sábado, 6 de janeiro de 2007

Olimpíadas (XVI)

E vamos ao primeiro post olímpico do ano!

Innsbruck 1976


Na reunião do COI de 1970, a cidade norte-americana de Denver, no Colorado, foi escolhida para sede das Olimpíadas de Inverno de 1976, vencendo Whistler, no Canadá, Tampere, na Finlândia e Sion, na Suíça. Porém, em 1972 uma crise do petróleo elevou os custos planejados para a realização das obras necessárias, e o Estado do Colorado teria de investir muito dinheiro público para que tudo ficasse pronto a tempo. Além disso, havia a preocupação de que algumas das instalações, como a pista de Bobsleding, poderiam trazer danos ecológicos à cidade. O povo de Denver, então, se pôs contra a realização dos Jogos, e um plebiscito foi realizado em novembro, onde a vontade da maioria decidiu que sinto muito, mas ali não teríamos Olimpíadas.

O COI então decidiu passar a sede para Whistler, a segunda colocada na votação, mas se viu diante de um novo problema: naquele mesmo ano de 1972 havia sido eleita uma nova assembléia legislativa para a Colúmbia Britânica, a província canadense onde Whistler se localizava, e os políticos eleitos também eram contra a realização dos Jogos lá, ao contrário de seus antecessores, que propuseram a candidatura quatro anos antes. Como o tempo estava ficando curto, e nem Tampere nem Sion tinham instalações adequadas prontas, o COI decidiu repetir uma das sedes anteriores, de forma que pudessem ser reutilizados os ginásios, pistas, e até a Vila Olímpica. Assim, os Jogos de Inverno de 1976 caíram no colo de Innsbruck, Áustria, que já os havia realizado apenas doze anos antes.

Quem está acompanhando estes posts já há algum tempo - e tem boa memória - deve se lembrar que, em 1964, uma falta crônica de neve quase inviabilizou os Jogos nesta mesma Innsbruck, de forma que sua escolha pode parecer não muito inteligente. Mas Innsbruck, ao saber das confusões na escolha de sede, havia se oferecido prometendo não medir esforços para que os Jogos fossem um sucesso, e o COI resolveu pagar pra ver. Felizmente, não se arrependeu: desta vez não houve falta de neve, nem acidentes fatais, e os austríacos puderam se orgulhar de ter realizado um evento esportivo onde o esporte realmente foi a estrela maior.

Os Jogos de Inverno de 1976 foram realizados entre 4 e 15 de fevereiro, e contaram com a participação de 1.123 atletas, sendo 231 mulheres, representando 37 nações em 37 modalidades de 10 esportes: biatlo, bobsleding, combinado nórdico, esqui alpino, esqui cross country, hóquei no gelo, luge, patinação artística no gelo, patinação no gelo em velocidade e saltos com esqui. Como era a segunda vez que Innsbruck sediava uma Olimpíada, os organizadores decidiram que na cerimônia de abertura seria acesa não uma, mas duas piras gêmeas, a de 1964 e outra construída especialmente para os Jogos de 1976, ambas acesas por medalhistas de 1964, Christl Haas, do esqui alpino, e Josef Feistmantl, do luge. E pela primeira vez os Jogos de Inverno tiveram um mascote oficial, Schneemandl, um homem de neve com nariz de cenoura e chapéu típico da região, vendido como boneco de pelúcia para ajudar a angariar fundos para o evento.

A patinação artística estreou um novo evento em 1976, a dança no gelo, mistura de patinação e dança de salão, disputada por casais. Os favoritos eram os norte-americanos Colleen O'Connor e James Millns, que acabaram ficando com o bronze, pois a prova foi dominada pelos soviéticos, que ganharam o ouro com Lyudmila Pakhomova e Aleksandr Gorshkov, e a prata com Irina Moisyeva e Andrey Minenkov. Outra surpresa foi o ouro do britânico John Curry na categoria simples. Curry não era muito querido dos jurados nas competições que disputava, pois eles alegavam que ele enfatizava movimentos bonitos mas fáceis em detrimento dos movimentos mais técnicos e mais difíceis. Nos Jogos, porém, Curry aliou sua elegância habitual a saltos velozes e precisos, recebendo a maior nota final da história da patinação artística no gelo masculina. Também merece destaque o norte-americano Terry Kubicka, que não ganhou medalha, mas foi o primeiro patinador a executar um mortal de costas durante sua apresentação.

O esqui alpino teve dois grandes destaques, um no masculino e um no feminino. A alemã ocidental Rosi Mittermaier participava de sua primeira competição internacional de grande porte, mas isso não a impediu de vencer a descida com quase meio segundo sobre a favorita austríaca Brigitte Totschnig. Três dias depois ela ganhou também o slalom, e poderia ter entrado para a História como a primeira mulher a conseguir um alpine sweep olímpico, mas na final do slalom gigante acabou ficando 12 décimos de segundo atrás da canadense Kathy Kreiner. Com dois ouros e uma prata, Rosi foi aclamada em sua Alemanha natal, onde ganhou o apelido "Gold-Rosi" ("Rosa de Ouro"). No masculino, o destaque veio da casa, o austríaco Franz Klammer, que desceu como um louco os últimos mil metros da prova de descida, quase voando, com seus esquis mal em contato com o solo, mas ainda assim sob seu controle, tudo para evitar um segundo título de seu rival, o suíço Bernhard Russi. Klammer ganhou o ouro apenas 33 centésimos a frente de Russi, e sua descida foi eleita a imagem mais memorável dos Jogos de 1976.

O esqui cross country foi dominado pelos soviéticos, que ganharam quatro ouros, duas pratas e quatro bronzes. Bill Koch, prata nos 30 Km, é o único norte-americano até hoje a ganhar uma medalha no cross country. Os soviéticos também ganharam os dois ouros do biatlo, além de conquistar mais uma vez o título do hóquei, de forma invicta, em um torneio onde vários jogadores da Tchecoslováquia contraíram uma gripe fortíssima, e um deles até foi pego no anti-doping no jogo contra a Polônia, fazendo com que seu time perdesse os pontos da partida. A Alemanha dominou o combinado nórdico, com os orientais Ulrich Wehling e Konrad Winkler ganhando ouro e bronze, e o ocidental Urban Hettich ficando com a prata. A Alemanha Oriental também fez a festa do trenó, levando pra casa as duas medalhas de ouro do bobsleding e as três do luge. Nos saltos com esqui, curiosamente, a Áustria levou ouro e prata na colina de 90 metros e bronze na de 70 metros, enquanto a Alemanha Oriental fez ouro e prata na colina de 70 metros e bronze na de 90 metros. E na patinação em velocidade tivemos oito medalhistas de ouro diferentes em nove provas, sendo a única bicampeã a soviética Tatyana Averina, ganhadora dos 1.000 e dos 3.000 metros.

No fim, mesmo com o domínio desproporcional dos soviéticos - 13 ouros contra 7 dos alemães orientais e apenas 3 dos norte-americanos - os segundos Jogos de Innsbruck foram um belo evento. Talvez pela menor visibilidade, os Jogos de Inverno ainda conseguiam um nível de organização que parecia rarear cada vez mais aos Jogos de Verão, já que a política internacional começava a cobrar um alto preço ao esporte.

Montreal 1976


Localizada em uma ilha a 1.600 Km do mar, na confluência dos rios São Lourenço e Ottawa, em uma planície dominada pelo Monte Real, de onde tira seu nome, a belíssima cidade canadense de Montreal, fundada em 1642, capital da província de Quebec, e segunda maior cidade francófona do mundo, além de segunda maior cidade do Canadá, foi escolhida para sediar os Jogos de 1976 na reunião do COI de 1970, quando venceu duas oponentes de peso: Moscou, capital da poderosíssima União Soviética, e Los Angeles, candidata dos não menos poderosos Estados Unidos. A escolha da cidade em um pleito tão difícil imediatamente gerou um sentimento de que era preciso fazer além do melhor, organizar Jogos que entrassem para a História. De certa forma, eles entraram mesmo. Infelizmente para os canadenses, pelos motivos errados.

Em parte pelos projetos audaciosos do arquiteto francês Roger Taillibert, em parte por delírios do comitê organizador, os Jogos de 1976 acabaram sendo os mais caros de toda a história das Olimpíadas. Pegos de surpresa por uma crise do petróleo e atrapalhados por um planejamento de gastos deficiente, os canadenses viram seus gastos se multiplicar, enquanto as obras pareciam cada vez mais longe de ficarem prontas: o velódromo, inicialmente orçado em 19 milhões de dólares, acabou custando 86 milhões e meio. Estacionamentos subterrâneos que custariam mais 20 milhões só ficaram prontos depois de devorarem 105 milhões. A Vila Olímpica é considerada a mais moderna e elegante até hoje, com dezenove andares de alojamentos escalonados e edifícios piramidais, sobre um gramado coratdo por avenidas e passarelas, mas ao custo de quase 200 milhões. E o Estádio Olímpico, uma maravilha da engenharia, com teto retrátil dependurado em cabos de aço, uma belíssima torre, e elevadores panorâmicos para que os visitantes pudessem vê-lo de cima, se tornou sério concorrente a obra esportiva mais cara do mundo, após consumir 756 milhões de dólares, seis vezes mais que o esperado, sendo que sequer ficou pronto a tempo, com operários ainda trabalhando durante as competições, e a tal torre só sendo finalizada bem depois da cerimônia de encerramento. As obras poderiam nem ter ficado prontas se o Governo de Quebec não tivesse decidido intervir e tomar para si a respondabilidade pelas obras, a troco de comerciais que passavam dia e noite dizendo frases como "graças a Quebec, conseguimos". Estima-se que o Canadá tenha contraído quase 2 bilhões de dólares em dívidas graças a esta Olimpíada, montante que só agora se aproxima de ser totalmente liquidado.

Fossem só as complicações financeiras, ainda estaria tudo bem, mas Montreal ainda teve de lidar com outro problema, esportivamente falando, até mais sério. Pouco antes do início dos Jogos, o time de rugby da Nova Zelândia viajara até a África do Sul, onde enfrentara a selação da casa em uma série de amistosos. Embora o rugby não fizesse parte do programa olímpico, era fato sabido e causador de bastante controvérsia que a África do Sul estava banida da prática olímpica, devido à racista política do apartheid. Pois bem, por algum motivo, um dirigente do Congo, de nome Jean-Claude Ganga, considerou uma ofensa mortal que a Nova Zelândia se dispusesse a visitar um país racista para jogar amistosos, e organizou um piquete em frente à sede do COI na Suíça, pedindo a expulsão dos neozelandeses dos Jogos de 1976. Como a proposta não tinha muito cabimento, o COI não a levou em consideração, e Ganga, irado, prometeu arruinar os Jogos com um boicote monumental. No início, parecia que de monumental o boicote não teria nada, pois apenas a Tanzânia, país de pouquíssima tradição no esporte, decidiu aderir. Infelizmente, a estupidez humana sempre arruma um jeito de ajudar a si mesma: dias antes da cerimônia de abertura, a polícia sul-africana perpetraria um massacre em seu bairro negro e pobre de Soweto. Era o argumento de que Ganga precisava.

Ao todo, 28 nações participaram do boicote, sendo 26 africanas mais Iraque e Guiana. Algumas eram concorrentes de peso, como Quênia, Etiópia e Marrocos. Alguns atletas destas nações até chegaram a competir, pois o boicote não teve um mínimo de organização: cabia a cada governo decidir se sua delegação iria abandonar os Jogos, e quando fazê-lo; 16 das delegações já se encontravam instaladas na Vila Olímpica quando chegou a ordem de abandonar tudo e voltar para casa. E se vocês estão pensando que este foi o único incidente diplomático dos Jogos de 1976, saibam que ainda teve outro: na época, a China era a maior compradora de trigo do Canadá. Como era de conhecimento geral, os chineses não disputavam as Olimpíadas, melindrados com o COI por este aceitar a presença de Taiwan, que para eles, até hoje, é uma província separatista, e não um país independente. Buscando agradar sua parceira comercial, o primeiro-ministro Pierre-Elliot Trudeau, famoso por combinar ternos com tênis, decidiu proibir a participação de Taiwan no evento. Pressionado pelo COI, Trudeau apresentou um argumento válido: uma vez que o Canadá estabelecera relações diplomáticas com a China, não podia reconhecer como independente a província de Taiwan. Sem saída, o COI emitiu uma nota de pesar ao governo de Taiwan. Mas, mesmo sem a presença de sua desafeta, não foi desta vez que a China decidiu estrear em uma Olimpíada.

Tirando estes incidentes, até que os Jogos de Montreal foram realmente belos. O número de participantes diminuiu sensivelmente - 6.189 atletas de 88 nações, sendo 1.274 mulheres - mas não apenas por causa do boicote: preocupado com o gigantismo do evento, o presidente do COI, Lord Killanin, instou os organizadores a enxugar o programa olímpico. Talvez tivesse sido melhor o próprio COI fazê-lo, já que os canadenses não tiveram muito critério, deixando de fora provas como os 50 Km marcha do atletismo, o rifle livre do tiro, e até mesmo, por incrível que pareça, o revezamento 4 x 100 metros livre masculino da natação. Por outro lado, a ascensão das mulheres no esporte obrigou a estréia de novas provas femininas, no remo, basquete e handebol. Ao todo, foram disputadas 198 competições de 24 esportes: atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, equitação, esgrima, futebol, ginástica, halterofilismo, handebol, hóquei, judô, luta greco-romana, luta livre, natação, pentatlo moderno, pólo aquático, remo, saltos ornamentais, tiro, tiro com arco, vela e vôlei. Pela segunda vez, uma Olimpíada de Verão teve um mascote, o castor Amik - que, na língua indígena algonquin, da região de Quebec, significa "castor" - escolhido por ser um animal reconhecido por sua paciência e trabalho duro, além de ser um dos símbolos do Canadá.

Os Jogos aconteceram entre 17 de julho e 1o de agosto. Na cerimônia de abertura estavam presentes a Rainha da Inglaterra, Elizabeth II, Chefe de Estado do Canadá e primeira mulher a declarar aberta uma Olimpíada de Verão, e toda a Família Real. Pela primeira vez, um imenso telão instalado no estádio mostrou a todo o público presente a cerimônia, como se todos estivessem ali no gramado, junto aos atletas. A Tocha Olímpica também trouxe uma novidade tecnológica: após o fogo ser aceso em Olímpia, foi utilizado um aparelho que transformou sua energia em um sinal telefônico, transmitido via satélite para Ottawa, a capital canadense, onde um novo aparelho converteu este sinal em um raio laser, que acendeu uma nova tocha, que iniciou o revezamento até Montreal. No dia da cerimônia de abertura, acenderam a pira, mãos dadas na tocha, os estudantes Stéphane Préfontaine e Sandra Henderson, ambos de 16 anos, ele descendente de franceses, ela descendente de ingleses, os dois povos que deram origem ao Canadá. Tanta emoção e tecnologia, porém, não livraram a pobre tocha de uma pequena gafe: alguns dias após a abertura, uma chuva acabou apagando a pira, e um fiscal bem-intencionado a acendeu novamente com um isqueiro. Como é o fogo de Olímpia que deve queimar na pira, mais do que depressa representates do COI apagaram o "fogo falso", e o reacenderam com um lampião aceso com o fogo original, que estava guardado de reserva.

Pela primeira vez, o destaque absoluto de uma Olimpíada foi uma mulher - ou talvez fosse melhor dizer uma menina: Nadia Comaneci, uma romena de apenas 14 anos, aclamada por 1,2 bilhão de espectadores ao redor do mundo, hoje considerada a maior ginasta de todos os tempos. Comaneci começou sua carreira olímpica no dia 19 de julho, na disputa dos exercícios combinados. Ganhou o ouro individual e, graças a ela, a Romênia ficou com a prata por equipes. Mas o diferencial da competição foi seu desempenho nas barras assimétricas: duas notas dez, feito inédito em Olimpíada, exibições perfeitas, nenhum ponto perdido. Sua performance foi tão extraordinária que o painel eletrônico do ginásio sequer estava preparado para ela: capaz de registrar apenas dois dígitos, após a exibição de Comaneci ele registrou a nota 1,0, rapidamente anunciada como 10,0 pelos jurados, antes que o público saísse quebrando tudo. Não satisfeita com estes dois dez, Comaneci ainda ganharia mais dois, ouro incontestável, na disputa individual das assimétricas, uma exibição de gala para um ginásio lotado. Comaneci sairia de Montreal com sete notas dez e cinco medalhas, sendo três ouros - o terceiro ela conseguiria na trave de equilíbrio - uma prata e um bronze - nos exercícios de solo. Sua maior rival foi a soviética Nelli Kim, três ouros - no solo, salto sobre o cavalo e combinados por equipes - e uma prata nos combinados, mas apenas duas notas dez - dizem as más línguas, dadas pelos jurados apenas para não ficar sem graça. A sensação dos Jogos anteriores, a também soviética Olga Korbut, alçada a superestrela, deixou a fama atrapalhar sua carreira, e saiu de 1976 só com o ouro dos combinados por equipes e uma prata na trave de equilíbrio.

Ainda na ginástica, merece uma menção o japonês Shun Fujimoto. Desde 1960, o Japão ganhara o ouro nos exercícios combinados por equipes em todas as edições dos Jogos; em 1976, porém, os atletas soviéticos estavam tendo uma exibição primorosa, e o quinto ouro do Japão parecia pouco provável. Todos os ginastas japoneses sabiam que teriam de superar todos os seus limites para alcançar o lugar mais alto do pódio, e foi justamente o que Fujimoto fez: durante os exercícios de solo, após um pouso errado, o atleta fraturou a tíbia. Como a prova que restava para ele era a das argolas, onde as pernas só são necessárias na hora do pouso, ele não disse nada ao treinador, nem a seus colegas, nem pediu qualquer auxílio, simplesmente enfaixou o osso quebrado e seguiu na competição. Fujimoto teve uma performance excelente, saindo com uma cambalhota tripla, e mantendo a postura mesmo aterrissando sobre a perna quebrada. Sua nota foi essencial para que os japoneses suplantassem os soviéticos, mas seu osso praticamente se esfacelou com o esforço. Anos depois, durante uma entrevista, perguntado se competiria novamente com a perna fraturada se fosse para garantir um ouro para o Japão, Fujimoto respondeu, sem hesitar, que não.

O atletismo, como de costume, teve muitos destaques, começando pelo cubano Alberto Juantorena, apelidado "O Cavalo" por sua velocidade, único homem até hoje a vencer os 400 metros e os 800 metros em uma mesma edição dos Jogos. Também dono de uma proeza foi o finlandês Lasse Virén, campeão dos 5.000 metros e dos 10.000 metros em uma mesma Olimpíada pela segunda vez seguida, e que tentou igualar o recorde do tchecoslovaco Emil Zatopek, mas terminou em quinto na maratona. No arremesso do dardo, o húngaro Miklos Németh, além de quebrar os recordes mundial e olímpico, se tornou o primeiro filho de um medalhista de ouro a ganhar ele também um ouro - seu pai, Imre, havia sido campeão do arremesso do martelo em 1948. E na prova considerada a mais nobre, os 100 metros rasos, Hasely Crawford ganhou o único ouro olímpico da história de Trinidad e Tobago, sendo homenageado com um selo com sua efígie, dando seu nome a um avião, e sendo tema de inúmeras canções de calipso.

Confusões, como de praxe, também tiveram seu lugar: no salto em altura, o norte-americano Dwight Stones, favoritíssimo, foi vítima da ira do clima e do público de Montreal: em uma entrevista, declarou que os canandenses eram irresponsáveis por não terem terminado o Estádio Olímpico a tempo. Resultado: no dia da prova, além de ter de competir sob uma tempestade, Stones ainda era recebido por uma vaia monumental cada vez que se preparava para um salto. Tais circunstâncias acabaram com sua concentração, e fizeram com que ele se limitasse a uma mera medalha de bronze, dez centímetros abaixo de seu recorde pessoal. Nos 200 metros, foi um fiscal autoritário quem tirou da prova a australiana Raelene Boyle: em Montreal, estrearam dispositivos eletrônicos precisos, instalados na linha de largada, capazes de detectar a mínima queimada. Nenhum destes dispositivos acusou Boyle de trapaça, mas mesmo assim o fiscal cismou que ela havia largado antes da hora na semifinal e a desclassificou. Realmente desclassificado por trapaça foi o soviético Boris Onischenko, do pentatlo moderno, que macetou sua espada para que ela acusasse que ele tocou o oponente mesmo que só tivesse chegado perto. A atitude de Onischenko causou a desclassificação da equipe soviética de pentatlo moderno, e lhe garantiu a inimizade dos demais atletas soviéticos - o time de vôlei chegou a declarar que o jogaria pela janela se ele aparecesse na Vila Olímpica.

Um estranho episódio marcou a prova de velocidade scratch do ciclismo: três dias antes da prova, o tchecoslovaco Anton Tkac percebeu que os guidons e rodas reservas de suas duas bicicletas haviam sumido. A princípio se pensou em roubo, mas logo os treinadores descobriram que haviam sumido todos os guidons e rodas reservas de todas as bicicletas da equipe tchecoslovaca. Na verdade, um faxineiro da Vila Olímpica havia confundido as caixas com as usadas para acomodar o lixo dos atletas, e jogado todo o material fora. A delegação tchecoslovaca ainda foi até o depósito, mas os equipamentos já haviam sido prensados. Sem equipamentos reservas, os tchecoslovacos teriam de se poupar, ou poderiam ficar de fora das disputas decisivas. Tkac, porém, não quis nem saber: deu o máximo de si, até chegar ao ouro batendo o francês Daniel Morelon, o favorito da prova.

Dois atletas conseguiram seu terceiro ouro seguido: o soviético Victor Saneyev, no salto triplo do atletismo, e o italiano Klaus Dibiasi, na categoria plataforma dos saltos ornamentais. A polonesa Irena Szewinska, também conseguiu seu terceiro ouro, nos 400 metros do atletismo - com direito a recorde mundial - mas havia ganho os outros dois no revezamento 4 x 100 metros em 1964, e nos 200 metros em 1968. Aos 30 anos, Szewinska encerrou sua carreira com sete medalhas em cinco provas diferentes - em 1964 ganhara prata nos 200 metros e no salto em distância, em 1968 um bronze nos 100 metros, e em 1972 bronze nos 200 metros.

A Nova Zelândia, pivô do boicote, terminou os Jogos com apenas quatro medalhas, sendo dois ouros, uma prata e um bronze; o boicote até mesmo ajudou na conquista de um destes ouros, pois nos 1.500 metros do atletismo os dois principais rivais do neozelandês John Walker seriam o tanzaniano Filbert Bayi e o queniano Mike Boyt. Sem os africanos, Walker correu tranquilamente, o necessário para ganhar o ouro, sem se preocupar com quebra de recordes, chegando um décimo de segundo à frente do belga Ivo Van Damme. O outro ouro veio do hóquei, em uma final contra a Austrália, após um torneio onde os favoritos Paquistão e Índia terminaram em terceiro e sétimo, respectivamente. A terra dos kiwis ainda ganhou uma prata nos 5.000 metros do atletismo com Dick Quax, e um bronze no remo, categoria oito com patrão.

Na natação não surgiu nenhum novo Mark Spitz, mas mesmo assim os Estados Unidos conseguiram 12 das 13 medalhas de ouro em disputa, não subindo ao lugar mais alto do pódio apenas nos 200 metros peito, vencidos pelo britânico David Wilkie. No feminino, o show foi da Alemanha Oriental, 11 dos 13 ouros possíveis, curiosamente também não ganhando os 200 metros peito, onde três soviéticas fizeram o pódio, nem o revezamento 4 x 100 metros livre, conquistado pelas norte-americanas. O maior destaque das piscinas foi a alemã oriental Kornelia Ender, 17 anos, quatro ouros e uma prata, primeira mulher a ganhar quatro medalhas de ouro na natação em uma mesma olimpíada, todas acompanhadas de recordes mundiais. E o personagem mais controverso foi o soviético Sergei Nemantsov, também de 17 anos, que um belo dia saiu de seu alojamento na Vila Olímpica e sumiu. Os soviéticos, então, ameaçaram abandonar os Jogos se não surgisse uma explicação do que aconteceu com seu atleta. Rapidamente encontraram um bode expiatório: George Maglijanski, 21 anos, canadense descendente de ucranianos, funcionário do comitê organizador, acusado de montar um esquema para facilitar a fuga de atletas de países comunistas para o Ocidente. Ninguém levou muito a sério a história, mas após a demissão de Maglijanski os dirigentes da União Soviética se deram por satisfeitos e suspenderam os protestos. Até hoje não se sabe o que aconteceu com Nemantsov; a versão mais aceita é a de que ele teria se apaixonado por uma adolescente milionária dos Estados Unidos, que teria usado seu dinheiro para financiar sua fuga e lhe comprar uma nova identidade.

No boxe, o maior destaque mais uma vez foi o colombiano Teófilo Stevenson, categoria pesados, que destruiu todos os adversários até a final, onde nocautearia o romeno Mircea Simon, não tivesse seu treinador jogado a toalha no terceiro assalto, sinal da desistência no pugilismo. Outro destaque foi o norte-americano Ray Leonard, apelidado Sugar Ray, campeão dos meio-médios ligeiros, que lutava com fotos de sua esposa e seu filho de dois anos em suas sapatilhas. Após as Olimpíadas, Sugar Ray seria campeão mundial dos meio-médios em 1979, dos médios em 1987, e dos meio-pesados ligeiros em 1988, se tornando o primeiro boxeador campeão mundial em três categorias diferentes. Além de Sugar Ray, ganharam o ouro para os Estados Unidos os irmãos Michael e Leon Spinks, nos médios e meio-pesados, respectivamente; Leo Randolph nos moscas; e Howard Davis nos leves. Estes cinco boxeadores são considerados a melhor equipe que os Estados Unidos já levaram ao boxe olímpico - de todos eles, apenas Davis não se tornou campeão mundial após se profissionalizar.

O basquete pela primeira vez contou com um torneio pré-olímpico, ao invés dos times seram convidados a participar. O Brasil, infelizmente, acabou ficando de fora dos Jogos, com uma atuação ruim, mas ainda assim terminando em quarto dentre treze equipes que lutavam por três vagas. Os Estados Unidos, por outro lado, levaram os melhores atletas universitários que conseguiram, dispostos, depois da controversa final de 1972, a ganhar o ouro de qualquer forma, se possível se vingando da União Soviética na final. A vingança, porém, jamais aconteceria: nas semifinais, os soviéticos acabaram perdendo para a Iugoslávia. De toda forma, os norte-americanos não tomaram conhecimento dos iugoslavos na final, chegando ao seu oitavo ouro em nove Olimpíadas.

Outra equipe disposta a se vingar da União Soviética após uma derrota em 1972 era a do vôlei feminino do Japão. Nos quatro anos que separaram as duas Olimpíadas, os japoneses se dedicaram a montar um time praticamente imbatível: as japonesas venceram todas as suas partidas por três sets a zero, e apenas a Coréia do Sul conseguiu fazer mais de nove pontos em um destes sets. Ouro indiscutível. No masculino, a final foi feita entre duas equipes invictas, a União Soviética e a Polônia. Apesar de todo o favoritismo dos soviéticos, que não haviam perdido nenhum set até então, os poloneses levaram a melhor, graças a uma atuação inspirada do atacante Tomasz Wojtowicz. O Brasil ficou em sétimo, vencendo apenas dois jogos, ambos contra a Itália.

No futebol, a Polônia, terceiro lugar na Copa de 1974 era a favorita, mas acabou ficando com a prata, ao perder a final para a Alemanha Oriental. O Brasil pela primeira vez fez bonito, com um time bastante competitivo, empatando com a Alemnha Oriental, vencendo Espanha e Israel, e então perdendo para a Polônia na semifinal e para a União Soviética na disputa do bronze, terminando em quarto lugar. De qualquer forma, este era até então o melhor resultado do futebol tricampeão do mundo em Olimpíadas, sendo que os brasileiros só ficaram atrás dos falsos amadores dos países comunistas.

Contando com os times de futebol e vôlei, o Brasil levou a Montreal 81 atletas, sendo 7 mulheres. Voltou com duas medalhas de bronze. A primeira delas, a do salto triplo, de certa forma veio com uma certa frustração: Nelson Prudêncio dos Santos, prata e bronze nas duas Olimpíadas anteriores, sequer se classificou para a final, parando na décima posição; as esperanças, então, se concentraram em João Carlos de Oliveira, o João do Pulo, ouro no Pan-Americano de 1975 quebrando o recorde mundial de Saneyev. Em Montreal, porém, Saneyev mais uma vez levaria a melhor, e João, com um salto um centímetro menor que seu recorde, acabou com a medalha de bronze. João ainda competiria no salto em distância, onde terminaria em quinto lugar.

A outra medalha de bronze do Brasil veio da vela, categoria Flying Dutchman, com Reinaldo Conrad e Peter Ficker, que chegaram à regata final com a prata, mas acabaram perdendo quatro décimos a mais que o barco britânico. Também na vela, categoria Finn, Cláudio Biekarck terminou em quarto lugar, mas a oito pontos da medalha. Houvesse medalha para a quarta posição, o nadador Djan Madruga traria duas, nos 400 metros livre e nos 1.500 metros livre. E talvez a maior injustiça com um brasileiro tenha ocorrido no boxe, categoria médios, onde Fernando Martins chegou tranqüilamente às quartas-de-final, mas acabou perdendo para o romeno Alec Nestav na opinião dos jurados, mesmo tendo dominado a luta e conectado muito mais golpes.

Além dos mais caros, os Jogos de 1976 poderiam muito bem ficar conhecidos como os mais confusos da História. Nem a cerimônia de encerramento se salvou, pois um estudante conseguiu invadir o gramado, totalmente nu, e por lá ficou correndo por uns bons dois minutos, até ser detido por um grupo de policiais envergonhados. Os Estados Unidos, que imaginavam que em uma Olimpíada em seus vizinhos iriam recuperar o topo do não oficial quadro de medalhas, tiveram de se conformar com a terceira posição, atrás de União Soviética e Alemanha Oriental. O Canadá, porém, conseguiria fazer pior: cinco pratas e seis bronzes, na primeira ocasião em que os donos da casa não conseguiriam uma medalha de ouro sequer em uma Olimpíada de Verão.

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