sábado, 19 de setembro de 2026

Escrito por em 19.9.26 com 0 comentários

Hanna-Barbera (II)

Hoje seguiremos com a história da Hanna-Barbera!

No início da década de 1970, a Hanna-Barbera já era uma potência da animação: quase dois terços de todos os desenhos animados exibidos na televisão dos Estados Unidos eram produzidos por eles. Além disso, eles haviam acabado de firmar duas parcerias, uma com a Colpix, para a criação da Hanna-Barbera Records, que lançaria álbuns das trilhas sonoras de seus desenhos, com distribuição da Columbia, e outra com o National Catholic Office for Radio and Television, para produzir 26 desenhos animados para o cinema com temas bíblicos - esse jamais se concretizaria, porém, e os desenhos só seriam produzidos muitos anos depois, para lançamento diretamente em home video.

A primeira estreia da Hanna-Barbera na década de 1970 seria Where's Huddles? (Os Tremendões), sobre um time de futebol americano, os Rinocerontes. Produzido sob encomenda da CBS para tapar um buraco no horário nobre de sua grade, Where's Huddles? seria levemente inspirado em Os Flintstones, com o protagonista sendo o quarterback do time, Ed Chefe (Ed Huddles, no original), que tinha uma esposa chamada Norma e uma filhinha bebê chamada Pom-Pom, e cujo melhor amigo era seu vizinho, Buba, que também fazia parte do time e era casado com a melhor amiga de Norma, Pita. Outros personagens eram o Treinador; o maior jogador do time, Cargueiro; o dono do time, Pertwee; e o cachorro de Ed, Caldo (que lembra Muttley). A série teria apenas 10 episódios, exibidos entre 1 de julho e 2 de setembro de 1970; a CBS prometeria renová-la para uma temporada completa, mas isso jamais aconteceria.

Joe Ruby e Ken Spears gostariam do tema esportivo e, enquanto Where's Huddles? estava em produção, convenceriam a Hanna-Barbera a obter os direitos do famoso time de basquete de exibição The Harlem Globetrotters, para produzir uma série que contava com versões animadas dos jogadores mais famosos da equipe. Cada episódio colocava os Globetrotters acidentalmente em uma situação na qual algum crime estava acontecendo, com um jogo de basquete sendo proposto para decidir o conflito - no qual os vilões sempre trapaceavem no primeiro tempo, mas os Globetrotters, usando sua inteligência e habilidade, conseguiam derrotá-los no segundo. Com duas temporadas totalizando 22 episódios, exibidos pela CBS entre 12 de setembro de 1970 e 16 de outubro de 1971, Harlem Globetrotters seria o primeiro desenho da televisão norte-americana protagonizado por personagens afro-americanos - mas não o primeiro a trazer um personagem afro-americano, que seria The Hardy Boys, da Filmation, que estrearia um ano antes; antes disso, todos os personagens negros presentes em desenhos animados eram africanos.

Outro desenho que estrearia no mesmo dia, meia hora depois, seria o primeiro a trazer uma personagem feminina afro-americana: Josie and the Pussycats (Josie e as Gatinhas), criado pelos irmãos John e Richard Goldwater e por Dan DeCarlo, criador original dos personagens, que fariam sua estreia nas histórias em quadrinhos da Turma do Archie. Protagonizado pela banda de mesmo nome, formada por três garotas (a guitarrista e cantora Josie, a baixista Valerie e a baterista Melody), o desenho foi o primeiro "clone de Scooby-Doo", colocando as garotas e alguns agregados (o namorado de Josie, Alan M, o empresário da banda, Alexander, sua irmã Alexandra e o gato dela, Sebastian) se envolvendo com mistérios enquanto estavam entre um show e outro da turnê, investigando-os e ajudando a selecioná-los. O desenho não faria o sucesso esperado e teria apenas uma temporada, de 16 episódios, exibidos pela CBS entre 12 de setembro de 1970 e 2 de janeiro de 1971; a Hanna-Barbera convenceria a CBS a encomendar uma segunda temporada, com mais 16 episódios, exibidos entre 9 de setembro e 23 de dezembro de 1972, transformando-o em Josie and the Pussycats in Outer Space, no qual a banda acidentalmente vai parar no espaço sideral, vivendo aventuras em vários planetas em companhia do alienígena Bleep.

Josie and the Pussycats seria criado especificamente para tentar emular o sucesso do primeiro desenho inspirado na Turma do Archie, The Archie Show, da Filmation, que estreou em 1968 e fez um sucesso colossal, conseguindo colocar uma de suas músicas, Sugar Sugar, no topo da parada da Billboard. Após não conseguir produzir uma série original protagonizada por uma banda de adolescentes, a Hanna-Barbera negociaria com a Archie Comics a adaptação das Gatinhas, que eram personagens muito secundárias da editora. A Hanna-Barbera investiria pesado no desenho, inclusive montando uma banda cujas integrantes lembrassem fisicamente as Gatinhas - na qual Cheryl Ladd, que depois ficaria famosa graças ao seriado As Panteras, interpretava Melody - que não somente gravariam as músicas que seriam exibidas no desenho, mas também gravariam um álbum, lançado pela Hanna-Barbera Records, e se apresentariam com o nome de Josie and the Pussycats em uma turnê.

Nada disso daria certo por causa do insucesso do desenho, mas a Hanna-Barbera não desistiria, criando outro desenho protagonizado por uma banda adolescente, mas dessa vez usando personagens dela mesma e conhecidos: The Pebbles and Bamm-Bamm Show (As Aventuras de Pedrita e Bam-Bam), protagonizada por Pedrita e Bam-Bam, de Os Flintstones, mas como adolescentes e membros de uma banda. Com 16 episódios exibidos pela CBS entre 11 de setembro de 1971 e 1 de janeiro de 1972, esse sim seria um gigantesco sucesso - embora não tão grande quanto The Archie Show - e só não teria uma segunda temporada porque a Hanna-Barbera, talvez em uma decisão controversa, decidiu substituí-lo por The Flintstone Comedy Hour, programa com uma hora de duração composto por duas metades, uma com um episódio inédito e outra com uma reprise, com uma apresentação da banda de Pedrita e Bam-Bam entre eles. The Flintstone Comedy Hour também teria apenas uma temporada de 16 episódios, exibidos pela CBS entre 9 de setembro e 30 de dezembro de 1972, quando seria mais uma vez reformulado, para se tornar um programa só de reprises.

Ainda em 1971, para a CBS, Ruby e Spears criariam Help!... It's the Hair Bear Bunch! (O Urso do Cabelo Duro), desenho à moda antiga sobre três ursos que moram em um zoológico e fogem de lá usando motocicletas invisíveis para viver aventuras ou pregar peças no dono e no vigia do local, com 16 episódios exibidos entre 11 de setembro de 1971 e 8 de janeiro de 1972. E, para a ABC, Hanna e Barbera criariam o clone de Scooby-Doo The Funky Phantom (Fantasminha Legal), no qual os adolescentes Hugo, Sílvio e Alice (Skip, Augie e April, no original), viajando pelo país em seu buggy com seu cachorro Elmo, libertam acidentalemente o fantasma Mudsy e seu gato Boo, presos em um relógio desde a Guerra da Independência dos Estados Unidos, que passam a viajar com eles solucionando mistérios, em 17 episódios exibidos entre 11 de setembro de 1971 e 1 de janeiro de 1972.

1972 seria um ano extremamente produtivo, começando pelo primeiro filme integralmente com atores filmados, sem nenhuma sequência de animação, produzido pela Hanna-Barbera: Hardcase, dirigido por John Llewellyn Moxey e estrelado por Clint Walker e Stefanie Powers (do Casal 20), um faroeste no qual um caubói retorna a seu rancho para descobrir que, após ele ser dado como morto, sua esposa se casou com um revolucionário mexicano que a convenceu a vender todos os seus bens para comprar armas para a revolução. Exibido em 1 de fevereiro como parte da faixa ABC Movie of the Week, o filme seria uma grata surpresa, se tornando o sétimo programa mais assistido do mês de fevereiro na televisão norte-americana, um grande feito para uma estreia de um estúdio.

Para a CBS, Sidney Morse criaria The Amazing Chan and the Chan Clan (As Aventuras de Charlie Chan). Baseado na série de livros escritos por Earl Derr Biggers protagonizados pelo detetive chinês Charlie Chan, que solucionava crimes no Havaí, o desenho trazia Chan, seus dez filhos e seu cachorro pequinês Chuchu, que viajavam o mundo solucionando mistérios - enquanto Chan investigava usando os métodos usuais, seus filhos decidiam investigar por conta própria usando métodos alternativos, e eram normalmente eles que resolviam o mistério. Com 16 episódios exibidos entre 9 de setembro e 30 de dezembro de 1972, o desenho seria um grande sucesso, mas sofreria pesadas críticas da da CAA (Chinese for Affirmative Action), organização baseada em San Francisco que lutava pelos direitos da comunidade chinesa nos Estados Unidos. A presidente da CAA, Katheryn Fong, diria ser inaceitável retratar a família Chan como um enorme estereótipo - o pior deles sendo que Charlie Chan falava "através de provérbios de biscoitos da sorte" - e perguntaria se a sociedade norte-americana aceitaria um desenho chamado Hitler Haus com uma versão animada e fofinha de Adolf Hitler. Diante da controvérsia, a CBS preferiria não renovar o desenho para uma segunda temporada.

Para a NBC, Hanna e Barbera criariam um clone dos Flintstones, The Roman Holidays (Os Muzarelas), sobre uma família que vivia na época do Império Romano - um dos conceitos descartados quando eles estavam criando Os Flintstones - formada pelo pai Zecas, a mãe Laura, os filhos Jocas e Precócia e o leão de estimação Brutus - mais personagens coadjuvantes de nomes muito inspirados, como o síndico do prédio onde mora a família, Chatus; a namorada de Jocas, Ruivias; e o chefe de Zecas na empresa de construção civil onde ele trabalha, Gambazius (com todos esses, evidentemente, sendo os nomes da versão dublada, com os originais sendo bem mais sem graça). O desenho não faria sucesso e teria apenas 13 episódios, exibidos entre 9 de setembro e 2 de dezembro de 1972.

Igualmente mal-sucedido seria Sealab 2020 (Laboratório Submarino), série de aventura criada por Alex Toth que acompanhava uma equipe de pesquisa em um laboratório submarino no ano de 2020, que também teve apenas 13 episódios exibidos pela NBC entre 9 de setembro e 2 de dezembro de 1972. Enquanto isso, a CBS exibia uma nova série de Scooby-Doo, The New Scooby-Doo Movies (Os Novos Filmes do Scooby-Doo), na qual cada episódio contava com um convidado especial solucionando mistérios junto com a turma, fossem celebridades da vida real (como Dick Van Dyke, Don Adams ou Sonny & Cher), celebridades fictícias da televisão (como Batman e Robin ou a Família Addams) ou personagens de outras produções da Hanna-Barbera (como Josie e as Gatinhas ou os Globetrotters), com duas temporadas totalizando 24 episódios, exibidos entre 9 de setembro de 1972 e 27 de outubro de 1973.

Fechando o ano, estrearia Wait Till Your Father Gets Home (Papai Sabe Nada), sitcom animada ao estilo A Grande Familia, que acompanhava a família Boyle, composta por pai, mãe, uma filha adulta, um casal de filhos adolescentes, um filho criança, um cachorro e um vizinho. Embora não seja muito conhecida internacionalmente, a série seria um grande sucesso nos Estados Unidos, sendo produzidos 48 episódios exibidos diretamente em syndication, entre 12 de setembro de 1972 e 8 de outubro de 1974, com um total de três temporadas.

Além das séries animadas, em 1972 a Hanna-Barbera produziria vários especiais para a televisão, a maioria deles exibidos pela ABC aos sábados pela manhã sob o nome The ABC Saturday Superstar Movie. Fizeram parte dessa lista Yogi's Ark Lark, exibido em 16 de setembro; Oliver and the Artful Dodger, baseado em Oliver Twist, exibido em duas partes, em 21 e 28 de outubro; The Adventures of Robin Hoodnik, inspirado na lenda de Robin Hood, exibido em 4 de novembro; Gidget Makes the Wrong Connection, inspirado na série de TV Gidget, exibido em 18 de novembro; The Banana Splits in Hocus Pocus Park, único que não foi uma animação, estrelado pelos personagens de The Banana Splits, exibido em 25 de novembro; e Tabitha and Adam and the Clown Family, inspirado na série de TV A Feiticeira, exibido em 2 de dezembro. O último especial produzido pela Hanna-Barbera para o The ABC Saturday Superstar Movie seria Lost in Space, baseado na série Perdidos no Espaço, exibido em 8 de setembro de 1973.

Em 4 de outubro de 1972, a ABC inauguraria uma nova faixa de especiais, dessa vez em dias de semana à tarde e voltados para o público adolescente, chamada ABC Afterschool Special. O primeiro desses especiais também seria produzido pela Hanna-Barbera, Last of the Curlews, vencedor do Emmy de Melhor Programa Infantil, adaptação do livro de mesmo nome de Fred Bodsworth, no qual um pai e um filho saem para caçar e debatem se devem ou não matar um pássaro em risco de extinção. Os últimos especiais produzidos pela Hanna-Barbera em 1972 viriam de um contrato firmado com a Avco Broadcasting Corporation, rival da Taft Enterprises, que havia comprado a Hanna-Barbera em 1965, para produzir dois especiais exibidos em syndication em vários canais do estado de Ohio, onde a Avco dominava o mercado; um de ação de graças (The Thanksgiving That Almost Wasn't), exibido em 21 de novembro, e um de Natal (A Christmas Story), exibido em 9 de dezembro.

No final de 1972, a Hanna-Barbera inauguraria um segundo estúdio, mas na Austrália, que, além de fazer trabalho adicional para as séries produzidas nos Estados Unidos, ainda seria o responsável por uma série de especiais para a televisão exibidos pela CBS como parte do programa Famous Classic Tales, que adaptava em animação histórias famosas da literatura mundial. Os especiais produzidos pela Hanna-Barbera seriam The Count of Monte Cristo (O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, exibido em 23 de setembro de 1973), Twenty Thousand Leagues Under the Sea (Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne, 22 de novembro de 1973), The Three Musketeers (Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, 23 de novembro de 1973), The Last of the Mohicans (O Último dos Moicanos, de James Fenimore Cooper, 27 de novembro de 1975), Davy Crockett on the Mississippi (baseado na lenda de Davy Crockett, 20 de novembro de 1976), Five Weeks in a Balloon (Cinco Semanas em um Balão, de Júlio Verne, 24 de novembro de 1977), Black Beauty (Beleza Negra, de Anna Sewell, 28 de outubro de 1978), Gulliver's Travels (As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, 18 de novembro de 1979) e Daniel Boone (baseado na lenda de Daniel Boone, 27 de novembro de 1981). Em 1974, o grupo de entretenimento australiano Hamlyn Group compraria 50% da Hanna-Barbera Australia, e, em 1982, o Hamlyn seria comprado pela norte-americana James Hardie Industries, que, em 1988, decidiria comprar os outros 50% e renomear o estúdio para Southern Star Group, mantendo relações com a Hanna-Barbera, ainda participando de suas produções e as distribuindo na Austrália e Nova Zelândia, mas sendo um estúdio independente, com suas próprias produções.

1973 começaria com The Flintstones on Ice, especial no qual patinadores no gelo interpretavam os Flintstones, exibido pela CBS em 11 de fevereiro. Nos cinemas, estreariam os dois primeiros longa-metragens produzidos pela Hanna-Barbera que não contavam com personagens criados por ela: Charlotte's Web (A Menina e o Porquinho), animação musical baseada no livro de E.B. White, que contava com as vozes de Henry Gibson e Debbie Reynolds e estrearia em 22 de fevereiro; e Baxter! (O Estranho Mundo de Baxter), baseado no livro The Boy Who Could Make Himself Disappear, de Kin Platt, filme com atores que estrearia em 4 de março, dirigido por Lionel Jeffries e estrelado por Scott Jacoby e Patricia Neal no qual um menino norte-americano que tem dificuldades de fala vai morar com a mãe em Londres após seus pais se separarem, se sentindo isolado e à beira de um colapso nervoso, mas encontrando força em seus novos amigos.

Na televisão, o ano começaria com mais um clone de Scooby-Doo, Speed Buggy, no qual três amigos, Tinker (que se parece um pouco com Salsicha), Debbie e Mark, solucionam mistérios em companhia de Speedy, um buggy falante, em 16 episódios exibidos pela CBS entre 8 de setembro e 22 de dezembro de 1973. Um segundo clone de Scooby-Doo, Goober and the Ghost Chasers (Goober e os Caçadores de Fantasmas), também com 16 episódios exibidos entre 8 de setembro e 22 de dezembro, mas na ABC, traria três amigos, Ted, Gilly e Tina, solucionando mistérios em companhia de Goober, um cachorro que podia falar e ficar invisível, com a diferença de que alguns mistérios contavam com fantasmas de verdade. Também em 8 de setembro, mas na NBC, com um total de 13 episódios exibidos até 1 de dezembro, estrearia Butch Cassidy, que não era uma adaptação do filme de faroeste de 1969 Butch Cassidy and the Sundance Kid, mas um terceiro clone de Scooby-Doo, estrelado pela banda The Sun Dance Kids, que contava com o vocalista e guitarrista Butch Cassidy, a baixista Steffy, o baterista Wally, a loira Merilee, que tocava tamborim, e o cachorro Elvis; o plot twist ficava por conta de que a banda era apenas uma fachada, com o grupo na verdade fazendo parte de uma agência governamental cujas missões eram selecionadas pelo computador Senhor Sócrates.

Em 1973 também estrearia, na ABC, um dos projetos mais ambiciosos da Hanna-Barbera, Yogi's Gang (A Turma do Zé Colmeia), cujo piloto havia sido Yogi's Ark Lark (A Arca do Zé Colmeia), especial exibido pelo mesmo canal um ano antes. No desenho, liderados pelo Zé Colmeia, os principais personagens da Hanna-Barbera (Don Pixote, Pepe Legal, Leão da Montanha, dentre outros) viajam em um navio voador, enfrentando vilões em 15 episódios exibidos entre 8 de setembro e 29 de dezembro, que abordavam temas como ecologia, preconceito, ganância, respeito às diferenças e outros considerados extremamente espinhosos. Também em 8 de setembro, mas na NBC, estrearia Inch High, Private Eye (Grande Polegar: Detetive Particular), com 13 episódios exibidos até 1 de dezembro, estrelado por um detetive de 2,54 cm (1 polegada) de altura, que solucionava crimes com a ajuda de sua sobrinha Laurie, seu amigo musculoso Gator e do cachorro São Bernardo Coração Valente.

A Hanna-Barbera também faria três novas adaptações em 1973, todas com 16 episódios exibidos entre 8 de setembro e 22 de dezembro. Duas delas seriam Jeannie, adaptação da série Jeannie é um Gênio, criada por Morse e exibida pela CBS; e The Addams Family (A Família Addams), exibida pela NBC e criada por David Levy, também criador da série com atores exibida pela ABC na década de 1960 - Jackie Coogan e Ted Cassidy, que interpretavam o Tio Chico e Tropeço na série, dublariam os mesmos personagens no desenho, e vale citar que uma pequena Jodie Foster, de 10 anos de idade, dublaria Feioso.

A terceira seria Super Friends (Super Amigos), produzida graças a um contrato com a DC Comics. Versão apropriada para crianças da Liga da Justiça, o desenho trazia Superman, Batman, Robin, Mulher Maravilha e Aquaman combatendo o crime com a ajuda dos adolescentes Marvin e Wendy e de seu cachorro falante, Super-Cão (Wonder Dog no original) - esses três, que não tinham superpoderes, seriam criados pela Hanna-Barbera para representar os espectadores, mas acabariam integrados ao Universo DC após tanto a DC quanto a Hanna-Barbera serem compradas pela Warner Bros. Alguns episódios contaram com a presença do Flash, do Homem-Borracha e do Arqueiro Verde, mas nenhum teve os supervilões da DC: todos traziam vilões genéricos, ameaças alienígenas ou desastres ambientais, e os conflitos eram sempre solucionados com diplomacia, nunca com violência.

Entre 7 de setembro e 21 de dezembro de 1974, seriam exibidas mais quatro séries. A mais popular seria Hong Kong Phooey (Hong Kong Fu), da ABC, paródia dos seriados de kung fu que estavam fazendo grande sucesso na época, no qual o humilde faxineiro Perry, após treinar com os maiores mestres do oriente, decide assumir a identidade de Hong Kong Fu, combatendo o crime com a ajuda de seu gato, China; Perry trabalha em uma delegacia, e fica sabendo dos crimes através das conversas do Sargento Flint com a telefonista Rosemary. Também na ABC, estrearia Devlin, criada por Norman Katkov, uma das poucas séries dramáticas produzidas pela Hanna-Barbera, baseada na vida do dublê Evel Knievel, na qual o dublê Ernie Devlin viaja pelos Estados Unidos se apresentando e vivendo aventuras com seus sobrinhos, Todd e Sandy; originalmente, o personagem se chamaria Dare Devlin (trocadilho com daredevil, "audacioso" em inglês), mas, preocupada de ser acusada de encorajar atividades perigosas, a ABC pediria a mudança do nome e obrigaria a Hanna-Barbera a incluir "dicas de segurança" toda vez que Devlin se apresentava.

A CBS exibiria as outras duas séries. Partridge Family 2200 A.D. (Família Dó-Ré-Mi no Espaço), criada por Morse, era uma adaptação da série Família Dó-Ré-Mi, exibida pela ABC entre 1970 e 1974, mas ambientada em um mundo futurista semelhante ao dos Jetsons; inicialmente, aliás, a série seria uma nova versão dos Jetsons, na qual Elroy era adolescente e Judy estava na faculdade e fazia parte de uma banda, mas Fred Silverman, então diretor de programação da CBS, decidiria aproveitar que Família Dó-Ré-Mi havia sido cancelada na ABC e usar os personagens, que já eram conhecidos - e já tinham uma banda, embora muito mais atuante e famosa no desenho que na série - mantendo a ambientação futurista. A outra seria Valley of the Dinosaurs (O Vale dos Dinossauros), na qual, durante uma exploração do Rio Amazonas, o cientista John Butler, sua esposa Kim, sua filha adolescente Katie, seu filho crinça Greg e seu cachorro Digger vão parar em uma terra pré-histórica, onde fazem amizade com uma família de neandertais composta pelo pai Gorok, sua esposa Gara, seu filho adolescente Lok, sua filha criança Tana e seu estegossauro-bebê de estimação Glump. Criado por Samuel Roeca e levemente educativo, o desenho mostrava os Butlers tentando tornar a vida dos neandertais mais fácil aplicando princípios básicos de tecnologia, e em troca recebendo lições sobre a natureza e ecologia.

Outra série pré-histórica, Korg: 70,000 B.C. (Korg e o Mundo Misterioso), seria exibida pela ABC em 19 episódios entre 7 de setembro de 1974 e 18 de janeiro de 1975. Criada por Fred Freiberger, essa seria filmada com atores, estrelada por Jim Malinda e Naomi Pollack e narrada por Burgess Meredith (o Pinguim da série Batman), e acompanhava uma família de neandertais durante a Era do Gelo, usando as mais recentes descobertas científicas sobre o período para criar as histórias. Infelizmente, no mesmo dia, na NBC, estrearia outra série pré-histórica, O Elo Perdido, que faria muito mais sucesso e impediria que O Vale dos Dinossauros e Korg e o Mundo Misterioso se destacassem, com ambas permanecendo dentre as menos conhecidas produções da Hanna-Barbera.

Ainda em 1974, estrearia na NBC, em 13 episódios exibidos entre 7 de setembro e 30 de novembro, Wheelie and the Chopper Bunch (Carangos e Motocas), ambientada em um mundo habitado por veículos conscientes, estrelada pelo fusquinha vermelho Wheelie e sua namorada Rota, antagonizado por uma gangue de motos da qual o membro mais famoso era uma motoneta que ficava falando "eu não te disse?" quando algum dos planos do líder da gangue dava errado. E, na ABC, estrearia These Are the Days (Vovô Viu a Uva), criada por Ed Jurist e levemente inspirada na série Os Waltons, da CBS, que estava fazendo um sucesso enorme na época. Ambientado na virada do século XX no interior dos Estados Unidos, o desenho acompanhava uma família formada por uma mãe viúva, seus três filhos e um avô inventor, e sofreu muitas dificuldades durante sua produção, o que fez com que seus 16 episódios fossem exibidos muito espaçados, entre 7 de setembro de 1974 e 27 de setembro de 1975.

Para fechar 1974, vale citar que a Hanna-Barbera produziria mais três ABC Afterschool Specials: Cyrano, animação sobre a história de Cyrano de Bergerac, exibido em 6 de março; The Runaways, filmado com atores e estrelado por Belinda Balaski, sobre uma adolescente que se muda de uma cidade pequena para uma bem maior e tem problemas de adaptação, exibido em 27 de março; e The Crazy Comedy Concert, exibido em 5 de junho, que misturava atores e animação, e buscava apresentar a música clássica para as crianças; além de mais um filme de faroeste para a televisão com atores, Shootout in a One-Dog Town, estrelado por Richard Crenna e Stefanie Powers, no qual um mensageiro mortalmente ferido pede a um banqueiro que esconda seu malote, e a população da cidade fica receosa imaginando que malfeitores logo chegarão para tentar encontrá-lo.

Em 1975, a Hanna-Barbera aparentemente tiraria o pé do acelerador, pois sua única produção inédita seria The Tom & Jerry / Grape Ape Show, programa de uma hora de duração com 16 episódios, exibidos pela ABC entre 6 de setembro e 13 de dezembro. A primeira metade do programa consistia em três desenhos de Tom & Jerry, todos inéditos, os primeiros dirigidos por Hanna e Barbera desde que eles deixaram a MGM; a segunda metade trazia dois desenhos de João Grandão & Espirro, protagonizado por um enorme gorila roxo e seu melhor amigo, um cachorro beagle. Para a temporada seguinte, o desenho seria renomeado para The Tom & Jerry / Mumbly Show, e teria mais 16 episódios, exibidos entre 11 de setembro e 18 de dezembro de 1976; a primeira metade ainda traria três episódios de Tom & Jerry, mas, dessa vez, reprises de seus desenhos para o cinema, enquanto a segunda traria um desenho de Rabugento, o Cão Detetive, uma paródia do seriado Columbo na qual um cachorro azul que falava resmungando e tinha a mesma risada de Muttley investigava crimes e desaparecimentos.

1976 começaria com dois clones de Scooby-Doo: em Clue Club, de 16 episódios exibidos pela CBS entre 4 de setembro e 11 de dezembro, os adolescentes Larry, Dedé, Didi e Dorinha, fãs de romances policiais, solucionavam mistérios com a ajuda de dois cachorros falantes, o sabujo Bob e o bassê Sherlocão, e de um computador de última geração acessado por Dorinha. Já Jabberjaw (Tutubarão) era ambientado em um futuro no qual a humanidade colonizou o fundo do mar, criando cidades submarinas, e estrelado pela banda Os Netunos, composta pelo guitarrista e vocalista Biff; a metida Leila, que tocava pandeiro; a pouco inteligente Bolha, que tocava teclado; o medroso Linguiça, que tocava contrabaixo; e o melhor amigo de Linguiça, Tutubarão, um grande tubarão branco que podia falar, respirar fora d'água e se comportava como um ser humano, inclusive sendo o baterista da banda. Criado por Ruby e Spears para pegar carona no sucesso do filme Tubarão, de Steven Spielberg, Tutubarão teve 16 episódios exibidos pela ABC entre 11 de setembro e 18 de dezembro, cada um deles levando os Netunos em turnê para algum lugar onde ocorria um crime que eles decidiam ajudar a polícia local a solucionar.

Mas 1976 também seria o ano do retorno do Scooby-Doo original, em The Scooby-Doo / Dynomutt Hour, programa de uma hora também criado por Ruby e Spears com 16 episódios exibidos pela ABC entre 11 de setembro e 18 de dezembro, composto por duas metades de meia hora cada: a primeira trazia um episódio de The Scooby-Doo Show (O Show do Scooby-Doo), no qual Scooby-Doo e seus amigos resolviam novos mistérios em companhia de seu primo menos esperto, Scooby-Dão (Scooby-Dum no original); a segunda trazia um episódio de Dynomutt, Dog Wonder (Dinamite, o Bionicão), uma paródia de Batman & Robin na qual o milionário Radley Crown combate o crime na cidade de Big City com a identidade secreta de Falcão Azul e vários equipamentos eletrônicos de alta tecnologia, incluindo seu parceiro Dinamite, um cachorro androide que possui vários apetrechos escondidos em seu corpo biônico. Muitos episódios de Dinamite traziam a participação especial da turma do Scooby-Doo, que iam parar em Big City tentando solucionar um mistério qualquer e decidiam se aliar aos super-heróis.

1976 também seria o ano de estreia de The Phantom Rebel, filme para a televisão estrelado por Sandy McPeak, exibido pela NBC em 13 de abril como parte do programa NBC Special Treat, voltado para o público adolescente; de Silent Night, Holy Night, especial de Natal que estrearia diretamente em syndication em 15 de dezembro, uma animação ambientada no interior da Áustria, na qual o tocador de órgão de uma igreja decide viajar a Salzburgo para tentar reparar o instrumento, danificado por ratos, dois dias antes do Natal, para poder manter a tradição de tocar Noite Feliz à meia-noite; e de Taggart's Treasure, produzido pela Hanna-Barbera Australia e exibido pela ABC em 31 de dezembro, que deveria ser o piloto de uma nova série que não foi aprovada, e hoje está perdido, se sabendo muito pouco sobre ele.

1977 traria uma nova criação de Ruby e Spears, a última para a Hanna-Barbera antes de eles saírem para fundar seu próprio estúdio: Scooby's All-Star Laff-A-Lympics, programa de duas horas de duração que teve 16 episódios exibidos pela ABC entre 10 de setembro e 24 de dezembro, cada episódio contando com seis desenhos. Meia hora do programa era dedicada a reprises de episódios selecionados de Scooby-Doo, Where Are You!; outra meia hora era a segunda temporada de O Show do Scooby-Doo, que contou com oito episódios inéditos (só dois deles com a participação de Scooby-Dão), com os outros oito sendo reprises da primeira temporada. Outra meia hora era dividida entre The Blue Falcon & Dynomutt (Falcão Azul & Bionicão), que também teve oito episódios produzidos, mas divididos em 16 desenhos de 15 minutos cada - ou seja, cada episódio começava numa semana e se concluía na semana seguinte - e 16 episódios de 15 minutos cada de Captain Caveman and the Teen Angels (Capitão Caverna e as Panterinhas), no qual as adolescentes Sabrina, Neli e Gilda encontram por acaso o super-herói pré-histórico Capitão Caverna em um bloco de gelo e, após descongelá-lo, o quarteto decide solucionar mistérios. A meia hora que falta para completar duas horas era composta por dois episódios de 15 minutos cada do desenho que dava nome ao programa, Laff-A-Lympics (Ho-Ho-Límpicos), que trazia três times formados por personagens famosos da Hanna-Barbera - os Abelhudos (liderados por Zé Colmeia e contando com Pepe Legal e Dom Pixote, dentre outros), os Assombrados (liderados por Scooby-Doo e contando com Speed Buggy e Hong Kong Fu, dentre outros) e os Rabugentos (liderados por Rabugento e contando com vilões criados especialmente para esse desenho) - competindo em eventos esportivos que eram mais cômicos do que práticos, com o Leão da Montanha e o Lobo Bobo atuando como repórteres. Uma segunda temporada, de mais 16 episódios, seria exibida entre 9 de setembro e 23 de dezembro de 1978, com o nome de Scooby's All-Stars; na segunda temporada, cada programa teria apenas uma hora e meia de duração, composta por um episódio de meia hora de O Show do Scooby-Doo (sem a participação de Scooby-Dão), dois episódios de 15 minutos cada de Capitão Caverna e as Panterinhas e dois episódios de 15 minutos cada de Ho-Ho-Límpicos - entretanto, só seriam produzidos oito novos episódios de cada um desses três desenhos, com os demais sendo reprises.

No mesmo dia de Scooby's All-Star Laff-A-Lympics, estrearia, mas na NBC, C B Bears (Ursuat), programa de uma hora de duração composto por seis desenhos de 10 minutos cada, cada um fazendo uma paródia de uma série de TV ou filme famoso da época: a Ursuat era uma paródia de As Panteras, com os ursos detetives Trombada, Tampinha e Esperto, que usam como disfarce um caminhão de lixo, recebendo missões da Chefe Charlie, que tem uma voz sensual mas nunca foi mostrada; Blast-Off Buzzard (Careta e Mutreta), na qual um abutre persegue uma veloz cobra no deserto dos Estados Unidos, era uma cópia do desenho do Papa-Léguas; Heyyy, It's the King! (Trapaleão) era uma paródia da série de TV Happy Days, ambientada na década de 1950, com o titular Trapaleão imitando o personagem Fonzy; Posse Impossible (A Polícia Desmontada) acompanhava o Xerife Tiro-Certo (pastiche de John Wayne) e seus leais comandados em aventuras no Velho Oeste; Shake, Rattle and Roll (Treme-Treme) acompanhava os fantasmas Treme-Treme, Agitado e Redondo (uma homenagem aos comediantes Hugh Herbert, Lou Costello e Marty Allen), que moram em um hotel mal-assombrado e fazem questão de assustar os hóspedes, tendo como arqui-inimigo o caçador de fantasmas Sidney e seu gato Vizinho; e Undercover Elephant (Elefantástico) era uma paródia de Missão Impossível estrelada por um elefante. Cada desenho teve um total de 13 episódios, exibidos entre 10 de setembro e 3 de dezembro.

Também no mesmo dia, mas na CBS, estrearia Skatebirds, programa de uma hora de duração no estilo de The Banana Splits Adventure Hour: a cada semana, eram exibidos episódios de três desenhos e de uma série com atores, intercalados por segmentos estrelados pelos Skatebirds, atores fantasiados de pássaros que usavam patins - o pica-pau Knock-Knock, o pelicano Satchel e o pinguim Scooter, cujo arqui-inimigo era o gato Scat Cat. Os três desenhos eram The Robonic Stooges (Os Robobôs), criado por Norman Maurer e estrelado por versões biônicas dos Três Patetas; Wonder Wheels (Cocota e Motoca), no qual o jornalista Motoca combate crimes como um super-herói que usa uma moto incrementada, sem que sua namorada Cocota desconfie; e Woofer & Wimper, Dog Detectives, reprises editadas de episódios de Clue Club para mostrar apenas as cenas estreladas por Bob e Sherlocão. A série com atores era Mystery Island, na qual o piloto Chuck Kelly (Stephen Parr), a especialista em computadores Sue Corwin (Lynn Marie Johnston), o irmãozinho dela, Sandy (Larry Volk) e o robô P.O.P.S. (voz de Frank Welker) ficam presos em uma ilha deserta após o avião no qual viajavam ser derrubado pelo cientista louco Dr. Strange (Michael Kermoyan), que quer usar P.O.P.S. para dominar o mundo. Skatebirds teria 16 episódios, exibidos entre 10 de setembro de 1977 e 21 de janeiro de 1978.

1977 também seria o ano de estreia de The All-New Super Friends Hour (Super Amigos), desenho que trazia novamente Superman, Batman, Robin, Mulher Maravilha e Aquaman, mas dessa vez acompanhados dos Super Gêmeos, Zan, que tinha o poder de se transformar em qualquer objeto, mas sempre feito de gelo, e Jayna, que tinha o poder de se transformar em qualquer animal, tendo de "ativar" seus poderes um tocando os dedos de sua mão fechada nos da mão do outro, e seu companheiro e animal de estimação, o macaco alienígena Gleek. Exibido pela NBC entre 10 de setembro e 10 de dezembro, o programa teve um total de 15 episódios, cada um composto por quatro desenhos de 15 minutos cada, totalizando uma hora. Os desenhos sempre seguiam a mesma estrutura: no primeiro, dois dos heróis principais (com Batman e Robin sendo considerados um herói só) se uniam para enfrentar alguma ameaça, com os demais não aparecendo; o segundo era protagonizado pelos Super Gêmeos, com os heróis principais não aparecendo; no terceiro, finalmente, todos os heróis principais e os Super Gêmeos se uniam para combater alguma ameaça; e, no quarto, algum dos heróis principais se unia a um herói convidado para uma aventura. Os quatro episódios de cada semana eram totalmente independentes, com histórias e vilões próprios, mas, mais uma vez, nenhum deles trazia os supervilões da DC, apenas vilões genéricos e desastres naturais - exceto por dois episódios nos quais o vilão foi o Arraia Negra e um no qual foi o Fantasma Fidalgo. Os heróis convidados foram Gavião Negro e Moça-Gavião (que também contavam como um herói só), Raio Negro, Chefe Apache, Rima, Samurai, Eléktron, Lanterna Verde e Flash.

1977 marcaria o aniversário de 20 anos da Hanna-Barbera, e, para comemorar, seria produzido Yabba Dabba Doo! The Happy World of Hanna-Barbera, que, apresentado por Gene Kelly, contava a história do estúdio misturando atores filmados e animação, indo ao ar em 24 de novembro pela CBS. Outros filmes para a TV produzidos pela Hanna-Barbera naquele ano seriam A Flintstone Christmas, especial de Natal dos Flintstones (?) exibido pela NBC em 7 de dezembro; The Gathering, também um especial de Natal, estrelado por Ed Asner e Maureen Stapleton, no qual um executivo à beira da morte decide se reaproximar da ex-mulher e do filho para passar seu último Natal com eles, exibido pela ABC em 4 de dezembro; e mais um piloto que acabou não sendo aprovado para se transformar em série, The Beach Girls, exibido pela CBS em 27 de dezembro, no qual Kim O'Brien, Ava Lazar e Rita Wilson interpretavam três universitárias que tentavam fazer sucesso com sua banda na cidade de Malibu.

Em 1978, a Hanna-Barbera faria dois experimentos. O primeiro seria The Hanna-Barbera Happy Hour, programa filmado com atores estrelado por dois bonecos de aparência humana ao estilo Muppets, as irmãs Honey e Sis, que dançavam, cantavam e participavam de esquetes de comédia em companhia de atores convidados, como Gavin MacLeod, Tony Randall e Betty White. Honey e Sis eram movimentadas por equipes de titereiros totalmente vestidos de azul, e filmadas em frente a um chroma key azul, substituido na pós-produção por outro cenário, dando a ilusão de que elas se movimentavam sozinhas. Exibido pela NBC, o programa não fez sucesso e teve apenas cinco episódios, exibidos entre 13 de abril e 11 de maio. O outro foi um programa de variedades apresentado pelo comediante Fred Travalena, chamado The Funny World of Fred and Bunni, exibido pela CBS em 30 de agosto. A intenção era fazer dele um programa regular, mas a audiência foi tão baixa que o canal não se interessou.

Um novo desenho dos Super Amigos também seria produzido em 1978: Challenge of the Super Friends (Super Amigos - todos os desenhos dos Super Amigos no Brasil se chamaram Super Amigos), que tinha meia hora composta por dois segmentos de 15 minutos cada. O primeiro trazia aventuras de Superman, Batman e Robin, Mulher Maravilha, Aquaman e dos Super Gêmeos, e foi feito a partir de roteiros escritos mais não aproveitados para The All-New Super Friends Hour, enquanto o segundo era o desenho dos Super Amigos que ficou mais famoso aqui no Brasil: reunidos na Sala da Justiça, Superman, Batman, Robin, Mulher Maravilha, Aquaman, Raio Negro, Flash, Lanterna Verde, Chefe Apache, Samurai e Gavião Negro estão sempre prontos para defender a humanidade combatendo as ameaças da Legião do Mal, grupo de vilões liderados por Lex Luthor que conta também com Solomon Grundy, Sinestro, Arraia Negra, Mulher-Leopardo, Giganta, Espantalho, Homem-Brinquedo, Charada, Bizarro, Brainiac, Capitão Frio e Gorila Grodd. Challenge of the Super Friends teria um total de 16 episódios, exibidos pela ABC entre 9 de setembro e 23 de dezembro.

No final da década de 1970, a Hanna-Barbera conseguiria os direitos de um dos personagens mais famosos de todos os tempos, o marinheiro Popeye, e produziria The All New Popeye Hour, programa de uma hora que trazia quatro desenhos de 15 minutos cada a cada episódio. Inicialmente, três desses desenhos eram do Popeye, sendo sempre dois episódios de Popeye e um de Popeye's Treasure Hunt, no qual Popeye, Olívia Palito, Dudu, Gugu e o Jeep viajavam pelo mundo em uma espécie de gincana, sendo atrapalhados por Brutus e Alice; o quarto desenho era Dinky Dog, criado por Larz Bourne, sobre duas garotas, a bonita Sandy e a inteligente Mônica (que lembravam um pouco Daphne e Velma), que moravam com seu tio Dudley e com um cachorro imenso chamado Dinky. Para a segunda temporada, o programa traria um episódio de Popeye, um de Popeye's Treasure Hunt, um de The Popeye Sports Parade, no qual Popeye e seus amigos competiam em uma espécie de Olimpíada, e um de Dinky Dog. Essa configuração seria mantida para a terceira temporada, mas, para a quarta, Dinky Dog seria removido e o programa reduzido para 45 minutos e renomeado para The Popeye and Olive Comedy Show, trazendo um episódio de Popeye, um de Prehistoric Popeye, ambientado na Idade da Pedra, e um de Private Olive Oyl, no qual Olívia e Alice eram amigas e serviam juntas no exército. Somando as quatro temporadas, The All New Popeye Hour teria 56 episódios, exibidos pela CBS entre 9 de setembro de 1978 e 5 de setembro de 1983.

Através de um contrato com a Toho intermediado por Henry G. Saperstein, a Hanna-Barbera também conseguiria os direitos do Godzilla, que usaria para produzir um desenho que contava com um grupo de cientistas que navegava a bordo do navio Calico estudando fenômenos naturais inexplicáveis, a maioria deles envolvendo monstros gigantes. A tripulação contava com o Capitão Carl Majors, a Dra. Quinn Darien, seu sobrinho Pete, seu assistente Brock Borden, e Godzooky, o "sobrinho medroso" de Godzilla e melhor amigo de Pete, contando o navio com um sinalizador que chamava Godzilla em caso de necessidade - ao contrário de suas versões dos filmes, Godzilla era amigável, cuspia fogo e disparava raios pelos olhos. Criado por Dick Robbins e Duane Poole, o desenho estreou como parte do programa The Godzilla Power Hour, que tinha uma hora na qual metade era um episódio de Godzilla e metade era um de Jana of the Jungle, criada por Doug Wildey, uma versão feminina de Tarzan, que vivia aventuras na Amazônia ao invés de na África. Um total de 13 episódios seriam exibidos pela NBC entre 9 de setembro e 2 de dezembro de 1978; após oito episódios, o programa seria renomeado para Godzilla Super 90 e passaria a ter uma hora e meia, exibindo também reprises de Jonny Quest. Godzilla ainda ganharia uma segunda temporada de mais 13 episódios, exibidos entre 15 de setembro e 8 de dezembro de 1979, mas sozinho, sem ser parte de programa nenhum.

1978 também seria o ano de estreia de Yogi's Space Race (A Corrida Espacial do Zé Colmeia), criado para tentar ganhar uns trocados com o sucesso de Star Wars - até a fonte usada no título do desenho era parecida com a do filme. Com uma hora e meia de duração, o programa era composto por quatro segmentos; o principal, com meia hora de duração, também se chamava Yogi's Space Race, no qual Zé Colmeia, Dom Pixote, Tutubarão e vários personagens novos competiam em uma corrida espacial ao estilo da Corrida Maluca, com alguns episódios contando com a participação especial de Fred Flintstone, Barney Rubble, Pepe Legal, João Grandão, Frankenstein Jr. e Jana. Dois dos personagens novos criados para esse desenho seriam Arrepio, urso que tem medo de tudo e é o parceiro do Zé Colmeia, substituindo Catatau, e Pato Quack, um pato maluco que é o parceiro de Dom Pixote; Zé Colmeia, Arrepio, Dom Pixote e Pato Quack seriam as estrelas do desenho Galaxy Goof-Ups (Os Trapalhões Espaciais), também de meia hora, no qual os quatro são detetives espaciais investigando crimes sob o comando do Capitão Carabom. O terceiro desenho do programa, com 15 minutos de duração, seria The Buford Files (Arquivo Cãofidencial), clone de Scooby-Doo ambientado no interior dos Estados Unidos, no qual os adolescentes Rosinha e Zé Quati solucionavam mistérios em companhia de seu cachorro, o sabujo Kojeka. E o quarto, também de 15 minutos, era The Galloping Ghost (Fantasmino, o Fantasma Galopante), parecido com Capitão Caverna, no qual as jovens Suzana e Rita libertam acidentalmente o fantasma de um mineiro, e o trio passa a solucionar mistérios. Ao todo, Yogi's Space Race teria 16 episódios, exibidos pela NBC entre 9 de setembro e 2 de dezembro.

Ainda em 1978, a Hanna-Barbera produziria mais um filme com atores para a série ABC Afterschool Specials, chamado It Isn't Easy Being a Teenage Millionaire, exibido em 8 de março, no qual uma menina de 14 anos (Victoria Paige Meyerink) ganha na loteria e acha que solucionou todos os seus problemas, mas descobre que eles estão apenas começando; Hanna-Barbera's All-Star Comedy Ice Revue, que misturava atores e animação, exibido pela CBS em 13 de janeiro, apresentado por Roy Clark e Bonnie Franklin, no qual Fred Flintstone ganha uma festa de aniversário surpresa com a presença de vários personagens da Hanna-Barbera; The Flintstones: Little Big League, no qual Fred e Barney são treinadores de times de beisebol infantis rivais, exibido pela NBC em 6 de abril; e os filmes para a TV The Beasts Are on the Streets, exibido NBC em 18 de maio, no qual animais fogem de um zoológico e ameaçam uma pequena cidade, cabendo à veterinária Claire McCauley (Carol Lynley) e ao guarda florestal Kevin Johnson (Dale Robinette) tentar controlar a situação; e Kiss Meets the Phantom of the Park, no qual a banda Kiss, após ser contratada para tocar em um parque de diversões, se vê envolvida em uma trama de mistério, exibido também pela NBC em 28 de outubro, como um especial de Halloween.

Em 1979 aconteceu muita coisa, então vou aproveitar e parar por aqui. Retornaremos em breve!
Ler mais

sábado, 12 de setembro de 2026

Escrito por em 12.9.26 com 0 comentários

Kamen Rider (XVIII)

Quando eu estava escrevendo o último post sobre os Sentai, me dei conta de que já poderia ter escrito mais um sobre Kamen Rider. Infelizmente, a verdade é que eu não estou muito animado a seguir escrevendo sobre Kamen Rider, porque a última série que eu assisti foi Kamen Rider Gaim, já faz mais de dez anos, e desde então tenho achado chato escrever sobre séries das quais não sei nada porque nunca assisti. Ainda assim, em nome da completude, decidi fazer um esforço e escrever mais dois posts, esse que estou postando hoje e mais um que vou postar mês que vem, porque aí eu fico em dia, e só preciso decidir se continuo com a essa série ou não em 2028.

Kamen Rider Black Sun
2023

Assim como Kamen Rider Amazons, Kamen Rider Black Sun é uma série extra, voltada para adultos e produzida para ser lançada diretamente em streaming, tendo sido disponibilizada mundialmente através do serviço Amazon Prime Video. Ela seria produzida como parte das comemorações pelos 50 anos da série original, aproveitando também para comemorar os 35 anos do lançamento de Kamen Rider Black, até hoje uma das séries mais populares dentre os fãs.

Planos para produzir uma série para adultos como parte das comemorações do cinquentenário começariam em 2019, quando a Toei divulgaria dentre seus roteiristas usuais que estava procurando por um roteiro apropriado. O diretor de cinema Kazuya Shiraishi ficaria sabendo do projeto através de um dos produtores da Toei, Taisuke Furuya, e se ofereceria para dirigir o projeto, que ainda não se sabia se seria um filme ou série. Alguns meses depois, Shiraishi seria confirmado como diretor, no mesmo evento em que seria anunciado que o projeto se tratava de uma série, baseada em Kamen Rider Black. O diretor de conteúdo da Toei, Fumio Yoshimura, também revelaria que esse projeto era o último no qual o criador do Kamen Rider, Shotaro Ishinomori, estava trabalhando antes de morrer.

Como Shiraishi não tinha experiência na direção de toskusatsu, o produtor Shinichiro Shirakura recomendaria que ele contratasse um artista conceitual para ajudá-lo a visualizar o projeto; Shiraishi escolheria outro diretor de cinema, Shinji Higuchi, que já havia dirigido filmes de Godzilla (inclusive tendo sido co-diretor de Shin Godzilla, de 2016), Evangelion e Gamera, dentre outros, e estava no páreo para dirigir Shin Kamen Rider, filme que reimaginava a história do Kamen Rider original, lançado em 2023 também como parte das comemorações do cinquentenário, e que acabaria sendo dirigido pelo outro co-diretor de Shin Godzilla, Hideaki Anno. Após ter sido preterido por Anno, Higuchi declararia que provavelmente jamais trabalharia em uma produção do Kamen Rider, mas o envolvimento de Shiraishi e o fato de a nova série ser inspirada em Kamen Rider Black o fariam mudar de ideia. Seria Higuchi quem escolheria o diretor de efeitos especiais, Kiyotaka Taguchi, que tinha uma longa carreira com o tokusatsu, e aceitou "sem pensar duas vezes".

Shiraishi jamais tinha assistido Kamen Rider Black, o fazendo pela primeira vez ao se preparar para dirigir Kamen Rider Black Sun. Ao terminar, ele escreveria um roteiro preliminar, focado na tristeza dos protagonistas e enfatizando a relação entre Kohtaro Minami (Kamen Rider Black) e Nobuhiko Akizuki (Shadow Moon). Como era praxe em todos os seus filmes, Shiraishi também desejava aproveitar a história para fazer comentários sociais pertinentes ao Japão contemporâneo. A versão final do roteiro seria escrita por um veterano da Toei, Izumi Takahashi.

Apesar do desejo da Toei de que a série fosse voltada para adultos, ele a faria menos, digamos, ousada que Kamen Rider Amazons, esperando que ela pudesse agradar espectadores de todas as idades. Aproveitando esse desejo, a Toei também anunciaria, em parceria com a Bandai, uma linha de brinquedos ligados a ela, algo natural para as séries regulares de Kamen Rider, mas que não foi feito com Kamen Rider Amazons ou com Shin Kamen Rider. Talvez atrapalhando os planos da Toei e de Shiraishi, a Amazon classificaria a série como inapropriada para menores de 16 anos no Japão e Europa, e como inapropriada para menores de 18 anos em países como Brasil e Estados Unidos.

A Bandai aproveitaria o ensejo para lançar um financiamento coletivo para uma nova versão do mais popular brinquedo de Kamen Rider Black, uma réplica do cinto usado pelo personagem para se transformar, que respondia a sinais enviados pela televisão para brilhar várias sequências de luzes - como isso é impossível de se fazer com as atuais televisões, que não usam tubos de raios catódicos, o cinto viria com um DVD com os episódios de Kamen Rider Black que ativavam o cinto, mas se utilizando de emissões de infravermelho nos momentos em que os sinais seriam transmitidos. Uma das recompensas para os financiadores, dependendo do valor doado, era a oportunidade de aparecer como figurante em Kamen Rider Black Sun.

Kamen Rider Black Sun é parte drama político, parte série de ação: 70 anos antes dos eventos da série, um experimento secreto do governo japonês deu origem aos Kaijin, uma raça de humanos geneticamente modificados, com força, resistência, agilidade, velocidade e tempo de vida ampliados, mas cuja verdadeira aparência é monstruosa, sendo, porém, capazes de assumir forma humana. O criador dos Kaijin ficaria conhecido apenas como Creation King, e parte do processo envolvia implantar gemas conhecidas como Kingstones nos candidatos à transformação.

Nesse cenário, Kohtaro Minami e Nobuhiko Akizuki são dois melhores amigos que foram transformados em Kaijin por seus próprios pais, ambos na esperança de eles substituírem o Creation King como líder dos Kaijin após sua morte. Após um incidente que resultou na morte de Yukari Shinjo, amiga de Minami e Nobuhiko, os dois juram matar o Creation King e assumir seu lugar; Minami é o primeiro a tentar e falha, decidindo se afastar de Nobuhiko e dos demais Kaijin, permanecendo anos no exílio. Nesse meio-tempo, os Kaijin se organizam como um partido político, chamado Gorgom, que luta pelo reconhecimento dos Kaijin como cidadãos e para que eles tenham a posse de todas as Kingstones, para que sejam eles a decidir como usá-las.

Parte dos Kaijin, porém, não acredita na convivência pacífica, considerando os humanos inferiores e querendo dominá-los; durante um ataque de um desses Kaijin, Minami se transforma em Kamen Rider Black Sun, para salvar outra jovem, Aoi Izumi, uma ativista pró-Kaijin. Ele acaba se reencontrando com Nobuhiko, que pode se transformar em Kamen Rider Shadow Moon, e ambos decidem refazer sua parceria para cumprir sua promessa de matar o Creation King, enfrentando Kaijin renegados no processo. O que Minami não sabe, porém, é que Nobuhiko também está desiludido com a humanidade, querendo matar o Creation King não para libertar os Kaijin, mas para governar o Japão com mão de ferro.

Kamen Rider Black Sun teria 10 episódios, todos disponibilizados pelo Amazon Prime Video no dia 28 de outubro de 2022, simultaneamente em mais de 60 países, incluindo o Brasil - aliás, "simultaneamente" entre aspas, já que a série entrava para o catálogo à meia-noite do horário local, o que significa que ela só estreou no Brasil 12 horas após sua estreia no Japão, que foi o primeiro país onde os assinantes do serviço puderam assisti-la. Três dias antes, em 25 de outubro, os dois primeiros episódios seriam exibidos em tela de cinema no Festival Internacional de Cinema de Tóquio. A crítica japonesa elogiaria a série, principalmente seu tom maduro e as referências a eventos atuais e históricos, como o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos e os experimentos conduzidos pelo governo japonês na Unidade 731 durante a Segunda Guerra Mundial.

Kamen Rider Gotchard
2023

Houtaro Ichinose é um estudante da Furasu High School, que, um dia, descobre acidentalmente que, nos subterrâneos abaixo de sua escola, funciona a Alchemist Academy, um escola secreta para alquimistas. Um desses alquimistas, Fuga Kudo, decide recrutar Houtaro para uma missão: encontrar os Chemies, criaturas feitas pela alquimia que têm o poder de se fundir aos seres humanos e foram espalhados pelo mundo após um acidente. Se a pessoa tiver um coração bom, o Chemy vai ressonar com ele e aumentar as habilidades naturais da pessoa, mas, se ela tiver maldade no coração, o Chemy vai transformá-la em um monstro chamado Malgam, por isso é importante que Houtaro capture todos e os leve de volta à Alchemist Academy antes que haja Malgams suficientes para ameaçar o mundo. Para que Houtaro possa cumprir sua missão, Fuga dá a ele um GotcharDriver, com o qual ele pode se fundir aos Chemies e se transformar em Kamen Rider Gotchard, ganhando habilidades sobre-humanas.

Cada uma das formas de Kamen Rider Gotchard tem dois modos, o Rider Mode, que é um Kamen Rider tradicional, e o Wild Mode, que é um animal mecânico feito de computação gráfica, com Houtaro podendo alternar entre as duas. A forma padrão é a chamada Steamhopper, de cor azul clara, inspirada no gafanhoto. As demais são a Odorimantis, de cor verde escura, inspirada no louva-a-deus, que tem lâminas nos braços e pernas; a Appareskebow, que conta com uma espada de madeira e um skate, de cor vermelha e inspirada na coruja; a Energymmaru, de cor verde clara, que tem habilidades ninja; a Bulletchouco, de cor laranja, inspirada na borboleta, que conta com uma arma que dispara gás alucinógeno; a Antwrestler, de cor azul escura, inspirada na formiga, que tem habilidades de luta livre; a Smahotaru, vermelha e verde, inspirada no vaga-lume, que tem vários ataques baseados em luzes; a Needlehawk, verde e amarela, que pode voar e disparar lâminas, inspirada no falcão; a Spiclewhale, de cor preta, inspirada na baleia, que tem maior resistência e cujo Wild Mode pode transportar passageiros; a Goldmechanicor, dourada, inspirada no caranguejo, que tem garras poderosas; a Doctorhabi, de cor roxa, inspirada na serpente, que tem maior agilidade e mobilidade; a Bunnyparka, inspirada no coelho, vermelha e branca, que tem sentidos ampliados; a Lightningjungle, de cor branca, inspirada na água-viva, que tem vários ataques elétricos e cujo Wild Mode pode recarregar aparelhos; e a Tricatcher, laranja e azul, inspirada na aranha, com vários ataques envolvendo teias.

Existem também algumas "formas temporárias", que apareceram apenas em um episódio cada, e apenas em um dos modos. Apenas em Rider Mode aparecem Venomariner, inspirada no cogumelo, de cor azul e rosa, que tem mobilidade subaquática; Burningorilla, prateada, inspirada no gorila, a mais forte de todas; Dokkirishovel, roxa e dourada, que tem escavadeiras no lugar dos braços; e Hiikesurose, verde e vermelha, inspirada na rosa, que é à prova de fogo e tem várias armas que debelam o fogo. Já apenas em Wild Mode aparecem o trator Madpirates, o robô-morcego Batkingrobo, o satélite Bakuontelevi, o besouro Stagmirror, e o escorpião voador Greatsasorry.

Mais para o meio da série, Houtaro ganha uma espada chamada Exgotchalibur, que pode combinar com o GotcharDriver para ter acesso às Super Formas Cross UFOX, que se parece com um disco voador, e Cross XRex, que se parece com um dinossauro. Da mesma forma, combinando um aparelho chamado Gotcharigniter com o GotcharDriver, Houtaro se transforma em Kamen Rider Fire Gotchard, que tem acesso a versões turbinadas das formas Steamhopper, Appareskebow e Antwrestler, além da nova forma Exceedmighty, que tem poderes inspirados nos Kamen Riders Kuuga e Faiz. Também existe uma forma mais poderosa da Steamhopper chamada Ultima Steamhopper, obtida usando Chemies específicos.

Após receber o GotcharDriver, Houtaro também passa a ter duas habilidades muito importantes: a de detectar a maldade nos corações humanos, para saber se existe a chance de alguém se tornar um Malgam, e a de se comunicar com os Chemies de maneira não-verbal, compreendendo suas intenções e tentando dissuadi-los de se unir a pessoas que poderiam virar Malgams. Infelizmente, o GotcharDriver possui um tempo-limite para uso, após o qual ele superaquece, só podendo ser usado novamente após esfriar; se Houtaro continuar na forma de Kamen Rider Gotchard com o aparelho superaquecido, ele começa a sentir uma dor excruciante. O aparelho também permite a Houtaro assumir uma forma mais poderosa, chamada Iron Gotchard, mas que transformaria Houtaro em um Malgam; mais adiante na série, ele consegue contornar essa limitação assumindo a nova forma Platina Gotchard. Mas a forma mais poderosa e mais rara de todas se chama Rainbow Gotchard, e é inspirada no dragão.

Como de costume, Houtaro não é o único Kamen Rider da série; o principal dos demais é uma mulher, Rinne Kudo, filha de Fuga, que se transforma em Kamen Rider Majade, que tem duas formas, ambas majoritariamente de cor branca, inspiradas em animais mitológicos, e quase equivalentes à Steamhopper em poder: a Sununicorn, mais veloz e resistente, mas mais fraca e com menos mobilidade, e a Mooncerberus, que tem socos e saltos mais poderosos, mas é mais lenta e frágil. A forma superpoderosa de Majade se chama Twilight Majade, e tem habilidades de alquimia.

Outro personagem de destaque é o alquimista Supana Kurogane, que inicialmente foi transformado em Wheel Malgam, mas conseguiu reverter a transformação e passou a ter o poder de se transformar em Valvarad, que, além de ter uma forma padrão, pode substituir seu braço esquerdo por uma peça parecida com o braço de uma escavadeira, em um modo chamado Gutsshovel Custom; seu braço direito por uma peça parecida com a cabine e o rotor de um helicóptero, no modo Gekiocopter Custom; ou ambos os braços, no modo Tri Custom. Lá pelo meio da série, Kurogane ganha um Valvaradriver, e passa a se transformar em Kamen Rider Valvarad, que tem as formas padrão, Orochishovel (com braços de escavadeira), Angecopter (com braços de helicóptero) e Kurogane (a famosa mais poderosa de todas).

Outros Kamen Riders da série são Kamen Rider Gotchard Daybreak, na verdade uma versão de Houtaro que veio do futuro para ajudar a si mesmo, que conta com as formas Steamhopper e Fire Steamhopper, ambas de cor laranja ao invés de azul; Kamen Rider Wind, que na verdade é Fuga Kudo; e Kamen Rider Legend, na verdade o alienígena Ho-Oh Kaguya Quartz, que tem uma forma padrão parecida com a de Kamen Rider Decade, mas dourada, uma forma super poderosa chamada Legendary Legend, e formas alternativas em homenagem a Kamen Riders do passado, chamadas Kamen Rider Gorgeous Kuuga, Kamen Rider Gorgeous Agito, Kamen Rider Gorgeous Ryuki, Kamen Rider Gorgeous Faiz, Kamen Rider Gorgeous Blade, Kamen Rider Gorgeous Hibiki, Kamen Rider Gorgeous Kabuto, Kamen Rider Gorgeous Den-O, Kamen Rider Gorgeous Kiva, Kamen Rider Gorgeous Decade, Kamen Rider Gorgeous Decade Complete Form, Kamen Rider Gorgeous Zero-Two e Kamen Rider Gorgeous Grand Zi-O, além de uma forma chamada Kamen Rider Gorgeous Build Genius, que combina os poderes de todas as alternativas.

O principal obstáculo para a missão de Houtaro será Glion, alquimista que planeja usar o poder dos Chemies para destruir o mundo e recriá-lo à sua imagem e semelhança, auxiliado pela Três Irmãs Sombrias, Atropos, Clotho e Lachesis. Após obter um DreadDriver, Clotho passou a ter o poder de se transformar em Kamen Rider Dread, que tem as formas Type Zero, Type Two e Type Three, progressivamente mais poderosas, com a Type Zero sendo equivalente a Gotchard. Em alguns episódios, Glion também usa o DreadDriver para se transformar em Kamen Rider Dread Type Two e Type Three, mas, nos dois últimos, consegue acessar seu poder total e se transformar em Kamen Rider Eid.

O verdadeiro vilão, entretanto, não é Glion, e sim os Dark Kings, três entidades de outra dimensão cujo poder vem da Pedra Filosofal. Eras atrás, o poder da Pedra foi dividido entre os três igualmente, com cada um recebendo 33%, o 1% que sobrou se espalhou pelo mundo e deu origem à alquimia. O objetivo de cada um dos Dark Kings é obter esse 1%, para se tornar mais poderoso que os outros dois, destruí-los e governar sozinho; para isso, eles manipulam Glion e começam a confusão dos Chemies e dos Malgams, acreditando que assim conseguirão reunir o 1% restante e se apoderar dele.

Kamen Rider Gotchard teve um total de 50 episódios, exibidos entre 3 de setembro de 2023 e 25 de agosto de 2024; além de quatro filmes para o cinema, o primeiro deles um crossover com o Kamen Rider anterior, Kamen Rider Geats, que seria também a estreia de Kamen Rider Majade, que apareceu no filme antes de na série; e de 10 especiais lançados diretmente em streaming. Curiosamente, há também um romance cujo enredo é considerado canônico para a série, chamado Novel: Kamen Rider Gotchard University, lançado nas livrarias japonesas em 16 de março de 2026, escrito por um dos roteiristas da série, ambientado um ano após seu final, e que mostra Houtaro e seus amigos já na universidade, tendo de lidar com uma nova ameaça aos Chemies.

Série Kamen Rider

Kamen Rider Black Sun
Kamen Rider Gotchard

Ler mais

sábado, 5 de setembro de 2026

Escrito por em 5.9.26 com 0 comentários

Splendor

Como eu disse quando falei sobre Colt Express, nem todo jogo de tabuleiro tem um tabuleiro. Hoje nós veremos mais um que não tem, um dos meus preferidos, não somente por ser extremamente divertido, mas também pela qualidade de seus componentes, todos lindíssimos. Hoje é dia de Splendor no átomo!

Em Splendor, os jogadores são mercadores de joias na época do Renascimento, buscando assegurar os melhores fornecedores, transportadores e lojas para que suas joias sejam as de maior prestígio, podendo até receber visitas de nobres se forem bem-sucedidos o suficiente. O jogo usa uma combinação de cartas e fichas - sem tabuleiro - e regras bastante simples, que resultam em um jogo rápido, mas com espaço para muita estratégia, e muito divertido. Um dos maiores destaques, entretanto, é a arte, providenciada por Pascal Quidault, Marc André e Paul Vérité.

As regras, como já foi dito, são bem simples. Os únicos componentes são 40 fichas de plástico, tipo as usadas no pôquer, 90 cartas, 10 cartões de nobres, de papelão, e 1 marcador de jogador inicial. As fichas se dividem em seis cores diferentes, sendo 7 cada das cores verde (esmeralda), azul (safira), vermelha (rubi), branca (diamante) e preta (ônix), e 5 de cor amarela (ouro); as cartas são divididas em Nível 1, 2 e 3, cada Nível tendo seu próprio baralho, com verso de cor diferente - no total, são 40 cartas de Nível 1 (verde), 20 de Nível 2 (amarelo) e 20 de Nível 3 (azul). Durante a preparação, cada um dos baralhos é embaralhado separadamente e usado para fazer um monte de compras, com os três montes de compras sendo colocados na mesa em uma coluna, com o de Nível 1 mais abaixo e o de Nível 3 mais acima. Quatro cartas são compradas do topo de cada baralho e abertas sobre a mesa, para formar três linhas de quatro cartas cada. Os cartões de nobres são embaralhados e colocados numa linha acima das cartas de Nível 3, em uma quantidade igual ao número de jogadores mais um; cartões não utilizados retornam para a caixa. As fichas são colocadas em seis pilhas, separadas por cor, ao alcance dos jogadores.

Começando pelo primeiro jogador (segundo o manual, o mais novo), os jogadores jogam em sentido horário. Em sua vez de jogar, um jogador escolhe uma de quatro ações possíveis, a executa e passa a vez. O jogo continua até que um jogador some 15 pontos; então, os demais jogam até que seja a vez do primeiro de novo, quando o jogo acaba e a pontuação final é somada, com o vencedor sendo aquele que somou mais pontos - se houver empate, o vencedor será o que jogou menos cartas, então o que recebeu mais visitas de nobres, e, se mesmo assim não houver como desempatar, acaba empatado mesmo.

A primeira ação que um jogador pode escolher é pegar três fichas de gemas de cores diferentes (exceto amarela); ele pega uma ficha de cada uma das três pilhas escolhidas e as coloca à sua frente, em uma reserva pessoal. A segunda ação é pegar 2 fichas de uma mesma cor (novamente, exceto amarela), colocando-as em sua reserva pessoal, sendo que não pode ser escolhida uma cor cuja pilha tenha 3 ou menos fichas.

A terceira ação é reservar uma carta: o jogador pega uma carta qualquer, dentre as expostas na mesa ou do topo de um dos baralhos, e a coloca em sua reserva pessoal, com a face virada para baixo; caso pegue uma das cartas abertas sobre a mesa, deverá comprar uma do topo do baralho correspondente para colocar onde ela estava. Cada jogador só pode ter até três cartas reservadas de cada vez, e não pode descartá-las, apenas jogá-las. Toda vez que reserva uma carta, o jogador também pega uma ficha de ouro (amarela), se houver alguma disponível, e a coloca em sua reserva pessoal, sendo essa a única forma de ganhar fichas amarelas. Seja qual ação escolher, ao final de seu turno (ao passar a vez para o jogador seguinte), um jogador nunca pode ter mais de 10 fichas (incluindo amarelas) em sua reserva pessoal, devendo devolver fichas de sua escolha para as pilhas até ficar com 10.

A quarta ação é a que trará pontos aos jogadores: jogar uma carta. Um jogador pode jogar uma carta que esteja aberta sobre a mesa ou que tenha sido reservada por ele em um turno anterior; para isso, ele deve ter, em sua reserva pessoal, uma quantidade de fichas de cada cor igual às gemas mostradas no custo da carta - por exemplo, caso a carta tenha um diamante, duas esmeraldas e quatro safiras, o jogador deverá ter em sua reserva pessoal 1 ficha branca, 2 verdes e 4 azuis. Fichas amarelas atuam como curingas, podendo ser usadas para pagar por qualquer cor. Desnecessário dizer, um jogador não pode jogar uma carta que tenha sido reservada por um oponente, nem uma carta do topo de um dos baralhos.

Após escolher a carta, o jogador devolve as fichas necessárias de sua reserva pessoal para as pilhas, pega a carta escolhida e a coloca à sua frente, em sua área de jogo, com a face para cima - caso pegue uma das cartas abertas sobre a mesa, deverá comprar uma do topo do baralho correspondente para colocar onde ela estava. As cartas na área de jogo do jogador devem ser arrumadas por cor, dispostas de forma que umas fiquem sobre as outras com apenas a faixa superior de cada uma estando visível - quais cartas cada jogador tem em sua área de jogo, assim como quantas fichas de cada cor ele tem, são informação pública, podendo ser consultada pelos oponentes a qualquer momento, apenas as cartas que o jogador reservou podem ser mantidas em segredo.

A faixa superior de cada carta deve ficar visível porque ela traz duas informações importantes: quantos pontos ela vale e quantas gemas ela produz. Os pontos são representados por um número, e são esses números que devem ser somados para chegar ou ultrapassar 15 e ganhar o jogo. Já as gemas são representadas por figuras de gemas, e podem ser usadas para substituir as fichas na hora de jogar outras cartas - no exemplo anterior, se o jogador tivesse cartas que produzem uma esmeralda e duas safiras, ele só precisaria devolver 1 ficha branca, 1 verde e 2 azuis. Quanto mais cartas um jogador tem em sua área de jogo, menos fichas ele precisa gastar para jogar novas cartas; com cartas suficientes em sua área de jogo, ele poderá jogar novas cartas sem precisar comprar ou devolver fichas - e é isso que torna o jogo rápido, principalmente perto do final.

Ter cartas em sua área de jogo também é importante para receber a visita de um nobre: assim como cada carta possui um custo em gemas, cada cartão de nobre possui um custo em cartas. Ao final de cada turno seu, o jogador deverá verificar se tem cartas suficientes para o custo de algum dos nobres que está sobre a mesa; caso tenha, ele imediatamente pega o cartão e o coloca em sua área de jogo, onde ele valerá 3 pontos. Receber a visita de um nobre não conta como uma ação e não é opcional, com o jogador devendo pegar um cartão se puder pagar por seu custo, mas cada jogador só pode receber a visita de um nobre por turno - se puder pagar pelo custo de mais de um, deverá escolher apenas um - embora não haja limite para quantos nobres um jogador tenha em sua área de jogo. Os pontos dos nobres são somados aos das cartas para determinar o fim do jogo e o vencedor.

Splendor é uma criação do francês Marc André, nascido em 1967. Quando criança, André aprendeu a jogar xadrez com o pai, e durante muito tempo foi um apaixonado pelo jogo, sendo presidente do Clube de Xadrez de sua escola. Na adolescência, ele começaria a jogar RPG e wargames, e tentaria criar seus próprios jogos nesse estilo; já perto da idade adulta, conheceria os jogos de tabuleiro modernos, como Catan, e se apaixonaria por eles. Ele se formaria em economia e trabalharia no mercado financeiro, porque, segundo ele, "comprar, vender e ganhar dinheiro com ações também é uma espécie de jogo"; com o sucesso de Splendor, porém, ele decidiria abandonar a economia e se dedicar à criação de jogos de tabuleiro em tempo integral, para poder passar mais tempo com sua família.

O primeiro jogo de André seria Bonbons, lançado em 2011 pela GameWorks, uma espécie de jogo da memória turbinado, no qual os jogadores devem revelar e combinar partes de doces para ganhar pontos. Splendor seria o segundo, lançado em 2014 pela Space Cowboys - aqui no Brasil, pela Galápagos, que agora usa o nome de sua controladora, Asmodee - e seria um sucesso instantâneo, sendo indicado ao Spiel des Jahres e um dos mais vendidos no mundo naquele ano. Em seguida, pela Matagot, em 2015, ele lançaria Barony, jogo que bebe na fonte dos wargames, no qual os jogadores são barões buscando ampliar seus domínios. Outros jogos de destaque criados por André são Sail Away, lançado em 2015 pela Mattel, no qual os jogadores são comerciantes tentando fazer rotas no Mar do Caribe sem topar com piratas; Middle Ages, lançado em 2024 pelo Studio H, no qual cada jogador é um senhor feudal que deve decidir como investir em seu feudo para ganhar a maior quantidade de pontos possível; e Soul Raiders, jogo cooperativo lançado em 2025 pela One for All, no qual os jogadores são magos guerreiros tentando sobreviver em um futuro distópico.

Desde seu lançamento, Splendor já teve quatro edições - a primeira, como foi dito, é de 2014, a segunda é de 2016, a terceira é de 2019 e a quarta e mais recente é de 2023. Cada edição tem uma caixa diferente, mas as artes das cartas são praticamente idênticas, com apenas alguns detalhes aqui e ali tendo sido retocados ou melhorados - as cartas da quarta edição são as que têm mais retoques, sendo bem diferentes das da primeira. Da primeira para a segunda edição, as regras seriam revisadas e melhoradas, mas se manteriam as mesmas desde então; as fichas da primeira edição são mais grossas e pesadas, e as cartas da quarta são mais finas e moles, o que tem gerado reclamações dos jogadores - a partir da segunda edição, as fichas e cartas passariam a ter pequenos símbolos para que daltônicos pudessem identificá-las sem depender apenas da cor.

Mas a principal diferença da quarta edição diz respeito à única expansão lançada para Splendor, Cities of Splendor, lançada em 2017. Essa expansão, que ganharia uma segunda edição em 2020 (lançada no Brasil pela Galápagos como Cidades de Splendor), é composta por quatro módulos, que podem ser adicionados ao jogo base um de cada vez ou em qualquer combinação, inclusive todos ao mesmo tempo. Para a quarta edição, os módulos teriam suas regras revisadas e seriam divididos em duas expansões, com as duas primeiras estando na expansão Splendor: The Silk Road, lançada em 2024, e as outras duas na Splendor: The Sun Never Sets, lançada em 2025. Cities of Splendor também trazia dois novos cartões de nobre, que agora vêm um em cada nova expansão.

O primeiro módulo se chama As Cidades (Cities), e tem como componentes 7 cartões dupla-face de cidades. Durante a preparação, os nobres não são usados; ao invés disso, são sorteadas 3 cidades, colocadas sobre a mesa com um dos lados aleatoriamente para cima, com as demais voltando para a caixa. Assim como os nobres, cada cidade possui um custo em cartas, e, ao final de seu turno, o jogador deverá conferir se pode pagar esse custo, recebendo o cartão se puder. Assim que um jogador obtém uma cidade, a rodada segue até que seja a vez do primeiro jogador novamente. Se apenas um jogador tiver uma cidade, ele ganha o jogo imediatamente; se mais de um tiver, ganha quem tiver mais pontos dentre os que têm uma cidade.

O segundo módulo se chama Entrepostos Comerciais (Trade Outposts), e tem como componentes 20 cartões de entrepostos comerciais, sendo 4 de cada cor (verde, azul, vermelha, branca e preta). Durante a preparação, são escolhidos aleatoriamente um número de cartões de cada cor igual ao número de jogadores, que começam em cinco pilhas sobre a mesa, uma de cada cor, entre os nobres (ou cidades) e as cartas. Cada entreposto comercial possui um custo e uma habilidade; ao final de seu turno, o jogador deve verificar se pode pagar o custo, pegando o cartão e colocando-o em sua área de jogo caso positivo, se beneficiando da habilidade do entreposto até o final do jogo. Cada jogador pode ter quantos entrepostos quiser, mas somente um de cada cor.

O terceiro módulo se chama As Fortalezas (The Stongholds), e tem como componentes 12 meeples de fortaleza, 3 cada nas cores azul, amarelo, verde e vermelho. Durante a preparação, cada jogador escolhe uma cor, pega as 3 fortalezas dessa cor e as coloca em sua reserva pessoal. Cada vez que um jogador joga uma carta, ele pode escolher dentre três ações: colocar uma fortaleza em uma carta das que estão abertas na mesa que não tenha uma fortaleza de um oponente (mas que pode ter outras fortalezas dele mesmo), mover uma fortaleza de uma carta para outra que não tenha uma fortaleza de um oponente (mas que pode ter outras dele mesmo), ou escolher uma carta que tenha uma (mas não duas ou três) fortaleza de um oponente e removê-la, devolvendo-a para o oponente. Uma carta que tenha uma fortaleza só pode ser jogar ou reservada pelo dono da fortaleza, e, ao fim de seu turno, sem contar como uma ação, se puder pagar pelo custo, um jogador pode jogar uma carta que tenha três de suas fortalezas. Ao jogar ou reservar uma carta com fortalezas, o jogador as devolve para sua reserva pessoal.

O quarto módulo se chama O Oriente (The Orient), e tem como componentes 30 cartas, sendo 10 de cada Nível. Durante a preparação, os montes de compras das cartas de Oriente ficam ao lado da quarta carta aberta do jogo normal, e duas cartas de cada Nível do Oriente devem estar abertas - ou seja, agora serão 6 cartas abertas por nível, 4 do jogo normal e 2 do Oriente. Cartas do jogo normal são sempre repostas por cartas do jogo normal, e cartas do Oriente são sempre repostas por cartas do Oriente. Cartas do Oriente podem ser jogadas e reservadas normalmente, e possuem poderes especiais, como ser descartada para contar como 2 fichas amarelas, ou dar direito a jogar junto com ela uma carta do jogo normal sem pagar seu custo.

Splendor também teria duas versões temáticas. A primeira, lançada originalmente em 2020 nos Estados Unidos pela Space Cowboys (e no Brasil um ano depois, pela Galápagos), seria Splendor Marvel, que substitui as artes das cartas por artes recicladas (ou seja, retiradas de fontes como revistas e material promocional) dos personagens da Marvel, os nobres por locais do Universo Marvel, e as gemas pelas Joias do Infinito. Segundo o manual, o objetivo de cada jogador é "reunir um time de super-heróis e conseguir as Joias do Infinito antes de Thanos", mas, usando as mecânicas do jogo, nunca fica muito claro como isso é feito - em essência, é um Splendor normal, mas com arte temática da Marvel ao invés da fabricação e venda de joias.

Aliás, Splendor Marvel é um Splendor quase normal, já que há pequenas alterações nas regras. Pra começar, são 44 fichas, sendo 39 de joias do infinito, por sua vez 7 cada nas cores amarela (Mente), azul (Espaço), laranja (Alma), roxa (Poder) e vermelha (Realidade), mais 4 na cor verde (Tempo), e 5 fichas da S.H.I.E.L.D., de cor cinza, que atuam como curingas. As cartas são 90, sendo 40 de Nível 1, 30 de Nível 2 e 20 de Nível 3, e os cartões são 6, sendo 4 de local (dupla-face), 1 de Manopla do Infinito e 1 de Avante Vingadores. Durante a preparação, os cartões de Manopla do Infinito e de Avante Vingadores sempre vão para a mesa, com as fichas verdes ficando sobre a Manopla do infinito e as cinza próximas a ela; os cartões de local devem ser em quantidade igual o número de jogadores, com um lado aleatório ficando voltado para cima, e os demais voltando para a caixa. Os locais substituem os nobres, com o lado do cartão virado para cima valendo para determinar seu custo.

Ao comprar uma ficha um jogador só pode escolher dentre as cores amarela, azul, laranja, roxa ou vermelha, e, ao reservar uma carta, ganha uma ficha cinza. Um jogador ganha uma ficha verde assim que joga sua primeira carta de Nível 3; cada jogador só poder ter uma ficha verde, e elas nunca são usadas para pagar pelo custo das cartas - fichas verdes contam para o limite de 10 fichas na reserva ao fim do turno, mas não podem ser devolvidas caso o jogador tenha mais de 10. Algumas cartas possuem em seu topo, junto ao valor e à joia que produz, símbolos dos Vingadores; quando um jogador tiver três símbolos somando todas as cartas em sua área de jogo, pegará o cartão Avante Vingadores, que, a partir de então, ficará sempre com o jogador que tiver mais símbolos, mudando de jogador cada vez que um somar mais, e valendo 3 pontos ao final da partida para quem estiver com ele quando a pontuação final for somada. O jogo termina quando um jogador obtém a Manopla do Infinito, o que ocorre quando ele soma 16 pontos e tem pelo menos uma joia de cada cor (valendo as joias das cartas para determinar isso, não somente as das fichas). Quando um jogador obtém a Manopla do Infinito, cada um joga mais um turno até que seja a vez do primeiro de novo, e então ganha quem tiver mais pontos, com o primeiro critério de desempate sendo ter em sua posse o cartão Avante Vingadores - e então quem jogou menos cartas e quem tem mais locais, como no jogo original.

A segunda versão temática, lançada originalmente na Coreia do Sul em 2023 pela Korea Board Games, seria Splendor Pokémon, que substitui as artes das cartas por arte reciclada de Pokémon, os nobres por Treinadores, e as gemas por Pokébolas. Mais uma vez, o objetivo é reunir um time de Pokémons capaz de enfrentar os principais treinadores do mundo - o que nunca fica muito claro usando as mecânicas do jogo. Curiosamente, Splendor Pokémon jamais foi lançado oficialmente nem na Europa, nem nos Estados Unidos, nem no Brasil, e nem, acreditem ou não, no Japão - as únicas versões que existem são a original coreana e uma chinesa, lançada pela Space Cowboys na China em 2024.

Assim como Splendor Marvel, Splendor Pokémon possui pequenas alterações nas regras. São 40 fichas de Pokébola, sendo 7 de cada nas cores vermelha (Pokéball), azul (Superball), preta (Hyperball), rosa (Healball) e amarela (Ultraball) e 5 na cor roxa (Masterball), que atua como curinga. As cartas são 90, sendo 35 de Nível 1, 30 de Nível 2, 15 de Nível 3, 5 cartas raras e 5 cartas lendárias. Há apenas 4 fichas de Treinador (Ash, Brock, Misty e Team Rocket), e 1 marcador de jogador inicial. As cartas raras e lendárias formam dois montes de compra acima das de Nível 3, mas apenas uma carta de cada baralho é aberta na mesa; cada jogador já começa com o Treinador que preferir, com os demais voltando para a caixa. Fichas roxas só podem ser obtidas ao reservar uma carta; cartas raras e lendárias jamais podem ser reservadas, e, para jogá-las, é obrigatório ter pelo menos uma ficha roxa.

Mas a principal regra nova é a da evolução: algumas cartas têm em seu topo, junto ao valor e às Pokébolas que produz, a imagem de um outro Pokémon. Se a carta desse Pokémon estiver aberta sobre a mesa, ou o jogador a tiver reservado, e ele puder pagar por seu custo, ao final de seu turno, sem contar como uma ação, ele poderá pagar o custo para jogar a carta do Pokémon de nível mais alto, colocando-a no lugar do de nível mais baixo em sua área de jogo e colocando a carta do de nível mais baixo com a face virada para baixo sob seu cartão de Treinador - cartas com a face virada para baixo estão fora de jogo, não valendo pontos ou produzindo Pokébolas, mas a quantidade de cartas sob o cartão de treinador é o primeiro critério de desempate caso o jogo termine empatado. Para acionar a rodada final é preciso somar 18 pontos, e, curiosamente, o segundo e último critério de desempate é quem tiver jogado mais cartas, e não menos. Os Treinadores são somente cosméticos, não tendo custo nem valendo pontos.

Para terminar, Splendor teria uma versão para dois jogadores, lançada em 2022 pela Space Cowboys (e pela Galápagos) chamada Splendor Duel, criada por Bruno Cathala, de Kingdomino e Cleopatra and the Society of Architects. Os componentes são 25 fichas (4 de cada nas cores azul, branca, verde, preta e vermelha, 3 amarelas e 2 cor de rosa, que representam pérolas), 67 cartas (30 de Nível 1, 24 de Nível 2, 13 de Nível 3), 4 cartas de realeza, 1 peça de vitória, 3 pergaminhos de privilégio, 1 tabuleiro e 1 bolsa. Durante a preparação, são abertas 5 cartas de Nível 1, 4 de Nível 2 e 3 de Nível 3. O tabuleiro é colocado abaixo das cartas; as fichas são colocadas na bolsa, misturadas, e então sorteadas e colocadas no tabuleiro começando pela casa central e seguindo a ordem das setas. O tabuleiro também tem espaços para os privilégios; o jogador que não for começar a partida escolhe um e o pega para si. As cartas de realeza substituem os cartões de nobre; as fichas e cartas são menores que as do jogo normal, com o intuito de que Splendor Duel seja portátil.

Cada jogador só pode escolher três ações em sua vez de jogar: comprar fichas, reservar uma carta ou jogar uma carta. Ao comprar fichas, o jogador pode comprar até três, desde que elas estejam em casas adjacentes no tabuleiro, na horizontal, na vertical ou na diagonal. Um jogador não pode comprar ouro, mas pode comprar pérolas; toda vez que um jogador compra três fichas de uma vez ou duas pérolas, o oponente pega um privilégio, se ainda houver algum disponível. Reservar uma carta segue as mesmas regras do jogo normal, mas um jogador só pode reservar uma carta se houver uma ficha de ouro no tabuleiro. Jogar uma carta também segue as mesmas regras do jogo normal, mas algumas cartas possuem habilidades especiais (como "jogue outro turno assim que esse terminar" ou "pegue uma ficha do oponente"). Algumas cartas têm como custo outra carta, ou seja, esse custo não pode ser pago com fichas, e algumas cartas são curingas, com o jogador escolhendo uma das cores das cartas que jogou anteriormente ao jogá-las, e elas produzindo gemas dessa cor até o fim do jogo. Nenhuma carta, porém, produz pérolas, o que significa que sempre será necessário ter uma ficha de pérola para pagar um custo de pérola. Fichas usadas para pagar por custos são devolvidas para a bolsa, e não para o tabuleiro.

Algumas cartas também possuem, em seu topo, símbolos de coroa. Um jogador que tenha 3 coroas deve escolher e pegar uma carta de realeza, pegando uma segunda carta quando tiver 6 coroas; além de valer pontos, cada carta de realeza também tem uma habilidade especial. A qualquer momento durante seu turno, como uma ação livre, um jogador pode devolver um privilégio para pegar uma ficha qualquer do tabuleiro, ou reabastecer o tabuleiro, pegando novas fichas da bolsa e as colocando nos espaços vazios. Um jogador não pode reabastecer o tabuleiro se a bolsa estiver vazia, e, se em sua vez de jogar, ele não puder realizar nenhuma das três ações, deverá obrigatoriamente reabastecer o tabuleiro. Para ganhar o jogo, um jogador deve ter 20 pontos no total, 10 pontos em cartas da mesma cor (contando as curingas, se houver) ou 10 coroas, com o jogo terminando imediatamente assim que um desses três requisitos (listados na ficha de vitória) é alcançado.

Splendor Duel tem uma expansão, Splendor Duel: The Counterfeiters, lançada em 2026, cujos componentes são 4 fichas de gemas falsas (de cor roxa), 8 novas cartas de realeza e 15 novas cartas, 5 de cada Nível. As gemas falsas são usadas para pagar pelo custo das novas cartas, que possuem novas habilidades exclusivas.
Ler mais

sábado, 29 de agosto de 2026

Escrito por em 29.8.26 com 0 comentários

Edgar Wallace

Eu adoro filmes antigos, principalmente de terror e ficção científica. Isso faz com que eu descubra sem querer umas coisas interessantes, como, por exemplo, que existe uma série de filmes alemães da década de 1960 baseados nos livros de um escritor britânico chamado Edgar Wallace. De fato, eu achei isso tão interessante que decidi pesquisar mais sobre o assunto, e acabei ficando com vontade de escrever um post. Assim, hoje é dia de Edgar Wallace no átomo!

Richard Horatio Edgar Wallace nasceu em 1 de abril de 1875 em Greenwich, Inglaterra. Sua mãe, Mary Jane Richards, cujo sobrenome de solteira era Blair, morava em Londres, vinha de uma família ligada ao teatro, e trabalhou como cenografista, contra-regra, lanterninha e, se necessário, atriz, até se casar com Joseph Richards, um capitão da Marinha Mercante. Mary viveu uma vida boa durante um ano, até que, quando ela estava grávida de seu primeiro filho, Joseph morreu no mar, deixando-a na miséria. Após o nascimento da criança, ela decidiria tentar uma carreira de atriz, usando o nome Polly Richards, e acabaria conhecendo Alice Marriott, dona de um teatro e filha do famoso ator, compositor, músico, dramaturgo, entalhador, optometrista e vendedor de livros James Henry Marriott. Elas se tornariam amigas, e, em 1872, Mary seria apresentada ao marido de Alice, Richard Edgar, e a seus três filhos adultos, Grace, Adeline e Richard Horatio, cada um de um casamento anterior diferente.

Richard Horatio Marriott Edgar também era ator e, durante uma festa após o lançamento de uma peça, ele e Mary tiveram um encontro sexual dentro de um armário do teatro, que resultou em sua gravidez. Envergonhada, ela inventaria um compromisso em Greenwich, e ficaria lá, hospedada em uma pensão, até o filho nascer, quando pediria à parteira que encontrasse uma família para adotá-lo. A parteira a apresentaria a uma amiga, Clara Freeman, de 20 anos de idade, que já tinha dez filhos mas não se importava em ter onze, e, assim, o pequeno Richard Horatio, batizado com o mesmo nome do pai, seria adotado pelos Freeman enquanto Mary retornava a Londres e à carreira de atriz, sem contar ao Richard Horatio pai que ele agora era pai. Mary jamais visitou o filho enquanto ele era criança, mas enviava dinheiro para os Freeman sempre que podia.

George e Clara Freeman, apesar de pobres, sempre fizeram questão de que Richard tivesse a melhor educação possível, e usavam o dinheiro que Mary enviava exclusivamente para isso; ao contrário de seus irmãos adotivos, ele estudaria em uma escola particular, em regime de internato, até os 12 anos de idade. Na adolescência, ele decidiria trabalhar para ajudar seus pais adotivos, conseguindo um emprego como entregador de leite, do qual foi mandado embora por roubar dinheiro. Em seguida, ele trabalharia vendendo jornais, numa fábrica de borracha, como assistente de sapateiro e cozinheiro de um navio, até se alistar no exército, aos 19 anos, dando o nome fictício de Edgar Wallace, obtido combinando o sobrenome de seu pai biológico com o do autor de Ben-Hur, Lee Wallace - nos documentos, seu nome era Richard Horatio Freeman. Ele primeiro seria enviado para servir na África do Sul, em 1896, sendo transferido após um ano para o Corpo Médico, do qual não gostava, usando sua experiência como vendedor de jornais para convencer seus superiores a transferi-lo para a Imprensa Militar.

Enquanto estava na África do Sul, Wallace conheceria o autor Rudyard Kipling, na Cidade do Cabo, em 1898, e decidiria ele também arriscar escrever poemas e canções; seu primeiro livro, The Mission that Failed!, seria publicado ainda naquele ano. Em 1899, após três anos, ele se cansaria da vida militar e pediria baixa para se dedicar integralmente a escrever, conseguindo, novamente graças à sua experiência, um posto como correspondente, primeiro para a Agência Reuters, e, em 1900, para o jornal Daily Mail. Em 1901, ele se casaria com Ivy Maude Caldecott, filha de um missionário que era fortemente contra a união; ela engravidaria pouco após o matrimônio, mas sua primeira filha, Eleanor Clare Wallace, faleceria repentinamente de meningite em 1903. Depois desse evento, o casal decidiria deixar a África e retornar à Inglaterra, se estabelecendo em Londres.

Pouco após o retorno de Wallace à Inglaterra, Mary, aos 60 anos de idade, sofrendo de câncer e vivendo novamente na miséria, ficaria sabendo e procuraria o filho para pedir dinheiro, mas ele, com raiva, a mandaria embora; ela faleceria naquele mesmo ano, na enfermaria de um hospítal público. O Richard Horatio pai ficaria sabendo da existência do filho pouco antes do falecimento de Mary, mas jamais o procuraria nem seria procurado.

Wallace continuaria trabalhando para o Daily Mail, escrevendo histórias de mistério em seu tempo livre para complementar a renda da família, que cresceria rapidamente, com o nascimento de Bryan Edgar Wallace em 1904 e o de Patricia Hellier Wallace em 1908. Entre os dois, ele publicaria The Four Just Men, de 1905; nenhuma editora aceitaria a publicação, e ele convenceria o dono do Daily Mail, Alfred Hamsworth, a lhe emprestar dinheiro para que ele criasse a sua própria, que chamaria de Tallis Press. O livro seria um grande fracasso, o Daily Mail teria um enorme prejuízo, e, em 1907, Wallace se tornaria o primeiro repórter a ser demitido pelo jornal, não conseguindo emprego em nenhum outro devido à sua reputação, com Ivy tendo de vender as joias de sua família para conseguir comprar comida.

Antes de ser demitido, entretanto, Wallace seria enviado como correspondente ao Congo Belga, onde escreveria uma série de reportagens sobre as atrocidades cometidas pelos colonizadores contra o povo local. Em 1910, a editora da revista Weekly Tale-Teller, Isabel Thorne, o convidaria para escrever uma série de histórias inspiradas por essa experiência. Wallace reuniria essas histórias no livro Sanders of the River, publicado em 1911 pela Tallis com um empréstimo de Thorne. Dessa vez, o livro seria um gigantesco sucesso, com sua renda conseguindo pagar não somente o empréstimo, mas também quitar todas as dívidas de Wallace. Ele aproveitaria o momento e escreveria nada menos que 11 outros livros sobre o assunto, o que permitiria que sua família vivesse confortavelmente durante anos.

O sucesso dos livros reabilitaria Wallace como jornalista, e ele coseguiria emprego na revista Week-End e nos jornais Evening News e Birmigham Daily Post, sendo enviado por esse último como correspondente na Primeira Guerra Mundial. Em 1916, nasceria seu terceiro filho, Michael Blair Wallace; se sentindo abandonada pelo marido, Ivy pediria o divórcio e a guarda das crianças em 1918. Wallace se casaria novamente em 1921 com Ethel Violet King, sua secretária no Birmigham Daily Post e filha de um banqueiro; em 1923, nasceria a primeira filha do casal, Margaret Penelope June Wallace, conhecida como Penny. Na época, Wallace já não tinha mais nenhum problema financeiro, e decidiria voltar a escrever histórias de mistério, que considerava sua grande paixão. Ele conseguiria um contrato com a editora Hodder e Stoughton, que faria toda uma campanha promocional na qual ele era chamado de "Rei do Suspense". A primeira coisa que ele compraria com o dinheiro do contrato seria um Rolls-Royce amarelo, que se tornaria uma espécie de marca registrada sua.

A Hodder and Stoughton prometeria publicar tudo o que Wallace escrevesse, e ele escreveria muito - reportagens da época dizem que ele era capaz de escrever um romance de 70 mil palavras em três dias, e que trabalhava em três romances diferentes ao mesmo tempo. Uma pesquisa conduzida em 1928 estimou que um em cada quatro livros lidos no Reino Unido naquele ano havia sido escrito por Wallace. Além das histórias de mistério, ele escreveria ficção científica, peças de teatro e dez volumes de uma obra de não-ficção sobre a Primeira Guerra Mundial - ele só não escrevia histórias de amor, das quais não gostava e que achava não terem apelo junto ao público. Ao todo, ele escreveria 170 romances, 18 peças de teatro e 957 contos, publicados em várias revistas, jornais e coletâneas.

Wallace seria o primeiro escritor de mistério a colocar policiais como protagonistas de suas histórias - até então, todas eram protagonizadas ou por detetives particulares, ou por investigadores amadores no estilo de Sherlock Holmes. Quase todas as suas histórias são independentes, sem sequências ou repetir personagens; quando ele repetia um personagem, jamais fazia a história seguinte dependente das anteriores ou mesmo seguindo uma ordem cronológica, segundo ele, para que nenhum leitor precisasse ler mais nada para entendê-la. Ele também seria o primeiro repórter esportivo do mundo, ao ser convidado pela BBC para falar ao vivo durante o Derby Stakes - as corridas de cavalos, aliás, eram a segunda paixão de Wallace, que durante muitos anos escreveu sobre elas para jornais, se tornando editor dos suplementos de corridas das revistas Week-End e R. E. Walton's Weekly, e mais tarde lançando o Bibury's, um jornal exclusivamente dedicado às corridas de cavalos. Wallace perdeu fortunas apostando nos cavalos, e chegou a ser dono de cavalos de corrida.

Em 1929, as obras de Wallace começariam a ser adaptadas para o cinema, com os direitos sobre 28 delas sendo vendidas apenas naquele ano. Um dos livros de maior sucesso, The Ringer, seria adaptado pela British Lion Film, que, em agradecimento por ele ter dado preferência para que eles adquirissem os direitos, o nomearia Presidente de Honra, com direito a salário mensal, uma quantidade substancial de ações da empresa e uma larga fatia da arrecadação de quaisquer filmes que a British Lion produzisse baseados em suas obras; Wallace também convenceria a British Lion a contratar Bryan, seu filho mais velho, como editor de filmes. No ano seguinte, ele seria apontado Presidente de Honra do London Press Club, que, até hoje, oferece, anualmente, o Prêmio Edgar Wallace de Excelência na Escrita.

Em 1931, Wallace compraria o jornal Sunday News, que estava à beira da falência, passando a escrever ele mesmo uma coluna sobre teatro; ele não conseguiria evitar o pior, entretanto, e o jornal faliria após seis meses. No mesmo ano, ele se candidataria ao Parlamento pelo Partido Liberal, mas não conseguiria se eleger. Enquanto estava em campanha, ele escreveria o roteiro para a adaptação da Gainsborough Pictures de O Cão dos Baskervilles, lançado em 1932, sua primeira experiência como roteirista de cinema.

No final de 1931, ele decidiria aceitar um convite para ser revisor de roteiros do estúdio RKO, indo morar em Los Angeles, Estados Unidos. Um de seus sonhos era que uma de suas obras fosse adaptada por um estúdio de Hollywood, e ele mesmo escreveria os roteiros de The Four Just Men e Mr. J.G. Reeder, mas não conseguiria convencer a RKO a filmá-los. Ele decidiria, então, escrever uma peça de teatro ambientada nos Estados Unidos, mais especificamente na Chicago da Lei Seca; On the Spot seria seu maior sucesso no teatro, é até hoje considerada uma das melhores peças de teatro do início do século XX, e lançaria a carreira de Charles Laughton, ator que interpretava Tony Perelli, o equivalente de Al Capone na peça. Durante a produção, Wallace conheceria por acaso seu meio-irmão por parte de pai, o poeta, dramaturgo e comediante George Marriott Edgar.

Em dezembro de 1931, Wallace assinaria contrato para trabalhar em King Kong. No início de 1932, porém, ele começaria a se queixar de fortes dores de cabeça, sendo diagnosticado com diabetes, com sua condição se deteriorando rapidamente. Violet chegaria a comprar passagem em um navio que fazia a linha de Southhampton a Los Angeles, mas, enquanto ela estava a caminho, Wallace entraria em coma e faleceria, aos 56 anos, em 10 de fevereiro de 1932, em um hospital em Beverly Hills. Ela levaria o corpo de volta à Inglaterra, onde ele seria sepultado em Buckinghamshire. Violet faleceria em abril de 1933, aos 33 anos, apenas 14 meses após o marido, segundo muitos, de desespero ao não conseguir lidar com gigantescas dívidas deixadas por ele - apesar de todo o dinheiro que recebia pelas vendas e adaptações de suas obras, após sua morte se descobriria que Wallace estava profundamente endividado, e que sua viagem aos Estados Unidos havia sido uma cartada final para tentar obter dinheiro e saldar essas dívidas.

De todos os seus filhos, somente Penny Wallace se interessaria por manter viva a obra do pai, se tornando ela mesma uma bem sucedida autora de mistério e fundando, em 1969, junto com seu marido, George Halcrow, com quem se casou em 1955, a Edgar Wallace Society, dedicada à preservação e gerenciamento do espólio literário de seu pai. Atualmente, a Edgar Wallace Society possui membros e escritórios em 20 países, e é presidida, desde 1997, ano de falecimento de Penny Wallace, por sua filha, Penelope Halcrow, com os direitos sobre todas as obras de Edgar Wallace pertencendo à agência A.P. Wyatt, de Londres.

Ao longo dos anos, mais de 160 filmes seriam feitos adaptando as obras de Edgar Wallace para o cinema; as que nos interessam, entretanto, são as produzidas na Alemanha Ocidental entre 1959 e 1972. Esses filmes ficariam conhecidos coletivamente como Krimi, abreviação de Kriminalfilm, algo como "filmes de criminosos", em alemão.

Os primeiros filmes alemães baseados nas obras de Wallace seriam produzidos ainda na época do cinema mudo, com o primeiro de todos, Der große Unbekannte, baseado no romance The Unknown, sendo filmado em 1927. As histórias de Wallace seriam consideradas "fáceis de filmar", pois sua trama principal poderia ser reduzida a poucos personagens e todos os cenários poderiam ser reproduzidos em estúdio, sem a necessidade de externas; isso faria com que, nos anos seguintes, vários estúdios alemães se interessassem em adquirir os direitos, com o próprio Wallace visitando os sets de filmagem da produção seguinte, Der rote Kreis (adaptação de The Crimson Circle), lançada em 1929, que também ganharia intertítulos em inglês e seria exibido em Londres. Pelo menos outros cinco filmes seriam produzidos nos anos seguintes, com o primeiro com som sendo Der Zinker (adaptação de The Squeaker), de 1931; em meados da década de 1930, porém, filmes envolvendo crimes perderiam popularidade na Alemanha, o que levaria a um hiato de 25 anos sem filmes baseados nas obras de Wallace após Der Doppelgänger (adaptação de The Double), de 1934.

Somente em meados da década de 1950, já na época da Alemanha Ocidental, a recém-fundada distribuidora Constantin Film entraria em contato com Penny Wallace e se diria interessada em voltar a fazer adaptações das obras de Edgar Wallace para o mercado alemão; filmes de crime e mistério, entretanto, ainda eram considerados de alto risco naquele país, devido ao baixo público, o que faria com que nenhuma produtora se interessasse em firmar uma parceria com a Constantin. Ainda acreditando que os filmes teriam mercado e seriam um grande sucesso, o dono e um dos fundadores da Constantin, o alemão Waldfried Barthel, decidiria empenhar grande parte de seus bens e abrir seu próprio estúdio - ou quase.

Barthel havia fundado a Constantin Film em 1950 junto com o dinamarquês Preben Philipsen, cujo pai, Constantin Philipsen - por isso o nome da distribuidora era Constantin Film - era dono de um estúdio de cinema em Copenhague, Dinamarca, chamado Rialto Film - cujo nome veio da área central da cidade de Veneza, na Itália, e o simbolo era uma gôndola. Pouco se sabe sobre a história da Rialto, que, na época em que Constantin Philipsen era vivo, produziu apenas filmes mudos, e, após sua morte, permaneceu aberta por pura inércia, produzindo pouquíssimos filmes que rendiam muito pouco. Em 1955, Preben Philipsen deixaria a Constantin para tentar reerguer a Rialto, e, em 1959, Barthel o procuraria dizendo ter negociado os direitos para adaptar as obras de Wallace, mas não ter nenhum estúdio alemão interessado. Philipsen decidiria embarcar na ideia do amigo, mas não tinha dinheiro, de forma que o próprio Barthel teve de financiar o filme, com a Rialto fornecendo apenas os equipamentos e mão de obra.

Felizmente para os dois, seu primeiro filme de Wallace seria um sucesso tão grande que não somente pagaria as dívidas de Barthel, mas também ajudaria a alavancar a Rialto, com Philipsen em 1960 fechando o estúdio em Copenhague e abrindo um em Frankfurt, o Rialto Film GmbH, para ficar mais fácil produzir filmes para o mercado alemão, do ponto de vista contábil e trabalhista. Nos anos seguintes, a Rialto se tornaria um dos principais estúdios da Alemanha Ocidental, produzindo não somente os filmes de Wallace, mas também uma série de filmes baseados nas obras do autor alemão Karl May, todos dirigidos pelo austríaco Harald Reinl, que ficaria famoso justamente com os filmes de Wallace. A Rialto existe até hoje, produzindo principalmente filmes para o mercado alemão, alguns deles de muito sucesso.

O primeiro filme de Wallace produzido pela Rialto seria Der Frosch mit der Maske (adaptação de The Fellowship of the Frog), de 1959. Dirigido por Reinl e estrelado por Siegfried Lowitz e Joachim Fuchsberger, o filme custaria 600 mil marcos alemães e renderia mais de um milhão, se tornando o filme alemão de maior público desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Apesar de filmado em Copenhague, o filme é falado em alemão, com a totalidade dos atores sendo alemães; o roteiro, por outro lado, é extremamente fiel ao livro, apenas retirando alguns personagens por questões de ritmo da história e adicionando um alívio cômico, interpretado por Eddie Arens, o que significa que a história é ambientada na Inglaterra - com algumas imagens de Londres sendo usadas para ambientação - e os nomes de todos os personagens são em inglês.

Esse seria o padrão em todos os filmes de Wallace produzidos pela Rialto: roteiro fiel ao livro, ambientação na Inglaterra, nomes dos personagens em inglês, mas com elenco alemão e falados em alemão - com, a partir do segundo, Der rote Kreis, de 1960, eles sendo filmados em Frankfurt ou Berlim. Entre 1959 e 1965, seriam produzidos vinte filmes baseados nas obras de Wallace pela Rialto, todos em preto e branco; esses filmes ficariam conhecidos como "Era dos Krimi em preto e branco", pois, além das características em comum entre todos os filmes de Krimi, contavam quase sempre com o mesmo elenco: Fuchsberger normalmente era o protagonista, Arens era sempre o alívio cômico, e a protagonista feminina costumava ser uma das "duas Karins", Karin Baal ou Karin Dor.

Como sempre costuma acontecer, o sucesso dos filmes da Rialto levaria outras produtoras a investir em produções semelhantes; pouco após o lançamento de Der Frosch mit der Maske, a Kurt Ulrich Filmproduktion negociaria os direitos do livro The Avenger, lançando o filme Der Rächer em 1960, pouco depois de Der rote Kreis. Para que isso não voltasse a acontecer, ainda em 1960 a Constantin Film firmaria com Penny Wallace um contrato segundo o qual eles teriam preferência de adaptação sobre todas as obras de Wallace, com ela somente podendo negociar os direitos com outra produtora daqueles que eles especificamente dissessem que não tinham interesse - e eles, obviamente, apesar de não adaptar todos, jamais disseram expressamente que não tinham interesse em algum. Assim, a saída para as demais produtoras era fazer "filmes ao estilo de Wallace", que lembrassem as histórias do escritor, mas fossem roteiros originais, escritos por roteiristas alemães - curiosamente, ainda assim, ambientados na Inglaterra e com o nome dos personagens em inglês, para manter o estilo.

As mais bem sucedidas dessas "imitações" seriam as da CCC Film, do polonês Artur Brauner, que, em meados da década de 1960, chegariam a rivalizar em público com as da Rialto. Além da Kurt Ulrich, a CCC seria a única produtora a conseguir adaptar oficialmente duas obras de Wallace, graças a um acordo com a Constantin Film, que as distribuiria e ganharia uma gorda fatia da bilheteria: Der Fluch der gelben Schlange (adaptação de The Yellow Snake), de 1963, e Der Teufel kam aus Akasava (adaptação de Keeper of the Stone), de 1971, dirigida pelo espanhol Jesús Franco.

A Rialto venderia seus filmes para dublagem e exibição em outros países europeus, e, embora não tenham conseguido repetir o sucesso da Alemanha Ocidental, no Reino Unido eles também teriam bom público. Isso levaria o produtor Harry Alan Towers, dono da Hallam Productions, a procurar a Constatin Film, inicialmente para descobrir se o contrato de exclusividade deles só valeria para a Alemanha Ocidental ou cobriria toda a Europa. A conversa acabaria evoluindo para um acordo segundo o qual a Hallam faria co-produções anglo-germânicas, com elenco predominantemente britânico, de algumas obras de Wallace, que então estreariam tanto no Reino Unido quanto na Alemanha Ocidental, com a Constantin ficando com a renda alemã. Os dois primeiros desses filmes não seriam Krimi, e sim adaptações de Sanders of the River, mas depois eles fariam outros dois que merecem ser citados: o primeiro, de 1966, uma adaptação de Again the Three Just Men, cujo título no Reino Unido era Circus of Fear, e em alemão era Das Rätsel des silbernen Dreieck, se tornaria o mais famoso filme de Wallace nos Estados Unidos, onde foi lançado com o título Psycho-Circus; e o segundo, Five Golden Dragons, de 1967, usava elementos de vários contos de Wallace e foi filmado em Hong Kong, trazendo um elenco estelar que contava, dentre outros, com Rupert Davies, Margaret Lee, que cantava duas canções no filme, e Bob Cummings, em seu último papel antes de falecer.

A partir de 1966, a Rialto inauguraria a "Era dos Krimi a cores", com Der Bucklige von Soho (adaptação de The Hunchback of Soho), dirigido por Alfred Vohrer. Com cores vibrantes e um tom mais cômico que os em preto e branco, os filmes a cores costumavam, após um pequeno trecho para ambientar a história, começar com uma gravação da voz de Wallace que dizia "hallo, ich bin Edgar Wallace" ("olá, eu sou Edgar Wallace"), seguido do som de tiros de metralhadora que formavam a frase "Edgar Wallace's" na tela, antes do título do filme e dos créditos. Ainda contando em sua maioria com Fuchsberger, Arens e as Karins, os filmes a cores também costumavam ter no elenco o famoso ator Klaus Kinski, normalmente no papel de um vilão, e trazer um personagem recorrente (que não estava nos livros), o atrapalhado Sir John, inspetor da Scotland Yard, interpretado por Siegfried Schürenberg, que costumava estar acompanhado por sua muito mais competente e belíssima secretária Miss Finley, interpretada por Ilse Pagé. Ao todo, a Rialto produziria sozinha dez filmes de Wallace a cores entre 1966 e 1971.

"Sozinha" porque, depois que começasse a produção dos filmes a cores, por pura coincidência, o interesse do público alemão em filmes de crime e mistério voltaria a diminuir, com o próprio tom mais cômico dos filmes a cores sendo uma tentativa de atrair mais público. A Rialto, entretanto, repararia que, na Itália, ao contrário do que vinha acontecendo na Alemanha Ocidental, o público dos filmes de Krimi vinha aumentando cada vez mais, e, assim, propôs uma parceria à italiana Colt Produzioni Cinematografiche: os custos da produção seriam divididos entre as duas empresas, mas o rendimento da bilheteria também, e os filmes poderiam ter elenco e profissionais alemães e italianos.

A primeira produção dessa parceria seria A Doppia Faccia, adaptação de Puzzle of Horrors, lançado na Alemanha como Das Gesicht im Dunkeln, em 1969. Dirigido pelo famoso Riccardo Fredda, já em final de carreira, e com roteiro inicialmente desenvolvido por uma lenda do cinema italiano, Lucio Fulci - que, em entrevistas, diria na verdade ter escrito o roteiro, creditado a Fredda e Paul Hengge - o filme era protagonizado pelo alemão Kinski e pela italiana Annabella Incontrera, e seria um grande sucesso, enchendo os caixas da Colt e da Rialto. Infelizmente, durante as filmagens, Horst Wendlandt, produtor da Rialto, se desentenderia com Oreste Coltellacci, produtor da Colt, e o primeiro acabaria sendo também o último filme da parceria. Sua renda permitiria que a Rialto produzisse mais um filme, Die Tote aus der Themse, adaptação de The Body in the Thames, lançado em 1971, mas que, novamente com pouco público, acabaria sendo a última adaptação de Wallace feita na Alemanha Ocidental.

Curiosamente, em 1972 a Rialto seria procurada por duas produtoras italianas, a Italian International Films S.r.l. e a Clodio Cinematografica, que se diriam interessadas em uma parceria para a produção de um filme de Giallo, estilo de suspense muito popular na Itália na época. A Rialto aprovaria o projeto, firmaria a parceria, e até conseguiria um contrato para que o filme fosse distribuído na Alemanha Ocidental pela Constantin. Com o título de O Que Vocês Fizeram com Solange?, Fuchsberger e Baal no elenco, o filme de fato seria lançado na Itália como um Giallo, obtendo grande sucesso - mas na Alemanha seria não somente lançado como um Krimi, mas, por ideia de Constatin, promovido como "um filme de Edgar Wallace". Solange seria um sucesso inesperado, e levaria a Rialto a procurar outra produtora italiana, a Flora Film S.r.l., para fazer outro filme no mesmo estilo, com elenco italiano e alemão, filmado na Alemanha e na Itália, lançado na Itália como um Giallo e na Alemanha como um Krimi.

Penny Wallace, entretanto, não ficaria nada satisfeita com o uso do nome de seu pai para promover um filme de Giallo - estilo no qual uma das características era a sensualidade, com Solange sendo cheio de cenas com mulheres nuas, algo que jamais estava presente nas histórias de Wallace - e romperia o contrato com a Constantin, que decidiria não se envolver no projeto. Assim, Sete Orquídeas Manchadas de Sangue, também de 1972, seria distribuído em toda a Europa pela Variety Distribution - que, mais uma vez, o promoveria como "um filme de Edgar Wallace". Dessa vez, porém, a bilheteria ficaria muito abaixo do esperado, e, talvez não querendo mais confusão com Penny Wallace, a Rialto desistiria dessas parcerias, passando a investir em outros estilos de filme.
Ler mais