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sábado, 20 de abril de 2024

Escrito por em 20.4.24 com 0 comentários

Godzilla (XIV)

Quem acompanha o átomo já deve ter lido que eu escrevo os posts com antecedência - esse aqui, por exemplo, estou escrevendo no dia seguinte a Godzilla Minus One ter ganhado um Oscar. Esse Oscar me deixou com vontade de escrever sobre esse filme, e, como há um outro filme japonês de Godzilla que eu não abordei naquela série que eu comecei lá em 2013, decidi escrever um novo post para ela, falando sobre os dois. Hoje, portanto, mais uma vez, é dia de Godzilla no átomo!

Shin Godzilla
2016

Até 2004, os filmes japoneses de Godzilla foram divididos em três séries: a Série Showa, com os filmes lançados durante o reinado do Imperador Hirohito, foi a mais longa, com 15 filmes lançados entre 1954 e 1975. Após um hiato de quase dez anos, começaria a Série Heisei, com 7 filmes lançados entre 1984 e 1995 (mesmo com a Era Heisei, correspondente ao reinado do Imperador Akihito, só tendo começado em 1989). A terceira série, a Série Millenium, teve mais 6 filmes, lançados entre 1999 e 2004. Mais do que especificar em que época os filmes foram feitos, a divisão em séries - retroativamente criada em 1999, por isso a Série Heisei começa antes da Era Heisei - tinha o propósito de agrupar os filmes de acordo com sua continuidade, já que tanto o primeiro filme da Série Heisei quanto o primeiro da Série Millenium eram reboots.

Após o último filme da Série Millenium, Godzilla: Final Wars, entretanto, ocorreria um novo hiato longo, dessa vez de dez anos, que seria quebrado não por um novo filme japonês, mas pelo Godzilla da Legendary Pictures, produzido nos Estados Unidos e lançado em 2014, ano do aniversário de 60 anos do filme original. O Godzilla norte-americano seria um sucesso, o que animaria a Toho a produzir mais um filme para a série, com data de estreia prevista para 2016. Pelos termos do contrato com a Legendary, um novo filme da Toho não poderia ser nem continuação, nem usar nenhum dos elementos do filme norte-americano, e, como a história de Godzilla: Final Wars tinha uma espécie de fechamento, também não interessava ao estúdio japonês fazer uma continuação. A solução, portanto, foi fazer um terceiro reboot, e dar a ele o nome de Shin Godzilla - com shin, em japonês, significando "novo".

Em março de 2015, a Toho surpreenderia e revelaria que Shin Godzilla seria co-dirigido por Hideaki Anno e Shinji Higuchi, a dupla responsável pelo anime Neon Genesis Evangelion, com roteiro de Anno, e Higuchi ficando responsável pelos efetios especiais. Anno diria em entrevistas ter sido procurado pela Toho já em janeiro de 2013, mas, como ele estava em depressão após ter terminado de dirigir Evangelion: 3.0 You Can (Not) Redo, recusaria sem nem pensar; Higuchi, seu amigo de longa data, que já havia trabalhado para a Toho, o convenceria, com a dupla assinando contrato em março de 2013, mas sendo mantida em segredo pela Toho durante dois anos. Anno diria que, mesmo após assinar, ainda estava com falta de confiança, já que se tratava de um reboot, imaginando que jamais conseguiria fazer um filme de Godzilla à altura do primeiro, mas, após assistir ao filme norte-americano, se convenceria de que a única forma de igualar o primeiro seria fazendo um remake, algo que nem ele, nem a Toho queriam, e que o melhor seria contar sua própria história da melhor forma possível.

A Toho passaria boa parte da pré-produção planejando qual a melhor forma de trazer Godzilla de volta às telas, testando bonecos, animatronics e efeitos digitais, optando pela última que, apesar de mais cara, permitiria melhor controle sobre como Godzilla se portava em cena, economizando tempo e dinheiro na edição e permitindo que os diretores tivessem um maior controle criativo. Um estúdio foi forrado de chroma-key e maquetes para ser usado como referência nas cenas onde Godzilla aparecesse, com o ator Mansai Nomura servindo para a captura de movimentos.

Assim como o primeiro Godzilla foi uma alegoria para as bombas atômicas que destruíram Hiroshima e Nagasaki, Anno e Higuchi decidiriam fazer de Shin Godzilla uma alegoria para o desastre nuclear de Fukushima, causado pelo terremoto e tsunami que atingiram Tohoku em 11 de março de 2011. Muitos críticos apontariam que cenas do filme, como as montanhas de escombros deixadas pela passagem do monstro e as equipes vestidas com macacões azuis tentando lidar com o desastre, pareciam saídas diretamente do noticiário da época, ao invés de gravadas para o filme. Alguns críticos também apontaram que o filme servia com uma crítica ao governo japonês, tão engessado pela burocracia que parece ser incapaz de lidar em tempo hábil com um desastre de grandes proporções.

A história é a tradicional: Godzilla, uma criatura gerada pela energia nuclear, sai das águas da Baía de Tóquio e começa a destruir a cidade, levando um grupo de cientistas a pesquisar como detê-lo. O filme tem, porém, duas grandes diferenças em relação às histórias habituais de Godzilla: primeiro, os três protagonistas humanos são ligados ao governo - o Secretário de Governo Rando Yaguchi (Hiroki Hasegawa), o Primeiro-Ministro Hideki Akasaka (Yutaka Takenouchi) e a enviada especial do governo dos Estados Unidos Anne Patterson (Satomi Ishihara). Segundo, Godzilla é adaptável, passando por várias formas antes de atingir seu estágio final, e sendo capaz até mesmo de se modificar para se tornar imune a ataques usados contra ele. A Toho prometeria que esse seria "o maior Godzilla já visto em uma de suas produções", com mais de 100 metros de altura.

Shin Godzilla estrearia nos cinemas japoneses em 29 de julho de 2016. Em uma decisão considerada arriscada, a Toho financiaria sozinha o filme, sem buscar parceiros internacionais; inicialmente com orçamento de 900 milhões de ienes, o filme acabaria custando 1,3 bilhão, o que teria quebrado o estúdio se não fosse o desempenho internacional do filme. Aliás, ao invés de preparar uma versão internacional, a Toho venderia o filme sem nenhuma modificação, cabendo às distribuidoras interessadas em exibi-lo fora do Japão dublá-lo ou legendá-lo. Nesse sentido, Shin Godzilla seria um inesperado sucesso, sendo negociado para mais de 100 países e territórios da Ásia, África, Europa e Américas apenas 19 dias após sua estreia no Japão. Nos Estados Unidos, onde foi distribuído pela Funimation, o filme seria lançado com o nome de Godzilla: Resurgence, mas a Toho bateu o pé e ele acabou sendo lançado com seu título original. Shin Godzilla seria o primeiro filme de Godzilla exibido nos cinemas dos Estados Unidos desde Godzilla 2000, estreando em 6 de outubro de 2016.

Em 2023, por ocasião do lançamento do filme seguinte (que vamos ver em breve), a Toho lançaria nos cinemas uma versão especial de Shin Godzilla chamada Shin Godzilla: Orthochromatic. Partindo de uma ideia de Anno, que não teve envolvimento, com Higuchi e Katsuro Onoue supervisionando sua produção, a Orthochromatic não tem nenhuma diferença em termos de edição, mas é totalmente em preto e branco, assim como foi o Godzilla original. Ela seria exibida em apenas sete cinemas, durante apenas três dias, 27, 28 e 29 de outubro, mas, em março de 2024, seria lançada em DVD e Blu-ray.

Shin Godzilla seria um sucesso de público e crítica do tamanho de Godzilla, e logo Anno e Higuchi começariam a ser perguntados se uma sequência já estava em desenvolvimento. Acontece que, quando o contrato com a Legendary foi ser renovado, o estúdio norte-americano fez questão de uma cláusula segundo a qual a Toho não poderia produzir outro filme de Godzilla até 2020, quando já teriam sido lançados nos Estados Unidos os dois previstos na renovação, Godzilla: Rei dos Monstros e Godzilla vs.Kong. Inicialmente previsto para 2018, Godzilla: Rei dos Monstros acabaria atrasando e só sendo lançado em 2019, e, por conta desse atraso e da Pandemia, Godzilla vs.Kong, originalmente previsto para 2019, acabaria só sendo lançado em 2021, quando a Toho finalmente pôde começar a trabalhar em um novo filme japonês.

Inicialmente, a Toho alegaria não ter interesse em fazer uma sequência de Shin Godzilla - tanto que, apesar de ele ser um novo reboot, originalmente não inaugurou uma nova série, sendo colocado na Série Millenium - e os executivos do estúdio declarariam em 2018 estar pensando em criar algo como o Universo Cinematográfico Marvel, lançando filmes estrelados por vários monstros da Toho ambientados em um mesmo universo, com um filme final no qual todos se encontrassem. Em março de 2022, Anno diria em entrevistas ter escrito o roteiro de uma continuação para Shin Godzilla, chamada Sequel Shin Godzilla, que a Toho prometeria filmar, com Higuchi como diretor, e declararia ter ficado muito surpreso com a declaração dos executivos de que uma sequência não estava nos planos. Seja como for, nem a sequência nem o "Universo Cinematográfico Toho" saíram do papel, e parecem ter sido engavetados de vez; Anno, por outro lado, seria chamado para fazer reboots de duas outras grandes franquias japonesas: Shin Ultraman (2022, pela Tsuburaya) e Shin Kamen Rider (2023, pela Toei).

Embora a Toho não pudesse fazer um novo filme de Godzilla tão cedo, o contrato com a Legendary não falava nada sobre animações, de forma que o estúdio japonês decidiu seguir por esse caminho, lançando Godzilla: Kaiju Wakusei ("planeta dos monstros", 2017), Godzilla: Essen Kido Zoshoku Toshi ("a batalha decisiva da cidade ambulante que se prolifera", lançado internacionalmente como "cidade no limiar da batalha", 2018) e Godzilla: Hoshi o Kuu Mono ("o devorador de planetas", 2019). Todos esses três filmes de animação foram lançados nos cinemas e entram na contagem oficial da Toho, sendo oficialmente os filmes de Godzilla de número 30, 31 e 32. Em 2021, a Toei também lançaria o primeiro anime de Godzilla, Godzilla: Singular Point, com 13 episódios lançados entre 1 de abril e 24 de junho. Esse anime e os três filmes de animação atualmente fazem parte do catálogo da Netflix.

Assim como Shin Godzilla, os três filmes de animação (mas não o anime) oficialmente faziam parte da Série Millenium, mas, em 2020, quando começou a produção do filme seguinte de Godzilla, aproveitando que o Japão tinha um novo Imperador, Naruhito, e vivia uma nova era, a Era Reiwa (que havia começado em 2019, ano do lançamento da última animação), a Toho decidiria, retroativamente, colocá-los em uma nova série, a Série Reiwa, que já conta com cinco filmes - Shin Godzilla, os três de animação, e o que vamos ver agora.

Godzilla Minus One
2023

Em 2019, quando se aproximava a data na qual, contratualmente, a Toho poderia fazer um novo filme de Godzilla, os executivos do estúdio decidiriam criar uma "Sala do Godzilla", para roteiristas, produtores e diretores discutirem ideias para o novo filme. Um dos que participariam dessas discussões seria o produtor Minami Ichikawa, que, naquele mesmo ano, havia lançado o filme The Great War of Archimedes, e indicaria seu diretor, Takashi Yamazaki, para o novo filme de Godzilla. Yamazaki seria convidado para expor suas ideias, e decidiria fazer um filme ambientado não na época atual, mas imediatamente após o término da Segunda Guerra Mundial, o que deixaria a Toho encantada. Yamazaki seria contratado como diretor, roteirista e responsável pelos efeitos especiais ainda em 2019, e chegaria a escrever uma versão preliminar do roteiro antes do fim do ano; a Pandemia, entretanto, atrasaria a produção, e faria com que o roteiro fosse reescrito pelo menos três vezes.

A produção do novo fime, ainda sem título oficial, só seria retomada em fevereiro 2022, quando seria anunciada pela parceira da Toho na produção, a Robot Communications. Seria a Robot quem também anunciaria que o novo filme seria um remake do original de 1954, mas ambientado entre 1945 e 1947. Yamazaki declararia que o filme seria inspirado em Godzilla (1954), Godzilla, Mothra and King Ghidorah: Giant Monsters All-Out Attack (2001) e Shin Godzilla (2016), "com um toque dos filmes de Steven Spielberg e Hayao Miyazaki". Em 3 de novembro, dia conhecido como Godzilla Day, por ter sido o da estreia do primeiro filme, a Toho faria uma grande festa, na qual revelaria que as filmagens já estavam terminadas, e o filme se encontrava em pós-produção, com data de estreia prevista para dali a exatamente um ano, em 3 de novembro de 2023.

Seria durante essa festa que o título do filme seria finalmente revelado: Godzilla Minus One (em inglês mesmo, significando "Godzilla -1", no sentido de que viria antes do zero), título escolhido para passar a ideia de que o Japão regrediria da "situação zero", termo usado para determinar o estado em que um país se encontra logo após sair de uma guerra, para uma espécie de "situação menos um", causada pelo ataque de Godzilla. O título seria criado pelo produtor Shuji Abe, inspirado no romance de ficção científica Minus Zero, de Tadashi Hirose, e, segundo ele, seria escolhido porque ele imaginou que o filme seria ambientado antes do original, e não um remake, com o significado oficial sendo criado depois.

Godzilla Minus One começa em 1945, próximo ao final da Segunda Guerra Mundial, e tem como protagnista humano o piloto kamikaze Koichi Shikishima (Ryunosuke Kamiki), que pousa seu avião em uma base na Ilha Odo pouco antes do ataque de Godzilla. Os pilotos são chamados para atacar o monstro, mas Shikishima congela e não consegue, e acaba sendo culpado por não conseguir evitar que o monstro siga em direção à ilha principal do Japão. Ao voltar a Tóquio, o piloto encontra a cidade destruída pelos bombardeiros norte-americanos, e desenvolve Culpa do Sobrevivente. O filme, então, passa a intercalar o drama pessoal de Shikishima com os ataques de Godzilla e as tentativas do governo de impedi-lo. De forma interessante, o filme acompanha ambos, Shikishima e Godzilla, durante três anos, e envolve não somente o Japão no ataque do monstro, mas também os Estados Unidos e a União Soviética, que têm navios e bases destruídas, mas mesmo assim optam por não se envolver para que as tensões entre os dois países não aumentem.

Yamazaki declararia que, diferentemente dos demais filmes de Godzilla, onde o foco está em cientistas, militares ou oficiais do governo que tentam deter o monstro, ele gostaria que Godzilla Minus One focasse nas pessoas comuns cujas vidas foram alteradas pelo ataque. Ele escolheria Kamiki para o papel principal e a atriz Minami Hamabe para interpretar a namorada do piloto, Noriko Oishi, devido às suas participações na novela de época Ranman, do canal NHK; curiosamente, a crítica japonesa reclamaria muito da escolha do casal, argumentando que seus papéis eram muito semelhantes aos da novela, mas o diretor responderia dizendo que queria atores que ele tivesse certeza de que conseguiriam interpretar um casal japonês do pós-guerra de forma realista.

Mais uma vez, Godzilla seria inteiramente feito por computação gráfica, apenas na segunda vez em que isso ocorria em um filme da Toho. Também responsável pelos efeitos especiais, Yamazaki pediria que a equipe se inspirasse no visual de Godzilla em Godzilla, Mothra and King Ghidorah: Giant Monsters All-Out Attack, seu filme preferido da série, mas, segundo ele, o nível de realismo conseguido pela equipe surpreenderia até ele mesmo, que ficaria impressionado principalmente com o nível de detalhes das escamas do monstro. Para contribuir com o clima do filme, Yamazaki pediria para que essa fosse "a versão mais horrível já feita de Godzilla", e que ele fosse não apenas amedrontador, mas mais violento e feroz que nos filmes anteriores. Assim como em Shin Godzilla, o Godzilla desse filme tem o poder de alterar sua forma, mas apenas quando absorve energia nuclear.

Todos os efeitos especiais seriam feitos por uma única empresa, a Shirogumi, que empregou apenas 35 programadores - um imenso contraste com os filmes de Hollywood, que usam uma dezena de empresas e mais de uma centena de programadores. Segundo um levantamento feito pelo jornal Los Angeles Times, entre um quarto e um terço do orçamento total do filme, de cerca de 12 milhões de dólares - também baixíssimo se comparado a um filme de Hollywood da mesma magnitude - seria usado exclusivamente para os efeitos especiais. Uma curiosidade seria que o filme teria poucas cenas sob a água, até o compositor Tatsuji Nojima, responsável pela trilha sonora do filme, que tem como hobby criar água em computação gráfica, mostrar a Yamazaki alguns de seus trabalhos; o diretor pediria então que ele trabalhasse junto com a equipe de efeitos especiais e inseriria mais cenas subaquáticas, incluindo o clímax do filme.

Um dos maiores desafios para recriar o Japão Pós-Guerra seria da equipe de figurinos, já que não somente as roupas, mas os cabelos e maquiagens mudaram radicalmente de lá para cá, talvez mais ainda que no ocidente - todos os homens, atores e figurantes, tiveram de deixar o cabelo crescer e fazer permanentes, e as mulheres que tingiam os cabelos tiveram de tingi-los novamente, mas de preto. O orçamento não permitia o uso de aviões originais da época, hoje raríssimos e que exigem um polpudo seguro para serem usados, então a equipe de produção teve de construir réplicas em tamanho real, que obviamente não voavam, com a impressão de voo sendo criada por computação gráfica durante a pós-produção. A réplica do Kysuhu J7W Shinden usado por Shikishima ficaria tão perfeita que seria doada para exposição no Tachiarai Peace Memorial Museum da cidade de Fukuoka.

Em 24 de agosto, a Toho anunciaria que, em uma espécie de contagem regressiva para a estreia de Godzilla Minus One, quatro filmes de Godzilla estreariam em cinemas selecionados do Japão nos meses de setembro e outubro, cada um ficando em cartaz por apenas um fim de semana; antes de cada um desses filmes, seria exibido uma espécie de talk show onde o convidado falaria de sua relação com o filme e de sua importância para o cinema japonês. Os quatro filmes seriam Godzilla (1954), que teve como convidado do talk show o co-diretor de Shin Godzilla, Shinji Higuchi; Godzilla vs. Ghidrah (1964), com Keizo Murase, o responsável por confeccionar a roupa de Godzilla em muitos dos filmes da Série Showa, como convidado; Godzilla, Mothra and King Ghidorah: Giant Monsters All-Out Attack (2001), que teve como convidado seu diretor, Shusuke Kaneko; e Shin Godzilla: Orthochromatic, na única vez em que essa versão foi exibida nos cinemas, tendo como convidado o co-diretor de Shin Godzilla (2016), Hideaki Anno, que também foi quem teve a ideia de preparar a versão Orthochromatic especialmente para esse evento.

Godzilla Minus One teria uma pré-estreia em 18 de outubro de 2023 em um cinema localizado dentro do prédio da Toho, em Tóquio, participaria do Festival Internacional de Cinema de Tóquio em 1 de novembro, e estrearia oficialmente em todo o Japão em 3 de novembro, o Godzilla Day, sendo aclamado pela crítica, que o considerou "uma obra-prima" e o melhor de todos os filmes de Godzilla, contando com os norte-americanos. A própria Toho prepararia uma versão legendada em inglês, que seria lançada nos Estados Unidos em 1 de dezembro; originalmente, o filme estrearia em 2308 salas de todo o país e ficaria em cartaz por apenas uma semana, mas faria tanto sucesso que na semana seguinte a contagem de salas aumentaria para 2600, e o filme acabaria ficando em cartaz até 1 de fevereiro de 2024 - segundo boatos, os donos dos cinemas queriam que ele ficasse ainda mais tempo em cartaz, mas a Legendary estabeleceria 1 de fevereiro como a data-limite para a exibição de Godzilla Minus One nos cinemas dos Estados Unidos, pois oito semanas depois estrearia seu quarto filme de Godzilla, Godzilla e Kong: O Novo Império, e ela não queria que os dois competissem por bilheteria. Além de no Japão e Estados Unidos, Godzilla Minus One estrearia em outros 21 países, dentre eles o Brasil, onde foi distribuído pela Sato Company.

Em 12 de janeiro de 2024, a Toho lançaria nos cinemas do Japão uma versão em preto e branco de Godzilla Minus One, chamada Godzilla Minus One / Minus Color; ao invés de simplesmente converter o filme para preto e branco, Yamazaki faria uma edição sutil, que deixaria o filme ao mesmo tempo com cara de documentário e com um ritmo bastante parecido com o do Godzilla original de 1954. A produção dessa versão seria supervisionada pelo famoso produtor Shuji Abe, que faleceria em 11 de dezembro de 2023, o que a tornaria seu último trabalho. Godzilla Minus One / Minus Color também estrearia em cinemas selecionados dos Estados Unidos em 26 de janeiro, ficando em cartaz por apenas uma semana.

Godzilla Minus One ganharia o Oscar de Melhores Efeitos Especiais, derrotando Guardiões da Galáxia Vol. 3, Napoleão, o filme de ficção científica Resistência e Missão: Impossível - Acerto de Contas Parte 1. Seria o primeiro filme de Godzilla, japonês ou norte-americano, a ser indicado a qualquer Oscar, o primeiro filme japonês e primeiro filme asiático a concorrer ao Oscar de Melhores Efeitos Especiais, e o primeiro filme não-falado em língua inglesa a vencer nessa categoria, além de fazer com que Yamazaki se tornasse o primeiro diretor a vencer um Oscar nessa categoria desde Stanley Kubrick, em 1969 (por 2001: Uma Odisseia no Espaço), e com que Kiyoko Shibuya, supervisora dos efeitos do filme, se tornasse a primeira mulher não-branca a ganhar um Oscar de Melhores Efeitos Especiais. A Toho consideraria o filme um "fenômeno global", responsável por tornar Godzilla mais popular que nunca, e críticos dos Estados Unidos creditariam a Godzilla Minus One a responsabilidade por uma nova onda de interesse no ocidente pela cultura japonesa, que transformaria também em sucessos o filme O Menino e a Garça e as séries de One Piece e Shogun.

Em janeiro de 2024, Yamazaki expressaria seu interesse em dirigir uma continuação direta, usando os mesmos personagens, mas a Toho declararia que "ainda vai demorar algum tempo" para que um novo filme de Godzilla seja produzido, seja ele uma continuação de Godzilla Minus One ou não; segundo o produtor Minami Ichikawa, a Toho não quer fazer nada com pressa, buscando boas ideias e um roteiro de qualidade antes de anunciar que um novo Godzilla está em produção - mas o que mais se comenta é que, mais uma vez, a Legendary estaria impedindo uma sequência tão cedo por razões contratuais, restando saber qual seria o prazo dessa vez para que Godzilla pudesse retomar sua série japonesa.

Série Godzilla

•Shin Godzilla
•Godzilla Minus One

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domingo, 12 de junho de 2022

Escrito por em 12.6.22 com 0 comentários

Godzilla (Extra)

Em 2013 e 2014, eu fiz aqui uma série de posts sobre os filmes do Godzilla, os originais japoneses, produzidos pela Toho. De lá pra cá, a Toho só lançou mais um filme de Godzilla, de forma que eu não tive motivos para dar continuidade a essa série. Essa semana, entretanto, eu estava pensando que, de 2014 pra cá, já foram lançados três filmes norte-americanos de Godzilla, produzidos com autorização da Toho, e achei que seria uma boa falar sobre eles também. Assim, hoje Godzilla volta ao átomo, mas em uma encarnação um pouco diferente.

Godzilla
2014

A primeira tentativa de se fazer um filme norte-americano de Godzilla ocorreria na década de 1990, com aquele dirigido por Roland Emmerich e protagonizado por Matthew Broderick, lançado pela TriStar Pictures em 1998. Apesar de ter contado com a autorização da Toho, e de ter se saído bastante bem nas bilheterias, o filme seria imensamente criticado, especialmente pela forma como retratava Godzilla - que, inclusive, era fêmea e tinha filhotes. Com o passar do tempo, ele ganharia o selo de filme ruim, e a TriStar não voltaria a investir em filmes de Godzilla, deixando seus direitos expirarem em 2003, quando eles seriam adquiridos pela AAP, que planejava fazer um filme em 3D de Godzilla para lançamento nos Estados Unidos. A pré-produção começaria em 2004 e se arrastaria por cinco anos, durante os quais a AAP abriria falência e a Kerner Optical, que não era um estúdio de cinema, e sim uma empresa de efeitos especiais, assumiria os direitos.

Em 2009, com a Kerner também passando por dificuldades financeiras, os então produtores Brian Rogers e Peter Anderson convenceriam o então diretor, Keith Melton, a negociar a produção do filme com a Legendary Pictures, que havia sido fundada em 2000 e estava buscando produções de peso para seu catálogo. A Legendary daria luz verde em 2010, com a data prevista de lançamento do filme sendo estipulada para 2012. A Legendary também anunciaria uma parceria com a Toho, para que Godzilla fosse o mais fiel possível a seu original japonês, e com a Warner Bros, que co-produziria e co-financiaria o filme, tendo, também, os direitos de distribuição mundial - exceto no Japão, onde o filme seria distribuído pela Toho. A Warner, entretanto, não tinha interesse em manter Anderson, Rogers e Melton - embora Rogers ainda tenha sido creditado como produtor, por sua participação no projeto até então - e, após designar novos produtores dentre seu pessoal de confiança, começaria a procurar um novo diretor.

Boatos dariam conta de que Guillermo del Toro seria convidado, mas ele logo negaria; em 2011, seria anunciado Gareth Edwards, que era praticamente um estreante, somente tendo dirigido um longa-metragem até então, Monsters, lançado em 2010. Edwards se mostraria extremamente empolgado com o filme, se declararia fã de Godzilla, diria que sua principal inspiração seria o original de 1954, e ainda daria a ideia para que Godzilla enfrentasse outros monstros ao invés de apenas os militares - segundo ele, era importante que esse fosse um filme que atendesse aos desejos dos fãs, sem ser simplesmente uma refilmagem ou continuação dos originais japoneses.

O primeiro rascunho do roteiro seria feito por David Callaham ainda em 2010. Após a contratação de Edwards, David S. Goyer seria contratado para reescrevê-lo, mas faria apenas uma revisão, sequer sendo creditado; a versão final do roteiro ficaria a cargo de Max Borenstein, o único a ser creditado, embora o texto ainda tenha passado por duas revisões após ele entregá-lo, uma por Drew Pearce, que adequou as idades dos personagens aos atores que a Legendary havia selecionado - no roteiro original, os personagens eram muito mais jovens - e uma por Frank Darabont, contratado para dar mais carga emocional à história e solucionar alguns problemas detectados durante as filmagens - era pouco crível, por exemplo, que Godzilla tivesse passado todos esses anos sem ser detectado por nenhum governo até aparecer de repente, então Darabont reescreveu cenas para que ficasse claro que os governos sabiam de sua existência, mas encobriram o fato para a maioria da população. Edwards também pediria para que, na versão final do roteiro, Godzilla fosse não o herói ou o vilão, e sim uma força da natureza, um evento que segue seus próprios planos sem ligar para o que está acontecendo a seu redor. O diretor também faria questão de que fosse um filme fechado, com começo, meio e fim, sem um final aberto apontando para uma sequência; segundo ele, as sequências poderiam ser feitas, mas sem passar a impressão de que eram obrigatórias.

Ao licenciar o personagem para a Legendary, a Toho, talvez decepcionada com o filme de 1998, faria duas exigências: que a aparição de Godzilla fosse resultado de um acidente nuclear e que o filme fosse ambientado no Japão. Durante a pré-produção, com isso em mente, o produtor Thomas Tull fincaria o pé para que Godzilla fosse o mais parecido possível com o dos filmes japoneses - ele chegaria a declarar, em uma reunião da equipe de efeitos visuais, "temos de ter certeza de que Godzilla se parece com Godzilla". A equipe, então, trabalharia para que Godzilla se parecesse com uma criatura possível de existir no mundo real, mas mantendo todas as similaridades possíveis com uma roupa de dinossauro de borracha vestida por um ator. As principais concessões seriam quanto à altura do monstro - que, no original japonês, tem cerca de 60 metros de altura, mas nesse filme tem por volta de 108 metros - e ao rugido, baseado no original japonês, mas que levou seis meses para ser produzido pela equipe de som, que também queria que ele se parecesse com um rugido possível de ser emitido por uma criatura viva. Os movimentos de Godzilla seriam produzidos através de captura de movimentos do dublê T.J. Storm, com o ator Andy Serkis, um especialista nessa técnica, atuando como consultor especial, e foram inspirados nos movimentos de animais reais, em especial o urso e o dragão de Komodo.

As dificuldades com o roteiro e com os efeitos visuais fariam com que as filmagens demorassem para começar e com que a data de estreia de 2012 não pudesse ser cumprida, com a Legendary em 2013, quando as filmagens finalmente começariam, anunciando uma nova tentativa para 2014. As filmagens ocorreriam na costa oeste do Canadá, que seria usada para representar São Francisco, Tóquio e as Filipinas; cenas adicionais seriam filmadas em Honolulu, Havaí, e as cenas em estúdio seriam filmadas em Vancouver e Nova Iorque. Surpreendentemente para uma produção nesse estilo e desse tamanho, as equipes de filmagem eram pequenas, e a maioria das cenas eram externas, com pouco uso de chroma key. Seriam usadas câmeras digitais Arri Alexa, com os efeitos em 3D sendo adicionados por computação gráfica na pós-produção. Ao todo, 12 empresas de efeitos visuais atuariam na pós-produção, incluindo a Weta Digital e a Amalgamated Dynamics.

No filme, fica estabelecido que Godzilla é uma espécie de protetor da Terra, entrando em ação toda vez que algo ameaça o equilíbrio do planeta. No caso, esse algo são dois monstros, que recebem o nome de MUTOs (da sigla em inglês para "organismo terrestre gigantesco não-identificado"), que despertam de um sono de milênios após um tremor de terra, e parecem atraídos por fontes de energia nuclear, causando acidentes. O principal personagem humano do filme é Ford Brody (Aaron Taylor-Johnson), um tenente da Marinha dos Estados Unidos cujo pai, o cientista Joe Brody (Bryan Cranston), é obcecado por um acidente que, em 1999, destruiu a usina nuclear de Janjira, no Japão, matando a mãe de Ford. Por insistência de Joe, Ford o acompanha na investigação do que teria causado o acidente, o que faz com que ambos se envolvam com a Monarch, uma organização secreta que monitora criaturas como Godzilla e os MUTOs, e tem como principal cientista o Dr. Ishiro Serizawa (Ken Watanabe). Outros personagens de destaque são Ellie (Elizabeth Olsen), a esposa de Brody; a Dra. Vivienne Graham (Sally Hawkins), parceira de Serizawa no Monarch; o Almirante William Stenz (David Strathairn), chefe da força-tarefa encarregada de deter os MUTOs; e Sandra Brody (Juliette Binoche), a falecida mãe de Ford.

Godzilla estrearia em 8 de maio de 2014 nos Estados Unidos, com lançamento mundial em 16 de maio - exceto para a China, onde estrearia em 13 de junho, e no Japão, em 25 de julho. Com orçamento de 160 milhões de dólares, renderia 200,7 milhões nos Estados Unidos, sendo considerado um fracasso de bilheteria; no resto do planeta, porém, ele renderia outros 329 milhões, o suficiente para que a Legendary tivesse lucro - que, atualmente, no cinema, não é apenas uma questão de render mais do que custou - e declarasse que ele foi um sucesso. A crítica foi extremamente positiva, elogiando principalmente o tom sério do filme e a direção de Edwards; os pontos mais criticados foram a falta de desenvolvimento dos personagens e o pouco tempo de tela de Godzilla. Com o sucesso de público e crítica, a Legendary planejaria realizar uma trilogia dirigida por Edwards, mas, em 2016, após dirigir Rogue One: Uma História Star Wars, ele deixaria o projeto, alegando querer se envolver em outros de menor escala.

Godzilla: Rei dos Monstros
2019

A Legendary anunciaria que Godzilla ganharia uma sequência ainda com o filme em cartaz, em agosto de 2014; um mês antes, ela negociaria com a Toho a presença de três outros monstros clássicos do estúdio: Rodan, Mothra e King Ghiidorah. Edwards assinaria como diretor, Borestein começaria a escrever o roteiro, e, baseando-se no tempo que levou entre o início da pré-produção e o lançamento do primeiro filme, foi estabelecida a data de lançamento para junho de 2018.

Em 2015, porém, as coisas começariam a desandar. Primeiro, Aaron Taylor-Johnson anunciaria não ter certeza de que desejava fazer a sequência, e que sua presença dependeria da vontade de Edwards. Então, inspirada pelo sucesso do Universo Cinematográfico Marvel, a Legendary decidiria fazer um Monsterverse, com vários filmes de monstros ambientados no mesmo universo, tendo como elo de ligação a Monarch; ela decidiria que seu filme seguinte nesse projeto seria Kong: A Ilha da Caveira, que acabaria sendo lançado em 2017, e abriria caminho para o projeto mais ambicioso da trilogia de Godzilla, Godzilla vs. Kong, que teria data de estreia marcada para 2020. Então, em 2016, alegando não aguentar mais a Legendary só ficar planejando e não começar a executar nunca, Edwards abriria mão da direção para se dedicar a projetos menores. Pouco após a saída de Edwards, Borestein também desistiria, e a Legendary revisaria a data de estreia, adiando o filme para março de 2019.

Em outubro de 2016, a Legendary anunciaria que Michael Dougherty e Zach Shields estavam escrevendo o roteiro do segundo filme, que seria filmado em Qingdao, China, simultaneamente a Círculo de Fogo: A Revolta. Em dezembro, seria anunciado que o segundo filme iria se chamar, no original, Godzilla: King of the Monsters, e, no mês seguinte, que Dougherty seria também o diretor. Ele declararia desejar que seu filme fosse Aliens: O Resgate em relação ao Alien: O Oitavo Passageiro de Edwards, em uma alegoria de que o segundo filme teria muito mais ação e um ritmo mais frenético que o primeiro, de ritmo lento e revelações programadas. Ele também decidiria que o segundo filme seria muito mais centrado na Monarch, cujos membros atuariam como heróis, diferentemente do primeiro, no qual ela é uma organização secreta que age em segundo plano. No estilo dos primeiros filmes japoneses de Godzilla, Dougherty também tentou fazer com que esse passasse uma mensagem ecológica, um alerta de que devemos proteger o planeta antes que seja tarde demais.

A pedido da Toho, os monstros do filme deixariam de ser chamados de MUTOs - que passaria a ser uma espécie de nome apenas dos dois monstros do primeiro filme - e passariam a ser chamados de Titãs, com Godzilla e Kong também recebendo essa classificação. Dougherty deixaria claro que os Titãs não deveriam ser "dinossauros gigantes" ou "monstros impossíveis", e sim animais colossais que inspirassem medo e reverência; assim como Godzilla, eles receberiam elementos de animais reais, para que ficassem mais verossímeis - o que deve ter sido um tanto complicado no caso de Ghidorah, que tem três cabeças. O design de Godzilla também seria alterado a pedido de Dougherty, com as placas dorsais se tornando mais semelhantes às dos filmes japoneses, e suas patas ficando maiores para demonstrar que ele era um predador poderoso. O rugido também seria levemente alterado, para ficar mais parecido com o do filme de 1954.

Rodan seria inspirado não em pteranodontes, mas em várias aves, como abutres, águias e falcões, com sua pele tendo uma aparência de rocha vulcânica, já que ele vivia dentro de um vulcão. Mothra manteria quase todas as características de sua versão original de 1961, incluindo sua paleta de cores, mas os "olhos" de suas asas seriam modificados para ficarem parecidos com os olhos de Godzilla, para demonstrar a estreita relação entre os dois. King Ghidorah, conforme esperado, seria o mais difícil, com um consultor da Toho atuando junto aos produtores do filme para que ele ficasse realístico mas ainda parecido com sua versão original de 1964; os principais animais usados em sua composição seriam cobras e lobos, com escamas de vários répteis diferentes sendo usadas para que ele não ficasse parecido demais com Godzilla - por ideia de Dougherty, a cabeça central seria a "principal", com as das pontas agindo como membros pouco independentes; ele também pediria que Ghidorah tivesse uma aparência semelhante à dos dragões orientais, para que ele não acabasse se transformando em "um dragão de Game of Thrones".

Dougherty também pediria para que o filme tivesse Titãs criados pela Legendary, como os MUTOs do primeiro, e diria se tratar de uma "tradição da Toho" adicionar novos monstros ao cânone de Godzilla a cada filme. Esses Titãs receberiam os nomes de Baphomet, Typhon, Abaddon, Bunyip, Methuselah, Behemoth, Scylla, Tiamat, Leviathan, Sargon e Mokele-Mbembe, mas acabariam aparecendo muito pouco, não tendo nenhuma cena de destaque. O diretor chegaria a pedir para que a Legendary adquirisse a licença de mais monstros da Toho, como Anguirus, Biollante e Gigan, mas o estúdio alegaria que isso estouraria o orçamento. Curiosamente, a Legendary tinha os direitos para MechaGodzilla, que estava na primeira versão do roteiro, escrita por Borestein, mas Dougherty acharia que ele tinha pouco a ver com o enredo do filme e o descartaria.

O filme teria um "elenco humano" muito maior que o do anterior; o primeiro nome anunciado seria o de Millie Bobby Brown, da série Stranger Things, que faria sua estreia no cinema. Os únicos atores do primeiro filme a retornar seriam Strathairn, Watanabe e Hawkins, nos mesmos papéis. A chinesa Zhang Ziyi seria escalada para viver as gêmeas Ilene e Ling Chen, que, segundo Dougherty, teriam um papel crucial no Monsterverse, uma versão moderna das Shobijin dos filmes originais de Mothra, mas acabariam aparecendo pouco e não retornando para o terceiro filme. Joe Morton apareceria como o Dr. Houston Brooks, um personagem originalmente de Kong: A Ilha da Caveira, onde era mais jovem e foi interpretado por Corey Hawkins. Assim como no primeiro filme, T.J. Storm "interpretaria" Godzilla através de captura de movimentos; Ghodorah teria três atores, um para cada cabeça: Richard Dorton, Alan Maxton e Jason Liles, com esse último também fazendo a captura de movimentos para Rodan. Mothra, assim como os MUTOs do primeiro filme, seria inteiramente criada por computação gráfica.

Os personagens principais do elenco são o Dr. Mark Russell (Kyle Chandler), especialista em comportamento e comunicação animal, e sua ex-esposa, a Dra. Emma Russell (Vera Farmiga), uma paleobióloga que trabalha para a Monarch; os dois são os pais de Madison (Brown) e de um menino que morreu durante o ataque de Godzilla a São Francisco, mostrado no primeiro filme e ocorrido cinco anos antes do início do segundo, o que levou Mark a abandonar a Monarch. Enquanto trabalhava com Mothra, Emma foi sequestrada pelo ecoterrorista Alan Jonah (Charles Dance), que busca usar uma das invenções dos Russell para despertar os Titãs adormecidos e causar caos e pânico no planeta. Mark, então, acompanha uma missão de resgate da qual também fazem parte Stenz, Serizawa, Graham, Ilene, a Coronel Diane Foster (Aisha Hinds), o Tenente Jackson Barnes (O'Shea Jackson Jr.), o diretor de tecnologia da Monarch, Sam Coleman (Thomas Middleditch), e o "criptosonógrafo" da Monarch, Dr. Rick Stanton (Bradley Whitford), que tentam deter o terrorista enquanto impedem o governo de atacar Godzilla, que passa a ser considerado uma ameaça após sua luta com Ghidorah.

Godzilla: King of the Monsters teria estreia mundial em 31 de maio de 2019, após uma pré-estreia em Pequim em 13 de maio e outra em Hollywood em 18 de maio; mais uma vez, o filme seria distribuído em todo o planeta pela Warner, exceto no Japão, onde foi distribuído pela Toho. Com orçamento não revelado, mas entre 170 e 200 milhões de dólares, renderia 110,5 milhões nos Estados Unidos e 386,6 milhões se for considerado o mundo inteiro; houve muita especulação sobre se o filme teria dado lucro, com especialistas alegando que a bilheteria mundial teria de ser de pelo menos 400 milhões, mas a Legendary jamais se pronunciou sobre o assunto. A crítica ficou dividida, tendendo mais para o negativo, com a maioria dos críticos dizendo que o filme não passava de uma batalha entre monstros, com a história dos humanos sendo um fiapo, mal desenvolvida e de pouco interesse. Mesmo assim, a Legendary manteria seu planejamento, e só não lançaria o terceiro filme de sua trilogia na data estipulada por causa da pandemia.

Godzilla vs. Kong
2021

Curiosamente, a pré-produção de Godzilla vs. Kong começaria pouco após a estreia de Kong: A Ilha da Caveira, em 2017, o que significava duas coisas: primeiro, que o segundo e o terceiro filmes de Godzilla seriam produzidos pela Legendary quase que simultaneamente; segundo, que eles precisariam de uma equipe diferente para cada um. Para dirigir o terceiro filme, a Legendary escolheria Adam Wingard, que havia sido cogitado por Peter Jackson para dirigir uma sequência do King Kong de 2005, que jamais sairia do papel. Wingard deixaria claro que iria fazer um filme completamente novo, sem relação com Godzilla vs. King Kong, de 1962, que ele seria uma continuação tanto de Kong: A Ilha da Caveira quanto de Godzilla: Rei dos Monstros, e que o filme teria um vencedor definitivo, sem acabar em "empate", mas sem que um dos dois morresse, com o perdedor passando a ter um "extremo respeito" pelo vencedor.

Um pouco antes da contratação de Wingard, a Legendary começaria a trabalhar no roteiro, e contrataria Terry Rossio, que havia escrito um dos primeiros rascunhos do Godzilla de 1998, para liderar uma equipe composta por Patrick McKay, J. D. Payne, Lindsey Beer, Cat Vasko, T.S. Nowlin, Jack Paglen e J. Michael Straczynski, que ofereceria várias ideias para que Rossio escrevesse o primeiro rascunho. Rossio faria essa primeira versão de forma que cada parte do filme fosse tendenciosa a favor de um dos monstros, fazendo com que o público sentisse vontade de torcer por um deles, mas sempre lembrando que ambos são perigosos e incompreendidos pela humanidade. Após ser aprovado por Wingard, esse roteiro seria entregue a Dougherty e Shields, que o reescreveriam para que ele ficasse de acordo com o que iria ocorrer em Godzilla: Rei dos Monstros. Após essa revisão, a Legendary consideraria que a história havia ficado confusa, e contratou Borestein e Eric Pearson para dar polimento ao roteiro. Borestein aproveitaria para incluir no filme MechaGodzilla, que ele havia colocado em Godzilla: Rei dos Monstros mas Dougherty havia removido. No fim, apenas Borestein e Pearson seriam creditados como roteiristas.

As filmagens ocorreriam no Havaí, na Austrália e em Hong Kong; assim como Edwards, Wingard faria questão de filmar externas sempre que possível, só recorrendo a filmagens em estúdio quando isso fosse absolutamente necessário. As filmagens em estúdio, aliás, seriam conturbadas, com poucos sets estando à disposição da equipe, que tinha de desmontá-los e remontá-los com frequência; durante as filmagens em estúdio, antes mesmo da pandemia, um surto viral acometeu 40% da equipe, que teve de ficar de molho por uma semana, um operador de câmera quebrou o pé e teve de ser substituído, e o diretor de fotografia Ben Seresin teve de ser hospitalizado após ser picado por uma aranha venenosa. A pós-produção também seria conturbada: inicialmente, a Legendary pensaria em colocar uma empresa de efeitos digitais a cargo de Godzilla e outra diferente a cargo de Kong, mas a co-produtora Tamara Kent se oporia ferozmente, dizendo que isso não fazia nenhum sentido, já que eles teriam de lutar; no fim, seriam usadas apenas três empresas diferentes, a MSC, a Weta e a Scanline VFX, e cada uma delas ficaria responsável por sequências específicas do filme - todas as sequências envolvendo a Terra Oca, por exemplo, ficariam com a Weta.

Antes do lançamento do filme, houve muita controvérsia envolvendo o tamanho de Kong - afinal, o Godzilla da Legendary tem mais de 100 metros de altura, e a imagem que todos têm de Kong é a dele escalando o Empire State Building, o que significa que ele não teria nem dez, e, portanto, seria uma luta um tanto desleal. A Legendary se apressaria em deixar claro que o Kong de Godzilla vs. Kong era o mesmo de Kong: A Ilha da Caveira, que estaria bem mais velho e, portanto, ainda maior e mais forte. Em 2020, a Legendary publicaria oficialmente a informação de que, em A Ilha da Caveira, Kong tinha 31 m de altura, mas, em Godzilla vs. Kong, teria 102,7 m, o que o deixaria apenas poucos centímetros menor que Godzilla. A controvérsia não acabou, com muitos fãs mais antigos reclamando que era um absurdo um Kong tão grande, mas pelo menos a luta ficou mais justa.

Assim como Godzilla: Rei dos Monstros é ambientado cinco anos após Godzilla, Godzilla vs. Kong é ambientado cinco anos após Godzilla: Rei dos Monstros - e uns 50 anos após Kong: A Ilha da Caveira. Ele começa com Kong, que é oficialmente considerado um dos Titãs, vivendo em um ambiente artificial controlado, para tentar protegê-lo de Godzilla, que voltou a fazer ataques aleatórios contra a humanidade, passando a ser considerado um perigo para os governos do mundo. De fato, quando Kong sai de lá, como parte de um projeto da Apex Corporation para tentar encontrar uma nova fonte de energia seguindo a teoria da Terra Oca, ele começa a ser seguido por Godzilla, que aparentemente pretende lutar com ele para determinar quem seria o mais forte de todos os Titãs. Sem que ninguém saiba, porém, a Apex também tem um plano para destruir ambos, livrando a Terra dos Titãs para sempre.

Os únicos personagens que retornam de Godzilla: Rei dos Monstros são Madison, que desconfia que a Apex possa estar por trás do comportamento errático de Godzilla, e decide investigar a empresa por conta própria, e o Dr. Mark Russell, que agora é Chefe da Divisão de Operações Especiais da Monarch; os dois mais uma vez são interpretados por Brown e Chandler. Novos personagens incluem o Dr. Nathan Lind (Alexander Skarsgård), geólogo e cartógrafo da Monarch que lidera a expedição em busca da Terra Oca; a Dra. Ilene Andrews (Rebecca Hall), antropóloga e linguista da Monarch que trabalha junto a Kong, tentando protegê-lo e se comunicar com ele; Jia (Kaylee Hottle), menina órfã e surda que se torna amiga de Kong; Bernie Hayes (Brian Tee Henry), funcionário do baixo escalão da Apex que tem um podcast sobre teorias da conspiração envolvendo Titãs, descobre acidentalmente o segredo da empresa, e se torna parceiro de Madison na investigação; Josh Valentine (Julian Dennison), amigo de Madison que é arrastado por ela para a investigação; Ren Serizawa (Shun Oguri), filho do Dr. Serizawa, que, ao contrário do pai, considera os Titãs uma ameaça, e trabalha no projeto secreto da Apex; e Maia Simmons (Eiza González), que também participa da expedição à Terra Oca, e é filha do dono da Apex, Walter Simmons (Demián Bichir), bilionário que acredita que a Monarch está equivocada e funda a Apex, que posa como uma empresa de tecnologia, para destruir os Titãs de uma vez por todas. Lance Reddick participa como o chefe da Monarch, que, na versão final do filme, aparece em apenas duas cenas curtas; T.J. Storm mais uma vez forneceu a captura de movimentos para Godzilla, e Eric Petey forneceu para Kong.

Godzilla vs. Kong seria lançado mundialmente em 24 de março de 2021, exceto nos Estados Unidos, onde estrearia em 31 de março, simultaneamente nos cinemas e no serviço de streaming HBO Max, o que também causou uma certa controvérsia, e no Japão, onde, por causa da pandemia, sua estreia seria sucessivamente adiada até finalmente ocorrer em 2 de julho - mais uma vez, no Japão o filme seria distribuído pela Toho, e, no resto do planeta, pela Warner. Seu orçamento novamente não seria divulgado, sendo estimado entre 155 e 200 milhões de dólares; nas bilheterias, ele renderia 100,9 milhões nos EUA e 468,2 milhões somando o mundo inteiro, resultado que a Legendary consideraria excepcional para um período de pandemia - dessa vez, aliás, eles divulgariam oficialmente que o filme deu lucro. Diferentemente do filme anterior, para esse a crítica foi bastante positiva, com o roteiro sendo considerado bem superior ao de Godzilla: Rei dos Monstros, embora ainda mal desenvolvido, e os efeitos visuais sendo bastante elogiados.

Após a estreia de Godzilla vs. Kong, a Legendary anunciaria que seu Monsterverse seguiria com duas séries de TV, uma de animação no estilo anime, chamada Skull Island, produzida pela Netflix, e uma live action (com atores, como os filmes), chamada The Titans, produzida pela Apple TV+; nenhuma das duas ainda possui data de estreia definida. No início de 2022 também seria anunciado que a série de filmes continuaria, e que o seguinte, que deve entrar em pré-produção em breve, será Son of Kong.
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segunda-feira, 1 de setembro de 2014

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Godzilla (XIII)

E hoje teremos o último post da série sobre Godzilla, com os dois últimos filmes da Série Millennium!

Godzilla: Tokyo S.O.S.
2003

Kiryu venceu a batalha contra Godzilla, mas ficou extremamente avariado no processo, e o monstro conseguiu fugir, voltando para o oceano. Já prevendo um novo ataque, o exército começa imediatamente a repará-lo e a fazer modificações que permitam que a luta seguinte transcorra sem surpresas. À frente da equipe que trabalha em Kiryu, está o cientista Yoshito Chujo (Noboru Kaneko), que desenvolveu uma nova arma, chamada Tri-Master, que ele acredita ser capaz de destruir Godzilla. Após o sucesso da missão anterior, Akane Yashiro (Yumiko Shaku) é promovida a comandante das operações, sendo a nova piloto a tenente Azusa Kisaragi (Miho Yoshioka), que conta com a ajuda do técnico Kyosuke Akiba (Mitsuke Koga).

Enquanto os reparos e modificações são realizados, porém, o Primeiro-Ministro do Japão, Hayato Igarashi (Akira Nakao), recebe a visita das Shobijin (Masami Nagasawa e Chihiro Otsuka), duas moças diminutas que representam Mothra. Segundo elas, Godzilla voltará a atacar o Japão com ainda mais fúria, pois não se conforma que o exército usou os ossos de um de sua espécie para construir Kiryu. Segundo elas, se o governo japonês concordar em desmontar Kiryu e jogar seus ossos ao mar, como oferenda a Godzilla, Mothra assumirá o lugar do robô e protegerá o Japão no caso de um novo ataque. Enquanto o Primeiro-Ministro analisa a proposta, Kamoebas - uma tartaruga gigante que apareceu pela primeira vez no filme Space Amoeba, da década de 1970 - aparece morta na orla japonesa, com marcas de que teria sido atacada por Godzilla. Diante da pressão popular, o governo decide seguir com os reparos em Kiryu.

Mas, antes que Kiryu esteja pronto, Godzilla ataca Tóquio mais uma vez. Para tentar mostrar que Kiryu não é necessário, Mothra o enfrenta, mas não é páreo para sua fúria. Ela consegue segurar Godzilla o suficiente, porém, para que Kiryu fique pronto e assuma a luta.

Como vocês devem ter reparado, diferentemente do tradicional na Série Millenium, esse filme é continuação direta de Godzilla Against Mechagodzilla, o filme anterior. Ao terminar o filme anterior, o diretor Masaaki Tezuka pediu autorização à Toho para trabalhar em uma sequência, e, graças ao bom desempenho nas bilheterias e baixa quantidade de críticas negativas, teve seu pedido atendido. O próprio Tezuka escreveu o roteiro, em parceria com Masahiro Yokotani. Os efeitos especiais ficariam a cargo de Eichi Asada, que misturaria técnicas tradicionais a computação gráfica. Curiosamente, os efeitos tradicionais desse filme foram bastante elogiados, enquanto os efeitos de computação foram considerados de aparência barata e desnecessários.

Mais uma vez, o filme contou com um ator veterano no elenco, Hiroshi Koizumi, no papel do Dr. Shinichi Chujo, pai de Yoshito. Koizumi participou de nada menos que quatro filmes da Série Clássica, tendo interpretado Shoichi Tsukioka em Godzilla Contra-Ataca, o Professor Miura em Mothra vs. Godzilla e Godzilla vs. Ghidrah, e o Professor Wagura em Godzilla vs. Mechagodzilla, além de ter interpretado o Professor Minami em O Retorno de Godzilla, já na Série Heisei - ou seja, ele já estava bem acostumado a interpretar cientistas. Tsutomu Kitagawa mais uma vez vestiria a roupa de Godzilla, ficando a roupa de Kiryu com Motokuni Nakagawa, outro ator que costumava trabalhar em tokusatsus da Toei.

Um fato curioso do roteiro original é que ele previa que um mosassauro, criatura pré-histórica que realmente existiu, é que apareceria morto na orla para antecipar o ataque de Godzilla. Shogo Tomiyama, o produtor do filme, achou que não seria de bom tom revelar que um mosassauro ainda estava vivo apenas para matá-lo, e pediu para que Tezuka alterasse a cena. Não querendo cortá-la, ele a alterou para que Anguirus fosse a criatura que aparece morta, o que foi novamente vetado por Tomiyama, temendo uma reação negativa por parte dos fãs. Tezuka, então, decidiu usar Kamoebas, um monstro que já existia, mas não era usado há muito tempo, tentando preencher ambos os pré-requisitos de não matar um monstro novo nem um com quem o público se importasse.

Além de se destacar por ser continuação do filme anterior, Tokyo S.O.S. ainda possui uma cena pós-créditos, na qual é mostrado um laboratório com recipientes contendo DNA de vários monstros da Toho, como Varan, Baragon, Kumonga e o próprio Kamoebas, dando a entender que o exército estaria planejando criar versões cibernéticas e controláveis também desses kaiju. Apesar da expectativa criada por essa cena, a Toho jamais desenvolveu essa ideia, e, oficialmente, declarou que se tratava de um "cenário e se", ou seja, que, na cronologia do filme, o exército não possuía tais DNAs, mas que, em um "universo alternativo" ou algo do tipo, poderia possuí-los - explicação considerada bem meia-boca pelos fãs.

Com o título original de Gojira tai Mosura tai Mekagojira: Tokyo S.O.S., o filme estrearia em 13 de dezembro de 2003. Mais uma vez, por alguma razão bizarra, na primeira semana ele seria exibido em sessão dupla com um longa metragem de Hamtaro, Hamtaro: Ham Ham Grand Prix. Talvez graças a isso, ele terminaria seu primeiro fim de semana em terceiro lugar nas bilheterias japonesas. O restante de sua carreira nos cinemas também não fez feio, sendo considerado um grande sucesso de público pela Toho. A crítica também o recebeu bem, apontando que o roteiro possuía algumas falhas e pouco desenvolvimento dos personagens, mas que a parte que interessava - a batalha entre os monstros - era desenvolvida com maestria, atrapalhada apenas pelos efeitos de computação.

Quebrando com a tradição, Tokyo S.O.S. não ganharia uma versão internacional produzida pela própria Toho em Hong Kong; a dublagem em inglês ficaria por conta da Columbia Tri-Star, que arcaria com os custos para lançar o filme em DVD nos Estados Unidos em 2004, como parte das comemorações pelos 50 anos do filme original. Curiosamente, o DVD de Tokyo S.O.S. podia ser encontrado tanto vendido individualmente quanto como parte de um box comemorativo, que também trazia O Filho de Godzilla e o Godzilla vs. Mechagodzilla da Série Clássica. A presença de Godzilla vs. Mechagodzilla eu até entendo, mas por que colocar O Filho de Godzilla junto, pra mim, é um mistério.

Godzilla: Final Wars
2004

2004 marcaria nada menos que o quinquagésimo aniversário da estreia do filme original de Godzilla nos cinemas. A Toho, portanto, decidiu que o próximo filme da série deveria ser, mais uma vez, uma comemoração. Tomiyama levou essa ideia ainda mais longe, e decidiu que o filme seria um tributo. Nas palavras do diretor, Ryuhei Kitamura, já famoso por outras obras de ação, mas que faria sua estreia na série, o filme, se fosse um disco, seria um best of, trazendo os melhores elementos de toda a carreira cinematográfica de Godzilla, abrangendo as três séries. Tal obra não poderia ser mais uma, merecendo ter um desfecho digno de um capítulo final. Diante disso, o filme ganharia o título de Godzilla: Final Wars - "as guerras finais".

Final Wars traz tudo o que todos os outros filmes de Godzilla tinham, junto e misturado. Para começar, quase todos os monstros que apareceram nos filmes anteriores fazem participações, até mesmo os rejeitados, como Hedorah. A maioria, como Varan, Gaira, Baragon, Gezora, Titanossauro, Megaguirus e o Mechagodzilla original, aparece através de cenas reutilizadas de seus próprios filmes, e apenas por alguns momentos. Outros, como Mothra, Manda, Kamacuras e Kumonga, form criados por computação gráfica, e participam um pouco mais. Os que participam mais ativamente, como Rodan, Anguirus, Minilla, Gigan, Ghidorah, Ebirah e King Ceasar, além, é óbvio, do próprio Godzilla, são "interpretados" por atores vestidos com suas roupas, algumas delas usadas nos filmes originais e guardadas no acervo da Toho desde então. Até mesmo Zilla, "o monstro que atacou Nova Iorque e foi confundido com Godzilla", faz uma aparição, lutando contra Godzilla e, evidentemente, perdendo feio.

Assim como os monstros, muitos atores que participaram dos filmes anteriores de Godzilla retornaram para este, em papéis novos ou não. O mais famoso é Akira Takarada, o marinheiro Hideto Ogata do filme original, o repórter Ichiro Sakai de Mothra vs. Godzilla, o astronauta Fuji de Godzilla contra o Monstro Zero, o ladrão Yoshimura de Godzilla contra o Monstro do Mar e que ainda havia feito uma participação especial em Godzilla vs. Mothra, que aqui interpreta o Secretário Geral das Nações Unidas. Além dele, Kumi Mizuno, a Namikawa de Godzilla contra o Monstro Zero e a Dayo de Godzilla contra o Monstro do Mar, volta ao papel de Machiko Tsuge, a Primeiro-Ministro do Japão, que havia interpretado em Godzilla Against Mechagodzilla; Masatoh Eve, de Godzilla vs. Megaguirus, interpreta um general alienígena; e Kenji Sahara, o coadjuvante que mais estrelou filmes de Godzilla (aparecendo no Godzilla original, em King Kong vs. Godzilla, Mothra vs. Godzilla, O Filho de Godzilla, O Despertar dos Monstros, A Vingança de Godzilla, O Terror de Mechagodzilla, nos dois Godzilla vs. Ghidrah, nos dois Godzilla vs. Mechagodzilla e em Godzilla vs. SpaceGodzilla, sempre em papéis pequenos) aqui ganha um papel maior, o do paleontólogo Hachiro Jinguji. Tsutomu Kitagawa também retorna ao seu papel, o de Godzilla, pela última vez em sua carreira.

Ao ser escolhido para a direção, Kitamura declararia que tentaria resgatar o clima dos filmes da Série Clássica, com batalhas acirradas entre monstros e poucos diálogos. Segundo ele, o Godzilla original era bem mais focado na ação, com monstros mais fortes e rápidos e batalhas destruidoras que formavam o núcleo da história, enquanto os filmes mais recentes possuíam muitos diálogos, monstros letárgicos e batalhas que só serviam para atender ao enredo. Segundo ele, quem ia a um filme de Godzilla queria ver Godzilla, e não militares debatendo como irão detê-lo.

Mas, afinal, sobre o que fala o filme? Anos de poluição e testes nucleares resultaram no nascimento de monstros gigantes, chamados kaiju. Para detê-los, é criada a Força de Defesa da Terra (EDF, da sigla em inglês), um exército especial com armas de última geração, soldados especialmente treinados e mutantes com poderes psíquicos. Aos poucos, a EDF consegue destruir todos os monstros, exceto um: Godzilla. Em 2004, o veículo mais poderoso da EDF, o Gotengo, consegue encurralar Godzilla na Antártida e soterrá-lo, congelando-o.

Anos se passam, e a EDF encontra um kaiju mumificado. Shinichi Ozaki (Masahiro Matsuoka), um soldado com poderes psíquicos, e a Dra. Miyuki Otonashi (Rei Kikukawa), uma bióloga molecular das Nações Unidas, são designados para estudá-lo. Enquanto o estudam, as Shobijin (Masami Nagasawa e Chihiro Otsuka, também repetindo os papéis do filme anterior) surgem e revelam que se trata de Gigan, um monstro-ciborgue alienígena enviado para destruir a Terra doze mil anos antes. As Shobijin também alertam que, em breve, ocorrerá uma batalha entre o bem e o mal, e que Ozaki terá papel fundamental nela, devendo escolher um dos lados.

Pouco depois disso, vários kaiju surgem de repente em cidades ao redor do mundo, destruindo-as. A EDF envia seus principais veículos e soldados, mas só consegue derrotar um deles, Ebirah, se mostrando incapaz de destruir os demais. De repente, uma força alienígena, os Xiliens, surge e destrói os monstros, se declarando amigos da humanidade. Devido ao aviso das Shobijin, Ozaki, Miyuki e Douglas Gordon (Don Frye), o capitão do Gotenjo, não acreditam nos Xiliens, e decidem investigá-los. Eles acabam descobrindo que os alienígenas substituíram todos os principais oficiais da EDF por androides, e planejam usar a raça humana como gado, pois se alimentam de mitocôndrias. Mais que isso, o próprio ataque dos kaiju foi orquestrado pelos Xiliens, que os controlam, para que pudessem posar de salvadores da humanidade.

O trio planeja expor os planos dos alienígenas na televisão, mas um de seus comandantes, conhecido apenas como Regulador (Kazuki Kitamura), descontente com os planos do líder de tomar a Terra aos poucos, decide assumir o comando e enviar novamente os kaiju para devastar o planeta. Com a EDF paralisada, o destino da Terra parece traçado, mas Gordon tem uma ideia ousada: usar o Gotengo para libertar Godzilla, e fazer com que o monstro enfrente os kaiju controlados pelos Xiliens.

Com roteiro co-escrito pelo diretor Kitamura, por Wataru Mimura (de Godzilla 2000, Godzilla vs. Megaguirus e Godzilla Against Mechagodzilla, além do Godzilla vs. Mechagodzilla da Série Heisei) e por Isao Kiriyama, Final Wars estrearia em 4 de dezembro de 2004 no Japão; antes disso, ganharia uma pré-estreia internacional, em 29 de novembro, em Los Angeles, Califórnia, Estados Unidos. Antes da pré-estreia, Godzilla seria homenageado, ganhando uma estrela com seu nome na Calçada da Fama em Hollywood.

Assim como seu antecessor, Final Wars não ganharia uma versão internacional produzida pela Toho, apenas uma versão dublada pela Columbia Tri-Star para ser lançada em DVD nos Estados Unidos em 2005. França e China dublariam o filme em seus idiomas e o exibiriam no cinema, e na Rússia ele seria exibido na TV durante um especial de Halloween, mas, no restante do mundo, ele seria lançado diretamente em DVD.

O filme seria o mais caro de todos os estrelados por Godzilla produzidos pela Toho, graças não somente ao grande número de batalhas entre monstros e de efeitos especiais, mas também por ser o primeiro a filmar em várias locações internacionais, incluindo Sydney, Cairo, Nova Iorque, Paris, Xangai e o deserto do Arizona. Apesar de todas as expectativas da Toho, porém, a bilheteria não correspondeu, com o filme estreando apenas no terceiro lugar das bilheterias. Final Wars se tornaria o menos assistido de toda a Série Millennium, o que também pode ter sido influenciado pela crítica, bastante dividida, mas tendendo para a opinião de que o filme não era dos melhores.

Por conta disso - e também porque, afinal de contas, eram as "guerras finais" - a Toho decidiria dar um tempo após Final Wars, suspendendo a Série Millennium por pelo menos dez anos, até o aniversário de 60 anos do filme original, em 2014. Para esse evento, porém, ao invés de produzir um novo filme, ela licenciaria o personagem à norte-americana Legendary Pictures, sob a promessa de que o novo Godzilla norte-americano seria mais fiel ao original que o da Sony. De fato foi, e o sucesso do novo filme parece ter inaugurado uma nova série, esta produzida nos Estados Unidos, com um próximo lançamento já previsto para 2016 - e com a possibilidade de contar com Rodan, Mothra ou King Ghidorah, que também foram licenciados para a Legendary Pictures.

Série Godzilla

•Tokyo S.O.S.
•Final Wars

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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

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Godzilla (XII)

E vamos a mais filmes de Godzilla!

Godzilla, Mothra and King Ghidorah: Giant Monsters All-Out Attack
2001

Na década de 1960, no auge da popularidade de Godzilla, surgiriam, como de costume, vários outros monstros, criados por estúdios rivais da Toho, visando pegar uma carona no sucesso de seus filmes. A maioria deles protagonizou apenas um filme e caiu no esquecimento, mas alguns conseguiram conquistar uma base de fãs própria, ganhando várias continuações e alcançando uma certa popularidade. Desses o mais popular de todos foi Gamera.

Criada por Yonejiro Sato para os estúdios Daiei, Gamera era uma tartaruga colossal, capaz de andar sobre duas pernas, de cuspir fogo e de voar. Segundo seu primeiro filme, ela era uma tartaruga pré-histórica, aprisionada no gelo durante a Era Glacial e libertada na década de 1960 durante uma batalha no ártico entre os exércitos dos Estados Unidos e da União Soviética. Por alguma razão, Gamera se alimenta de petróleo e seus derivados - o que lhe dá as já citadas habilidades de cuspir fogo e de voar, essa última recolhendo as pernas para dentro do casco, de onde sai um fogo tipo de foguete, que a propulsiona - e passa a atacar o Japão em busca de alimento.

Assim como Godzilla, Gamera teve duas séries. Na série original, que teve oito filmes lançados entre 1965 e 1980, assim como Godzilla, ela atacava o Japão, era enfrentada pelo exército e, eventualmente, confrontava algum outro monstro que aparecia por lá - seis dos oito filmes, aliás, têm como título "Gamera vs." algum outro monstro. Na segunda série, que teve três filmes, lançados em 1995, 1996 e 1999, houve um reboot, e a origem de Gamera foi alterada para que ela se tornasse um personagem heroico: criada através de engenharia genética na cidade de Atlântida, Gamera tem a missão de proteger a Terra de seu arqui-inimigo Gyaos, devotado a destruir toda a raça humana, e sai da animação suspensa em que se encontrava quando a poluição ambiental liberta Gyaos de sua prisão.

Não, infelizmente, Gamera nunca fez uma participação em um filme de Godzilla. O motivo pelo qual ela está sendo abordada nesse post é que os três filmes da segunda série de Gamera foram dirigidos pelo mesmo diretor, Shusuke Kaneko. Como os três também foram sucessos de público e crítica no Japão, a Toho procurou Kaneko e lhe convidou para escrever e dirigir um filme de Godzilla. Que, como vocês devem estar imaginando, foi esse aqui, que atende pelo comprido título de Godzilla, Mothra and King Ghidorah: Giant Monsters All-Out Attack (no original japonês, Gojira, Mosura, Kingu Gidora: Daikaiju Sokogeki, ambos os subtítulos significando "o ataque total dos monstros gigantes").

Em seu roteiro original, porém, Kaneko não iria usar nem Mothra, nem King Ghidorah. Na primeira versão do roteiro - co-escrito por Kaneko, Keiichi Hasengawa e Masahiro Yokotani - Godzilla atacava Tóquio, e só conseguia ser detido pela união de Anguirus, Varan e Baragon. Os co-produtores Shogo Tomiyama e Hideyuki Honma aprovaram o roteiro, mas pediram para que Anguirus e Varan fossem substituídos por Mothra e King Ghidorah, dois personagens mais populares, para atrair mais público para os cinemas. Isso geraria algumas controvérsias: primeiro, King Ghidorah, que, antes desse filme, sempre era mostrado como vilão, pela primeira vez apareceria como herói, se unindo a outros monstros contra uma ameaça maior. Segundo, Godzilla, que normalmente estava do lado dos heróis, pela primeira vez em sua carreira era a tal "ameaça maior" que precisava ser detida pelos outros monstros. Terceiro, muitos não entenderam por que a Toho decidiria tirar Anguirus, e não Baragon, do filme - sendo a justificativa oficial a de que Baragon, apesar de menos famoso, era mais querido dentre os fãs. Seja como for, um dos que ficaram menos satisfeitos com a mudança foi o chefe da equipe de efeitos especiais, Fuyuki Shinada. Grande fã de Varan, ele ficou empolgado quando soube que o monstro apareceria no filme, e, depois do corte, decepcionado, decidiu prestar uma espécie de homenagem, fazendo as cabeças de King Ghidorah bastante semelhantes à de Varan.

E a aparência e o comportamento nem seriam as únicas alterações feitas em Ghidorah: tradicionalmente, ele era mais alto que Godzilla, mas agora, como seria o herói, foi "reduzido", ficando mais baixinho para que Godzilla parecesse uma ameaça mais perigosa. Mothra também teria sua aparência alterada - ficando bem mais parecida com uma borboleta que com uma mariposa - assim como seus poderes, perdendo o pó venenoso e a habilidade de criar vendavais com as asas, mas ganhando uma espécie de jato de teia lançado de seu abdômen, essencial na luta contra Godzilla. Finalmente, para que Baragon não ficasse muito parecido com Godzilla, perdeu sua baforada e ganhou um rugido diferente, mas manteve sua habilidade de cavar túneis rapidamente.

Assim como seus oponentes, Godzilla foi modificado para esse filme: nele, ele é um morto-vivo, um cadáver reanimado pelos espíritos dos soldados japoneses que morreram na Segunda Guerra Mundial. Para ficar mais ameaçador, seus olhos não possuem pupilas, que, segundo Kaneko, o deixavam com uma aparência muito humanizada. Essas alterações foram alvo de muitas reclamações dos fãs, que viam Godzilla, mesmo nos primeiros filmes, não só como uma ameaça, mas também como uma vítima dos desmandos da humanidade; nesse filme, Godzilla é simplesmente uma força do mal, característica acentuada pela grande ênfase na destruição que ele causa e nas mortes que provoca, algo que não se via desde o primeiro filme. Kaneko também desejava que Godzilla caminhasse mais curvado, para ficar mais ameaçador, mas o ator Mizuho Yoshida, que veste a roupa de Godzilla nesse filme, sofria muitas dores ao tentar adotar essa postura; no final, todos acabaram concordando que seria melhor se Godzilla caminhasse com sua postura ereta tradicional.

O filme começa com uma palestra do Almirante Taizo Tachibana (Ryudo Uzaki), cujos pais foram mortos no ataque original de Godzilla, em 1954. Falando aos cadetes sobre a ameaça da Godzilla, o Almirante revela que o monstro não foi completamente derrotado, e que o ataque a um submarino nuclear pode ser um indício de seu retorno. Paralelamente a isso, a filha do Almirante, a repórter Yuri Tachibana (Chiharu Niyama), está filmando um documentário no Monte Myoko, quando um estranho terremoto liberta Baragon. No dia seguinte, um grupo de adolescentes está acampando no Lago Ikeda, e vê uma aparição de Mothra. Yuri desconfia que o surgimento dos dois monstros possa estar ligado ao retorno de Godzilla, e decide fazer um documentário sobre o Rei dos Monstros.

Para esse documentário, Yuri entrevista o Professor Hirotoshi Isayama (Hideyo Amamoto), que já há algum tempo vem tentando alertar as autoridades quanto a um retorno de Godzilla. Segundo o Professor, Godzilla morreu durante o primeiro ataque em 1954, mas foi reanimado pelas almas dos soldados japoneses mortos na Segunda Guerra Mundial, e agora retorna para punir o Japão, pois o país se esqueceu do sacrifício de seus filhos durante o combate. Segundo o Professor, a única forma de deter Godzilla é reunir os três Monstros Guardiões - Baragon, Mothra e Ghidorah - que devem ser despertados antes que Godzilla chegue ao país. Yuri, então, passa a seguir os relatos das aparições dos monstros, tentando documentar sua luta contra Godzilla, enquanto o exército, não querendo confiar em Monstros Guardiões, decide mobilizar suas forças e atacar todas as quatro criaturas.

O "ator homenageado" do filme - aquele que interpretou algum papel na Série Clássica e agora retorna como um personagem "venerável", tradição da Série Millenium que começou em Godzilla vs. Megaguirus - é justamente Hideyo Amamoto, que interpreta o Professor Isayama. Na Série Clássica, Amamoto interpretou dois papéis pequenos, o de um assistente da Princesa Salno em Godzilla vs. Ghidrah e o de um membro do Bambu Vermelho em Godzilla contra o Monstro do Mar, mas ele ficaria extremamente famoso entre os fãs de tokusatsu por interpretar o Dr. Shinigami, antagonista das primeiras séries do Kamen Rider.

O filme estrearia em 15 de dezembro de 2001, dividindo a crítica - alguns o considerariam um dos melhores da série, elogiando o clima sombrio da história, enquanto outros criticariam as várias mudanças feitas em relação aos filmes anteriores e a tentativa de se fazer uma crítica social em um filme de monstros. A bilheteria foi boa - aliás, este foi o filme de maior bilheteria dentre todos os da Série Millennium - mas muitos atribuem esse rendimento a uma estratégia de marketing bizarra da Toho, que pôs o filme, na primeira semana, em seção dupla com um longa-metragem de Hamtaro - um ingresso valia para ambos os filmes, então as crianças que foram ver Hamtaro acabaram contando como espectadores de Godzilla.

Como de costume, a Toho preparou uma versão internacional do filme, dublada em inglês em Hong Kong, para ser lançada na Ásia e Europa; curiosamente, a versão internacional altera vários dos diálogos do filme, para pôr menos ênfase na questão dos soldados japoneses mortos na Segunda Guerra e diminuir um pouco as críticas sociais feitas pelos personagens. Assim como fez com Godzilla vs. Megaguirus, a Sony preparou uma versão editada do filme, que foi exibida na televisão, no SciFi Channel, em 2003, sendo a versão sem cortes lançada em DVD no ano seguinte.

Godzilla Against Mechagodzilla
2002

Depois do retorno de Mothra e King Ghidorah, parecia óbvio que Mechagodzilla também retornaria. De fato, Tomiyama, dessa vez acompanhado pelo co-produtor Takahide Morichi, apresentou a ideia à Toho ainda durante as filmagens de Giant Monsters All-Out Attack. Com a luz verde, Tomiyama chamou mais uma vez Wataru Mimura para escrever o roteiro.

Mimura se basearia na última aparição de Mechagodzilla, no Godzilla vs. Mechagodzilla de 1993, no qual ele fora criado pela ONU, e no fato de que Godzilla, no filme anterior, era o vilão, e criaria um roteiro no qual Godzilla era a ameaça a ser detida, e Mechagodzilla a arma da Terra para detê-lo. Para diferenciar esse Mechagodzilla de suas aparições nos filmes anteriores, ele e Tomiyama optariam por chamá-lo, no filme, de Kiryu - que, em japonês, significa "dragão mecânico".

Como os filmes anteriores da Série Millenium, Godzilla Against Mechagodzilla (que, em inglês, significa "Godzilla contra Mechagodzilla", sendo que o título original japonês era, pela terceira vez, Godzilla vs. Mechagodzilla) não leva em conta o restante da cronologia, apenas o filme original de 1954. Desde aquele ataque, no qual o Godzilla original morreu, os militares japoneses vêm trabalhando em uma arma capaz de deter um novo Godzilla caso ele surja, e testam seus protótipos em vários monstros semelhantes a Godzilla, mas mais fracos, que aparecem de vez em quando. Durante um desses testes, o do Canhão Mazer, considerada a arma mais promissora desde que o projeto foi iniciado, a tenente Akane Yashiro (Yumiko Shaku), que está operando o Mazer, não consegue derrotar um dos monstros. Os militares chegam à conclusão de que Godzilla seria imune ao Mazer, mas, para justificar os milhões de ienes e anos de preparação envolvidos no projeto, Akane é usada como bode expiatório para o mau desempenho da arma, e transferida para um cargo burocrático.

Após o descarte do Mazer, o exército decide que a única forma de deter Godzilla seria com um segundo Godzilla, e põe em prática o Projeto Mechagodzilla, comandado pelo Professor Tokumitsu Yuaha (Shin Takuma). O Projeto cria um Godzilla mecânico, o qual o exército batiza de Kiryu, a partir do esqueleto do Godzilla original. Para pilotá-lo, o exército escolhe Akane - recebida por desconfiança por seus colegas, que acreditam que o Mazer falhou por culpa sua, e com hostilidade pelo tenente Susumu Hayama (Yusuke Tomoi), que a considera responsável pela morte de seu irmão durante o teste.

Bem no dia em que o exército revela Kiryu e procede com uma demonstração, Godzilla surge, e começa a destruir a cidade. Os militares veem isso como uma oportunidade perfeita para testar Kiryu em combate, mas, durante a luta, ocorre um imprevisto: o rugido de Godzilla desperta uma espécie de memória primal em Kiryu, que se livra do controle de Akane e sai também destruindo a cidade, causando ainda mais danos que Godzilla. Enquanto os militares lutam para reverter a situação e ganhar novamente o controle, Akane luta para não ficar com uma má-fama ainda maior, e provar que é capaz de destruir Godzilla.

Godzilla Against Mechagodzilla seria dirigido por Masaaki Tezuka (de Godzilla vs. Megaguirus), após Kaneko declinar o convite. Após ficar de fora do filme anterior, Tsutomu Kitagawa voltaria a vestir a roupa de Godzilla, e a roupa de Kiryu ficaria com Hirofumi Ishigaki, ator que, assim como Kitagawa, estava acostumado a aparecer em seriados de tokusatsu. Como de costume, o elenco conta com uma atriz veterana da Série Clássica, Kumi Mizuno, a Namikawa de Godzilla contra o Monstro Zero e a Dayo de Godzilla contra o Monstro do Mar, que aqui interpreta a Primeiro-Ministro do Japão, Machiko Tsuge. Vale citar que o filme conta com uma participação especial de Hideki Matsui, jogador de beisebol que na época atuava pelos Yomiuri Giants no Japão, mas que, no ano seguinte, seria contratado pelos New York Yankees. Curiosamente, a participação de Matsui se deu nem tanto por sua fama, mas porque seu apelido, dentre os fãs de beisebol, era Godzilla.

Também é interessante registrar que Godzilla Against Mechagodzilla faz referência não somente ao Godzilla original, mas também a outros filmes de kaiju da Toho, como Mothra, War of the Gargantuas e Space Amoeba. Um livro lançado no Japão pouco antes da estreia do filme traz uma "linha do tempo" de ataques de monstros contra os quais o exército japonês teria testado suas armas enquanto esperava por Godzilla; a lista inclui Varan, Moguera, Maguma, Dogora, Baragon, King Kong, Gorossauro, a serpente marinha gigante de King Kong 2 e os monstros Gezora e Ganimes, de Space Amoeba. O filme, infelizmente, não inclui nenhum desses monstros, mas quase incluiu Titanossauro: o roteiro original previa que, na batalha final, Titanossauro surgiria e ajudaria Kiryu na luta contra Godzilla, em uma espécie de homenagem a O Terror de Mechagodzilla; para cortar custos, porém, a ideia seria abandonada.

Godzilla Against Mechagodzilla estrearia em 15 de dezembro de 2002, agradando público e crítica: se tornaria o segundo filme de maior bilheteria da Série Millenium, e teria pouquíssimas críticas negativas. Os pontos mais elogiados seriam as cenas de batalha, consideradas bem dirigidas e bem coreografadas, e o roteiro, considerado bastante bem desenvolvido para um filme de kaiju.

Como sempre, o filme ganharia uma versão internacional, dublada em Hong Kong; partiu dos executivos da Toho em Hong Kong a ideia de usar a palavra against no título, para evitar a confusão que ocorreu quando do lançamento do segundo Godzilla vs. Mechagodzilla. A versão internacional seria lançada nos Estados Unidos, diretamente em DVD, em 2004, pela Sony - que, a essa altura, já parecia desinteressada até em editar os filmes para a TV, e provavelmente só os estava lançando porque, já que tinha o direito de fazê-lo, tentava ganhar algum dinheirinho com isso.

Série Godzilla

•Giant Monsters All-Out Attack
•Godzilla against Mechagodzilla

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segunda-feira, 28 de julho de 2014

Escrito por em 28.7.14 com 0 comentários

Godzilla (XI)

E hoje retomamos a série de posts sobre os filmes de Godzilla, abrindo a terceira e por enquanto última série, chamada Série Millennium.

Antes de começarmos, porém, um aparte: até onde eu saiba, nenhum filme da Série Millennium tem título em português. Portanto, a partir de agora, o título em negrito será o da versão internacional. O título da versão original japonesa, se for diferente, virá no corpo do texto, como já vinha sendo feito até agora. Dito isto, comecemos!

Godzilla 2000
1999

Após Godzilla vs. Destroyer, a Toho não tinha planos de fazer um novo filme de Godzilla tão cedo, talvez somente em 2004, quando o filme original completasse 50 anos. Em 1998, entretanto, aconteceria uma coisa que a faria mudar de ideia, e colocar um novo Godzilla em produção o mais rápido possível: o lançamento de um filme norte-americano de Godzilla.

O filme norte-americano, dirigido por Roland Emmerich e estrelado por Matthew Broderick, não foi feito à revelia da Toho nem nada assim; através de um contrato com a TriStar Pictures, a Toho deu permissão para o uso do nome e da imagem do personagem. Para todos os efeitos, o Godzilla norte-americano era um produto licenciado oficial, e, embora provavelmente não fosse fazer parte da cronologia existente de Godzilla, pelo menos tinha o aval da Toho para ser um novo remake do filme original de 1954.

Algumas decisões dos norte-americanos, entretanto, desapontaram imensamente não somente os executivos da Toho, mas o público japonês em geral. Coisas como a profunda alteração na imagem do monstro - volto a dizer, a Toho deu permissão para que a imagem original de Godzilla fosse usada, então não era essa a questão. Na pré-produção, inclusive, o técnico em efeitos especiais Stan Winston chegou a fazer um modelo do monstro de aparência quase idêntica à original japonesa, mas o designer de produção Patrick Tatopoulos optaria por descartar essa versão e criar uma nova aparência misturando características de dinossauro e iguana, que andava curvado com a cabeça e a cauda paralelas ao chão ao invés de ereto como o Godzilla japonês; segundo Tatopoulos, ele teria chegado a essa aparência após Emmerich instruí-lo de que o Godzilla de seu filme deveria ser capaz de correr extremamente rápido.

Ok, a aparência de Godzilla é um ponto importante - ninguém gostaria, por exemplo, que mudassem a aparência do Homem-Aranha no seu primeiro filme - mas a alteração poderia ser relevada. Se Emmerich também não tivesse decidido que Godzilla era fêmea, e que estava indo a Nova Iorque para colocar seus ovos. Ok, os japoneses já haviam inventado que o primeiro Godzilla era fêmea em O Filho de Godzilla, então, de certa forma, isso também poderia ser relevado. Mas houve um terceiro detalhe, esse considerado imperdoável: no filme norte-americano, Godzilla é morto por mísseis disparados pelo exército. Não somente isso, mas ele teme tais armas, fugindo delas quando são disparadas.

Isso era a gota d'água. Para os japoneses, Godzilla era uma força da natureza, impossível de ser impedido, quanto mais morto, por meras armas humanas. Por mais que o exército japonês tentasse, a única forma de deter Godzilla era sempre extremamente drástica, como o Destruidor de Oxigênio - que não destruiu somente Godzilla, mas toda a vida marinha em suas imediações. A maioria dos críticos japoneses deixou o cinema logo após a morte de Godzilla, sem sequer ver o final. Um deles escreveu que matar Godzilla com um míssil equivalia a matar o Super-Homem com um revólver. Shusuke Kaneko, diretor dos mais recentes filmes de Gamera, outro popular monstro japonês, disse em uma entrevista que parecia que os norte-americanos eram incapazes de conceber uma criatura a qual suas armas não conseguiam matar.

Irritadíssima com tamanho desrespeito, a Toho chamou o produtor Shogo Tomiyama, que havia trabalhado ao lado do falecido Tomoyuki Tanaka desde Godzilla vs. Biollante, e praticamente ordenou que ele criasse um novo filme de Godzilla. Não precisava ser um reboot, um remake, nada, apenas mais um filme no qual o Godzilla original, com sua aparência e ferocidade originais, enfrentasse um outro monstro qualquer em Tóquio, diante dos olhares desesperados de sua população, incapaz de fazer nada a não ser torcer para que a luta acabe logo e Godzilla volte para sabe-se lá de onde ele veio. Enfim, Godzilla sendo Godzilla.

Tomiyama chamaria Hiroshi Kashiwabara (de Godzilla vs. SpaceGodzilla) e Wataru Mimura (do Godzilla vs. Mechagodzilla da Série Heisei) para escrever o roteiro. Eles criariam um filme fora de cronologia, no qual Godzilla existe e ameaça o Japão, mas não é explicada sua origem - especula-se que o filme é ambientado durante o mesmo período da Série Heisei, mas a Toho jamais declarou oficialmente entre quais filmes ele estaria posicionado na cronologia. A direção ficaria a cargo de outro veterano de Godzilla, Takao Okawara, de Godzilla vs. Mothra, Godzilla vs. Mechagodzilla e Godzilla vs. Destroyer. Quanto ao título, Tomiyama queria ser simples e chamar o filme apenas de Godzilla, mas, como já existiam três filmes com esse título (o norte-americano, o original japonês de 1954 e O Retorno de Godzilla, que, em japonês, também se chama apenas Godzilla), a Toho não concordou. Como o planejamento original era lançar o filme no ano 2000, Tomiyama decidiu chamá-lo, provisoriamente, de Godzilla 2000, até encontrar um título melhor.

No filme, existe uma organização chamada Godzilla Protection Network ("rede de proteção contra Godzilla", ou GPN), dedicada a acompanhar os movimentos de Godzilla e prever onde será seu próximo ataque. Esse ataque ocorre bem quando outra organização, a Inteligência para Controle de Crises (ICC) encontra um disco voador de seis milhões de anos no findo do oceano. Ao ser perturbado, o disco voador entra em funcionamento e levanta voo. Enquanto Godzilla está enfrentado o exército japonês, que lança contra ele os novos e poderosíssimos mísseis Full Metal, que parecem não surtir nenhum efeito - em uma clara alfinetada no filme norte-americano - o disco voador surge e o ataca. Durante a batalha, Godzilla volta para o oceano, mas tem seu material genético colhido pelos alienígenas.

Yuji Shinoda (Takehiro Murata), fundador da GPN, que está estudando Godzilla há anos, acredita saber o que os alienígenas querem com ele: segundo seus estudos, Godzilla possui um gene regenerador, que é o que faz com que ele seja tão resistente e consiga sobreviver até mesmo ao mais destrutivo dos ataques. Ao colher seu material genético, os alienígenas teriam conseguido esse gene, o qual pretendem usar para reconstruir seus corpos, danificados após tantos séculos de animação suspensa.

De fato, após um novo ataque, os alienígenas se dirigem à população de Tóquio: se auto-denominando milenianos, eles avisam que vieram para invadir a Terra, e que, mesmo após seis milhões de anos de atraso, pretendem cumprir sua missão. Quando os milenianos saem do disco voador, porém, algo estranho acontece: como a atmosfera da Terra é bastante diferente daquela com a qual eles estão habituados - provavelmente mais parecida com a de milhões de anos atrás - a nova atmosfera e o gene de regeneração de Godzilla causam uma mutação, transformando-os em um horrível e gigantesco monstro, o qual o ICC decide chamar de Orga.

Talvez revoltado por um novo monstro aparecer em seu território, Godzilla ruma a Tóquio, onde enfrentará Orga - tarefa que não se mostrará nada fácil, já que, além de contar com o apoio aéreo de seu disco voador, Orga tem os mesmos poderes de regeneração de Godzilla.

Como Koichi Kawakita estava aposentado dos filmes de Godzilla, os efeitos especiais ficariam a cargo de Kenji Suzuki, que já havia trabalhado nessa função em outros filmes da Toho. Suzuki manteria os atores fantasiados nos papéis dos monstros, mas experimentaria, pela primeira vez na série, efeitos especiais feitos de computação gráfica - o mileniano que deixa o disco voador antes de sofrer a mutação para se transformar em Orga seria a primeira criatura em um filme de Godzilla totalmente criada por computação. Com Kenpachiro Satsuma também aposentado, a roupa de Godzilla seria vestida por Tsutomo Kitagawa, nome conhecido dos fãs de tokusatsu por já ter atuado em vários seriados da Toei, inclusive Changeman, Flashman e Maskman.

Graças aos esforços da equipe de produção, o filme ficaria pronto antes do esperado, e a Toho decidiria lançá-lo ainda em 1999, em dezembro, mês tradicional de lançamentos de Godzilla. Mesmo com essa alteração, o nome Godzilla 2000, a princípio temporário, seria mantido porque acabaria pegando durante a produção, e considerado apropriado pela Toho para apresentar o Godzilla do novo milênio. Em japonês, o filme ainda ganharia um subtítulo, Godzilla 2000: Millennium, em referência não somente a esse novo milênio, mas também aos milenianos.

Estreando em 11 de dezembro de 1999, Godzilla 2000 seria um sucesso moderado de crítica, mas renderia mais que o dobro de seu orçamento nas bilheterias japonesas, se tornando o filme japonês de maior bilheteria de 1999. Isso animaria a Toho a voltar a investir em uma série de filmes de Godzilla. Para dar maior liberdade aos roteiristas e diretores, ela consideraria que essa série seria totalmente separada da Série Heisei - aliás, esses filmes seriam escritos como se nem a Série Clássica, nem a Série Heisei jamais tivessem existido. Aproveitando o subtítulo do filme, ela chamaria a nova série de Série Millennium. A principal característica da Série Millennium seria justamente essa liberdade criativa, não havendo obrigação de um filme ser continuação do outro, podendo todos serem histórias fora de cronologia.

Como de costume, a Toho preparou uma versão internacional, dublada em inglês em Hong Kong, para exibição fora do Japão. Como o contrato com a TriStar ainda estava em vigor, o produtor Michael Schlesinger conseguiu autorização para também produzir uma versão norte-americana, para ser exibida nos cinemas dos Estados Unidos - a primeira vez em que isso aconteceria desde O Retorno de Godzilla, e última vez na história, já que nenhum dos filmes japoneses seguintes seria exibido nos cinemas norte-americanos. Por algum motivo, a Toho gostaria mais da versão norte-americana - que tinha uma nova dublagem, feita nos Estados Unidos, e várias cenas editadas, que diminuíram a duração do filme em quase 10 minutos - do que de sua própria versão internacional, o que fez com que a versão internacional jamais fosse exibida em lugar algum - mesmo na Ásia e na Europa, a versão exibida foi a norte-americana.

A versão norte-americana, chamada simplesmente Godzilla 2000, não foi bem sucedida dentre o público e a crítica; mesmo assim, Schlesinger negociaria com a Toho a produção de uma sequência, filmada nos Estados Unidos com atores norte-americanos, na qual Godzilla enfrentaria um monstro voador feito de lava no Havaí. A Toho chegou a autorizar a produção do filme, mas Schlesinger não conseguiu garantir o financiamento, e as filmagens foram canceladas.

Antes de terminar, cabe registrar que, oficialmente, para a Toho, o Godzilla do filme de Emmerich não é Godzilla. Inspirada em um texto do crítico norte-americano Richard Pusateri, que disse que o monstro deveria se chamar Gino (acrônimo para Godzilla in Name Only, "Godzilla só no nome"), a Toho transformaria o monstro de Tatopoulos em um de seus monstros oficiais, chamado Zilla. Em seu material oficial, Zilla é descrito como "um monstro que atacou Nova Iorque e foi confundido com Godzilla por seus habitantes".

Godzilla vs. Megaguirus
2000

Como eu acabei de dizer, a rigor, a Série Millennium não segue uma cronologia própria como faziam a Série Clássica e a Série Heisei; praticamente todos os seus filmes são "soltos", sem relação alguma uns com os outros. Entretanto, isso foi mais uma coisa que aconteceu naturalmente do que planejado desde o início: quando a Toho comunicou Tomiyama que investiria mais uma vez em uma série de filmes de Godzilla, seu planejamento inicial era fazer um novo reboot. De acordo com esse planejamento, Godzilla 2000 seria ambientado na mesma cronologia da Série Heisei, mas, a partir do filme seguinte, seria criada uma nova, mais uma vez tendo como ponto de partida o filme original de 1954.

Tomiyama chamou novamente Mimura e Kashiwabara, que, enquanto escreviam o roteiro, decidiram ousar um pouco: ao invés de inventar um novo Godzilla, ou alguma razão pela qual o Godzilla original tivesse sobrevivido ao Destruidor de Oxigênio, eles optariam por criar uma espécie de realidade alternativa, na qual Godzilla não morreu após o ataque em 1954, e sim retornou ao oceano e desapareceu. Isso daria mais liberdade para eles criarem a história do filme, e ainda teria a vantagem de fazer com que os filmes da Série Millenium contassem com o Godzilla original, algo que nem na Série Clássica havia acontecido.

Assim, Godzilla vs. Megaguirus começa com um flashback, que mostra o primeiro ataque de Godzilla em 1954. Após esse ataque, ele retorna para o oceano e não é mais visto até 1966, quando lança um ataque devastador à usina nuclear de Tokai. A presença de Godzilla acaba por acelerar o desenvolvimento tecnológico do Japão: buscando se prevenir contra novos ataques, os japoneses primeiro mudam sua capital de Tóquio para Osaka; depois, criam uma divisão especial do exército, chamada G-Graspers, dedicada exclusivamente a defender o país dos ataques do monstro. Finalmente, toda a energia nuclear do Japão é substituída por energia de plasma, em uma tentativa de evitar que Godzilla ataque as usinas em busca de sua energia. Tal plano se prova ineficiente quando, em 1996, Godzilla ataca o primeiro reator de plasma do Japão, o que leva os japoneses a voltar a pesquisar formas de energia alternativas.

Em 2001, outro projeto tecnológico, chamado Dimension Tide, pesquisa uma aplicação militar para um satélite que lança pequenos buracos negros. Durante um teste, um desses buracos negros cria uma fenda no tempo e espaço, na qual uma libélula pré-histórica coloca um ovo. O ovo é transportado até o Japão dos dias atuais, onde, nos esgotos, choca, dando origem a criaturas chamadas Meganulon. Quando Godzilla ataca o Japão mais uma vez, ele é atacado pelos Meganulon, que buscam se alimentar de sua energia vital. Godzilla vence a batalha, mas alguns Meganulon escapam, e injetam a energia vital que roubaram de Godzilla em uma de suas larvas, que sofre uma mutação e se transforma em Megaguirus, um Meganulon gigantesco e (ainda mais) monstruoso. Evidentemente, Godzilla e Megaguirus vão se enfrentar, e talvez o Japão tenha de mudar sua capital de lugar mais uma vez.

Usar os Meganulon no filme foi uma ideia de Tomiyama, que já queria começar a Série Millennium resgatando monstros clássicos da Toho; no caso, os Meganulon haviam aparecido em Rodan, onde eram libélulas pré-históricas que estavam em estado de hibernação em uma mina, sendo libertadas por uma explosão nuclear e causando o ataque que levou os mineiros a encontrarem o ovo de Rodan. Não se sabe se, na realidade alternativa apresentada em Godzilla vs. Megaguirus, esses eventos também teriam ocorrido.

Godzilla vs. Megaguirus seria dirigido por Masaaki Tezuka, em sua estreia como diretor. O elenco traria Yuriko Hoshi, que já havia interpretado a fotógrafa Junko em Mothra vs. Godzilla e a repórter Naoko em Godzilla vs. Ghidrah, no papel da Professora Yoshino Yoshizawa, diretora do projeto Dimension Tide, inaugurando uma tradição da Série Millennium de colocar atores que haviam participado de filmes da Série Clássica para interpretar personagens com funções consideradas honoráveis pela sociedade japonesa - líderes, diretores e conselheiros, por exemplo. Kitagawa voltaria a vestir a roupa de Godzilla, e a roupa de Megaguirus ficaria a cargo de Minoru Watanabe, já acostumado a "interpretar" monstros em diversos seriados da Toei.

Estreando em 16 de dezembro de 2000, o filme seria um fracasso de bilheteria no Japão. A Toho elegeria Suzuki como o responsável, já que a crítica consideraria os efeitos especiais pobres e de baixa qualidade. Ainda assim, como já havia reservado orçamento para mais um filme, a Toho decidiria seguir em frente - embora o fracasso de Godzilla vs. Megaguirus acabasse tendo impacto sobre a liberdade criativa da equipe do filme seguinte.

Godzilla vs. Megaguirus também ganharia a tradicional versão internacional dublada em Hong Kong. Como o contrato com a TriStar ainda estava em vigor, a Sony, que comprou a TriStar em 1998, poderia até lançá-la nos Estados Unidos, ou produzir sua própria versão, se assim quisesse. O péssimo desempenho do filme no Japão, aliado ao desempenho ruim de Godzilla 2000 nos Estados Unidos, porém, fariam com que ela não se interessasse. Somente em 2003 a Sony prepararia uma versão editada para ser exibida na televisão, no SciFi Channel. Essa versão teria boa audiência, o que motivaria a Sony a lançar o filme também em DVD no ano seguinte. Esse lançamento é digno de registro por ter sido a primeira vez em que um filme de Godzilla foi lançado em vídeo nos Estados Unidos contendo a trilha sonora original japonesa, e não uma trilha substituta como ocorreu até então.

Série Godzilla

•Godzilla 2000
•Godzilla vs. Megaguirus

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