quarta-feira, 4 de junho de 2008

Jornada nas Estrelas: Enterprise

Hoje é dia de mais um post sobre um spin-off de Jornada nas Estrelas. Para infelicidade de meu amigo Bêrus, ele não é sobre Deep Space Nine. Não que eu não goste, mas eu quase nunca assisti DS9, principalmente os episódios das primeiras temporadas, e, francamente, não fiquei assim tão entusiasmado, então não me sinto muito animado a escrever sobre esta série. Para infelicidade espero de ninguém, ele também não será sobre Voyager, porque Voyager é muito chato. Assim, como só resta mais um spin-off, creio que todos já deduziram que esta post falará sobre Enterprise.

Enterprise foi a primeira série de Jornada nas Estrelas da qual eu assisti o primeiro capítulo no dia em que ele estreou no Brasil, no canal AXN. Também consegui acompanhar toda a primeira temporada e boa parte da segunda, antes de ficar sem TV a cabo por complicações financeiras. Pessoalmente, eu sempre gostei de filmes que apresentassem novas abordagens ou trouxessem novas informações sobre eventos ocorridos em outros filmes - mas por favor não confundam com as famosas "preqüências", das quais eu nem sempre gosto - então acabei achando Enterprise muito interessante, bem mais que DS9 ou Voyager, o que acabou lhe rendendo o posto de meu terceiro Jornada nas Estrelas preferido.

em cima: Trip, Archer, T'Pol; em baixo: Phlox, Mayweather, Sato, ReedEnterprise é uma volta ao passado - de Jornada nas Estrelas, não ao nosso. Ambientada no século XXII, mais ou menos na metade do caminho entre o Primeiro Contato com os vulcanos e os eventos da Série Clássica, apenas dez anos antes da criação da Federação dos Planetas Unidos, a série acompanha as viagens da primeira nave terrestre capaz de atingir Dobra 5, o que finalmente faria com que nosso planeta fosse capaz de explorar o espaço além de nosso sistema solar sem que seus tripulantes tivessem de recorrer à animação suspensa. Esta nave, modelo NX-01, seria batizada de Enterprise, mesmo nome da comandada pelo Capitão Kirk uns cem anos depois, e da comandada pelo Capitão Picard uns duzentos anos mais tarde. Criada em 2000 por Rick Berman e Brannon Braga, o intuito da série era revitalizar a franquia Jornada nas Estrelas - já que Voyager, em exibição na época, apresentava índices de audiência cada vez mais baixos - promovendo uma "volta às origens", ou seja, ao conceito de exploração do espaço desconhecido que era a marca da Série Clássica e, de certa forma, da Nova Geração. A princípio, Berman pensou em ser ainda mais radical, ambientando pelo menos toda a primeira temporada na Terra, mostrando o relacionamento dos terrestres com os vulcanos e outros povos espaciais enquanto a NX-01 era construída. Esta idéia acabou sendo considerada muito diferente do restante da franquia, e o máximo de invencionice permitido foi retratar uma Terra ainda longe da utopia proposta pelos demais seriados de Jornada nas Estrelas, em uma série ambientada muito mais perto dos dias atuais - cerca de 150 anos - do que o de costume.

O capitão desta "nova" Enterprise é Jonathan Archer (Scott Bakula, conhecido no Brasil através do seriado Contratempos). Filho do engenheiro que desenhou os motores da nave, Archer se sente pessoalmente ligado à Enterprise, e se esforça para ser um excelente capitão em todos os sentidos, embora sofra uma pressão imensa por ser o primeiro comandante de uma nave terrestre capaz de ir tão longe, não se sinta muito confortável no papel de diplomata inerente a um comandante, e não se dê muito bem com os vulcanos, por considerar que eles atrasam o desenvolvimento tecnológico da Terra de propósito, para satisfazer a seus próprios interesses. Para infelicidade de Archer, a Enterprise também tem um vulcano a bordo, no caso uma vulcana, T'Pol (Jolene Blalock), designada pelo Alto Comando para acompanhar a missão e manter os terráqueos fora de encrencas. Como todo vulcano que se preze, T'Pol não demonstra emoções, mas é de uma lealdade inquestionável, chegando ao ponto de, mais adiante na série, renunciar à sua posição no Alto Comando para acompanhar Archer em uma missão. O trio de protagonistas se completa com Charles Tucker III (Connor Trinneer), apelidado Trip, engenheiro-chefe da nave, amigo de infância de Archer, e que em alguns momentos parece ser candidato a par romântico de T'Pol.

A tripulação da Enterprise conta ainda com o reservado chefe de segurança Malcolm Reed (Dominic Keating), que vem de uma família de marinheiros, mas decidiu se alistar na Frota Estelar por medo de se afogar; o timoneiro Travis Mayweather (Anthony Montgomery), nascido no espaço, filho do capitão de uma nave cargueira, conhecedor de vários mundos e raças alienígenas, além de excelente piloto; a oficial de comunicações Hoshi Sato (Linda Park), capaz de aprender idiomas alienígenas com extrema facilidade, que atua como intérprete antes da instalação do Tradutor Universal da nave, e que no início sofre de um certo pânico em estar a bordo de uma nave espacial; e o médico Dr. Phlox (John Billingsley), da raça dos denobulanos, membro de um intercâmbio de médicos alienígenas, voluntário na nave para acompanhar as descobertas da humanidade nesta nova era de exploração, e que prefere usar curas naturais obtidas através de animais e plantas à tecnologia disponível. Além destes tripulantes e do pessoal necessário ao funcionamento da nave, a Enterprise ainda leva Porthos, o beagle de estimação de Archer.

O primeiro episódio de Enterprise, Broken Bow, foi ao ar dia 26 de setembro de 2001 pelo canal UPN, de propriedade da Paramount, onde Voyager também tinha estreado alguns anos antes - DS9, assim como a Nova Geração, estreou direto em syndication. Como de costume, foi um episódio especial de 90 minutos, mais tarde dividido para as reprises. Nele, a Enterprise tem de antecipar sua primeira viagem graças a um incidente envolvendo um klingon perdido na Terra, e a tripulação precisa aprender a conviver com a exploração espacial sem estar exatamente preparada para ela. No geral, toda a primeira temporada, de 26 episódios, lida com temas comuns à Série Clássica, como exploração do espaço, descobrimento de novas raças, e envolvimento em culturas alienígenas. Muitos episódios também servem para mostrar como se originaram alguns elementos das demais séries de Jornada nas Estrelas. Toda a primeira temporada é permeada por dois eventos, a Guerra Fria Temporal, onde uma misteriosa entidade do século XXVII altera eventos de seu passado com propósito desconhecido; e as relações tênues entre humanos e vulcanos, que deliberadamente interferem no desenvolvimento da Terra, por achar que os humanos, instáveis emocionalmente, não estão preparados para entrar em contato com a cultura alienígena - para alguns fãs, aliás, este comportamento foi motivo de grande controvérsia, pois colocaria os vulcanos meio que como vilões da história.

Enterprise NX-01A primeira temporada de Enterprise teve bons índices de audiência, o que garantiu uma segunda, que estreou em 18 de setembro de 2002. O primeiro episódio da segunda temporada é a segunda parte do último da primeira, Onda de Choque (Shockwave), onde a Enterprise recebe a culpa pela destruição de um planeta, e Archer acaba transportado para o século XXXI. Como podemos ver, a Guerra Fria Temporal continua sendo um importante elemento na série. Na verdade, a segunda temporada é bastante parecida com a primeira, e somente no final começa a tomar rumos mais violentos, com uma sonda alienígena atacando a Terra e matando sete milhões de pessoas no último episódio, A Expansão (The Expanse). A segunda temporada inclui também Regeneração (Regeneration), um interessante episódio onde Borgs que haviam chegado à Terra no filme Primeiro Contato mas estavam congelados na Antártida descongelam.

Essa violência toda teve uma razão: em plena segunda temporada, a audiência já estava caindo, e o cancelamento da série começou a ser cogitado. Embora muitos atribuíssem os números baixos a fãs radicais que não aceitavam que bulissem com o passado da Série Clássica, ou a motivos mais técnicos, como o fato de pessoas que não assistiam ao episódio no dia em que era televisionado mas o gravavam para ver depois não serem incluídas nos números da audiência, os executivos da Paramount imaginaram que, sacudindo um pouco as coisas, mais pessoas iriam se interessar. Analisando os motivos pelos quais filmes e episódios anteriores de Jornada nas Estrelas faziam sucesso, eles chegaram à conclusão de que a audiência sobe quando a Terra está em perigo. Assim, foi criada uma nova raça, os xindi, que planejam nada menos que destruir nosso planeta com uma enorme arma espacial.

Todos os 24 episódios da terceira temporada, que estreou em 10 de setembro de 2003, são interligados pela história dos xindi, que são revelados como responsáveis pelo ataque de A Expansão. A própria Enterprise passa por reformas e se torna quase uma nave militar, fortemente armada e levando dentre seu pessoal um grupo de operativos militares conhecidos como MACOs. A nave então recebe a missão de ir até uma área do espaço conhecida como Expansão Délfica, onde fica o planeta dos xindi, para evitar que a Terra sofra um novo ataque.

Além desta mudança, a Paramount também decidiu mudar a música da abertura, e renomear o seriado para Star Trek: Enterprise. Apesar da abordagem mais militarística, os episódios da terceira temporada tinham bons roteiros, e as críticas recebidas foram bastante favoráveis. Mesmo assim, a audiência não parava de cair, e para a quarta temporada a série deixaria de ser exibida às quartas-feiras, indo para o "death slot" das sextas à noite, horário reservado para séries com risco crítico de cancelamento. Mas pelo menos houve uma quarta temporada, de 22 episódios, que estreou em 8 de outubro de 2004.

Com o machado do cancelamento pendendo sobre suas cabeças, os roteiristas decidiram fechar os arcos da Guerra Fria Temporal e dos xindi, e focar em "mini-arcos" que contavam mais origens de elementos das demais séries da franquia, incluindo episódios envolvendo o Dr. Arik Soong (Brent Spiner), pai do criador do andróide Data, da Nova Geração, e defensor dos Superiores, humanos geneticamente alterados como o vilão Khan. Outro mini-arco famoso foi o da Guerra Civil Vulcana, depois da qual os vulcanos começaram a passar por uma transformação cultural que os deixaria mais parecidos com os da Série Clássica que com os rabugentos vistos até então.

em sentido anti-horário: Reed, T'Pol, Archer, Trip, Sato, Mayweather, PhloxO anúncio do cancelamento da série foi feito em fevereiro de 2005, antes do último episódio, que só iria ao ar dia 13 de maio daquele ano, ser escrito. Isto permitiu, pelo menos, que os roteiristas criassem uma espécie de final para a série, o episódio Estas são as Viagens... (These Are the Voyages...), que contou com a participação especial de dois personagens da Nova Geração, William Riker (Jonathan Frakes) e Deanna Troi (Marina Sirtis). Infelizmente, este último episódio ficou meio equivocado, mostrando seus acontecimentos como se eles fossem uma simulação no holodeck da Enterprise-D, o que rendeu muitas críticas negativas.

Alguns fãs da série, contrários ao cancelamento, ainda tentaram uma campanha para arrecadar 30 milhões de dólares e financiar uma quinta temporada, mas infelizmente os executivos da Paramount se mostraram irredutíveis em sua decisão. Assim, Enterprise se tornou a primeira série de Jornada nas Estrelas desde a Série Clássica a ser cancelada por decisão do canal que a exibia, e não de seus produtores. Quando seu último capítulo foi ao ar, se encerrou um período de quase 18 anos, desde que a Nova Geração estreou em 1987, em que sempre havia uma nova temporada de Jornada nas Estrelas após a anterior. Quando seus cenários foram desmontados, o Estúdio 9 da Paramount ficou pela primeira vez sem nenhum cenário de Jornada nas Estrelas desde que começou a produção do primeiro filme da Série Clássica, em 1978. As críticas negativas à série, aliadas ao insucesso de Nemesis nas bilheterias em 2002, acabaram fazendo com que jamais se cogitasse um filme para o cinema com a tripulação da NX-01.

Enterprise foi o primeiro spin-off de Jornada nas Estrelas a ser produzido em widescreen, o primeiro a ser transmitido em HDTV (a partir da terceira temporada) e o primeiro a ser filmado com tecnologia digital (a quarta temporada). Foi indicado a cinco Saturn Awards, dois Hugo Awards e dezessete Emmys, dos quais venceu quatro. Por outro lado, é considerado o spin-off de Jornada nas Estrelas mais controverso e mais criticado - felizmente, não costuma ser considerado o pior, honra duvidosa muito mais atribuída a Voyager - e esta controvérsia é normalmente atribuída às reclamações dos fãs mais fervorosos, descontentes principalmente com as contradições entre a série e o chamado fanon, "verdades" estabelecidas pelos próprio fãs, normalmente através de material do "universo expandido", como livros - por incrível que pareça, alguns fãs achavam uma afronta até mesmo o fato da música de abertura de Enterprise ser cantada, enquanto a de todos os outros Jornada nas Estrelas era instrumental. Eu, particularmente, acho isso muito ruim, principalmente porque acho que a série ainda não tinha explorado todo o seu potencial quando foi cancelada. Mas, como eu costumo dizer, eu não mando nada mesmo. Pelo menos eu ainda posso assistir aos DVDs.

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