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sábado, 7 de fevereiro de 2026

Escrito por em 7.2.26 com 0 comentários

Nádia e os Mistérios do Mar

Enquanto estava escrevendo os posts sobre as produções do Studio Ghibli, me lembrei de um outro anime que eu assisti há alguns anos, do qual gostei, mas sobre o qual eu nunca escrevi um post. Não querendo fazer dois posts sobre anime no mesmo mês, já que eles andam raríssimos por aqui, decidi que primeiro iria finalizar a série do Studio Ghibli antes de escrevê-lo. Esse anime, como vocês devem ter deduzido pelo título do post, é Nádia e os Mistérios do Mar, e é o tema de hoje.


Lançado no Japão em 1990, Nádia e os Mistérios do Mar, cujo nome original em japonês é Fushigi no Umi no Nadia, "Nádia do Mar Misterioso", ganharia notoriedade nos Estados Unidos, onde foi lançado com o título Nadia: The Secret of Blue Water, após a Disney lançar Atlantis, em 2001. Na época, várias pessoas que assistiram tanto o anime quanto o filme da Disney, no Japão e nos Estados Unidos, começaram a acusar a Disney de plágio, apontando várias semelhanças entre as duas obras - eu mesmo, inclusive, só decidiria assiti-lo após escrever meu post sobre Atlantis para a série dos Clássicos Disney, para ver se era tão parecido assim. Nenhuma medida formal jamais seria tomada, já que a Gainax, estúdio que produziu Nádia, não poderia processar a Disney sem a anuência da NHK, canal de televisão japonês que o transmitiu, e, segundo um dos empregados da Gainax, "nem mesmo o canal de televisão nacional do Japão tem coragem de enfrentar os advogados da Disney". A Disney jamais se posicionou oficialmente sobre a questão, mas Kirk Wise, um dos diretores de Atlantis, postaria online que jamais ouviu falar de Nádia até as acusações começarem, e atribuiria as semelhanças ao fato de ambas as obras serem inspiradas em Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne. Os espectadores, entretanto, alegam que as semelhanças entre as duas obras são específicas demais, e diferentes demais do que está na obra de Verne, para ser esse o caso. Seja como for, como jamais houve um processo, o caso acabou virando uma anedota, e fica a cargo de cada um que assiste decidir se houve plágio ou não - eu já acho que Atlantis é plágio de Stargate, mas isso é outra história.

A origem de Nádia remonta à década de 1970, quando Hayao Miyazaki, que ainda nem pensava em fundar o Studio Ghibli, seria contratado pela Toho para criar um anime para ser exibido na televisão. A ideia original era que esse anime combinasse elementos de duas obras de Júlio Verne, Vinte Mil Léguas Submarinas e A Volta ao Mundo em 80 Dias, e tivesse como protagonistas dois órfãos procurando um tesouro, que seriam perseguidos por vilões e acabariam dando a volta ao mundo a bordo do Nautilus, ajudados pelo Capitão Nemo. Miyazaki chegaria a traçar uma sinopse, mas o anime jamais seria produzido, com a Toho retendo os direitos sobre a história e Miyazaki reutilizando alguns de seus elementos em obras futuras como O Castelo no Céu.

No final da década de 1980, o canal de televisão NHK estava procurando um novo anime para levar ao ar, e entraria em contato com o Group TAC, estúdio especializado em produzir animações para outros estúdios - em outras palavras, um estúdio qualquer, como a Gainax, desenvolvia um projeto e entregava ao Group TAC para que seus profissionais produzissem parte dos desenhos necessários para concluí-lo - para saber se eles sabiam de algum anime que estivesse sendo produzido no momento. O Group TAC não sabia de nenhum, mas entraria em contato com a Gainax, que futuramente ficaria conhecida por Neon Genesis Evangelion, que costumava contratar seus serviços com frequência, para saber se eles tinham. Quem atendeu a ligação foi o vice-presidente da Gainax, Hiroake Inoue, que, alguns anos antes, tinha tomado conhecimento do projeto de Miyazaki com a Toho, e, em segredo, contratado Yoshiyuki Sadamoto e Mahiro Maeda para desenvolvê-lo. Inoue aproveitaria a oportunidade e faria uma apresentação sobre o projeto para a NHK, sem informar Toshio Okada, o presidente da Gainax - que, ao saber, ficaria extremamente insatisfeito, pois o projeto seria caríssimo e resultaria em prejuízo para o estúdio.

Sem ter nada a ver com isso, a NHK adoraria o projeto, e tentaria convencer Okada a autorizá-lo, o que ele falou que só faria caso Inoue não fizesse parte da equipe. Irritado, Inoue deixaria a Gainax, que escolheria Sadamoto para dirigir o projeto. Hadamoto chegaria a ocupar a função durante algumas semanas, mas pediria para sair e ficar encarregado somente da animação; Okada, então, escolheria para substituí-lo Hideaki Anno, que, alguns anos depois, viria a ser justamente um dos criadores de Evangelion, e acabaria creditado como criador de Nádia. Seria de Anno a ideia de fazer referências no anime não somente às obras de Verne, mas também a outros anime famosos, como Patrulha Estelar, Macross e Time Bokan.

Nádia é ambientado no final do século XIX, em um universo alternativo no qual monstros marinhos ameaçam as viagens maritmas, o que levaria a uma verdadeira corrida de inventores para criar uma máquina voadora capaz de substituir os navios. Um desses inventores é o jovem Jean Roque Lartigue, de 14 anos e órfão, com sua mãe tendo falecido quando ele era criança e seu pai, um oficial da marinha mercante, tendo sido dado como morto após um ataque dos monstros. Jean mora com os tios em Le Havre, França, e, desde criança, sempre teve talento para invenções, decidindo, com a ajuda do tio, se inscrever em um concurso de máquinas voadoras que ocorrerá em Paris.

Durante o concurso, Jean acidentalmente conhece Nádia La Arwall, de 14 anos e órfã como ele, que trabalha como acrobata em um circo para sobreviver, e está sempre acompanhada de King, um filhote de leão albino. De pele morena e olhos amendoados, Nádia não conhece sua verdadeira origem, mas imagina que seja natural da África, tendo como maior sonho conhecer o continente africano. Quando Jean e Nádia se conhecem, ela está sendo perseguida por Grandis Granda, uma mulher belíssima e riquíssima de ascendência italiana, cujo objetivo é obter a Blue Water, uma misteriosa joia que Nádia traz no pescoço, mas também não sabe de onde veio. Grandis tem dois capangas, o alto, forte e belo Samson e o baixinho, gordinho e extremamente inteligente Hanson, ambos apaixonados por ela, e um veículo chamado Gratan, criado por Hanson e pilotado por Samson, que pode assumir várias formas diferentes - tanque, helicóptero, submarino etc.

Após várias desventuras, Jean, Nádia, King, Grandis, Samson e Hanson se tornam aliados, e descobrem que os monstros marinhos na verdade são submarinos de uma organização criminosa chamada Neo Atlantis, chefiada pelo misterioso Gargoyle, que segue as ordens do Imperador Neo. Descendentes dos habitantes da mítica ilha de Atlântida, que na verdade eram alienígenas que chegaram a nosso planeta milhares de anos atrás, os Neo Atlantis conseguiram recuperar parte da tecnologia atlante, e planejam usá-la para dominar o mundo e escravizar a raça humana, que eles consideram inferiores. Durante um ataque dos Neo Atlantis, os seis personagens são resgatados pelo Capitão Nemo, que combate os vilões usando seu submarino, o Nautilus, e passam a navegar com ele para tentar impedir os planos malignos de Gargoyle - que, para completar sua principal arma, a fortaleza voadora Red Noah, precisa, adivinhem do quê, isso mesmo, da Blue Water.

Outros personagens de grande destaque são Marie, menina francesa que se une a Jean e Nádia, se tornando companheira inseparável de King, após seus pais serem mortos por um ataque dos Neo Atlantis à vila onde moravam, em Cabo Verde; Electra, que também ficou órfã após um ataque dos Neo Atlantis, sendo resgatada pelo Capitão Nemo, que fez dela a primeiro-oficial do Nautilus; e Ayerton, inglês que originalmente é o oficial de ciências de um navio norte-americano que resgata Jean e Nádia quando eles ainda estão sendo perseguido por Grandis, e mais adiante na série é regatado de uma ilha deserta e se une aos heróis contra Neo Atlantis, se apaixonando por Grandis e fazendo de tudo para chamar sua atenção.

A série teria um total de 39 episódios, exibidos pela NHK entre 13 de abril de 1990 e 12 de abril de 1991. Como uma novela, a série seria produzida enquanto estava indo ao ar, o que faria com que alguns episódios do meio sejam bem diferentes em tônica e enredo que os demais, e que os do final tragam muitas mudanças para alguns personagens, já que a Gainax estava tentando emular o que fazia sucesso na época para que Nádia fosse igualmente bem-sucedido. Para cortar custos, alguns episódios seriam animados na Coreia do Sul, pelo estúdio Sei Young Animation, e têm uma aparência levemente diferente dos demais. A série seria lançada em home video em duas versões, uma igual à exibida na TV e uma conhecida como Nautilus Story, que seria uma "versão do diretor", editada pessoalmente por Anno, lançada no Japão em 1991 e inédita no ocidente.

Conforme previsto por Okada, a Gainax perderia 80 milhões de ienes com o projeto, e sequer teria os direitos sobre a obra, que ficariam com a NHK - por isso eles precisavam da anuência dela para processar a Disney - e quase iria à falência. De fato, o estúdio só não faliu porque a NHK abriu mão dos rendimentos de um game produzido pela Namco em 1991 para o Famicom (o NES japonês), no estilo JRPG, que seria recordista de vendas na época entre os games inspirados em anime, mangá ou tokusatsu, rendendo tanto dinheiro que não somente cobriria o rombo deixado pela produção do anime, mas também equilibraria o caixa da Gainax, que criaria sua própria divisão de games para lançar uma sequência, também para o Famicom, em 1992, que teria versões lançadas para os consoles Mega Drive e PC Engine e para os computadores Sharp X68000, NEC PC-9801 e FM Towns - nenhuma delas jamais lançada no ocidente.

Antes do lançamento do game, para tentar cobrir o rombo causado pelo anime, a Gainax se envolveria com diversos projetos de outros estúdios dos quais receberia parte dos rendimentos; essa prática acabaria destacando inúmeros problemas dentro do estúdio, muitos deles de hierarquia e insubordinação. Há quem diga que foi a operação de saneamento conduzida pelos executivos do estúdios após a descoberta desses problemas que modernizaria a Gainax, transformando-a em um dos estúdios mais bem sucedidos do Japão na década de 1990, e em um dos mais famosos hoje.

Também para tentar cobrir o rombo, a Gainax aceitaria um adiantamento de 50 milhões de ienes do Group TAC para a produção de um filme para o cinema de Nádia. Anno se recusaria a dirigir o filme, alegando ainda não estar recuperado do estresse de dirigir a série. Sadamoto seria novamente convidado e a produção começaria, mas após eles já terem gastado todo o adiantamento, ao ver que precisariam de muito mais dinheiro se quisessem concluir o filme, a produção seria interrompida. O filme só seria concluído graças a uma parceria entre a Gainax e a Sei Young Animation, com roteiro do sul-coreano Yu Ko e dirigido pelo japonês Sho Aono. Lançado em 29 de junho de 1991, o filme é ambientado três anos após os eventos da série, e acompanha os principais personagens enquanto eles tentam retomar suas vidas.

Tendo de dividir os rendimentos do filme com a Sei Young, a Gainax acabaria fazendo um acordo com o Group TAC segundo o qual pagaria o adiantamento assim que produzisse uma nova série de sucesso - que viria a ser, justamente, Evangelion. Aliás, Anno pensaria em Evangelion como uma continuação para Nádia, com os robôs gigantes sendo criados para destruir seres criados em Atlântida que ameaçam o restante do planeta; a história teria de ser mudada já durante a produção, e todos os 26 roteiros reescritos, porque a Gainax não conseguiu chegar a um acordo com a NHK quanto aos direitos sobre Nádia - que, hoje, são divididos entre NHK e Toho, com a Gainax ainda não podendo fazer nada com os personagens que ela mesma criou.

Nos Estados Unidos, inicialmente Nádia seria lançado em VHS pela Streamline Pictures, que lançaria um total de oito fitas, cada uma contendo um único episódio, com áudio dublado em inglês, entre março de 1992 e agosto de 1993 antes de acabar o dinheiro. O presidente da Streamline planejava usar o dinheiro das vendas dos oito primeiros episódios para lançar os demais, e, quando não conseguiu, ofereceu a série para vários canais de TV, que não aceitaram exibi-lo devido a elementos considerados adultos - por exemplo, embora nunca dê pra ver nada de mais, Nádia, que, lembremos, tem 14 anos, costuma ficar frequentemente pelada, com um episódio inclusive mostrando ela e Grandis tomando banho juntas. Em 1996, a Streamline conseguiria um contrato com a Orion Pictures, que relançaria os oito primeiros episódios em duas fitas, mas, devido às baixas vendas, não se interessaria em dublar e lançar os demais. Durante toda a década de 1990, fãs da série só poderiam assisti-la completa através de fansubs, fitas VHS copiadas de originais japonesas com legendas em inglês criadas por seus próprios produtores - que não pagavam direitos aos estúdios japoneses. A série completa só ficaria disponível oficialmente no ocidente em 2001 (por pura coincidência, mesmo ano do lançamento de Atlantis), quando a ADV Films a lançaria em DVD nos Estados Unidos; nesse mesmo ano, ela seria exibida no Brasil, no canal Locomotion. O filme também seria lançado pela ADV em DVD, em 2002.

No Japão, Nádia seria um grande sucesso, ganhando em 1991 o prêmio de Melhor Anime da revista Animage, que, dez anos depois, em 2001, o colocaria na posição 72 de sua lista dos 100 melhores anime de todos os tempos - também é interessante notar que, todos os anos, a Animage faz uma eleição dentre os leitores do personagem masculino e da personagem feminina mais populares dos anime, com Nádia sendo a primeira a conseguir destronar Nausicäa, antes disso eleita por seis anos consecutivos. Após o lançamento de Evangelion, a crítica compararia as duas séries, dizendo que em ambas o público sabe que "um destino terrível aguarda os personagens", mas mesmo assim simpatiza com eles. Embora Nádia não seja tão adulta quanto Evangelion - não chega nem perto - a série seria extremamente elogiada por romper com vários padrões e convenções dos anime dos anos 1980, com sua carga emocional sendo considerada sem paralelos na televisão japonesa até seu lançamento.
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sábado, 20 de dezembro de 2025

Escrito por em 20.12.25 com 0 comentários

Studio Ghibli (IX)

E hoje encerramos o ano de 2025 e a série sobre as produções do Studio Ghibli. Nos vemos 10 de janeiro!

A Tartaruga Vermelha
La Tortue Rouge
2016

No final de 2013, tanto Hayao Miyazaki quanto Isao Takahata, dois dos fundadores e principais diretores do Studio Ghibli, anunciariam suas aposentadorias. Diante disso, o presidente do Studio Ghibli, Koji Hoshino, tomaria uma decisão inusitada: os dois projetos do estúdio já em andamento, o filme As Memórias de Marnie e a série de TV Ronja: A Filha do Ladrão seriam concluídos, mas, depois disso, todo o departamento de produção do Studio Ghibli seria desmantelado, com todos os profissionais sendo liberados para encontrar novos empregos em outros estúdios, e ele e o produtor Toshio Suzuki se dedicariam apenas à manutenção do Ghibli Museum. Hoshino deixaria claro, porém, que, caso algum novo projeto de interesse fosse apresentado, o departamento de produção poderia ser reaberto, com os profissionais, antigos ou novos, sendo recontratados apenas para aquela produção.

Assim começaria um hiato de seis anos, durante o qual muitos achariam que o Studio Ghibli havia fechado as portas de vez, e só terminaria quando Hayao Miyazaki decidisse largar sua aposentadoria para trabalhar em O Menino e a Garça, que acabou adiado para que ele pudesse ajudar seu filho Goro em Aya e a Bruxa. Mas isso nós veremos mais a seguir ainda hoje; por enquanto, o que interessa é que, durante esse hiato, o Studio Ghibli trabalharia em sua primeira co-produção internacional: o filme francês A Tartaruga Vermelha.

Co-produzido pela Wild Bunch, Prima Linea Productions, Why Not Productions, Arte France Cinéma, CN4 Productions, Belvision - todas francesas - e Studio Ghibli, financiado pela Nippon Television Network, Dentsu, Hakudodo DY Media Partners, Walt Disney Japan, Mitsubishi Corporation e Toho - todas japonesas - A Tartaruga Vermelha surgiria como projeto em 2008, quando um dos co-fundadores da Wild Bunch, Vincent Maraval, visitou o Studio Ghibli para conhecer Hayao Miyazaki pessoalmente, levando a pedido do japonês uma cópia do curta animado Father and Daughter, escrito e dirigido pelo holandês Michaël Dudok de Wit, vencedor do Oscar de Melhor Curta Animado de 2001. Miyazaki perguntaria se Maraval tinha como entrar em contato com de Wit, e diria que, se algum dia o Studio Ghibli fosse fazer um filme dirigido por um estrangeiro, seria com de Wit. A Wild Bunch entraria em contato com de Wit em Londres, convidando-o para assinar um contrato para a direção de um filme. De início, de Wit não se mostraria interessado, mas mudaria de ideia ao descobrir que Miyazaki tinha interesse em trabalhar com ele.

Questões de ordem prática, porém, fariam com que o projeto levasse muitos anos para sair do papel, e com que de Wit e Miyazaki jamais trabalhassem juntos; a principal delas seria que, tendo de Wit um contrato com a Wild Bunch, Maraval queria que o filme fosse uma co-produção entre seu estúdio e o Studio Ghibli, enquanto Miyazaki preferia que de Wit escrevesse e dirigisse um filme para o Studio Ghibli sem o envolvimento dos franceses. Somente após a aposentadoria de Miyazaki que Suzuki conseguiria costurar o acordo que permitiria a realização do filme; a extensão do quanto o Studio Ghibli efetivamente contribuiu além de emprestar seu nome jamais foi oficialmente divulgada, mas Suzuki e Takahata são creditados como produtores, junto a Maraval, Pascal Caucheteux e Grégoire Sorlat.

O filme conta a história de um homem que naufraga em uma ilha "deserta", que conta apenas com árvores, um bambuzal e alguns animais como gaivotas e siris. Ele decide usar os bambus para construir uma jangada, mas suas tentativas de escapar são repetidamente frustradas por uma tartaruga de casco vermelho. A Tartaruga Vermelha não tem diálogos, contando apenas com a trilha sonora incidental, sons ambientes e um eventual "ei!" gritado pelo homem; a animação é no estilo europeu, com os personagens não tendo traços característicos de anime. Curiosamente, o logotipo do Studio Ghibli, apresentado no início, não tem fundo azul claro como em sua versão tradicional, e sim fundo vermelho - segundo Suzuki, uma referência não somente ao nome do filme, mas também ao fato de que o Studio Ghibli não era o estúdio de produção principal, mas apenas um parceiro.

De Wit co-escreveria o roteiro com o francês Pascale Ferran. Ele manifestaria o desejo de fazer a animação da forma tradicional, com papel e acetato, passando os desenhos para o computador apenas para colori-los, mas mudaria de ideia após fazer alguns testes numa mesa de desenho digital Cintiq; a equipe acabaria fazendo os planos de fundo no papel, com carvão e esfuminho, e os personagens diretamente na mesa digital, com as cores e efeitos de luz e sombra sendo adicionados digitalmente - a jangada e as tartarugas seriam criadas diretamente em computação gráfica, com os animadores então desenhando sobre elas cena a cena, para que sua aparência não destoasse do restante do filme. Algumas cenas com atores seriam filmadas, mas, ao contrário do que foi divulgado, o filme não usou efeitos de rotoscopia, usando as cenas filmadas apenas como referência para a animação.

A Tartaruga Vermelha estrearia na França em 29 de junho de 2016, após ser exibido no Festival de Cinema de Cannes, em 18 de maio, e no Festival Internacional de Cinema de Animação de Annecy, em 13 de junho. No Japão, distribuído pela Toho, estrearia em 17 de setembro, e seria lançado no ano seguinte em DVD e Blu-ray pela Disney, sendo tratado como um lançamento oficial do Studio Ghibli. Nas Américas, os direitos de distribuição ficariam com a Sony, com a estreia nos Estados Unidos ocorrendo em 20 de janeiro de 2017, e, no Brasil, em 16 de fevereiro. Na Europa, seria distribuído pela StudioCanal (exceto na França, onde a distribuição ficaria com a própria Wild Bunch), estreando ao longo de 2017 no Reino Unido, Alemanha, Espanha, Itália e Holanda.

O filme seria um fracasso de público - com orçamento de 10 milhões de euros, sua bilheteria, somando todo o planeta, ficaria na casa de 6,6 milhões - mas um grande sucesso de crítica, sendo destacados a beleza dos cenários, a simplicidade da história e a trilha sonora, composta por Laurent Perez del Mar. A Tartaruga Vermelha seria indicado ao Oscar de Melhor Filme de Animação, mas perderia para Zootopia.

Aya e a Bruxa
Aya to Majo
2020

Até 2019, um dos principais parceiros do Studio Ghibli era o canal de televisão Nippon TV, que financiava parcialmente suas produções em troca dos direitos de exibi-las na TV aberta alguns meses após o fim de sua exibição nos cinemas, e, em 1993, financiou integralmente Eu Posso Ouvir o Oceano, única das produções do Studio Ghibli a não ser exibida nos cinemas, apenas na televisão. Naquele ano, porém, seria outro canal de televisão japonês, a NHK, quem procuraria Goro Miyazaki propondo financiar integralmente um filme de animação que, então, ela exibiria com exclusividade.

Na época, o departamento de animação do Studio Ghibli estava fechado, Hayao Miyazaki estava oficialmente aposentado, e Takahata havia acabado de falecer. Goro, mesmo assim, decidiria aceitar a proposta, mas não sem antes falar com seu pai e com Suzuki, obtendo a aprovação de ambos, que inclusive o incentivaram a fazer o filme. Muitas publicações diriam que seria Hayao Miyazaki quem planejaria o filme, mas, em entrevistas, Goro diria que, após obter a aprovação, "não consultaria novamente os mais velhos", sendo responsável por escolher qual seria a história adaptada, quem trabalharia na produção, e por decidir que o filme seria o primeiro do Studio Ghibli a ser produzido integralmente por computação gráfica em 3D - ainda segundo Goro, ele era o único do estúdio que sabia como criar uma animação desse tipo, então não adiantaria nada se consultar com seu pai ou com Suzuki.

Goro escolheria a história Earwig and the Witch, de Dianna Wynne Jones, autora de outra obra adaptada pelo Studio Ghibli, O Castelo Animado. Escrito enquanto Jones lutava contra um câncer de pulmão e publicado já após a morte da autora, em 2011, o livro conta com uma protagonista feminina jovem e ousada, algo que Goro achava que combinava com outras produções do Studio Ghibli. No original em inglês, essa protagonista se chama Earwig, nome de um inseto conhecido aqui no Brasil como tesourinha e no Japão como Ayatsuru, por isso, no original japonês e na versão traduzida para o português, ela se chama Aya.

Aya é uma menina órfã que, sem saber, é filha de uma bruxa, que, na juventude, fez parte de uma banda de grande sucesso chamada Earwig. Aya cresceria em um orfanato, onde se valeria de seu carisma para praticamente comandar o lugar, sempre aprontando alguma para não ser adotada quando algum casal aparecia. Quando Aya tinha 10 anos, porém, um estranho casal, formado pela bruxa Bella Yaga e pelo misterioso Mandrake, vai ao orfanato e escolhe especificamente a menina, levando-a para sua casa mágica. Bella Yaga diz a Aya que não está interessada em uma filha, e sim em uma ajudante, pois já não está dando conta de fazer suas poções sozinha, e a menina diz que aceita, desde que a bruxa a ensine a também ser uma bruxa. Bella Yaga concorda, mas já na intenção de enganar Aya, colocando a menina para trabalhar como uma escrava, sempre arrumando uma desculpa para não ensiná-la. O temperamento da menina jamais aceitaria essa situação, porém, e, junto com o gato Thomas, que pode falar, Aya se põe a bolar um plano para se livrar do jugo da bruxa e aprender ela também como fazer suas poções.

Como a mãe de Aya fazia parte de uma banda, a música é um elemento importante do filme. A trilha sonora seria composta por Satoshi Takebe, e as duas músicas da banda Earwig, Don't Disturb Me, maior sucesso da banda e tema de Aya, e Atashi no Sekai Seifuku, que toca no enceramento do filme, seriam executadas por uma banda formada especialmente para gravá-las, com Sherina Munaf, uma das cantoras mais populares da Indonésia, nos vocais; Hiroki Kamemoto, da banda Glim Spanky, na guitarra; Kiyokazu Takano, da banda Mrs. Green Apple, no baixo; a cantora japonesa Kavka Shihido na bateria; e o próprio Takebe nos teclados - Munaf também dubla a mãe de Aya, nas poucas cenas em que ela fala alguma coisa, na versão original em japonês. Além dessa duas canções, o álbum da trilha sonora do filme, lançado em janeiro de 2021, contaria com duas faixas compostas especialmente pela Glim Spanky, de quem Goro Miyazaki era fã. Um álbum creditado à Earwig, chamado Earwig and the Witch Songbook: 13 Lime Avenue (o endereço da casa de Bella Yaga), seria lançado em janeiro de 2022, mas para ele a formação da banda contaria com Kamemoto, Shishido, Takebe, a vocalista da Glim Spanky, Remi Matsuo, e a baixista da banda Aooo, Hikaru Yamamoto.

Com roteiro de Keiko Niwa e Emi Gunji, Aya e a Bruxa teve uma exibição no Festival Lumière, na cidade francesa de Lyon, em 18 de outubro de 2020, e foi exibido pela NHK em 30 de dezembro do mesmo ano - o filme também teria uma exibição marcada no Festival de Cannes de 2020, cancelado devido à pandemia. A audiência seria a mais baixa de todas as produções do Studio Ghibli quando passaram na televisão, o que Suzuki atribuiria ao dia e horário escolhidos pelo canal - uma quarta-feira às 19h30, na antevéspera de ano novo. Com autorização da NHK, o filme também seria exibido nos cinemas japoneses, com a Toho, que o distribuiria, marcando sua estreia para abril de 2021; mais uma vez devido à pandemia, essa data acabaria adiada, e Aya e a Bruxa estrearia nos cinemas japoneses em 27 de agosto de 2021. A versão exibida nos cinemas era mais longa que a originalmente exibida pela NHK, contando com cenas extras descartadas durante a edição; essa versão também acabaria posteriormente exibida pela NHK, em 31 de dezembro de 2021, uma sexta-feira, às 15h, com audiência ainda mais baixa que a exibição anterior. Em 15 de março de 2024, também uma sexta-feira, não sei através de qual acordo, o filme seria exibido pela Nippon TV, às 21h, novamente com audiência baixíssima.

Nos cinemas, Aya e a Bruxa nâo faria melhor, se tornando o filme de menor bilheteria da história do Studio Ghibli, rendendo apenas 300 milhões de ienes. A crítica seria extremamente desfavorável, reclamando da falta de inspiração da história, de que a protagonista, arrogante e metida, não gerava empatia no público, e considerando a animação em 3D extremamente pobre, não só quando comparada à de gigantes norte-americanas como Disney e Pixar, mas também em relação a outros estúdios japoneses que lançavam filmes no mesmo formato. Críticos de fora do Japão seriam ainda mais virulentos, dizendo que era uma heresia o Studio Ghibli trocar os planos de fundo extremamente detalhados de suas produções tradicionais por cenários pobres e sem vida, e seus personagens repletos de expressões faciais por bonecas nas quais qualquer emoção humana estava ausente. Um crítico chegaria a comparar Aya e a Bruxa à restauração do quadro Ecce Homo, de García Martínez, pela beata Cecilia Giménez, que o desfigurou completamente.

Aya e a Bruxa seria o primeiro filme do Studio Ghibli desde a versão em VHS de Sussuros do Coração a não ser lançado em home video no Japão pela Walt Disney Japan, com o lançamento ficando a cargo da Pony Canyon; para aumentar a lista de insucessos, é até hoje o lançamento do Studio Ghibli de menor vendagem. A Disney também não se interessaria em distribuir o filme nos Estados Unidos, passando a tarefa para a GKids, que não somente o lançaria em home video, mas cuidaria de sua dublagem - na qual o nome mais famoso é o de Richard E. Grant, que dubla Mandrake; as canções do filme e a dublagem da mãe de Aya ficariam a cargo da cantora Kacey Musgraves - e ficaria responsável por sua distribuição nos cinemas. Na Europa, graças a um acordo firmado antes da produção de A Tartaruga Vermelha, os direitos de lançamento em home video e distribuição nos cinemas ficariam com a Wild Bunch, que acabaria distribuindo-o nos cinemas apenas na França; o filme acabaria também sendo exibido nos cinemas do Reino Unido, distribuído pelo Elysian Film Group. Segundo os números oficiais, o filme renderia 173 mil dólares nos cinemas dos Estados Unidos e quase 670 mil no restante do planeta, se tornando, também, o filme do Studio Ghibli de menor bilheteria internacional.

O Menino e a Garça
Kimitachi wa Do Ikiru ka
2023

Eu gosto de imaginar que, quando viu os números de Aya e a Bruxa, Hayao Miyazaki pensou "não posso deixar esse ser o último filme do Studio Ghibli", e decidiu abrir mão de sua aposentadoria para fazer mais um. A verdade, porém, é que ele decidiu reconsiderar sua aposentaria para dirigir mais um filme em 2016, enquanto trabalhava no curta Kemushi no Boro ("Boro, a lagarta"), lançado em 2018 e exibido exclusivamente no Museu Ghibli e no Ghibli Park. Miyazaki tomaria essa decisão justamente enquanto estava sendo produzido um documentário sobre sua aposentadoria, que acabaria também abordando-a, e ganhando o título de Never-Ending Man: Hayao Miyazaki (algo como "o homem interminável").

De início, Miyazaki decidiria adaptar o livro infantil The Book of Lost Things, do autor irlandês John Connolly, e, em julho de 2016, faria seu primeiro storyboard; mais tarde, ele decidiria incluir também elementos de Yurei-to ("a torre fantasma"), do japonês Edogawa Ranpo, um dos livros preferidos de sua infância. Suzuki anunciaria oficialmente o projeto em fevereiro de 2017, e, em maio, o estúdio começaria a procurar profissionais para trabalhar na produção, já que havia dispensado todo mundo quando Miyazaki e Takahata anunciaram suas aposentadorias. Ao saber que Miyazaki dirigiria o filme, vários profissionais que trabalharam com ele ao longo dos anos se candidataram para trabalhar no projeto, o que fez com que o Studio Ghibli conseguisse uma equipe em pouco tempo, e a pré-produção começasse antes do fim do mês. Em outubro, o título do filme, Kimitachi wa Do Ikiru ka (algo como "como você vive?"), seria revelado; esse título seria o mesmo de um romance publicado em 1937 escrito por Genzaburo Yoshino, mas o filme não seria uma adaptação dele, não trazendo nenhum de seus elementos.

Em entrevistas, Miyazaki diria que estava fazendo o filme para seu neto, como se dissesse "vovô está partindo para outro mundo, mas deixando esse filme". Suzuki não estabeleceria uma data de lançamento para o filme, mas Miyazaki desejava que ele fosse lançado durante as Olimpíadas de 2020, que ocorreriam em Tóquio. Em agosto de 2018, Suzuki diria achar pouco provável que isso pudesse ocorrer, e que o filme provavelmente só seria lançado em 2021 ou 2022, e, em uma entrevista à NHK, em dezembro de 2019, ele diria que o filme estava cerca de 15% pronto, e que Miyazaki, na juventude, conseguia fazer cerca de 10 minutos de animação por mês, mas agora, devido à idade avançada, só estava conseguindo fazer 1 minuto por mês. Na mesma entrevista, ele diria achar improvável que Miyazaki algum dia fosse se aposenrar, pois não aguentaria o ócio, e que, mesmo com o próprio Miyazaki dizendo que esse seria seu último filme, Suzuki achava que, enquanto ele vivesse, ainda iria querer fazer mais um e mais outro.

Para agilizar o projeto, Miyazaki não supervisionaria pessoalmente todas as etapas da produção, focando no roteiro e nos storyboards, com o diretor de animação Takeshi Honda supervisionando o processo de animação. Em março de 2020, Suzuki declararia que o projeto estava consumindo mais dinheiro que o inicialmente previsto, e que, para cobrir seus custos, o Studio Ghibli negociaria a disponibilização de todo o seu catálogo na Netflix. Miyazaki, que não tinha um smartphone e não sabia o que era streaming, de início foi contra, mas acabou convencido por Suzuki, que argumentou que o filme tinha potencial para ser o mais caro da história do cinema japonês, e que somente as formas de patrocínio usuais não conseguiriam financiá-lo.

Em maio de 2020, em uma entrevista à Entertainment Weekly, Suzuki diria que 60 animadores estavam trabalhando no projeto, e que, após três anos, somente 36 minutos estavam prontos, já que todo o filme estava sendo feito à mão, da forma tradicional, mas com mais frames do que os demais projetos do Studio Ghibli, o que significava mais desenhos. Em dezembro de 2020, ele declararia que, mesmo com as restrições da pandemia, o projeto não havia sido interrompido, e que o roteiro e os storyboards já estavam totalmente prontos, o que levava a uma estimativa de que o filme teria 125 minutos de duração. Suzuki estimava que seriam precisos mais três anos para alcançar essa meta, mas que a equipe estava trabalhando sem se preocupar com prazos, da mesma forma que em O Conto da Princesa Kaguya, que levou oito anos para ficar pronto.

No fim, a produção de O Menino e a Garça, desde o início da pré-produção até o final da pós-produção, levaria sete anos e meio, cinco deles dedicados à animação em si. Miyazaki, que escreveria sozinho o roteiro, acabaria usando apenas alguns elementos de The Book of Lost Things e de Yurei-to, criando uma história original, que não era adaptação de nenhum dos dois. Muitos diriam que o filme seria autobiográfico, com o protagonista, Mahito Maki, sendo um espelho da infância de Miyazaki: seu pai trabalhava em uma empresa que fabricava peças para aviões, sua mãe faleceu em um incêndio enquanto estava internada no hospital, e ele e o pai se mudaram para o interior durante a guerra. Suzuki confirmaria essa versão, e diria que ficou surpreso quando Miyazaki lhe apresentou a proposta, já que ele sempre evitava temas pessoais. Ele, Suzuki, era representado no filme pela garça, e Takahata pelo Tio-Avô; na primeira versão do roteiro, o Tio-Avô aparecia mais e tinha um papel de maior destaque, mas, após a morte de Takahata, Miyazaki decidiria dar mais foco ao relacionamento de Mahito com a garça.

No filme, Mahito tem cerca de dez anos, e, após perder a mãe, vai morar com o pai no interior, na casa de sua tia (irmã de sua mãe), que possui várias criadas, todas idosas. Mahito não se adapta à vida no local, não aceita que o pai agora está em um relacionamento com a tia, que inclusive está grávida, e acaba se tornando amigo de uma misteriosa garça falante, que lhe convence de que sua mãe está viva e morando no interior de uma misteriosa torre que teria sido construída pelo tio-avô de Mahito. Um dia, a tia de Mahito desaparece, e ele e uma das criadas acabam seguindo a garça até a torre, indo parar num mundo fantástico habitado por todo tipo de criaturas estranhas, supostamente também criado pelo Tio-Avô.

A principal mensagem do filme seria a de que cada um consegue criar seu próprio mundo, mas sua história estaria aberta a múltiplas interpretações, com algumas análises considerando que Miyazaki quis dizer que as crianças do pós-guerra tinham a chance de prolongar o caos no qual o Japão estava mergulhado ou criar um futuro melhor; outras dizendo que ele advogava a favor da relisiência em face da perda e do luto; e alguns até considerando que a verdadeira mensagem era a importância de cultivar amizades e alianças de confiança. O filme possui um final aberto, que permite que cada pessoa tire suas próprias conclusões quanto ao rumo que a vida de Mahito tomou, mas deixando claro que suas experiências abriram caminho para que ele seguisse sem nenhum peso na consciência ou impedimento moral.

Distribuído pela Toho, O Menino e a Garça estrearia nos cinemas japoneses em 14 de julho de 2023, sendo o primeiro filme do Studio Ghibli a ser lançado simultaneamente no formato tradicional, em IMAX, Dolby Atmos e DTS:X. Por opção de Suzuki, o filme não teria nenhuma campanha de marketing, incluindo trailers, fotos da produção e documentários para a TV, à exceção de um único pôster, distribuído para os cinemas, e que mostrava apenas a garça; segundo Suzuki, ele estaria preocupado que questões-chave do enredo fossem acidentalmente reveladas pelo material promocional, e acreditava que ir ao cinema sem saber nada contribuiria para a experiência dos espectadores. Miyazaki ficaria preocupado que a estratégia prejudicasse o desempenho do filme, e, após uma sessão de testes em fevereiro de 2023, na qual os espectadores tiveram de assinar um documento se comprometendo a não revelar nada, pediria desculpas, dizendo "talvez vocês não tenham entendido o filme, eu mesmo não o entendi".

A estratégia de Suzuki, porém, mesmo se não puder ser considerada responsável pela bilheteria do filme, com certeza não a prejudicou: somente no primeiro fim de semana, O Menino e a Garça renderia 1,8 bilhão de ienes, se tornando a maior bilheteria de estreia para um filme do Studio Ghibli. Somente no primeiro fim de semana, ele arrecadaria 2,1 bilhões, também um recorde, e, em setembro, entraria para a lista dos 20 animes mais assistidos de todos os tempos. A bilheteria aumentaria entre cem mil e trezentos mil ienes por semana, até que, em março de 2024, quando saiu de cartaz, o filme havia arrecadado 8,98 bilhões de ienes. Fontes da indústria do cinema se diriam perplexas com o sucesso rápido diante da ausência de publicidade, e alguns publicitários especializados em campanhas de filmes chegariam a temer por seus empregos, mas, no fim, o sucesso seria creditado ao bom nome do Studio Ghibli, à base de fãs sólida de Miyazaki, e à divulgação boca a boca nas redes sociais, sendo considerado difícil de ser imitado por outras produções.

O Menino e a Garça seria pré-vendido para exibição internacional sem deta definida de estreia, o que também era raro. Os direitos de exibição nos Estados Unidos e Canadá ficariam mais uma vez com a GKids, que inscreveria o filme no Festival Internacional de Cinema de Toronto, no qual ele foi o primeiro filme de animação a abrir o festival em sua história, e o filme de maior público na abertura do festival "em décadas". O filme também seria exibido no Festival Internacional de Cinema de Vancouver e no Festival de Cinema de Nova Iorque antes de sua estreia oficial, em 8 de dezembro de 2023. Suzuki daria permissão para que a GKids fizesse uma campanha de marketing para o filme, que incluiu um trailer oficial, um programa exibido na Netflix e uma sessão de gala apresentada por Guillermo del Toro. A dublagem em inglês contaria com Luca Padovan como Mahito, Robert Pattinson como a garça, Karen Fukuhara como Lady Himi, Gemma Chan como a tia de Mahito, Christian Bale como o pai de Mahito, Mark Hamill como o Tio-Avô, Florence Pugh como Kiriko, e Willem Dafoe, Dave Bautista, Mamoudou Athie, Tony Revolori e Dan Stevens como criaturas fantásticas. O Menino e a Garça seria o primeiro filme do Studio Ghibli a alcançar o primeiro lugar nas bilheterias dos Estados Unidos, onde renderia 292,2 milhões de dólares, mais do que qualquer outro anime.

Na Europa, os direitos de distribuição ficariam com a Goodfellas, novo nome da Wild Bunch, que o lançaria nos cinemas do Reino Unido, França, Itália, Alemanha e Espanha, além de exibi-lo no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián e no Festival de Cinema de Sitges, ambos na Espanha. No Brasil, O Menino e a Garça seria distribuído pela Sato Company, e estrearia nos cinemas em 22 de fevereiro de 2024. Na China, onde estrearia em 3 de abril de 2024, o filme renderia 171,5 milhões de yuans somente no dia da estreia, estabelecendo um recorde de bilheteria para um filme estrangeiro, e renderia no total 670 milhões, recorde para um filme de animação.

A crítica inicialmente ficaria dividida, mas acabaria sendo extremamente favorável, considerando o filme mais uma obra-prima de Miyazaki; muitos críticos o considerariam "maduro" e "complexo", e diriam se preocupar que quem não está acostumado ao ritmo dos filmes do Studio Ghibli não conseguisse aproveitá-lo em sua totalidade. A crítica internacional também aclamaria o filme, considerando-o o ápice da carreira de Miyazaki, e dizendo que é possível assistir o filme múltiplas vezes, a cada uma descobrindo uma coisa nova. O Menino e a Garça renderia a Miyazaki o sexto Prêmio Ofuji Noburo de sua carreira, e ganharia o prêmio de Melhor Filme de Animação na Academia Japonesa de Cinema, no Globo de Ouro (onde também seria indicado a Melhor Trilha Sonora, trilha essa a cargo de Joe Hisaishi) e no Oscar, se tornando o segundo filme do Studio Ghibli oscarizado, após A Viagem de Chihiro.

E aqui terminamos essa série sobre o Stuudio Ghibli, que, após a conclusão de O Menino e a Garça, mais uma vez dispensou seus profissionais e fechou seu departamento de animação. Com Miyazaki e Suzuki em idade avançada, e considerando que um próximo filme pode ter uma produção igualmente longa, me parece improvável que teremos mais. Mas, como diria Miyazaki, o que temos é imortal, e permanecerá nesse mundo durante muito tempo após termos partido.

Studio Ghibli

•A Tartaruga Vermelha
•Aya e a Bruxa
•O Menino e a Garça

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sábado, 15 de novembro de 2025

Escrito por em 15.11.25 com 0 comentários

Studio Ghibli (VIII)

Está acabando! Hoje, mais três produções do Studio Ghibli, incluindo sua primeira série de TV!

O Conto da Princesa Kaguya
Kaguya-Hime no Monogatari
2013

Uma das mais famosas fábulas japonesas é Taketori no Monogatari, ou, em tradução livre, "a lenda do cortador de bambu", que fala de um homem de meia-idade, casado e sem filhos, que trabalha cortando e vendendo bambu, até que, um dia, encontra um bebê dentro de um dos bambus. O bebê cresce rapidamente, se torna uma linda moça, e atrai a atenção de diversos pretendentes ricos, dentre eles ninguém menos que o Imperador do Japão. A fábula é de autor desconhecido, e ninguém sabe ao certo quando ela foi escrita, sendo estimado entre o final do século IX e o início do século X, durante o período Heian, com seu manuscrito sobrevivente mais antigo datando de bem mais tarde, do ano 1592.

Seja como for, é costume no Japão que as crianças leiam essa fábula, e, assim, Isao Takahata, quando criança, também o fez. Mas, segundo ele, não gostou. Takahata diria ter tido dificuldade para simpatizar com a menina, achando-a arrogante, prepotente e antipática, e não entendendo como ela se transformou de um bebê em uma jovem tão rapidamente, e então parou de envelhecer na mesma velocidade, permanecendo jovem até o fim da história. Com todas essas reclamações, Takahata não ficaria nada satisfeito quando, em 1960, a Toei Animation, para a qual ele trabalhava, decidiria adaptar a fábula para um longa-metragem animado, colocando-o à frente do projeto. Já adulto, Takahata decidiria reler a fábula para ver como poderia torná-la interessante, e concluiria que a história deveria focar mais nos sentimentos da moça, mostrando como ela se sentia sendo considerada especial por todos os demais personagens, justificando, assim, seu comportamento.

O projeto da Toei acabaria engavetado, e Takahata esqueceria a história até 2009, quando o presidente da Nippon TV, Seiichiro Ujiie, procuraria o Studio Ghibli e perguntaria por que já haviam se passado dez anos desde o último filme de Takahata, Meus Vizinhos, os Yamada. Grande fã de Takahata, Ujiie queria que ele fizesse mais um longa-metragem, e não aceitaria um "não" como resposta, chegando a pagar ao produtor Toshio Suzuki 5 bilhões de ienes para serem investidos exclusivamente na produção. Infelizmente, Ujiie faleceria, de falência múltipla dos órgãos, aos 84 anos, em março de 2011, não chegando a ver o filme concluído - ele ainda conseguiria, porém, ler a versão final do roteiro, escrita por Takahata e Riko Sakaguchi, e ver alguns storyboards.

Ao se sentar para conversar com Suzuki sobre o novo projeto, a primeira ideia que Takahata teve foi a de adaptar a fábula do cortador de bambu, mas tendo como protagonista a menina nascida dentro da planta. Segundo ele, a melhor forma de fazer com que os espectadores se conectassem com a história seria transportando-os para a época na qual ela ocorre, e, para isso, seria fundamental que a animação tivesse traços simples, reminescentes das pinturas do período Heian, ao invés de desenhos realísticos como as animações modernas. Meus Vizinhos, os Yamada utilizava um estilo próprio de animação, no qual os desenhos pareciam aquarelados, imitando o estilo das tirinhas dos jornais japoneses, o que fez com que ele fosse o segundo mais caro do Studio Ghibli até então, atrás apenas de Princesa Mononoke; como, dessa vez, dinheiro não era problema, Takahata decidiria usar mais uma vez o estilo, mas com planos de fundo aquarelados bem detalhados - em contraste com Meus Vizinhos, os Yamada, que praticamente não tinha plano de fundo nenhum.

Para auxiliá-lo na tarefa, Takahata chamaria os animadores Kazuo Oga, que pintaria os planos de fundo realmente com aquarelas, e o animador Osamu Tanabe, que criaria os personagens, muitas vezes desenhando-os com nanquim ou carvão. Assim como Meus Vizinhos, os Yamada, a animação teria três etapas, com primeiro os fundos e personagens sendo produzidos de forma tradicional, então tudo sendo digitalizado, e as folhas digitalizadas sendo combinadas através de computação para criar a ilusão de movimento. A trilha sonora ficaria a cargo de Shin-Ichiro Ikebe, que, no início de 2013, alegaria razões pessoais para deixar o cargo, sendo substituído por Joe Hisaishi, na única vez em que Hisaishi compôs a trilha de um filme de Takahata.

Como a história era centrada na moça, e não no cortador de bambu, Takahata decidiria chamar o filme de Kaguya-Hime no Monogatari, "a lenda da Princesa Kaguya", sendo Kaguya ("reluzente") também o nome pelo qual a moça é chamada na fábula original. Takahata também faria na história todas as alterações que julgasse necessárias para que o público simpatizasse com a princesa e concordasse com suas decisões; isso acabaria fazendo com que o filme tivesse uma forte mensagem feminista, denunciando a subserviência imposta às mulheres japonesas não somente na época da fábula, mas também na atual. O filme também faria uma severa crítica à noção de beleza, mostrando que as mulheres do Japão Feudal praticamente tinham de se mutilar para serem consideradas belas, algo que não está tão distante assim em nossa realidade de cirurgias plásticas e aplicações de botox. Como é tradicional nas produções Ghibli, a Princesa Kaguya é uma jovem forte e determinada, que não se curva facilmente às pressões da sociedade - embora, no filme, isso cobre um preço.

Outra crítica que o filme faz é sobre a desigualdade econômica e a distribuição de riqueza - o cortador de bambu e sua esposa são extremamente pobres, e veem na filha adotiva a chance de ascenderem socialmente, sem notar que isso causa a infelicidade da moça. Para marcar o contraste entre riqueza e felicidade, todas as cenas ambientadas na zona rural, onde Kaguya é feliz, usam traços finos, simples e cores de tons vívidos, enquanto as cenas na capital, onde ela vive na riqueza, possuem traços duros, padrões geométricos e cores foscas. A pedido de Takahata, ao longo do filme os olhos de Kaguya iriam gradualmente perdendo o brilho, uma referência sutil ao fato de que, quanto mais ela se afastava da vida simples no campo, mais infeliz ficava - tão sutil que a maioria dos espectadores só percebe ao assistir o filme uma segunda vez, após serem informados desse fato.

No filme, o cortador de bambu encontra um bebê dentro de uma planta e a leva para morar com ele e sua esposa, em uma choupana simples no meio do bambuzal. A bebê cresce rapidamente e logo vira uma bela menina, que faz amizade com as outras crianças do vilarejo e ganha o apelido de Takenoko, o "pequeno bambu". Cada vez que o cortador de bambu retorna ao bambuzal, porém, ele encontra, dentro de uma planta, algum tipo de riqueza - ouro, joias, e sedas finas para fazer quimonos - tomando isso como um sinal dos céus de que a menina não deve ser criada naquele fim de mundo, e sim na capital, onde será tratada como uma princesa. Com a menina já adolescente, o cortador usa o dinheiro encontrado no bambu para comprar uma casa na capital, para onde se muda com a esposa e a menina, e contratar uma professora de boas maneiras, para que ela consiga um bom casamento.

Em seu décimo-quinto aniversário, a menina recebe a visita de um especialista em nomes da alta sociedade, que decide que ela deve se chamar Kaguya, e logo espalha que ela é a moça mais bonita que ele já viu, tanto que ele decide somente se referir a ela como Princesa. A fofoca do especialista também atrai muitos pretendentes para a garota, que fica trancada em uma espécie de jaula, acompanhada de uma serviçal, enquanto o cortador de bambu decide qual seria o marido ideal para ela. Um dia, chegam ao mesmo tempo cinco pretendentes riquíssimos, e o cortador decide que ela poderá escolher qual prefere; Kaguya, entretanto, para desespero de seu pai adotivo, dá a cada um uma tarefa impossível, dizendo que somente se casará com aquele que conseguir cumpri-la. Cego pela oportunidade de se tornar um nobre através do casamento da filha, o cortador não percebe que tudo o que ele faz a deixa cada vez mais infeliz, o que passa a ameaçar a própria existência da menina.

Como Hayao Miyazaki estava trabalhando em Vidas ao Vento ao mesmo tempo em que Takahata poroduzia O Conto da Princesa Kaguya, os dois combinariam de repetir o que fizeram com Meu Amigo Totoro e Túmulo dos Vagalumes, lançando ambos os filmes em sessão dupla; imprevistos com os storyboards de O Conto da Princesa Kaguya, porém, fariam com que Vidas ao Vento ficasse pronto na data prevista, estreando em julho, enquanto o filme de Takahata só ficaria pronto cerca de quatro meses depois, estreando, distribuído pela Toho, em 23 de novembro de 2013. Seu processo de produção seria documentado e lançado como um especial da Nippon TV, chamado Isao Takahata e sua Lenda da Princesa Kaguya, exibido em março de 2015.

Gastando nada menos que 7 bilhões de ienes para ser concluído, O Conto da Princesa Kaguya é até hoje o filme japonês mais caro da história. A boa notícia seria que ele estrearia já na primeira posição, rendendo 284 milhões de ienes apenas no primeiro dia, também um recorde; a má seria que, ao fim de sua exibição no Japão, ele teria rendido apenas 2,47 bilhões, sendo o décimo-primeiro filme mais assistido do ano no país. Apesar do fracasso nas bilheterias, Suzuki se declararia satisfeito com o filme - talvez porque, dos 7 bilhões que ele gastou, 5 eram da Nippon TV, que ele não precisaria devolver.

Por alguma razão, a Disney decidiria não lançar O Conto da Princesa Kaguya nos Estados Unidos, o que levaria o próprio Studio Ghibli a decidir dublá-lo em inglês, contratando o produtor Frank Marshall, da Amblin Entertainment, para supervisionar o projeto. A dublagem em inglês conta com Chlöe Grace Moretz como Kaguya, Caitlyn Leone como Takenoko, James Caan como o cortador de bambu, Mary Steenburgen como sua esposa e a narradora da história, Darren Criss como o melhor amigo de Takenoko, Lucy Liu como a professora de boas maneiras, George Segal como o especialista da alta sociedade, Hynden Walch como a serviçal de Kaguya, Beau Bridges como o Imperador, e Dean Cain, James Marsden, Oliver Platt, Daniel Dae Kim e John Cho como os pretendentes. O filme estrearia nos Estados Unidos, distribuído pela GKIDS, em 17 de outubro de 2014, após ser exibido nos festivais de Cannes e de Toronto; outros países a exibi-lo nos cinemas seriam Coreia do Sul, França, Espanha, Portugal, Alemanha, Itália, Turquia, Rússia e Brasil, onde estrearia em 16 de julho de 2015.

A crítica ficaria absolutamente encantada com o filme, elogiando a beleza de seus traços, a profundidade de seu roteiro e considerando-o "um tesouro da animação moderna com apelo eterno". Muitas publicações especializadas o elegeriam o melhor filme de animação da década de 2010, com o famoso site IndieWire considerando-o o melhor de todo o Século XXI. O Conto da Princesa Kaguya ganharia o prêmio de Melhor Filme no festival de cinema da Mainichi Shimbun, e seria indicado ao Oscar de Melhor Filme de Animação, perdendo para Big Hero 6.

O Conto da Princesa Kaguya seria o último filme de Isao Takahata. Assim como Miyazaki, ele decidiria se aposentar, aceitando retornar apenas para trabalhar como produtor em A Tartaruga Vermelha, de 2016. Nessa época, ele seria diagnosticado com câncer de pulmão, e faleceria, aos 82 anos, em abril de 2018. Uma cerimônia em sua homenagem, que contou com um discurso de Miyazaki, seria realizada no mês seguinte no Ghibli Museum, em Tóquio.

As Memórias de Marnie
Omoide no Marnie
2014

When Marnie Was There
é um livro escrito pela inglesa Joan G. Robinson, publicado em 1967. Conhecida até então por escrever livros para crianças bem pequenas, esse foi o primeiro livro de Robinson para jovens leitores, e logo se tornou um gigantesco sucesso, sendo indicado para a Carnegie Medal, o mais importante prêmio literário do Reino Unido, e traduzido para mais de dez idiomas - embora, até onde eu consegui descobrir, jamais tenha sido lançado no Brasil. Ele conta a história de uma menina chamada Anna, que, passando por problemas de saúde, é enviada para passar uma temporada na região pantanosa de Norfolk, onde ficará com um casal de idosos amigos de sua mãe adotiva, com quem Anna não tem uma boa relação. Lá, em uma mansão no meio do pântano, aparentemente abandonada, ela conhece uma menina chamada Marnie, que logo se torna sua melhor amiga e a ajudará a aprender mais sobre suas origens.

Hayao Miyazaki leu o livro pouco após seu lançamento no Japão, em 1971, e sempre o considerou um de seus livros infantis preferidos. Durante anos, ele conversou com Suzuki sobre a possibilidade de adaptá-lo para um filme do Studio Ghibli, mas, sempre envolvido em outros projetos, nunca tinha tempo de começar a escrever um roteiro. Em 2012, enquanto Miyazaki trabalhava em Vidas ao Vento, Suzuki decidiria oferecer o projeto a Hiromasa Yonebayashi, diretor de O Mundo dos Pequeninos, a quem ele queria dar mais oportunidades dentro do Studio Ghibli. Yonebayashi leria o livro e gostaria da história, mas diria a Suzuki "ter dificuldades para visualizá-la como um filme", inicialmente recusando o convite.

Ao longo dos dias seguintes, porém, Yonebayashi teria várias novas ideias para o roteiro, como fazer de Anna uma artista e, como havia feito em O Mundo dos Pequeninos, transferir a ambientação para o Japão, que também tem uma área pantanosa semelhante a Norfolk, no norte de Hokkaido, onde estão localizadas, dentre outras, as cidades de Kushiro e Nemuro. O principal motivador de Yonebayashi, entretanto, seria a possibilidade de fazer um filme que mostrasse às crianças japonesas que se sentiam isoladas, como Anna, que elas também teriam oportunidades de fazer amigos, não estando relegadas à solidão eterna. Yonebayashi levaria todas essas ideias a Suzuki, que concordaria e daria luz verde ao projeto; curiosamente, uma coisa que ele não mudou foi que, mesmo a história sendo ambientada no Japão, e todos os personagens ganhando nomes japoneses (Anna seguiria sendo Anna, mas Anna Sasaki), Marnie continuaria tendo um nome caracteristicamente britânico e sendo, assim como no livro, loira de olhos azuis. Miyazaki seria contrário a essa decisão, e chegaria a dizer que era um truque barato para atrair espectadores usando a imagem de Marnie nos pôsteres do filme, mas o produtor Yoshiaki Nishimura, selecionado por Suzuki para a produção, bancaria a decisão, dizendo que era necessário que Marnie fosse o mais diferente de Anna possível, e que não havia qualquer intenção oculta de influenciar o público usando a aparência de Marnie.

No filme, Anna Sasaki tem 12 anos e mora com sua mãe adotiva em Sapporo; sofrendo de asma, sem uma boa relação com a mãe, e sem conseguir fazer amigos na escola, ela odeia a própria vida, e só consegue encontrar alguma alegria em seus desenhos. Quando o médico da família recomenda que ela passe uma temporada "em algum local onde o ar seja mais puro", a mãe de Anna decide mandá-la para passar uma temporada com sua irmã (tia de Anna) e seu cunhado (que, no filme, são bem mais jovens que no livro), que moram em uma pequena cidade na zona rural de Hokkaido. Lá, Anna descobre uma antiga mansão, da qual um dos acessos só pode ser alcançado quando a maré está baixa, que, apesar de parecer abandonada, é o lar de Marnie, uma menina da mesma idade de Anna que passa a maior parte de seus dias com sua governanta, já que seus pais são ricos e vivem viajando. Anna e Marnie logo se tornam melhores amigas e confidentes, o que faz com que Anna aos poucos se torne menos retraída, mais sociável, e conquiste a todos na cidade com seu jeito espontâneo. Mas, sem que Anna saiba, Marnie também tem uma ligação íntima com seu passado.

Yonebayashi escolheria a animadora Makiko Futaki, que já havia trabalhado em praticamente todos os filmes do Studio Ghibli, sendo assistente de direção em Contos de Terramar, para ser a diretora de animação de Memórias de Marnie; Futaki, que já havia feito isso em Akira, de 1988, decidiria que o foco da animação deveria estar nos movimentos dos personagens e nos planos de fundo, ao invés de em suas aparências e expressões faciais, o que resultaria em personagens de feições simples, mas extremamente complexos para serem animados, e planos de fundo absurdamente detalhados, muitos deles pintados à mão numa época em que as cores de filmes animados para o cinema eram predominantemente digitais. A mansão onde mora Marnie seria criada por Yohei Taneda, que viajou para Hokkaido para encontrar construções nas quais se inspirar, decidindo usar como base uma casa de veraneio que viu por acaso em Karuizawa, pequena cidade próxima a Nagano; Yonebayashi pediria a Taneda que desenhasse a mansão como se fosse "mais um dos personagens do filme que tomam conta de Anna". Já o silo que fica sobre uma colina da cidade onde moram os tios de Anna é uma licença poética, já que não existe nada parecido no Japão, e seria inspirado no Burnham Overy Staithe Windmill, moinho de vento que é uma das principais atrações turísticas de Norfolk.

A trilha sonora ficaria a cargo de Takatsugu Muramatsu, em sua estreia no Studio Ghibli. A música-tema do filme, Fine on the Outside, seria escrita e gravada pela norte-americana Priscilla Ahn, que receberia autorização do Studio Ghibli para incluí-la em seu álbum Just Know That I Love You, lançado três dias antes da estreia do filme nos cinemas. Por ideia de Muramatsu, a trilha sonora de Memórias de Marnie seria um álbum duplo, com o primeiro disco trazendo apenas músicas instrumentais compostas "para refletir a personalidade dos personagens e dos locais mostrados no filme", e o segundo tendo as músicas que realmente tocam durante o filme, incluindo Fine on the Outside.

Memórias de Marnie estrearia nos cinemas japoneses em 19 de julho de 2014, distribuído pela Toho, e seria um grande sucesso, rendendo 379 milhões de ienes em seu primeiro fim de semana, passando dos 2 bilhões antes de completar seu primeiro mês, e fechando a bilheteria japonesa com 3,53 bilhões de ienes - o orçamento não foi oficialmente divulgado pelo Studio Ghibli, mas Yonebayashi diria que ficou na casa de 1,15 bilhão de ienes. A crítica seria extremamente positiva, considerando-o "uma beleza visual e narrativa". O filme seria indicado ao prêmio de Animação do Ano da Academia Japonesa de Cinema e ao Oscar de Melhor Filme de Animação, perdendo esse último para Divertida Mente. Após a estreia do filme nos cinemas, o livro de Robinson teria suas vendas catapultadas, sendo relançado no Japão, Itália e Espanha, onde estava há anos fora de catálogo, lançado pela primeira vez na China, e relançado nos Estados Unidos pela Harper Collins como parte de sua linha de clássicos.

Além de no Japão, Memórias de Marnie estrearia nos cinemas, ao longo de 2015, no Reino Unido, Estados Unidos, Canadá, Austrália, França, Espanha, Itália, Alemanha, Turquia, Coreia do Sul, China e Brasil, onde estreou em 19 de novembro. Nos Estados Unidos, o filme teria uma pré-estreia durante o Festival Internacional de Filmes Infantis de Nova Iorque, e, quando estreasse oficialmente nos cinemas, faria grande sucesso e arrecadaria 561 milhões de dólares somando as bilheterias nos Estados Unidos e Canadá, número impressionante para uma produção estrangeira. No Reino Unido, teria pré-estreia no Festival de Cinema de Londres, e, quando foi lançado em home video, se tornou o terceiro filme em língua estrangeira em vendas, atrás apenas do francês Sobrevivendo a Auschwitz e de Ip Man 3, de Hong Kong. Mais uma vez, a dublagem em inglês ficaria a cargo da Disney, que escalaria Hailee Steinfeld como Anna, Kiernan Shipka como Marnie, Vanessa Williams como a pintora Hisako, Geena Davis como a mãe adotiva de Anna, e Grey Griffin e John C. Reilly como os tios de Anna.

Suzuki tinha planos para que, após as aposentadorias de Hayao Miyazaki e Isao Tahakata, Yonebayashi se tornasse um dos principais diretores do Studio Ghibli, ao lado de Goro Miyazaki, mas Memórias de Marnie acabaria sendo na verdade o último filme dirigido por Yonebayashi para o Studio Ghibli, já que, em abril de 2015, ele se transferiria para o Studio Ponoc, fundado por Nishimura, que sairia do Studio Ghibli logo após o lançamento de Memórias de Marnie nos cinemas. Memórias de Marnie também seria o último filme da carreira de Futaki, que faleceria em maio de 2016, aos 57 anos, em decorrência de uma doença desconhecida.

Ronja: A Filha do Ladrão
Sanzoku no Musume Ronja
2014

Uma das autoras preferidas de Hayao Miyazaki é a sueca Astrid Lindgren. Desde a década de 1980, ele tentou conseguir os direitos de uma adaptação de sua obra mais famosa, Píppi Meialonga, de 1945, mas sempre sem sucesso; quando estava produzindo O Serviço de Entregas da Kiki, ele chegaria a viajar para a Suécia e entrar em contato com a agente de Lindgren, mas a autora respeitosamente se recusaria a se encontrar com Miyazaki para tratar de qualquer licenciamento. Lindgren faleceria em 2002, aos 94 anos, e Miyazaki segue até hoje sem conseguir adaptar nenhuma de suas obras.

Em 2013, porém, o estúdio de animação malaio Polygon Pictures, subsidiário de um estúdio japonês de mesmo nome, mas especializado em animação por computação gráfica, conseguiria os direitos de adaptação de outra obra de Lindgren, o livro Ronja: A Filha do Ladrão, originalmente publicado em 1981. Para conseguir o financiamento necessário, o estúdio recorreria, através de seu controlador japonês, ao canal de televisão NHK. Alguém da NHK deveria saber do interesse de Miyazaki em adaptar uma das obreas de Lindgren, porque eles entrariam em contato com o Studio Ghibli, e costurariam um acordo para que o Studio Ghibli e a Polygon Pictures fossem parceiros na produção - junto com a NHK Enterprises e o serviço norte-americano de internet Dwango. Como Hayao Miyazaki já estava aposentado, ele passaria a tarefa para seu filho, Goro.

Toda a parte de animação da série ficaria a cargo da Polygon Pictures, que usaria uma técnica pouco comum: primeiro, cada personagem era criado no computador de forma tridimensional, para depois uma versão desenhada à mão do mesmo personagem ser digitalizada e combinada ao modelo em 3D. Isso deixaria os personagens com um estilo parecido com o cel-shading, mas bem próximo das animações feitas à mão pelo Studio Ghibli. Os planos de fundo, por outro lado, eram totalmente pintados à mão, com apenas os rios sendo feitos por computação gráfica e adicionados aos cenários junto com os personagens. Os personagens que chamavam mais atenção eram as harpias, aves de rapina com cabeça de mulher; extremamente detalhadas, elas levariam horas para ficar todas prontas se a equipe de produção não tivesse recorrido a um artifício: existe apenas uma harpia, usada diversas vezes para representar várias diferentes, cada uma com uma pequena mudança feita já na pós-produção, como a cor do cabelo ou dos olhos.

O Studio Ghibli ficaria, digamos, com a parte de bastidores. Goro Miyazaki faria os storyboards de todos os episódios, também ficando responsável pela direção de todos eles; Hiroyuki Kawasaki escreveria os roteiros; Katsuya Kondo criaria a aparência de todos os personagens; Toshio Suzuki desenharia o logotipo da série; e Satoshi Takebe ficaria responsável pela trilha sonora, com as músicas de abertura e encerramento sendo criadas por Kazuyoshi Saito - que simplesmente tocou todos os instrumentos na música de encerramento. A música de abertura é cantada, por Mari Natsuki, e o encerramento, com música instrumental, traz arte conceitual da série criada por Kondo e Goro Miyazaki.

Na série, Ronja (que se pronuncia "Rônia") é a filha única de Mattis, chefe de um bando de ladrões que mora em um castelo pertencente à família de Mattis, localizado em um penhasco após um desfiladeiro, o que torna quase impossível que ele seja encontrado, quanto mais invadido, deixando-os a salvo das forças da lei. A esposa de Mattis, Lovis, é a única mulher no castelo, e atua como uma espécie de mãe para todo o bando, fazendo comida, obrigando-os a tomar banho e separando eventuais brigas. O único ladrão que parece ter a cabeça no lugar é o idoso Skalle-Pete, que conheceu o pai de Mattis e atua como um conselheiro do bando; os demais, incluindo Mattis, agem todos como crianças, achando a vida de ladrão muito divertida e reagindo exageradamente a qualquer acontecimento fora da rotina. Ao todo, o bando conta com 11 ladrões (formando uma dúzia com Mattis), que atendem pelo nome de Fjosok, Pelje, Tjorm, Sturkas, Knotas, Tjegge, Jutis, Joen, Labbas, Turre e Lil-Klippen.

A série é ambientada em uma Escandinávia medieval fantástica; em volta do castelo, há uma floresta conhecida como "Mata de Mattis", pela qual passa uma trilha usada por carruagens de nobres, com Mattis e seu bando os assaltando e vivendo da venda e do consumo dos itens que roubam. A Mata também é habitada por seres fantásticos, como as harpias, que odeiam todos os humanos, matando-os por puro prazer; os anões cinza, que se parecem com pequenas corujas, são extremamente territoriais mas igualmente covardes, roubando coisas que os humanos deixam desprotegidas, mas só atacando se estiverem em número bem maior; e os rumphobs, anõezinhos pacíficos peludos, narigudos e de pés enormes, que moram nos subterrâneos e se comunicam através de murmúrios. Mas o principal perigo da Mata, pelo menos para Mattis e seu bando, é um bando rival, liderado pelo ladrão Borkas, também composto por 12 ladrões (e pela esposa de Borkas, Undis), que teima em assaltar as mesmas carruagens que o bando de Mattis, deixando-os sem tesouros.

O primeiro episódio é o do nascimento de Ronja, e, nos dois primeiros, ela é um bebê. No final do segundo episódio ocorre uma passagem de tempo, e Ronja passa a ter uns sete anos; a partir de então, a série acompanha um ano inteiro de sua vida, começando no outono, passando pelo inverno, primavera, verão, e terminando quando o outono chega novamente. O foco de cada episódio está em Ronja descobrindo conceitos como coragem, amizade, família e até mesmo amor, na figura de Birk Borkasson, único menino de sua idade na Mata - que também é filho de ninguém menos que Borkas, o rival de Mattis. Ronja e Birk se consideram irmãos, e, em um dos episódios, chegam a fugir de suas respectivas casas para morar em uma caverna, se apoiando e brigando como se fossem um casal.

Ronja: A Filha do Ladrão teria 26 episódios, exibidos pela NHK entre 11 de outubro de 2014 e 28 de março de 2015. A audiência seria boa, mas a crítica ficaria dividida, elogiando a beleza da animação e a fidelidade da série ao livro, mas reclamando do ritmo lento e do "romance" entre Ronja e Birk. Além de no Japão, a série seria exibida na televisão na Inglaterra, Escócia (dublada em gaélico escocês), Estados Unidos, Suécia, Noruega, Dinamarca, Islândia, China e Taiwan; em diversos países, dentre eles o Brasil, ela faz ou já fez parte do catálogo do Amazon Prime Video, que começou a disponibilizá-la em janeiro de 2017. A versão em inglês traz Gillian Anderson como a narradora e uma versao cantada da música de encerramento como música de abertura. Apesar de não ter sido indicada a nenhum prêmio no Japão, Ronja: A Filha do Ladrão ganharia o Emmy Internacional de Melhor Programa Voltado para Crianças.

Studio Ghibli

•O Conto da Princesa Kaguya
•As Memórias de Marnie
•Ronya, a Filha do Ladrão

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sábado, 25 de outubro de 2025

Escrito por em 25.10.25 com 0 comentários

Studio Ghibli (VII)

Após uma pausa um pouco mais longa que o normal, mais três filmes do Studio Ghibli!

O Mundo dos Pequeninos
Kari-gurashi no Arrietty
2010

Lançado em 1952 e escrito pela inglesa Mary Norton, The Borrowers é um dos mais famosos livros infantis do Reino Unido. Ele é estrelado por uma família de pessoas minúsculas, que moram sob o assoalho de uma casa no interior da Inglaterra, pegando emprestado dos humanos que vivem na casa os objetos dos quais necessitam - daí o nome do livro, já que to borrow, em inglês, é o verbo "pegar emprestado". Vencedor da Carnegie Medal, o mais importante prêmio literário do Reino Unido, o livro teria quatro continuações, todos acompanhando a mesma família de Pequeninos, seria publicado em 1953 nos Estados Unidos, onde também faria muito sucesso, e adaptado diversas vezes, incluindo um filme para a TV produzido pela Hallmark para o canal norte-americano NBC em 1973; uma minissérie da BBC de 1992; um filme para o cinema de 1997, estrelado por John Goodman (lançado aqui no Brasil como Os Pequeninos); e uma minissérie de 2011 com Stephen Fry e Christopher Eccleston.

Embora no Brasil o livro não seja particularmente conhecido ou famoso, ele o é no Japão, de forma que tanto Hayao Miyazaki quanto Isao Takahata tentaram, desde a década de 1960, por diversas vezes fazer uma adaptação para um anime, sempre desistindo por um motivo ou outro. Após o lançamento de Contos de Terramar, Miyazaki estava conversando com Toshio Suzuki, e os dois concluiriam que, após adaptar Diana Wynne Jones e Ursula K. Le Guin, talvez esse fosse o momento certo para adaptar o livro de Mary Norton. Já envolvido com Ponyo, Miyazaki teria de abrir mão da direção, o que levaria Suzuki a escolher Hiromasa Yonebayashi, que faria sua estreia como diretor; tendo trabalhado como animador em A Viagem de Chihiro, O Castelo Animado e Ponyo, Yonebayashi era a escolha de Miyazaki para Contos de Terramar, mas Suzuki acabaria impondo Goro Miyazaki, filho de Hayao, considerado ainda muito cru para a função. Mesmo já estando trabalhando em outro projeto, Hayao Miyazaki escreveria uma versão preliminar do roteiro, passando então o encargo a Keiko Niwa, e revisando-o ao final; ambos seriam creditados como roteiristas.

Por ter uma ligação afetiva com a história, Miyazaki decidiria contá-la sob o seu ponto de vista, ao invés de seguir fielmente o livro; no filme, portanto, há um menino doente que mora na casa, e ele e a Pequenina protagonista vivem uma espécie de romance, embora sem nenhuma cena explícita. Miyazaki, aliás, era apaixonado pelo nome da Pequenina, Arrietty (que é falado exatamente como se lê, "arriéte") e planejava que o título do filme, ao invés de The Borrowers, fosse simplesmente Arrietty; Suzuki, entretanto, argumentaria que o tema de pegar coisas emprestadas estava em voga na cultura japonesa, e que deveria haver alguma referência o nome do livro no título do filme, que acabaria sendo algo como "Arrietty, aquela que pega emprestado". Também vale registrar que o livro é ambientado na Inglaterra do Século XIX, mas Miyazaki decidiria ambientar o filme no Japão do século XXI, mas ainda na zona rural, escolhendo a cidade de Hirakawa como inspiração.

No filme, Arrietty é uma menina da raça dos Pequeninos, que têm poucos cm de altura, e mora com sua mãe, Homily, e seu pai, Pod, em uma pequena casa escondida no fundo de um armário de uma casa de campo que passa a maior parte do tempo vazia, cuidada apenas pela governanta, Haru. A família acredita serem os últimos remanescentes da raça dos Pequeninos, e, como Pequeninos não produzem nada, desde o início dos tempos seu modo de vida envolve "pegar emprestado" - tecnicamente, furtar - aquilo do que precisam da casa maior. Assim, regularmente, Pod se utiliza de vários caminhos secretos por detrás das paredes da casa para pegar emprestadas coisas como comida, lenços de papel, elásticos e alfinetes, que a família utiliza em seu dia a dia.

Quando o filme começa, Arrietty está prestes a completar a idade na qual poderá sair para pegar coisas emprestadas, e espera ansiosamente pela ocasião na qual seu pai a levará com ele e a ensinará os segredos da profissão. Justamente nesse momento, porém, chega à casa o menino Sho, levado por sua tia avó; Sho tem um problema no coração, e precisa ficar em repouso absoluto enquanto aguarda sua cirurgia, com a casa de campo sendo considerada o lugar ideal. O problema para Arrietty é que a Lei dos Pequeninos diz que, se algum ser humano vir um Pequenino, a família precisará se mudar de casa, o que será um grande transtorno, já que a casa de campo é um lugar ideal que dificilmente será igualado, pois passa a maior parte do tempo vazia, e Sho ficará lá apenas temporariamente. Evidentemente, não somente Sho vê Arrietty como os dois conversam e se tornam amigos, com a menina tendo de esconder essa situação dos pais para que eles não sejam forçados a se mudar.

O Mundo dos Pequeninos seria o primeiro filme do Studio Ghibli no qual alguém que não fosse japonês ficaria a cargo da trilha sonora, com a escolhida sendo a francesa Cécile Corbel, que era grande fã dos filmes de Miyazaki, e enviou uma cópia de seu álbum Songbook Vol. 2 diretamente para Suzuki, na esperança de conseguir um trabalho. Suzuki ficaria impressionado com a carta escrita à mão que Corbel enviaria junto com o CD, e, ao ouvi-lo, concluiu que a voz e o estilo da cantora eram exatamente o que ele estava procurando para o filme. Suzuki mostraria o álbum para Yonebayashi, que concordaria em contratar Corbel para escrever e cantar a música-tema do filme; empolgada, ela mostraria várias de suas composições para a dupla, o que acabaria fazendo com que ela gravasse a trilha sonora inteira.

Corbel gravaria na França, acompanhada de músicos de sua confiança, e combinaria música folclórica celta com canções medievais turcas, madrigais barrocos e marchas irlandesas. O álbum resultante seria um grande sucesso no Japão, rendendo à cantora um Disco de Ouro e o prêmio de Melhor Álbum de Trilha Sonora no Japan Gold Disc Awards. A música-tema, chamada simplesmente Arrietty's Song, seria gravada pela própria Corbel em japonês, francês, inglês, italiano, alemão e bretão - idioma da Bretanha, região da França onde Corbel nasceu. A versão japonesa entraria para o Top 100 das mais tocadas nas rádios japonesas, alcançando a posição 58. Curiosamente, apesar de a versão dublada pela Disney trazer a versão em inglês de Arrietty's Song, sua música-tema é outra, Summertime, gravada por Bridgit Mendler, que dubla Arrietty nessa versão.

Falando nisso, O Mundo dos Pequeninos teria duas dublagens em inglês distintas; a primeira seria produzida pela Optimum Releasing para o lançamento do filme no Reino Unido, em 29 de julho de 2011, se chamaria, conforme o desejo de Miyazaki, simplesmente Arrietty, e contaria com Saoirse Ronan como Arrietty, Tom Holland como Sho, Olivia Colman como Homily e Mark Strong como Pod. A segunda seria a tradicional versão Disney, que estrearia nos cinemas dos Estados Unidos e Canadá em 17 de fevereiro de 2012, com o título de The Secret World of Arrietty. Uma curiosidade da versão Disney é que alguns personagens têm nomes diferentes: Sho se chama Shawn, sua tia-avó (que, na versão japonesa, se chama Sadako) se chama Jessica, e Haru se chama Hara. Além de Mendler como Arrietty, a versão Disney traz Amy Pohler como Homily, Will Arnett como Pod, Carol Burnett como Hara, e David Henrie como Shawn. No Brasil, o filme estrearia nos cinemas apenas em 21 de junho de 2012.

No Japão, distribuído mais uma vez pela Toho, O Mundo dos Pequeninos estrearia em 17 de julho de 2010, após uma pré-estreia que contaria com Miyazaki, Yonebayashi, Corbet cantando a música-tema em japonês ao vivo, e a presença do casal real da Suécia, a Rainha Sílvia e o Rei Carlos Gustavo XVI. O filme seria o mais assistido do país em seu primeiro fim de semana, quando renderia 1,35 bilhão de ienes e atraindo mais de um milhão de espectadores; também seria o filme japonês que conseguiria mais rápido ultrapassar a marca de 3,5 bilhões de ienes, levando 20 dias. O Mundo dos Pequeninos fecharia o ano como o filme mais assistido no Japão em 2010, e arrecadaria quase 10 bilhões de ienes na bilheteria. A crítica o receberia com enorme entusiasmo, considerando-o "Studio Ghibli em seu melhor" e "visualmente exuberante, livre de pieguices para toda a família e ancorado em grande profundidade". O filme ganharia os prêmios de Animação do Ano da Academia Japonesa de Cinema e do Tokyo Anime Awards, e muitos críticos norte-americanos considerariam injusto ele não ter sido indicado ao Oscar.

Ambicioso, Yonebayashi queria bater o recorde de salas de Ponyo, mas, por razões fora do controle da Toho, O Mundo dos Pequeninos estrearia em "apenas" 447 salas - ele conseguiria bater o recorde, entretanto, nos Estados Unidos, onde a versão Disney estrearia em 1522 salas. Nos Estados Unidos, aliás, o filme seria o segundo de maior bilheteria em seu fim de semana de estreia, perdendo apenas para a versão 3D de Star Wars: Episódio I: A Ameaça Fantasma, e no total renderia quase 20 milhões de dólares, se tornando o quarto anime de maior bilheteria na história do país e o primeiro que não era inspirado em uma franquia de games, já que ficaria atrás apenas de Pokémon: O Filme, Pokémon: O Filme 2000 e Yu-Gi-Oh!: O Filme.

Da Colina Kokuriko
Kokuriko-zaka Kara
2011

Após uma estreia desastrosa com Contos de Terramar, Goro Miyazaki pediria mais uma chance a Suzuki, dessa vez com o apoio de seu pai, Hayao Miyazaki, que sugeriria que ele adaptasse o mangá Kokuriko-zaka Kara, escrito por Tetsuro Sayama e desenhado por Chizuru Takahashi, publicado entre janeiro e agosto de 1980, que Hayao conheceria quando estava em sua casa de veraneio nas montanhas com um casal de sobrinhos, e eles encontraram uma versão encadernada do mangá, deixada lá por algum amigo de seus filhos. Ele leria a história e acharia interessante, tendo com seus amigos Mamoru Oshii e Hideaki Anno uma discussão acalorada sobre a possibilidade de fazer uma adaptação do mangá para o cinema. Hayao chegaria a garantir os direitos da adaptação, mas o projeto ficaria engavetado até a produção de O Mundo dos Pequeninos, quando ele decidiria que esse seria o próximo, aproveitando a disposição de Goro para assumir um novo projeto para sugeri-lo.

Ambientado em 1963, o mangá tem como protagonista a adolescente Umi Komatsuzaki, cujo pai, que era marinheiro, desapareceu dez anos antes, quando seu navio foi afundado durante a Guerra da Coreia, e cuja mãe, fotógrafa, decidiu aceitar um emprego nos Estados Unidos, deixando-a sozinha na casa da família, na cidade de Yokohama. Atráves de uma série de eventos, ela se apaixona por um menino de sua escola, Shun Kazama, que descobre que ambos são irmãos por parte de pai, mas, ao invés de contar para a menina, decide ficar rejeitando-a. A história, portanto, é centrada na paixão não correspondida de Umi, que não compreende a razão da rejeição. O nome do mangá vem do fato de que a casa de Umi fica no alto de uma colina onde crescem várias kokuriko, uma flor japonesa da família da papoula, famosa por sua cor vermelha.

Hayao Miyazaki escreveria uma versão preliminar do roteiro, e delegaria mais uma vez a Keiko Niwa a função de escrever a versão final. Ele aproveitaria que a história era ambientada em 1963, um ano antes da primeira Olimpíada disputada em Tóquio, e fazia referência à Guerra da Coreia, para incluir uma subtrama: a escola onde Umi e Shun estudam tem uma república estudantil, que congrega, dentre outros, os clubes de literatura, filosofia, astronomia e o jornal da escola; como parte de uma renovação da escola motivada pelo sentimento de que estava sendo criado um "novo Japão" após a Guerra da Coreia e com a proximidade das Olimpíadas, a república será demolida, com Shun sendo contra e convencendo Umi a lutar junto com ele para que o projeto seja cancelado.

Essa alteração teria como base acontecimentos históricos: após a derrota na Segunda Guerra Mundial, o Japão, como punição, foi proibido de ter forças armadas, mas, como a marinha japonesa ainda tinha navios, durante a Guerra da Coreia os Estados Unidos pressionaram o governo japonês para que esses navios fossem usados para transportar soldados norte-americanos e suprimentos para a Coreia, voltando com japoneses repatriados. Esses navios eram frequentemente atacados ou encontravam minas pelo caminho, de forma que muitos cidadãos japoneses acabaram mortos durante a Guerra da Coreia, da qual o Japão sequer estava participando, a maioria como resultado de navios colidindo contra minas - o pai de Umi seria dado como morto quando seu navio afundaria após colidir contra uma mina, tanto no mangá quanto no filme. Estimativas oficiais do número de japoneses mortos jamais seriam divulgadas, e nem o governo dos Estados Unidos, nem o do Japão, jamais reconheceriam oficialmente que essas mortes aconteceram. Isso levaria a uma onda de protestos estudantis que se alastrariam por várias escolas e universidades japonesas na década de 1960, não somente por causa da Guerra, mas por qualquer motivo que os estudantes achassem junto, coisa que não era comum no Japão antes disso.

No filme, Umi mora com uma avó em um antigo hospital transformado em pensão, sendo responsável por seu gerenciamento, enquanto sua mãe está estudando medicina nos Estados Unidos; uma irmã e um irmão mais novos de Umi também moram na pensão, que tem, dentre os hóspedes, uma residente de medicina e uma artista plástica. Durante um protesto contra a demolição da república estudantil, Umi conhece Shun, que é o responsável pelo jornal da escola, que a convida para trabalhar produzindo os estênceis. Os dois acabam se apaixonando, e Umi entra de cabeça na defesa da república estudantil, chegando a viajar com Shun até Tóquio para convencer Yasuyoshi Tokumaru, presidente do grupo dono da escola, a visitar Yokohama e ver que faria mais sentido reformar o local do que demolir. Mas a história do jovem casal sofrerá um revertério quando, durante um almoço na pensão, Shun descobrir que os dois podem ser irmãos por parte de pai.

Além de fazer alterações na história, Hayao Miyazaki decidiria mudar o sobrenome de Umi para Matzuzaki, e faria Tokumaru, tanto em maneirismos quanto em aparência, inspirado em Yasoyushi Tokuna, presidente da Tokuma Shoten, editora da qual o Studio Ghibli foi uma subsidiária até 2005. Goro Miyazaki viajaria para Yokohama, disposto a retratar a cidade no filme da forma mais fiel possível, mas, enquanto estava lá, chegaria à conclusão de que seria melhor se os cenários fossem extremamente bonitos do que extremamente fiéis, então faria apenas algumas notas gerais sobre a cidade, dando carta branca para que os diretores de arte a retratassem da forma que achassem melhor. Para criar a república estudantil, chamada Latin Quarter, Goro decidiria criar uma mansão na qual cada quarto tinha características diferentes, dependendo de qual clube o ocupasse. Ele trabalharia com os diretores de arte para criar um prédio que fosse "um amálgama de vários estilos", mas que também transmitisse a sensação de amontoado e sujeira que ele sentia ao entrar nas repúblicas estudantis de sua época de escola.

A produção seria impactada pelo terremoto e tsunami que atingiriam a região de Tohoku em março de 2011, já que o governo japonês faria apagões de energia programados para que não houvesse colapso do sistema; isso faria com que os animadores tivessem de trabalhar à noite, quando os apagões eram mais espaçados e menos frequentes. Apesar do contratempo, Hayao Miyazaki se recusaria a mudar a data prevista para a estreia do filme nos cinemas, alegando ser sua responsabilidade garantir que o tudo estivesse pronto na data programada. Em maio, Goro Miyazaki declararia que por volta de 50% da animação estava pronta, quando o planejado, se não houvesse ocorrido o desastre, seria que 70% já estivesse pronto; ele também diria que o principal fator que causaria o atraso não seriam os apagões, mas o fato de que vários profissionais que trabalhavam no filme ficariam abalados com a tragédia, com o Studio Ghibli decidindo dar a eles um tempo para que se recuperassem.

Da Colina Kokuriko estrearia nos cinemas japoneses, distribuído pela Toho, em 16 de julho de 2011. Seria o terceiro filme mais assistido do ano, atrás de Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2 e Pokémon, o Filme: Preto - Victini e Reshiram / Branco - Victini e Zekrom. Uma exposição chamada THE ART OF Kokuriko-zaka Kara, que contava com 130 peças de arte conceitual e storyboards usados no filme estrearia no mesmo dia na Seibu Ikebukuro, em Tóquio, ficando por lá até 28 de julho e depois, entre 10 e 15 de agosto, na galeria Sogo's de Yokohama. Um dia antes, em 9 de agosto, o canal de TV NHK exibiria um especial chamado Futari Kokuriko-zaka Chantoko no 300-nichi Senso: Miyazaki Hayao x Miyazaki Goro ("A Guerra de 300 Dias entre Pai e Filho"), que mostrava os bastidores da produção. Em setembro, Da Colina Kokuriko seria exibido fora de concurso no Festival Internacional de Cinema de Toronto, e estrearia nos cinemas da Coreia do Sul.

O filme seria o primeiro do Studio Ghibli a estrear na Europa distribuído pela Disney, com a Walt Disney Studios Motion Pictures France distribuindo o filme na França, onde ele estrearia em janeiro de 2012; com diferentes distribuidores, ele estrearia ao longo de 2012 também na Alemanha, Espanha, Itália, Suíça e Turquia, e seria o terceiro filme do Studio Ghibli a estrear na China, em setembro de 2021. Curiosamente, a Disney decidiria não lançar o filme nos Estados Unidos, com a GKIDS se oferecendo para um lançamento limitado nos cinemas, em 15 de março de 2013, e amplo em home video, em setembro de 2013; no Reino Unido, Da Colina Kokuriko seria lançado apenas em home video. A dublagem em inglês conta com Sarah Bolger como Umi, Anton Yelchin como Shun, Jamie Lee Curtis como a mãe de Umi, Beau Bridges como Tokumaru, e Gillian Anderson, Aubrey Plaza e Christina Hendricks como as hóspedes da pensão.

A crítica ficaria dividida, com alguns considerando-o "gentil e nostálgico" e "tão adorável quanto os fãs do Studio Ghibli esperariam", e outros achando o enredo previsível e o final sem graça. A direção de Goro Miyazaki também dividiria a crítica, com a maioria achando que ele conseguiu superar os erros cometidos em Contos de Terramar e se firmar como um bom diretor, outros achando a direção amadora e descuidada; seja como for, Goro se tornaria o primeiro diretor, à exceção de seu pai e de Takahata, a dirigir mais de um filme do Studio Ghibli, e Da Colina Kokuriko seria o segundo filme seguido do Studio Ghibli a ganhar o prêmio de Animação do Ano tanto pela Academia Japonesa de Cinema quanto no Tokyo Anime Awards.

Vidas ao Vento
Kaze Tachinu
2013

Apaixonado por aviação, Hayao Miyazaki, entre novembro de 1984 e janeiro de 2010, contribuiu esporadicamente com artigos, resenhas e mangás de sua autoria para a revista Model Graphix, especializada em modelos de montar e voltada para aqueles que têm o modelismo como hobby. Dentre essas contribuições, estariam os mangás Hikotei Jidai, de 1989, que seria adaptado para o filme Porco Rosso; Buta no Tora, de 1992, e Hans no Kikan, de 1994, ambos sobre um mecânico alemão chamado Hans, que cuida de um tanque como se fosse seu melhor amigo; Doromamire no Tora, de 1999, adaptação das memórias do alemão Otto Carius sobre a Segunda Guerra Mundial; e Kaze Tachinu, publicado entre abril de 2009 e janeiro de 2010, versão ficcional da vida de Jiro Horikoshi, engenheiro japonês responsável pela criação do Mitsubishi A6M, apelido Zero, caça japonês usado durante a Segunda Guerra Mundial. Conhecidas coletivamente como Miyazaki Hayao no Zasso Noto (algo como "anotações aleatórias de Hayao Miyazaki"), essas contribuições seriam lançadas em diversos encadernados publicados pela mesma editora da Model Graphix, a Dainippon Kaiga, e se tornariam extremamente famosas, sendo citadas como influência por diversos outos autores, dentre eles Kazuma Kujo, que diria em entrevistas que elas serviriam de inspiração para sua maior criação, o game Metal Slug.

Após concluir Ponyo, Miyazaki decidiria que estava na hora de o Studio Ghibli investir em uma continuação, prática comum dentre outros estúdios no Japão e no ocidente, mas que ainda não havia sido explorada por eles. Sua primeira opção seria uma continuação de Porco Rosso, que acabaria engavetada por não conseguir financiamento. Ele decidiria, então, trabalhar em uma continuação de Ponyo, que era mais recente e havia sido um grande sucesso, mas, enquanto ele ainda estava pensando no roteiro, Suzuki, que não era favorável à ideia da continuação, sugeriria uma adaptação para o cinema de Kaze Tachinu. Miyazaki inicialmente seria contra, achando que o assunto do mangá não era familiar para crianças, mas mudaria de ideia quando um membro da equipe diria que "deveríamos permitir que crianças fossem expostas a assuntos com os quais elas não estão familiarizadas", se lembrando, então, de uma frase do próprio Horikoshi: "tudo o que eu quero é fazer algo bonito".

Curiosamente, o mangá usava porcos antropomórficos, semelhantes ao protagonista de Porco Rosso, como persongens, mas, empolgado por produzir o primeiro filme "baseado em fatos reais" do Studio Ghibli, Miyazaki decidiria que a animação teria personagens humanos. Ele também decidiria fazer o filme bem menos ficcional e mais fiel aos eventos históricos do que o mangá, exceto por um detalhe: o título do mangá (que significa algo como "o vento soprou") havia vindo de um romance escrito por Tatsuo Hori e publicado em 1937. O livro não tem absolutamente nada a ver com a vida de Jiro Horikoshi, acompanhando um homem sem nome que conhece acidentalmente uma mulher chamada Setsuko, que tem como hobby a pintura, se apaixona por ela e, após alguns encontros e desencontros, descobre que ela tem tuberculose, decidindo ir viver com ela no sanatório para que possam se casar. O romance é semi-autobiográfico, já que Hori se inspiraria em sua própria história de amor com sua esposa, Ayako Kano, que também faleceria de tuberculose - embora a maioria dos eventos do livro seja ficcional, jamais tendo acontecido entre Hori e Kano.

Miyazaki, que leria o livro ao fazer pesquisa para escrever o mangá, se encantaria com a história e, para o filme, criaria uma namorada para Horikoshi - que, na vida real, jamais existiu - inspirada em Setsuko, com a história intercalando seu trabalho como engenheiro aeroespacial e seu romance com ela. Hori também não seria o criador do título do livro, retirando-o de um poema do francês Paul Valéry, que, falando sobre vida e morte, diz "o vento soprou, precisamos viver"; no filme, o poema é citado, e esse trecho usado como uma espécie de lema de Horikoshi. Outra obra frequentemente referenciada durante o filme é A Montanha Mágica, de Thomas Mann, preferido de Stephen Alpert, diretor executivo da divisão internacional do Studio Ghibli, que deixou o cargo por razões pessoais em 2011, mas seguiu sendo amigo de Miyazaki e Suzuki; Miyazaki criaria para o filme um personagem secundário com o mesmo nome do protagonista de A Montanha Mágica, Hans Castorp, inspirado em Alpert, desenhado à sua imagem e semelhança, e o convidaria para dublá-lo na versão japonesa.

O filme começa em 1918, quando Jiro Horikoshi, ainda criança, sonha em ser piloto de avião, mas, devido à sua miopia, isso se mostra impossível. Ele decide, então, seguir os passos do engenheiro italiano Giovanni Battista Caproni, que jamais pilotou um avião na vida, mas criou dezenas de modelos, e se tornar ele mesmo um engenheiro aeroespacial. Anos mais tarde, já como aluno da Universidade Imperial de Tóquio, ele conhece a jovem Naoko Satomi, por quem se apaixona, mas de quem se desencontra após um terremoto que atingiu a região de Kanto em 1923. Após se formar, Horikoshi e seu melhor amigo, Kiro Honjo, vão trabalhar para a Mitsubishi, mas todos os seus projetos fracassam. A fábrica, então, decide retirá-los do projeto do caça e colocá-los no de um bombardeiro, enviando-os para um intercâmbio com a Junkers, na Alemanha, em 1929. Ao retornar, Horikoshi tam várias novas ideias para o caça e, durante férias em um resort, em 1933, se reencontra com Naoko, com os dois começando a namorar. A moça, entretanto, tem tuberculose e pouco tempo de vida, com Horikoshi decidindo se casar com ela em segredo, dividindo seu tempo entre o projeto do caça e seu amor.

Distribuído pela Toho, Vidas ao Vento estrearia no Japão em 20 de julho de 2013; seria o filme mais assistido do ano no país, rendendo 11,6 bilhões de ienes na bilheteria. Ao mesmo tempo em que Miyazaki trabalhava em Vidas ao Vento, Takahata também produzia seu novo filme, O Conto da Princesa Kaguya. Os dois, então, decidiriam repetir o que fizeram com Meu Amigo Totoro e Túmulos dos Vagalumes, e lançar ambos os filmes em sessão dupla; atrasos na produção de O Conto da Princesa Kaguya, entretanto, fariam com que ele tivesse de ser adiado quatro meses, estreando apenas em novembro.

Vidas ao Vento seria exibido no Festival Internacional de Cinema de Veneza, no Festival Internacional de Cinema de Toronto, e no Festival de Cinema de Telluride, sempre ovacionado pelo público, mas acabaria tendo distribuição limitadíssima na Europa, estreando em 2014 apenas na França e Itália; no Brasil, estrearia em 28 de fevereiro de 2014. A Disney decidiria distribuí-lo nos Estados Unidos através de sua subsidiária Touchstone Pictures; a princípio, ele teria distribuição limitada apenas na cidade de Los Angeles, estreando em 8 de novembro, somente para que pudesse concorrer ao Oscar, mas depois a Disney mudaria de ideia, o lançaria em cidades selecionadas em 21 de fevereiro de 2014, e em todo o país em 28 de fevereiro. A dublagem da Disney traria Joseph Gordon-Levitt como Horikoshi, Emily Blunt como Naoko, John Krasinski como Honjo, Martin Short como o engenheiro-chefe da Mitsubishi, Werner Herzog como Castorp, William H. Macy como o pai de Naoko, e Stanley Tucci como Caproni. Vale citar como curiosidade que, na versão japonesa, Horikoshi é dublado por Hideaki Anno, o criador de Neon Genesis Evangelion.

A crítica seria extremamente positiva, destacando a beleza da animação, a fluidez do roteiro, e a proeza de Miyazaki ter conseguido fazer um filme ambientado durante uma guerra, protagonizado por um homem que criava máquinas de guerra, sem jogar nenhuma luz positiva sobre a guerra - de fato, o filme tem a mesma crítica contra a guerra presente em todas as obras de Miyazaki, embora de forma mais sutil. Essa característica, aliás, faria com que o filme fosse alvo de críticas por parte de políticos japoneses, que acharam que o filme era "anti-patriótico" e mostrava os japoneses como incompetentes e arrogantes. Miyazaki colocaria mais lenha na fogueira ao escrever para um jornal um artigo condenando a proposta de alguns políticos que queriam que o Japão voltasse a ter forças armadas. O filme também seria alvo de duras críticas na Coreia do Sul, com alguns alegando que o Zero era um "instrumento de opressão", "fabricado por coreanos em campos de trabalho forçado".

Vidas ao Vento ganharia dois prêmios da Academia Japonesa de Cinema, o de Animação do Ano e o de Melhor Trilha Sonora, para Joe Hisahi; também seria indicado ao Oscar de Melhor Filme de Animação, perdendo para Frozen, e para o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira, perdendo para o italiano A Grande Beleza. Miyazaki declariria em entrevistas que ele seria seu primeiro filme que o faria chorar ao assisti-lo; alegando esgotamento físico e idade avançada, aos 72 anos, ele anunciaria sua aposentadoria, dizendo que se afastaria da produção de longa-metragens para cuidar exclusivamente das exposições do Museu Ghibli. Em reconhecimento à sua importância para a animação mundial, em 2014 Miyazaki receberia um Oscar honorário pelo Conjunto da Obra.

Studio Ghibli

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