sábado, 23 de maio de 2026

Escrito por em 23.5.26 com 0 comentários

Sweet Lullaby

Hoje eu vou fazer um post diferente. É um post sobre música, mas não sobre um cantor, cantora ou banda, e sim sobre uma música específica. O motivo é que eu escrevo meus posts principalmente para descobrir e divulgar boas histórias, e essa tem uma história interessantíssima. Durante muito tempo tive vontade de escrever sobre ela, mas não queria usar meu expediente usual, que seria falar sobre o grupo que a lançou e colocar sua história no meio, porque eu não sou fã nem do grupo, nem da música, nem do que fizeram para gravá-la, só queria mesmo contar a história. Hoje, como eu costumo dizer, a vontade venceu, e eu vou escrever só sobre essa música, para que essa história seja divulgada e mais gente a fique conhecendo. Espero que vocês gostem.

Segundo informações colhidas enquanto eu escrevia esse post, essa música foi lançada em 1992 - quando eu estava na oitava série, e meus artistas preferidos eram INXS e Mariah Carey - e se tornou um sucesso mundial em 1994 - quando eu tinha 16 anos e já preferia Tori Amos e The Smiths. Pelo que eu me lembre, entretanto, eu não a conheci nessa época, e sim bem depois, já no início dos anos 2000, quando começaram a se popularizar programas para download de música, tipo o Napster e o Audio Galaxy. Na época, eu usava o Audio Galaxy para baixar todas as músicas que eu gostava e não tinha em nenhum CD que eu havia comprado, principalmente músicas internacionais dos anos 1980; além disso, acredito que, assim como muita gente da época, quando eu ouvia no rádio ou na MTV uma música de um artista que eu não conhecia e da qual eu gostasse, ao invés de comprar o CD desse artista, baixava somente aquela música, às vezes mais algumas dele, e muitas vezes acabava comprando de fato o CD.

Antes que eu digressione demais, foi nessa época que eu comecei a ouvir essa música e a prestar atenção nela - não me lembro de que forma, se pelo rádio, pela MTV, ou porque ela estava na trilha sonora de algum programa que eu assistia, mas me lembro que a primeira coisa que me chamou a atenção foi que ela não era cantada em inglês. Nem em nenhuma outra língua que eu conhecesse. Como é uma música bonitinha, e desde essa época eu já tinha uma tendência em gostar do que é exótico - foi também nessa época que eu descobri a existência e comecei a baixar as músicas da Jolin Tsai - decidi tentar descobrir qual era o nome dessa música e quem a cantava, para baixá-la também. Não me perguntem como, porque eu não me lembro, mas descobri que a música se chama Sweet Lullaby ("doce canção de ninar", em inglês), e quem a "cantava" era o Deep Forest. Baixei a música, ouvi algumas vezes, e praticamente me esqueci dela - de vez em quando ela tocava quando eu colocava meu MP3 Player no aleatório, mas, como eu disse, não tinha nenhum carinho especial nem por ela, nem pelo Deep Forest, do qual eu acho que não conheço nenhuma outra música.

Na minha ignorância de 20 e poucos anos, aliás, eu achava que o Deep Forest era um grupo de música eletrônica tipo, sei lá, os Sneaker Pimps, composto por uns dois caras que tocassem instrumentos variados e uma mulher que cantasse, escolhendo, por qualquer motivo, cantar essa música nessa língua desconhecida. A verdade, entretanto, eu só descobriria recentemente: no final de 2024, eu entrei numa brincadeira "1 like = 1 música", mas, ao invés de simplesmente postar músicas das quais eu gostasse, decidi que, para cada like, eu postaria uma música que eu conheço que não fosse cantada nem em português, nem em inglês. Ao fazer uma lista mental de todas as músicas que eu conhecia que preenchessem esses requisitos, me lembrei de Sweet Lullaby. E aí, num momento sem mais o que fazer, decidi pesquisar que língua seria aquela, e por que a música é cantada nela. E acabei descobrindo a história bizarra que vou compartilhar com vocês agora.

Pra começar, eu estava parcialmente certo: o Deep Forest é um grupo - ou melhor, um "projeto" - de música eletrônica, de origem francesa. Só que, no início, eles eram uma dupla, formada por Michel Sanchez e Éric Mouquet; Sanchez sairia em 2005 e começaria carreira solo, com Mouquet se apresentando até hoje usando o nome Deep Forest. A ideia do projeto seria de Sanchez, que, em 1992, ouviria uma gravação de pessoas da tribo Baka, composta por pigmeus que vivem no que hoje corresponde a Camarões e Gabão, conversando, e decidiria unir suas palavras a uma música eletrônica do estilo conhecido como World Music. Ele chamaria Mouquet para ajudá-lo, e os dois escolheriam o nome Deep Forest, que, segundo Mouquet, era a junção do nome da banda Deep Purple com rainforest, "floresta tropical" em inglês. Segundo Sanchez, o objetivo da dupla era criar músicas no estilo que, desde a década de 1980, vinha sendo chamado de ethinc electronica, por combinar melodias modernas a letras e estilos tradicionais de fora do mainstream, como o kuduro de Angola, a cumbia mexicana e a chalga da Bulgária, mas com batidas mais calmas e introspectivas, ao invés das batidas dançantes comuns a esse estilo.

O primeiro álbum do Deep Forest, também chamado Deep Forest, seria lançado na Europa, pela gravadora 550 Records, em 1992, e logo faria um enorme sucesso, vendendo 3,5 milhões de cópias no mundo inteiro, entrando para o Top 20 dos mais vendidos no Reino Unido, chegando à posição 59 da parada da Billboard e sendo indicado ao Grammy de Melhor Álbum de Música Global - que perdeu para A Meeting by the River, do norte-americano Ry Cooder com o indiano Vishwa Mohan Bhatt. Sweet Lullaby seria sua segunda música de trabalho, se tornando um sucesso nas rádios do mundo inteiro, elogiada por quase a totalidade da crítica. Seu clipe, dirigido por Tarsem Singh, mostrava uma menina viajando o mundo de triciclo, e receberia quatro indicações ao MTV Video Music Awards.

Durante muito tempo, foi noticiado erroneamente que as palavras que a mulher cantava em Sweet Lullaby eram de alguma língua dos pigmeus africanos; essa confusão veio do fato de que, conforme o álbum fazia mais e mais sucesso, Sanchez e Mouquet eram convidados para mais e mais entrevistas, e, em uma delas, Mouquet falou que um de seus principais objetivos ao lançar o álbum era chamar atenção para o que vinha ocorrendo com a tribo Efé, da República Democrática do Congo. Vivendo no interior das florestas do país - o que, inclusive, deu origem a uma teoria de que esse seria o motivo pelo qual a banda se chama Deep Forest - e com mínimo contato com a civilização, os Efé vêm diminuindo em número ano após ano, e sua cultura corre o risco de desaparecer completamente. Segundo Mouquet, ele tinha esperanças de que o álbum pudesse ajudar a reverter essa situação, já que "não é todo dia que você escuta um pigmeu cantando no rádio". A partir dessa declaração, se espalhou uma notícia incorreta de que todas as músicas do álbum eram cantadas por pigmeus, o que, por sua vez, fez com que alguns críticos e jornalistas começassem a questionar como exatamente as vendas do álbum ajudariam os Efé, já que nenhum Efé - nem nenhum pigmeu - havia participado diretamente da produção do álbum, seja como compositor ou cantor.

Os trechos usados por Sanchez e Mouquet, na verdade, não eram todos de pigmeus, tendo sido conseguidos através de gravações feitas pela UNESCO nas décadas de 1960 e 1970 nas regiões africanas do Sahel e do Tibesti, na República Democrática do Congo, no Burundi e nas Ilhas Salomão, único desses locais que não fica na África, mas na Oceania. E é aqui que a história começa a ficar interessante.

Em 1969 e 1970, o antropólogo suíço Dr. Hugo Zemp, do Departamento de Etnomusicologia do Centro Nacional de Pesquisa Científica do Museu do Homem de Paris, viajou para as Ilhas Salomão e gravou músicas tradicionais de várias tribos locais. Essas músicas, parte do acervo do Museu do Homem, seriam selecionadas pela UNESCO e lançadas em 1973 em um LP chamado Solomon Islands: Fateleka and Baegu Music from Malaita, parte de uma série com canções típicas de vários povos indígenas. Em 1990, parte dessa série seria relançada pela gravadora Auvidis em CD, com o nome de Musics and Musicians of the World, com parte da renda da venda revertida para a UNESCO. Tanto o LP quanto o CD se tornaram bem conhecidos entre antropólogos e etnomusicólogos, mas tiveram distribuição limitada, exposição quase nenhuma em rádio e televisão, e suas vendas foram quase insignificantes.

Uma das faixas tanto do LP quanto do CD, que recebeu o nome de Rorgwela, era, segundo o encarte, uma canção de ninar da tribo Baegu, da região norte de Malaita, a principal das Ilhas Salomão, onde hoje vive um terço de toda a população do país, cantada por uma mulher que Zemp identificou apenas como Afunakwa. E seria justamente essa faixa que o Deep Forest usaria para criar Sweet Lullaby.

Não se sabe exatamente como Sanchez e Mouquet descobririam a existência do CD da UNESCO, mas o fato é que eles pegariam a voz de Afunakwa cantando e a colocariam sobre uma batida dance que usava uma bateria eletrônica e um sintetizador; bizarramente, eles também adicionariam instrumentos e ritmos tradicionais, bem como vocalizações ao estiilo yodel, da África Central, sem nada a ver com as Ilhas Salomão. Como a gravação de Afunakwa é curta, com menos de um minuto, eles a repetiriam três vezes; a primeira seria "pura", idêntica à gravação feita por Zemp, mas, na segunda, eles usariam um efeito de multiplicação digital e um coral gravado em estúdio, para parecer que Afunakwa estava cantando acompanhada, e, na terceira, apenas o coral canta - segundo eles, para passar a impressão de que o mundo de Afunakwa começa pequeno, mas vai sendo compartilhado e aumentado até que pertença a todos nós.

É preciso dizer que, em suas mentes, o Deep Forest não estava fazendo nada de errado, muito pelo contrário. Na descrição da dupla em seu site oficial, Sanchez e Mouquet se identificavam como "repórteres do som, um duo musical sem voz, que pega emprestadas vozes de todos os cantos do mundo"; ainda segundo a descrição, "sob sua tutela, falas infinitamente distantes se tornam familiares, hinos de alegria e gritos de raiva, orações e rezas, canções de esperança e desespero, todas foram trazidas para abalar nossas certezas, tomar de assalto nossos sentidos e bagunçar nossas emoções", concluindo com "da África à Europa Oriental, dos pigmeus aos nômades, as visões da humanidade trazidas pelo Deep Forest ajudaram enormemente a estreitar o abismo musical entre os hemisférios". Ou seja, puro altruísmo para que o mundo conhecesse a canção de ninar dos Baegu, dentre outras obras.

No encarte de seu segundo álbum, eles também diriam que possuem o apoio da UNESCO e de "dois musicólogos" cujos nomes eles escreveam errado, o "Dr. Hugo Zempe" e o "Dr. Shima Aron". Simha Arom era um etnomusicólogo britânico que gravou trechos de falas e canções de tribos de pigmeus da África Central, também usadas nas canções de Deep Forest; todo o álbum, aliás, era temático sobre a floresta tropical e os pigmeus, com a introdução da primeira faixa dizendo, em inglês, "em algum lugar nas profundezas da floresta vivem pequenos homens e mulheres; eles são seu passado, e talvez sejam seu futuro". Não se sabe por que em Sweet Lullaby eles decidiriam usar uma gravação das Ilhas Salomão, mas o mais provável é que tenha sido puramente por fins comerciais, já que imaginaram que a música tinha potencial para se tornar um grande sucesso, como de fato se tornou.

Ao contrário do que Sanchez e Mouquet divulgavam, porém, os antropólogos e etnomusicólogos não gostavam de seu trabalho, considerando-o "uma mistura de reverência respeitosa com caricatura primitivista". O público, que desconhecia esse trabalho e, no geral, ainda tinha uma visão estereotipada dos povos "representados" nas canções do Deep Forest, acharia sensacional podermos ouvir as canções dos povos primitivos, ou algo do gênero, e logo faria da dupla um sucesso de vendas, e as grandes marcas, querendo lucrar com isso, também não se importariam se os povos indígenas estavam sendo ou não respeitados, e logo tacariam as músicas do Deep Forest em suas propagandas - Sweet Lullaby, por exemplo, apareceria em comerciais da Neutrogena, Coca-Cola, Sony, The Body Shop, e até mesmo da Porsche.

Em 1996, o Dr. Zemp escreveria um artigo para o Anuário de Música Tradicional, mais importante publicação voltada aos etnomusicólogos, no qual não somente desmentia seu apoio ao Deep Forest como também questionava a legalidade e a moralidade do direito de uso de suas gravações pela UNESCO. Segundo Zemp, em 1992, o chefe da divisão responsável pelo lançamento dos CDs, Noriko Aikawa, entrou em contato com ele dizendo ter sido procurado pela Celine Music, representante do Deep Forest, para obter sua permissão para que a dupla usasse gravações que Zemp havia feito na África, em um projeto ligado ao Dia da Terra. Segundo Aikawa, a UNESCO estaria disposta a ceder as gravações, desde que quem as gravou autorizasse e fosse creditado. Zemp ouviu algumas músicas que o Deep Forest havia enviado como sendo as que combinaria com os trechos, e não somente decidiu negar sua permissão como recomendar que Arikawa procurasse um projeto que beneficiasse diretamente povos indígenas e músicos de origem indígena.

Algum tempo depois, entretanto, Francis Bebey, um conhecido músico e compositor camaronês, autor de um livro sobre música indígena africana, telefonaria para Zemp e o convenceria a autorizar o projeto, alegando que a renda seria destinada à preservação e proteção das florestas tropicais. Zemp autorizaria, e não ouviria mais falar do Deep Forest até o lançamento do álbum, quando a gravadora Le Chant du Monde, responsável pelo acervo de gravações do Museu do Homem, entraria em contato com ele dizendo que Sanchez e Mouquet haviam usado gravações de Zemp sem autorização, mas que ela havia entrado na justiça e conseguido uma reparação financeira através de um acordo extra-judicial. Pouco após esse telefonema, Zemp receberia duas cartas de dois colegas etnomusicólogos de outros países, questionando se ele havia recebido algum dinheiro pelo uso de suas gravações no álbum do Deep Forest. Zemp, curioso, começaria a procurar notícias sobre o desempenho em vendas do álbum, descobrindo que ele era um gigantesco sucesso, e entraria em contato com a 550 Records, convencendo-a a presenteá-lo com uma cópia.

Qual não foi sua surpresa, então, ao ver que nenhuma de suas gravações feitas na África havia sido usada pela dupla, mas que Rorogwela estava lá, completa, sem nenhum crédito a ele ou a Afunakwa, já que ele jamais havia sido perguntado sobre dar sua autorização para o uso de suas gravações das Ilhas Salomão. Após ouvir Sweet Lullaby como música de fundo em um comercial de xampu na televisão francesa, e entender que a música era um fenômeno no mundo inteiro, irado, ele pediria uma reunião com Bebey e Aikawa. Bebey diria ter sido enganado pela Celine Music, que havia lhe dito que seria usado apenas um trecho de 40 segundos gravado por Zemp na África, em um lançamento não-comercial relacionado às comemorações do Dia da Terra. Já Aikawa diria que, após Zemp negar autorização, jamais entraria em contato com a Celine Music novamente, e que o Deep Forest havia agido somente com base em uma carta que Bebey enviou à Celine Music dizendo que Zemp havia mudado de ideia e decidido autorizar, como se essa carta fosse um documento legal autorizando a dupla a usar livremente suas gravações.

Zemp, então, enviaria uma carta ao Deep Forest, exigindo que houvesse uma compensação financeira à tribo Baegu pelo uso de Rorogwela; Sanchez e Mouquet responderiam dois meses depois, alegando que o projeto teve autorização da Auvidis. Enquanto esperava a resposta, porém, Zemp conseguiu uma declaração oficial do diretor da Auvidis, dizendo que realmente recebeu um pedido de autorização por parte da Celine Music, mas que havia informado que Zemp não havia autorizado o uso de suas gravações. Zemp terminaria seu artigo no Anuário dizendo que alguém (ou o Deep Forest, ou a Auvidis) estava mentindo, mas essa parte não seria publicada, sendo cortada pelo editor em uma de suas revisões; esse editor, inclusive, pediria descuplas a Zemp em uma carta, na qual dizia ter cortado a frase por temer ser processado caso a publicasse. Zemp passaria três anos após a publicação do Anuário pedindo esclarecimentos ao Deep Forest e à Auvidis, mas jamais receberia respostas; para piorar a situação, alguns críticos de música chegariam a acusá-lo de querer enriquecer às custas do sucesso do Deep Forest, colocando-os como as vítimas da história e pintando-os como defensores da preservação da música indígena.

Apesar da bizarrice da situação, o Deep Forest jamais foi punido por ter feito sucesso mundial usando a gravação de Zemp ou voz de Afunakwa sem autorização; o máximo que aconteceu foi que a 550 Records ficou com medo de lançar novas tiragens do álbum Deep Forest enquanto as questões de direitos autorais não fossem resolvidas, com o álbum estando fora de catálogo desde 1994, quando a Columbia o relançou com algumas faixas novas e o nome World Mix. Após a história vir à tona, talvez para não ficar feio, Mouquet alegaria que uma porcentagem das vendas do álbum foi revertida para o Pygmy Fund, uma ONG sediada na Califórnia que ajuda tribos de pigmeus da África Central a lidar com ameaças ambientais a suas terras, mas investigações mostrariam que os grupos que tiveram suas vozes usadas nas músicas do álbum não estão dentre os assistidos pelo Pygmy Fund, e a própria ONG declararia que não veria um aumento substancial nas doações que recebeu enquanto o álbum estava à venda.

E Afunakwa? Ninguém sabe quantos anos ela tinha quando a gravação foi feita, nem mesmo se esse era seu nome verdadeiro; o certo é que ela jamais recebeu um centavo por sua voz ter ficado famosa no mundo inteiro. Após Zemp publicar seu artigo, alguns jornalistas chegaram a viajar para as Ilhas Salomão para tentar localizá-la, mas a única informação que obtiveram foi que ela já havia falecido. Hoje, inclusive, existe uma discussão na qual, embora se concorde que o Dr. Zemp foi prejudicado, se estranhe que toda a questão dos direitos autorais passe somente por ele, e não pela mulher que efetivamente deu voz à música, e que talvez tenha sido uma das maiores responsáveis por seu sucesso.

Por incrível que pareça, aliás, Sweet Lullaby não foi a única música na qual Rorogwela foi usada sem autorização: o DJ de música trance italiano Mauro Picotto remixaria a voz de Afunakwa na canção Komodo (Save a Soul), lançada em 2000, e o famoso saxofonista de jazz norueguês Jan Garbarek lançaria uma versão instrumental, como o nome de Pygmy Lullaby ("canção de ninar pigmeia"), no mesmo ano em que Zemp escreveria seu artigo, 1996. O caso de Garbarek é curioso não somente porque ele foi mais um que entrou na confusão de que todas as músicas do álbum Deep Forest eram de pigmeus, mas também porque, não conhecendo o Dr. Zemp, os álbuns da UNESCO ou Afunakwa, ele imaginou que Sweet Lullaby fosse uma composição original do Deep Forest, e entrou em contato com Sanchez e Mouquet para pedir autorização para fazer sua versão.

Por causa da confusão criada pelo artigo de Zemp, contudo, a versão de Garbarek chamou a atenção da comunidade internacional, e outro etnomusicólogo, Steven Feld, foi chamado para dar uma palestra na Noruega sobre o assunto. A produtora Marit Lie, da rádio NRK, estava na plateia, e chamou Garbarek para uma entrevista ao vivo, na qual ela revelou que a canção que ele havia regravado era na verdade uma melodia tradicional dos Baegu. Irado, Garbarek respoondeu que, se a canção pertencia à tradição oral, não havia nada de errado em "um compositor sério" utilizá-la. Querendo pressionar ainda mais a ferida, Lie faria para a NRK um programa especial cujo tema foi a confusão que Garbarek fez entre as Ilhas Salomão e os pigmeus, o que levou o compositor a registrar uma reclamação no órgão norueguês que regula as emissoras de rádio. Em diversas entrevistas posteriores, ele diria ter a convicção de não ter feito nada de errado, mas o órgão que cuida da distribuição dos direitos autorais na Noruega, após a repercussão da história, acabaria determinando que metade dos rendimentos obtidos com direitos autorais de Pygmy Lullaby deveria ir para um fundo de preservação da cultura - mas, como nenhum foi especificado, Garbarek escolheria um fundo de preservação da cultura norueguesa.

Para terminar, vale dizer que o Deep Forest segue na ativa até hoje, tendo lançado seu segundo álbum, Boheme, em 1995; para escapar da polêmica, no segundo eles usariam apenas ritmos do Leste Europeu, contando com a colaboração da cantora húngara Marta Sebestyen e da cantora búlgara Kate Petrova, além da participação especial de Peter Gabriel na faixa While the Earth Sleeps. O terceiro álbum, Comparsas, traria ritmos latino-americanos, com contribuições do francês Abed Azrie, da espanhola Ana Torroja, do austríaco Joe Zawinul e do mexicano Jorge Reyes. O quarto, Music Detected, de 2002, traria parcerias com o indonésio Anggun, a norte-americana Beverly Jo Scott, a japonesa Chitose Hajime e a escocesa Angela McCluskey. Após a saída de Sanchez, Mouquet lançaria o curioso Deep Brasil, com faixas em português, de 2008; Deep India, um dueto com Rahul Sharma, em 2013; e Deep Africa, também de 2013, que traz duetos com vários cantores africanos, como Blick Bassy e Wasis Diop. Depois disso, ele ainda lançaria mais sete álbuns, cinco deles de regravações; os dois mais recentes seriam Crystal Clear, dueto com Olivier Delevingne, de 2024, e Tree of Tranquility, um novo dueto com Rahul Sharma, de 2025.

E, caso alguém esteja curioso: a língua na qual Sweet Lullaby é cantada se chama baegu, e a letra traz uma irmã mais velha consolando um menino pequeno após a morte de seus pais, tendo trechos como "pequeno irmão, pare de chorar", "nós dois somos órfãos agora" e "da Ilha dos Mortos, o espírito deles continuará a olhar por nós" - o que também é bizarro se a gente pensar que algo tão sério e triste virou uma música dance de sucesso mundial.

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