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sábado, 20 de setembro de 2025

Escrito por em 20.9.25 com 0 comentários

A Casa das Sete Mulheres

Já que mês passado eu falei sobre A Muralha, esse mês eu vou falar sobre a outra minissérie que eu havia cogitado em 2020 mas abandonado. Hoje é dia de A Casa das Sete Mulheres no átomo!


A Casa das Sete Mulheres é a adaptação de um livro de mesmo nome, escrito por Letícia Wierzchowski e publicado em abril de 2002 pela editora Record. A história é o que se costuma chamar de ficção histórica, trazendo fatos que realmente ocorreram, mas nem todos da forma como de fato ocorreram, misturando personagens reais e fictícios. A trama acompanha a Revolução Farroupilha, que, na época do Brasil Imperial, tentou conseguir a independência primeiro do Rio Grande do Sul, depois também de Santa Catarina, sob o nome de República Riograndense. Considerada a mais longa guerra civil da América do Sul, a Revolução Farroupilha durou dez anos, de 1835 a 1845, e terminou com a derrota dos Farrapos, como os revolucionários ficaram conhecidos, o que faz com que o conflito também seja conhecido como Guerra dos Farrapos. A Casa das Sete Mulheres tem sua história centrada na família de um dos principais líderes da Revolução, o General Bento Gonçalves, mas, no livro, as verdadeiras protagonistas são as mulheres da família, que passaram os dez anos da Revolução protegendo a estância onde moravam, muitas vezes sem saber o que estava acontecendo com os homens que lutavam contra as forças imperiais.

A minissérie é narrada através do diário de Manuela (Camila Morgado), sobrinha de Bento Gonçalves (Werner Schünemann), que fica com suas irmãs, tias e primas na estância, acompanhando de longe os eventos da guerra. A dona da estância é uma das irmãs de Bento Gonçalves, Ana Joaquina (Bete Mendes), mulher conciliadora, bondosa e disposta a tudo para manter a família unida, ao contrário de sua irmã, Maria (Nívea Maria), a mãe de Manuela, mulher fria e amarga que aparetemente não consegue encontrar alegria na vida. Maria é casada com Anselmo (Zé Carlos Machado), que também luta na Revolução, e tem outras duas filhas, a frágil e sonhadora Rosário (Mariana Ximenes) e a irreverente e bem-humorada Mariana (Samara Felippo). Já Bento Gonçalves é casado com a uruguaia Dona Caetana (Eliane Giardini), mulher belíssima, forte e corajosa, e tem uma filha, Perpétua (Daniela Escobar), que sonha viver um grande amor. As "sete mulheres" do título, portanto, são Manuela, Ana Joaquina, Maria, Rosário, Mariana, Perpétua e Dona Caetana.

Bento Gonçalves tem ainda uma terceira irmã, Antônia (Jandira Martini), que é dona de uma estância vizinha e só aparece na história eventualmente, quando vai visitar as irmãs ou quando alguma sobrinha vai visitá-la. Ele e Dona Caetana também têm filhos homens: Bentinho (Dado Dolabella), Joaquim (Rodrigo Faro), apelido Quincas, e Caetano (Bruno Gagliasso), que veem o pai como herói e desejam seguir seus passos no exército; Leão (primeiro Lucas Rocha, depois Sérgio Vieira) e Marco Antônio (primeiro Pedro Malta, depois Carlos Machado Filho), que são crianças e não podem ir à revolução; além de Angélica (primeiro Beatriz Browne, depois Carla Diaz), também criança e muito nova para entender os efeitos que o isolamento tem em suas primas e irmã. No livro, Maria e Anselmo também têm um filho homem, Antônio, que até é citado na minissérie, mas jamais aparece.

No livro, aliás, o isolamento das mulheres é total, e essencial para o desenvolvimento da história e psicológico dos personagens; o caráter conservador na educação das mulheres, bem como a pobreza em que viviam - que teria sido um dos catalisadores da Revolução - e a rotina tediosa de seu cotidiano são bastante enfatizados, com elas somente tomando conhecimento dos acontecimentos da Revolução através de cartas e mensageiros. Seria impossível, entretanto, fazer a minissérie assim - uma daquelas famosas coisas que "funciona num livro, mas não numa obra audivisual" - de forma que, na minissérie, as mulheres têm participação ativa nos eventos da Revolução, os homens voltam para casa constantemente, e a estância é palco de frequentes encontros e festas. Apesar do sucesso da minissérie, essa descaracterização da história seria alvo de muitas críticas, principalmente em relação ao comportamento de Manuela, Rosário, Mariana e Perpétua, que, segundo os críticos, em nada se diferenciava daquele das jovens das novelas ambientadas no Rio de Janeiro do século XXI, sendo totalmente inadequado a moças estancieiras do século XIX. Outra mudança foi em relação à idade das três sobrinhas de Bento Gonçalves: no livro (e na vida real), Manuela era a mais nova das três, enquanto na minissérie é a mais velha.

Na minissérie, Rosário tem um prometido, Afonso Corte Real (Murilo Rosa), que luta ao lado de Bento Gonçalves, mas se apaixona por Estêvão (Thiago Fragoso), um soldado das tropas imperiais, para desepero de toda família. Já Perpétua se apaixona por Inácio (Marcelo Novaes), dono da estância vizinha casado com uma mulher enferma, Teresa (Sabrina Greve), e luta contra o remorso, tanto por estar se relacionando com um homem casado, quanto por secretamente desejar que Teresa morra logo para que eles fiquem juntos. E Mariana parece não estar muito interessada no amor até conhecer o peão João Gutierrez (Heitor Martinez), por quem se apaixona perdidamente, para desespero de sua mãe, que o considera um bugre (indígena) inferior e deseja acabar com esse relacionamento a qualquer custo.

Para provar que todas as mulheres da família têm o dedo podre para o amor, Manuela se apaixona por ninguém menos que Giuseppe Garibaldi (Thiago Lacerda), revolucionário italiano que luta contra a tirania em todo o planeta, e vem ao Rio Grande do Sul ajudar Bento Gonçalves e sua causa, ficando hospedado na estância de Antônia. Garibaldi corresponde ao amor de Manuela, e chega a pedi-la em casamento a Bento Gonçalves, mas ele precisa recusar porque ela já está prometida a Joaquim. Convencido de que é melhor para ela se casar com o primo, Garibaldi parte para lutar em Santa Catarina, onde conhece Anita (Giovanna Antonelli), mulher guerreira e à frente de seu tempo, totalmente diferente de Manuela, com quem acaba se casando.

É importante nesse ponto dizer que Manuela não é uma personagem fictícia, mas real, e, no livro, assim como na vida, após saber que ela está prometida a Joaquim, Garibaldi propõe que os dois fujam para Santa Catarina para se casarem, mas ela não tem coragem e os dois acabam terminando. Manuela, tanto no livro, quanto na minissérie, quanto na vida real, jamais se casaria, vivendo solteira e solitária até o fim de seus dias, deixando registrado em diários seu arrependimento e sofrimento por não ter tido coragem para fugir com Garibaldi; nas ruas de Pelotas, onde foi morar na velhice, ela era apontada nas ruas e conhecida como "a noiva de Garibaldi". Outro ponto muito criticado da minissérie foi que nela, após saber de Anita - que no livro é apenas citada, não existindo como personagem - Manuela viaja a Santa Catarina, se envolve nos combates da Revolução e se torna uma personagem mais forte e decidida.

Outro personagem muito importante é Bento Manuel (Luís Melo), estancieiro rival de Bento Gonçalves que, por ser exímio estrategista, foi uma das peças principais e um dos grandes nomes da Revolução; na vida real, dizia-se que ele tinha um pacto com o diabo, e na minissérie ele é uma espécie de vilão, lutando na Revolução mas fazendo de tudo para prejudicar Bento Golçalves, incluindo ajudar o Império quando lhe é conveniente. Um dos motivos é que Bento Manuel é apaixonado por Dona Caetana, a quem corteja incessantemente, sempre sem sucesso. Ele chega a fazer um pacto com a feiticeira Teiniaguá (Juliana Paes), que usa forças ocultas para que Dona Caetana corresponda ao amor do general, em uma trama retirada de outra história, A Salamanca do Jarau, de Simões Lopes Neto.

Um dos pontos centrais da Revolução Farroupilha era a abolição da escravidão, que ainda existia no Império, mas os Revolucionários pretendiam extinguir na República Riograndense. Na minissérie, é mostrado que os negros, apesar de ainda escravizados, não estavam submetidos a estrita vigilância, punições constantes ou confinamento às senzalas como no restante do país, e tinham importante papel nas charqueadas, principal atividade econômica da região, com muitos deles lutando na Revolução por vontade própria. O principal núcleo de personagens negros da minissérie é formado por João Congo (Antônio Pompêo), criado pessoal de Bento Gonçalves; o capataz Terêncio (Maurício Gonçalves), sua esposa, Zefina (Viviane Porto), e seu filho, Netinho (André Luiz Miranda); e os criados Zé Pedra (Bukassa Kabengele), Viriata (Mariah da Penha) e Beata (Mary Sheila). Outros criados mostrados como membros da família são a mestiça Luzia (Amandha Lee), empregada da estância que fica amiga de Rosário, e Rosa (Ana Beatriz Nogueira), governanta e cozinheira de Ana Joaquina.

Outros personagens reais de nossa História presentes na minissérie são, pelo lado dos Farrapos, o General Antônio de Sousa Neto (Tarcísio Filho), o General Canabarro (Oscar Simch), o Coronel Onofre Pires (José de Abreu), o jornalista italiano Luigi Rossetti (Dalton Vigh), o revolucionário Tito Lívio (Ângelo Antônio), e o médico Francisco Sabino (Stepan Nercessian), e, do lado do Império, o Coronel Moringue (Gilson Moura), o Marechal Mena Barreto (Roberto Pirilo), o Presidente da Província do Rio Grande do Sul, José de Araújo Ribeiro (Ney Latorraca) e o Duque de Caxias (Nelson Diniz), que, na época, ainda era Barão. Outros personagens que merecem ser citados são Chico Mascate (José Victor Castiel), que visitava as estâncias com sua carroça cheia de produtos à venda, e teve importante papel nas comunicações entre os Revolucionários e suas famílias; Francisca (Ítala Nandi), esposa do Coronel Onofre; Joana (Manuela do Monte), filha bastarda do Coronel Onofre, criada em um convento desde criança; Bárbara (Arietha Corrêa), mulher de personalidade forte que luta pela emancipação feminina; o Padre Villar (Lafayette Galvão), que acompanha as tropas de Bento Gonçalves; e o Padre Cordeiro (Sérgio Viotti), que é a favor dos revolucionários, mas contra o relacionamento de Anita e Garibaldi, já que, quando eles se conheceram, ela ainda era casada com Manuel Aguiar (Roberto Bomtempo).

O elenco se completa com os revolucionários Antônio (Sebastião Vasconcelos), Gavião (Douglas Simon), João Grandão (Ricardo Herriot), Pedro (Teodoro Cochrane) e Eduardo (Gabriel Gracindo) e com as "chinas", mulheres que seguiam as tropas revolucionárias para se prostituir com os soldados, na esperança de se casar com um deles, lideradas por Consuelo (Rosi Campos), e que contavam, dentre outras, com Quitéria (Christiane Tricerri), Papagaia (Cinira Camargo) e Tina (Carla Regina). Vários atores famosos da Globo fariam participações especiais, muitas delas de um só capítulo, como Tonico Pereira como o Padre Roberto; Irene Ravache como Madalena Aguilar (que tem um caso com Bento Gonçalves enquanto ele está na Guerra); Cláudio Correia e Castro como um homem que vive isolado na mata e dá abrigo ao grupo de Garibaldi; Ariclê Perez como a Madre Cecília, responsável pelo convento onde Joana está internada, onde também vive a Irmã Damiana (Christiana Guinle); Carmo Dalla Vecchia como Batista; André Mattos como Pedro Boticário; Jandir Ferrari como João Silvério; Ilya São Paulo como um soldado imperial desertor; José Dumont como o comandante de um forte onde Bento Gonçalves passa um tempo preso; Othon Bastos como o Coronel Crescêncio; e Norma Geraldy como Manuela, idosa, no último capítulo.

A minissérie seria a estreia na Globo de dois atores que fariam muito sucesso nos anos seguintes, Werner Schünemann e Camila Morgado. Camila ganharia o Prêmio Austragésilo de Athayde de atriz revelação, e faria tanto sucesso que todos os dias a emissora recebia dezenas de cartas e e-mails pedindo para que o final da história fosse alterado e Manuela se casasse com Garibaldi. Outra atriz bastante elogiada pela crítica e pelo público, apesar de seu personagem detestável, seria Nívea Maria, que ganharia o prêmio de Melhor Atriz da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Outro ator premiado seria Thiago Lacerda, que receberia o Prêmio INTE, considerado o Oscar da televisão latino-americana, de melhor ator.

As filmagens ocorreriam no Rio de Janeiro e em quatro cidades gaúchas: Cambará do Sul, São José dos Ausentes, Pelotas e Uruguaiana - o que também levou a críticas de historiadores, já que as batalhas da Guerra dos Farrapos ocorreram próximo à Lagoa dos Patos, e não na Serra Gaúcha, e, na minissérie, os personagens cobriam distâncias de centenas de quilômetros, como de Pelotas a Laguna, em pouco tempo se comparado com o que realmente levava na época. Cerca de 2500 pessoas viajaram até o Rio Grande do Sul especialmente para as filmagens, que durariam 40 dias; os figurantes, cerca de 150 a cada cena de batalha, seriam contratados nas próprias cidades onde as filmagens estavam ocorrendo. Para representar a Estância da Barra, onde as mulheres da família de Bento Gonçalves ficaram em isolamento, seria usada a Charqueada São João, fazenda na cidade de Pelotas com um casarão colonial construído em 1810. Todos os atores do elenco principal tiveram aulas de equitação, esgrima, tiro, tradições gaúchas, prosódia (para que os que tinham sotaque de outras regiões do Brasil conseguirem amenizá-lo) e assistiram palestras sobre a Revolução Farroupilha.

Apesar de ter destaque na minissérie, a cidade catarinense de Laguna não seria usada como locação, com suas cenas sendo filmadas no Rio de Janeiro. No Projac, em Jacarepaguá, seriam construídas ruas que lembravam as históricas de Pelotas, Porto Alegre, Caçapava e Laguna, além das áreas externas das estâncias; para obter o tom amarelado característico da região, seriam espalhadas pelo chão cascas de arroz. O cenário que reproduzia a parte interna da estância também seria construído no Projac, ocuparia 400 m2, e era composto por cinco quartos, adega, cozinha, biblioteca, capela, pátio, sala de estar com lareira, sala de jantar e banheiro, todos com ornamentos e pinturas envelhecidos propositalmente, para parecer que foram desgastados pelo tempo. Todos os objetos de cena, desde os móveis até as cuias de chimarrão, passando pelas cerâmicas, flâmulas e bandeiras, seriam produzidos pela equipe de cenografia da Globo especialmente para a minissérie, sem ser usado qualquer objeto original de época. O maior destaque da cenografia foi o diário de Manuela, no qual a personagem aparecia escrevendo de forma intercalada com as cenas da minissérie; o diário realmente contava toda a história da minissérie, sendo mostrados em destaque os trechos narrados por Camila Morgado, e foi escrito por um calígrafo especialmente contratado para a função.

Uma das cenas mais complexas foi a de um grupo liderado por Garibaldi levando dois barcos por terra, com a ajuda de carros de boi. Seriam construídas para ela pesadas rodas de madeira, de 1,80 m de diâmetro, que seriam atreladas às embarcações, apenas um pouco menores que as originais da Revolução, e então puxadas por 48 bois. Um dos barcos, o Seival, seria construído no Rio de Janeiro e levado desmontado até Uruguaiana, onde ocorreria sua montagem; o outro, o Farroupilha era uma embarcação encontrada pela produção na região nos primeiros dias de filmagem, e adaptada para ficar mais parecida com o Farroupilha original. Dizem os registros históricos que, no dia do transporte, estava chovendo; para que não fosse necessário esperar um dia em que estivesse chovendo para filmar, seriam usados oito carros-pipa, que jogariam água para cima na direção dos atores e embarcações.

Escrita por Maria Adelaide Amaral e Walther Negrão, com colaboração de Lúcio Manfredi e Vincent Villari, direção de Teresa Lampreia e Marcos Schechtman, e direção geral de Jayme Monjardim, A Casa das Sete Mulheres teria 51 capítulos, exibidos entre 7 de janeiro e 8 de abril de 2003 - curiosamente, a data original prevista para a exibição do último capítulo seria 4 de abril, uma sexta-feira, como é convencional, mas problemas com a grade de programação causados pela exibição de jogos de futebol o acabariam empurrando para o dia 8, a terça-feira da semana seguinte. A minissérie seria uma das mais premiadas da história da televisão brasileira, levando o Grande Prêmio da Crítica da APCA, o Troféu Imprensa de Melhor Programa, e o INTE de Melhor Minissérie, com Monjardim levando o de Melhor Diretor.

A abertura imitava um mapa antigo, mostrando cenas da minissérie e os rostos dos principais atores junto a seus nomes, com o título trazendo a imagem das "sete mulheres" - Ana Joaquina, Maria e Rosário do lado esquerdo, Manuela, Perpétua, Dona Caetana e Mariana do lado direito, o que em sempre achei estranho, já que, na minha opinião, faria mais sentido as mais velhas de um lado e as mais novas do outro. A trilha sonora ficaria a cargo de Marcus Vianna, que também comporia o tema de abertura, executado pela Transfônika Oskestra. A trilha instrumental composta por Vianna acabaria sendo lançada pelo selo Sonhos e Sons, do próprio compositor, com o nome de Sete Vidas, Amores e Guerras, mas, para aproveitar o sucesso da minissérie, a Globo prepararia um CD de trilha sonora ao estilo dos das novelas, lançado pela Som Livre com Thiago Lacerda na capa, e que trazia, dentre outros, Gal Costa, Zizi Possi, Milton Nascimento, Flávio Venturini, Leila Pinheiro e Agnaldo Rayol. Duas curiosidades dessa trilha são a presença de duas músicas da peruana Adriana Mezzadri, e La Media Vuelta, cantada por Rodrigo Faro, no elenco como Joaquim.

O livro de Wierzchowski era um lançamento recente quando a minissérie foi produzida, e o sucesso desta ajudou alavancar suas vendas - até o início da exibição, o livro havia vendido 13 mil exemplares, mas, apenas nas três primeiras semanas da minissérie, vendeu mais 30 mil. A minissérie também aumentaria as vendas de livros que falavam sobre a Revolução Farroupilha e sobre a história do Rio Grande do Sul em geral, e estimularia o turismo no estado, especialmente na Serra Gaúcha. O sucesso da minissérie também levaria ao lançamento de uma série de cartões telefônicos com suas cenas, e ao de um outro livro chamado A Casa das Sete Mulheres, de Valentina Nunes, lançado pela Globo ainda em 2003, que trazia fotografias da minissérie de seus bastidores. A TV Bandeirantes também tentaria pegar uma carona nesse sucesso, reexibindo, ainda em 2003, em formato de minissérie, o filme A Guerra dos Farrapos, de 1985, que trazia Nelson Xavier como Bento Gonçalves e Herson Capri como Garibaldi.

A Casa das Sete Mulheres seria lançada em DVD, em forma condensada, em 2004. Dois anos depois, entre 15 de agosto e 22 de setembro de 2006, seria reexibida, também em versão compacta, pela Globo. Uma nova reexibição ocorreria entre 21 de agosto e 4 de outubro de 2012, mas apenas no Distrito Federal e no sinal captado por antenas parabólicas, para preencher um buraco na programação criado pelo Horário Eleitoral Gratuito - que não seria exibido no DF nem pelas parabólicas no período. A minissérie também seria exibida na íntegra pelo canal Viva três vezes, entre 18 de maio e 27 de julho de 2010, entre 26 de junho e 5 de setembro de 2013, e entre 3 de janeiro e 14 de março de 2022. Desde agosto de 2022, ela também pode ser encontrada no catálogo do serviço de streaming Globoplay.

Em 2024, foi anunciado que o livro de Wierzchowski ganharia uma nova adaptação, mais curta e talvez mais fiel, produzida pela Boutique Films e escrita por Angela Chaves, da série Pedaço de Mim, da Netflix. Até eu publicar esse texto ("até o fechamento dessa edição") eu ainda não havia encontrado mais informações sobre data de estreia, número de episódios, elenco, ou em qual canal essa nova versão seria exibida.
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sábado, 30 de agosto de 2025

Escrito por em 30.8.25 com 0 comentários

A Muralha

Como eu disse aqui recentemente, em 2020 eu fiz uma série sobre novelas, que não foi planejada, no sentido de que eu não escolhi antecipadamente sobre quais novelas eu iria falar a cada mês, as escolhendo quando estava na hora de escrever cada post. Mas eu me lembro que, em determinado momento, eu cogitei falar sobre A Muralha e A Casa das Sete Mulheres, que não foram novelas, mas minisséries, marcando os posts na categoria Novelas mesmo assim. Não me lembro bem o porquê de eu ter desistido, provavelmente eu lembrei de novelas sobre as quais eu gostaria mais de falar do que dessas minisséries, mas o fato é que, como eu não falei mais sobre novelas, também não cogitei mais falar sobre as minisséries.

Quando eu estava escrevendo o post sobre Pantanal, entretanto, eu me lembrei desse fato, e achei que seria legal se, no próximo espaço disponível - ou seja, na primeira semana em que eu não tivesse um assunto escolhido com antecedência - eu realmente fizesse um post sobre A Muralha, uma minissérie que eu adorei, mesmo que realmente o colocasse na categoria Novelas. Pois bem, como vocês devem estar imaginando, o primeiro espaço disponível desde que eu tive essa ideia caiu no dia de hoje, que é dia de A Muralha no átomo!

No início da década de 1980, a Globo passaria a produzir minisséries, que seriam exibidas na faixa das 22h, substituindo séries e filmes norte-americanos que costumavam ocupar o horário, visando não somente economia, já que as taxas de licenciamento e os gastos com dublagem desses importados crescia a cada ano, mas também uma maior produção de material nacional que pudesse reverter em lucro e notoriedade para a emissora. As minisséries se diferenciariam das novelas não somente por terem bem menos capítulos - algumas têm apenas 4 ou 5, a maioria tem entre 20 e 30, enquanto uma novela pode ter mais de 200 - mas também por serem obras fechadas: uma novela vai sendo escrita e filmada enquanto seus capítulos estão indo ao ar, não sendo incomum que mudanças sejam feitas na história ou até mesmo no elenco no decorrer da exibição, motivadas por aceitação ou rejeição do público, ou aumento ou declínio dos índices de audiência; uma minissérie, por outro lado, já tem seu roteiro pronto quando as filmagens começam, e normalmente só vai ao ar depois que todos os episódios já foram filmados.

A primeira minissérie produzida pela Globo seria Lampião e Maria Bonita, de Aguinaldo Silva e Doc Comparato, estrelada por Nelson Xavier e Tânia Alves, com 8 capítulos exibidos entre 26 de abril e 5 de maio de 1982. Um grande sucesso de audiência e vencedora da medalha de ouro no Festival Internacional de Cinema e Televisão de Nova York, Lampião e Maria Bonita seria a primeira de três minisséries que a emissora havia programado para aquele ano, com Avenida Paulista, de Daniel Más e Leilah Assumpção, com 17 capítulos, estreando em 10 de maio, e Quem Ama Não Mata, de Euclydes Marinho, com 20 capítulos, estreando em 12 de julho, ambas também tendo boa audiência. Graças a elas, a produção de minisséries nos anos 1980 seria profícua, com uma média de três a cinco delas sendo exibidas por ano, dentre elas os grandes sucessos Rabo de Saia (1984), O Tempo e o Vento, Tenda dos Milagres, Grande Sertão: Veredas (as três de 1985) e Anos Dourados (1986). Como se pode notar, nem todas eram textos originais, com algumas sendo adaptações para a TV de clássicos da literatura brasileira.

A década de 1990 subiria ainda mais a barra: como as minisséries de sucesso eram mais facilmente vendidas para o exterior que as novelas, principalmente por terem menos capítulos, a Globo decidiria caprichar ainda mais em sua produção, com as minisséries dessa década, na qual as novelas ainda eram um produto, digamos, artesanal, não devendo em nada a grandes produções internacionais. Se destacam na década de 1990 as minisséries Desejo, Riacho Doce (ambas de 1990), O Sorriso do Lagarto (1991), As Noivas de Copacabana, Anos Rebeldes (ambas de 1992), Agosto (1993), Engraçadinha: Seus Amores e Seus Pecados (1995), Guerra de Canudos (1997), Dona Flor e Seus Dois Maridos, Hilda Furacão (ambas de 1998) e Chiquinha Gonzaga (1999). Algumas das minisséries da década de 1990 também eram quase "mininovelas", já que tinham bem mais capítulos que o normal para esse tipo de produção - Hilda Furacão teve 32, Chiquinha Gonzaga, 38, Riacho Doce, 40, e a mais longa da década foi O Sorriso do Lagarto, com 52.

Aqui chegamos no ponto que interessa, já que Chiquinha Gonzaga, exibida entre 12 de janeiro e 19 de março de 1999, inauguraria uma espécie de "faixa fixa de minisséries", entre janeiro e março, no que eram consideradas as "férias" da programação da Globo - desde meados da década de 1980, a faixa das 22h já não era majoritariamente ocupada por importados, e sim por programas produzidos pela própria Globo, a maioria deles humorísticos, que, entre janeiro e março, não eram exibidos, para que seus atores e equipes de produção não precisassem trabalhar 12 meses por ano. A Muralha, sobre a qual eu prometo que vou começar a falar daqui a pouco, seria a segunda a ocupar essa faixa, em 2000; nos anos seguintes, teríamos Os Maias (2001), O Quinto dos Infernos (2002), A Casa das Sete Mulheres (2003), Um Só Coração (2004), Mad Maria (2005), JK (2006) e Amazônia, de Galvez a Chico Mendes (2007). Como precisavam ficar no ar por três meses, essas minisséries também eram mais longas que o normal, tendo em torno de 50 capítulos cada; e é importante salientar que sua produção não implicava que outras minisséries também não fossem produzidas com outros destaques da década sendo Presença de Anita (2001, 16 capítulos), Hoje é Dia de Maria (2005, 8 capítulos), A Pedra do Reino (2007, 5 capítulos) e Aquarela do Brasil, que teve nada menos que 60 capítulos, sendo a mais longa minissérie da história e ocupando quase todo o segundo semestre de 2000, quando foi exibida entre 22 de agosto e 1 de dezembro.

Em 2001, com a estreia do programa Big Brother Brasil na faixa das 22h, as minisséries seriam definitivamente movidas para uma faixa ainda mais tarde, a das 23h, já ocupada por algumas minisséries que estrearam entre abril e dezembro em anos anteriores. Em 2008, com o grande sucesso do BBB e um declínio na audiência das minisséries de janeiro-março, a Globo reformularia a faixa, com Queridos Amigos tendo apenas 25 capítulos e sendo exibida entre 18 de fevereiro e 28 de março; essa seria a última minissérie produzida especificamente para ocupar as férias da programação, encargo que recairia somente sobre o BBB nos anos seguintes, com a minissérie de 2009, Maysa: Quando Fala o Coração, tendo apenas 9 capítulos, exibidos entre 5 e 16 de janeiro. Desde então, a Globo produz minisséries de forma esparsa, sempre as levando ao ar na faixa das 23h, podendo ser citadas como destaques Som & Fúria (2009), O Canto da Sereia (2013), e Justiça (2016). Desde 2011, também é comum a Globo pegar um filme do qual foi co-produtora e dividi-lo em 4 episódios, exibindo-o como uma minissérie, como, por exemplo, Chico Xavier (2011), Xingu (2012), O Tempo e o Vento (2013), Tim Maia: Vale o que Vier (2015), Elis - Viver é Melhor que Sonhar (2019) e Marighella (2023).

Pois bem, A Muralha, de Maria Adelaide Amaral, que teve 51 capítulos exibidos entre 4 de janeiro e 31 de março de 2000, foi produzida para comemorar os 500 anos do então chamado Descobrimento do Brasil. A minissérie seria inspirada em um livro também chamado A Muralha, escrito por Dinah Silveira de Queiroz, publicado em 1954, e que, por sua vez, originalmente foi publicado em capítulos semanais na revista O Cruzeiro, que contratou a autora para escrevê-lo em homenagem aos 400 anos da cidade de São Paulo. A minissérie da Globo seria a quinta adaptação desse livro para a televisão, com as outras quatro sendo novelas, cada uma produzida por uma emissora diferente: a primeira, ainda de 1954, pela TV Record, a segunda, de 1958, pela TV Tupi, a terceira, de 1963, pela TV Cultura, e a quarta, de 1968 e escrita por Ivani Ribeiro, pela TV Excelsior.

A muralha que dá título ao livro, às novelas e à minissérie é a Serra do Mar, cadeia montanhosa que se estende por cerca de 1500 km desde o Rio de Janeiro até o Rio Grande do Sul, que podia ser vista pelos portugueses que estavam desembarcando de seus navios, e era considerada um obstáculo intransponível para a colonização do interior do Brasil até bandeirantes que se aliaram a indígenas, liderados por Borba Gato, encontrarem uma trilha, que levou à descoberta de ouro e à Guerra dos Emboabas, um dos episódios mais sangrentos da história de nosso país, na qual centenas de indígenas morreram em um conflito travado de 1707 a 1709 entre dois grupos diferentes de colonizadores, um formado pelos bandeirantes paulistas que descobriram o caminho e outro por portugueses que vieram depois de olho nas riquezas recém-descobertas e se aliaram a colonos que viviam no nordeste. Muitos detalhes da Guerra dos Emboabas são obscuros devido à falta de registros, incluindo o próprio nome do conflito - sendo a teoria mais aceita a de que emboaba seria uma corruptela do termo em tupi para "invasores".

A Muralha é ambientada pouco antes da Guerra dos Emboabas, e narra os eventos que levaram ao conflito, mas de forma fictícia, usando apenas personagens inventados e situações que não temos como saber se realmente aconteceram ou não. A trama gira em torno da família do bandeirante Dom Braz Olinto, que mora na fazenda Lagoa Serena, já após transpor a Muralha, na então Vila de São Paulo dos Campos de Piratininga, que viria a evoluir até se tornar a cidade de São Paulo. Por opção da autora do livro, as verdadeiras protagonistas da histórias eram as mulheres; o papel das mulheres na colonização do Brasil jamais foi verdadeiramente abordado em nenhuma produção, o que fez com que o livro fosse considerado revolucionário na época, se tornando objeto de estudos das ciências sociais.

Na minissérie, Dom Braz (Mauro Mendonça) tem como principal negócio a captura e venda de indígenas como escravos, e, para isso, ele conseguiu fazer aliança com uma das tribos, que o guia pelos caminhos da floresta até terras jamais visitadas pelos colonizadores, onde ele ataca e sequestra indígenas que jamais tiveram contato com a chamada civilização. Dom Braz é casado com Mãe Cândida (Vera Holtz), que assume a administração da fazenda quando os homens estão fora; afetuosa porém contida, ela busca atender a todas as necessidades do marido e dos filhos, colocando as prioridades dos homens da fazenda acima de tudo, até mesmo da justiça e da religião, pois crê que essa é a única forma pela qual os Olinto conseguirão triunfar nessa terra inóspita.

Dom Braz e Mãe Cândida possuem quatro filhos. O mais velho, Leonel (Leonardo Medeiros), tem o pai como herói, segue todos os seus passos e acredita que essa é a chave para que a família tenha prosperidade; Leonel é casado com a meiga e sensível Margarida (Maria Luísa Mendonça), que tem saúde frágil e se ressente por não conseguir engravidar, já que, por seus critérios, seu casamento só será completo quando o casal tiver um filho. A segunda filha de Dom Braz, Basília (Deborah Evelyn), é mais forte e decidida, mas carrega uma mágoa muito maior: seu filho, Pedro, desapareceu na floresta quando tinha 13 anos de idade, acompanhando Dom Braz numa expedição; Basília culpa o pai pelo infortúnio, e, mesmo já tendo se passado muito tempo, acredita que o filho está vivo e será encontrado. Basília é casada com Afonso Góis (Celso Frateschi), melhor amigo de Leonel e que também acha que o método de Dom Braz é o melhor para obter sucesso na colônia. Já a caçula de Dom Braz, Rosália (Regiane Alves), é uma adolescente romântica e sem nada na cabeça, que não se importa com indígenas ou colônias, e quer viver um grande amor.

O filho que eu deixei por último é Tiago (Leonardo Brício), de certa forma o mais importante para a história. Educado pelos Jesuítas, Tiago tem pensamentos renascentistas e é contra a exploração dos indígenas, frequentemente entrando em conflito com o pai. Tiago também acredita que o futuro da família está na exploração do ouro, que ninguém nunca viu na colônia, sendo considerado, portanto, uma lenda e uma busca desnecessária. Com medo de que Tiago se case com uma mestiça, ou, pior ainda, com uma indígena, Dom Braz manda vir uma noiva para ele de Portugal, a doce Beatriz (Leandra Leal), que desembarca cheia de sonhos e completamente apaixonada pelo noivo que nunca viu - e que a despreza, vendo no casamento mais uma imposição estúpida de seu pai. Inicialmente pouco talhada à vida na colônia, ao longo da minissérie Beatriz vai se mostrando uma mulher de muita fibra, disposta a tudo para alcançar seus objetivos.

A família de Dom Braz se completa com Isabel (Alessandra Negrini), considerada por todos como sua sobrinha, mas com a suspeita de que seja sua filha. Mestiça de um português com uma indígena, Isabel é linda, forte e muito brava, se vestindo de armadura e indo para a floresta acompanhar Dom Braz, que a considera "seu melhor soldado", mais valente e competente que qualquer um dos homens do grupo. Isabel é apaixonada por Tiago, com quem tem uma relação de amor e ódio, já que, livre das amarras da sociedade, ela não se importa em demonstrar que quer ter relações sexuais com ele, que, a vendo como prima (e talvez irmã) e mulher solteira, fica incomodado com esse comportamento. Também merecem ser citados o indígena Apingorá (André Gonçalves), melhor amigo de Tiago e líder da tribo que fez aliança com os Olinto, que sabe ler e escrever em português e serve como guia de Dom Braz em suas expedições; e Aimbé (Enrique Diaz), mestiço e meio-irmão de Isabel por parte de mãe, que trabalha para Dom Braz mas se ressente de não ser tratado como branco como ela.

No mesmo navio que traz Beatriz (no primeiro capítulo) também vêm três outros personagens importantes: a prostituta Antônia (Cláudia Ohana), o ingênuo padre Miguel (Matheus Nachtergaele) e Ana (Letícia Sabatella), uma doce e meiga cristã-nova (nasceu judia mas se converteu ao cristianismo) que vem ao Brasil cumprir uma promessa e se casar com Dom Jerônimo (Tarcísio Meira), homem muito mais velho que ela e extremamente religioso. Vilão e um dos destaques da minissérie, Dom Jerônimo é um riquíssimo comerciante rival de Dom Braz, que, hipócrita, usa sua religiosidade como escudo para cometer todo tipo de perversão e ato indizível, sem que jamais suspeitas recaiam sobre ele. Em suas mãos, Ana sofrerá todo tipo de tortura, já que ele não acredita em sua conversão - de fato, o pai da moça se converteu e a entregou em casamento apenas para não ser queimado na fogueira - e planeja testar sua fé de formas que só a Inquisição sabe fazer, auxiliado por sua governanta, Leonor (Ada Chaseliov), tão cruel quanto ele.

Quando Ana chega ao Brasil, é recepcionada por Dom Guilherme (Alexandre Borges), dono de um engenho de açúcar que faz comércio com Dom Jerônimo e a abriga em sua casa antes de levá-la ao futuro marido; os dois se apaixonam, e, com a ajuda de Antônia, se encontram em segredo e tramam uma forma de libertar a moça de seu cativeiro. Antônia, que veio para a colônia achando que iria conseguir um bom casamento, já que aqui havia mais homens que mulheres brancas, consegue nada menos que cinco pretendentes: Mestre Davidão (Pedro Paulo Rangel), rico comerciante a quem ela rejeita por também ser cristão-novo; Dom Bartolomeu (Cecil Thiré), o ouvidor da capitania, enviado pela Coroa Portuguesa, que se orgulha de ter cursado Letras em Coimbra; Dom Gonçalo (Edwin Luisi), o barbeiro e dentista da Vila de São Paulo; Dom Cristóvão (Sérgio Mamberti), vereador que acredita que sua posição política lhe garante privilégios; e Dom Falcão (Emiliano Queiroz), o alfaiate e fofoqueiro local.

Enquanto não decide com quem vai se casar, Antônia se engraça com Bento Coutinho (Caco Ciocler), que vende os indígenas que Dom Braz captura; cafajeste e sedutor, Bento tem inveja da fortuna de Dom Braz, infiltra em sua equipe um espião (Irving São Paulo) e se aproveita de sua posição social para fazer negócios escusos com Frei Carmelo (Cacá Carvalho), religioso que adora mais ao dinheiro do que a Deus. Para desespero de Mãe Cândida, Rosália é perdidamente apaixonada por Bento, vendo nele seu príncipe no cavalo branco, que a levará para sua tão sonhada vida de princesa na colônia. Essa paixão faz com que a moça rejeite seu pretendente oficial, Vasco Antunes (Ângelo Antônio), filho de João Antunes (Carlos Eduardo Dolabella), bandeirante rival de Dom Braz, que planeja o casamento para unir as duas famílias; Vasco, porém, é apaixonado por Beatriz, e vive tentando convencê-la a abandonar Tiago, com o argumento de que ele não lhe dá atenção.

Já o Padre Miguel, que começa a trabalhar ao lado do mais velho e experiente Padre Simão (Paulo José), logo vê que sua ideia de como era a vida na colônia e a catequização dos indígenas estava em choque com a realidade, e acaba se apaixionando por Moatira (Maria Maya), indígena capturada durante uma das expedições de Dom Braz, vendida a Dom Jerônimo, que a estuprou seguidamente, e salva pelos padres, que a levaram para morar na igreja, onde planejavam ensiná-la a ler e escrever. No núcleo indígena, também merecem ser citados os personagens Genoveva (Ewriges Ribeiro), indígena que trabalha como empregada dos Olinto; os jovens Parati (João Pedro Roriz) e Tuiú (Patrick de Oliveira), que vivem em Lagoa Serena; e Caraíba (Stênio Garcia), pajé mitológico que viaja pelo Brasil visitando várias tribos e agindo como oráculo. Participações especiais incluem José de Abreu como o Inquisidor-Mór; José Wilker como Dom Diogo, governador geral da capitania; e Luís Melo como Dom Manuel Nunes Viana, português que vem ao Brasil lutar pelo fim da escravização dos indígenas, inspirado em um personagem real de nossa história.

Escrita por Maria Adelaide Amaral com colaboração de Vincent Villari e João Emanuel Carneiro, direção de núcleo de Denise Saraceni, e dirigida por Alexandre Avancini, Luiz Henrique Rios e Carlos Araújo, A Muralha contaria, em sua produção, com o apoio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), com diversos indígenas participando como figurantes e extras, e pajés e caciques atuando como consultores, principalmente para a confecção de objetos cênicos, de adereços e das ocas. A minissérie seria quase que integralmente filmada nos estúdios da Globo no Projac, em Jacarepaguá, Rio de Janeiro, onde seriam contruídas a Vila de São Paulo, que ocuparia uma área de 10 mil km2, com mais de 450 caminhões de terra sendo usados para corrigir um desnível no terreno, e três aldeias indígenas, uma delas com quatro ocas totalmente funcionais - para construir as ocas, teria de ser recuperada a técnica da taipa de pilão, usada na época para fazer as paredes desse tipo de construção, hoje em dia não mais encontrada.

Lagoa Serena, considerada o mais trabalhoso de todos os cenários, seria construída em uma fazenda no município de Cachoeira de Macacu, no interior do estado do Rio de Janeiro; seriam construídos lá, do zero, um depósito de munições, uma senzala e a casa da família Olinto, que ocupava 320 m2. Para cenas envolvendo animais da fauna nativa, como araras, capivaras, onças, macacos e cobras, a produção contaria com o apoio do Ibama, que disponibilizaria uma bióloga e um veterinário que acompanhavam os animais durante as gravações. A cena da caravela que traz Beatriz, Antônia, Ana e o Padre Miguel de Portugal para o Brasil, exibida no primeiro capítulo, seria gravada em Pensacola, Estados Unidos, onde se localiza a Fundação Colombo, voltada à construção de réplicas de embarcações usadas na época das Grandes Navegações; a nau usada na minissérie, considerada a mais perfeita de todas as réplicas, também havia sido usada no filme 1492: A Conquista do Paraíso, de 1992.

Originalmente, Tarcísio Meira seria convidado para interpretar Dom Braz, mas, após ler alguns capítulos, pediria para interpretar Dom Jerônimo, pela oportunidade de interpretar um vilão, algo raro em sua carreira. Tarcísio acabaria fazendo um vilão memorável, que entraria para a galeria dos mais detestáveis da história da televisão. Outros atores extremamente elogiados seriam Alessandra Negrini, Leonardo Brício, Matheus Nachtergaele, que, no ano anterior, já havia conquistado a crítica com sua interpretação de João Grilo em O Auto da Compadecida, e Maria Maya, inicialmente alvo de boatos de que só havia sido escolhida para o papel de Moatira por ser filha do diretor Wolf Maya, depois criticada por, aos 18 anos, estar em um papel de forte apelo sexual, já que aparecia em três quartos de suas cenas com os seios à mostra, mas que, ao final, seria incensada e reconhecida como atriz de talento, infelizmente conseguindo poucos papéis de destaque depois de A Muralha.

A opção de Tarcísio pelo papel do vilão levaria a Globo a chamar Mauro Mendonça, que já havia interpretado Dom Braz na versão da TV Excelsior, de 1968, o que levaria à diferença de que, na versão da Excelsior, Dom Braz e Mãe Cândida seriam bem mais jovens, já que Mendonça tinha 37 anos e Fernanda Montenegro, que então interpretava sua esposa, 38, enquanto, na versão da Globo, Mendonça tinha 68 anos, e Vera Holtz, 46. Vale citar também como curiosidade que, na versão da Excelsior, Isabel era interpretada pela atriz Rosamaria Murtinho, na época com 35 anos (Alessandra Negrini na versão da Globo tinha 29), que era esposa de Medonça na vida real desde 1959. Outros nomes famosos da versão da Excelsior foram Gianfrancesco Guarnieri como Leonel, Nicette Bruno como Margarida, Nathalia Thimberg como Basília, Paulo Goulart como Bento Coutinho, Paulo Celestino como Mestre Davidão, Cláudio Corrêa e Castro como Dom Manuel, e Stênio Garcia, único além de Mendonça a participar de ambas as versões, como Aimbé.

A trilha sonora, inteiramente instrumental, seria composta por Sérgio Saraceni especialmente para a minissérie, com exceção da música de abertura, Floresta do Amazonas, de Heitor Villa-Lobos - a abertura, aliás, era bastante simples, mostrando um sobrevoo da Serra do Mar enquanto os nomes do elenco "passavam voando" em ordem alfabética; o logotipo mostrava a Serra do Mar conforme vista do litoral de São Paulo, com o nome "A Muralha" acompanhando a cadeia de montanhas. De forma incomum para uma trilha instrumental de uma minissérie, a trilha sonora de A Muralha seria lançada pela Som Livre, com o logotipo da minissérie na capa.

A Muralha superaria todas as expectativas da Globo em termos de repercussão e audiência, e acabaria vendida para Costa Rica, Chile, Guatemala, Letônia, Moçambique, Nicarágua, Paraguai, Peru, Portugal, República Dominicana e Venezuela. Em 2002, como parte de um teste da Globo para o formato, que acabaria não vingando, seria oferecida on demand em serviço de pay per view; no mesmo ano, seria lançada, de forma compactada, em DVD. A minissérie seria reexibida três vezes, a primeira em 2004, na própria Globo, em um compacto de 39 capítulos, e as outras duas, na íntegra, no canal Viva, em 2011 e 2013. Desde 2023, ela também se encontra na íntegra no catálogo do Globoplay.
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sábado, 12 de abril de 2025

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Pantanal

Em 2020, eu fiz aqui uma série de posts falando sobre novelas. Não era minha intenção fazer uma série, apenas falar sobre Que Rei Sou Eu?, de forma que foi tudo resolvido meio no improviso, comigo escolhendo as novelas sobre as quais iria falar conforme decidia escrever os posts. Também não era minha intenção nunca mais falar sobre novelas depois disso, até planejava fazer um ou outro posts de vez em quando, mas a verdade é que eu não me animei a escrever mais nenhum.

Recentemente, entretanto, minha esposa começou a assistir Pantanal, a nova versão, de 2022, no Globoplay. Eu nunca assisti à Pantanal original, principalmente porque, quando ela foi exibida, em 1990, apesar de ela ter estreado depois de minha mãe já ter liberado eu e minha irmã para assistirmos novelas das 8 - antes disso, só podíamos assistir das 6 e das 7 - ela passava na Manchete, começava mais tarde que a novela das 8 da Globo (que, na época, era Rainha da Sucata, primeira novela das 8 que eu assisti) e era "cheia de mulher pelada", então minha mãe manteve seu veto para essa novela específica, e não deixou a gente assistir. Eu me lembro, porém, do hype, como se diz hoje, e sei da importância de Pantanal para a história da televisão e das novelas brasileiras, de forma que ela me parece um excelente assunto para um post. Portanto, hoje é dia de Pantanal no átomo!

Pantanal é uma novela de Benedito Ruy Barbosa, que, após uma bem sucedida carreira escrevendo novelas das 8 entre 1966 e 1970 para as TVs Excelsior, Tupi e Record, seria contratado pela Globo, estreando na emissora em 1971 com a novela das 6 Meu Pedacinho de Chão. Apesar de sempre pedir para retornar à faixa das 8, a Globo, que na época tinha escrevendo para o horário nobre medalhões como Janete Clair, Lauro César Muniz e Gilberto Braga, só encomendava a ele mais novelas das 6, tendo sido também de sua autoria para essa faixa de horário O Feijão e o Sonho (1976), À Sombra dos Laranjais (1977) e Cabocla (1979). Insatisfeito por não ter seu desejo atendido, ele trocaria a Globo pela Bandeirantes, onde escreveria Pé de Vento e o gigantesco sucesso Os Imigrantes, que motivaria a Globo a recontratá-lo com a promessa de que ele teria a chance de escrever uma novela das 8 - que a emissora acabaria não cumprindo, com suas duas novelas seguintes, Paraíso (1982) e Voltei pra Você (1983) também sendo novelas das 6.

Quando foi recontratado pela Globo, entretanto, Benedito começaria a escrever Amor Pantaneiro, um drama familiar repleto de realismo fantástico ambientado no Pantanal matogrossense, que ele planejava ser sua primeira novela das 8. Ele a ofereceria à Globo em 1984, quando, na faixa das 6, era exibida a novela Livre Para Voar, de Walther Negrão. A Globo ficaria receosa em aprovar a produção, e acabaria convencendo Benedito a adaptar a história para que ela se tornasse mais uma novela das 6, o que ele, relutantemente, aceitou. Fortes chuvas levariam a uma cheia histórica que impossibilitariam as gravações no Pantanal, porém, e Amor Pantaneiro acabaria engavetada, com Livre Para Voar sendo substituída por A Gata Comeu, de Ivani Ribeiro, e Benedito escrevendo em seguida Sinhá Moça (1986) e Vida Nova (1988), ambas, também, novelas das 6.

A partir da metade da década de 1980, a Rede Manchete também passaria a investir na produção de novelas, começando por Antônio Maria, de 1985, seguida por Dona Beija, Novo Amor, Tudo ou Nada, Mania de Querer, Corpo Santo, Helena, Carmem, Olho por Olho e Kananga do Japão. Nenhuma delas sequer arranharia a audiência da Globo, com até mesmo a mais bem sucedida dessa lista, Dona Beija, protagonizada pela lindíssima Maitê Proença praticamente pelada em todos os episódios, tendo média nacional de 12 pontos de audiência, enquanto sua concorrente na Globo, o remake de Selva de Pedra, marcava em média 40 pontos. Enquanto Kananga do Japão estava no ar, o produtor Alexandre Ishikawa descobriria que Benedito tentava há tempos escrever uma novela das 8 e não conseguia, e, como todas as novelas da Manchete iam ao ar às 9, sugeriria que o canal tentasse sua contratação. Benedito, ao ver a chance de finalmente realizar seu sonho, aceitaria e ainda levaria com ele vários atores do primeiro time da Globo, como Cláudio Marzo, Nathália Timberg e Cássia Kiss, que tinham interesse em participar de sua novela.

As filmagens começariam em dezembro de 1989, e ocorreriam no Pantanal, em São Paulo e no Rio de Janeiro. A maioria das cenas internas seria gravada nos estúdios da Manchete, em Vista Alegre, no Rio de Janeiro, com exceção das ambientadas no interior das casas de Zé Leôncio e Tenório, gravadas no Complexo de Água Grande, no bairro do Irajá. As cenas gravadas no Pantanal trariam muitas imagens inéditas na televisão brasileira, e ajudariam a popularizar vários animais da fauna local - um animal bastante comentado seria a piranha, usada na trama para matar alguns personagens com a justificativa de que não deixavam rastros, já que consumiam toda a carne enquanto os ossos iam para o fundo do rio. Um membro ilustre do elenco seria a sucuri Rafaela: com 6 metros de comprimento e pesando 90 quilos, domesticada e extremamente dócil, foi mascote do Instituto Vital Brasil, onde morou durante mais de 30 anos, e era inclusive "maquiada" para cenas nas quais a cobra que precisava ser retratada era outra, como uma jararaca, jiboia ou surucucu.

A única onça-pintada usada nas filmagens também não seria natural do local: na época, os fazendeiros matavam o animal indiscriminadamente, alegando que eles matavam seu gado e traziam prejuízos financeiros, o que levava todas as onças a se retraírem à floresta e fez com que a equipe de filmagens não encontrasse nenhuma. Como não foi possível encontrar uma onça domesticada, todas as imagens do bicho seriam filmadas no zoológico do Rio de Janeiro, e suas imagens seriam editadas para parecer que ela estava no Pantanal. De lá pra cá, a caça à onça seria proibida, e hoje o animal já pode ser facilmente encontrado no Pantanal, sendo um dos principais motivos para a visita de turistas, mas, ainda assim, se encontra na lista dos animais ameaçados de extinção. Além de não ser moradora local, a onça da novela ainda miava (não ela, mas um efeito adicionado na pós-produção dos capítulos), algo que, na natureza, é impossível, devido às características das cordas vocais do animal.

A novela também seria creditada por acender o interesse na exploração e conservação dos jacarés: em diversos diálogos, Zé Leôncio e Tenório conversam sobre a viabilidade da criação de jacarés para comercializar sua carne e couro e devolver parte dos animais à natureza; enquanto a novela estava no ar seria feito um estudo de viabilidade, e hoje a criação já é uma realidade, com o jacaré-do-pantanal tendo saído da lista dos ameaçados de extinção graças às fazendas que investem no animal. Os jacarés também seriam responsáveis por um momento tenso das gravações, quando seis jacarés do papo amarelo invadiriam as gravações de uma cena com a atriz Cristiana Oliveira, se esgueirando sem que ninguém percebesse até que ela se visse cercada, tendo de contar com a ajuda do cantor Sérgio Reis para escapar antes de ser atacada.

Sérgio Reis, aliás, faria sua estreia como ator nessa novela, interpretando Tibério, peão que era o braço-direito de Zé Leôncio. A novela também marcaria a estreia na televisão de Almir Sater, Andréa Richa, Ângelo Antônio, Giovanna Gold, Ingra Lyberato, Leandra Leal, Luciene Adami e Carolina Ferraz, que na época era jornalista e apresentadora do Programa de Domingo, não tinha interesse em fazer novela, e acabou coagida a interpretar Irma sob ameaça de demissão. Cristiana Oliveira, que muitos imaginavam também ser uma estreante, na verdade havia começado sua carreira televisiva em Kananga do Japão, e ganhado o papel de Juma Marruá após Glória Pires, convidada por telefone por Benedito Ruy Barbosa, recusá-lo; Juma lançaria Cristiana, que superaria Adriana Esteves e Deborah Bloch nos testes, ao estrelato e a transformaria em símbolo sexual, sendo, até hoje, o maior sucesso de sua carreira. Vale citar também como curiosidade que o papel de Roberto, filho de Tenório, ficaria inicialmente com Livingstone Trobilo, afilhado da primeira-dama da Manchete, Ana Bentes Bloch, mas, como não conseguiria conciliar as gravações com os estudos, ele acabaria sendo substituído pelo colega de escola Eduardo Cardoso, que seria muito elogiado pela crítica.

Dois personagens acabariam tendo de sair da novela por motivos alheios à vontade do autor: Ítala Nandi, intérprete de Madeleine, mãe do filho de Zé Leôncio, havia pedido uma autorização para o governo da Índia para gravar o documentário Índia - O Caminho dos Deuses naquele país, antes de as gravações de Pantanal começarem; a autorização seria concedida, juntamente com um gordo patrocínio, justamente quando Ítala estava gravando a novela, e, com medo de perder a oportunidade, ela pediria para sair, o que desagradaria Benedito Ruy Barbosa - segundo a atriz, ela ficaria "queimada", e ele nunca mais a chamaria para uma novela sua. Já o cantor Almir Sater, que vivia o peão Trindade, seria escalado pela Manchete para protagonizar sua novela seguinte, A História de Ana Raio e Zé Trovão, e teria de deixar Pantanal antes do fim das filmagens, quando as da novela nova começassem; curiosamente, quem faria a Ana Raio, par do Zé Trovão de Sater, seria Ingra Lyberato, que em Pantanal interpretou a Madeleine jovem, na primeira fase.

A história começa quando Zé Leôncio (Paulo Gorgulho), um peão de boiadeiro que foi morar com seu pai no Pantanal matogrossense e fez fortuna criando gado, vem ao Rio de Janeiro para cobrar uma dívida, e conhece o taxista Chico (Oswaldo Loureiro), que o leva a vários pontos turísticos da cidade, pensando em dar um golpe e ficar com o dinheiro que ele cobrou do caloteiro, e alardeando pra todo mundo que seu passageiro era "o Rei do Gado". Chico leva Zé Leôncio para jantar em um restaurante chique da zona sul, onde o peão conhece Madeleine (Ingra Liberato, que, na época, escrevia seu nome com i), moça de uma tradicional família carioca, cujo pai, Antero (Sérgio Britto), é viciado em jogo e já perdeu praticamente todo o dinheiro da família. Homem simples e rude, Zé Leôncio se apaixona pela beleza e sofisticação de Madeleine, e, de olho em seu dinheiro, Antero permite que os dois se casem, apesar dos protestos da mãe da moça, Mariana (Nathália Timberg).

Após o casamento, Zé Leôncio leva Madeleine para viver em sua fazenda no Pantanal, mas, acostumada à vida na cidade grande, ela não se adapta, e nem mesmo sua gravidez, da qual resulta um filho que o peão decide chamar de Joventino, mesmo nome de seu pai, faz com que a moça se conforme com sua nova vida. Ao escrever uma carta declarando sua insatisfação a sua irmã, Irma (Carolina Ferraz), ela motiva um amigo que é apaixonado por ela, Gustavo (José de Abreu) a viajar até o Pantanal e convencê-la a voltar ao Rio de Janeiro, trazendo a criança. Enfurecido e achando que é corno, Zé Leôncio decide viajar ao Rio de Janeiro para matar Madeleine e Gustavo e retornar para o Pantanal com seu filho, mas é convencido a deixar a criança com a mãe por Antero. Ao retornar à fazenda, ele passa a ter um caso com sua empregada, Filó (Tânia Alves), que sempre fora apaixonada por ele e tem um filho de outro relacionamento, Tadeu, que Zé Leôncio passa a criar como se fosse seu próprio filho.

Paralelamente a isso, vivem nas terras de Zé Leôncio o casal Gil (José Dumont) e Maria Marruá (Cássia Kiss), que está grávida. Gil acaba morto em uma vingança de grileiros de terra que ele enfrentou antes de se mudar para o Pantanal, e Maria dá a luz no meio do rio a uma menina chamada Juma. Segundo a lenda, quando Juma era uma criança, uma sucuri iria atacá-la, mas Maria se transformou em onça e enfrentou a cobra, poder que teria sido herdado pela menina. Amargurada, Maria criaria Juma como selvagem, sem nenhum contato com a civilização e pouquíssimo com outras pessoas.

O tempo passa, e o filho de Zé Leôncio (Cláudio Marzo) e Madeleine (Ítala Nandi), a quem todos chamam de Jove (Marcos Winter), decide ir morar com o pai no Pantanal. O jeito do rapaz de família rica da cidade grande, entretanto, faz com que Zé Leôncio pense que o filho é homossexual, e logo ele vira chacota dentre os peões da fazenda. Desgostoso, ele decide retornar ao Rio de Janeiro, mas leva consigo Juma Marruá (Cristiana Oliveira), a quem conheceu acidentalmente e por quem se apaixonou. Juma, contudo, sofre um choque cultural, e, vendo que a única forma de ficar com ela é retornando à fazenda, Jove decide provar ao pai que pode ser um autêntico peão pantaneiro, o que irrita Filó (Jussara Freire) e Tadeu (Marcos Palmeira), já que, sem Jove na jogada, Tadeu seria o herdeiro de Zé Leôncio.

Paralelamente a isso, chega ao Pantanal Muda (Andréa Richa), moça que tem esse apelido porque não fala, que logo se torna grande amiga de Juma, vai morar na casa abandonada dos Marruá, e forma um triângulo amoroso com os peões Tibério (Sérgio Reis) e Levi (Rômulo Arantes), que é mau caráter e está disposto a tudo para derrotar o rival e ficar com a moça. Muda, na verdade, é a filha do homem assassinado por Gil Marruá antes de ele se mudar para o Pantanal, e vai até lá pensando em prejudicar Juma, mas logo se vê dividida em sua lealdade devido à amizade que forma com a mulher-onça e ao amor de Tibério.

Zé Leôncio também tem um rival, o fazendeiro vizinho, Tenório (Antônio Petrin), casado com a submissa Maria Bruaca (Ângela Leal) e pai de Guta (Luciene Adami), que adora desafiar o pai e é mais sexualmente liberada do que a população do Pantanal está acostumada, sendo considerada devassa e despudorada. Ninguém sabe, mas Tenório é o verdadeiro responsável pelo assassinato do pai de Muda, que levaria à morte do pai de Juma. Também é segredo que ele possui uma segunda família em São Paulo, com uma segunda esposa chamada Zuleika (Rosamaria Murtinho) e três filhos, Marcelo (Tarcísio Filho), Renato (Ernesto Piccolo) e Roberto (Eduardo Cardoso). Ao descobrir esse fato, Maria passa a desafiar o marido e, por vingança, começa um tórrido romance com o peão Alcides (Ângelo Antônio). Quem mais sofre com a revelação é Guta, que, antes de descobrir a verdade, teria um romance com seu próprio irmão, Marcelo. Outra personagem de destaque ligada a esse núcleo seria Zefa (Giovanna Gold), empregada contratada por Tenório após Maria se revoltar e parar de cuidar da casa, que teria um romance com Tadeu.

A rivalidade entre Jove e Tadeu e seus casos amorosos seriam um dos pontos altos da novela: antes de Jove se envolver com Juma e Tadeu com Zefa, ambos teriam casos com Guta, e, antes de ir morar com o pai, Jove tinha uma namorada chamada Nalvinha (Flávia Monteiro), que, irritada por ter sido preterida, espalharia para todo mundo que ele tirou sua virgindade em um motel, o que na época era um escândalo. Para piorar a situação, mais para o meio da novela Zé Leôncio descobre que tem um filho primogênito chamado José Lucas de Nada (Paulo Gorgulho), fruto de uma noite de amor com a prostituta Generosa (Kátia D'Angelo), num bordel onde seu pai o levou quando ele completou 15 anos para que ele virasse homem, o que faria com que sua futura herança fosse ainda mais disputada.

Além da suposta habilidade de Juma se transformar em onça, a história teria outros dois elementos sobrenaturais: o misterioso peão Trindade (Almir Sater), que alguns dizem ter um pacto com o diabo, enquanto outros acreditam ser o diabo em pessoa; e o mítico Velho do Rio (também Cláudio Marzo), a quem muitos consideram ser apenas uma lenda, curandeiro que mora no interior da floresta, protege os animais ameaçados pelo homem, resgata viajantes que se perdem na mata e cuida dos atacados pela temida jararaca boca de sapo, e que supostamente teria o poder de se transformar em sucuri. Há uma desconfiança de que o Velho do Rio é na verdade Joventino (também Cláudio Marzo), o pai de Zé Leôncio, desaparecido anos antes de o peão ir ao Rio de Janeiro, enquanto caçava marruás (bois selvagens do Pantanal).

Diversos outros atores famosos da Globo fariam participações especiais, como Elaine Cristina (que interpretava Irma na segunda fase), Ivan de Almeida, Gláucia Rodrigues, Júlio Levy, Marcos Caruso, Ewerton de Castro, Sérgio Mamberti, Regina Dourado, Antônio Pitanga, Buza Ferraz, Enrique Diaz, Rubens Corrêa, Valter Santos, Totia Meirelles, Jece Valadão, Giuseppe Oristânio, Luiz Armando Queiroz, Maurício do Valle e Jofre Soares - que parece sempre fazer papel de padre, interpretando mais um no último capítulo.

A novela teria trilha sonora de Marcus Viana, que depois se tornaria famoso compondo as trilhas das novelas de Glória Perez na Globo. Diferentemente do que fazia a Globo, a Manchete não colocou nenhuma música internacional na novela, lançando dois álbuns com trilhas sonoras nacionais: o primeiro pouco após a estreia da novela, trazia, além de Sérgio Reis e Almir Sater, canções de Ivan Lins, Simone e Sá & Guarabira, dentre outros; o segundo, lançado pouco após sua metade, se aproveitaria do sucesso da novela para incluir grandes nomes da música nacional, como Maria Bethânia e Caetano Veloso, mas em sua maioria as canções seriam de Viana. A música de abertura seria da banda Sagrado Coração da Terra, que também experimentaria um surto de popularidade devido ao sucesso da novela. A abertura, aliás, trazia, em meio a imagens da natureza, uma sucuri e uma onça, que, através de truques simples de edição, sem uso de computação gráfica, se transformava na modelo (e futura atriz e apresentadora) Nani Venâncio (capa da Playboy de janeiro de 1989), que, completamente nua, mergulhava no rio e abraçava um homem que estava lá por algum motivo.

Com direção de Carlos Magalhães, Roberto Naar e Marcelo de Barreto e direção geral de Jayme Monjardim, Pantanal estrearia em 27 de março de 1990. Com 210 capítulos, estreou com média de 7 pontos de audiência, mas rapidamente chegou aos 20, com picos de 30. A partir da quarta semana, todos os seus capítulos superariam a audiência da Globo, com o último registrando 31 pontos e a média final da novela ficando em 22 pontos de audiência, a maior da história da Rede Manchete. Em 2016, a revista Veja elegeria Pantanal a quarta melhor novela da história da televisão brasileira, atrás de Vale Tudo (1988), Avenida Brasil (2012) e Roque Santeiro (1985).

Pantanal entraria para a história como a única novela a conseguir superar a programação da Globo em audiência, mas também é dito que ela superava Rainha da Sucata, o que é incorreto, já que as duas não eram exibidas no mesmo horário, com cada episódio de Pantanal começando após o capítulo do dia de Rainha da Sucata já ter terminado. Para tentar reverter a situação, inclusive, a Globo começaria a esticar os capítulos de Rainha da Sucata, e, em 15 de outubro de 1990, suspenderia sua linha de programas que iam ao ar após a novela das 8, que incluíam TV Pirata e Linha Direta, para levar ao ar em seu lugar, no mesmo horário de Pantanal, a novela Araponga, escrita por Dias Gomes, Lauro César Muniz e Ferreira Gullar, com Tarcísio Meira e Christiane Torloni, prevista originalmente para substituir Rainha da Sucata. A ideia, evidentemente, era que Araponga roubasse audiência de Pantanal, mas isso não somente não deu certo como a audiência de Araponga seria tão baixa que a Globo decidiria encurtá-la e voltar com sua programação tradicional após seu final.

Pantanal seria reprisada duas vezes pela Manchete, a primeira às 19h30, em uma versão editada e mais apropriada para o horário, entre 17 de junho de 1991 e 18 de janeiro de 1992. A segunda, sem cortes e na íntegra, seria exibida às 21h entre 26 de outubro de 1998 e 14 de julho de 1999, substituindo Brida, última novela produzida pela emissora - entre A História de Ana Raio e Zé Trovão e Brida, seriam produzidas Amazônia, Guerra sem Fim, 74.5: Uma Onda no Ar, Tocaia Grande, Xica da Silva e Mandacaru, se alguém quiser a lista completa. Segundo consta, Brida, adaptação do livro homônimo de Paulo Coelho, seria tão cara que levaria a Manchete, já mal das finanças, à falência, declarada em 17 de maio de 1999, o que faria com que a segunda reprise de Pantanal fosse concluída já pela Rede TV!, sua sucessora.

Após a falência da Manchete, os direitos sobre o texto de Pantanal voltariam para Benedito Ruy Barbosa, que os negociaria com a Globo. De início, a emissora não demonstraria interesse, mas, após dois remakes de novelas de Benedito, Cabocla (2004) e Sinhá Moça (2006), se tornarem grandes sucessos na faixa das 6, a Globo começaria a negociar com Benedito para que ele adaptasse o texto e Amor Pantaneiro finalmente fosse ao ar, em 2008. Enquanto esse projeto estava em desenvolvimento, entretanto, o SBT, na surdina, sem anunciar nada a ninguém, começaria a reprisar Pantanal, com cada capítulo começando quando a então novela das 8 da Globo, A Favorita, terminasse. Sílvio Santos faria questão de manter a estreia da reprise em segredo, com apenas os profissionais envolvidos em levá-la ao ar sabendo que ela aconteceria, mas dizendo aos demais funcionários da emissora que ele tinha uma "arma secreta" para tirar audiência da Globo.

A Globo, evidentemente, processaria o SBT, alegando que a reprise da novela era ilegal, mas a emissora paulista contra-argumentou dizendo que havia adquirido as fitas originais da Manchete, junto com as de Xica da Silva em um leilão da massa falida, e que a Globo teria direito apenas ao texto, mas não às imagens. Em primeira instância, a justiça daria razão à Globo, mandando o SBT tirar a reprise do ar e proibindo-o de reprisar a novela novamente, mas o SBT conseguiria uma liminar para manter a novela no ar e recorreria, com a decisão em segunda instância, que saiu apenas em 2014, dando ganho de causa ao SBT. Apesar de Benedito ter declarado em entrevistas que desistiria do processo, a Globo recorreria, e, em 2016, o STJ decidiria que o SBT estava errado, dando mais uma vez ganho de causa para a Globo. Só que aí o SBT já havia reprisado toda a novela há muito tempo, de forma que apenas o que restava era uma compensação financeira para Benedito, fixada em 250 mil reais, valor que o autor considerou "ínfimo e irrisório" diante do que o SBT lucrou com a exibição da novela. Benedito recorreria para tentar conseguir um valor maior, mas o STJ determinaria que, como o SBT comprou as fitas legalmente, caberia ao autor apenas indenização por danos morais, não participação nos lucros obtidos pela reprise.

O SBT exibiria a novela em 187 capítulos, entre 9 de junho de 2008 e 13 de janeiro de 2009 - apesar do número menor de capítulos, a novela seria reexibida na íntegra, já que, na primeira semana, o SBT exibiria três capítulos seguidos por dia, para que a primeira fase ficasse menos tempo no ar. A abertura da novela também seria alterada, para uma versão mais bem comportada, com cenas bucólicas do Pantanal. A novela conseguiria média de 15 pontos de audiência no SBT, com picos de 20, e frequentemente superaria a programação que a Globo estaria exibindo no mesmo horário.

Em julho de 2020, motivada por notícias de que queimadas assolavam o Pantanal matogrossense, a Globo negociaria mais uma vez com Benedito Ruy Barbosa a produção de uma obra baseada em seu texto; dessa vez, a ideia original era fazer uma minissérie que seria disponibilizada exclusivamente na plataforma de streaming Globoplay, mas, durante as conversas, ficaria decidido que seria feito um remake da novela para estreia na faixa das 21h logo após Um Lugar ao Sol, que, por sua vez, sucederia Amor de Mãe, que estava no ar quando começou a quarentena da pandemia, em março de 2020. A novela seria oficialmente anunciada no Fantástico em setembro de 2020, mas dificuldades na produção causadas pelas queimadas e pela pandemia levariam ao seu adiamento, com a estreia ocorrendo apenas em 2022.

Oficialmente, o remake seria uma obra de Bruno Luperi, neto de Benedito, que, na época, estava escrevendo, e teve de suspender, O Arroz de Palma, novela que estrearia na faixa das 6 baseada no livro homônimo de Francisco Azevedo. Luperi trabalharia sobre o texto do avô, mudando muito pouca coisa - alguns diálogos são idênticos aos da versão que foi ao ar em 1990. Benedito não se envolveria com o texto, mas pediria para ser consultado quanto ao elenco; ele desejava que atores que estiveram na primeira versão fossem convidados para papéis fixos ou participações especiais, mas apenas Paulo Gorgulho, Marcos Palmeira, Almir Sater e Gláucia Rodrigues estariam disponíveis e aceitariam o convite - Cristiana Oliveira, Ingra Lyberato, Giovanna Gold e Sérgio Reis fariam uma pequena participação no último episódio, assim como Luiz Henrique Sant'Agostinho, que não é ator profissional e, na primeira versão, interpretou o personagem Ari; Cláudio Marzo, falecido em 2015, apareceria de forma póstuma como o peão fantasma. Gabriel Sater, filho de Almir, se sairia bem nos testes e seria escolhido para interpretar Trindade.

Muitos atores tiveram de ser substituídos durante a pré-produção. Antônio Fagundes, inicialmente escalado para viver o Velho do Rio, teve seu contrato com a Globo encerrado antes do início das gravações, e preferiu, ao invés de renovar, se dedicar à sua própria produtora. Rafael Cardoso seria reservado para interpretar Jove, mas acabaria trocado por ajustes feitos de acordo com as idades dos personagens. Bruna Marquezine havia sido convidada para interpretar Juma, mas teria de recusar após se comprometer com a série Maldivas, da Netflix; a preferida para o papel seria Vanessa Giácomo, descartada pela direção da Globo devido à sua idade. Letícia Spiller, que havia sido convidada para interpretar Madeleine na segunda fase, também teve de recusar por questões de agenda, com a produção cogitando Vivianne Pasmanter e Maria Fernanda Cândido. Jackson Antunes, que viveria Tibério, também teve de recusar por ainda estar envolvido com as gravações de Nos Tempos do Imperador, exibida na faixa das 6 quando as gravações começaram. Lília Cabral e Denise Del Vecchio seriam convidadas para interpretar Mariana, e Marcos Caruso para interpretar Antero, mas decidiriam não aceitar.

As gravações ocorreriam nos estúdios da Globo no Projac, no Rio de Janeiro, e no Pantanal de Nhecolândia, no Mato Grosso do Sul; a fazenda de Zé Leôncio, localizada em Aquidauana, seria a mesma usada nas gravações da novela original em 1990. No elenco, dentre outros, estariam Marcos Palmeira como Zé Leôncio, Jesuíta Barbosa como Jove, Alanis Guillen como Juma, Dira Paes como Filó, José Loreto como Tadeu, Murilo Benício como Tenório, Isabel Teixeira como Maria Bruaca, Camila Morgado como Irma, Bella Campos como Muda, Guito como Tibério, Juliano Cazarré como Alcides, Leopoldo Pacheco como Antero, Selma Egrei como Mariana, Karine Teles como Madeleine, Paula Barbosa como Zefa, Julia Dalavia como Guta, Aline Borges como Zuleika, Irandhir Santos como José Lucas, e Osmar Prado como o Velho do Rio. Participações especiais incluem Juliana Paes como Maria Marruá, Enrique Diaz como Gil, Bruna Linzmeyer como Madeleine na primeira fase, Caco Ciocler como Gustavo e Giovana Cordeiro como Generosa.

Pantanal seria exibida entre 28 de março e 7 de outubro de 2022, em 167 capítulos. Seria o primeiro remake exibido na faixa das 21h, criada em 2011, e o primeiro a ser exibido em horário nobre desde Selva de Pedra, em 1986. No início, seria a novela de pior audiência da história da faixa das 21h, mas após três semanas se recuperaria, chegando a alcançar 33 pontos de audiência e fechando com média de 29, sendo até agora a novela mais assistida da década de 2020. A trama também é a mais assistida da história do Globoplay, e seria indicada ao Emmy Internacional de Melhor Telenovela, perdendo para a turca Yargi: Segredos de Família.
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domingo, 20 de dezembro de 2020

Escrito por em 20.12.20 com 0 comentários

Vamp

Hoje chegaremos ao fim (talvez por enquanto) da minha série de posts sobre novelas, com uma introdução para vocês que gostam de histórias de bastidores: quando eu fiz o post sobre Que Rei Sou Eu?, lá em janeiro, planejava fazer apenas dois posts sobre novelas, um sobre Que Rei Sou Eu?, outro sobre Vamp, minhas duas novelas preferidas - e, não por acaso, as duas das quais eu tinha comprado os DVDs no final de 2018. Porém, assim como eu esperei terminar de assistir a todos os DVDs de Que Rei Sou Eu? para escrever aquele post, eu quis esperar terminar de assistir todos os de Vamp para escrever esse, o que acabou levando um pouco mais de tempo do que eu esperava (terminei dia 27 de setembro, se alguém quiser saber). Nesse meio tempo, fiquei com vontade também de escrever sobre Top Model, e aí, como nem em fevereiro nem em março eu tinha publicado posts sobre novelas, acabei decidindo que faria uma série de dez posts, um por mês, sobre novelas. Tirando Vamp, que já estava escolhida desde o início (e as duas sobre as quais eu já tinha escrito, evidentemente), não escolhi as dez de imediato, deixando para fazê-lo meio em cima da hora (pensei até em escrever também sobre minisséries, especificamente sobre A Muralha e A Casa das Sete Mulheres, mas depois desisti), mas acho que acabei ficando com um grupo bem sortido: quatro novelas das sete, três das seis e três das oito, todas da época que eu era noveleiro de verdade. Se eu fosse fazer um top ten, acho que seriam essas daí. Quando digo que a série acaba hoje, quero dizer que, a partir do mês que vem, não teremos mais um post sobre novelas por mês, como ocorreu nos últimos nove meses; quando digo "talvez por enquanto", é porque ainda restam muitas novelas das quais eu gostei, e talvez um dia eu me anime a falar sobre elas, assim, sem compromisso nem planejamento.

Antes de começarmos para valer, eu queria apenas expressar uma frustração: diferentemente do box em DVD de Que Rei Sou Eu?, do qual eu gostei muito, mesmo a novela estando severamente editada, do box de Vamp eu não gostei nem um pouco. A novela está tão editada que algumas cenas ficaram sem pé nem cabeça (em uma cena, Natasha chega na pousada feito um furacão, intimando o Capitão Jonas a conversar com ela, e, na cena seguinte, um segundo depois, já está na casa dela discutindo com Gerald, e a gente nem fica sabendo o que ela discutiu com o Capitão), e, mesmo assim, há inúmeros flashbacks (a sequência inicial, na qual o padre tenta exorcizar Vlad no passado, é repetida na íntegra quatro vezes). Ora, flashbacks são muito bons para quem está assistindo "ao vivo" e precisa relembrar alguma coisa, ou para quem pegou a novela no meio e quer saber o que aconteceu antes, mas totalmente desnecessários para quem pode assistir em seu próprio ritmo e muitas vezes acabou de ver a mesma cena no dia anterior - ainda mais se há uma limitação de tempo que exige o corte de outras cenas, que seriam muito mais necessárias do que esses flashbacks. Enfim, reclamação feita, vamos começar esse post da maneira própria: hoje é dia de Vamp no átomo!

Vamp
foi mais uma novela de Antonio Calmon, autor de Top Model, que, dessa vez, assinaria a obra sozinho (Top Model havia sido co-escrita com Walther Negrão), mas contando com a colaboração de Vinícius Vianna, Lilian Garcia e Tiago Santiago. Assim como fez em Top Model, Calmon quis criar uma novela que falasse a língua dos jovens, inspirada na série Armação Ilimitada, de grande sucesso na década de 1980; dessa vez, porém, ele queria uma trama com mais ação e aventura, sem tantos dramas interpessoais quanto Top Model. Sua solução foi ambientar a trama em um universo fantástico, no qual vampiros são reais, colocando um deles como vilão e outra como a mocinha que tenta se livrar dessa maldição. Como a novela iria ao ar no horário das sete, e uma trama de terror seria impensável nesse horário, a novela também teria exageradas doses de comédia, sendo quase uma chanchada. Apesar das reclamações de alguns fãs de terror - que chegaram a escrever cartas para a Globo, reclamando que não era realístico vampiros que andavam na luz do dia ou que pudessem deixar de ser vampiros e voltar a serem humanos - a improvável mistura daria certo, e Vamp seria um grande sucesso, alcançando picos de 60 pontos, número excepcional até para uma novela das oito - Calmon, aliás, talvez tenha sido até mais bem sucedido do que esperava, porque quase a totalidade do público da novela era infanto-juvenil, com as donas de casa, tradicionais seguidoras das novelas das sete, não se interessando pela trama dos vampiros; em entrevista, porém, ele declararia ter sido abordado por várias donas de casa que o parabenizaram pela novela, dizendo que era a preferida de seus filhos.

Além de um grande sucesso de público, Vamp se tornou cult, sendo extensamente explorada na mídia, inclusive em outros canais que não a Globo, e dando origem a uma moda de vampiros que perdurou durante algum tempo - até mesmo festinhas de aniversário de crianças tinham vampiros como tema, com morcegos de cartolina nas paredes e bolos em forma de caixão. A Globo lançaria muito merchandising para ganhar dinheiro com o sucesso da novela, incluindo um álbum de figurinhas, que viraria uma febre somente comparada aos álbuns de Copa do Mundo - era praticamente impossível encontrar as figurinhas nas bancas, pois, quando elas chegavam, logo se esgotavam. Muitos camelôs também aproveitariam e estampariam o logotipo da novela em diversos tipos de produtos, como dentaduras de plástico e capas de vampiro para o carnaval de 1992. A novela é até hoje uma das mais queridas pelo público da época e pelo elenco, que se divertiu horrores (trocadilho intencional) durante as gravações.

A mocinha de Vamp é a cantora Natasha (Cláudia Ohana), roqueira que não consegue fazer sua carreira decolar, sendo rejeitada por inúmeras gravadoras. Um dia, após mais um não, ela recebe a visita do misterioso Conde Vladimir Polanski (Ney Latorraca), Vlad para os íntimos, que promete fazer dela uma cantora de sucesso, em troca, simplesmente, de sua alma. Natasha não leva muito a sério e aceita, mas o que ela não sabe é que Vlad é um vampiro de milhares de anos de idade, e que, logo após seu consentimento, a transforma, também, em uma criatura das trevas. Além de conde e vampiro, Vlad é também um riquíssimo empresário, e conduz inúmeros empreendimentos usando a alcunha de Otavinho Freire. Após morder Natasha, ele a leva para Veneza, onde ela chama a atenção do empresário artístico desempregado Gerald Lamas (Guilherme Leme), um homem ambicioso, frio, egoísta e sem moral, capaz de tudo para realizar seus próprios desejos. Vlad também transforma Gerald em vampiro, e, usando seu dinheiro, monta uma gravadora para a dupla, lançando Natasha, que se transforma em um mega fenômeno do rock mundial.

Uma quantidade não especificada de tempo se passa (todo mundo parece concordar que são dois anos, mas não há referência nenhuma na novela), e Natasha, já uma estrela comparável a Madonna, apesar de todo o seu sucesso, é infeliz, pois Vlad controla todos os aspectos de sua vida - mais tarde, ficamos descobrindo que Natasha é a reencarnação de Eugênia Queiroz, por quem Vlad foi apaixonado no passado, mas que o rejeitou para se casar com outro homem e acabou morrendo, e que o vampiro agora não quer deixar passar essa oportunidade, ficando com a cantora só pra ele. Um dia, durante uma crise de choro, ela recebe a visita do enigmático Rafa (Marcos Breda), que a princípio parece ser um anjo, e lhe dá uma dica de como se livrar do jugo de Vlad: no final do século XVIII, quando Vlad ainda era apaixonado por Eugênia, eles moravam em uma pequena cidade do litoral do Rio de Janeiro, chamada Armação dos Anjos (Nota do Guil: coincidentemente, o mesmo nome da cidade dos Power Rangers, que só estreariam dois anos depois). Ao perceber que estavam lidando com um vampiro, o irmão e o noivo de Eugênia alertaram as autoridades eclesiásticas, que enviaram para lá o Frei Bartolomeu (Jorge Cherques), munido da Cruz de São Sebastião, capaz de destruir qualquer vampiro com seu toque. Antes que o Frei pudesse tocar Vlad com a cruz, entretanto, ele usou seus poderes para criar um terremoto, que matou o clérigo e fez com que a cruz se perdesse no fundo do oceano. Se quiser se livrar de Vlad e voltar a ser humana, portanto, Natasha deve ir até Armação dos Anjos e encontrar a cruz desaparecida - como ela é uma vampira, porém, não pode tocar na cruz ou será destruída, devendo, além do artefato, encontrar um homem chamado Rocha, que, segundo as profecias, é o único que pode usar o poder da cruz para destruir Vlad.

Convenientemente, Armação dos Anjos é onde fica a pousada do Capitão Jonas Rocha (Reginaldo Faria), oficial da Marinha Mercante aposentado e fiscal do IBAMA, que cuida para que as paradisíacas praias locais permaneçam limpas e preservadas. Viúvo, Jonas mora na pousada com sua sogra, Dona Virgínia (Cleide Yáconis), nascida e criada em Armação dos Anjos, que conhece todas as histórias e lendas do local, e é a principal responsável por cuidar da pousada quando Jonas está fora; e com seus nada menos que seis filhos: Lipe (Fábio Assunção), 20 anos, que tem o pai como modelo e tenta imitá-lo em tudo; Jade (Luciana Vendramini), 19 anos, menina ciumenta, cabeçuda e um tanto problemática, que gosta de ficar sozinha e explorar cada canto da cidade, e sempre acaba sendo perdoada por Jonas por, além de ser sua filha mais velha, ser a que tem a personalidade mais parecida com a dele; João (Pedro Vasconcellos), 17 anos, um líder nato, que se esforça para agradar ao pai, mas acredita que ele gosta mais de Lipe e Jade; Nando (Henrique Farias), 16 anos, que não gosta da vida em estilo militar da família, é coroinha na igreja e apaixonado por futebol; Isa (Fernanda Rodrigues), 12 anos, menina moleca muito mais inteligente que o normal para a idade (em sua primeira aparição, menciona que está na classe dos superdotados na escola), mas que tem problemas de relacionamento com os irmãos devido à diferença de idade; e Tico (José Paulo Júnior), 10 anos, que, desde a morte da mãe, não fala uma palavra, é tímido e parece não se animar com nada, vivendo agarrado em Isa, a única que compreende seus gestos. Jonas é um pai severo, mas amoroso, e tenta fazer com que seus filhos sigam o caminho da honestidade e da retidão trilhados por ele, de preferência também ingressando na Marinha - Lipe e João estudam no Colégio Naval e pretendem seguir os passos do pai, mas Nando detesta a ideia, e gostaria de ter mais controle sobre sua vida.

Um pouco antes de Natasha, chega à cidade Carmem Maura de Araújo Góes (Joana Fomm), historiadora que vai até Armação dos Anjos fazer pesquisa para seu livro sobre o período colonial brasileiro. Bondosa, dedicada, mas um tanto instável emocionalmente, Carmem Maura também tem seis filhos: Lena (Daniela Camargo), 20 anos, forte, sensata, prática e objetiva, mas insegura, que atua como verdadeira mãe do grupo diante do comportamento avoado da mãe; Scarlett (Bel Kutner), 19 anos, intelectual, romântica, mas que se acha feia e imagina que vai ficar solteirona; Leon (Rodrigo Penna), 18 anos, extremamente mimado e chato de galocha, tem um ciúme possessivo da mãe, se considera um grande artista mas toca violino pessimamente; Dorothy (Carol Machado), 16 anos, moderna, descolada e fã número um de Natasha; Rubinho (Aleph del Moral), 15 anos, o desajustado da família, odeia livros, acha que ser intelectual é frescura, e só quer saber de mulheres e esportes; e o caçulinha Sig (João Rebello), 12 anos, superprotegido pela mãe e tratado pelos demais como criancinha, mas que possui um intelecto invejável, e tem como hobby a psicanálise. Após ela se hospedar na pousada, Carmem Maura e o Capitão Jonas se apaixonam, e, após muitas desventuras, decidem se casar, o que forma uma família de 12 filhos e muitos problemas - Lipe e Lena também se apaixonam; Nando e Rubinho se tornam melhores amigos, com Nando convencendo Rubinho a também ser coroinha; Isa, Tico e Sig se tornam um trio inseparável; e Jade não aceita o novo casamento do pai de jeito nenhum, fazendo o possível para atazanar Carmem Maura.

Para não levantar suspeitas, Natasha viaja a Armação dos Anjos sob o pretexto de gravar lá seu novo videoclipe, levando Gerald com ela; lá, eles se hospedam em uma casa de propriedade de Oswaldo Matoso (Otávio Augusto), empresário da construção civil que trabalha com especulação imobiliária, e, aliado a Otavinho Freire, deseja comprar a pousada de Jonas para construir um condomínio de luxo no lugar. Cafona, grosso e fanfarrão, Matoso fala com um sotaque aparentemente inventado por ele mesmo, que mistura espanhol, italiano e gírias antigas (chamando todo mundo de "bitcho"), e é pai de dois filhos com duas mulheres diferentes, que moram com ele para torrar seu dinheiro: Matosão (Flávio Silvino), que tem cerca de 20 anos, é prepotente, violento, e faz parte de uma gangue de motoqueiros que aterroriza a cidade, e Matosinho (André Gonçalves), que tem cerca de 15 anos, até tem bom coração, mas está acostumado a viver na moleza com o dinheiro do pai, e, imitando o irmão, se acostumou a usar a violência para conseguir o que quer.

Um dos personagens de maior sucesso da novela foi Mary Matoso (Patricya Travassos), originalmente Mary Ramos, ex-atriz de pornochanchada, irmã da falecida esposa do Capitão Jonas - e, portanto, filha de Dona Virgínia. Espalhafatosa, ambiciosa e extremamente brega, Mary, em fim de carreira, decidiu se mudar para Armação dos Anjos e trabalhar na pousada para tentar conquistar o coração de Jonas, que a acha vulgar e a rejeita. No início da novela, declara guerra a Carmem Maura, mas, após ver que a batalha está perdida, decide aceitar o pedido de casamento de Matoso, e se une a ele para se vingar de Jonas. Pouco depois, Gerald a transforma em vampira, e ela acaba transformando também a todos os Matosos, que passam a funcionar como o principal núcleo cômico da novela - Matoso, além de ser um vampiro extremamente incompetente, ainda por cima tem um dente só. Além de vampira, Mary decide estudar também para ser bruxa, com caldeirão e tudo, e é responsável por algumas das cenas mais engraçadas da novela.

Outro personagem que ficaria bastante famoso seria Jurandir Figueira (Nuno Leal Maia), bandido que, em companhia dos comparsas Arekém (Júlio Levy) e Tobias (Pedro Cardoso), assalta uma casa, humilha os moradores e rouba uma grande quantia em dólares, logo depois descobrindo que a casa pertence a outro bandido, Arlindo Cachorrão (Paulo Gracindo). Considerado um dos criminosos mais cruéis do país, Cachorrão vive como um rico empresário, já que a polícia jamais conseguiu qualquer prova de suas atividades ilegais; ao saber que Jurandir assaltou sua casa, ele ordena uma caçada, para se vingar pessoalmente do meliante, arrancando suas orelhas. Durante a fuga, Jurandir pega carona com o Padre Estevão (Marcos Alvisi), um jovem padre simpático, entusiasmado e muito distraído, que está indo para Armação dos Anjos ser o substituto do Padre Eusébio (Oswaldo Louzada), o idoso titular da paróquia, extremamente honesto, compreensivo e humano, mas que já está cansado após tantos anos de sacerdócio, querendo pendurar a batina para se dedicar à sua plantação de alfaces. Padre Estevão é péssimo motorista, e ele e Jurandir acabam se envolvendo num acidente, no qual o carro cai no mar e o padre desaparece, e a polícia fica achando que o dono do carro e da batina é Jurandir. Aproveitando o golpe de sorte, Jurandir assume a identidade de Padre Estevão e vai até Armação dos Anjos para se esconder; ele não leva o menor jeito para padre, porém, e seu linguajar, trejeitos e amor pelo futebol logo fazem com que os jovens o apelidem de Padre Garotão. Para não ter de efetuar os ritos da igreja, Jurandir inventa que ficou traumatizado pelo acidente, e o pobre Padre Eusébio tem de adiar sua aposentadoria até que seu "substituto" ganhe novamente confiança. Mesmo em Armação dos Anjos, porém, Jurandir não está completamente livre de Cachorrão por dois motivos: primeiro, Cachorrão é padrinho de Matoso, e frequentemente vai à cidade verificar como estão indo os negócios do afilhado, nos quais investe dinheiro; segundo, Jurandir tem uma namorada, Marina (Vera Zimmermann), moça ingênua que acredita que Cachorrão é apenas um empresário, e com quem o criminoso também quer se casar; ao saber que Jurandir está em Armação dos Anjos, Marina decide ir até lá ficar com ele, inventando que é irmã do "Padre Estevão". Apesar de ter sido bandido, Jurandir tem um coração enorme, é altruísta, sempre quer ajudar a todos, e vê no acontecido uma prova de que "o Divino" está dando a ele uma nova chance para recomeçar sua vida.

Além de comprar a pousada de Jonas, para conseguir levar seu empreendimento imobiliário adiante Matoso precisa comprar um terreno que pertence à igreja, que o aluga a preço de banana para o Circo Planador - uma homenagem ao famoso Circo Voador, do Rio de Janeiro - de propriedade do palhaço Simão Coalho (Evandro Mesquita), um ex-hippie sonhador que não leva o menor jeito com dinheiro, e vive sendo alvo das armações de Matoso para incriminá-lo e fazer com que ele perca o direito a alugar o terreno. Simão é casado com Jezebel (Bete Coelho), ex-hippie como ele, embusteira que atua como cartomante e adivinha, mas que, sem saber, possui realmente poderes paranormais, e se torna a melhor amiga de Natasha quando ela vem morar na cidade. O casal tem uma filha adotiva de 16 anos, Esmeralda (Juliana Martins), filha de um casal de ciganos, que atua como trapezista, sonha em conseguir uma vida fora do circo, e por quem Pedro é apaixonado. Mais tarde, eles adotam uma segunda criança, Pingo (Igor Laje), que tem cerca de 12 anos, menino de rua do Rio de Janeiro que fez amizade com Nando, e fugiu para Armação dos Anjos após ser testemunha de um crime cometido pelos capangas de Cachorrão, vivendo escondido um tempo na pousada antes de ser incorporado pelo circo no número Coringão e o Palhaço Anão (no qual Simão se vestia como o Coringa de Jack Nicholson, do primeiro filme do Batman). Para infelicidade de Pingo, os netos de Cachorrão adoram o Palhaço Anão - que não pode nem sonhar em deixar o bandido descobrir que ele é o menino que seus capangas procuram para evitar que ele testemunhe.

História de vampiros que se preza tem que ter um caçador de vampiros, e, em Vamp, esse papel cabe a Alice Penn-Taylor (Vera Holtz), inglesa fundadora da British Society for the Hunting of Vampires (Sociedade Britânica para a Caça de Vampiros), considerada a maior caçadora de vampiros da história; brigona, mandona, mas muito correta, Penn-Taylor, que fala com um sotaque que só não é pior que o de Matoso, viu Natasha de relance na Europa, e imediatamente colocou na cola dela seu assistente, o brasileiro Augusto Sérgio (Marcos Frota), escritor de terror frustrado, que nunca conseguiu ter um livro publicado, e, após conhecer sua ídola pessoalmente na Inglaterra, decidiu se tornar também um caçador de vampiros, mesmo sendo medroso, distraído e extremamente desastrado. Mais tarde, une-se a eles Soninha (Bia Seidl), moça rica e linda quem vem a Armação dos Anjos ajudar na causa ecológica, disfarçada de feia e pobre para analisar se as intenções do Capitão Jonas para preservação do meio ambiente são verdadeiras ou apenas uma jogada de marketing; durante um ataque dos vampiros, Soninha percebe que leva jeito para a coisa, passando a formar um trio de caçadores com Penn-Taylor e Augusto Sérgio.

Outro personagem importante era Pai Gil (Tony Tornado), pescador aposentado que é o melhor amigo de Jonas; homem sábio, honesto, que atua como líder da comunidade e joga búzios para descobrir que o futuro reserva para sua amada cidade. Sua filha, Branca (Aída Lerner), é perceptiva e altruísta, sócia do restaurante Chez Sylvie com sua melhor amiga, Sílvia (Zezé Polessa), mulher fina e sofisticada casada com o pintor de quadros Ivan (Paulo José), homem de grande sensibilidade, que, de uma hora para outra, passa a ser uma pessoa mórbida, sombria e cheia de segredos, o que faz com que seu casamento entre em crise e com que Sílvia ache que ele tem outra mulher - mas a verdade é bem mais terrível: Vlad, ou melhor, Otavinho Freire, é dono de um casarão caindo aos pedaços no centro da cidade (que depois ficamos sabendo que, no século XVIII, era a casa de Eugênia), no porão do qual fica seu caixão; um dia, Ivan estava explorando o casarão quando foi mordido por Vlad, que o transformou em seu representante para todos os assuntos em Armação dos Anjos - função que Ivan odeia, assim como odeia ser vampiro, tentando esconder esse fato de todos. Quando Natasha chega à cidade, Ivan vê uma chance de se livrar de sua própria maldição, e decide ajudar a moça a encontrar a cruz.

Sílvia e Ivan têm uma filha adolescente um tanto mimada, chamada Paula (Amora Mautner), que é apaixonada por Nando, que nem dá bola pra ela, e não vê que o melhor amigo de Nando, Pedro (Frederico Mayrink), coroinha da igreja como ele, é apaixonado por ela. Pedro é um rapaz doce, de coração enorme, com um forte senso de justiça, e totalmente fiel ao pai, Max (Francisco Milani), sempre perdoando-o por tudo o que ele faz. O problema é que Max é alcoólatra e viciado em jogo, o que fez com que ele perdesse todo o dinheiro de sua família e tivesse que passar a trabalhar numa lanchonete de propriedade de Matoso (a Matoso's), o que ele odeia, e o leva a beber ainda mais - e, quando ele está bêbado, culpa Pedro por todas as suas frustrações, espancando o menino. Cansada dessa vida, a mãe de Pedro, Joana (Inês Galvão), o abandonou e foi para o Rio de Janeiro, onde conheceu Moreira (Marcelo Picchi), com quem teve dois filhos, Marquinhos (Fabrício Bittar) e Mônica (Carolina Rebello); Pedro preferiu ficar com o pai e não quis acompanhar a mãe, que agora, anos depois, decidiu voltar a Armação dos Anjos para tentar convencê-lo a ir para o Rio com ela.

Para terminar os personagens principais, falta falar de Daniel (Jonas Torres), que entrou só no meio da novela. Rapaz corajoso, correto e muito educado, Daniel pratica tiro com arco, e vai a Armação dos Anjos com o único intuito de disparar uma flecha no coração de Vlad e destruí-lo - isso porque Daniel é filho do verdadeiro Otavinho Freire, a quem Vlad matou para assumir sua identidade, toda sua fortuna e negócios, deixando Daniel pobre e com sede de vingança. Inicialmente Daniel acampa na praia, mas, após receber um convite do Capitão Jonas para morar na pousada, se torna namorado de Jade e um dos maiores aliados dos caçadores de vampiros durante a batalha.

Outros personagens da novela são Lucia T. (Giulia Gam), música amiga de Natasha, que tocava com ela no início da carreira, e depois é convidada para gravar o clipe em Armação dos Anjos; Giron (Felipe Pinheiro), vampiro produtor musical dos discos de Natasha, que odeia Gerald e quer ser o novo empresário de Natasha, e, ambicioso, após tomar conhecimento da cruz, planeja ele mesmo destruir Vlad e assumir seu lugar como chefe dos vampiros; as mães, respectivamente, de Matosão e Matosinho, Telma (Maria Zilda Bethlem) e Luísa (Cristina Pereira) - uma paródia ao filme Thelma & Louise, um grande sucesso da época - que vão a Armação dos Anjos extorquir mais dinheiro de Matoso; as beatas da igreja de Armação dos Anjos, Ermengarda (Norma Geraldy) e Hermínia (Hilda Rebello); Maria Carmem (Renata Schumann), violinista tão ruim quanto Leon, que acaba namorando com ele; o Delegado Zé Clemente (Gianfrancesco Guarnieri), que investiga o roubo à casa de Cachorrão, cometido por Jurandir; e o terapeuta maluco Vicentinho Fernando (Jorge Fernando), que trabalha com hipnose, descobre que Natasha é a reencarnação de Eugênia, e acaba tendo papel fundamental na destruição de Vlad. Dentre as participações especiais destacam-se Cláudia Raia como Celeste, ex-namorada de Jurandir e atualmente dona de um bar; Luís Salém como o apresentador do telejornal local de Armação dos Anjos; Mário Lago como o avô de Soninha; e a cantora Rita Lee no papel da cantora Lita Ree, amiga de Natasha que vem a Armação dos Anjos se apresentar em um dueto com ela no Circo Planador. Marcello Novaes faz uma minúscula participação como o piloto do avião que traz os caixões de Natasha e Gerald (com eles dentro) da Europa para o Brasil.

Uma das principais influências de Calmon ao decidir escrever Vamp seria o filme A Dança dos Vampiros, de 1967, do diretor Roman Polanski; o nome de Vlad, aliás, é uma homenagem ao diretor, combinando seu sobrenome com o prenome de Vlad, o Empalador, príncipe da Valáquia que muitos consideram ter sido o Conde Drácula da vida real. Falando nisso, assim como fez em Top Model, na qual cada um dos filhos de Gaspar Kundera tinha o nome de um artista famoso, Calmon deu a cada um dos filhos de Carmem Maura um nome, digamos, intelectualmente relevante: Lena foi batizada em homenagem à Helena do livro homônimo de Machado de Assis; Scarlett homenageia a O'Hara de ...E o Vento Levou; Dorothy, a protagonista de O Mágico de Oz; Leon é uma homenagem ao grande autor russo Leon Tolstoi; e Sig ao pai da psicanálise, Sigmund Freud; somente Rubinho recebeu seu nome em homenagem a um intelectual fictício, o escritor e membro da Academia Brasileira de Letras Rubens de Araújo Góes, que vem a ser pai de Carmem Maura.

A princípio, Ney Latorraca participaria apenas dos nove primeiros capítulos da novela, retornando nos capítulos finais, com o principal vilão sendo Gerald, mas o sucesso de Vlad foi tão grande que Calmon decidiu mudar a história, inventando a trama de que Natasha era a reencarnação de Eugênia, passando Gerald para um papel de capanga, e fazendo com que Vlad estivesse presente em toda a história; o ator, porém, já havia assumido compromissos no teatro, de forma que, nos primeiros meses, Vlad era apenas referenciado, jamais visto - no máximo era ouvida sua voz, como quando Matoso falava no telefone com Otavinho Freire. Quando era indispensável que Vlad estivesse presente, foi usado um recurso curioso: Vlad tinha o poder de assumir a aparência de Ivan, com Paulo José interpretando o vilão - que ainda falava com a voz de Latorraca.

Além dos poderes próprios de vampiro, como força e velocidade sobre-humanas, hipnotismo, e a habilidade de se transformar em morcego ou fumaça, Vlad tinha muitos outros (alguns compartilhados por outros vampiros da novela), como teletransporte, lançar raios pelas mãos, poder esbofetear outros vampiros à distância, transformá-los em animais como ratos e sapos, e transformar a si mesmo em cachorro - um Rottweiler conhecido na história como "O Grande Cão Negro". A sequência da transformação de Vlad em cachorro usava truques de câmera, maquiagem e jogos de luz e sombra, sem nenhum efeito de computação gráfica (CG), sob a supervisão do maquiador norte-americano Bob Clark - um busto de gesso de Latorraca chegou a ser criado para se transformar no cachorro usando CG, mas a aparência final não ficou boa e a sequência acabou sendo descartada. Por decisão do diretor Jorge Fernando, todos os efeitos especiais da novela seriam feitos à moda antiga (segundo ele, "de maneira artesanal"), com jogos de câmera e chroma key (aquela tela verde que permite que duas imagens sejam sobrepostas), sem o uso de CG - a única cena da novela que usa CG é a da morte de Vlad, que faz uso do digital morphing, técnica que, enquanto a novela estava no ar, se tornaria febre no mundo inteiro, graças ao clipe da música Black or White, de Michael Jackson. Muitos efeitos especiais da novela seriam alvo de reclamações da crítica especializada por sua pobreza - os morcegos eram claramente bichos de pelúcia pendurados por fios, e alguns figurinos mais exóticos pareciam fantasias de escola de samba - mas, no geral, isso apenas contribuiu para o estilo cômico da novela.

A transformação dos personagens em vampiros era feita da forma mais simples possível, com um corte de câmera - normalmente eles fechavam os olhos e a boca, ou viravam a cabeça, e, na cena seguinte, já estavam "vampirizados". Os "vampiros principais" (aqueles que faziam parte do elenco fixo, como Vlad, Natasha, Gerald e Mary, por exemplo), ganhariam dentaduras específicas, feitas sob medida para suas arcadas dentárias por protéticos, mas os "coadjuvantes" (como os da cena da batalha nas ruas de Armação dos Anjos) teriam de usar dentaduras genéricas, que não permitiam que eles falassem - mesmo com as dentaduras sob medida, alguns atores, como Latorraca e Patricya, tinham dificuldade para falar, soando com um perceptível chiado. As dentaduras de Vamp se tornariam uma coqueluche, com programas de televisão contratando protéticos para demonstrar o processo pelo qual elas eram produzidas, e várias revistas ensinando a fazer uma em casa, com materiais como borracha e arame - algo que não devia ser muito seguro, visto que minha mãe nunca deixou a gente nem comprar uma dessas revistas. Outro componente da aparência de vampiro eram as lentes de contato; Vlad, Natasha e Gerald, os primeiros vampiros da trama, tinham olhos amarelos, mas, a partir de Mary, que tinha olhos vermelhos, outras cores começaram a ser usadas - Matosão e Matosinho, por exemplo, tinham olhos de um azul claro quase branco. Patricya teve uma reação alérgica às lentes coloridas e teve de parar de usá-las; desde então, toda vez que Mary se transformava em vampira, aparecia de óculos escuros - recurso também usado pelos coadjuvantes, para que a Globo não tivesse que comprar lentes coloridas, bem mais caras que os óculos, para todos, e por dois outros atores que não se adaptaram às lentes, os quais não vou citar para não dar spoiler.

Apesar de Vlad ser o vilão, ele faria um enorme sucesso com as crianças - muitas delas querendo derrotá-lo, é verdade. Outros personagens bastante populares com o público infantil foram Carmem Maura e o Capitão Jonas, com Joana Fomm e Reginaldo Faria sendo frequentemente abordados por crianças nas ruas - Reginaldo conta que, até hoje, há pessoas, que eram crianças ou adolescentes na época de Vamp, que, quando lhe pedem autógrafos, o chamam de Capitão. Dentre o público mais velho, os personagens de maior sucesso seriam Jurandir e Matoso, cujo sotaque e ter um dente só quando fosse transformado em vampiro foram ideias de seu intérprete, Otávio Augusto. Apesar do clima de chanchada, todos os atores do elenco levavam tudo muito a sério, se mantendo no texto; apenas dois pareciam competir para ver quem inseria mais cacos (falas que não estão no roteiro, inventadas na hora da gravação pelo ator): Latorraca e Patricya - os cacos dela, inclusive, foram considerados os principais responsáveis pelo sucesso da personagem.

Cláudia Ohana, que eternamente será lembrada como Natasha, não foi a primeira escolha da Globo para o papel, com a atriz Débora Bloch e a cantora Paula Toller sendo sondadas. Ohana, no início de sua carreira e com apenas três novelas no currículo, havia chamado a atenção da Globo ao interpretar uma jovem Tieta na primeira fase da novela de mesmo nome, em 1989, e estourado como a jornalista Paula em Rainha da Sucata no ano seguinte, o que lhe valeu o convite para um teste para seu primeiro papel de protagonista; o que fez com que ela levasse o papel, entretanto, foi seu surpreendente desempenho cantando - alguns citam também seus grandes olhos, extremamente expressivos e perfeitos para a personagem. Ao todo, Ohana regravaria quatro músicas para a novela: Sympathy for the Devil, dos Rolling Stones, carro-chefe de Natasha, repetida à exaustão, para a qual a cantora gravou também um videoclipe; Don't Let the Sun Go Down On Me, de Elton John, a música cujo clipe supostamente Natasha vai gravar em Armação dos Anjos; Quero que Vá Tudo para o Inferno, de Roberto e Erasmo Carlos; e Doce Vampiro, de Rita Lee, que Natasha canta em dueto com Lita Ree. O desempenho de Ohana como cantora seria tão bom que ela seria convidada para cantar essas músicas em diversos programas da emissora, como o Domingão do Faustão, e até mesmo no show do Criança Esperança; até hoje, de vez em quando ela se arrisca como cantora em programas como Popstar, e já chegou a ter uma música sua na trilha sonora de outra novela, Um Girassol da Cor do Seu Cabelo, em Estrela-Guia, de 2001.

Ohana também passaria por um grande aperto logo no início das gravações da novela: na cena em que Natasha conhece Gerald, ela vai para o meio da Piazza San Marco, em Veneza (no meio dos famosos pombos), coloca a música Sadness - Part One do Enigma (que, por alguma razão, não fez parte da trilha sonora da novela) para tocar em um rádio portátil, e faz uma apresentação particular de dança para o produtor, fugindo em seguida, para que ele a persiga e seja mordido por Vlad. Acontece que apresentações de música e dança são proibidas na Piazza San Marco, de forma que, ao terminar sua performance, a atriz foi abordada pela polícia, e a equipe de produção da novela teve de usar de muito jogo de cintura para que ela não passasse uma noite no xilindró.

Os figurinos da novela, a cargo de Lessa de Lacerda, seriam um dos pontos altos da produção, contando, evidentemente, com muito preto para os vampiros - era comum, aliás, que um personagem usasse cores variadas, mas, ao ser transformado em vampiro, passasse a usar apenas preto. Para compor o visual de Natasha, a equipe de figurino se inspiraria nas personagens femininas das histórias em quadrinhos de super-heróis, usando muito veludo, cotton-lycra e vinil - incluindo uma calça que eu acho que umas três pessoas tinham de ajudar a Cláudia Ohana a vestir, de tão justa. Coincidentemente, enquanto a novela estava no ar, o gótico se tornou a tendência da moda nos desfiles da Europa, o que deu aos figurinistas muito mais opções de roupas para trabalhar, fez com que a novela instantaneamente estivesse de acordo com o que era moda na época, e acabou refletindo na moda jovem brasileira, com vários modelos usados pelas vampiras se tornando obrigatórios nos guarda-roupas das moças. Também merecem destaque as roupas que Simão e Jezebel usavam no circo, inteiramente feitas de materiais reciclados, em uma das primeiras vezes em que uma produção da TV nacional usou esse recurso.

Apesar de todo o humor da novela, aliás, Vamp também teve um forte apelo ecológico, com vários de seus capítulos abordando questões como reciclagem, poluição e preservação do meio-ambiente, temas que começavam a ganhar força na época. A novela seria a ponta de lança de uma campanha conjunta da Globo com a Fundação Boticário de Proteção à Natureza, que visava conscientizar a população quanto à preservação de nossos recursos naturais, por isso tinha uma cidade litorânea paradisíaca como cenário, um fiscal do IBAMA como protagonista, e a especulação imobiliária como um dos principais vilões; uma das cenas mais famosas da novela nesse sentido seria a que Soninha ensina Jonas a salvar uma tartaruga presa em uma rede de pesca.

Além dos vampiros, Vamp trouxe duas outras inovações vistas pela primeira vez nas novelas brasileiras: aquela que ficou conhecida como "linguagem de videoclipe", longas sequências de ação sem diálogos, com rápida sucessão de planos; e a transformação da última cena de cada novela em um desenho, como se fosse o último quadro de uma história em quadrinhos - a cena congelava e, aos poucos, se transformava em um desenho do artista gráfico Roger Mello, cujo traço se sobrepunha com precisão à imagem da cena. Com algumas modificações, esse recurso seria usado em várias produções posteriores da Globo, como Era Uma Vez..., A Próxima Vítima e Avenida Brasil.

A abertura da novela também se parecia com um videoclipe, e fez grande sucesso. Ao som de Noite Preta, da até então desconhecida cantora Vange Leonel, e totalmente gravada em estúdio, a abertura mostrava Cláudia Ohana passeando por um cenário noturno levemente vitoriano, enquanto era perseguida por um cão pastor preto, que por sua vez era perseguido por um grupo de caçadores de vampiros meio atrapalhados. Ao alcançar a mocinha, o cachorro se transforma no Conde Drácula (através de um efeito no qual vemos apenas a sombra do cachorro se transformando na sombra do vampiro), que então a morde, fazendo com que sua roupa se transforme de um pueril vestido branco para um sexy macacão de vinil preto, com o logotipo da novela aparecendo após rápidas sucessões de poses da nova vampira, que incluem closes em seus olhos amarelos e presas. O logotipo da novela, falando nisso, tinha letras angulosas, das quais a primeira perna do A e a última do M faziam as vezes de presas de vampiro, com as pontas manchadas de sangue.

Como de costume, a novela teve duas trilhas sonoras, uma com músicas de artistas nacionais, outra com artistas internacionais, que estreou na metade da novela. A nacional, além de Sympathy for the Devil cantada por Cláudia Ohana, e de Noite Preta, de Vange Leonel, trazia, dentre outras, Coração Vagabundo, de Leila Pinheiro, Felicidade Urgente, de Elba Ramalho e Cláudio Zoli, Sob o Efeito de um Olhar, de Guilherme Arantes, Lua, de Fábio Jr., Tendo a Lua, dos Paralamas do Sucesso, Grunir, de Orlando Moraes, Chacal Blues, de Evandro Mesquita, e a cômica Suga Suga, de João Penca e Seus Miquinhos Amestrados. Na internacional, os destaques foram Boy, da brasileira Deborah Blando, I Remember You, do Skid Row, Love Hurts, de Cher, Wicked Games, de Chris Isaak, It Ain't Over 'Til It's Over, de Lenny Kravitz, e What a Wonderful World, de Louis Armstrong. Na segunda metade da novela, Simão e os filhos do Capitão Jonas montam uma rádio pirata, chamada Rádio Corsário, com o intuito de tirar do ar a rádio patrocinada por Matoso, que só serve para falar mal da pousada do Capitão e colocar Mary cantando com sua voz esganiçada; para aproveitar o sucesso da novela, a Som Livre lançaria o álbum Rádio Corsário - O Som Da Galera Vamp, com músicas antigas cujos trechinhos eram tocados ocasionalmente pela rádio pirata, mais a versão de Quero Que Vá Tudo pro Inferno gravada por Ohana.

Com direção de Jorge Fernando, Fabio Sabag e Carlos Manga Jr. e direção geral de Jorge Fernando, Vamp teve 179 capítulos, exibidos entre 15 de julho de 1991 e 8 de fevereiro de 1992. Seu enorme sucesso fez com que ela fosse reprisada menos de um ano após seu final, entre 4 de janeiro e 2 de julho de 1993, em versão condensada em 130 capítulos (a do DVD é mais condensada ainda, tendo por volta de 50, se considerarmos 40 minutos por capítulo). Essa reprise ocorreu não no Vale a Pena Ver de Novo, e sim na Sessão Aventura, que ia a ar no horário atualmente ocupado por Malhação, e normalmente exibia séries norte-americanas; curiosamente, até hoje Vamp ainda não foi exibida no Vale a Pena Ver de Novo, fazendo parte de um pequeno grupo de novelas que foram grandes sucessos de público mas jamais ganharam reprises lá - e sendo a única novela das sete desse grupo, com todas as outras sendo das oito, das nove ou das dez, que não foram reprisadas por restrições de horário. Entre 11 de abril e 15 de dezembro de 2011, Vamp seria reprisada, na íntegra, no canal Viva.

Vamp
teve um elenco jovem numeroso: nada menos que 22 personagens tinham 20 anos ou menos, o que deve ser algum recorde. Seu sucesso seria o principal responsável pela Globo iniciar o projeto que culminaria na estreia de Malhação, em abril de 1995 - sendo essa a razão pela qual não temos mais novelas com elenco jovem numeroso hoje em dia. Calmon voltaria a apostar em um elenco jovem em suas duas obras seguintes, a minissérie Sex Appeal e a novela Olho no Olho, ambas de 1993, e ambas grandes sucessos de público, embora Olho no Olho, que trazia uma trama que envolvia paranormais com olhos brilhantes, tenha sido espinafrada pela crítica; após a estreia de Malhação, ele se concentraria em novelas mais ao estilo tradicional, escrevendo Cara & Coroa, Corpo Dourado, Um Anjo Caiu do Céu, Começar de Novo (co-escrita com Elisabeth Jinn) e Três Irmãs.

Em 2002, entre Um Anjo Caiu do Céu e Começar de Novo, Calmon decidiria retornar aos vampiros com O Beijo do Vampiro, novela voltada ao público infantil, com a qual a Globo pretendia repetir o sucesso de Vamp. Mas a trama, que envolvia um adolescente (Kayky Brito) descobrindo que seu verdadeiro pai (Tarcísio Meira) é um poderoso vampiro, e que a moça que imaginava ser sua mãe (Flávia Alessandra) é a reencarnação do grande amor desse vampiro, não agradou nem ao público, nem à crítica, marcando média de 28 pontos, baixíssima para o horário. Ney Latorraca faria uma participação especial, não como Vlad, mas como o vampiro Nosferatu.

Em 2017, Vamp ganharia uma versão para o teatro, na forma de um musical. Com texto de Calmon, direção de Jorge Fernando e figurinos de Lessa de Lacerda, a montagem trazia mais uma vez Ohana como Natasha e Latorraca como Vlad, sendo que, para derrotar Vlad e voltar a ser humana, Natasha deve encontrar o Medalhão do Poder, escondido em algum lugar do terreno onde fica a pousada do Capitão Jonas. Além do Capitão, outros personagens da novela, como Carmem Maura, Gerald, Penn-Taylor, Matoso e Mary, também estavam presentes, mas interpretados por outros atores; dentre os novos personagens, destacava-se Madrácula, a mãe de Vlad, interpretada por Cláudia Netto.
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