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domingo, 14 de fevereiro de 2021

Escrito por em 14.2.21 com 0 comentários

Flag Football

Se é que alguém ainda não sabe, o futebol americano é meu esporte favorito. Foi o primeiro esporte que virou post aqui no átomo, e de vez em quando eu sinto vontade de falar mais alguma coisa sobre ele, o que já resultou nos posts sobre futebol americano universitário, arena football e futebol canadense. O flag football, que infelizmente não tem nome em português, é uma versão do futebol americano no qual não há contato, e faz uns dois anos que eu penso em escrever sobre ele; recentemente, essa vontade aumentou porque o flag football será um dos esportes convidados nos World Games de 2022, que ocorrerão em Birmingham, Alabama, Estados Unidos. Hoje, como vocês já devem ter imaginado, essa vontade finalmente vai virar um post. Hoje é dia de flag football no átomo!

Sendo um derivado do futebol americano, a história do flag football está ligada à história deste. Tudo começou em 1905, quando o presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt, preocupado com a violência que imperava nos jogos universitários de futebol americano - que chegou a resultar até mesmo na morte de jogadores durante as partidas - decidiu criar um órgão regulador para alterar as regras do esporte, de forma a preservar a vida e a integridade física dos jogadores. Fundado em 1906, esse órgão, chamado Associação Atlética Intercolegial dos Estados Unidos (IAAUS), não somente introduziu vários equipamentos obrigatórios (embora ainda pouco eficientes se comparados com os de hoje em dia), como o capacete e as ombreiras, como também proibiu várias jogadas que considerava perigosas e passou a considerar falta comportamentos que até então eram comuns. Foi a partir da intervenção da IAAUS, inclusive, que o futebol americano passou a ficar cada vez mais diferente do rugby, até se tornar um esporte com suas próprias características.

Acontece que há um detalhe importante nessa história: a IAAUS só mandava no futebol americano universitário, ou seja, se alguém fora do âmbito universitário quisesse jogar de acordo com as regras "antigas", ela não podia fazer nada. Quando a primeira liga profissional de futebol americano, a NFL, foi criada, em 1920, eles decidiram basear suas regras nas da NCAA (nome que a IAAUS adotaria em 1910, e que usa até hoje) não somente porque seus atletas já estavam mais acostumados com elas, mas também para evitar problemas pelo excesso de violência do jogo, mas, ainda naquela época, quase quinze anos após a fundação da IAAUS, muitos jogos amadores ainda permitiam que seus times seguissem as regras mais violentas, por assim dizer, e que seus jogadores não usassem nenhum equipamento de segurança.

Isso, como vocês devem imaginar, trazia problemas, pois ninguém queria se contundir seriamente em um jogo amador, o que poderia fazer com que os contundidos tivessem de parar de trabalhar ou precisar de atendimento médico caro, numa época em que os Estados Unidos não estavam exatamente passando por um período de pujança econômica. Assim, muitas das ligas amadoras, não querendo seguir as regras da NCAA, principalmente por causa dos equipamentos de segurança, que também eram caros, começaram a criar suas próprias regras, muitas permitindo ainda menos contato físico que as da NCAA. Infelizmente, por falta de registros históricos, não sabemos exatamente como seriam essas regras, mas o primeiro registro de um jogo de futebol americano sem contato físico data de 1933, ano no qual um torneio de touch and tail football foi realizado na cidade de Nova Iorque.

O flag football como é disputado hoje seria inventado alguns anos depois, durante a Segunda Guerra Mundial. Na época, muitos dos soldados norte-americanos jogavam futebol americano, e as partidas eram seu principal passatempo enquanto eles estavam aquartelados aguardando o chamado do dever. A questão é que não somente eles não tinham acesso aos equipamentos de segurança, como também os comandantes não ficavam muito animados com a possibilidade de um soldado se contundir durante um jogo e não poder mais combater, de forma que a melhor solução foi praticar as versões do jogo sem contato físico. Em 1940, na base de Fort Meade, em Maryland, os soldados inventariam uma versão na qual um lenço ou outro pedaço de pano ficava no bolso de trás da calça, e, para que fosse caracterizado o tackle - o ato de derrubar o jogador, que interrompe a jogada - bastava retirar esse lenço do bolso do oponente - em outras palavras, quando o lenço era retirado, significava que o jogador foi "derrubado", e a jogada acabava naquele ponto. O apelido desse lenço era flag ("bandeira", em inglês), e, por isso, o novo esporte ficaria conhecido como flag football.

De Fort Meade, o flag football se espalharia por outras bases norte-americanas, e, conforme os soldados eram dispensados e voltavam para casa, levavam suas regras com eles. Nas décadas de 1940 e 1950, surgiriam várias ligas de flag football por todo o país, e, na década de 1970, o círculo seria fechado com a chegada do flag football às universidades. Como o flag football não era (e não é até hoje) um dos esportes oficiais da NCAA, os universitários o praticavam de forma recreativa, durante os intervalos das aulas, mas, em 1979, jogadores de várias universidades decidiriam se unir e disputar um campeonato, do qual todos os jogos foram disputados na Universidade de Nova Orleans. O torneio foi um grande sucesso, e, dois anos depois, seria disputado o primeiro campeonato universitário de flag football, com dezenas de times, várias fases, e a fase final sendo disputada em um estádio na cidade de Shreveport, Louisiana. Tudo isso, vale lembrar, de forma totalmente amadora, e sem nenhum apoio da NCAA.

Vale dizer também que, embora o flag football crescesse cada vez mais em popularidade, ele não era a única versão do futebol americano sem contato físico a ter ligas em disputa nos Estados Unidos. Em 1960, por exemplo, seria fundada, na cidade de St. Louis, Missouri, a National Touch Football League, uma liga semiprofissional de touch football, versão do esporte no qual era necessário apenas tocar no adversário para que o tackle fosse caracterizado, sem qualquer tipo de pano precisando ser removido. A NTFL cresceria em popularidade nos anos seguintes, e organizaria seu primeiro campeonato nacional em 1971. Em 1988, a NTFL ainda tinha um disputado campeonato de touch football, quando um de seus diretores regionais, Jeff Anderson, tomou uma decisão surpreendente: saiu da NTFL e fundou a United States Flag & Touch Football League (USFTL), uma liga semiprofissional de flag football, cujas regras eram baseadas nas da NTFL, mas usando as flags.

Desde a fundação da USFTL (que ainda existe, aliás), o flag football cresceria imensamente em popularidade, com cada vez mais jovens descobrindo no flag football uma forma de disputar seu esporte preferido sem os caros equipamentos de segurança e com muito menos possibilidades de lesões e contusões. Essa popularidade levaria à fundação de outras ligas, como a American Flag Touch Football League, fundada em 1991, e a Professional Flag Football League, primeira a contar com times profissionais, fundada em 1997. Fora dos Estados Unidos, as primeiras ligas surgiriam na Ásia, com as do Japão, China, Filipinas e Vietnã surgindo ainda na década de 1990; as primeiras ligas europeias surgiriam nos anos 2000. Nem todas essas ligas, porém, usam as mesmas regras da USTFL, o que faz com que hoje não exista uma única versão do flag football, e sim várias, com diferentes números de jogadores por time, possibilidade ou não de chutes, maior ou menor contato físico permitido, e até mesmo diferentes tamanhos de campo. Até mesmo a NFL criou sua própria versão das regras, baseadas nas do futebol americano profissional, não para organizar seu próprio campeonato, mas como parte de um acordo com a NAIA, organização universitária semelhante à NCAA, segundo o qual as universidades filiadas à NAIA, em um futuro próximo, usarão essas regras para torneios universitários de flag football.

Internacionalmente, a principal entidade reguladora do flag football é a IFAF, a Federação Internacional de Futebol Americano, fundada em 1998 para regular o futebol americano, com regras semelhantes às da NCAA, em todo o planeta; a IFAF hoje conta com 105 membros, incluindo o Brasil, e, além do Campeonato Mundial de Futebol Americano, disputado no masculino a cada quatro anos desde 1999, organiza o Campeonato Mundial de Flag Football, disputado no masculino e no feminino a cada dois anos desde 2002 - no masculino, os Estados Unidos são os maiores campeões, com quatro títulos, seguidos de Áustria com três, e França e Canadá com um cada, mas no feminino o maior campeão é o México com três títulos, seguido do Canadá com dois, e de Estados Unidos, França, Panamá e Suécia com um cada. As regras que eu vou abordar nesse post são as da IFAF, que são as usadas nos jogos disputados aqui no Brasil, e podem ter algumas diferenças em relação às que serão usadas nos World Games, que serão as da NFL. Para efeitos de economia, assim como eu fiz com o futebol canadense, só vou falar do que é específico do flag football; o que eu não falar aqui é idêntico às regras do futebol americano "normal".

O campo do flag football tem 25 jardas (22,9 m) de largura por 70 jardas (64 m) de comprimento, sendo que, de cada lado, 10 jardas (9,15 m) são as end zones, sobrando 50 jardas (45,7 m) para a efetiva área de jogo. O campo é dividido no meio, e as últimas 5 jardas (4,575 m) de cada lado, antes de cada end zone, são demarcadas por uma linha pontilhada, e constituem as no running zones; a única marcação além dessas são as "linhas de dois pontos", pequenas linhas de 1 jarda (90 cm) de comprimento localizadas a 12 jardas (11 m) de cada end zone. Não há necessidade de marcação no campo a cada jarda, e, para jogos internacionais, a IFAF exige que pelo menos 3 jardas (2,74 m) em todas as direções ao redor do campo sejam livres de qualquer obstáculo, consistindo em uma zona de segurança - o que faz com que o tamanho total do campo seja de 31 jardas (28,4 m) de largura por 76 jardas (69,55 m) de comprimento. Todas as linhas que marcam o campo devem ter 10 cm de largura.

Cada time é composto por 12 jogadores, sendo que apenas 5 estão em campo de cada vez, sendo os outros 7 os reservas; as substituições são ilimitadas e podem ser feitas a qualquer momento em que a bola não esteja em jogo. Como não há necessidade de equipamentos de proteção, o uniforme é semelhante ao do futebol, consistindo de camisa de mangas curtas, calção, meias e chuteiras, com luvas sendo opcionais. O principal item do uniforme, porém, é um cinto especial, chamado flag belt, que conta com duas presilhas próprias para as flags, uma do lado esquerdo e uma do lado direito do corpo do jogador. As flags são feitas de lona, têm 38 cm de comprimento por 5 cm de largura, e devem ser de cor que contraste com o calção dos jogadores - todos os membros de um mesmo time devem ter flags da mesma cor, e cada time deve ter flags de uma cor diferente. As presilhas das flags possuem um encaixe especial com o qual elas ficam penduradas e se balançando, não podendo cair pelo movimento do corpo do jogador, mas sendo arrancadas com um mínimo esforço - basta segurar nelas que elas se soltam.

Assim como no futebol americano, um dos times ataca enquanto o outro defende. A jogada começa com um snap do time que está no ataque, com um dos jogadores passando a bola por baixo de suas pernas para o quarterback, que então terá 7 segundos para passá-la ou entregá-la para outro jogador, que tentará correr com ela; só pode haver um passe para a frente por jogada, mas os passes para os lados e para trás são ilimitados. Não pode haver nenhum contato físico, nem mesmo para bloqueio; a principal forma de evitar que um jogador chegue a outro lugar, portanto, é simplesmente ficar no caminho dele para forçá-lo a desviar e criar a oportunidade para que alguém puxe sua flag. Só é permitido puxar uma flag de um jogador que tem a posse da bola; basta que uma das duas flags dele se solte do cinto para que ele seja considerado derrubado e a jogada seja interrompida - caso uma das flags de um quarterback seja arrancada enquanto ele está com a bola nas mãos, a jogada conta como um sack. Os jogadores podem se esquivar e girar para evitar que um oponente arranque suas flags, mas não podem se utilizar de contato com o corpo do outro jogador para isso (como bater em sua mão ou segurar seu braço), nem tentar esconder as flags com partes de seu uniforme (colocando-as para dentro do calção, por exemplo).

Cada time tem quatro descidas para tentar avançar a bola 10 jardas, ganhando uma nova série de quatro descidas cada vez que consegue. Não há punt, com a posse de bola mudando de time automaticamente ao final da quarta descida. Toda primeira jogada de ataque de um time começa da sua linha de 5 jardas (ou seja, também não há kick off), e não do ponto de onde a bola estava quando a quarta descida não foi bem sucedida; somente em caso de interceptação o time que estava na defesa começa seu ataque de onde a bola estava quando a jogada terminou. A cada descida, o time que está defendendo deve ficar a no mínimo 5 jardas da linha de scrimmage, não podendo os dois times ficarem "coladinhos" como no futebol americano.

Quando um time consegue levar a bola até a end zone do adversário, ele marca um touchdown, que vale 6 pontos; em seguida, pode tentar um try, uma nova jogada de uma única descida que vale pontos extras: caso o try seja tentado com a bola na linha de 5 jardas (e bem sucedido), o time ganha 1 ponto extra, caso a bola comece na linha de dois pontos, o try vale 2 pontos extras. Caso, durante um try, a bola seja interceptada e o time que interceptou consiga levar a bola até a outra end zone, ganha 2 pontos. Não há field goal (não sei se vocês repararam, mas o campo nem tem gols), então a única outra forma de marcar pontos é com um safety: arrancar uma flag de um jogador com a posse de bola dentro de sua própria end zone vale 2 pontos, e arrancar uma flag de um jogador que interceptou a bola dentro da end zone vale 1 ponto.

Além de os jogadores não poderem chutar a bola em nenhuma hipótese (sendo falta de 5 jardas do local onde houve o chute caso o façam), o quarterback não pode ultrapassar a linha de scrimmage carregando a bola nas mãos (sendo falta de 5 jardas a partir da linha de scrimmage caso o faça), podendo, porém, passar a bola para outro jogador e depois recebê-la de volta. Outros exemplos de faltas punidas com 5 jardas são: o jogador que fez o snap ser o primeiro a receber a bola do quarterback na jogada, retornar a bola para antes da linha de scrimmage com um passe para trás, estouro do cronômetro (levar mais de 25 segundos para colocar a bola em jogo), saída falsa (se mover na direção do time oponente antes do snap) e contato físico ilegal - se o contato físico ilegal foi durante uma interferência no passe, a falta é de 10 jardas. Outras faltas de 10 jardas incluem arrancar flags de jogadores sem posse de bola, conduta antidesportiva e interferência de pessoa estranha ao jogo (o técnico invadir o campo, por exemplo). Como foi dito, o quarterback tem 7 segundos para passar ou entregar a bola depois do snap, sendo falta punida com perda de descida (mas com a linha de scrimmage no mesmo lugar) caso ele estoure esse tempo. Outro detalhe importante é que, caso o quarterback esteja dentro da no running zone, ele obrigatoriamente deve tentar um passe, não podendo entregar a bola para uma corrida, sendo perda de descida caso o faça - ou seja, como a primeira jogada de ataque de cada time começa da linha de 5 jardas, a primeira jogada de ataque de cada time é sempre um passe.

Uma partida de flag football dura dois tempos de 20 minutos cada, com um intervalo de 2 minutos entre eles. Em caso de empate, é disputada uma prorrogação na qual cada time começa com a bola no meio do campo (e não da linha de 5 jardas) e tem quatro descidas para marcar pontos; caso o empate persista após uma tentativa de cada time, são disputadas tentativas alternadas, até que um dos dois consiga e o outro não. Cada time tem direito a dois pedidos de tempo em cada metade do jogo, mais um na prorrogação. A partida é oficiada por quatro árbitros, sendo um principal e três auxiliares, dos quais um se posiciona ao lado da linha de scrimmage, prestando atenção no time que está no ataque, e um a 7 jardas da linha de scrimmage, prestando atenção no time que está na defesa.

Além do flag football "de campo", a IFAF regula o flag football de praia (beach flag) e o disputado em ginásio fechado (indoor flag). As regras são as mesmas, com as seguintes diferenças: tanto no beach flag quanto no indoor flag, as jogadas começam com a bola na linha de 1 jarda, cada time tem 4 jogadores em quadra e 6 reservas, e o jogo dura dois tempos de 15 minutos cada; no beach flag, o campo tem apenas 45 jardas (41,15 m) de comprimento, sendo que as dez últimas jardas de cada lado são as end zones, restando 25 jardas (22,9 m) de área efetiva de jogo, a única marcação no campo é a das end zones, feita com cones, e os jogadores jogam descalços (no indoor flag os jogadores usam tênis ao invés de chuteiras).

Antes de terminar, vale citar que o rugby também possui variações sem contato físico. A mais parecida com o flag football é o tag rugby, cujas regras são baseadas nas do rugby union. O tag rugby foi inventado em 1983 em Gibraltar, uma dependência britânica localizada ao sul da Espanha, como parte do treinamento do time de rugby local, que usava uma corda amarrada frouxamente na cintura, que deveria ser puxada para caracterizar o tackle. Em 1990, o professor de educação física inglês Nick Leonard ficaria conhecendo essa invenção através de seu amigo Barry Johns, que servia na marinha, e contou que os marinheiros, nos navios, jogavam essa versão para passar o tempo. Leonard teria a ideia de substituir a corda por um cinto com velcros semelhante ao usado no flag football, e seria o responsável por codificar as regras do esporte; seu intuito era criar uma versão do rugby que pudesse ser jogada por crianças sem o risco de lesões, mas, praticamente desde que foi introduzido na Inglaterra, em 1991, o tag rugby se tornou extremamente popular dentre os adultos.

O tag rugby é jogado em um campo de 50 m de largura por 80 m de comprimento, sendo que os últimos 5 m de cada lado são os in-goal. Além da linha que divide o campo no meio e das linhas de in-goal, todas as três linhas cheias, há duas linhas pontilhadas de cada lado do campo: a linha de 10 m, a 10 m do centro, e a linha de 5 m, a 5 m do in-goal. Não há gols. Cada time tem 14 jogadores, sendo que somente sete podem estar em campo de cada vez; as substituições são ilimitadas e podem ser feitas a qualquer momento em que a bola não esteja em jogo. Além das modalidades masculina e feminina, o tag rugby é jogado com times mistos, sendo que um time misto tem que ter pelo menos seis mulheres, com pelo menos três estando em campo em todos os momentos. Exceto pelo cinto (chamado tag belt), o uniforme é idêntico ao do rugby union. A duração de uma partida também é a mesma do rugby union: 40 minutos, divididos em dois tempos de 20 minutos cada, sendo que o jogo não termina no estouro do cronômetro, seguindo normalmente enquanto a bola estiver viva. Empates são possíveis, mas, em caso de jogo que não possa terminar empatado, é disputada uma prorrogação de tempo indefinido com golden try, ou seja, o primeiro time que pontuar vence.

As regras são as mesmas do rugby union, com a diferença de que não há tackles; toda vez que um jogador tem uma de suas flags removidas, ele deve colocar a bola no chão no ponto onde estava, e rolá-la levemente para trás. Também não há jogadas de contato físico como o maul e o scrum, nem mark ou arremesso lateral - quando a bola sai pela lateral, o time que não a colocou para fora começa jogando com ela do ponto onde ela saiu, a 5 m da linha lateral. A bola pode ser movida com arremessos (sempre para os lados ou para trás) ou chutes (sempre para a frente), mas não há gols nem chutes de bonificação, sendo a única pontuação possível o try; por causa disso, cada try só vale 1 ponto. Caso o árbitro considere que um jogador só não conseguiu o try devido a uma falta do adversário, ele pode marcar um penalty try, que também vale 1 ponto. A maior parte das faltas é punida com penalty kick, sendo que a falta mais comum é o contato físico indevido. Como o tag rugby é um jogo intenso, que não para a toda hora como o flag football, um jogador que realize um tackle deve erguer a flag e gritar "tag", para que todos saibam que o jogador que estava com a bola foi tackleado.

Além da versão "de campo", o tag rugby possui versões indoor, de praia e de neve (sim, essa é uma variação oficial), que seguem as mesmas regras, com três diferenças. Primeiro, o campo é bem menor, com 15 m de largura por 40 m de comprimento, sendo os últimos 5 m de cada lado os in-goal, e as únicas marcações são a linha do meio e as linhas de in-goal. Segundo, os times possuem apenas cinco jogadores cada, sendo que apenas três podem estar em quadra de cada vez, com substituições ilimitadas podendo ser feitas a qualquer momento em que a bola não esteja em jogo; times mistos devem ter no mínimo duas mulheres, com uma em quadra a todos os momentos. Terceiro, o jogo dura 14 minutos, divididos em dois tempos de sete minutos cada.

O tag rugby é regulado pela Federação Internacional de Tag Football (ITF), fundada em 2008, e que atualmente conta com 34 membros (sem o Brasil). Seu principal torneio é a Copa do Mundo de Tag Rugby, disputada a cada três anos desde 2012; a Nova Zelândia ganhou os três títulos femininos, os três mistos e os dois primeiros masculinos, com o terceiro masculino ficando com a Austrália. A World Rugby, que regula o rugby union, reconheceu o tag rugby como esporte e passou a publicar suas regras oficiais em 2010, mas, até hoje, ainda não organizou nenhum torneio.

Mas a versão sem contato físico do rugby de maior popularidade no mundo é a baseada no rugby league, que se chama, simplesmente, touch (embora seja chamada de touch football ou touch rugby quando é preciso uma referência mais específica). O touch foi criado na Inglaterra, no início da década de 1950, como uma alternativa segura para se jogar rugby em pisos abrasivos como asfalto e concreto, mas seria codificado e viraria esporte em 1968, na Austrália, através dos esforços de dois amigos, Bob Dyke e Ray Vawdon, que estabeleceriam suas regras e organizariam os primeiros campeonatos.

O campo do touch é idêntico ao do tag rugby, com as mesmas dimensões e mesmas marcações (na verdade é o contrário, já que a ITF é que decidiria adotar as mesmas regras, por conveniência); a duração do jogo também a mesma, 40 minutos divididos em dois tempos de 20 cada, com golden try em caso de empate, e também não há gols, com o try, que vale apenas 1 ponto, sendo a única forma de pontuar. Cada time também tem 14 jogadores e substituições ilimitadas quando a bola não está em jogo, mas, no touch, apenas seis jogadores podem estar em campo de cada vez. Assim como no tag rugby, existem times mistos, seguindo as mesmas regras quanto ao número de mulheres. O uniforme do touch é idêntico ao do rugby league, exceto pelo fato de que as camisas não têm mangas.

Como o touch segue as regras do rugby league, cada time tem 6 chances para avançar a bola, com a posse passando automaticamente para o adversário no local onde estava quando a sexta chance foi desperdiçada. As demais regras são idênticas às do rugby league, com uma diferença: basta um mínimo toque do adversário com a mão em qualquer parte do corpo de um jogador, seguido do aviso touch (que significa "toque" em inglês) para que ele seja considerado tackleado, sem o uso de qualquer cinto especial e sem que ele precise ser derrubado.

Assim como o tag rugby, o touch possui versões de praia e indoor (mas não de neve), que usam a mesma quadra do tag rugby de praia e indoor, com as mesmas dimensões e marcações, e o mesmo tempo de jogo, 14 minutos divididos em dois tempos de sete. Os times também têm cinco jogadores cada, com substituições ilimitadas podendo ser feitas a qualquer momento em que a bola não esteja em jogo, mas, no touch indoor e de praia, um time que esteja atacando pode ter três jogadores em quadra, mas um que esteja defendendo só pode ter dois; a regra quanto ao número de mulheres nos times mistos é a mesma do tag rugby. No touch de praia ou indoor, cada time tem apenas quatro chances para avançar a bola antes de ter de passar sua posse para o adversário.

O touch é regulado pela Federação Internacional de Touch (FIT), fundada em 1985, e que hoje conta com 50 membros (novamente, sem o Brasil). Seu principal torneio é a Copa do Mundo de Touch, que teve uma primeira edição em 1988, sendo realizada a cada quatro anos desde 1991. A Austrália ganhou os nove títulos do masculino, os nove do feminino e sete do misto, ficando os outros dois do misto com a Nova Zelândia. Assim como ocorreu com o tag rugby, a World Rugby reconheceu o touch como esporte e passou a publicar suas regras oficiais em 2010, mas ainda não organizou nenhum torneio.
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domingo, 16 de fevereiro de 2020

Escrito por em 16.2.20 com 0 comentários

Futebol Canadense / Rugby League

Meu esporte preferido é o futebol americano. Não por acaso, foi o primeiro esporte sobre o qual eu falei aqui no átomo, numa época em que eu só planejava falar de música, filmes e livros. Além de sobre o próprio, já fiz posts também sobre o futebol americano universitário e sobre o arena football, o "futebol americano de salão" - porque, sempre que chega o fim do ano, por causa dos playoffs da NFL e dos bowls do college football, me dá vontade de falar alguma coisa sobre futebol americano. Já pensei em fazer uma série sobre a história da NFL, nos moldes das que fiz sobre a Fórmula 1 e as Olimpíadas, já pensei em falar sobre os jogos internacionais da NFL, já pensei em falar sobre o futebol americano no Brasil, mas, como seriam posts sobre competições, e não sobre o esporte em si, nunca me animei a levar essas ideias a cabo. Desde 2017, porém, tem um post que eu todo ano penso em escrever, mas acabo desistindo, que seria não sobre uma competição (bem, não totalmente), mas sobre um esporte: o futebol canadense, que é tipo um primo esquisito do futebol americano. Mas eu sempre acho que vai ficar um post muito curto, e, não sei se vocês já repararam, mas eu gosto mais quando eles ficam mais longos.

Meu segundo esporte preferido é o rugby. Comecei a assistir meio por acaso, e me apaixonei. Não por acaso, o rugby foi o segundo esporte que ganhou post aqui no átomo. Na ocasião, eu mencionei que, na verdade, existem dois esportes chamados rugby: o rugby union, mais conhecido no Brasil, que é o que eu gosto e sobre o qual eu falei, e o rugby league, que tem algumas regras diferentes, do qual eu não gosto. Eu nunca pensei em falar sobre rugby league aqui no átomo porque, bem, eu não gosto, mas, ano passado, eu tive uma ideia genial: combinar o rugby league e o futebol canadense em um único post, falando de uma vez sobre os dois. Como vocês devem ter imaginado, eu acabei não botando essa ideia em prática na época, mas, agora, resolvi que iria executá-la. Hoje, portanto, é dia não de um, mas de dois esportes no átomo!

Vamos começar pelo futebol canadense. Como eu disse aqui no post sobre futebol americano universitário, o futebol americano surgiu quando um grupo de soldados britânicos, por volta de 1860, foi enviado ao Canadá, e levou com eles as regras do rugby. O rugby logo se tornaria bastante popular nas universidades canadenses, e começaria a ter suas regras alteradas para ficar mais de acordo com o gosto da população local. Em 1864, dois alunos da Universidade de Toronto, Barlow Cumberland e Frederick Bethune, criariam um conjunto de regras que seria adotado por praticamente todas as universidades da região. De Toronto, que fica perto da fronteira, o jogo chegaria aos Estados Unidos, onde seria mais alterado ainda, dando origem ao futebol americano (quase) como o conhecemos hoje.

O principal responsável pelo futebol americano deixar de ser parecido com o rugby e passar a ser parecido com, bem, o futebol americano foi Walter Camp, aluno da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, que, em 1880, sugeriu várias mudanças nas regras utilizadas até então. No Canadá, essas mudanças não seriam implementadas até 1903, quando John Burnisde, aluno da Universidade de Toronto, baseando-se nas regras de Camp, também fez várias sugestões para a entidade que regulava o rugby na província de Ontário, onde Toronto está localizada, a Ontario Rugby Football Union. As outras entidades que regulavam o rugby no Canadá, porém, se recusariam a adotar essas regras, alegando que elas descaracterizavam o jogo, somente se curvando a elas quando ficou bem claro que os dois esportes, o rugby e o futebol canadense, poderiam coexistir.

Mesmo após as sugestões de Burnside, porém, o futebol canadense ainda era quase idêntico ao futebol americano, exceto por três detalhes: o tamanho do campo (que, no futebol canadense, é bem maior, porque as áreas dedicadas a esportes ao ar livre no Canadá eram mais espaçosas que as dos Estados Unidos), a proibição de passes para a frente (que só passariam a ser permitidos em 1929) e o fato de que um touchdown valia cinco pontos (somente passando a valer seis, como nos Estados Unidos, em 1956). Curiosamente, todas as demais diferenças essenciais entre o futebol canadense e o futebol americano - como, por exemplo, o número de jogadores em campo ou o número de descidas para avançar dez jardas - decorrem de mudanças feitas nos Estados Unidos, e não no Canadá - a regra das três descidas, por exemplo, foi alterada para quatro descidas nos Estados Unidos em 1905, mas, no Canadá, nunca foi alterada, sendo usadas apenas três até hoje.

Como eu já expliquei as regras do futebol americano bem explicadinhas, hoje eu vou focar apenas nas diferenças entre o futebol canadense e o futebol americano, citando uma coisa ou outra quando for necessário ficar mais claro. O que eu não falar aqui, muito provavelmente é igual a no futebol americano.

Uma das principais diferenças entre o futebol canadense e o futebol americano é o tamanho do campo. Um campo de futebol canadense é enorme, com 137 m de comprimento por 59 m de largura. A área de jogo, entre as duas goal lines, tem 110 jardas (101 m), com cada jarda sendo marcada por quatro linhas curtas, cada jarda múltipla de cinco sendo marcada por uma linha que atravessa o campo no sentido da largura, e cada jarda múltipla de dez por um grande número próximo à linha lateral - como o campo tem 110 jardas, a linha do meio é marcada pela letra C, de "centro", e então, no sentido de cada end zone, as jardas múltiplas de dez são marcadas pelos números 50, 40, 30, 20 e 10; em alguns estádios, as goal lines são marcadas com a letra G. As end zones têm o dobro do comprimento das do futebol americano, 20 jardas (ou 18 metros) cada uma; curiosamente, o gol, cuja base está a 3 m de altura, e tem 5,63 m de largura, não fica posicionado no final da end zone, e sim no início, com a base do gol ficando exatamente acima da goal line - o que faz com que um chute da linha de uma jarda tenha que ser dado quase que diretamente para cima. Todos os estádios da CFL (a liga profissional do Canadá) e da U Sports (que regula os esportes universitários) possuem gols no mesmo formato dos do futebol americano, aqueles que lembram vagamente um Y, mas as regras oficiais do futebol canadense também permitem que o gol seja do mesmo formato do usado no rugby, ou seja, em forma de H. As regras oficiais também permitem que as end zones tenham entre 18 e 25 jardas de comprimento, sendo 20 a medida mais comum.

A diferença mais importante do futebol canadense para o americano é que, no futebol americano, cada time tem quatro descidas para avançar dez jardas, passando a posse de bola para o adversário no final da quarta descida se ele não conseguir; no futebol canadense, cada time tem apenas três descidas para avançar dez jardas, o que significa que um time em situação difícil tem de apelar para o punt após apenas duas jogadas. Em compensação, no futebol canadense, quando a bola é colocada na linha de scrimmage, o time que está defendendo deve ficar a uma jarda de distância do local onde foi colocada a bola, o que torna o trabalho da linha ofensiva mais fácil - no futebol americano, o time que está defendendo deve ficar à frente da linha da bola, o que faz com que eles quase encostem seus narizes nos dos jogadores da linha ofensiva. Como o time adversário está posicionado a uma jarda da bola na hora do snap, é bem mais comum que sejam tentadas conversões de terceira descida no futebol canadense do que conversões de quarta descida no futebol americano.

Um time de futebol canadense tem sempre 12 jogadores em campo - um a mais do que um time de futebol americano. Um time completo de futebol canadense tem 44 jogadores, contra 53 no futebol americano, embora na NFL apenas 45 possam ser inscritos por jogo. A CFL possui uma regra de que cada time deve ter no mínimo 21 jogadores canadenses e no máximo 20 estrangeiros (que em todos os times são quase todos americanos), mais três quarterbacks que não contam para esses valores. Os árbitros do futebol americano sinalizam as faltas com um pano amarelo, e os técnicos pedem desafio com um pano vermelho; no futebol canadense, os árbitros usam um pano laranja, e os técnicos usam um pano amarelo.

Não existe a regra do fair catch no futebol canadense, em compensação, após um punt ou kick off, nenhum jogador pode ficar a menos de cinco jardas da bola até que algum oponente a toque, ou até que ela toque o chão - o que evita a situação de que o jogador nem acabou de pegar a bola e já sofreu um tackle. No futebol canadense, se a bola tocar o chão após um punt sem que nenhum jogador do time que a está recebendo a tenha tocado, o punter pode pegá-la e avançá-la em direção à end zone, com a posse de bola retornando para o time que chutou o punt; por essa razão, alguém do time que está recebendo sempre costuma tentar pegar a bola, mesmo que ela toque o chão antes - no futebol americano, se a bola tocar no chão antes, o time que está recebendo pode ignorá-la, porque, se alguém do time que chutou tocar nela, a jogada começa do ponto onde houve o toque, e, se ela entrar na end zone, da linha de 20 jardas.

Falando nisso, no futebol americano, se um jogador recebe a bola dentro de sua própria end zone e não consegue retornar ao campo de jogo, ou se a bola sai de campo direto após um punt ou kickoff, ocorre um touchback, e o time que recebeu a bola começará jogando da linha de 20 jardas. No futebol canadense, qualquer bola que caia dentro da end zone, exceto como resultado de um field goal válido ou após ter tocado as traves do gol, é considerada viva e de quem pegar; se um jogador do time que está defendendo a pega dentro da end zone mas não consegue retornar ao campo de jogo, o time que está atacando ganha um ponto, conhecido como single ou rouge ("vermelho" em francês, porque antigamente essa jogada era sinalizada pelos árbitros com um pano vermelho), e o time que sofreu o ponto começa jogando da linha de 35 jardas ou da linha onde foi realizado o chute, no caso de um punt ou uma tentativa de field goal, como preferir. Um punt ou uma tentativa de field goal não convertida que saia de campo após ter tocado o chão dentro da end zone sem nenhum jogador ter tocado a bola também vale um single. Caso um kickoff ou uma tentativa de field goal não convertida cuja bola tocou na trave saia de campo após tocar o chão dentro da end zone sem tocar em nenhum jogador, o time que está defendendo começa jogando da linha de 25 jardas.

No futebol canadense, um time que sofreu um field goal pode escolher entre receber um kickoff, fazer um kickoff de sua linha de 35 jardas, ou começar jogando de sua linha de 35 jardas sem o oponente fazer kickoff. Já o time que marca um safety pode escolher entre fazer um kickoff de sua linha de 35 jardas, fazer um kickoff de sua linha de 25 jardas, ou começar jogando de sua linha de 35 jardas. No futebol americano, o time que marca pontos sempre faz o kickoff, exceto no caso de um safety, quando quem faz o kickoff é o time que sofreu os pontos. No futebol canadense, após um touchdown, a conversão com chute é feita da linha de 25 jardas, e a com jogada da linha de 3 jardas - no futebol americano, o chute é feito da linha de 15 jardas, e a jogada da linha de 2 jardas; o chute no canadense é de mais longe porque o gol é mais próximo, na prática dá uma jarda a menos para os canadenses, e não dez a mais. No futebol canadense, para um chute de field goal ou conversão, o kicker pode pedir que o holder coloque a bola apoiada sobre um tee, como no rugby; no futebol americano, exceto a nível escolar, todos os chutes devem ser feitos com o holder segurando a bola.

No futebol americano, apenas um jogador do time que está atacando pode se mover antes do snap, e, mesmo assim, desde que não seja um jogador da linha ofensiva, e desde que ele não se mova na direção da linha de scrimmage. No futebol canadense, qualquer jogador que não esteja na linha ofensiva pode se mover em qualquer direção, inclusive lateralmente ao longo da linha de scrimmage, desde que não ultrapasse a linha de scrimmage - o que é feito para confundir a defesa. Um jogador que comece a se mover na direção da linha de scrimmage antes do snap costuma conseguir percorrer uma distância muito maior do que os que começam a jogada parados, permitindo que no futebol canadense sejam feitos passes muito mais longos. Como o gol do futebol canadense fica praticamente dentro do campo, um passe no qual a bola toque no gol é considerado incompleto, como se a bola tivesse saído.

No futebol americano, cada time tem 40 segundos para definir sua jogada antes do snap; no futebol canadense, esse tempo é de apenas 20 segundos. No futebol canadense, cada time tem direito a dois pedidos de tempo a cada metade do jogo, mas não pode usar ambos nos últimos três minutos de cada metade; o jogo para automaticamente quando chega a esses três minutos, para o three minute warning, e, dentro desses três minutos, toda vez que a bola para, o relógio também para. A penalidade no futebol canadense por deixar esgotar os 20 segundos nos três minutos finais de cada metade é a perda de uma descida, ou de 10 jardas caso seja a terceira - e, se o árbitro considerar que a demora está ocorrendo de propósito, pode penalizar o time dando a posse de bola para o adversário, mesmo que seja a primeira descida. No restante do jogo, a penalidade é a mesma do futebol americano: 5 jardas.

Mas a diferença mais curiosa do futebol canadense para o americano é que, assim como no rugby, no futebol canadense é permitido avançar a bola para a frente com um chute, desde que só seja dado um chute por posse de bola. Normalmente esse chute é usado para tirar a bola da end zone e evitar um single ou safety, mas, em um momento de desespero, pode ser usado para passar a bola para um jogador que esteja mais à frente no campo.

O único lugar do planeta onde o futebol canadense é jogado é no Canadá. No resto do mundo, por influência dos Estados Unidos, exercida através do cinema e televisão, só é jogado mesmo o futebol americano - no Canadá também é jogado o futebol americano, mas apenas em ligas amadoras, enquanto o futebol canadense é jogado a nível amador (incluindo escolar e universitário), semiprofissional e profissional. A única liga profissional de futebol canadense no mundo se chama CFL (de Canadian Football League), e, atualmente, conta com nove times, que representam as cidades de Ottawa, Montreal, Toronto, Winnipeg, Vancouver, Calgary, Edmonton, Regina e Hamilton, e contam com nomes criativos como Hamilton Tiger-Cats, Montreal Alouettes e Saskatchewan Roughriders - Saskatchewan é o nome da província onde se localiza a cidade de Regina; outro time que não traz o nome da cidade é o BC Lions, sendo BC a sigla de British Columbia, província onde está localizada a cidade de Vancouver. Como o Canadá é muito frio, sendo impossível disputar esportes ao ar livre no inverno, a temporada da CFL começa em junho, com os playoffs sendo disputados em novembro.

Como a CFL só tem nove times, eles são divididos em duas Divisões, a Oeste, com cinco times, e a Leste, com quatro. A temporada regular dura 21 semanas, com cada time fazendo 18 jogos e folgando em três semanas - um time folga a cada semana, exceto em três delas, quando três times folgam em cada. Cada time joga duas vezes contra cada um dos outros oito times, uma em casa e uma fora; os outros dois jogos, um em casa e um fora, são contra dois times de sua própria Divisão, escolhidos através de uma fórmula, que mudam todo ano. Se classificam para os playoffs os três melhores times de cada Divisão, sendo que o quarto melhor time de uma Divisão pode "roubar" a vaga do terceiro da outra, caso seu desempenho tenha sido melhor - em 2019, por exemplo, se classificaram quatro times da Divisão Oeste a apenas dois da Leste. A primeira rodada dos playoffs tem sempre o segundo e o terceiro colocados de cada Divisão se enfrentando, com o vencedor desse jogo enfrentando o primeiro na Final de Divisão, e os campeões de Divisão se enfrentando na final - por causa da regra de "roubar", é possível, embora raro, que ambos os times na final sejam da mesma Divisão.

A final da CFL se chama Grey Cup, e é disputada desde 1909, sendo que em 2020 será disputada sua 108a edição - não houve Grey Cup entre 1916 e 1919 por conta da Primeira Guerra Mundial. Assim como ocorre com o Super Bowl, a Grey Cup é disputada em um estádio selecionado antecipadamente, mas, como o número de times na CFL é bem menor, não é raro um time jogar a Grey Cup em casa - algo que jamais aconteceu no Super Bowl. A Grey Cup foi criada antes mesmo da fundação da CFL (o que só ocorreu em 1958), leva seu nome em homenagem a seu criador, Albert Grey, governador-geral do Canadá entre 1904 e 1911, e, originalmente, era entregue ao melhor time amador do Canadá, decidido em um torneio que contava com a participação apenas de times amadores e universitários, com os profissionais somente começando a participar em 1936. Os times amadores e universitários puderam continuar competindo pela Grey Cup até 1954, com o troféu passando a ser disputado exclusivamente por times profissionais no ano seguinte. O maior campeão da Grey Cup é o Toronto Argonauts, que já a conquistou 17 vezes, seguido do Edmonton Eskimos, com 14, e do Winnipeg Blue Bombers, com 10. Todos os times atualmente em atividade na CFL já conquistaram a Grey Cup pelo menos uma vez, com o mais recente tendo sido o Ottawa Redblacks em 2016 - já que até agora eu falei o nome de oito dos nove times, acho que vale citar que o nono é o Calgary Stampeders. A Grey Cup é o evento esportivo mais assistido do Canadá, com sua audiência chegando a alcançar 40% dos televisores ligados no país.

Desde sua fundação - quando já contava com nove times, embora não fossem os mesmos de hoje - a CFL luta para se expandir e criar mais times, o que esbarra no fato de que, mesmo no Canadá, o futebol canadense não é tão popular dentre os atletas - muitos dos universitários que se destacam no futebol canadense acabam preferindo tentar uma vaga na NFL, já que as regras não são tão diferentes assim, ficando os times da CFL apenas com jogadores de menor prestígio, incluindo universitários dos Estados Unidos que não conseguiram vaga na NFL após se formar e ex-jogadores da NFL que ainda se consideram muito jovens para se aposentar. A tentativa mais ousada de expansão ocorreria em 1993, quando um time baseado em uma cidade dos Estados Unidos, o Sacramento Gold Miners, da Califórnia, foi adicionado ao campeonato. No ano seguinte, três novos times dos Estados Unidos fizeram sua estreia, e, em 1995, embora dois desses anteriores tenham desistido, três novos estrearam, com a CFL chegando ao recorde de 13 times - o campeão de 1995, inclusive, foi um time dos Estados Unidos, os Baltimore Stallions, na única vez em que a Grey Cup não foi para um time canadense. Em 1996, porém, com quatro dos cinco times dos Estados Unidos na CFL passando por dificuldades financeiras, e a cidade de Baltimore ganhando seu próprio time da NFL - o Baltimore Ravens - nenhum time dos Estados Unidos se inscreveu, o que fez com que a CFL voltasse a ter somente times canadenses; desde então, todas as tentativas de expansão têm sido feitas em cidades do Canadá, embora o número de times jamais tenha passado de nove.

O futebol canadense universitário segue mais ou menos os mesmos moldes do futebol americano universitário, existindo uma organização, chamada U Sports (que, até 2016, tinha dois nomes, Canadian Interuniversity Sport, ou CIS, em inglês, e Sport Interuniversitaire Canadien, ou SIC, em francês, decidindo se chamar U Sports em ambos os idiomas para facilitar), que regula o esporte universitário em todo o país, e organiza os campeonatos de doze modalidades esportivas, incluindo o futebol canadense. A principal diferença do campeonato de futebol canadense da U Sports para o de futebol americano da NCAA, dos Estados Unidos, é que o canadense conta apenas com uma divisão, já que apenas 27 universidades contam com o futebol canadense em seu programa esportivo - das quais a mais criativa é a Saint Francis Xavier University, cujo apelido do time é "The X-Men".

De maneira parecida com o que ocorre na NCAA, os 27 times são divididos em quatro conferências, usando critérios geográficos: Canada West Universities Athletic Association (CW, para universidades das províncias de British Columbia, Alberta, Saskatchewan e Manitoba, todas localizadas no oeste), Atlantic University Sport (AUS, para universidades das províncias de Newfoundland e Labrador, Nova Brunswick, Prince Edward Island e Nova Scotia, todas localizadas na costa do Atlântico), Ontario University Athletics (OUA, para as universidades da província de Ontário) e Réseau du sport étudiant du Québec (RSEQ, para universidades da província de Québec). Durante a temporada regular, cada time faz oito jogos, todos contra oponentes de sua própria conferência (na AUS e na RSEQ, que contam com cinco times cada, cada um faz um em casa e um fora contra cada oponente; na CW, que conta com seis times, e na OUA, que conta com 11, são usadas fórmulas para se determinar quais times cada um dos outros não enfrenta a cada ano); a fase seguinte são os playoffs de conferência, com cada uma tendo sua própria fórmula (na CW e na RSEQ se classificam os quatro primeiros, com o primeiro enfrentando o quarto e o segundo enfrentando o terceiro nas semifinais; na AUS se classificam os três primeiros, com o segundo enfrentando o terceiro na semifinal, e o vencedor enfrentando o primeiro na final; e na OUA é usado um sistema parecido com o da CFL, com os seis primeiros se classificando, o primeiro e o segundo estreando nas semifinais e os demais nas quartas de final) com cada campeão de conferência ganhando seu próprio troféu (Hardy Trophy para a CW, Jewett Trophy para a AUS, Yates Cup para a OUA, e Coupe Dunsmore para a RSEQ). Os playoffs de conferência são disputados em jogo único, sempre na casa do time melhor ranqueado.

Os quatro campeões de conferência, então, se classificam para as semifinais nacionais, também disputadas em jogo único. Uma das semifinais se chama Uteck Bowl, e é sempre disputada no estádio mais a leste dentre os dos dois participantes; a outra se chama Mitchell Bowl, e é disputada sempre no estádio mais a oeste - sendo esse curioso critério também usado para definir os participantes de cada Bowl, com as duas universidades localizadas mais a oeste disputando o Mitchell e as duas mais a leste o Uteck. Os vencedores das semifinais nacionais se enfrentam na Vanier Cup (ou Coupe Vanier), a grande final do futebol canadense universitário, disputada desde 1965. O maior vencedor da Vanier Cup é a Université Laval, com 10 títulos, seguida da Universidade do Oeste em London, com 7, e da Universidade de Calgary, atual campeã, com 5. Somente nove dos 27 times que hoje disputam o campeonato jamais foram campeões, sendo que seis deles sequer chegaram à Vanier Cup. Até 2003, a Vanier Cup era sempre disputada em Toronto, numa homenagem por ter sido nessa cidade que foi criado o futebol canadense, mas, a partir daquele ano, a sede passou a ser escolhida com um ano de antecedência, e, desde 2015, cada estádio é escolhido para sediar duas edições seguidas, com as escolhas ocorrendo sempre nos anos ímpares. A Vanier Cup foi criada para que os times universitários também pudessem disputar um troféu nacional, já que em 1954 eles seriam proibidos de disputar a Grey Cup; entre 1955 e 1964, somente os troféus das Conferências foram disputados pelos times universitários.

Vamos passar agora para o rugby league, cuja história começa em 1895, quando o órgão que controlava o rugby na Inglaterra se chamava Rugby Football Union (RFU). Naquele ano, a RFU publicou uma regra segundo a qual todos os times tinham de ser exclusivamente amadores, sendo proibido qualquer tipo de pagamento feito aos jogadores pelos clubes - além disso, os clubes ficariam proibidos de vender ingressos para as partidas, devendo a entrada ser gratuita para todas elas. 22 clubes sediados no norte do país não concordaram com essas regras, porque a maioria de seus jogadores vinham das classes mais humildes, trabalhando em minhas de carvão, moinhos e outros empregos que pagavam muito pouco, usando o rugby como complementação de renda - a maioria deles, inclusive, não teria como viajar para enfrentar os clubes do sul se tivesse que pagar a passagem de seu próprio bolso, o que passaria a ser o caso de acordo com a determinação da RFU. Esses 22 clubes, então, decidiriam se desfiliar da RFU e fundar sua própria federação, que chamariam de Northern Rugby Football Union (NRFU). Logo eles descobriram que outros clubes de todo o país também estavam insatisfeitos com a RFU, por um motivo ou outro, e decidiram aceitar qualquer clube que se desfiliasse da RFU para se filiar a eles. Em 1910, quinze anos após sua criação, a NRFU já contaria com mais de 200 clubes filiados.

Aproveitando que eles já não tinham mais nada a ver com a RFU, os clubes da NRFU decidiriam alterar as regras para que elas ficassem mais ao gosto dos jogadores e espectadores - abolindo a jogada de lateral na qual é permitido erguer um jogador do chão e diminuindo o número de jogadores de cada time em campo para 13, por exemplo. Em 1901, para evitar confusões entre seu nome e o da rival, a NRFU decidiria mudar seu nome para Northern Rugby League, ou NRL. Animados com o sucesso da NRL, clubes de rugby da cidade de Sydney, na Austrália também decidiriam criar uma nova federação, a New South Wales Rugby Football League, que jogaria pelas regras da NRL. Em 1922, a NRL, já com clubes em toda a Inglaterra, decidiria mudar novamente seu nome, para Rugby Football League, ou RFL. Na década de 1920 o rugby já era jogado com as regras da RFL em vários países da Europa, além de na Austrália e Nova Zelândia, de forma que, em 1927, as federações nacionais de Inglaterra, Escócia, Irlanda, Austrália e Nova Zelândia decidiriam se unir e fundar a primeira federação internacional a regular o rugby de acordo com as regras da RFL, a Imperial Rubgy League Board, que, em 1948, com a entrada da França, mudaria de nome para International Rubgy League Board, e, em 1998, mudaria novamente para Rugby League International Federation. No ano passado, ocorreria mais uma mudança de nome, com o órgão passando a se chamar International Ruby League (IRL).

Hoje, a IRL conta com 70 membros, sendo que 19 são considerados membros plenos (países onde o rubgy league é disputado profissionalmente), 11 são considerados membros afiliados (países onde o rugby league é disputado a nível amador ou semiprofissional) e 40 são considerados membros observadores (países onde o rugby league é disputado apenas a nível amador, e onde ainda está em seus primeiros estágios de desenvolvimento). O Brasil é membro afiliado da IRL desde 2019, tendo sido aceito como membro observador em 2015. Três curiosidades sobre a IRL: primeiro, Brasil e Chile são os únicos países da América do Sul que podem disputar competições da IRL, ambos sendo afiliados; Argentina, Uruguai e Colômbia são membros observadores. Segundo, até 1992, Inglaterra, Escócia e País de Gales competiam como Grã-Bretanha, passando a competir separadamente a partir de 1993. Terceiro, assim como no rugby union, o time da Irlanda representa toda a ilha, podendo ser convocados para ele jogadores nascidos tanto na República da Irlanda quanto na Irlanda do Norte.

Embora, a rigor, ambos os esportes, o que era regulado pela RFU e o da IRL, se chamem rugby (ou melhor, rugby football), desde a mudança de nome para NRL a IRL decidiu que, para evitar confusão, o nome oficial do esporte que segue suas regras seria rugby league, e que todas as federações nacionais deveriam se chamar leagues - regra que foi relaxada em 1998, com as federações nacionais desde então sendo obrigadas a ter rugby league, e não apenas rugby, no nome, com a brasileira, por exemplo, sendo a Confederação Brasileira de Rugby League. Por tabela, como o "outro" rugby era regulado pela Rugby Football Union, seu "apelido" passaria a ser rugby union, e suas federações nacionais passariam a ser conhecidas como unions. Hoje, embora o termo rugby union ainda seja usado quando é necessário diferenciá-lo do rugby league, a federação internacional do rugby union, que, desde 2014, se chama World Rugby, determina que seu nome oficial é apenas rugby - ou seja, um dos esportes oficialmente se chama rugby, o outro oficialmente se chama rugby league. Para evitar confusão, nesse post eu vou chamar o rugby da World Rugby de rugby union.

Assim como eu fiz com o futebol canadense, a ênfase aqui será nas regras do rugby league que são diferentes daquelas do rugby union. Se alguma coisa ficou de fora, provavelmente é igual, e basta vocês irem até o meu post sobre rugby e ler lá como é.

O campo do rugby league tem entre 112 e 122 metros de comprimento por entre 58 e 68 metros de largura; a área entre as linhas de in-goal tem 100 metros de comprimento, divididos de 10 em 10 por linhas cheias com número grandes. Assim como no futebol americano, a linha do meio do campo tem o número 50, e aí, na direção do in-goal, elas têm os números 40, 30, 20 e 10. É interessante notar que o campo do rugby league "cabe dentro" do campo de rugby union, que é ligeiramente maior, e, por isso, é comum que times de rugby league e rugby union de uma mesma cidade dividam o mesmo campo, bastando trocar as marcações quando for jogo de um ou de outro.

Um time de rugby league tem apenas 13 jogadores, dois a menos que um de rugby union; os dois jogadores "que faltam" são forwards, o que significa que um time tem seis forwards - mais fortes e pesados, que impedem o avanço adversário - e sete backs - mais leves e rápidos, que criam as jogadas e avançam com a bola - o que faz com que o jogo no rugby league seja muito mais veloz. Uma curiosidade do rugby league é que a numeração das camisas é "ao contrário" em relação ao rugby union, com os backs vestindo as camisas de 1 a 7 e os forwards as de 8 a 13. Um time de rugby league tem quatro reservas, que vestem as camisas 14 a 17. As substituições só podem ser feitas com a bola parada, e um jogador que saiu pode voltar a campo depois, mas há um máximo de oito substituições por jogo, exceto em caso de lesão, quando o jogador substituído por lesão não conta.

Os métodos de pontuação no rugby league são os mesmos do rugby union, mas os valores em pontos são diferentes: no rugby league, um try vale quatro pontos (com o chute de conversão valendo mais dois), um penalty kick convertido vale dois pontos, e um drop kick convertido vale só um ponto. Como o rugby league é muito veloz e dinâmico, com poucas faltas que resultam em penalty kicks, é comum os times marcarem mais pontos através de tries do que de chutes. Uma diferença importante é que, no rugby league, a bola pode ser colocada para fora de campo intencionalmente com as mãos, enquanto no rugby union isso só pode ser feito com chutes; além disso, no rugby league, quando a bola sai pela lateral, ela é recolocada em jogo com um scrum, com o time que não tocou por último colocando a bola em jogo. Todas as situações nas quais, no rugby union, ocorreriam em relação à linha de 22 metros, no rugby league ocorrem em relação à linha de 20 metros.

Mas a regra mais importante do rugby league é a regra das seis chances, também conhecida como regra dos seis tackles: no rugby union, o time que está atacando mantém a posse de bola até o outro time tomar a bola dele ou a bola sair de campo; já no rugby league o time que está atacando tem seis chances para marcar pontos, devendo devolver a bola para o outro time se esgotar todas as seis sem conseguir. Em outras palavras, cada vez que um jogador do time que está atacando sofre um tackle, ele perde uma chance, e, após o sexto tackle, a posse de bola passa para o time oponente. Assim como no futebol americano, após o quinto tackle o time que está atacando costuma usar o punt, um chute na direção do campo adversário, para que o oponente comece sua jogada o mais longe possível de seu in goal; também como no futebol americano, o punt é uma jogada que devolve a bola para o adversário, não podendo um time pegar uma bola que ele mesmo chutou. Normalmente o árbitro grita o número da chance que está sendo jogada, mas isso não é obrigatório - exceto quando é a quinta, quando, além de gritar, ele deve fazer um sinal com a mão espalmada sobre a cabeça, para alertar os jogadores.

Após cada tackle, a jogada continua com o play the ball: o jogador que sofreu o tackle coloca a bola no chão à frente da linha de seus pés, se levanta e a rola para trás com o pé. Apenas um jogador do próprio time que fez o play the ball pode pegar a bola, nunca os oponentes. As únicas formas de se conseguir a posse de bola antes de um time esgotar suas seis chances são interceptando a bola durante um passe ou causando um fumble, ou seja, um adversário faz com que um jogador solte a bola antes de tocar o chão quando sofre um tackle, e então um outro jogador adversário pega a bola antes do time que estava no ataque. Um passe para a frente feito durante a sexta chance não resulta em scrum, e sim em posse de bola automática para o adversário, com play the ball no local do passe. Um time que comece jogando após o oponente gastar suas seis chances conduzindo a bola (ou seja, sem punt) também começa com play the ball.

A competição mais importante do rugby league é a Copa do Mundo, disputada desde 1954 (bem antes da primeira Copa do Mundo de rugby union, disputada pela primeira vez em 1987). De início, a Copa do Mundo de Rugby League era disputada em intervalos irregulares (entre 1985 e 1992, inclusive, chegaram a fazer um experimento no qual a Copa durava quatro anos inteiros, sem sede, com jogos de ida e volta entre os participantes), mas, desde 2013, a IRL definiu que o intervalo seria de quatro anos, com a próxima estando prevista para 2021. Atualmente a Copa do Mundo é disputada por 16 times, e todos os membros plenos e afiliados podem participar das eliminatórias - o Brasil nunca participou porque as eliminatórias para 2021 já haviam se encerrado quando ele foi aceito como membro afiliado. Das 15 edições da Copa do Mundo já realizadas, a Nova Zelândia ganhou uma, a Grã-Bretanha ganhou 3, e a Austrália ganhou as outras 11 - tendo também o recorde de ter chegado entre os três primeiros em todas as 15 edições, e de ter chegado a todas as finais desde 1957, só tendo ficado de fora exatamente da primeira.

O rugby league é disputado também por mulheres, com a Copa do Mundo de Rugby League Feminina sendo disputada desde 2000 - mais uma vez, de início a intervalos irregulares, mas, desde 2013, a cada quatro anos. A Nova Zelândia ganhou as três primeiras edições, mas a Austrália ganhou as duas mais recentes. Por decisão da IRL, a Copa do Mundo feminina é sempre disputada na mesma sede e usando os mesmos estádios da masculina, mas nunca ocorrendo simultaneamente - algumas edições são realizadas antes do começo da masculina, outras após seu final. Como o rugby league feminino é menos praticado que o masculino, o número de participantes também é menor: em 2021, apenas 8 times disputarão a Copa do Mundo feminina, incluindo o Brasil, que entrou como convidado - assim como todos os demais times, já que a Copa do Mundo feminina não tem eliminatórias.

Para terminar, vale dizer que, assim como o rugby union possui uma versão chamada rugby sevens - com sete jogadores de cada lado e dois tempos de sete minutos cada - o rugby league possui uma versão chamada rugby league nines. Ambas foram criadas com o mesmo propósito, fazer com que as partidas se tornassem mais curtas e pudessem ser realizadas em um intervalo menor de tempo, o que possibilitaria sua inclusão em torneios como as Olimpíadas - de fato, o rugby sevens já faz parte do programa olímpico, desde 2016. No rugby league nines, cada time possui nove jogadores e seis reservas, mas somente quatro reservas podem ser inscritos por jogo, embora as substituições sejam ilimitadas, e o jogo dura dois tempos de nove minutos cada, com 2 minutos de intervalo, para um total de 20 minutos de partida. Se um jogo terminar empatado, é jogada uma prorrogação com golden try, ou seja, quem marcar um try primeiro vence. Outra diferença importante é que são apenas cinco tackles por jogada, e não seis, e que o time que faz pontos é que recomeça o jogo, com um drop kick. O rugby league nines é mais popular a nível nacional do que o rugby sevens, com Inglaterra e Austrália, por exemplo, tendo campeonatos disputadíssimos, mas, a nível internacional, ele ainda está começando a engrenar, tanto que a Copa do Mundo de Rugby League Nines foi disputada pela primeira vez em 2019, com previsão de ser disputada a cada quatro anos; as edições masculina e feminina foram realizadas simultaneamente, com a Austrália ganhando ambas.
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sábado, 13 de outubro de 2007

Escrito por em 13.10.07 com 2 comentários

Rugby

No próximo sábado, dia 20, acontecerá, no Stade de France, em Saint-Denis, França, a final da sexta edição da Copa do Mundo de rugby. Infelizmente, o Brasil não passou nem das eliminatórias, mas eu, como fã do esporte, já espero ansiosamente pelo embate.

Sim, eu acompanho rugby. Há pouco tempo, é verdade, uns dois anos no máximo. Comecei a assistir meio por curiosidade, já que adoro futebol americano - e, como vocês devem saber, um monte de gente acha que os dois esportes são "a mesma coisa"; eu, por exemplo, quando era criança, tinha uma camiseta azul onde se lia "rugby" em letras vermelhas enormes, e logo abaixo tinha uma figura de um jogador de futebol americano, de capacete e tudo, chutando a bola oval na direção do Y.

Pois bem, apesar de ter usado esta camiseta durante vários anos, eu sabia que os dois esportes não eram a mesma coisa, embora achasse que a regra era mais ou menos a mesma - afinal, o objetivo de ambos é carregar uma bola oval até o outro lado do campo, tomando cuidado para não ser derrubado e soterrado no caminho. Um dia, estava eu mudando de canal incessantemente, e achei na ESPN um jogo recém-começado da Heineken Cup, uma espécie de Liga dos Campeões da UEFA do rugby. Como era a primeira vez que eu via um jogo de rugby na TV, fiquei assistindo. Descobri que as regras do rugby e do futebol americano não eram tão parecidas assim, mas as sutilezas do jogo, ao invés de me desestimularem, me animaram a acompanhar mais jogos. Como dei sorte de começar a gostar do esporte bem perto de uma Copa do Mundo, nada melhor que me programar para assitir tantos jogos quanto possível - nem que fosse na TV5. Confesso que foi bastante divertido, tanto que, como vocês já devem ter imaginado, decidi escrever um post sobre este esporte ainda tão incompreendido. Preparem-se, pois, que hoje é dia de rugby no átomo!

O rugby é um dos esportes mais antigos do mundo, e foi criado na Inglaterra no início do século XIX. Diz a lenda que, no ano de 1823, um grupo de estudantes da Rugby School, uma tradicional escola da cidade de Rugby, no condado de Warwickshire, estava jogando futebol - não o futebol que conhecemos hoje, cujas regras só foram publicadas em 1863, mas algum outro jogo onde o objetivo era carregar a bola com os pés - quando um dos estudantes, de nome William Webb Ellis, se revoltou e, ao invés de levar a bola com os pés, a abraçou e saiu correndo. Os demais estudantes, para pará-lo, começaram a agarrá-lo e jogá-lo ao chão, mas o time de Webb Ellis foi passando a bola de mão em mão, se livrando dos agarrões e encontrões, até o gol. Estava criado um novo esporte, que levaria o nome da cidade, e que teria seu primeiro conjunto de regras oficiais publicado em 1845. Muitos historiadores não acreditam nesta história e a tratam como lenda, mas os fãs e dirigentes do esporte acreditam nela, tanto que a Rugby School tem uma placa em homenagem a Webb Ellis por ter inventado o esporte, e o troféu da Copa do Mundo de rugby se chama Webb Ellis Cup.

Seja como for, com o jogo codificado começaram a surgir clubes de rugby - que na época se chamava "rugby football", sendo ainda hoje conhecido em muitos locais por este nome - por toda a Inglaterra. Inicialmente, eles tentaram se associar à Football Association, a entidade que até hoje congrega os clubes de futebol ingleses, mas como a FA proibia carregar a bola com as mãos ou derrubar intencionalmente o oponente nos jogos regulados por ela, logo eles desistiram, se uniram, e fundaram a Rugby Football Union, em 1871, que ficou responsável por garantir que todos os clubes de rugby da Inglaterra jogassem com as mesmas regras. Mas a Inglaterra não era o único país do mundo que jogava rugby; alguns clubes da Escócia, País de Gales e Irlanda haviam sido fundados antes mesmo dos clubes ingleses, e eles também tinham interesse em usar as mesmas regras, até para que fosse possível disputar jogos internacionais. Assim, em 1886, estes três países fundaram a International Rugby Board (IRB), que seria responsável pela unificação das regras do rugby em todo o planeta. A Inglaterra se filiou à IRB em 1890, e, desde então, o rugby se alastrou pela Europa, e de lá para o mundo.

O rugby foi um esporte totalmente amador durante mais de cem anos; somente em 1995 a IRB decretou sua profissionalização, ou seja, permitiu que os jogadores de rugby recebessem salário de seus clubes, como ocorre com a maioria dos outros esportes. Evidentemente, isto já acontecia de forma mascarada há bastante tempo, e o que a IRB fez foi simplesmente tirar os profissionais da clandestinidade. Quando os jogadores se tornaram profissionais, houve quem previsse que o esporte iria acabar, destruído pelo capitalismo; felizmente, ocorreu exatamente o oposto, com a popularidade do rugby crescendo anos após ano, e cada vez mais países se interessando em praticar o esporte, embora se possa fazer a crítica de que os países onde o rugby é mais evoluído, ou seja, que têm maior número de clubes e jogadores profissionais, sejam desproporcionalmente fortes em relação àqueles onde o esporte ainda é majoritariamente amador.

Hoje, a IRB conta com 95 membros; os dez considerados mais fortes, não necessariamente nesta ordem, são Nova Zelândia, Austrália, África do Sul, Inglaterra, França, Escócia, País de Gales, Irlanda, Itália e Argentina. O Brasil é membro da IRB, mas o esporte por aqui ainda é amador, e a seleção brasileira só costuma disputar jogos internacionais contra outros países das Américas, como nas eliminatórias da Copa. O time mais famoso é o da Nova Zelândia, apelidado All-Blacks, por seu uniforme de camisa e calção preto. Na Oceania, aliás, o rugby é um dos esportes mais populares - se não o mais popular - de modo que equipes como as de Fiji, Tonga e Samoa também costumam ser bastante respeitadas pelos adversários. Também podemos citar como destaques o Japão, onde o rugby vem melhorando ano após ano, e já pleiteia organizar a Copa de 2015; e a Romênia, uma espécie de "sétima força" da Europa, que tem um campeonato bem organizado. Os Estados Unidos, que jogam até rugby universitário, costumam dar trabalho aos oponentes, como na maioria dos esportes, mas ainda não a ponto de incomodar as grandes forças; assim como no futebol, o rugby norte-americano é mais forte entre as mulheres.

Sim, existe rugby feminino, embora este ainda seja pouco praticado e conhecido, principalmente por preconceito. O rugby feminino ainda é totalmente amador, mas segue exatamente as mesmas regras do masculino, apesar de só ter sido incorporado pela IRB em 1998 - até então as competições eram organizadas apenas em nível nacional, ou por acordo entre as federações dos países que disputariam um torneio internacional, como ocorreu com as Copas do Mundo de 1991 e 1994. Ao todo, 80 dos membros da IRB possuem equipes de rugby feminino - inclusive o Brasil - sendo os mais fortes a Nova Zelândia, tricampeã do mundo; a Inglaterra, uma vez campeã e três vezes vice; e os Estados Unidos, com um título e dois vices.

Falando em Copa do Mundo, a de rugby masculino é nada menos que o terceiro evento esportivo mais assistido do planeta, só perdendo para a Copa do Mundo de futebol e para as Olimpíadas. A Copa do Mundo de rugby foi criada em 1985, por idéia das federações da Austrália e da Nova Zelândia, que desejavam um torneio do qual todas as seleções de rugby do mundo pudessem participar - até então, o mais perto disso que existia era o torneio Five Nations, disputado entre Inglaterra, Escócia, País de Gales, Irlanda e França (atualmente ele é o torneio Six Nations, já que a Itália entrou em 2000). A IRB gostou da idéia, e marcou a primeira Copa para 1987, com Austrália e Nova Zelândia como sede conjunta. A Nova Zelândia venceu o torneio, derrotando a França (que havia derrotado a Austrália na semifinal) na final por 29 a 9.

Como a primeira Copa foi no hemisfério sul, a segunda foi marcada para o hemisfério norte. Oficialmente, a sede de 1991 era a Inglaterra, mas alguns jogos aconteceram na Escócia, País de Gales, Irlanda e França (ou seja, a rigor, foi um torneio disputado nas Five Nations). Na final, a Austrália calou Twickenham, um dos principais estádios de rugby do mundo, ao derrotar a anfitriã Inglaterra por 12 a 6. A Copa voltaria ao hemisfério sul em 1995 com duas novidades: pela primeira vez a África do Sul, suspensa de todas as competições internacionais durante um longo tempo devido à política racista do apartheid, sediaria uma competição esportiva internacional, e pela primeira vez todos os jogos da Copa do Mundo de rugby ocorreriam em um único país. O entusiasmo do povo contagiou a seleção da África do Sul, que venceu o torneio, derrotando a Nova Zelândia na final por 15 a 12 na prorrogação.

Em 1999 teríamos mais uma Copa disputada nas Five Nations, com o País de Gales como sede oficial. A Austrália ganhou seu segundo título, desta vez derrotando a França na final por 35 a 12. A Copa de 2003 seria na Austrália, e lá a Inglaterra se vingaria da derrota de 1991, vencendo a Austrália na final em Sydney por 20 a 17 na prorrogação. A Copa do Mundo deste ano acontece na França (embora quatro jogos tenham sido disputados no País de Gales e dois na Escócia, não me perguntem o porquê que eu não sei), e, como eu já disse, a final será dia 20; as semifinais ocorrem hoje, entre Inglaterra e França, e amanhã, entre África do Sul e Argentina. Mantendo a tradição de um torneio no norte, outro no sul, a Copa de 2011 será na Nova Zelândia. A sede para 2015 ainda não foi escolhida, mas os principais candidatos a sede são Japão e Escócia.

Certo, tudo isso é muito interessante, mas alguém aí pode estar se perguntando: como é que se joga rugby? Bem, antes de passarmos às regras, cabe fazer um pequeno parêntese, até para explicar uma coisa que quem já conhece o rugby deve estar achando que estava "faltando": na verdade, não existe um esporte chamado rugby, mas dois. Este sobre o qual eu estou falando aqui, que é o mais difundido no mundo e o que eu gosto de assistir, é conhecido como rugby union, por causa da Rugby Football Union (as federações nacionais de rugby, aliás, não são chamadas "federations", mas "unions"). O "outro" rugby, conhecido como rugby league, surgiu em 1895, quando 22 clubes da Inglaterra, insatisfeitos com uma nova regra proibindo qualquer tipo de ajuda financeira aos atletas, que consideravam que os prejudicava, saíram da Rugby Football Union e fundaram a Northern Rugby Football Union, que em 1901 mudou de nome para Northern Rugby League, e em 1922 para Rugby Football League. Como a RFL e a IRB tinham visões diferentes sobre o jogo, as regras do rugby league foram ao longo do tempo ficando bastante diferentes das originais - e até parecidas com as do futebol americano, se vocês me perguntarem. O rugby league também saiu da Inglaterra e se espalhou pelo mundo, mas bem menos que o rugby union; atualmente, a Federação Internacional de Rugby League tem apenas 45 membros, sendo que o Brasil não faz parte dela. Isto esclarecido, vamos a um breve resumo das regras do rugby union.

Um time de rugby tem 22 jogadores, sendo 15 em campo e 7 reservas. Destes 15 que jogam, oito são chamados forwards, mais fortes e pesados, e têm por função ganhar e manter a posse de bola, evitando o avanço adversário; os outros sete, mais técnicos e leves, são os backs, e executam a maior parte das jogadas, correndo com a bola em direção ao campo adversário. Os números nas camisas dos jogadores são relacionados às suas posições, ou seja, os forwards usam as camisas de 1 a 8, e os backs de 9 a 15. Além destas funções mais "gerais", alguns dos jogadores possum funções mais "específicas"; o jogador chamado fly-half, por exemplo, que joga com a camisa número 10, é considerado o "cérebro" do time, sendo responsável por armar as jogadas e chutar em direção ao gol quando necessário; já o scrum-half (número 9) deve ter reflexos rápidos e ser leve mas resistente, pois é ele quem faz a ligação passando a bola entre os forwards e os backs; o hooker, que joga com a camisa 2, além de ter uma importante função defensiva, é o encarregado de cobrar os laterais, e por aí vai; eu não vou falar sobre todos eles, mas o importante é que cada jogador deve saber desempenhar muito bem sua função para que o time seja bem sucedido, sendo muito difícil vencer apenas usando a força bruta. Cada reserva também corresponde à função do jogador que irá substituir, embora eles usem as camisas de 16 a 22; no rugby são permitidas todas as sete substituições em um jogo, sendo que jogadores substituídos não podem voltar à partida, como no futebol. A exceção é a "substituição por sangramento", quando um jogador sai de campo e dá lugar a um reserva para cuidar de um ferimento que esteja sangrando; caso o sangramento estanque em até 15 minutos, ele poderá voltar, e a subsituição não contará para o limite de sete.

O campo de rugby tem 100 metros de comprimento por 70 de largura, dividido no meio por uma linha cheia. No final de cada um dos lados há uma área de 10 a 22 metros de comprimento, conhecida como zona de in-goal, separada do campo de jogo por uma linha cheia chamada linha de in-goal. No meio da linha de in-goal fica o gol, em formato de H, com as hastes verticais separadas 5,6 metros uma da outra, e a barra horizontal a 3 metros de altura. A altura das barras verticais acima da barra horizontal é livre, mas deve ser maior que 3,4 metros. Outras marcações importantes são a linha de 22 metros, localizada 22 metros antes da linha de in-goal; e a linha de 5 metros, uma linha pontilhada que corre a 5 metros de distância da lateral por toda a extensão do campo. Diferentemente do que ocorre no futebol, as linhas laterais e do fim do campo são consideradas "fora", ou seja, se a bola quicar lá, ou um jogador com a bola nas mãos pisar nelas, a bola "saiu". A linha de in-goal, por outro lado, faz parte da zona de in-goal, mas onde a linha de in-goal encosta na linha lateral do campo, há uma bandeirinha, e se o jogador carregando a bola encostar nessa bandeirinha, a bola saiu.

O objetivo principal do jogo é carregar a bola até a zona de in-goal, e, uma vez lá, encostá-la no chão de forma que a bola fique pelo menos um instante em contato simultaneamente com o gramado e o corpo do jogador. Isto, por alguma razão que se perdeu no tempo, se chama try, e vale 5 pontos. Como a linha de in-goal faz parte da zona de in-goal, bola na linha de in-goal é try, mas se o jogador encostar na infame bandeirinha antes de encostar a bola no chão, o try não vale, pois a bola saiu.

O time que fez o try sempre tem direito a um chute de conversão: a bola é colocada sobre um apoio de plástico ou um montinho de areia (à escolha do jogador) em qualquer posição do campo, mas sempre na mesma direção do ponto onde o try foi marcado. Dali, o chutador do time (normalmente, mas nem sempre, o fly-half) a chutará em direção ao gol, marcando dois pontos se ela passar entre as barras verticais e acima da barra horizontal. Como o try só é marcado quando a bola encosta no chão, alguns jogadores, depois de entrar na zona de in-goal, correm para seu meio, para que a bola seja colocada em uma posição mais favorável para o chute.

Além do try, há duas outras formas de se pontuar, ambas valendo três pontos. A primeira é o drop kick: a qualquer momento em que estiver com a bola na mão, um jogador pode optar por, ao invés de passá-la, quicá-la no chão e chutá-la em direção ao gol, marcando os três pontos se acertar. A segunda forma é o penalty kick: quando um time sofre uma falta grave (decorrente de jogo perigoso, por exemplo), tem a opção de chutar a bola em direção ao gol, seja com o auxílio do suporte ou quicando-a no chão como no drop, ganhando os três pontos se acertar. Embora o try valha mais pontos, os chutes também são uma arma importante para a vitória, principalmente em jogos mais truncados.

A bola não é redonda, mas oval, com de 280 a 300 mm de comprimento, pesando entre 410 e 460 gramas, e sendo feita de couro ou material sintético similar. O uniforme de jogo obrigatório é composto de uma camiseta de mangas curtas, calção, meias e chuteiras; opcionalmente, os jogadores podem usar protetores de ombros, clavícula, cabeça (parecido com uma touquinha), protetor dental (tipo os usados no boxe) e luvas sem dedos, e protetores para os seios, no caso do rugby feminino. Nenhum destes opcionais pode ser fabricado em plástico duro ou metal, para evitar que eles firam os outros jogadores.

O jogo começa com um chute do meio do campo chamado kick off. A partir daí, o jogador que receber a bola tentará correr com ela, ou passá-la de mão em mão dentre seus companheiros de time, até chegar ao in-goal, com um detalhe interessante: passes com a mão só são permitidos para os lados ou para trás; passes para a frente devem obrigatoriamente serem feitos com os pés. Além disso, qualquer jogador à frente da linha da bola é considerado impedido, e não pode receber a bola nem atrapalhar os oponentes (segurando-os ou impedindo que eles vejam a bola, por exemplo), cometendo falta grave se o fizer. O time que não tem a posse de bola tentará impedir o avanço do oponente através de tackles, que consistem em agarrar o jogador abaixo da linha dos ombros e derrubá-lo no chão. Um jogador que sofre um tackle obrigatoriamente deve soltar a bola, por isso é bom que alguns companheiros estejam por perto, senão o oponente vai roubá-la. Se houverem companheiros por perto, forma-se o famoso montinho, chamado ruck, cujo principal objetivo é evitar que o oponente pegue a bola. Formado o ruck, a bola deve permanecer obrigatoriamente à vista do juiz, e quem pegá-la poderá prosseguir com a jogada. Não há qualquer limite quanto ao número de tackles que cada time pode sofrer por jogada, prosseguindo o mesmo time com a posse de bola até que ele marque um try, um gol, cometa uma falta de ataque, a bola saia, ou até que o oponente roube a bola. Na linguagem do rugby, toda vez que se forma um ruck e o mesmo time continua com a posse, se diz que começou uma nova fase do ataque.

Quando um jogador é agarrado, para tentar evitar um tackle, o time atacando pode tentar uma formação conhecida como maul, onde vários jogadores vão se abraçando e se empurrando, para que o conjunto fique mais forte e o oponente não saiba com quem está a bola; um oponente que voluntariamente derrube o maul incorre em falta grave.

Se o time estiver no sufoco, poderá dar um chutão para a frente; embora não pareça, porém, esta é uma jogada arriscada, pois se a bola sair direto pela lateral, sem tocar em ninguém nem quicar dentro de campo, o outro time cobrará o lateral do ponto onde a bola foi chutada. Normalmente, o lateral é cobrado pelo time que não pôs a bola pra fora, no ponto onde a bola saiu, mas, além da exceção já citada, há outra: no caso de um penalty kick, se o time cobrando a falta não optou por chutar em direção ao gol, ele poderá chutar para a lateral; neste caso, o próprio time que cobrou a falta cobrará o lateral do ponto onde a bola saiu, mesmo que ela saia direto - o intuito, neste caso, é começar a jogada seguinte mais perto do in-goal, visando um try. O lateral é cobrado como no futebol, com a bola sendo lançada detrás da cabeça do jogador que está cobrando o lateral, mas no rugby, curiosamente, os jogadores podem erguer seus companheiros de time que irão receber a bola, para que eles tenham mais chance de pegar a bola.

Penalty kicks são reservados às faltas graves; faltas de gravidade média (como levar mais de um minuto para cobrar um penalty ou chute de conversão) são punidas com um free kick. Um free kick não pode ser chutado direto para o gol, e se sair direto pela lateral, o lateral é cobrado do ponto do chute, a não ser que o chute tenha sido dado detrás da linha de 22 metros do time que está cobrando o free kick. Um time também tem direito a recomeçar a partida com um free kick se pegar atrás de sua própria linha de 22 metros uma bola passada através de chute pelo time adversário e gritar "mark".

Já as faltas leves, aquelas que não prejudicam o andamento do jogo (como um passe com as mãos para a frente), são punidas com um scrum, uma das coisas mais curiosas do jogo. Como um scrum é meio difícil de se descrever, eu arrumei uma foto (que está logo depois deste parágrafo), mas mesmo assim eu vou tentar: os jogadores de 1 a 8 de cada time se abraçam, formando três linhas, uma de três jogadores, uma de quatro e um sozinho no final, e então "encaixam" na formação do adversário, formando um emaranhado de gente. O scrum-half do time cobrando a falta então põe a bola no meio do scrum, e seu time poderá passá-la para trás com os pés (começando pelo hooker) até que ela saia do scrum, quando um outro jogador do time (normalmente o próprio scrum-half) poderá pegar a bola e recomeçar seu ataque. O scrum pode parecer seguro, mas tem um certo risco: se o hooker oponente pegar a bola antes do hooker do time que está cobrando a falta, o outro time poderá roubar a bola. Por essa razão, os times ficam se empurrando durante o scrum, cada um tentando levar o hooker oponente para longe da bola.



Faltas muito graves, como aquelas especialmente violentas, ainda rendem ao jogador faltoso um cartão amarelo, que faz com que ele fique fora do jogo por 10 minutos, período durante o qual seu time terá de atuar com um jogador a menos, ou até mesmo um cartão vermelho, caso no qual o time fica com menos um até o final da partida. Faltas dentro da zona de in-goal podem ser punidas com um scrum posicionado em uma linha pontilhada a 5 metros da linha de in-goal se forem leves; com o time que sofreu a falta recomeçando a jogada da linha de 5 metros com as mãos caso a falta seja mais grave; ou até, se o árbitro considerar que o try só não saiu por causa de uma falta especialmente grave, pode ser dado ao time que sofreu a falta um penalty try, que vale 5 pontos mais um chute de conversão com a bola posicionada bem de frente com o gol.

Um jogo de rugby tem dois tempos de 40 minutos cada, sendo que o relógio só pára para atendimentos médicos. Cada tempo, porém, não pode acabar com a bola "viva", ou seja, se uma jogada estiver em andamento quando os 40 minutos se completarem, o jogo prosseguirá até a bola sair ou alguém marcar um gol ou try. O jogo é apitado por um árbitro central, que corre junto aos jogadores, e deve poder ver a bola em todos os momentos, auxiliado por dois "bandeirinhas", chamados touch judges, que têm como principais funções marcar onde a bola saiu pela lateral e confirmar a validade de gols e trys, mas podem apitar qualquer lance que o árbitro central apitaria, caso este esteja distante (afinal, com um chutão a bola viaja mais rápido que qualquer árbitro) ou não veja a jogada (especialmente em lances violentos sem posse de bola). Este trio conta ainda com a ajuda de um television match official (TMO), que passa todo o jogo assistindo sua transmissão pela televisão em uma cabine; em lances polêmicos, principalmente trys controversos, o árbitro central pode pedir que o TMO reveja o lance, se valendo de recursos como câmera lenta e pausa. Nestes casos, a palavra do TMO é a que vale.

O rugby union já foi um esporte olímpico, tendo feito parte do programa dos Jogos de 1900, 1908, 1920 e 1924. Desde 1960, o esporte tenta retornar, mas esbarra em dois obstáculos: o primeiro, o preconceito de que rugby seria um esporte violento e incompatível com os ideais olímpicos (ah, é? e o boxe?), e o segundo, o número de jogadores; já que o COI decidiu limitar o número de atletas participantes de cada edição das Olimpíadas, não seria muito lógico incluir um esporte onde cada equipe tem 22 jogadores. Para tentar contornar este segundo problema, em 1973 a IRB decidiu regular também uma modalidade "mais compacta" do esporte, criada em 1883 na Escócia e apelidada de rugby sevens, por ter apenas 7 jogadores em cada time, mais 5 reservas, um máximo de 3 substituições, e dois tempos de sete minutos cada, o que permite que várias partidas sejam disputadas em um mesmo dia. O rugby sevens é hoje extremamente popular, tanto na versão masculina quanto na feminina, e tem sua própria Copa do Mundo, que Fiji ganhou duas vezes, e a Inglaterra e a Nova Zelândia uma. O rugby sevens está em campanha ferrenha para ser adicionado ao programa olímpico dos Jogos de 2016, e tem ao seu favor o fato de já fazer parte de competições continentais importantes, como os Commonwealth Games e os Jogos Pan-Americanos, nos quais estrará em 2011. Eu confesso que fiquei muito feliz quando li esta notícia do Pan (embora tenha ficado meio chateado porque o futsal vai sair) e espero que o Brasil vá a Guadalajara disputar alguns jogos. E que a televisão os transmita, de preferência.
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