sábado, 7 de fevereiro de 2026

Escrito por em 7.2.26 com 0 comentários

Nádia e os Mistérios do Mar

Enquanto estava escrevendo os posts sobre as produções do Studio Ghibli, me lembrei de um outro anime que eu assisti há alguns anos, do qual gostei, mas sobre o qual eu nunca escrevi um post. Não querendo fazer dois posts sobre anime no mesmo mês, já que eles andam raríssimos por aqui, decidi que primeiro iria finalizar a série do Studio Ghibli antes de escrevê-lo. Esse anime, como vocês devem ter deduzido pelo título do post, é Nádia e os Mistérios do Mar, e é o tema de hoje.


Lançado no Japão em 1990, Nádia e os Mistérios do Mar, cujo nome original em japonês é Fushigi no Umi no Nadia, "Nádia do Mar Misterioso", ganharia notoriedade nos Estados Unidos, onde foi lançado com o título Nadia: The Secret of Blue Water, após a Disney lançar Atlantis, em 2001. Na época, várias pessoas que assistiram tanto o anime quanto o filme da Disney, no Japão e nos Estados Unidos, começaram a acusar a Disney de plágio, apontando várias semelhanças entre as duas obras - eu mesmo, inclusive, só decidiria assiti-lo após escrever meu post sobre Atlantis para a série dos Clássicos Disney, para ver se era tão parecido assim. Nenhuma medida formal jamais seria tomada, já que a Gainax, estúdio que produziu Nádia, não poderia processar a Disney sem a anuência da NHK, canal de televisão japonês que o transmitiu, e, segundo um dos empregados da Gainax, "nem mesmo o canal de televisão nacional do Japão tem coragem de enfrentar os advogados da Disney". A Disney jamais se posicionou oficialmente sobre a questão, mas Kirk Wise, um dos diretores de Atlantis, postaria online que jamais ouviu falar de Nádia até as acusações começarem, e atribuiria as semelhanças ao fato de ambas as obras serem inspiradas em Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne. Os espectadores, entretanto, alegam que as semelhanças entre as duas obras são específicas demais, e diferentes demais do que está na obra de Verne, para ser esse o caso. Seja como for, como jamais houve um processo, o caso acabou virando uma anedota, e fica a cargo de cada um que assiste decidir se houve plágio ou não - eu já acho que Atlantis é plágio de Stargate, mas isso é outra história.

A origem de Nádia remonta à década de 1970, quando Hayao Miyazaki, que ainda nem pensava em fundar o Studio Ghibli, seria contratado pela Toho para criar um anime para ser exibido na televisão. A ideia original era que esse anime combinasse elementos de duas obras de Júlio Verne, Vinte Mil Léguas Submarinas e A Volta ao Mundo em 80 Dias, e tivesse como protagonistas dois órfãos procurando um tesouro, que seriam perseguidos por vilões e acabariam dando a volta ao mundo a bordo do Nautilus, ajudados pelo Capitão Nemo. Miyazaki chegaria a traçar uma sinopse, mas o anime jamais seria produzido, com a Toho retendo os direitos sobre a história e Miyazaki reutilizando alguns de seus elementos em obras futuras como O Castelo no Céu.

No final da década de 1980, o canal de televisão NHK estava procurando um novo anime para levar ao ar, e entraria em contato com o Group TAC, estúdio especializado em produzir animações para outros estúdios - em outras palavras, um estúdio qualquer, como a Gainax, desenvolvia um projeto e entregava ao Group TAC para que seus profissionais produzissem parte dos desenhos necessários para concluí-lo - para saber se eles sabiam de algum anime que estivesse sendo produzido no momento. O Group TAC não sabia de nenhum, mas entraria em contato com a Gainax, que futuramente ficaria conhecida por Neon Genesis Evangelion, que costumava contratar seus serviços com frequência, para saber se eles tinham. Quem atendeu a ligação foi o vice-presidente da Gainax, Hiroake Inoue, que, alguns anos antes, tinha tomado conhecimento do projeto de Miyazaki com a Toho, e, em segredo, contratado Yoshiyuki Sadamoto e Mahiro Maeda para desenvolvê-lo. Inoue aproveitaria a oportunidade e faria uma apresentação sobre o projeto para a NHK, sem informar Toshio Okada, o presidente da Gainax - que, ao saber, ficaria extremamente insatisfeito, pois o projeto seria caríssimo e resultaria em prejuízo para o estúdio.

Sem ter nada a ver com isso, a NHK adoraria o projeto, e tentaria convencer Okada a autorizá-lo, o que ele falou que só faria caso Inoue não fizesse parte da equipe. Irritado, Inoue deixaria a Gainax, que escolheria Sadamoto para dirigir o projeto. Hadamoto chegaria a ocupar a função durante algumas semanas, mas pediria para sair e ficar encarregado somente da animação; Okada, então, escolheria para substituí-lo Hideaki Anno, que, alguns anos depois, viria a ser justamente um dos criadores de Evangelion, e acabaria creditado como criador de Nádia. Seria de Anno a ideia de fazer referências no anime não somente às obras de Verne, mas também a outros anime famosos, como Patrulha Estelar, Macross e Time Bokan.

Nádia é ambientado no final do século XIX, em um universo alternativo no qual monstros marinhos ameaçam as viagens maritmas, o que levaria a uma verdadeira corrida de inventores para criar uma máquina voadora capaz de substituir os navios. Um desses inventores é o jovem Jean Roque Lartigue, de 14 anos e órfão, com sua mãe tendo falecido quando ele era criança e seu pai, um oficial da marinha mercante, tendo sido dado como morto após um ataque dos monstros. Jean mora com os tios em Le Havre, França, e, desde criança, sempre teve talento para invenções, decidindo, com a ajuda do tio, se inscrever em um concurso de máquinas voadoras que ocorrerá em Paris.

Durante o concurso, Jean acidentalmente conhece Nádia La Arwall, de 14 anos e órfã como ele, que trabalha como acrobata em um circo para sobreviver, e está sempre acompanhada de King, um filhote de leão albino. De pele morena e olhos amendoados, Nádia não conhece sua verdadeira origem, mas imagina que seja natural da África, tendo como maior sonho conhecer o continente africano. Quando Jean e Nádia se conhecem, ela está sendo perseguida por Grandis Granda, uma mulher belíssima e riquíssima de ascendência italiana, cujo objetivo é obter a Blue Water, uma misteriosa joia que Nádia traz no pescoço, mas também não sabe de onde veio. Grandis tem dois capangas, o alto, forte e belo Samson e o baixinho, gordinho e extremamente inteligente Hanson, ambos apaixonados por ela, e um veículo chamado Gratan, criado por Hanson e pilotado por Samson, que pode assumir várias formas diferentes - tanque, helicóptero, submarino etc.

Após várias desventuras, Jean, Nádia, King, Grandis, Samson e Hanson se tornam aliados, e descobrem que os monstros marinhos na verdade são submarinos de uma organização criminosa chamada Neo Atlantis, chefiada pelo misterioso Gargoyle, que segue as ordens do Imperador Neo. Descendentes dos habitantes da mítica ilha de Atlântida, que na verdade eram alienígenas que chegaram a nosso planeta milhares de anos atrás, os Neo Atlantis conseguiram recuperar parte da tecnologia atlante, e planejam usá-la para dominar o mundo e escravizar a raça humana, que eles consideram inferiores. Durante um ataque dos Neo Atlantis, os seis personagens são resgatados pelo Capitão Nemo, que combate os vilões usando seu submarino, o Nautilus, e passam a navegar com ele para tentar impedir os planos malignos de Gargoyle - que, para completar sua principal arma, a fortaleza voadora Red Noah, precisa, adivinhem do quê, isso mesmo, da Blue Water.

Outros personagens de grande destaque são Marie, menina francesa que se une a Jean e Nádia, se tornando companheira inseparável de King, após seus pais serem mortos por um ataque dos Neo Atlantis à vila onde moravam, em Cabo Verde; Electra, que também ficou órfã após um ataque dos Neo Atlantis, sendo resgatada pelo Capitão Nemo, que fez dela a primeiro-oficial do Nautilus; e Ayerton, inglês que originalmente é o oficial de ciências de um navio norte-americano que resgata Jean e Nádia quando eles ainda estão sendo perseguido por Grandis, e mais adiante na série é regatado de uma ilha deserta e se une aos heróis contra Neo Atlantis, se apaixonando por Grandis e fazendo de tudo para chamar sua atenção.

A série teria um total de 39 episódios, exibidos pela NHK entre 13 de abril de 1990 e 12 de abril de 1991. Como uma novela, a série seria produzida enquanto estava indo ao ar, o que faria com que alguns episódios do meio sejam bem diferentes em tônica e enredo que os demais, e que os do final tragam muitas mudanças para alguns personagens, já que a Gainax estava tentando emular o que fazia sucesso na época para que Nádia fosse igualmente bem-sucedido. Para cortar custos, alguns episódios seriam animados na Coreia do Sul, pelo estúdio Sei Young Animation, e têm uma aparência levemente diferente dos demais. A série seria lançada em home video em duas versões, uma igual à exibida na TV e uma conhecida como Nautilus Story, que seria uma "versão do diretor", editada pessoalmente por Anno, lançada no Japão em 1991 e inédita no ocidente.

Conforme previsto por Okada, a Gainax perderia 80 milhões de ienes com o projeto, e sequer teria os direitos sobre a obra, que ficariam com a NHK - por isso eles precisavam da anuência dela para processar a Disney - e quase iria à falência. De fato, o estúdio só não faliu porque a NHK abriu mão dos rendimentos de um game produzido pela Namco em 1991 para o Famicom (o NES japonês), no estilo JRPG, que seria recordista de vendas na época entre os games inspirados em anime, mangá ou tokusatsu, rendendo tanto dinheiro que não somente cobriria o rombo deixado pela produção do anime, mas também equilibraria o caixa da Gainax, que criaria sua própria divisão de games para lançar uma sequência, também para o Famicom, em 1992, que teria versões lançadas para os consoles Mega Drive e PC Engine e para os computadores Sharp X68000, NEC PC-9801 e FM Towns - nenhuma delas jamais lançada no ocidente.

Antes do lançamento do game, para tentar cobrir o rombo causado pelo anime, a Gainax se envolveria com diversos projetos de outros estúdios dos quais receberia parte dos rendimentos; essa prática acabaria destacando inúmeros problemas dentro do estúdio, muitos deles de hierarquia e insubordinação. Há quem diga que foi a operação de saneamento conduzida pelos executivos do estúdios após a descoberta desses problemas que modernizaria a Gainax, transformando-a em um dos estúdios mais bem sucedidos do Japão na década de 1990, e em um dos mais famosos hoje.

Também para tentar cobrir o rombo, a Gainax aceitaria um adiantamento de 50 milhões de ienes do Group TAC para a produção de um filme para o cinema de Nádia. Anno se recusaria a dirigir o filme, alegando ainda não estar recuperado do estresse de dirigir a série. Sadamoto seria novamente convidado e a produção começaria, mas após eles já terem gastado todo o adiantamento, ao ver que precisariam de muito mais dinheiro se quisessem concluir o filme, a produção seria interrompida. O filme só seria concluído graças a uma parceria entre a Gainax e a Sei Young Animation, com roteiro do sul-coreano Yu Ko e dirigido pelo japonês Sho Aono. Lançado em 29 de junho de 1991, o filme é ambientado três anos após os eventos da série, e acompanha os principais personagens enquanto eles tentam retomar suas vidas.

Tendo de dividir os rendimentos do filme com a Sei Young, a Gainax acabaria fazendo um acordo com o Group TAC segundo o qual pagaria o adiantamento assim que produzisse uma nova série de sucesso - que viria a ser, justamente, Evangelion. Aliás, Anno pensaria em Evangelion como uma continuação para Nádia, com os robôs gigantes sendo criados para destruir seres criados em Atlântida que ameaçam o restante do planeta; a história teria de ser mudada já durante a produção, e todos os 26 roteiros reescritos, porque a Gainax não conseguiu chegar a um acordo com a NHK quanto aos direitos sobre Nádia - que, hoje, são divididos entre NHK e Toho, com a Gainax ainda não podendo fazer nada com os personagens que ela mesma criou.

Nos Estados Unidos, inicialmente Nádia seria lançado em VHS pela Streamline Pictures, que lançaria um total de oito fitas, cada uma contendo um único episódio, com áudio dublado em inglês, entre março de 1992 e agosto de 1993 antes de acabar o dinheiro. O presidente da Streamline planejava usar o dinheiro das vendas dos oito primeiros episódios para lançar os demais, e, quando não conseguiu, ofereceu a série para vários canais de TV, que não aceitaram exibi-lo devido a elementos considerados adultos - por exemplo, embora nunca dê pra ver nada de mais, Nádia, que, lembremos, tem 14 anos, costuma ficar frequentemente pelada, com um episódio inclusive mostrando ela e Grandis tomando banho juntas. Em 1996, a Streamline conseguiria um contrato com a Orion Pictures, que relançaria os oito primeiros episódios em duas fitas, mas, devido às baixas vendas, não se interessaria em dublar e lançar os demais. Durante toda a década de 1990, fãs da série só poderiam assisti-la completa através de fansubs, fitas VHS copiadas de originais japonesas com legendas em inglês criadas por seus próprios produtores - que não pagavam direitos aos estúdios japoneses. A série completa só ficaria disponível oficialmente no ocidente em 2001 (por pura coincidência, mesmo ano do lançamento de Atlantis), quando a ADV Films a lançaria em DVD nos Estados Unidos; nesse mesmo ano, ela seria exibida no Brasil, no canal Locomotion. O filme também seria lançado pela ADV em DVD, em 2002.

No Japão, Nádia seria um grande sucesso, ganhando em 1991 o prêmio de Melhor Anime da revista Animage, que, dez anos depois, em 2001, o colocaria na posição 72 de sua lista dos 100 melhores anime de todos os tempos - também é interessante notar que, todos os anos, a Animage faz uma eleição dentre os leitores do personagem masculino e da personagem feminina mais populares dos anime, com Nádia sendo a primeira a conseguir destronar Nausicäa, antes disso eleita por seis anos consecutivos. Após o lançamento de Evangelion, a crítica compararia as duas séries, dizendo que em ambas o público sabe que "um destino terrível aguarda os personagens", mas mesmo assim simpatiza com eles. Embora Nádia não seja tão adulta quanto Evangelion - não chega nem perto - a série seria extremamente elogiada por romper com vários padrões e convenções dos anime dos anos 1980, com sua carga emocional sendo considerada sem paralelos na televisão japonesa até seu lançamento.

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