domingo, 17 de junho de 2018

Cabo de Guerra

Como eu disse há algum tempo, depois de terminar de falar sobre os esportes do programa das Olimpíadas, resolvi olhar o programa dos World Games para ver quais faltavam. Acabei descobrindo que, do programa atual (ou seja, da última edição, disputada em 2017), só não havia falado sobre três. Sobre um deles, os esportes aéreos, eu já falei, sobre outro, o cabo de guerra, eu vou falar agora.


"Mas como assim, cabo de guerra é esporte?" vocês devem estar se perguntando. Pois é, aquilo que muitos de nós consideram apenas uma brincadeira de criança é um esporte regularmente constituído, com federação internacional, campeonatos disputados em diversos países, e até mesmo pretensão de voltar a fazer parte do programa das Olimpíadas - sim, voltar a fazer, porque o cabo de guerra já foi esporte olímpico no passado.

Não somente o cabo de guerra é considerado um esporte, como também é um dos esportes mais antigos do mundo, sendo impossível precisar quando de fato ele teria surgido e por quem teria sido inventado. Existem registros de competições de cabo de guerra na antiguidade disputadas na China, Grécia, Egito, Índia, sudeste asiático, Escandinávia e até mesmo na Papua Nova Guiné. Um dos murais do famoso complexo de templos de Angkor Wat, no Camboja, é a representação de uma disputa de cabo de guerra entre duas raças místicas, os asuras e os devas; os vikings eram conhecidos por grandes disputas de cabo de guerra em seus festivais ou como preparação para a batalha; e, na Índia, o cabo de guerra era disputado em rituais religiosos e feiras comerciais, incluindo a Pushkar ka Mela, feira de agronegócio realizada até hoje e que conta com um campeonato de cabo de guerra feminino, no qual as mulheres competem vestidas com roupas cerimoniais. Registros escritos dão conta de que, na China, durante a Dinastia Tang, o Imperador Xuanzong promovia grandes campeonatos de cabo de guerra, com algumas disputas envolvendo quinhentas pessoas de cada lado da corda e músicos tocando tambores para incentivá-los; outros registros escritos indicam que, na Grécia Antiga, existiam nada menos que três variações de cabo de guerra diferente, incluindo uma sem corda, na qual os competidores tinham de segurar as mãos dos oponentes com firmeza. Até mesmo os índios Mojave, dos Estados Unidos, têm dentre suas histórias competições de cabo de guerra entre os guerreiros mais poderosos da tribo.

O cabo de guerra começaria a se transformar em um esporte organizado por volta do ano 1500, quando diversos campeonatos começariam a ser disputados na França. Logo essa moda chegaria também à Inglaterra, onde começariam a surgir os primeiros clubes de cabo de guerra, nos quais seus membros podiam competir uns contra os outros ou em torneios interclubes, com os membros de cada clube testando sua força contra os membros dos clubes rivais. No início, entretanto, o cabo de guerra não era considerado um esporte em separado, e sim uma disciplina do atletismo, sendo regulado pelas federações de atletismo de cada país; a IAAF, federação internacional do atletismo, entretanto, jamais se interessou em regulá-lo em nível internacional, o que fez com que, a partir da década de 1920, torneios internacionais, disputados principalmente na Europa, começassem a ficar cada vez mais raros, e, mesmo os que ainda eram disputados, envolviam apenas clubes, e não seleções - normalmente, um ou mais clubes de um país entravam em contato com clubes de outros países para que eles mesmos organizassem um torneio internacional, o que, evidentemente, limitava muito o alcance e o prestígio de tais torneios.

Esse panorama começaria a mudar em 1958, com a fundação da Tug of War Association (TWA), a federação nacional de cabo de guerra da Inglaterra. A TWA não seria a primeira federação nacional de cabo de guerra - essa honra caberia à da Suécia, fundada em 1933 - e nem conseguiria ser muito atuante dentro da própria Inglaterra - ainda considerado como uma disciplina do atletismo, o cabo de guerra era regulado no país pela AAA, órgão responsável pelo atletismo amador - mas, graças aos esforços do presidente da TWA, George Hutton, seria fundada, em 1960, a Federação Internacional de Cabo de Guerra (TWIF, da sigla em inglês), que, a princípio, reunia a TWA, a federação sueca e a federação holandesa, fundada em 1959.

Hoje, a TWIF conta com 69 membros dos cinco continentes, incluindo o Brasil, e conta com duas peculiaridades: primeiro, um de seus membros é chamado "Ilhas do Canal", e conta apenas com atletas nascidos nas ilhas de Guernsey, Jersey, Alderney e Sark, localizadas no Canal da Mancha e pertencentes ao Reino Unido; segundo, a TWIF é a única federação internacional desportiva que tem dentre seus membros o País Basco, que tem uma seleção composta apenas por atletas nascidos dentro de suas fronteiras - poderíamos dizer que ela é uma seleção separada da seleção da Espanha, mas a Espanha não é membro da TWIF, o que faz com que a seleção do País Basco seja a única seleção de cabo de guerra que conta com atletas espanhóis. Vale citar também que, assim como no futebol e em alguns outros esportes coletivos, no cabo de guerra os países do Reino Unido competem separadamente, ou seja, há seleções separadas de cabo de guerra para Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales

Sendo um esporte tão antigo, o cabo de guerra possui diversas variações regionais, sendo reconhecidas pela TWIF as variações disputadas na Indonésia (chamada Tarik Tambang), Japão (três delas, chamadas Tsunahiki, Kariwano e Kenka-zuna), Coreia (chamada Juldarigi na do Sul, Chuldarigi na do Norte, mas ambas sendo a mesma variação) e País Basco (chamada Sokatira). Curiosamente, a versão disputada nos três países fundadores da TWIF era praticamente a mesma, apenas com algumas pequenas diferenças em relação ao tipo de corda e o número de participantes. Em sua primeira reunião, eles definiriam as regras pelas quais os torneios da entidade deveriam ser disputadas; são essas as regras usadas hoje em todos os torneios organizados pelas federações membros da TWIF, assim como em torneios internacionais, como os World Games, e são essas que veremos a partir de agora.

A TWIF regula duas modalidades do cabo de guerra, a outdoor e a indoor. As regras são exatamente as mesmas, com a única diferença sendo que as partidas outdoor ocorrem ao ar livre, enquanto as indoor ocorrem em um ginásio fechado. Partidas outdoor devem ser disputadas sobre um gramado, com a faixa sobre a qual os atletas se posicionam sendo claramente demarcada, normalmente com grama bem pisoteada ou seca; já em partidas outdoor é utilizado um piso especial antiderrapante, mas apenas na faixa onde os atletas se posicionam, com o restante do piso sendo o normal do ginásio. Tanto no outdoor quanto no indoor o comprimento mínimo da faixa onde os atletas se posicionam é de 36 metros, e sua largura deve estar entre 1 e 1,2 m. A faixa deve ser dividida bem no meio por uma linha claramente visível, que no outdoor pode ser uma valeta. No indoor, também há marcações na pista a 4 m de distância a partir do centro para cada lado.

Um time de cabo de guerra conta com oito atletas. Cada time tem também um reserva, mas as regras para substituição são rigorosas, e dizem que o jogador substituído não pode retornar pelo resto do campeonato, devendo o reserva substituí-lo em todas as partidas que seu time ainda tiver de fazer na competição; por causa disso, a substituição só costuma ser feita em caso de lesão de um dos atletas, embora as regras também permitam que ela seja feita por razões táticas. Caso um outro jogador se lesione após a substituição ter sido feita, as regras permitem que a equipe prossiga no campeonato com apenas sete atletas, mas não menos; caso ocorra uma terceira lesão, a equipe é automaticamente desclassificada. A TWIF permite competições masculinas, femininas e mistas, sendo que times mistos são sempre formados obrigatoriamente por quatro homens e quatro mulheres.

Além do rigor na substituição, a TWIF é extremamente rigorosa em relação aos calçados dos atletas, para impedir que eles usem solas que deem alguma vantagem na hora de fincar os pés no chão e fazer força. Para o outdoor, o salto do calçado não pode ter mais que 35 mm de altura, medidos a partir da palmilha, ou seja, incluindo a sola; o salto pode ter uma placa de metal na base, desde que ela tenha no máximo 6,5 mm de altura, e que pode se prolongar para a frente, para permitir maior firmeza, desde que esse prolongamento tenha no máximo 15 mm de comprimento. A frente do calçado também pode ser modificada para maior firmeza, desde que tais modificações não ultrapassem a metade do comprimento do calçado, não tenham partes metálicas, que a altura da parte da frente, incluindo a sola, não tenha mais que 35 mm, e que a sola não fique a menos de 6,5 mm de altura da base do salto. Já para o indoor, a sola não pode ter salto, deve obrigatoriamente ser feita de borracha sem a aplicação de nenhum produto químico ou fluido, e o calçado não pode ser mais de 20% maior que o comprimento do pé descalço do atleta. Além desses calçados tão específicos, o uniforme consiste de camisa de mangas curtas, calção e meias na altura dos joelhos; são opcionais acessórios para a cabeça, como bonés, viseiras, faixas para suor e bandanas, inclusive os usados por motivos religiosos, como turbantes e lenços. A TWIF recomenda, mas não obriga, o uso de uma espécie de colete conhecido como anchor vest, que protege os órgãos internos da extrema força exercida pelos atletas; cintos ao estilo dos levantadores de peso também são permitidos, desde que vestidos por sobre o uniforme - ao contrário do anchor vest, vestido por baixo. Finalmente, é permitido o uso de uma resina nas mãos para melhorar a firmeza da pegada na corda, mas, no indoor, apenas se estiver de acordo com as regras do ginásio, já que pode manchar ou danificar o piso.

Para que haja justiça nas partidas, a TWIF adota um sistema de categorias, cada uma com um peso máximo, semelhante ao que ocorre nas lutas desportivas - afinal, o time mais pesado leva vantagem, então, se as categorias não existissem, todo mundo tentaria colocar no time os atletas mais pesados à disposição. O peso máximo de cada categoria diz respeito ao time inteiro, ou seja, todos os atletas do time são pesados e seus pesos somados para se determinar se o time está dentro do peso máximo. Como se as regras para a substituição já não fossem rigorosas o bastante, elas também dizem que um jogador só pode ser substituído se o reserva for mais leve que ele, mesmo que o time não esteja no peso máximo da categoria; por causa disso, o reserva costuma ser o atleta mais leve do time, para poder substituir qualquer um em caso de necessidade. As atuais categorias de peso são três para o masculino indoor (560 kg, 600 kg e 680 kg), três para o masculino outdoor (580 kg, 640 kg e 700 kg), duas para o feminino (500 kg e 540 kg) e uma para o misto (600 kg), sendo que, no caso do feminino e do misto, as categorias são as mesmas para o indoor e o outdoor.

O componente mais importante do cabo de guerra é a corda. Feita de algodão trançado, ela não pode ter nenhum nó, e seu final deve ser livre. A circunferência deve estar entre 10 e 12,5 cm, e o comprimento não pode ser menor que 33,5 m. A corda conta com marcações coloridas: no outdoor, há uma exatamente no centro, uma a cada 4 m e uma a cada 5 m a partir do centro para cada lado (ou seja, em uma corda de tamanho mínimo, as marcações estarão a 4, 5, 8, 10, 12, 15 e 16 m de cada lado), enquanto no indoor há uma no centro e uma a cada 2,5 m a partir do centro para cada lado; cada tipo de marcação deve ser de cor diferente, ou seja, três cores diferentes para o outdoor, duas para o indoor. Não é permitido aos atletas segurar em cima de uma marcação, e o primeiro atleta de cada time deve segurar após a primeira marcação a partir do centro - o que faz com que haja 8 m de corda entre um time e o outro no outdoor, 5 m no indoor. Não é permitido aos atletas enrolar a corda nas mãos ou nos braços, devendo sempre segurá-la com as mãos de forma que seja possível que ela corra, com ambas as palmas viradas para cima. O último integrante de cada equipe é conhecido como âncora, e a corda deve passar por baixo de um de seus braços, diagonalmente em suas costas, por cima do outro ombro e então por baixo do outro braço, para que ele atue como contrapeso.

A posição própria para puxar a corda é como se o atleta estivesse sentado, com os joelhos dobrados e o corpo levemente inclinado para trás - como se estivesse caindo e se segurando na corda para não terminar de cair. Toda a força feita para mover o time oponente deve ser feita com as pernas, com os braços sendo usados apenas para manter a firmeza da pegada, e não para puxar a corda. São considerados falta sentar no chão, tocar o solo com qualquer parte do corpo que não seja a sola dos pés, segurar a corda em desacordo com as regras, impedir que a corda corra, puxar a corda com os braços, tirar ambos os pés do chão ao mesmo tempo, virar de costas para o time oponente, erguer a corda acima da linha dos cotovelos e pisar fora da faixa destinada aos atletas. Cada vez que um time comete uma falta, recebe uma advertência; um time que receba duas advertências na mesma partida é desclassificado da competição. Também são passíveis de advertência o âncora não passar a corda de acordo com as regras, o técnico se comunicar com o time enquanto a partida está em andamento, e a inatividade - basicamente, ficar só fazendo força para evitar que o oponente puxe seu time, sem ativamente tentar puxar o time oponente também.

Antes de cada partida, é feito um cara ou coroa entre os capitães das duas equipes, para que o vencedor escolha de qual lado da faixa quer atuar. Cada embate entre duas equipes ocorre em melhor de três partidas, ou seja, a equipe que vencer duas partidas primeiro ganha; na segunda partida, os lados da faixa são invertidos em relação à primeira, mas, se for necessária uma terceira, é realizado um novo cara ou coroa. Deve sempre ser respeitado um período de seis minutos entre uma partida e outra, mesmo que as mesmas duas equipes não estejam envolvidas em duas partidas seguidas. Caso seja uma competição eliminatória, a equipe que vencer o embate avança, e a que perder é eliminada; se for uma competição por pontuação, cada vitória em uma partida valerá um ponto, e a equipe com mais pontos depois que todas tiverem se enfrentado será a campeã. Uma competição pode, ainda, ter uma primeira fase em grupos, com aquelas com mais pontos em cada grupo se classificando para uma fase eliminatória.

Tudo isso estabelecido, as regras do cabo de guerra são super simples: cada equipe puxará a outra para a frente, até que uma determinada marcação na corda ultrapasse uma determinada marcação no chão; quando isso ocorrer, uma das equipes será a vencedora. No outdoor, a vitória ocorre quando a primeira marcação dos 4 m de uma equipe ultrapassa a linha central da faixa, com essa equipe perdendo a partida; no indoor, a vitória ocorre quando a marcação central da corda ultrapassa a linha a 4 m do centro da faixa, com a equipe mais longe do centro da faixa quando isso ocorrer sendo a vencedora - trocando em miúdos, ambas as regras significam que a vitória é alcançada quando uma equipe puxa a outra 4 m para a frente em relação às suas posições iniciais.

O principal campeonato do cabo de guerra é o Campeonato Mundial, disputado pela primeira vez em 1975, mesmo ano no qual os primeiros membros de fora da Europa (Índia, África do Sul e Estados Unidos) se filiaram à TWIF. No início, o Mundial era apenas masculino e outdoor, mas, desde 2001, o Mundial passaria a contar com provas femininas e a alternar outdoor e indoor a cada ano - ou seja, sempre nos anos ímpares, temos o Mundial Outdoor, e, nos anos pares, temos o Mundial Indoor.

Como já foi dito, o cabo de guerra também já fez parte das Olimpíadas, entre 1900 e 1920, também com apenas provas masculinas outdoor. Como na época o cabo de guerra era considerado uma disciplina do atletismo, suas provas olímpicas contam como provas do atletismo, e não como de um esporte separado. Recolocar o cabo de guerra no programa olímpico é um dos principais objetivos da TWIF, e o primeiro passo para isso foi dado em 1999, quando o COI reconheceu o cabo de guerra como esporte apto a fazer parte das Olimpíadas; as pretensões da TWIF, porém, esbarram justamente no fato de que muitos ainda não veem o cabo de guerra como um esporte, e sim como uma mera brincadeira de criança.

Enquanto não consegue entrar para as Olimpíadas, o cabo de guerra tenta mostrar seu potencial esportivo nos World Games, dos quais participa desde a primeira edição - a TWIF, inclusive, é membro fundador da IWGA, a entidade que organiza os World Games. Atualmente, nos World Games, são disputadas duas provas masculinas outdoor, de até 640 kg e até 700 kg, e uma feminina indoor, de até 520 kg. Curiosamente, nas quatro últimas edições do evento (2005, 2009, 2013 e 2017), a medalha de ouro no feminino foi para Taiwan, e, no masculino até 640 kg, para a Suíça (que também foi ouro no até 640 kg em 1989 e 1993 e no até 720 kg em 1981 e 1993). Entre 1997 e 2013, a Holanda ganhou cinco medalhas de ouro seguidas na categoria masculina mais pesada (até 720 kg de 1981 a 1997, até 680 kg de 2001 a 2009, até 700 kg desde 2013), tendo essa sequência quebrada em 2017 pela Grã-Bretanha, cujo único outro ouro havia sido conquistado em 1989. A única edição na qual um mesmo país ganhou ouro nas duas categorias do masculino foi 1985, quando ambos ficaram com a Irlanda. E também vale citar um ouro da Espanha em 1997 no masculino até 640 kg, conquistado com uma equipe formada inteiramente por bascos.

0 enfiaram o nariz:

Postar um comentário