segunda-feira, 10 de julho de 2017

As Eras dos Quadrinhos de Super-Heróis

Essa semana eu estava explicando a uma colega o que seriam as tais Era de Ouro, de Prata e de Bronze dos quadrinhos, conversa motivada por um artigo sobre o filme da Mulher Maravilha que ela leu no qual eram mencionados esses termos, que ela não conhecia. Sendo eu o nerd de plantão, claro que ela viria perguntar pra mim o que seria essa divisão em Eras. Expliquei de forma resumida, me atendo aos fatos sobre os quais eu tinha certeza, e ela felizmente entendeu. Mas, depois de 724 posts, é claro que vocês já me conhecem, e sabem que eu mesmo fiquei querendo novas informações sobre esse assunto. E, normalmente, quando eu procuro novas informações sobre algum assunto, fico com vontade de escrever um post. Foi assim que nasceu esse aqui, que acabou com um título meio comprido e esquisito, mas eu não consegui pensar em nenhum melhor.

Vamos começar do começo. É consenso quase geral que a primeira história em quadrinhos do mundo foi Hogan's Alley, escrita e desenhada por Richard F. Outcault e publicada aos domingos no jornal The New York World entre 17 de fevereiro de 1895 e 23 de janeiro de 1898, protagonizada por The Yellow Kid, um menino careca que vestia apenas uma túnica amarela, daí seu apelido ("a criança amarela" em inglês). Inspirado nas charges e cartuns, que já existiam nos jornais há anos, e normalmente, como hoje, eram usados como crítica aos governos e políticos, Outcault criaria historinhas curtas, nas quais o Yellow Kid e os demais habitantes de Hogan's Alley se metiam em confusões ou ponderavam sobre a vida e a sociedade; algumas até tinham cunho político e social, mas a maioria era frívola, apenas para entretenimento.

O consenso é "quase geral" porque nem todos consideram Hogan's Alley (que, aliás, muita gente chama de The Yellow Kid, confundindo o nome da história com o de seu protagonista) como a primeira história em quadrinhos, já que outras histórias usando mais de um quadrinho - diferentemente das charges e cartuns, que usavam um quadro só - já haviam sido publicadas por outros jornais e revistas antes de 17 de fevereiro de 1895 - incluindo As Aventuras de Nhô Quim, do brasileiro Angelo Agostini, publicada pela primeira vez no jornal Vida Fluminense em 1869, considerada pela maioria dos estudiosos brasileiros como a verdadeira primeira história em quadrinhos. Hogan's Alley costuma ser considerada a primeira, porém, porque tinha uma coisa que nenhuma de suas antecessoras, nem mesmo As Aventuras de Nhô Quim trazia: os balões de fala e pensamento.

Assim como minha colega disse quando eu mencionei esse fato, você deve ter pensado "só isso, que besteira", mas somente com a introdução dos balões é que as histórias em quadrinhos passaram a ser consideradas obras em separado; sem eles, elas não eram muito diferentes, por exemplo, dos livros infantis, que traziam, a cada página, uma ilustração acompanhada de algumas frases que explicavam o que estava acontecendo ou revelavam ao leitor os diálogos ou pensamentos dos personagens. A adição dos balões deu às histórias em quadrinhos um meio próprio para transmitir essas informações, que as diferenciava dos livros, charges e outras obras ilustradas. A facilidade em perceber de imediato qual personagem estava falando (ou pensando) o quê logo garantiu a popularidade dos balões, e, por conseguinte, das histórias em quadrinhos, que começariam a se multiplicar por todos os jornais da América e Europa.

Mas Hogan's Alley e as demais histórias que a seguiram eram, essencialmente, tirinhas: histórias curtas, de poucos quadrinhos, publicadas em jornais (ou em revistas, mas com o mesmo formato). As revistas em quadrinhos como conhecemos hoje, com histórias que levam várias páginas para se concluir (algumas vezes ocupando a revista inteira, ou até mais de uma revista), só apareceriam bem depois. Sua precursora seria a revista Funnies on Parade, criada pelo editor Max Gaines e lançada em março de 1933. Totalmente a cores, Funnies on Parade trazia reimpressões de tirinhas de jornais famosas (muitas das quais foram publicadas originalmente em preto e branco), e não era vendida, e sim trocada por selos que vinham nas embalagens de produtos da marca Procter & Gamble; ou seja, era parte de uma promoção da empresa. Essa promoção seria extremamente bem sucedida, com toda a tiragem de dez mil exemplares encomendada por Gaines se esgotando rapidamente.

Vendo uma oportunidade comercial, Gaines procuraria outros patrocinadores além da Procter & Gamble e entraria em contato com a Eastern Color (mais tarde conhecida como EC), a editora que imprimiu a Funnies on Parade, visando criar uma revista semelhante, mas que trouxesse histórias inéditas e fosse vendida em lojas de departamentos e bancas de jornal. Essa revista, chamada Famous Funnies: A Carnival of Comics, lançada em setembro de 1933 com uma tiragem de 100 mil exemplares, é hoje considerada a primeira de todas as revistas em quadrinhos, pois, além de reimpressões de tirinhas de jornais, ela trazia histórias inéditas, criadas especialmente para ela, algumas ocupando mais de uma página. Toda a tiragem de Famous Funnies se esgotaria em uma semana, e seu sucesso daria origem a várias outras publicações semelhantes, com a primeira revista de um personagem criado especialmente para elas (e não para jornais ou outras revistas), chamada Skippy’s Own Book of Comics e protagonizada pelo menino Skippy, sendo lançada pela Dell Publishing em janeiro de 1934.

Quase a totalidade das primeiras histórias em quadrinhos era de humor, por isso elas se tornariam conhecidas como funnies (algo como "engraçadinhas") ou comics, sendo as revistas conhecidas como comic books (os "livros de comics"), nome que é usado em inglês até hoje, mesmo que a revista não tenha nada de humor. As primeiras histórias em quadrinhos que não foram voltadas para a comédia foram adaptações de clássicos da literatura de aventura, fantasia e ficção científica, como 20.000 Léguas Submarinas, Buck Rogers e Tarzan, que estrearam nos jornais no mesmo dia, em 7 de janeiro de 1929. O sucesso dessas histórias logo levaria ao surgimento de personagens inéditos no mesmo estilo, como Flash Gordon, de Alex Raymond, cuja estreia foi em 7 de janeiro de 1934; o mágico Mandrake, de Lee Falk, com estreia em 11 de junho do mesmo ano; e o Fantasma, também de Falk, com estreia em 17 de fevereiro de 1936. Essas tirinhas chegariam às revistas a partir de 1936, em publicações como a King Comics, da McKay Publications, e a Tip Top Comics, da United Features, que simplesmente republicavam as tiras de jornal.

Ainda em 1936, porém, a editora Comics Magazine Company decidiria inovar, lançando dois títulos voltados apenas para criações inéditas, chamadas New Fun Comics e More Fun Comics, que, apesar do nome (sendo fun, "diversão", uma palavra normalmente associada ao humor), traziam histórias de todos os estilos. Seria na New Fun Comics que estrearia o Dr. Mystic, personagem ao estilo de Mandrake criado por uma certa dupla chamada Jerry Siegel e Joe Shuster. A maioria das histórias publicadas por essas duas revistas seria de caubóis e piratas, mas as mais populares eram as policiais, nas quais detetives e investigadores particulares solucionavam crimes misteriosos e frustravam os planos de gênios do crime que se mostravam mais do que aquilo com que a polícia conseguia lidar. Foi para capitalizar sobre o sucesso dessas histórias policiais que Malcolm Wheeler-Nicholson, um dos antigos donos da editora National Allied Publications, decidiria fazer uma parceria com o dono de gráfica Harry Donenfeld e lançar, em março de 1937, a revista Detective Comics, dedicada apenas a histórias protagonizadas por detetives, através de uma nova editora fundada pelos dois também chamada Detective Comics. E aí, finalmente, chegamos no ponto que realmente interessa para esse post.

Em meados da década de 1930, Siegel e Shuster criariam um novo personagem, o qual planejavam colocar como protagonista de uma tira de jornal. Eles o ofereceram a Gaines, que não se interessou. Alguns meses depois, quando eles já estavam desistindo, Gaines entrou em contato, perguntando se, ao invés de uma tira, eles poderiam escrever uma história em várias páginas, porque a Detective Comics (que, alguns anos depois, após se fundir com outras editoras menores, decidiria mudar de nome para DC Comics) estava pensando em lançar uma nova revista, chamada Action Comics, e queria, para protagonizá-la, um herói que não fosse caubói, pirata ou detetive. Esse personagem se chamava Super-Homem (ou Superman, no original em inglês e na forma mais usada atualmente, por razões de marketing), e acabou fazendo tanto sucesso que deu origem a um gênero totalmente novo, o dos super-heróis.

Sim, porque personagens como Buck Rogers, Flash Gordon, Tarzan, Mandrake e o Fantasma eram com certeza heróis, mas não tinham nada de "super", sendo homens perfeitamente normais que se valiam apenas de sua inteligência, habilidade e equipamentos para superar suas aventuras (até se pode argumentar o mesmo em relação a personagens como o Batman e o Arqueiro Verde, mas, como eles surgiram depois do Super-Homem, acabaram sendo enquadrados no mesmo grupo, enquanto os anteriores não). Como o Super-Homem foi o primeiro dos super-heróis, o lançamento de sua primeira revista, a Action Comics número 1, em abril de 1938, marca o início da Era de Ouro dos quadrinhos de super-heróis.

É claro, óbvio e evidente que, na época, ninguém a chamava assim, tipo "oba, estamos lendo várias histórias da Era de Ouro assim que elas estão sendo lançadas", com esse termo sendo bem posterior a essa época: a primeira menção ao termo "Era de Ouro" foi feita pelo autor de ficção científica Richard A. Lupoff, em um artigo que ele escreveu em 1960, publicado na revista Comic Art de abril daquele ano - na verdade, o termo "Era de Ouro" só começaria a ser usado em larga escala quando ficasse bem claro que havia uma diferença entre esses primeiros quadrinhos de super-heróis e aqueles que viriam depois.

A Detective Comics e a All-American Publications (outra das editoras que se fundiriam para dar origem à DC) foram as mais profícuas em criar novos super-heróis, lançando, durante a Era de Ouro, Super-Homem, Batman, Mulher Maravilha, Flash (o original, Jay Garrick), Lanterna Verde (também o original, Alan Scott), Eléktron (idem, Al Pratt), Gavião Negro (ibidem, Katar Hol), Arqueiro Verde, Aquaman e o Caçador de Marte, nessa ordem, além da Sociedade da Justiça, uma equipe que reunia super-heróis de ambas (Flash, Lanterna Verde, Gavião Negro e Eléktron da All-American; Sr. Destino, Homem-Hora, Espectro e Sandman da Detective Comics). A Timely Comics, uma das antecessoras da Marvel Comics, contra-atacaria com o Tocha Humana (o original, que é um androide), o Príncipe Submarino (Namor) e o Capitão América. Mas o mais vendido dos super-heróis da Era de Ouro, e, por conseguinte, o mais popular, era publicado pela Fawcett Comics e se chamava Capitão Marvel (Shazam!); enquanto Super-Homem e Batman vendiam por volta de um milhão de revistas por mês cada, e o Capitão América vendia perto de 800 mil, o Capitão Marvel alcançava a incrível marca de 1,4 milhão de revistas vendidas todos os meses, o que já é motivo de comemoração hoje em dia, mas devia ser absolutamente enlouquecedor naquela época.

Uma das principais características da Era de Ouro era a ingenuidade das histórias. Normalmente os vilões eram ou criminosos absolutamente comuns, dos quais qualquer policial poderia dar conta (e que jamais apareciam novamente após serem derrotados), ou cientistas loucos que queriam dominar o mundo com planos absurdos, como substituir todos os policiais da cidade por robôs. Supervilões eram poucos, e quase sempre sem superpoderes, sendo apenas criminosos fantasiados temáticos (como o Coringa, que originalmente não era psicótico, apenas gostava de fazer piadas e ria à toa, ou o Charada, que compulsivamente deixava pistas sobre seus próximos roubos; Lex Luthor e o Dr. Silvana, arqui-inimigo do Capitão Marvel, se encaixavam na categoria dos cientistas loucos). Muito pouco se sabia sobre a vida particular dos super-heróis, com suas "identidades secretas" aparecendo por poucos quadrinhos a cada história e não tendo qualquer relevância sobre o enredo da mesma, que normalmente seguia a fórmula "algo estranho acontece - herói investiga - vilão é revelado - herói derrota vilão - todos riem". As histórias também tinham um "narrador", que explicava o que estava acontecendo praticamente a cada quadrinho, com as falas dos personagens apenas complementando a história (tipo "Batman abre a porta", enquanto Batman, abrindo a porta, diz "vamos ver o que há do outro lado").

Durante a Segunda Guerra Mundial, não somente toda uma leva de "super-heróis patrióticos" foi criada - da qual o Capitão América era o maior expoente, mas também podem ser citados o Tio Sam, da DC, o Minute Man, da Fawcett e o Escudo, da MLJ Comics - como também os super-heróis que já existiam foram "convocados" para ajudar nos esforços de guerra, com as capas das revistas frequentemente mostrando Super-Homem, Batman e companhia enfrentando alemães e japoneses - mesmo que eles não o fizessem na história, apenas na capa. Nazistas e criminosos de guerra passaram a figurar como vilões, e muitas das histórias envolviam os super-heróis ajudando a frustrar algum plano que poderia levar à vitória do Eixo.

Não se sabe se as histórias patrióticas foram a causa, ou se foi apenas coincidência, mas, a partir de meados dos anos 1940, os super-heróis começariam a ter uma queda expressiva de popularidade, com todas as revistas tendo quedas nas vendas e muitas delas sendo canceladas. Quase todas as revistas canceladas davam lugar a publicações com histórias de faroeste, com a All-American Comics, que publicava as histórias do Lanterna Verde, se tornando a All-American Western, e a All-Star Comics, que trazia as histórias da Sociedade da Justiça, se tornando a All-Star Western. Em 1953, a DC, que nos áureos tempos chegou a publicar mais de vinte revistas de super-heróis por mês, já havia cancelado todas, exceto oito, todas estreladas por Super-Homem, Batman ou Mulher Maravilha. As outras editoras seguiriam pelo mesmo caminho, com a Timely transformando a Human Torch na Marvel Mystery Comics, dedicada a histórias de mistério, em 1949, mesmo ano em que a Sub-Mariner Comics foi cancelada, com a Captain America sendo cancelada no ano seguinte - até mesmo o Capitão Marvel da Fawcett, que, no auge da popularidade, estrelava quatro revistas, acabou ficando com uma só em 1953, e saiu totalmente de circulação em 1954.

A Era de Ouro começaria a acabar justamente em 1954, com a publicação do livro Sedução dos Inocentes, do psicólogo Fredric Wertham, que associava a leitura de histórias em quadrinhos à delinquência juvenil. Assustados, pais furiosos começariam a pedir mudanças nas histórias publicadas, para que eles tivessem menos elementos considerados "inapropriados", como violência, comportamento subversivo e elementos típicos de filmes de terror, que poderiam traumatizar os leitores. Essa histeria levaria à fundação da Associação de Revistas em Quadrinhos da América (CMAA, na sigla em inglês), que criaria o Comics Code Authority (CCA), um órgão independente que lia as histórias previamente e, se as aprovasse, colocava um selo na capa da revista. Uma revista não era proibida de ser publicada sem o selo do CCA, mas, devido à publicidade negativa, ninguém as comprava se não o tivessem. Isso levaria, por exemplo, à falência da EC, já que suas revistas mais vendidas eram as de terror, que jamais ganhavam o selo do CCA.

Com as histórias de terror, mistério e detetives seriamente prejudicadas, já que não poderia haver violência, horror, uso de drogas, nem outros elementos típicos delas, a DC decidiria arriscar um retorno aos super-heróis, e daria carta branca aos roteiristas Robert Kanigher e John Broome para que eles criassem um novo Flash, que não seria Jay Garrick, e sim Barry Allen, e faria sua estreia na revista Showcase número 4, de outubro de 1956, com arte de Carmine Infantino. Os elementos presentes nessa primeira história do novo Flash, bem como os das histórias dele e de outros super-heróis que o seguiriam, eram bem distintos daqueles encontrados nas histórias dos super-heróis da Era de Ouro, assim como a arte de Infantino e de seus contemporâneos era diferente do estilo semelhante ao das tiras de jornal usado até então; por causa disso, a Showcase 4 é considerada como a primeira revista da Era de Prata dos quadrinhos de super-heróis.

Mais uma vez, ninguém falou "oba, começou a Era de Prata" ou algo do tipo. No início, as editoras usavam termos como "Segunda Era dos Quadrinhos" ou "Era Moderna dos Quadrinhos", e a maioria das pessoas sequer considerava que havia ocorrido uma "mudança de era", com quadrinhos de super-heróis sendo quadrinhos de super-heróis e pronto. A primeira menção a algo semelhante ao termo "Era de Prata" ocorreria na Seção de Cartas da revista Justice League of America 42, de fevereiro de 1966, quando o leitor Scott Taylor, em uma carta enviada à DC, disse que "daqui a vinte anos, as pessoas vão se referir à nossa época como os silver sixties" (os "sessenta de prata", uma referência à década de 1960 e ao termo Era de Ouro, que, em 1966, já gozava de popularidade dentre os fãs). Taylor, mais tarde, declararia ter se inspirado no sistema de medalhas das Olimpíadas (no qual a ordem é ouro, prata e bronze) para cunhar o termo - na época, "Era de Ouro" já era um termo comum para se referir, por exemplo, a filmes, músicas e livros antigos (como em "a Era de Ouro de Hollywood"), mas "Era de Prata" era um termo novo, cunhado pelos fãs a partir da sugestão de Taylor, e logo aproveitado também pela indústria dos quadrinhos - até mesmo as lojas que vendiam quadrinhos especificavam se uma determinada revista trazia os super-heróis da "Era de Ouro" ou da "Era de Prata".

Essa distinção era importante porque a Era de Prata teria várias novas versões dos super-heróis clássicos da Era de Ouro, com direito a um novo Lanterna Verde (Hal Jordan), um novo Eléktron (Ray Palmer) e um novo Gavião Negro (Carter Hall), todos criados sob o comando do editor da DC na época, Julius Schwartz, e do roteirista Gardner Fox. Como eram os três super-heróis mais populares, Super-Homem, Batman e Mulher Maravilha não ganhariam versões novas, mas seriam "revitalizados", com suas personalidades e aparências se adequando ao novo estilo da Era de Prata; mais tarde, a DC decidiria fazer o mesmo com o Arqueiro Verde e com Aquaman. Aproveitando a falência da Fawcett, a DC também compraria os direitos do Capitão Marvel, adicionando-o ao seu panteão - embora, devido a uma manobra da Marvel Comics, sua revista tivesse de se chamar Shazam!, com o nome "Capitão Marvel" só podendo ser usado nas páginas internas. Até mesmo a Sociedade da Justiça seria revitalizada, com o nome de Liga da Justiça, e contando com as novas versões do Flash e do Lanterna Verde, além de Super-Homem, Batman, Mulher Maravilha, Aquaman e o Caçador de Marte como seus membros.

Diz a lenda, aliás, que a Liga da Justiça teria sido responsável pelo surgimento da maior rival da DC, a Marvel Comics: segundo boatos, o editor da então Atlas Comics (sucessora da Timely e detentora dos direitos de seus personagens), Marvin Goodman, estava jogando golfe com um figurão da DC (dependendo de quem conta, Jack Liebowitz ou Irwin Donenfeld), que se gabou do sucesso da Liga da Justiça, e, assim que voltou para a editora, incumbiu Stan Lee, seu homem de confiança, de criar uma equipe que pudesse rivalizar com a Liga; Stan Lee, então, criou o Quarteto Fantástico.

Desde que a popularidade dos super-heróis começou a diminuir, a Timely passou por maus bocados, chegando às portas da falência; para evitar o pior, ela mudou de nome para Atlas, e voltou a publicar as histórias do Tocha Humana, do Capitão América e de Namor na revista Young Men Comics, a partir do número 24, de dezembro de 1953. Nenhuma das revistas da Atlas vendia bem, mas Goodman viu tanto potencial na ideia de Stan Lee que decidiu mudar o nome da editora mais uma vez (para que ninguém a associasse com a Timely ou a Atlas), interromper a publicação dessas histórias, e lançar a Fantastic Four número 1, em novembro de 1961, sob o selo da Marvel Comics - diz a lenda, aliás, que também foi Stan Lee quem criou esse nome.

Entre 1961 e 1970, Stan Lee criaria todos os super-heróis de maior sucesso da Marvel, sempre em parceira com grandes desenhistas, como Jack Kirby (que, de tão bom que era considerado por quem trabalhava no meio, ganharia o apelido de "o Rei") e Steve Ditko. Em ordem de estreia, os fãs dos quadrinhos veriam surgir Quarteto Fantástico, Hank Pym (que algum tempo depois se tornaria o Homem-Formiga), Hulk, Homem-Aranha, Thor, Homem de Ferro, Nick Fury, Doutor Estranho, os X-Men, os Vingadores (a resposta da Marvel à Liga da Justiça da DC), Demolidor, Hércules, os Inumanos, Surfista Prateado, Pantera Negra, Capitão Marvel (aproveitando que o nome não era registrado de ninguém após a falência da Fawcett), Carol Danvers, os Guardiões da Galáxia e Falcão.

As histórias da Marvel traziam um detalhe que até então era inexistente nos super-heróis, mas que, depois, se tornaria a marca registrada da Era de Prata: os super-heróis tinham problemas típicos das pessoas comuns. O Quarteto Fantástico era uma família, e se amava e brigava como tal (o Coisa, especificamente, era revoltado por ser o único que não era capaz de retornar à forma humana); o Homem-Aranha era um adolescente que sofria bullying e se apaixonava sem ser correspondido pelas meninas da escola; o Homem de Ferro tinha problemas cardíacos e era alcóolatra; os X-Men sofriam preconceito; o Demolidor tinha contas a pagar, e por aí vai. De repente, ser um herói superpoderoso já não era a resposta para os problemas do dia a dia, e isso fez com que os leitores conseguissem se relacionar com os personagens a um nível mais íntimo, aumentando sua popularidade. Além disso, a vida pessoal dos super-heróis, bem como os seus problemas, era não somente bastante abordada nas histórias, mas também algumas vezes parte essencial delas, sendo muitas vezes mais importante que um eventual vilão ou oponente.

Outra grande característica da Era de Prata é a presença constante da ficção científica nas histórias, devido ao fato de que muitos dos roteiristas das décadas de 1950 e 1960 eram, também, escritores deste estilo. Flash, Homem-Aranha, Hulk e muitos outros ganharam seus poderes em acidentes de laboratório; o Lanterna Verde e o Quarteto Fantástico têm suas origens ligadas à exploração espacial; os X-Men são o próximo passo na evolução humana, e assim por diante - em clara contraposição à Era de Ouro, onde os super-heróis, com poucas exceções, ganhavam seus poderes através de magia, intenso treinamento, ou eram alienígenas eles mesmos, ao invés de humanos que receberam seus poderes de alienígenas.

A Era de Prata também viu o surgimento dos verdadeiros supervilões, pessoas que tinham superpoderes mas optaram por usá-los para o mal ao invés de para o bem. Aparentemente, é bem mais tentador se voltar para o mal, pois, praticamente a cada edição, cada super-herói ganhava um novo supervilão, com cada um deles logo tendo uma "galeria de vilões" capaz de mantê-lo ocupado por muitos e muitos anos. A maioria dos vilões de Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha foi mantida, mas reformulada - o Coringa, por exemplo, deixou de ser um criminoso comum que gosta de se vestir de palhaço e passou a ser um maníaco perigoso, capaz de matar instantaneamente com seu gás do riso. A ausência de um narrador constante e as inovações trazidas na arte - não somente por Infantino e Kirby, que desenhavam em um estilo mais realístico, diferente dos bonequinhos semelhantes aos de tiras de jornal comuns até então, mas também por Neal Adams e Jim Steranko, que inovaram inclusive no layout das páginas - também costumam ser citadas como características inerentes da Era de Prata. As histórias da Era de Prata também costumam ser as mais valorizadas pelos fãs - até mais que as da Era de Ouro, hoje consideradas por muitos como amadorísticas e ingênuas - com muitos dos exemplares originais da época alcançando milhões de dólares em leilões.

Mesmo com todas as vantagens da Era de Prata, é claro que DC e Marvel não iriam simplesmente descartar seus personagens da Era de Ouro: na DC, Gardner Fox inventou que os super-heróis da Era de Ouro habitavam uma realidade alternativa, chamada Terra-2, enquanto os da Era de Prata habitavam a Terra-1 (efetivamente criando dois Super-Homens, dois Batmans e duas Mulheres Maravilha), sendo possível, com a tecnologia certa, viajar entre as duas Terras. Já a Marvel trouxe de volta Namor logo nas primeiras edições da revista do Quarteto Fantástico, primeiro como um oponente, então como um aliado, e, em março de 1964, na revista Avengers 4, trouxe de volta o Capitão América, incluído na equipe dos Vingadores com o bônus de ser um homem deslocado no tempo, já que estava preso no gelo desde o final da Segunda Guerra Mundial e não acompanhou as mudanças que ocorreram desde então (mais tarde, ficaria definido que o Capitão América da década de 1950, da revista Young Men Comics, era um impostor); o Tocha Humana original demoraria um pouco mais a voltar, só sendo inserido no Universo Marvel após o fim da Era de Prata.

DC e Marvel monopolizariam o mercado de tal forma que poucas outras editoras conseguiriam sobreviver criando super-heróis próprios, sendo as mais notáveis exceções a Charlton Comics, criadora, dentre outros, de Questão, Besouro Azul, Judoka e Capitão Átomo (mais tarde comprada pela DC, que incorporou quase todos os personagens da Charlton a seu Universo); a Tower comics, responsável por Dynamo, Mercury Man, NoMan e os THUNDER Agents; e a Gold Key, que publicava o Dr. Solar. Por outro lado, os super-heróis faziam um sucesso tão grande que todo mundo queria tirar uma casquinha: a Dell publicaria versões super-heroicas de Drácula, do Monstro de Frankenstein e do Lobisomem; a Archie Comics criaria identidades de super-herói para seus dois principais personagens, Archie (o "Capitão Coração Puro") e Jughead (o "Capitão Herói"); a American Comics Group faria o mesmo com seu personagem Herbie Popnecker, que estrelaria algumas histórias como o super-herói Fat Fury; e até mesmo a Disney criaria o Super-Pateta.

Ao contrário da Era de Ouro, a Era de Prata não acabou com um evento único. No início da década de 1970, vários eventos, incluindo a aposentadoria de muitos dos mais famosos roteiristas e desenhistas da Era de Prata (ou, no caso de Kirby, sua transferência da Marvel para a DC), fariam com que os críticos dos quadrinhos decretassem que a Era de Prata havia acabado, e, seguindo o modelo das Olimpíadas, se iniciava a Era de Bronze. Então, dessa vez, por incrível que pareça, as pessoas puderam dizer "opa, agora eu estou lendo uma revista da Era de Bronze" na mesma época em que ela começou. Talvez não nas primeiras, porque demorou um pouquinho até os críticos perceberem que uma era havia acabado e outra nova estava começando.

Dois eventos costumam ser citados como os principais da Era de Bronze: no lado da DC, Julius Schwartz entregou a revista Green Lantern para o roteirista Dennis O'Neil e o desenhista Neal Adams; O'Neil decidiu mudar o nome da revista para Green Lantern & Green Arrow (a partir da edição 76, de abril de 1970), estabelecer uma parceria do Lanterna Verde com o Arqueiro Verde, e fazer com que os dois saíssem em uma viagem ao estilo Easy Rider pelo interior dos Estados Unidos, se deparando com a pobreza, a fome, as drogas e vários outros problemas sociais. Do lado da Marvel, foi a morte de Gwen Stacy, na revista The Amazing Spider-Man 121, de junho de 1973. A morte de Gwen foi um grande choque para os leitores, e algo impensável para a época, pois o Homem-Aranha era o super-herói mais popular da Marvel, e as namoradas dos heróis simplesmente não morriam - ninguém conseguia nem conceber uma história na qual, por exemplo, Lois Lane morre, quanto mais ter a coragem de publicá-la.

O principal motivo pelo qual se decretou o fim da Era de Prata e o início da Era de Bronze nos quadrinhos, portanto, foi o fim da inocência, possibilitado, principalmente, por uma revisão do CCA, que passou a permitir, a partir de 1971, histórias mais "fortes", desde que dentro do contexto apropriado - viciados em drogas deveriam ser mostrados sem glamour, e policiais corruptos deveriam ser punidos ao fim da história, por exemplo. Um dos principais catalisadores dessa revisão foi um pedido do Departamento de Saúde, Educação e Bem-Estar dos Estados Unidos a Stan Lee para que ele criasse uma história que pudesse ser usada como alerta aos jovens contra as drogas; Stan Lee escreveu uma história do Homem-Aranha na qual Harry Osborn, o melhor amigo de Peter Parker, tem problemas com drogas, sempre mostrando o uso de drogas como nocivo e perigoso. A história ficaria tão boa que, ao invés de publicá-la na forma de uma revista promocional, Stan Lee decidiria publicá-la em três partes na The Amazing Spider-Man, entre maio e julho de 1971. Devido à presença de drogas na história, o CCA não a aprovou, mas Stan Lee decidiu comprar a briga e publicou as revistas mesmo sem o selo do CCA na capa. Todas as três edições foram grandes sucessos de vendas, o que levou a um temor por parte da CMAA de que as revistas pudessem abandonar o selo e voltar aos temas controversos proibidos, o que ocasionou a revisão.

Aproveitando as regras menos rígidas, O'Neil escreveria uma das mais memoráveis histórias do Arqueiro Verde, publicada na Green Lantern & Green Arrow 85, de outubro de 1971, na qual é revelado que seu parceiro adolescente, Ricardito, é viciado em heroína, algo que marcaria a carreira do personagem dali por diante. A Marvel, por sua vez, se aproveitaria para criar super-heróis diferentes do padrão tradicional, com elementos de horror e violência, como Motoqueiro Fantasma, Justiceiro, Homem-Coisa e Blade. A Era de Bronze também veria um retorno dos licenciamentos de personagens da literatura para os quadrinhos, com a Marvel publicando histórias de Conan, Red Sonja e Solomon Kane, enquanto a DC ficaria com Tarzan, John Carter e Beowulf. No auge da Era de Bronze, existiriam versões em quadrinhos não somente de personagens famosos da literatura, mas também do cinema (Star Wars, Planeta dos Macacos, Indiana Jones), da TV (Star Trek, Battlestar Galactica, Esquadrão Classe A) e até mesmo de brinquedos (Comandos em Ação, Transformers, Thundercats) - nem mesmo personalidads da vida real escaparam, com a Marvel publicando histórias estreladas pela banda KISS e a DC publicando a "luta do século" em Superman vs. Muhammad Ali. O sucesso dessas adaptações, bem como o de novos títulos de horror e faroeste (como The Tomb of Dracula, da Marvel, e Jonah Hex, da DC) levaria ao cancelamento de muitos títulos de super-heróis que não estavam vendendo bem, incluindo The X-Men - hoje pode parecer inacreditável, mas, no início da década de 1970, os X-Men eram talvez os super-heróis menos populares da Marvel.

Os movimentos sociais dos anos 1970 também passariam a ser refletidos nos quadrinhos, com o surgimento de várias personagens femininas que representavam o empoderamento, como a Grande Barda da DC e a Mulher-Aranha e a Mulher-Hulk (que, além de ser super-heroína, era uma advogada de sucesso) da Marvel, e de super-heróis negros de grande destaque, como Luke Cage (o primeiro super-herói negro a estrelar um título próprio) e Tempestade, da Marvel, e Jon Stewart e Ciborgue, da DC - Tempestade e Ciborgue, em meados da década de 1980, se tornariam os líderes, respectivamente, dos X-Men e dos Jovans Titãs, algo talvez impensável nas Eras de Ouro e de Prata. Falando em X-Men, aliás, uma nova equipe, multirracial e internacional, criada por Len Wein e Dave Cockrum, substituiria a original em Giant Size X-Men, uma edição especial de maio de 1975 que seria o relançamento da equipe de mutantes; frequentemente usados como metáfora no lugar de outras minorias, como os homossexuais ou os afro-americanos, os mutantes rapidamente passariam do posto de menos populares para o de mais populares da Marvel, com a revista The Uncanny X-Men superando em vendas por larga margem todas as demais da editora a partir do início dos anos 1990.

Os anos 1990, porém, não fazem parte da Era de Bronze, e sim da Era Moderna. Como ocorreu na transição da Era de Prata para a Era de Bronze, não há um evento específico ou uma "primeira edição" que demarque a mudança da Era de Bronze para a Era Moderna, mas vários eventos que mudariam o estilo dos quadrinhos subsequentes, justificando que se considerasse que uma nova Era começou. É consenso, porém, que a Era Moderna começou por volta de 1985 ou 1986, e se estende até os dias de hoje.

Um dos principais catalisadores do início da Era Moderna foram os quadrinhos autorais - aqueles normalmente lançados por uma editora pequena ou selo próprio, nos quais o roteirista tem muito mais liberdade para desenvolver ou até mesmo criar os personagens, não sendo raro que esse roteirista seja também o desenhista. Os quadrinhos autorais surgiram na Era de Prata, sendo seus principais expoentes Robert Crumb e Gilbert Shelton; foi somente no final dos anos 1970, entretanto, que eles tiveram um impacto significativo no mercado. Nessa época, vários dos roteiristas e desenhistas da Marvel e da DC foram dispensados, e, ao invés de irem diretamente para a concorrente (como era comum até então), preferiram assinar com editoras pequenas, como a Pacific Comics, a Eclipse Comics e a First Comics, visando justamente maior liberdade criativa. Esses talentos produziriam títulos como Jon Sable: Freelance, Nexus, Rocketeer e GrimJack, que logo se tornariam sucessos de vendas e ganhariam vários dos prêmios destinados à indústria dos quadrinhos. Vendo uma nova oportunidade de mercado, a DC decidiria oferecer essa liberdade aos roteiristas mais famosos, para não perdê-los para as nanicas; seria assim que começaria a fase de Alan Moore à frente do Monstro do Pântano, e o enorme sucesso Sandman, de autoria de Neil Gaiman.

Outro evento que costuma ser citado como responsável por abrir caminho para a Era Moderna foi a minissérie Guerras Secretas, de Jim Shooter e Mike Zeck, lançada pela Marvel entre maio de 1984 e abril de 1985. Minisséries eram extremamente raras na época, pois ainda era muito caro colocar uma nova revista no mercado, e as editoras preferiam ficar com as séries regulares a se arriscar com uma série limitada que poderia não ter boas vendas - pois essa não poderia ser "salva" antes de seu final. O sucesso de Guerras Secretas estimularia novas aventuras no formato, e hoje minisséries são tão comuns quanto séries regulares.

Uma das principais minisséries que vieram na esteira de Guerras Secretas foi Crise nas Infinitas Terras, de Marv Wolfman e George Pérez, lançada pela DC entre abril de 1985 e março de 1986, e frequentemente citada como o "divisor de águas" entre a Era de Bronze e a Era Moderna da DC. Um projeto ambicioso, Crise visava acabar com os problemas de continuidade criados pelo fato de existirem múltiplas versões de muitos dos heróis - conforme já citado, por exemplo, Super-Homem, Mulher Maravilha e Batman tinham no mínimo duas versões cada, uma da Terra-1, criada na Era de Prata, e uma da Terra-2, criada na Era de Ouro. Depois da Crise, muitos dos "universos alternativos" da DC foram descontinuados, as revistas do Super-Homem e da Mulher Maravilha foram canceladas e relançadas com numeração recomeçando do 1, e muitos dos eventos "pré-Crise" deixaram de ser canônicos, não exercendo mais influência sobre o Universo DC - como, por exemplo, as histórias do Superboy, já que, em sua versão "pós-Crise", o Super-Homem só se torna um super-herói depois de adulto.

As principais características da Era Moderna são os quadrinhos mais voltados para adultos, mais sombrios e com histórias mais profundas - tanto que alguns estudiosos a chamam de Era das Trevas ao invés de Era Moderna. Essa seria uma tendência que começaria com o lançamento de O Cavaleiro das Trevas, escrito e desenhado por Frank Miller e lançado pela DC entre fevereiro e junho de 1986. Ao trabalhar para a Marvel na década de 1970, Miller já havia repaginado o Demolidor, transformando-o de praticamente um Homem-Aranha cego (já que era acrobático e fazia piadinhas enquanto combatia o crime) em um personagem sombrio e amargurado; em O Cavaleiro das Trevas, Miller faria uma reformulação semelhante com o Batman, mas não com o Batman atual, e sim com um Batman de um futuro distópico, já velho e cansado de combater o crime, sem vergonha de recorrer à violência extrema para alcançar seus objetivos, o que faz com que ele acabe sendo caçado pelo Super-Homem.

Pouco após o lançamento de O Cavaleiro das Trevas, entre setembro de 1986 e outubro de 1987, a DC lançaria outra minissérie adulta, Watchmen. Escrita por Alan Moore e desenhada por Dave Gibbons, Watchmen era ambientada em um universo alternativo no qual existiam super-heróis, mas apenas um deles (o Dr. Manhattan) realmente tinha superpoderes, com os demais recorrendo a treinamento e tecnologia. A presença do Dr. Manhattan no passado desequilibra o jogo de poder em prol dos Estados Unidos (a ponto de eles vencerem a Guerra do Vietnã e transformarem o país asiático em seu 51o estado) e acaba levando a um presente distópico, no qual super-heróis são vistos como foras da lei e proibidos de combater o crime. O estilo de O Cavaleiro das Trevas e Watchmen, sombrio e adulto, com elementos de violência extrema e até erotismo, era algo jamais visto em uma série em quadrinhos da Marvel ou da DC, e seu imenso sucesso daria origem a muitos outros quadrinhos no mesmo estilo.

Uma das consequências dessa tendência seria a proliferação dos anti-heróis: personagens como Wolverine, Justiceiro, John Constantine e Lobo, que não evitavam a violência, tinham um código moral elástico e apresentavam um certo cinismo, eram vistos como "maneiros", enquanto aqueles mais rígidos em sua conduta, como Super-Homem ou Ciclope, era considerados "bocós". Como os anti-heróis faziam mais sucesso, logo se tornariam maioria, não apenas com novos anti-heróis surgindo (como Cable e Preacher), mas também com heróis antigos (Homem-Animal) ou até vilões (Venom) sendo transformados em anti-heróis. Em contrapartida, a rejeição ao maniqueísmo afetaria também os vilões, que ganhariam mais contornos de cinza - Lex Luthor, por exemplo, deixaria de ser um megalomaníaco maligno para se tornar um empresário que fez fortuna do nada e considera o Super-Homem uma potencial ameaça aos Estados Unidos, assim como Magneto deixou de pregar que os mutantes devem exterminar a humanidade para lutar pelo fim da opressão aos mutantes, inclusive ao lado dos X-Men caso necessário.

Outra característica da Era Moderna é a reinvenção constante: na DC, o Flash passaria a ser Wally West antes de voltar a ser Barry Allen, o Lanterna Verde deixaria de ser Hal Jordan para ser Kyle Rayner, o Super-Homem morreria e depois ressucitaria, e o Batman seria aleijado por Bane, ficando paralítico mas reaprendendo a andar depois; na Marvel, o Homem-Aranha ganharia um uniforme preto, surgiria o Hulk cinza, o Anjo dos X-Men seria corrompido pelo vilão Apocalipse e se tornaria o Arcanjo, e a equipe dos Vingadores mudaria de membros praticamente todo mês. Diferentemente das Eras de Ouro, Prata e Bronze, quando os personagens eram praticamente imutáveis, na Era Moderna eles estão sempre se reinventando, seja com um novo uniforme, com novos poderes, ou apenas com uma mudança de atitude - até o Fanático decidiu ser bonzinho por um tempo e se tornar membro dos X-Men. Na DC essas reinvenções costumam ter impacto maior que na Marvel, já que, constantemente, a editora cria um evento que sacode as bases de seu Universo, como o recente Os Novos 52, no qual todos os principais heróis foram reformulados - com o Super-Homem e a Mulher Maravilha, inclusive, passando a ser um casal.

Finalmente, a Era Moderna viu o nascimento de toda uma leva de novas editoras, como a Dark Horse Comics, a Valiant Comics, a IDW Publishing, a CrossGen Entertainment, a Caliber Comics, a Crusade Comics e a Basement Comics, sustentadas principalmente por quadrinhos autorais, como Hellboy, de Mike Mignola, Shi, de William Tucci, ou Danger Girl, de J. Scott Campbell. Algumas dessas editoras também tomariam o lugar da Marvel e da DC na publicação de quadrinhos licenciados - a Dark Horse, por exemplo, passaria a publicar Star Wars em 1991, e seria responsável pelas linhas Buffy: The Vampire Slayer e Avatar: The Last Airbender, dentre outras - e seriam responsáveis por publicar, nos Estados Unidos, quadrinhos de sucesso na Europa, como Judge Dredd e Tank Girl.

A mais famosa dessas editoras da Era Moderna foi a Image Comics. No início dos anos 1990, alguns artistas dos quadrinhos, como Todd McFarlane e Jim Lee, alcançaram uma popularidade jamais vista nessa indústria, comparada por muitos à de astros do cinema ou atletas profissionais; insatisfeitos com o fato de que os personagens de sucesso que criavam para a Marvel e a DC não pertenciam a eles, e sim à editora, e acreditando que mereciam, além do salário fixo, um percentual sobre as vendas das revistas que desenhavam, já que, segundo eles, as vendas eram resultado direto de sua arte, sete desses artistas (McFarlane, Jim Lee, Rob Liefeld, Marc Silvestri, Erik Larsen, Whilce Portacio e Jim Valentino) resolveriam se demitir e fundar sua própria editora. A Image, entretanto, era uma editora diferente: cada criador possuía seu próprio "selo" - o de Jim Lee era a Wildstorms, o de Silvestri a Top Cow, por exemplo - que publicaria todas as revistas de sua criação, com os direitos sobre os personagens pertencendo a seu criador e a maior parte do dinheiro das vendas indo para o selo. Os primeiros títulos lançados pela Image, como Spawn, WildCATS, Gen 13, Witchblade e The Savage Dragon foram gigantescos sucessos, e chegaram a rivalizar com os heróis da DC e da Marvel em vendas. Entretanto, desentendimentos entre os membros fundadores acabariam levando à saída de Silvestri em 1996, que transformou a Top Cow Productions em uma editora em separado; de Liefeld em 1997, que fundaria sua própria editora, a Awesome Comics (que iria à falência em 2000); e de Jim Lee em 1998, que venderia a Wildstorms e todos os seus personagens para a DC em 1999. Hoje, a Image ainda existe, e, embora ainda mantenha a política de que os personagens pertencem a seus criadores, é uma editora mais ao estilo tradicional. Suas principais séries ainda publicadas são Spawn, The Walking Dead e Invincible.

Alguns críticos já defendem que a Era Moderna já teria acabado, e que hoje vivemos a Era Pós-Moderna dos quadrinhos, sob o argumento de que, embora muitas das características da Era Moderna ainda estejam presentes, elas já não são tão acentuadas quanto nas décadas de 1980 e 1990. A principal característica da Era Pós-Moderna seria a aproximação da linguagem dos quadrinhos com a linguagem do cinema: com a compra da Marvel pela Disney em 2009, que fez com que as duas principais editoras de super-heróis pertencessem a grandes corporações historicamente ligadas ao cinema - a DC pertence à Warner Bros. desde 1967 - e os filmes de super-heróis quebrando recordes de bilheteria, os quadrinhos estariam cada vez mais parecidos com filmes, com longas sequências de ação, ilustrações que ocupam páginas duplas sendo comuns, e uma quantidade de texto muito menor por página que a encontrada até o início dos anos 2000. Essa, entretanto, ainda é uma classificação extra-oficial; para todos os efeitos, a Era Moderna ainda está em vigor.

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