sábado, 10 de fevereiro de 2007

Escrito por em 10.2.07 com 0 comentários

O Senhor dos Anéis

Hoje o átomo chega à incrível marca de duzentos posts. Confesso que não achei que fosse chegar tão longe, principalmente depois que encerrei o BLOGuil. A princípio, pensei em comemorar esta marca notável com uma retrospectiva, mas depois fiquei achando essa uma idéia meio sem graça, e também não queria fazer um post sobre o fato de eu ter alcançado o ducentésimo, como eu fiz quando cheguei ao centésimo post. Diante disso, a única opção que me sobrou foi fazer um post comum, sobre um assunto qualquer. Felizmente, eu tinha um assunto guardado para uma ocasião como esta - na verdade, um assunto sobre o qual eu ainda não tinha tido vontade de falar, mas já que surgiu uma boa ocasião, vamos a ele. Hoje o post é sobre O Senhor dos Anéis!

Aqui no Brasil, a enorme maioria das pessoas conhece O Senhor dos Anéis dos três filmes de Peter Jackson, que foram exibidos no cinema em 2001, 2002 e 2003. Eu não os culpo. Afinal, apesar de ser um dos maiores e mais importantes autores da língua inglesa, Tolkien era meio desconhecido no Brasil antes dos filmes - assim como C. S. Lewis, de quem eu mesmo confesso nunca ter ouvido falar antes do filme de Nárnia. Eu, porém, faço parte de um grupo que leu a versão em livro de O Senhor dos Anéis bem antes do primeiro filme ser lançado. Li emprestado de um colega do CEFET, já que, na época, era difícil encontrar livros de Tolkien nas livrarias (pois é, quem diria; aliás, também houve uma época em que era quase impossível encontrar livros de RPG nas livrarias, mas isso já não é assunto para este post). Confesso que, quando li, achei meio chato, apesar de muito interessante. Culpa talvez do estilo extremamente descritivo de Tolkien, ao qual demorei um pouco a me acostumar, mas hoje até acho legal. De qualquer forma, anos se passaram, até que, graças ao anúncio de que seriam feitos filmes, os três livros de O Senhor dos Anéis passaram a ser encontrados facilmente nas livrarias. Foi nesta época que eu adquiri os meus, e aproveitei também para comprar O Hobbit, primeiro livro de Tolkien, que eu nunca tinha lido, e O Silmarillion (que, na verdade, eu nem comprei, mas ganhei de aniversário), do qual eu já tinha ouvido falar, e que logo se transformou em um dos meus livros preferidos. Após essa segunda leitura, O Senhor dos Anéis também entrou definitivamente para a minha lista, ajudando a consolidar meu interesse e minha admiração pela obra de Tolkien.

Pois bem, vamos adiante. Eu já fiz aqui um post sobre Tolkien, que pode ser encontrado ali na coluna da esquerda, mas vamos a um pequeno resumo: John Ronald Reuel Tolkien, ou simplesmente J. R. R. Tolkien, nasceu em 1892 em Bloemfonteim, África do Sul, filho de um gerente de banco inglês. Aos 3 anos de idade, após o falecimento de seu pai, se mudou para a Inglaterra, acompanhado de sua mãe e irmão. Com o tempo, se tornou um apaixonado por lingüística, literatura e mitologia. Em 1916, se casou, e logo em seguida foi enviado para lutar na Primeira Guerra Mundial. Ao retornar, passou a trabalhar no Dicionário Oxford da Língua Inglesa, onde pesquisava a história e etmologia de palavras de origem germânica. Em 1920 se tornou pesquisador da língua inglesa na Universidade de Leeds, em 1924 foi promovido a professor, e em 1925 se tornou professor de anglo-saxão na Universidade de Pembroke, em Oxford. E aí chegamos ao ponto que interessa.

Tolkien adorava pesquisar sobre mitologia, principalmente a germânica e nórdica, e de certa forma se ressentia de que a Inglaterra, apesar de seu variado folclore, não tivesse uma mitologia semelhante. No intervalo de suas aulas, Tolkien pesquisava o folclore inglês, reunindo material para algo que ele chamava de "O Livro dos Contos Perdidos", uma tentativa de estabelecer uma "mitologia inglesa". Nas histórias deste livro, Tolkien reunia seres fantásticos, como elfos e dragões, usando como cenário a Terra-Média - em inglês, Middle-Earth, uma variação de Middelerd, a antiga palavra usada pelos ingleses para designar o mundo dos humanos, em contraposição ao mundo dos deuses e ao mundo dos mortos. A Terra-Média não era outro planeta ou outra dimensão, mas sim nosso próprio mundo em uma época muito remota, quase indefinida, exatamente como o cenário das lendas da mitologia grega. E, assim como a mitologia grega ocorre em um clima de Idade Antiga, a Terra-Média tem um clima de Idade Média, com reis, cavaleiros e lutas de espada, fato facilmente explicável quando se lembra que quase todas as lendas da Inglaterra se passam neste período.

Tolkien também gostava de contar histórias recheadas de mitologia para seus filhos, que, um dia, lhe pediram que escrevesse um livro. Assim surgiu O Hobbit, a história de... bem, de um hobbit, chamado Bilbo Bolseiro, que um dia é levado pelo mago Gandalf para uma grande aventura, acompanhando um grupo de treze anões, que planejam derrotar o dragão Smaug, o Magnífico, e reaver um tesouro roubado dos anões pela fera. Todos os elementos da história - anões, magos, dragões, aranhas gigantes, artefatos mágicos - pertencem a alguma mitologia, exceto um: os hobbits. Pode-se dizer que Tolkien inventou os hobbits à sua imagem e semelhança: criaturas gentis, caseiras, amantes de cerveja e de fumar cachimbo, que não gostam de correr o mundo vivendo aventuras - Bilbo teve de ser convencido a participar da caça ao tesouro, ou continuaria em sua casinha redonda pelo resto da vida. Para torná-los mais "mitológicos", Tolkien ainda adicionou algumas características físicas aos hobbits: eles têm orelhas pontudas, pés grandes e cabeludos, e mais ou menos um metro de altura.

No início da década de 1930, uma amiga de Tolkien, Elaine Griffiths, estava lhe fazendo uma visita, quando viu seu rascunho de O Hobbit. Griffiths, que trabalhava na Editora Allen & Unwin, achou o trabalho muito interessante, e falou dele à editora Susan Dagnall. Dagnall perguntou a Tolkien se poderia dar uma olhada no rascunho, e o achou tão bom que prometeu mostrá-lo ao dono da editora se Tolkien terminasse de escrevê-lo. O livro ficou pronto em 1936, e foi mostrado a Stanley Unwin, que pediu que seu filho Rayner, de 10 anos, lesse e dissesse o que achou. Rayner adorou o livro, e, entusiasmado, Unwin decidiu publicá-lo.

O Hobbit foi publicado em setembro de 1937, e se tornou um grande sucesso - sua primeira tiragem, de 1.500 exemplares, se esgotou em dezembro do mesmo ano. Imediatamente, a Allen & Unwin começou a pressionar Tolkien por uma continuação. Tolkien começou a trabalhar nesta continuação ainda em 1937, aos 45 anos de idade. Mas ela ainda levaria anos para ser publicada, e mudaria muito até chegar ao que foi efetivamente publicado.

Antes de O Hobbit ser publicado, Tolkien já trabalhava em novas histórias para crianças, sendo Roverandom a mais famosa. Ele também voltou a se dedicar ao Livro dos Contos Perdidos, na esperança de que, se O Hobbit vendesse bem, ele receberia luz verde para publicá-lo. Uma seqüência para O Hobbit não estava em seus planos, mas, diante da pressão da editora, ele decidiu escrever alguma coisa, para ver no que ia dar. A princípio ele pensou em fazer com que Bilbo, tendo gastado todo o tesouro adquirido em sua primeira aventura, estivesse ávido à procura de uma nova. Enquanto pensava nisso, Tolkien teve a idéia que acabaria criando sua obra-prima: em um dos capítulos de O Hobbit, Bilbo se encontra com uma criatura de nome Gollum, que tem em sua posse um anel mágico, capaz de tornar seu portador invisível. Bilbo engana Gollum em uma disputa de charadas, e fica com o anel para si. Tolkien decidiu centrar o enredo de seu novo livro neste anel, que passou de um simples anel mágico ao artefato mais poderoso de toda a Terra-Média - conhecido como o Um Anel (The One Ring, no original). Tolkien pensou em usar Bilbo novamente como protagonista, mas ao mesmo tempo desejava criar uma história com um clima mais sombrio, e Bilbo era muito alegre. Ele também pensou em usar como protagonista o filho de Bilbo, mas isso implicaria em uma esposa para o hobbit, o que também traria alguns problemas. Sua escolha, então, foi fazer com que o herói fosse sobrinho de Bilbo, não por acaso como acontece em diversas lendas gregas, onde o herói de uma aventura é sobrinho de outro herói de uma aventura anterior.

Assim, começava a surgir a história que se tornaria a obra máxima de Tolkien. Tolkien de certa forma sabia disso enquanto escrevia, e não economizou tempo para fazê-lo: além de escrever com calma, reescrever várias passagens quando chegava lá na frente e tinha uma idéia melhor, e ainda aplicar a cada parágrafo seu já famoso preciosismo, Tolkien ainda tinha que freqüentemente interromper seu trabalho devido às suas obrigações como professor. Contam as lendas que o primeiro rascunho mostrado à editora só ficou pronto em 1943, e, depois, disso, Tolkien parou de escrever por um ano inteiro, só retomando o trabalho em 1944. Uma nova versão do rascunho foi apresentada em 1947, e, com a aprovação dos editores, Tolkien fecharia a história em 1948, após mais de dez anos de escrita. Mas se engana quem achou que ele o publicou depois disso: Tolkien ainda revisou e reescreveu várias passagens, só chegando a uma versão final, de seu gosto, no final de 1949.

O resultado foi que o livro, já batizado como O Senhor dos Anéis, ficou com mais de 1800 páginas, incluindo a história em si e um apêndice enorme com curiosidades da Terra-Média. Tolkien ainda criou caso com a editora, pois desejava que seu Livro dos Contos Perdidos, a esta altura já renomeado para O Silmarillion - se vocês quiserem saber o porquê, também tem um post sobre ele na coluna da esquerda - fosse publicado junto com O Senhor dos Anéis. Como O Silmarillion ainda estava inacabado, e ainda iria passar pela minuciosa revisão de Tolkien depois disso, os editores não concordaram, e Tolkien chegou a ameaçar abandonar a Allen & Unwin e apresentar seu livro à Editora Collins. Com o tempo, Tolkien e a Allen & Unwin chegaram a um acordo, o que garantiu a impressão de uma segunda edição de O Hobbit, revisada para se adequar mais aos eventos de O Senhor dos Anéis em 1951, e à promessa de que o novo livro seria impresso em 1952. Mas, como publicar um livro de 1800 páginas era algo impraticável no pós-guerra, a editora pediu que ele revisasse e cortasse algumas passagens do livro. Tolkien também não concordou com isso, e um novo acordo para a publicação só seria alcançado em 1954.

A solução encontrada pela editora foi dividir o livro em três volumes. Ao escrevê-lo, Tolkien já o havia separado em seis tomos; desta forma, o volume 1 ficaria com os tomos I e II, o volume 2 com os tomos III e IV, e o volume 3 com os tomos V, VI e os apêndices. Assim, o primeiro volume, batizado pela editora de A Sociedade do Anel, foi lançado em julho de 1954, e o segundo, As Duas Torres, em novembro daquele mesmo ano. Problemas com os apêndices - que continham muitos quadros e mapas - levaram a um atraso na publicação do terceiro volume, O Retorno do Rei, que só saiu da editora em outubro de 1955. Tolkien ainda tentou mudar o nome do livro, que, na sua opinião, revelava o final da história, para A Guerra do Anel, mas não foi bem sucedido.

Em seu primeiro tomo, A Sociedade do Anel mostra Bilbo bem depois dos eventos de O Hobbit, em seu aniversário de "onzenta e um" (111) anos. Cansado de sua vida pacata e anseando por novas aventuras, ele decide abandonar tudo e viajar pelo mundo, deixando o anel mágico que conseguiu durante sua última aventura com seu sobrinho Frodo. Gandalf, que visitava Bilbo na ocasião, acabou descobrindo que o anel, na verdade, era um artefato maligno de grande poder, pertencente ao feiticeiro Sauron, que no passado criou vários anéis mágicos e os deu aos reis dos homens, elfos e anões; tais "presentes", no entanto, eram um engodo, e com este Anel que agora está com Frodo ele poderia controlá-los e dominar toda a Terra-Média. Sauron foi derrotado pelo humano Isildur, que não teve coragem de destruir o Anel, que, após uma série de eventos, foi parar com Gollum, e então com Bilbo. Após anos se regenerando, Sauron finalmente está próximo de alcançar seu poder total, o que lançará a Terra-Média em uma Era de Trevas, e só precisa do Anel para isso. Para descobrir onde o artefato se encontra, ele capturou e torturou Gollum, e agora seus asseclas, os Espectros do Anel, rumam para o Condado, onde vivem os hobbits. Para não correr perigo, Frodo precisa levar o Anel até Valfenda, lar dos elfos, onde Elrond, que estava presente quando Sauron foi derrotado, decidirá o que fazer com ele. Três amigos de Frodo, os hobbits Sam, Merry e Pippin, acabam envolvidos na história, e rumam com ele para a cidade vizinha de Bree, onde deverão se encontrar com Gandalf, que se aconselhará com seu amigo e também mago Saruman antes disso. Saruman, porém, se voltou para o mal, e Gandalf acaba se tornando seu prisioneiro. Os hobbits, após passarem por muitos perigos, sendo salvos na floresta por um misterioso homem chamado Tom Bombadil, chegam a Bree; lá não há sinal de Gandalf, mas os quatro acabam conhecendo um amigo seu, Passolargo. Acidentalmente, Frodo acaba usando o Anel, o que chama a atenção dos Espectros. Passolargo então os ajuda a fugir, mas Frodo é ferido por um dos Espectros. Para que ele não morra, é levado a Valfenda o mais rápido possível pelo elfo Glorfindel.

No segundo tomo, Passolargo e os hobbits, mais Gandalf, que conseguiu fugir de Saruman, se encontram com Frodo e Elrond em Valfenda. Lá é feita uma reunião com representantes dos elfos, anões e homens, os três povos livres da Terra-Média, para decidir sobre o destino do Anel. Nesta reunião ficamos sabendo que Passolargo é na verdade Aragorn, descendente de Isildur, e herdeiro do trono de Gondor, o reino dos homens, atualmente governado pelo Regente Denethor. Elrond revela que a única forma de destruir o Anel é jogando-o no fogo da Montanha da Perdição, em Mordor, o reino de Sauron, onde o inimigo está reunindo suas tropas para um grande ataque. Aquele que decidir levar o Anel até lá correrá grande perigo, pois o Anel tem inteligência própria, e quer voltar para o seu mestre. Em meio a uma confusão, Frodo se oferece para levar o Anel. Para que ele não vá sozinho, é criada uma comitiva, composta por Gandalf, Aragorn e os três hobbits, mais Legolas Verdefolha, príncipe dos elfos; Gimli, filho de Glóin, um dos anões que acompanharam Bilbo em sua aventura contada em O Hobbit; e Boromir, filho de Denethor. A comitiva, batizada de Sociedade do Anel, parte para o leste, rumo a Mordor. O ponto alto desta primeira parte da jornada é uma luta contra os orcs, servos de Sauron, nas minas de Moria, onde Gandalf enfrenta um balrog, um demônio do mundo antigo, e é dado como morto. Depois disso a Sociedade se recupera na floresta de Lothlórien, onde são recebidos por Galadriel, Rainha dos Elfos, que lhes dá vários presentes que serão muito úteis no futuro. Ao sair da floresta e enfrentar mais orcs, Frodo chega à conclusão de que, enquanto ele estiver com o Anel, seus amigos correrão perigo. Ele decide então abandoná-los e rumar sozinho para Mordor. Ou quase, já que Sam descobre e resolve ir com ele.

As Duas Torres, o livro do meio, é bastante singular: não só começa e termina abruptamente, sem início e sem final, em uma mostra de que O Senhor dos Anéis não foi concebido como uma série, mas sim como uma coisa inteira, mas também tem seus dois tomos bem definidos - o primeiro trata apenas dos eventos envolvendo o que restou da Sociedade do Anel, enquanto o segundo é totalmente focado em Frodo e Sam em sua jornada a Mordor.

Assim, no tomo III vemos que Boromir morre na luta contra os orcs, e que Merry e Pippin são capturados por engano, pois os orcs pensam que eles têm o Anel. Aragorn, Legolas e Gimli seguem os orcs, que acabam sendo mortos pelos cavaleiros de Rohan, fazendo com que Merry e Pippin fujam para a floresta de Fangorn, onde encontram Barbárvore, um ent, ser que lembra uma árvore, mas tem grande inteligência e é capaz de andar e falar. Entrando em Fangorn atrás dos hobbits, os três acabam se reencontrando com Gandalf, que não morreu na luta contra o balrog. Eles então deixam os hobbits sob a guarda de Barbárvore, e partem para conseguir a ajuda de Théoden, Rei de Rohan. Théoden, porém, está sob a influência maligna de seu conselheiro Gríma, na verdade um servo de Saruman, e chega até mesmo a expulsar seu sobrinho Éomer e todos os cavaleiros que o seguem, após a morte de seu filho Théodred em batalha. Gandalf consegue libertar Théoden do feitiço e expulsar Gríma, e parte para encontrar Éomer, enquanto o Rei, acompanhado de Aragorn, Legolas, Gimli e de Éowyn, irmã de Éomer, leva seu povo para a fortaleza do Abismo de Helm, para tentar resistir a um ataque maciço dos orcs. Após a batalha, Gandalf e os heróis partem ao encontro de Saruman, e descobrem que Barbárvore e outros ents destruíram sua cidade de Isengard, como punição por ele estar destruindo a floresta. Em meio aos destroços, Pippin encontra um palantír, uma espécie de bola de cristal conectada diretamente a Sauron, jogado do alto da torre de Saruman por Gríma. Gandalf então ruma para Minas Tirith, capital de Gondor, levando Pippin, para se preparar para a batalha que virá.

No tomo IV, Frodo e Sam, em seu caminho para Mordor, acabam encontrando Gollum, que tenta reaver o Anel. Frodo acaba fazendo um pacto com ele, para que os leve até uma entrada secreta para a terra de Sauron. No meio do caminho, os três são capturados por Faramir, irmão de Boromir, que os leva até um posto avançado mas depois os deixa ir. Enganando os hobbits, Gollum os leva até o lar de Laracna, uma aranha gigante que pica Frodo. Imaginando que Frodo está morto, Sam decide ele mesmo levar o Anel a Mordor, mas depois de descobrir que Frodo está apenas insconsciente, retorna para salvá-lo.

E assim chegamos a O Retorno do Rei, clímax da história. No tomo V, Aragorn recebe Narsil, a espada de Isildur, reforjada e pronta para a batalha. Os exércitos de Gondor e Rohan então se reúnem para enfrentar as tropas de Sauron, em uma batalha que acaba com muitas baixas. Mesmo assim, Aragorn decide levar os sobreviventes para um ataque direto a Mordor, na verdade uma distração para que Frodo e Sam consigam destruir o Anel.

Finalmente, no tomo VI, Sam resgata Frodo dos orcs, e os dois se disfarçam de orcs para poder chegar à Montanha da Perdição. Mas, quando estão quase conseguindo destruir o Anel, primeiro são atacados por Gollum, e depois o Anel domina Frodo, fazendo com que ele se recuse a destruí-lo. De maneira surpreendente, porém, o Anel acaba mesmo sendo destruído, o que destrói Sauron de uma vez por todas, e faz com que seus exércitos debandem, levando os exércitos de Gondor e Rohan à vitória. Aragorn é coroado Rei de Gondor e, após longas despedidas, os hobbits retornam ao Condado. Ao chegar lá, porém, descobrem que Saruman, por vingança, dominou o lugar e escravizou todos os hobbits. Merry e Pippin, agora guerreiros experientes, lideram os hobbits contra o vilão, libertando sua terra. No fim, alguns anos se passam, e Frodo, que jamais conseguiu se recuperar totalmente de sua experiência como Portador do Anel, decide aceitar um convite de Gandalf para se unir a ele, a Bilbo e aos elfos em uma jornada de barco para as Terras Imortais.

O Retorno do Rei ainda traz seis apêndices, que contam a história dos Reis da Terra-Média, detalham uma linha do tempo dos principais acontecimentos, mostram árvores genealógicas das principais famílias hobbits, explicam o calendário do Condado, demonstram regras de escrita e pronúncia de palavras encontradas nos livros, e até mesmo falam dos idiomas e povos encontrados na Terra-Média, com detalhes sobre uma "tradução", como se Tolkien tivesse não escrito os livros, mas os traduzido de algum exemplar há muito perdido.

Desde seu lançamento, O Senhor dos Anéis foi um grande sucesso. Como os custos de impressão no pós-guerra eram altos, Tolkien concordou em só receber participação nas vendas após os livros se pagarem, mas isso ocorreu rapidamente. Desde então, O Senhor dos Anéis já teve diversas novas edições, em três volumes, seis volumes (um para cada tomo, com os apêndices junto com o último) e até mesmo em volume único, como Tolkien imaginou originalmente. O Senhor dos Anéis já foi traduzido para 38 idiomas, tendo os tradutores ampla liberdade para adaptar os nomes dos locais e personagens, para que os jogos de palavras, tão prezados por Tolkien, permaneçam (Bilbo Bolseiro, por exemplo, é Baggins em inglês, e Beutlin em alemão). O único problema com o lançamento em um país estrangeiro aconteceu justamente nos Estados Unidos, quando um editor picareta decidiu "considerar" que o texto não estava protegido pelas leis de direitos autorais norte-americanas, e publicá-lo sem pagar royalties a Tolkien. Curiosamente, a questão foi resolvida quando o próprio Tolkien publicou uma carta a seus fãs, pedindo que não comprassem esta edição. Esta edição foi um fracasso, mas uma "oficial", lançada pela Ballantine Books, foi um fenômeno de vendas. Apesar de todo este sucesso, de ter praticamente inventado a fantasia medieval, e de ter influenciado inúmeros autores pelo mundo afora (inclusive Gary Gygax e Dave Arneson, os criadores do RPG), de vez em quando O Senhor dos Anéis recebe uma crítica desfavorável, como de psicologicamente raso, complexo demais, e até mesmo "alegre demais", com os personagens bons sempre mantendo a ternura mesmo diante da pior das situações. Tolkien e seus fãs costumavam ignorar solenemente estas críticas, mas havia um tipo de comentário que irritava o escritor profundamente: quando algum "entendido" resolvia dizer que o livro era uma metáfora da Segunda Guerra Mundial, com a Sociedade do Anel sendo os Aliados, Mordor como a Alemanha nazista, Sauron no papel de Hitler e, acreditem ou não, o anel sendo a bomba atômica. Tolkien detestava metáforas de todo o tipo, mas principalmente estas, já que começou a escrever o livro bem antes do início da Guerra, e o Um Anel já existia desde bem antes do mundo descobrir que existia uma bomba atômica.

O Senhor dos Anéis já foi adaptado para desenhos animados, peças de teatro e radionovelas, mas a adaptação mais famosa é a para o cinema, feita na forma de três filmes, lançados pela New Line Cinema em 2001, 2002 e 2003. Dirigidos por Peter Jackson e filmados na Nova Zelândia, os três filmes foram rodados simultaneamente, sendo editados mais tarde, o que leva muitos fãs a considerarem que não se trata de uma trilogia, mas de um único filme, assim como o livro é um único livro dividido em três volumes. Juntos, os três filmes arrecadaram mais de dois bilhões e meio de dólares, e levaram 17 Oscars, sendo que O Retorno do Rei ganhou todos os 11 para os quais foi indicado, incluindo o de melhor filme. Todos os três filmes possuem duas versões cada, uma igual à que passou ao cinema e uma "estendida", lançada apenas em DVD e apenas nos Estados Unidos. Vale dizer também que os três filmes são imensos, com em média três horas cada, as versões estendidas maiores ainda (a de O Retorno do Rei tem 4 horas e 12 minutos), e mesmo assim muita coisa dos livros ficou de fora (como Tom Bombadil) ou foi alterada (como a elfa Arwen salvando Frodo ao invés de Glorfindel) - motivo pelo qual os fãs mais radicais torceram o nariz para os filmes. O elenco conta com Elijah Wood (Frodo), Ian Holm (Bilbo), Sean Astin (Sam), Dominic Monaghan (Merry), Billy Boyd (Pippin), Ian McKellen (Gandalf), Christopher Lee (Saruman), Viggo Mortensen (Aragorn), Liv Tyler (Arwen, filha de Elrond e namorada de Aragorn, que tem no filme um papel muito maior do que no livro), Hugo Weaving (Elrond), John Rhys-Davies (o anão Gimli e a voz de Barbárvore), Orlando Bloom (Legolas), Sean Bean (Boromir), Cate Blanchett (Galadriel), Andy Serkis (Gollum), Bernard Hill (Rei Théoden), Brad Dourif (Gríma), Miranda Otto (Éowyn), Karl Urban (Éomer), David Wenham (Faramir) e John Noble (Denethor). E antes que alguém estranhe John Rhys-Davies interpretando um anão, cabe explicar que, através de um efeito especial, os atores que representam hobbits e anões foram "encolhidos". Gollum também é um "efeito especial", uma critura digital que substituiu Andy Serkis, que filmava com uma roupa de chroma key com sistema de captura de movimentos.

Após o lançamento de O Senhor dos Anéis, Tolkien ainda lançaria alguns livros, de contos ou didáticos, mas à Terra-Média ele não voltaria enquanto vivo. Tolkien faleceu em 1973, e somente após sua morte seu filho Christopher compilou seus trabalhos inacabados, publicando-os em forma de livros, a começar por O Silmarillion, lançado em 1977. Outro livro a visitar a Terra-Média, Contos Inacabados, foi lançado em 1980. Por fim, a série Histórias da Terra-Média, uma coleção de 12 volumes, com todos os textos restantes que falavam sobre o local (alguns até engraçados, de tão diferentes, se comparados com as demais obras), foi lançada entre 1983 e 1996.

Hoje em dia, O Senhor dos Anéis figura fácil em qualquer lista das mais importantes obras da língua inglesa. E Tolkien, com certeza, também conseguiu sua viagem para as Terras Imortais, onde deve estar fumando cachimbo, como todo bom hobbit.
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sábado, 3 de fevereiro de 2007

Escrito por em 3.2.07 com 0 comentários

Olimpíadas (XVII)

Uma coisa puxa a outra. Brincadeirinha, hoje é dia de post sobre as Olimpíadas!

Lake Placid 1980


Após um intervalo de 20 anos, os Jogos Olímpicos de Inverno voltaram aos Estados Unidos. De qualquer forma, eles voltariam à América do Norte, pois as duas únicas candidatas a sede para 1980 eram Vancouver, no Canadá, e Lake Placid, que apresentava sua candidatura pela quinta vez, sem contar 1932, quando os Jogos de Inverno foram realizados lá, mas o regulamento era diferente, permitindo que o país sede das Olimpíadas de Verão do mesmo ano simplesmente indicasse a sede de Inverno. A votação terminou empatada, mas, antes do voto de minerva, a cidade canadense retirou sua candidatura, deixando o caminho livre para Lake Placid finalmente sediar sua segunda Olimpíada.

Quase todas as instalações eram novas, sendo poucas das de 1932 reaproveitadas ou reformadas; além disso, para garantir que todos os esportes fossem disputados em condições ideais, foi utilizada pela primeira vez nos Jogos Olímpicos a neve artificial, misturada à natural nas descidas de esqui e trenó. Todo o cuidado dos organizadores valeu a pena, pois os Jogos de Inverno de 1980 são considerados dentre os mais emocionantes, e estão dentre os que tiveram as performances mais impressionantes e a maior quantidade de quebras de recordes.

Os segundos Jogos de Lake Placid foram realizados entre 13 e 24 de fevereiro, com a participação de 1.072 atletas, sendo 232 mulheres. 37 nações foram representadas, entre elas a China, em sua primeira participação olímpica, que só ocorreu graças a muita diplomacia: por considerar Taiwan uma província separatista, e não um país independente, a China não aceitava competir nas Olimpíadas enquanto o COI permitisse a participação de uma delegação de Taiwan, principalmente porque este permitia que ela utilizasse seu nome verdadeiro, República da China, e sua bandeira vermelha e azul, ambos considerados afronta pelo governo da China comunista. Após muitas negociações, o COI conseguiu chegar a um acordo com a China e Taiwan: Taiwan passaria a competir sob o nome de Chinese Taipei ("Taipei chinês", sendo que Taipei é o nome em chinês da capital de Taiwan, Taipé), sob uma bandeira especialmente criada para as Olimpíadas, e com o hino olímpico tocando caso algum de seus atletas vencesse uma competição. Em troca, a China deixaria de se opor a uma delegação separada de Taiwan, e participaria dos Jogos normalmente. Acordo firmado, a China aceitou enviar uma equipe de 13 atletas da patinação em velocidade, que não conseguiram resultados expressivos.

O programa dos Jogos contou com 38 provas de 10 esportes: biatlo, bobsleding, combinado nórdico, esqui alpino, esqui cross country, hóquei no gelo, luge, patinação artística no gelo, patinação no gelo em velocidade e saltos com esqui (clique aqui para ver todas as provas do programa). Como já era tradicional, esta Olimpíada também teve um mascote, um guaxinim de nome Roni. Roni foi o primeiro mascote a ser usado em conjunto com os pictogramas, ou seja, o comitê organizador preparou imagens de Roni praticando os esportes do programa olímpico, que foram distribuídas à imprensa e utilizadas em vários pôsteres.

Vamos começar a citar os muitos destaques de 1980 pelo esqui alpino. No masculino, o destaque foi o sueco Ingemar Stenmark. Nas disputas do esqui alpino são disputadas duas baterias, sendo que a soma dos tempos determina a colocação dos atletas. Na disputa do slalom, Stenmark terminou em terceiro na primeira bateria, mas um tempo quase um segundo mais rápido que os demais competidores na segunda bateria fez com que ele terminasse com o melhor tempo no geral, e com a medalha de ouro no pescoço. Muitos disseram que foi sorte, mas três dias depois Stenmark repetiu a proeza no slalom gigante, terminando em quarto na primeira bateria, e vencendo a segunda com um tempo que lhe garantiu um segundo ouro. Mas mais impressionante que Stenmark foi o grande destaque do feminino, Hanni Wenzel, do pequenino país de Liechtenstein, um principado encravado nos alpes, entre a Suíça e a Áustria. Wenzel disputou as três provas do esqui alpino, e na primeira delas, o downhill, terminou em segundo lugar, ganhando a medalha de prata. Apesar de uma grande surpresa, ainda não era o suficiente para qualificá-la como favorita para a prova do dia seguinte, o slalom gigante. Surpreendendo a todos novamente, Wenzel ganhou a prova com quase meio segundo de vantagem, e transformou seu Liechtenstein na menor nação a já ganhar um ouro olímpico. Não satisfeita, Wenzel retornou dois dias depois para vencer também o slalom, registrando o melhor tempo nas duas baterias, e colocando um segundo e meio de vantagem sobre a medalhista de prata. O Liechtenstein ainda conseguiu uma segunda medalha de prata no slalom gigante masculino com Andreas Wenzel, irmão de Hanni.

O bobsleding foi dominado por Alemanha Oriental e Suíça. Nas duplas, os suíços terminaram com o ouro, e os alemães com prata e bronze; nos quartetos, foi a vez dos alemães ficarem com ouro e bronze, deixando a prata para os suíços. A Alemanha Oriental ainda conseguiu o ouro nas simples e duplas do luge, mas no feminino a favorita Melitta Sollmann acabou surpreendida pela soviética Vera Zozula.

Dois atletas ganharam seu terceiro ouro seguido em 1980: Ulrich Wehling, da Alemanha Oriental, é até hoje o único homem a ganhar três ouros seguidos em provas individuais dos Jogos de Inverno, proeza que conseguiu no combinado nórdico. Dentre as mulheres, a soviética Irina Rodnina, da patinação artística em dupla, chegou a esta marca com o mesmo parceiro de 1976, Alexander Zaitsev, mas em 1972 ela havia ganhado com Aleksei Ulanov. Outro soviético, Alexandr Tikhonov, também conseguiu uma proeza de respeito, o quarto ouro seguido, no revezamento 4 x 7,5 km do biatlo.

Dois outros atletas ganharam múltiplas medalhas de ouro. O soviético Nikolay Zimyatov conseguiu três, no esqui cross country, provas dos 30 km, 50 km e no revezamento 4 x 10 km. O norte-americano Eric Heiden foi ainda mais longe, e entrou para a História ao vencer todas as cinco provas da patinação em velocidade, quebrando o recorde olímpico em todas elas, e o recorde mundial nos 10.000 metros. Heiden continua como o único atleta a conseguir esta proeza, e se tornou um ícone da patinação em todo o mundo.

Mas, mesmo com a proeza de Heiden, o evento mais memorável de 1980 ocorreu no hóquei no gelo. Meses antes dos Jogos, a União Soviética havia invadido o Afeganistão, ato reprovado pelos Estados Unidos e seus aliados. O time de hóquei soviético era o mais forte da época, e vinha de quatro ouros seguidos, mas havia a preocupação de que eles se recusariam a disputar as Olimpíadas, que ocorreriam em solo norte-americano. Ao contrário das previsões, porém, os soviéticos decidiram defender seu título, e agendaram até mesmo um amistoso, três dias antes da cerimônia de abertura, no famoso Madison Square Garden, contra o time dos Estados Unidos. O time norte-americano, diferentemente do soviético, cheio de estrelas acostumadas a jogar juntas, era composto de universitários, muitos vindos de universidades rivais, e que raramente haviam jogado como uma equipe. O resultado do amistoso refletiu bem esta diferença, com a vitória soviética por 10 a 3. Ao longo da competição, porém, o técnico Herb Brooks conseguiria unir e motivar o time, fazendo com que os Estados Unidos se classificassem para o quadrangular final em segundo lugar em seu grupo, com quatro vitórias e um empate, contra a Suécia. Então, no jogo mais aguardado do torneio, os Estados Unidos fizeram o impensável, e, após ficar atrás no placar por toda a partida, venceram os soviéticos por 4 a 3. Com a vitória, bastou que os norte-americanos vencessem a Finlândia para chegar à medalha de ouro, mas isso foi apenas um pequeno detalhe: o jogo dos Estados Unidos contra a União Soviética ganhou na imprensa o apelido de "Milagre no Gelo", foi eleito pela conceituada revista Sports Illustrated como o maior momento esportivo do Século XX, e é até hoje o mais famoso jogo de hóquei da história dos Estados Unidos. A história do jogo acabou até mesmo virando filme, com Kurt Russell no papel de Brooks.

Os americanos, que tanto se orgulham de sua capacidade de organização e superação, realmente deram um show em Lake Placid, tanto nas competições quanto fora delas. Infelizmente, naquele mesmo ano, na Olimpíada de Verão, considerada por todo o planeta como o principal evento esportivo do mundo, eles fariam feio, muito feio...

Moscou 1980


Graças a uma crise do petróleo em 1972, organizar uma Olimpíada no final da década de 70 e início da de 80 era um negócio muito, muito caro. Por causa disso, para sede dos Jogos de 1980 se apresentaram apenas duas candidatas, não por acaso as mesmas duas que haviam perdido o pleito anterior para Montreal: Moscou, capital da então União Soviética, e Los Angeles, uma das principais cidades dos Estados Unidos. Na reunião do COI de 1974, Moscou acabou ganhando de lavada, 39 votos a 20. Finalmente seria realizada uma Olimpíada em um país comunista. Imediatamente, os soviéticos se puseram a trabalhar para mostrar ao mundo que eram capazes de realizar a maior e mais fantástica Olimpíada de todos os tempos. E teriam verdadeiramente conseguido, não tivesse um triste episódio manchado o evento.

Sendo o maior país do mundo, a União Soviética fazia fronteira com nada menos que 12 outros países, dentre eles o Afeganistão. Em 1978 e 1979, o Afeganistão, que já vinha de um golpe militar sanguinário em 1973, sofreu nada menos que três outros golpes, e mergulhou em uma guerra civil. Não querendo esta bagunça tão perto de sua fronteira, em dezembro de 1979 a União Soviética decidiu invadir o Afeganistão, supostamente para restaurar a paz. Para o Presidente dos Estados Unidos, o democrata Jimmy Carter, a intenção dos soviéticos era outra: ampliar seu território e desestabilizar a região, atitude esta inaceitável na visão do governo norte-americano. Como protesto, Carter lançou um ultimato: se a União Soviética não retirasse todas as suas tropas do Afeganistão até o dia 20 de fevereiro de 1980, os Estados Unidos boicotariam os Jogos.

No início, ninguém levou muito a sério. Afinal, desde a escolha de Moscou como sede, na mesma proporção em que os soviéticos trabalhavam para mostrar ao vivo para todo o planeta a nação desenvolvida que eram, os atletas norte-americanos trabalhavam com um só objetivo em mente: ganhar de seus maiores rivais dentro da casa do adversário - nenhum dinheiro foi poupado para que os norte-americanos vencessem os soviéticos no maior número de provas possível em Moscou. A rede de televisão NBC já se preparava para a cobertura da vitória em terras inimigas, tendo pago 72 milhões de dólares pelos direitos exclusivos de transmissão das imagens em solo norte-americano. Além disso, Carter concorreria à reeleição exatamente em 1980, e nada daria uma alavancada maior em sua campanha do que um triunfo norte-americano nos Jogos. Por causa disso, o ultimato do Presidente foi visto como um blefe, e os treinamentos, seletivas e preparativos para a viagem foram mantidos, como se nada estivesse acontecendo.

Carter, porém, estava firme em sua decisão. Comunicou ao comitê olímpico norte-americano que nenhum atleta deveria embarcar rumo a Moscou, ameaçou cassar os passaportes daqueles que desrespeitassem a ordem, e começou a conclamar outros países para aderir ao boicote. De nada adiantaram os apelos de atletas e dirigentes, lembrando inclusive as palavras de outro norte-americano, o ex-Presidente do COI Avery Brundage, para quem as rivalidades políticas jamais deveriam interferir no andamento dos Jogos: no dia 21 de março, os Estados Unidos e mais 64 países - incluindo Alemanha Ocidental, Japão, Coréia do Sul, Quênia, Canadá, Nova Zelândia, Argentina e China, que não era capitalista mas também não ia com a cara da União Soviética - anunciaram oficialmente que estavam desistindo de participar dos Jogos de 1980. Muitos outros, como Grã-Bretanha, Austrália e Itália, aderiram politicamente ao boicote, mas deixaram seus atletas livres para competir de forma independente caso quisessem. Por causa disso, atletas de 16 países, sendo 13 da Europa Ocidental, competiram sob a bandeira do COI, tendo a bandeira olímpica hasteada e o hino olímpico executado ao ganharem medalhas, ao invés das bandeiras e hinos de suas nações, o que acabou empobrecendo ainda mais o espetáculo.

Por causa do boicote, só participariam dos Jogos de Moscou, realizados entre 19 de julho e 3 de agosto, atletas de 81 nações, o menor número desde 1956. Ao todo, 5.353 atletas, sendo 1.088 mulheres, competiriam em 203 provas de 24 esportes: atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, equitação, esgrima, futebol, ginástica artística, handebol, hóquei, judô, levantamento de peso, luta olímpica, natação, pentatlo moderno, polo aquático, remo, saltos ornamentais, tiro com arco, tiro esportivo, vela e vôlei (clique aqui para ver todas as provas do programa). O sambô, uma luta de origem russa, estava prevista no programa como esporte de demonstração, mas acabou desconsiderado pelo COI porque todos os competidores eram soviéticos.

Sem a participação dos principais atletas do mundo capitalista, muitas das disputas perderam o brilho. A Cerimônia de Abertura, porém, não tinha nada a ver com isso, e é até hoje considerada uma das mais belas e emocionantes de todos os tempos. Verdade seja dita, foi a primeira Cerimônia de Abertura semelhante a um grande show, como ocorre hoje em dia. Além do tradicional desfile das nações, dos discursos, e da pira olímpica, acesa pelo jogador de basquete Sergei Belov, responsável pelos dois pontos mais controversos da história do esporte, aqueles da final de 1972, a Cerimônia contou com a participação de três mil jovens soviéticos, que, no gramado do Estádio Lênin, hoje Luzhniki, exibiram danças folclóricas, trajes típicos de todos os cantos do país, coreografias animadas e encantadoras. Mas o que tomou todo o mundo de surpresa foi que os soviéticos conseguiram treinar até o que não deveria ser treinado: a platéia. Na entrada, foram distribuídos, aos sentados em alguns locais estratégicos, cartões de papelão desenhados de ambos os lados. A um sinal imperceptível, o portador de cada cartão deveria levantá-lo, e, em algumas ocasiões, agitá-lo ou girá-lo. O resultado foi um belíssimo e incrível mosaico nas arquibancadas, formando desenhos que iam das bandeiras dos países participantes a paisagens e construções típicas da União Soviética, passando pelos anéis olímpicos entrelaçados e pelo mascote dos Jogos. Ah, sim, o mascote. Os Jogos de Moscou tiveram o mascote mais carismático de todos os tempos - e, dizem as más línguas, o último que prestou: Mikhail Potapych Toptygin, ou simplesmente o Ursinho Misha, onipresente durante o evento, em pôsteres, bonecos de pelúcia, pins, nos painéis da cerimônia de abertura, e até mesmo no gramado, quando seiscentas crianças soviéticas vestidas de Misha apresentaram uma coreografia divertida, mas perfeitamente sincronizada, como mandava a organização comunista.

A organização, aliás, foi como o estereótipo da sociedade comunista: funcional, rígida, perfeita - mas com uma tremenda falta de tato. Ninguém poderia reclamar de nenhuma instalação esportiva - do Estádio Olímpico à piscina, da Vila Olímpica ao velódromo, dos ginásios aos estacionamentos, tudo ficou pronto com a devida antecedência, tudo funcionava como um relógio, tudo foi feito para apagar da memória qualquer problema tido em qualquer edição anterior dos Jogos e exaltar a eficiência do povo soviético. Infelizmente, ninguém tampouco poderia elogiar a beleza das construções, o carinho desse mesmo povo soviético, ou a boa comida de seus restaurantes. Tudo fora feito para ser funcional, não carismático. E os atletas ainda tiveram um problema extra, a segurança exagerada. Para um ato tão comum quanto um passeio fora da Vila Olímpica, era necessária uma infinidade de autorizações que não vinham nunca, e, quando vinham, os atletas só poderiam sair acompanhados de um guia, e visitar o que o guia quisesse mostrar.

Dois dos esportes mais prejudicados pelo boicote foram os mais populares das Olimpíadas, o atletismo e a natação. Para se ter uma idéia do estrago nas piscinas, basta lembrar que os Estados Unidos, desde 1960, conquistavam quase todas as medalhas de ouro em disputa no masculino. À ausência dos norte-americanos, a União Soviética acabou levando sete ouros, algo impensável em condições normais de disputa. Um dos atletas soviéticos, porém, não deixou dúvidas quanto à sua categoria: Vladimir Salnikov, ouro nos 400 e nos 1.500 metros, quebrando o recorde olímpico em ambas as provas, o recorde mundial na segunda, e se tornando o primeiro homem a nadar 1.500 metros em menos de 15 minutos. Até 1986, Salnikov disputaria 61 provas de 1.500 metros, vencendo todas. Um tira-teima contra os rivais capitalistas, porém, só viria em 1988, quando, surpreendentemente, Salnikov ganharia seu segundo ouro olímpico, já aos 28 anos de idade.

No feminino, a ausência mais sentida foi da norte-americana Mary Meagher, que aos 15 anos se tornara a primeira mulher a nadar os 100 metros borboleta em menos de um minuto. Como em Montreal, as piscinas foram dominadas pelas alemãs orientais, que conquistariam 11 dos 13 ouros possíveis, fazendo o pódio inteiro em seis provas. Os maiores destaques foram Rica Reinisch, 15 anos, ouro e recorde mundial nos 100 e 200 metros costas e no revezamento 4 x 100 metros medley; Ute Geweniger, 16 anos de idade, ouro e recorde mundial nos 100 metros peito e revezamento 4 x 100 metros medley; Ines Diers, 17 anos, dois ouros, duas pratas e um bronze nas provas de nado livre; e Barbara Krause, de todas a que possuía a história mais curiosa: duas semanas após quebrar o recorde mundial dos 400 metros livre, em 3 de julho de 1976, Krause, de 17 anos, sentira uma dor absurda no peito, tão forte que a fez pensar que morreria imediatamente. Atendida com a rapidez necessária, sobreviveu, mas foi proibida de competir em Montreal. O diagnóstico foi uma angina, imediatamente atribuída pelos pais da garota ao excesso de treinamentos. A versão divulgada pelo governo alemão, porém, dizia tratar-se de problema genético, e, após se recuperar, Krause voltou aos treinamentos. Felizmente, não só ela não teve qualquer outro problema, como também conseguiu três ouros em 1980, justamente nas provas mais velozes, os 100 e 200 metros livre e o revezamento 4 x 100 metros livre, conseguindo o recorde olímpico nas três provas, e só não quebrando o mundial nos 200 metros, onde ganhou ultrapassando Diers com uma arrancada fulminante nos 50 metros finais.

Outro esporte onde a Alemanha Oriental dominou o alto do pódio foi o Remo, onde ganhou sete dos oito ouros possíveis no masculino e quatro de seis no feminino. Dentre outros, a Alemanha Oriental ainda levou o ouro do handebol masculino, e um de seus atletas, Waldemar Cierpinski, ganhou a maratona pela segunda vez seguida; além dele, apenas Abebe Bikila conseguiu este feito.

No boxe, a ausência dos norte-americanos favoreceu Cuba, que conquistou seis dos onze ouros em disputa, além de duas pratas e dois bronzes, só não subindo ao pódio na categoria moscas. O maior destaque foi mais uma vez o pesado Teófilo Stevenson, que chegou ao seu terceiro ouro seguido em uma luta contra o soviético Pyotr Zaev, que mais fugiu do que lutou.

Na ginástica, os holofotes se voltaram mais uma vez para Nadia Comaneci, que terminou os Jogos com dois ouros, na trave de equilíbrio e nos exercícios de solo, e duas pratas, nos exercícios combinados individual e por equipes. Mas o maior destaque acabou sendo um homem, o soviético Alexandr Dityatin, único ginasta até hoje a subir ao pódio em todas as oito modalidades, conseguindo ouro nas argolas e nos exercícios combinados individual e por equipes, prata na barra horizontal, barras paralelas, salto sobre o cavalo e cavalo com alças, e bronze nos exercícios de solo. Outros atletas soviéticos que se destacaram foram Uladzimir Parfianovich, que conseguiu três ouros na canoagem, categoria caiaque, sendo dois em dupla com Sergei Chukhrai; e Valentyn Mankin, ouro na vela, classe Star, ao lado de Aleksandr Muzotsenko. Mankin entrou para a história como o único velejador a conseguir três ouros olímpicos em três classes diferentes - em 1972, em parceria com Vitaly Dyrdyra, havia conquistado o título da Tempest, e em 1968 foi ouro na Finn.

Nos esportes coletivos, a União Soviética levou o ouro do vôlei masculino e feminino, do handebol e do basquete feminino e do pólo aquático. No futebol e no basquete masculino, ficou com a medalha de bronze; no primeiro, perderia nas semifinais para a Alemanha Oriental, que por sua vez perderia o ouro para a Tchecoslováquia, e no segundo cairia diante da surpreendente Iugoslávia, prata em 1976, que desta vez chegaria ao ouro vencendo na final uma ainda mais surpreendente Itália. Mas o esporte coletivo mais curioso em 1980 foi o hóquei: no masculino, aderiram ao boicote nada menos que os cinco primeiros colocados de 1976, além de outras seis equipes classificadas no pré-olímpico, o que deixou o torneio apenas com Índia, União Soviética e Polônia. Como o regulamento da época previa um mínimo de seis times, os soviéticos convidaram quem quisesse participar. Responderam ao convite Espanha, Cuba e Tanzânia. Assim, após 16 anos, a Índia voltou a conquistar o ouro, seguida da Espanha e dos soviéticos. Mas isso não foi nada diante da surpresa que se desvelou no feminino: todos os times, menos a União Soviética, decidiram boicotar o torneio. Convites distribuídos às pressas, atenderam ao chamado Tchecoslováquia, Índia, Áustria, Polônia, e o Zimbábue, que até abril de 1979 se chamava Rodésia e era colônia da Grã-Bretanha. Pois não somente o Zimbábue enviou a Moscou um time composto apenas por brancas descendentes dos colonizadores, como também acabou ganhando três partidas e empatando duas, chegando ao primeiro ouro de sua história, à frente de tchecoslovacos e soviéticos.

No atletismo também foi sentida a ausência dos norte-americanos, e as atenções do mundo acabaram se voltando para dois britânicos, Steven Ovett e Sebastian Coe. Personalidades opostas, rivais declarados que se detestavam mutuamente, Ovett e Coe disputariam as mesmas provas, os 800 e os 1.500 metros. No dia da disputa dos 800, quem liderava a prova até bem perto de seu final era um brasileiro, Agberto Guimarães, mas, na entrada da última curva, os britânicos deram seu bote, cada um com uma estratégia diferente: enquanto Ovett ultrapassou os adversários de qualquer jeito, se metendo entre eles, Coe permaneceu no melhor traçado, e esperou o melhor momento para uma arrancada. A tática de Ovett se mostrou melhor, e ele venceu a prova, deixando Coe com a prata, o soviético Nikolai Kirov com o bronze, e Agberto na quarta posição. Em uma entrevista após a prova, Coe se limitou a declarar que aquela havia sido a pior corrida de sua vida. Mas ele teria a chance de uma revanche seis dias depois, nos 1.500 metros; desta vez Coe adotou uma estratégia melhor, correndo o tempo todo atrás do alemão oriental Jurgen Straub, que disparara logo na largada, aproveitando seu vácuo e se livrando dos retardatários com rapidez. Nos últimos metros da prova, tanto Coe quanto Ovett arrancaram, e Straub decidiu arrancar com eles. Coe ganhou a prova, seguido de Straub e Ovett. Dizem as lendas que, após a prova, os rivais decidiram se confraternizar, e comemoraram seu desempenho tomando um uísque juntos.

Ainda nas distâncias longas, merece destaque o etíope Miruts Yifter, campeão dos 5.000 e dos 10.000 metros, como o finlandês Lasse Virén havia feito em 1972 e 1976. E em pelo menos duas provas do atletismo a vontade dos fiscais soviéticos de que seus atletas vencessem a qualquer custo acabou atrapalhando os adversários. Uma delas foi nos 100 metros, onde, ao contrário do que preza a lógica, em uma das semifinais ficaram todos os favoritos, enquanto na outra o soviético Aleksandr Aksinin corria contra atletas menos qualificados, tanto que o tempo de sua vitória corresponderia ao sétimo tempo quando comparados os das duas semifinais. Na final, Aksinin se limitaria ao quarto lugar, mas dois dos favoritos, o campeão de 1976 Hasely Crawford, de Trinidad e Tobago, e o alemão oriental Eugen Ray, ficariam de fora. Venceria a prova o britânico Allan Wells, primeiro escocês a ganhar um ouro no atletismo desde 1924.

O segundo episódio de favorecimento foi ainda mais descarado: no salto triplo, competia o soviético Viktor Saneyev, tricampeão da prova, que, caso ganhasse novamente, se igualaria ao norte-americano Al Oerter, com quatro ouros olímpicos seguidos no atletismo. Desnecessário dizer, os fiscais decidiram dar uma ajudinha para que Saneyevn atingisse seu objetivo, prejudicando seu maior adversário na prova, o brasileiro João Carlos de Oliveira, apelidado João do Pulo, bronze em Montreal, bicampeão dos Jogos Pan-Americanos e recordista mundial do salto triplo desde 1975. Em Moscou, João teve uma excelente performance, mas os fiscais decidiram anular nove de suas doze tentativas, incluindo um salto perfeito e meio metro mais longo que o melhor de Saneyev, que nem as câmeras de televisão souberam precisar por que foi anulado. João acabou limitado ao bronze, mas, como que por castigo, Saneyev também não conseguiria o ouro, sendo derrotado em sua última tentativa pelo também soviético Jaak Udmae. Um ano e meio após os Jogos, João sofreria um acidente automobilístico em São Paulo, que resultaria na amputação de sua perna direita e no fim de sua carreira como atleta. Ele seguiria como militar, e posteriormente deputado estadual, até falecer em 1999.

O Brasil, apesar de estar vivendo sob uma ditadura militar anticomunista, decidiu não boicotar os Jogos, e enviou a Moscou 109 atletas, sendo 94 homens e 15 mulheres, retornando com o melhor resultado de sua história: quatro medalhas, sendo duas de ouro e duas de bronze. Jamais o país havia ganhado quatro medalhas em uma mesma Olimpíada, quanto mais duas de ouro. Um dos bronzes, como já vimos, veio do salto de João do Pulo; o outro, do revezamento 4 x 200 metros livre da natação, que ainda fez bonito com Djan Madruga, quarto lugar nos 400 metros livre, atrás de três soviéticos. Outros atletas que ficaram próximos de medalha foram o já citado Agberto Guimarães, quarto lugar nos 800 metros do atletismo; o judoca Walter Carmona, quinto lugar na categoria médio; e a equipe do revezamento 4 x 400 metros do atletismo, também quinto lugar. Nos esportes coletivos, o Brasil não foi bem, sequer se classificando nos pré-olímpicos do futebol e do basquete masculino. No basquete, o país até recebeu um convite após a desistência dos boicotadores, e chegou a se classificar na primeira fase perdendo somente para os soviéticos, mas novas derrotas na segunda fase para Espanha e Iugoslávia deixaram os brasileiros fora das semifinais. No vôlei, o masculino terminou em quinto lugar, e o feminino, em sua primeira participação olímpica, em sétimo.

Mas, verdade seja dita, os dois ouros do Brasil não advieram de favorecimento devido à ausência dos países ligados ao boicote: vieram da vela, disputada nas águas de Tallinn, atual capital da Estônia, a primeira na classe Tornado, com Alexandre Welter e Lars Björkström, a segunda na classe 470, com Marcos Soares e Eduardo Penido. Outro brasileiro, Claudio Biekarck, ainda conseguiu um quarto lugar na classe Finn.

Não fosse pelo boicote, os Jogos de 1980 sem dúvida teriam sido os melhores de todos os tempos. Até mesmo a Cerimônia de Encerramento foi algo fabuloso, com um novo show dos dançarinos e dos painéis da platéia. No fim, Lord Killanin passou o bastão da presidência do COI a seu sucessor, o espanhol Juan Antonio Samaranch, que prometeu trabalhar para fazer de 1984 os Jogos da Reconciliação. Infelizmente, por uma armadilha do destino, os Jogos de 1984 seriam realizados nos Estados Unidos, e a União Soviética, evidentemente, encontraria sua forma de se vingar, coordenando um novo boicote, desta vez dos países comunistas.

Talvez por isso, Misha, antes de subir aos céus amarrado em um monte de balões de gás, em um dos painéis formados pela platéia, chorou. Um choro não só de quem estava triste porque sua Olimpíada estava acabando, mas de quem não se conformava que a política continuasse prejudicando o esporte.

Série Olimpíadas

Lake Placid 1980
Moscou 1980

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