ser "recente" (coisa de uns 20 ou 30 anos), o Pica-Pau é um desenho velho, bem velho. Sua primeira aparição se deu em um desenho de Andy Panda, chamado Knock Knock (Pica-Pau Ataca Novamente em português, embora eu não saiba como alguém pode "atacar novamente" em seu primeiro episódio), em 25 de novembro de 1940, há pouco mais de 67 anos, portanto. Sua origem é um tanto obscura: seu criador, o cartunista e animador Walter Lantz, afirmava ter tido a idéia para o personagem durante sua lua-de-mel, quando um pica-pau irritante não deixava que ele e sua esposa dormissem em um chalé que haviam alugado. Quando o pássaro finalmente foi embora, começou a chover, e aí o casal Lantz descobriu que o pica-pau havia aberto um monte de furos no telhado do chalé, por onde a água da chuva começou a entrar, arruinando a noite de vez. Grace Stafford, a esposa de Walter, então teria dado a idéia para que o marido criasse um pica-pau irritante para figurar em seus desenhos, e assim teria nascido o Pica-Pau, que em inglês tem nome e sobrenome, Woody Woodpecker (woodpecker significa "pica-pau", e wood significa "madeira", sendo que Woody é o apelido para quem se chama Woodrow nos Estados Unidos). Esta história, porém, tem um furo maior que aqueles que o pica-pau teria feito no teto do chalé: Walter e Grace não eram casados na época em que o Pica-Pau fez sua estréia nos desenhos animados - eles realmente se casaram em 1940, mas depois que o desenho já havia estreado.

Seja como for, a verdade é que o final da década de 30 e o início da de 40 foram prolíficos em apresentar ao mundo personagens amalucados, cuja única função na vida era irritar seus coadjuvantes, e muitas vezes também o espectador. Lantz já produzia desenhos com seus próprios personagens, como o próprio Andy Panda, mas nenhum deles era amalucado o suficiente. Não importa de onde veio a inspiração, mas o fato é que um dia Lantz pediu a um de seus colaboradores, Ben Hardaway, que esboçasse um pica-pau amalucado para estrelar um desenho, e, gostando do resultado, o teria incluído no tal desenho de Andy Panda para "testá-lo".

O Pica-Pau deste primeiro desenho é conhecido por muitos hoje como "Pica-Pau Maluco": com pés enormes e grandes olhos verdes que giram e de vez em quando olham em direções opostas, língua ocasionalmente para fora e dentes brotando de seu bico, ele não deixava nenhuma dúvida sobre ser mentalmente instável, e atazanou Andy e seu pai, Papa Panda, até o pequeno panda conseguir colocar sal em seu rabo, quando foi levado para um hospício. Fosse hoje em dia, talvez esta criatura irritante teria sido execrada pelos críticos, mas, como eu já disse, personagens loucos de pedra estavam na moda, então o Pica-Pau foi um enorme sucesso, e ganhou sua própria série.

Para a TV? Claro que não! Era 1940, lembram? Tanto os desenhos do Andy Panda como os primeiros do Pica-Pau eram produzidos para o cinema, e distribuídos pelos estúdios Universal. Hoje pode parecer estranho que alguém fosse ao cinema para assistir a um desenho de seis minutos, mas naquela época era superdivertido. Produzir um desenho para o cinema em 1940, porém, era bastante complicado, de forma que só eram lançados uns três ou quatro desenhos do Pica-Pau por ano.

O Pica-Pau Maluco atazana Andy PandaO primeiro desenho protagonizado pelo Pica-Pau estreou em 1941, dirigido pelo próprio Walter Lantz, com o Pica-Pau dublado por Mel Blanc, talvez o maior dublador da história, responsável ao longo de sua carreira pelas vozes de praticamente todos os personagens dos Looney Tunes, além de muitos outros da Hannah-Barbera. Blanc, porém, só dublou os quatro primeiros episódios, devido a um contrato de exclusividade que firmou com a Warner Bros; nos episódios seguintes, o Pica-Pau seria dublado pelo próprio Ben Hardaway, que também o desenhava. A saída de Blanc, porém, gerou um mal-estar entre ele e Lantz: Blanc alegava ter criado a famosíssima risada que se tornaria a marca registrada do Pica-Pau - em um episódio anterior de Looney Tunes, inclusive, Hortelino dá uma risada até bem parecida - mas Lantz dizia que a risada havia sido criada por ele, baseada no canto do pica-pau verdadeiro.

O Pica-Pau manteria seu visual "maluco" apenas em seus nove primeiros episódios, os três de 1941 (dirigidos pelo próprio Walter Lantz e dublados por Mel Blanc), mais três em 1942 e três em 1943 (estes dirigidos por Alex Lovy e dublados por Hartaway). Em 1944, os animadores Emery Hawkins e Art Heinemann assumiram a produção, e decidiram dar um trato ao pássaro, para que ele ficasse com uma aparência menos demente e mais simpática, algo que já havia ocorrido com os personagens da Warner (como o Pernalonga) e da MGM. O primeiro desenho a mostrar o Pica-Pau com seu novo visual foi O Barbeiro de Sevilha, de 1944. Apesar da nova aparência, o diretor Shamus Culhane se recusou a "domesticar" o Pica-Pau, mantendo seu comportamento tresloucado. O episódio seguinte, O Doido da Praia, inclusive, traria a estréia do personagem que viria a ser o maior alvo das maluquices do pássaro, a morsa Leôncio (que em inglês se chama Wally Walrus, sendo que walrus significa "morsa").

Culhane ao todo dirigiria dez desenhos do Pica-Pau, três de 1944, quatro de 1945 e três de 1946. Ainda em 1946, ele passaria a direção a Dick Lundy, que havia trabalhado na Disney. Lundy foi o responsável por amansar o personagem, que de um lunático encrenqueiro passou a só se defender quando atacado - e é claro que em cada episódio haveria alguém para atacá-lo, para que ele pudesse aprontar das suas. O primeiro episódio dirigido por Lundy seria Hora do Banho, de 1946. Ele ainda dirigiria mais seis lançados em 1947, o último ano do contrato de Lantz com a Universal, que, devido a algumas divergências, acabou não sendo renovado. Ao todo, a Universal distribuiu 26 episódios do Pica-Pau aos cinemas, sendo que dois deles, O Acrobata Maluco, de 1943, e Trechos Musicais de Chopin, de 1947, foram indicados ao Oscar de Melhor Curta-Metragem, mas infelizmente não ganharam.

Sem o contrato com a Universal, o Pica-Pau poderia ter ido parar na geladeira, mas Lantz até que conseguiu um bom plano para mantê-lo "no ar", que começou com a contratação dos animadores Fred Moore e Ed Love, ambos da Disney. O Pica-Pau passou por uma nova repaginada, com seus desenhos ficando mais parecidos com os produzidos na época pela Disney, incluindo o visual do personagem. Embora o orçamento continuasse o mesmo, a qualidade dos desenhos era visivelmente mais alta, e com eles Lantz conseguiu um contrato de distribuição com a United Artists, que distribuiu seis episódios, cinco em 1948 e um em 1949. 1948, aliás, foi um ano especialmente feliz para o Pica-Pau, que no episódio Apólice Cobertor não somente ganhou mais um antagonista para atazanar, Zeca Urubu (Buzz Buzzard em inglês, sendo que buzzard significa, adivinhem, "urubu"), mas também sua própria música-tema, que imita sua risada em alguns acordes, e foi indicada ao Oscar de Melhor Canção. Além disso, no episódio O Fila-Bóia, ele contracenaria mais uma vez com Andy Panda, que também havia sido repaginado para ficar mais parecido com um personagem da Disney ou da Warner.

Mas nem tudo eram flores para o Pica-Pau no final da década de 40. O único episódio lançado em 1949, Delícia Gelada, na verdade havia sido produzido em 1948 - o contrato com a United Artists se mostrou bem menos vantajoso que o anterior, e o estúdio de Lantz começou a amargar sérios prejuízos. No final de 1948, Lantz se viu obrigado a demitir grande parte de sua equipe - incluindo Lundy e Hardaway - e fechar as portas. Ele conseguiria uma nova injeção de dinheiro em 1950, graças a um novo contrato com a Universal, mas novos episódios só chegariam aos cinemas em 1951. Para dublar o Pica-Pau nestes novos desenhos, foi escolhida ninguém menos que Grace Stafford, a esposa de Lantz - embora ele alegue que ela tenha mandado uma fita com nome falso para um teste, o que fez com que ele a escolhesse sem saber que era ela.

De qualquer forma, foi uma boa maneira de cortar os custos, principalmente quando combinada ao fato de que o próprio Lantz voltou a dirigir os desenhos. Ele dirigiu 7 desenhos lançados em 1951 e mais 4 lançados em 1952, quando o estúdio conseguiu se reerguer, em grande parte devido ao sucesso do Pica-Pau. Satisfeito, Lantz passou a direção para Don Patterson, que dirigiu mais dois desenhos lançados em 1952, seis em 1953 e mais seis em 1954. Junto com a direção de Patterson, no episódio O Grande Quem-Faz-Isso, LaVerne Harding assumiu os desenhos, e criou o visual que até hoje é considerado o "oficial" do Pica-Pau, tornando o personagem menor e com formas mais arredondadas.

O Pica-Pau de 1940, o de 1952 e o de 1944Esta nova e última repaginada foi a responsável por terminar de domesticar o pássaro, que agora se comportava como qualquer desenho normal da época, e não mais com a veia anárquica que havia lhe dado fama - embora ele ainda "se vingasse" de uma eventual armação de seus antagonistas, o normal era que ele se visse envolvido em situações surreais enquanto apenas tentava viver sua vida em paz. Muitos dos desenhos mais famosos no Brasil são desta época, que durou até o final deste contrato com a Universal, em 1962. Paul J. Smith, que já havia substituído Patterson na direção em dois episódios, um de 1953 e um de 1954, assumiu como diretor a partir de 1955, e dirigiu um total de 47 episódios até 1962. Até 1960, em oito ocasiões - normalmente uma por ano - ele foi substituído na direção por Alex Lovy; e entre 1960 e 1962 foi substituído em mais 8 episódios por Jack Hannah, um ex-animador da Disney.

Durante este período, novos personagens se uniram ao Pica-Pau, Leôncio e Zeca Urubu, incluindo um novo antagonista, Zé Jacaré (Gabby Gator em inglês), que estreou no episódio Hospitalidade Gélida, de 1960. Antes disso, em 1957, no episódio Pica-Pau Internacional, o Pica-Pau também ganharia uma namorada, Paulina (Winnie Woodpecker) e dois sobrinhos, Toquinho (Knothead) e Lasquita (Splinter).

Também durante esta época o Pica-Pau finalmente chegaria à televisão, com a estréia do programa The Woody Woodpecker Show, exibido pela ABC entre 1957 e 1958. O programa não trazia episódios inéditos, mas uma abertura onde Lantz contracenava com o Pica-Pau, depois da qual eram exibidos três dos desenhos que antes haviam passado nos cinemas. Este foi o programa comprado pelas televisões brasileiras, que o dublaram, exibiram e o reprisam até hoje. Nos Estados Unidos, ele foi reprisado por várias emissoras até 1966, depois ganhou "novos episódios" exibidos pela NBC entre 1970 e 1972, quando também passou a ser reprisado em vários canais. Lantz relutou o quanto pôde antes de levar o Pica-Pau para a TV, principalmente porque teria de editar algumas cenas especialmente violentas dos episódios mais antigos, e só o fez porque o estúdio estava novamente passando por dificuldades financeiras, e ainda assim ele continuou produzindo desenhos inéditos para o cinema.

Em 1963, Lantz conseguiu uma renovação de contrato com a Universal, que lhe garantia pelo menos mais dez anos de distribuição. O sucesso do Pica-Pau, porém, já não era mais o mesmo devido a uma ampla gama de fatores, como as dificuldades financeiras pelas quais o estúdio estava passando, a popularização dos desenhos feitos diretamente para a TV, e até mesmo a invenção do videocassete, que chegou ao mercado norte-americano em 1965, e afastou grande parte do público dos cinemas. Mesmo lutando contra todos estes inimigos, Lantz ainda conseguiu produzir 74 episódios do Pica-Pau entre 1963 e 1972 - até 1966 alguns episódios eram dirigidos por Sid Marcus, outros por Paul J. Smith, mas a partir de 1967 Smith assumiu a direção de vez - mas a resposta do público já não era a mesma, e muitos fãs reclamavam quanto a criatividade dos roteiristas, que segundo eles estavam cada vez menos inspirados, e tentavam constantemente fazer do Pica-Pau uma espécie de herói, incluindo muitos episódios ambientados no Velho Oeste, onde ele sempre era o xerife ou um forasteiro que ensinava uma lição a um bandido usando de sua esperteza - foi nesta época, inclusive, que surgiu mais um coadjuvante famoso, o cavalo Pé-de-Pano (Sugarfoot), no episódio O Paladino do Oeste, de 1967.

A abertura do programa de TVCom todas estas dificuldades, em 1972 Lantz não teve outra saída a não ser fechar as portas de seu estúdio de vez. Durante um tempo, ele sobreviveu dos direitos devidos pela exibição do programa do Pica-Pau em vários canais de TV, mas quando o programa saiu do ar por um tempo em 1985, ele decidiu vender todos os episódios do Pica-Pau para a Universal, que criou uma terceira versão do Woody Woodpecker Show, exibida em vários canais a partir de 1988. A Universal também aproveitou e fez com que o Pica-Pau e Paulina se tornassem os mascotes oficiais de seus parques temáticos na Flórida e no Japão.

Em 1988, o Pica-Pau fez uma participação no filme Uma Cilada para Roger Rabbit, produzido pela Disney. Junto com Betty Boop, Koko e Droopy, ele foi um dos únicos personagens a aparecer no filme que não pertenciam nem à Disney nem à Warner. Apesar disso, seu sucesso nos Estados Unidos já não era mais o mesmo, principalmente pelo enorme hiato de mais de quinze anos sem um episódio inédito; no Brasil, porém, graças às incessantes reprises de seus desenhos na televisão, o Pica-Pau atravessou as décadas de 80 e 90 com uma popularidade enorme, que lhe rendeu, inclusive, uma honra curiosa: quando a Tec Toy decidiu criar o primeiro jogo de Mega Drive totalmente produzido no Brasil, em 1995, fez uma pesquisa dentre os jogadores, para saber qual personagem deveria ser usado. Vencendo escolhas mais óbvias como a Mônica ou algum super-herói, o Pica-Pau acabou sendo o escolhido, e o argumento até que era bastante interessante: ainda não havia nenhum jogo do personagem no mercado. O resultado acabou sendo Férias Frustradas do Pica-Pau, um jogo simples mas até bastante divertido, lançado para Mega Drive e Master System em 1996. E o Pica-Pau não deve ser mesmo um personagem muito popular para games, porque depois deste só foram lançados mais três: Woody Woodpecker Racing, um jogo de corrida lançado em 2000 para Dreamcast, PlayStation, PC e Game Boy Color; Woody Woodpecker: Escape from Buzz Buzzard Park, lançado em 2001 para Game Cube, PC e Playstation 2; e Woody Woodpecker in Crazy Castle, jogo de 2003 para Game Boy Advance.

Em 1999, a Fox fez um contrato com a Universal que lhe garantia os direitos de exibição do Pica-Pau na TV, e passou a exibi-los em seu canal Fox Kids. Aproveitando a deixa, ela decidiu produzir um novo desenho do Pica-Pau, que chamou de The New Woody Woodpecker Show. Este novo programa finalmente traria episódios inéditos, sendo sempre dois do Pica-Pau e um do pingüinzinho Chilly Willy em cada exibição. Curiosamente, o visual do Pica-Pau nestes episódios não é o mais recente, mas o criado por Hawkins e Heinemann em 1944, com olhos verdes e o topete virado para trás. O novo programa ficou no ar até 2002, quando os desenhos antigos voltaram a reprisar em outros canais que não a Fox Kids.

Hoje em dia, o Pica-Pau é um dos personagens mais queridos e facilmente reconhecíveis do mundo. Ele mesmo, sua inconfundível risada, ou trechos de seus desenhos fizeram aparições em diversos filmes e episódios de séries de TV, como Os Simpsons, SeaQuest, Seinfeld e muitos outros. E pensar que tudo começou com um pássaro insano que não tinha mais nada a fazer do que importunar uma pobre família de pandas...
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sábado, 5 de janeiro de 2008

Escrito por em 5.1.08 com 1 comentário

Jem

Sob um certo ponto de vista, pode-se dizer que eu tenho um gosto musical eclético. A maioria das músicas que eu gosto é de rock, mas muitas das que eu adoro, a começar pelas da Tori Amos, não são. Em comum dentre quase todas as minhas músicas preferidas, só existe mesmo uma coisa: cantoras. Tori Amos, Shirley Manson, Nina Persson, Dolores O'Riordan, Jewel, Sade, Fiona Apple, Natalie Imbruglia, Andrea Corr, Toni Halliday, Melissa auf der Maur, Regina Spektor, Juliette Lewis... Seja solo ou vocalista de banda, como eu já disse aqui uma vez, se é para ter alguém cantando no meu ouvido, que pelo menos seja uma voz feminina. O post de hoje, como vocês já devem ter percebido, é sobre uma destas cantoras, que só não entrou nesta lista porque seu nome já viria em negrito depois destes dois pontos: Jem.



Não, não é aquela Jem de cabelo rosa de um desenho dos anos 80. Esta aqui existe no mundo real, e chegou ao meu conhecimento meio por acidente, quando eu assistia a um jogo de futebol americano no final de 2005, resolvi mudar de canal no intervalo, e acabei achando em um canal qualquer um clip da música They (um que é em preto-e-branco). Achei a música interessante, mas não dei muita bola. Pouco tempo depois, porém, foi publicada uma matéria sobre ela no Rio Fanzine, a música Just a Ride tocou em um episódio de Grey's Anatomy (que eu acompanhava), e, para completar as coincidências, achei um Finally Woken vendendo na Saraiva. Como isso só podia ser um sinal, comprei. E não me arrependi nem um centavo.

Jem nasceu Jemma Griffiths, em 18 de maio de 1975, na pequena Penarth, cidade costeira próxima a Cardiff, no País de Gales. Aos 13 anos, ela descobriu um equipamento caseiro com o qual poderia gravar suas próprias músicas; inicialmente ela o fazia apenas como um hobby, mas aos poucos foi tomando gosto pela coisa, até que decidiu que cantar era o que ela queria fazer da vida.

Por algum destes motivos que nem mesmo a gente compreende, porém, Jem não mergulhou de cabeça em seu sonho, mas o adiou por um longo tempo, ao ponto de decidir fazer faculdade de direito na Universidade de Sussex, próxima à cidade de Brighton, Inglaterra. Apesar de direito não ter muito a ver com música, foi durante este período que ela estabeleceu seus contatos no mundo musical, trabalhando como promotora de festas e eventos em clubes. Jem chegou a produzir apresentações dos principais artistas da gravadora Skint, inclusive de Fatboy Slim, nos clubes de Brighton, além de trabalhar como agente para DJs da cena local. Após se formar, ela e alguns amigos DJs criaram a gravadora independente Marine Parade, que Jem gerenciou durante um tempo. Enquanto trabalhava na gravadora, porém, ela se deu conta de que, até então, ela havia trabalhado apenas para as músicas dos outros, e que suas próprias músicas estavam abandonadas no fundo de uma gaveta. Jem largou a gravadora e decidiu que era hora de dar um novo passo. Para isso, ela voltou a Gales.

Em novembro de 1999, Jem usou o dinheiro que ganhara até então para montar um pequeno estúdio. Após passar um tempo refinando suas composições, ela gravou quatro músicas demo, e foi à luta, se mudando para Londres atrás de uma gravadora que se interessasse por elas. Jem não encontrou uma gravadora, mas acabou encontrando o produtor Guy Sigsworth, que havia conhecido na época da faculdade. Sigsworth já havia trabalhado com Seal, Adamski e Björk, e havia acabado de ser contratado por Madonna, que adorou seu estilo após ouvir o álbum Empathy, produzido por ele para a banda Mandalay. Sigsworth possuía a difícil incumbência de criar uma música para o próximo álbum de Madonna, Music, que seria lançado em 2000, e chamou Jem para ajudá-lo. Juntos, eles escreveram Nothing Fails, que acabou não entrando no álbum, pois Madonna preferiu What it Feels Like for a Girl, que ela mesma escreveu com Sigsworth pouco depois. A obra de Jem, porém, não passaria em branco: após alguns pitacos da própria Madonna, ela seria incluída em American Life, álbum que a cantora lançaria em 2003.

Mas Jem não estava disposta a esperar até 2003; após sua parceria com Sigworth aparentemente não ter dado certo, ela decidiu viajar para os Estados Unidos, para dar uma arejada e conferir de perto a cena musical eletrônica local, e foi parar no Brooklyn, onde conheceu o produtor de hip hop Ge-Ology, que havia trabalhado com Mos Def e Talib Kweli, e já havia ouvido falar dela nos clubes de Brighton. Jem decidiu morar em Nova Iorque por uns tempos até que, em 2002, conheceu outro produtor, Yoad Nevo, que lhe deu algumas boas idéias para suas músicas. Juntos, eles desenvolveram o estilo utilizado hoje por Jem, que mistura muitos estilos musicais de diferentes influências para criar um som totalmente novo, juntando melodias alegres com letras sobre otimismo e descoberta. Jem adaptou uma de suas canções, Finally Woken a este novo estilo, e acabou obtendo um resultado muito além do esperado: sabe-se lá como, a canção cruzou o país e foi tocar na rádio KCRW, de Los Angeles, Califórnia.

Rapidamente, a música se tornou uma das mais pedidas da KCRW - na verdade tão pedida que o diretor musical da rádio, Nic Harcourt, decidiu correr o risco e tocar também as outras demos de Jem. O sucesso destas músicas, principalmente de Finally Woken e Flying High, fez com que Jem entrasse para o Top 5 dos artistas mais pedidos da KCRW, o que lhe rendeu uma apresentação ao vivo na rádio, sem que nem tivesse uma gravadora ainda.

Impressionado com o sucesso, o executivo Bruce Flohr prontamente arrumou para ela um contrato com a gravadora ATO, que tem como um de seus donos Dave Matthews, da Dave Matthews Band. Para não perder tempo, a ATO lançou um EP (um álbum com poucas músicas, normalmente lançado para ajudar a divulgar o trabalho de um artista), chamado It All Starts Here..., em outubro de 2003, com apenas as quatro músicas que Jem já tinha - mas desta vez gravadas em um estúdio profissional - e mais uma versão acústica de Flying High. O EP fez um sucesso moderado, mas abriu caminho para o lançamento de seu primeiro álbum, que levava o nome de sua música mais conhecida, Finally Woken, em março de 2004.

Finally Woken tinha 11 faixas, sendo que quatro eram as mesmas de It All Starts Here.... Esta estratégia talvez tenha se mostrado equivocada, já que, apesar da maciça campanha publicitária em torno do lançamento do álbum, ele não vendeu o esperado, não chegando nem a 300 mil cópias e alcançando apenas o 197o lugar na parada da Billboard. Para a sorte de Jem, porém, sua carreira tinha uma peculiaridade curiosa: ela havia estourado primeiro nos Estados Unidos, para só então passar a ser conhecida em sua Grã-Bretanha natal. No Reino Unido, Finally Woken não somente era um álbuim gravado por uma britânica que até então ninguém conhecia, mas também tinha 11 faixas inéditas, já que por lá o EP não havia sido lançado. Graças a isso, o álbum chegou perto do meio milhão de cópias vendidas, e alcançou o sexto lugar na parada britânica. Além disso, Jem caiu absolutamente nas graças da crítica, recebendo avaliações altamente favoráveis da famosa revista norte-americana Rolling Stone e do jornal inglês The Guardian, além de ficar na 69a posição na lista dos 100 melhores álbuns de 2004 segundo os editores da Amazon.com, e de ser considerado o décimo melhor álbum de 2004 pela Associated Press.

Tanto sucesso fez com que as canções de Jem fossem escolhidas para figurar em várias produções do cinema e TV; a primeira foi Just a Ride, que apareceu em um episódio da série The OC, e fez tanto sucesso que rendeu a Jem um convite para figurar no último episódio da temporada, cantando um cover de Maybe I'm Amazed, de Paul McCartney. Depois disso, suas músicas já tocaram em Grey's Anatomy (seis delas, incluindo a inédita California Sun), Crossing Jordan, One Tree Hill, A Sete Palmos (a inédita Amazing Life) e Smallvile; e entraram para a trilha sonora dos filmes A Sogra, Um Príncipe em Minha Vida e Eragon (a inédita Once in Every Lifetime). Duas delas também foram escolhidas para ser tema de abertura de dois reality shows britânicos, Wish I para Celebrity Love Island e They para The X Effect; outras duas tocaram em trailers de filmes, mas acabaram não entrando para a trilha sonora (Come on Closer no de Closer: Perto Demais e 24 no de Ultravioleta); e Amazing Life foi escolhida para o comercial do automóvel Lexus ES 350.

Em 2005, Jem lançou três singles, todos exclusivos para o mercado britânico: They, que alcançou o 6o lugar na parada britânica de singles, e trazia a faixa título e Maybe I'm Amazed; Just a Ride, que também trazia California Sun, e chegou ao 14o lugar; e Wish I, que também traz a inédita Easy Way Out, e só chegou ao 24o lugar. Ela ainda gravou a música Everytime com o sul-africano Vusi Mahlasela, e fez uma participação especial na faixa The Thieves, do álbum de estréia da banda The Weapons, que conta com dois de seus irmãos, Justin e Georgia, dentre os integrantes.

No momento, Jem está em estúdio, gravando seu segundo álbum, que será produzido por Jeff Bass e Lester Mendez, especializados em hip hop, música eletrônica e remixes. Se Jem dará uma guinada para este lado - o que não seria nada estranho, já que ela é fã de hip hop - ou se manterá o estilo que a consagrou, ainda é um mistério. O álbum, aliás, está atrasado, pois deveria ter saído "no início de 2007". De qualquer forma, seu contingente de fãs já está esperando - e eu estou ansioso para saber se ela vai me ganhar de vez ou se eu vou ficar com só um disco de Jem em minha coleção.
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