segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Caratê

Quando eu fui escrever o post sobre judô, confesso que originalmente pensei em escrever um sobre caratê. Mudei de ideia porque, obviamente, o judô já faz parte do programa olímpico, enquanto o caratê ainda está na fase de promessa do COI (só considerarei que ele está mesmo no programa quando a primeira luta começar em 2020). Mas, mesmo assim, a vontade de escrever sobre caratê continuou forte, e será saciada hoje.

Talvez essa fosse toda a introdução da qual eu precisasse, mas vou estendê-la mais um pouquinho, porque de vez em quando eu gosto de incluir alguns pequenos detalhes da minha vida pessoal na introdução dos posts. E, dessa vez, esse detalhe será o de que eu simplesmente não sabia o que era judô até Rogério Sampaio ganhar uma medalha de ouro para o Brasil nas Olimpíadas de 1992. Caratê, por outro lado, eu conheço desde sempre, porque meus primos faziam (um deles faz até hoje, já tem Dan e tudo), porque o Ryu e o Ken de Street Fighter II lutavam (ou pelo menos o jogo dizia que sim), e porque existia um monte de filmes sobre caratê (incluindo Karate Kid). Por causa disso, eu nunca entendi muito bem por que tinha judô nas Olimpíadas e caratê não, e espero que realmente o COI corrija esse erro em 2020, colocando o caratê no programa olímpico para não mais tirar.

Enfim, chega de introdução. Hoje é dia de caratê no átomo.

Diferentemente do que muitos acreditam, o caratê não surgiu no Japão. Ele surgiu em Okinawa, que, tudo bem, hoje em dia faz parte do Japão, mas, na época do surgimento do caratê, fazia parte de um outro país, o Reino de Ryukyu, que era composto por uma centena de ilhas localizadas entre o Japão e Taiwan, e foi independente entre 1429 e 1879, quando foi oficialmente anexado ao Império Japonês. Antes de sua independência, essas ilhas pertenciam à China, e, no final do século XIV, várias famílias chinesas decidiriam se mudar para a ilha de Okinawa, levando consigo várias artes marciais. Conforme os anos se passaram, essas artes marciais sofreram modificações, ganhando novos elementos e perdendo outros; para diferenciá-las daquelas praticadas na China continental, era usado para cada uma um nome que era simplesmente o sufixo "-tê" (palavra que, no idioma de Okinawa, significava "luta") adicionado ao nome da cidade onde elas haviam surgido, dando origem, por exemplo, ao shuritê, ao nahatê e ao tomaritê.

No final do século XVIII, um professor de artes marciais chamado Kanga Sakukawa decidiria ir treinar na China, e, ao retornar a Okinawa, em 1806, começaria a ensinar, na cidade de Shuri, uma arte marcial bem diferente do shuritê, a qual ele chamou de tudi, ou "mão chinesa" no idioma local. Um dos melhores alunos de Sakukawa era Soukon Matsumara, que, em 1820, decidiria abrir sua própria escola de tudi, adicionando ao estilo criado por Sakukawa elementos do shuritê e do tomaritê. Um dos alunos de Matsumara, Itosu Anko, também decidiria, por volta de 1875, se basear no estilo de Sakukawa e criar um estilo totalmente novo, o qual chamaria de karate - palavra que significava exatamente o mesmo que tudi, "mão chinesa", mas em japonês, pois, começando em 1872, o Japão já tinha uma presença muito mais forte que a China em Ryukyu, tanto que, nos últimos oito anos de independência, a mesma era considerada apenas fictícia, com o Rei de Ryukyu sendo um monarca de fachada.

Sendo o Rei de fachada ou não, Anko seria seu secretário de 1870 até o Japão anexar Ryukyu, e, mesmo após o fim da monarquia local, ele continuaria sendo muito influente em Okinawa, tanto que, em 1901, conseguiria convencer o governador local, indicado por Tóquio, a incluir o caratê na grade curricular de todas as escolas da ilha, atuando ele mesmo como professor, e criando o primeiro método sistemático de ensino do caratê, do qual algumas técnicas são empregadas até hoje. Por causa disso, Anko hoje é conhecido como "o avô do caratê moderno".

Isso porque o "pai do caratê moderno" é Gichin Funakoshi, também natural de Okinawa, que foi aluno de Anko, e, em 1917, introduziu modificações fundamentais na arte marcial. A principal delas foi que, inspirado em Jigoro Kano, o criador do judô, Funakoshi ensinaria a seus alunos que o caratê não é uma luta, e sim um estilo de vida, através do qual o carateca (nome pelo qual são conhecidos os praticantes de caratê, do japonês karateka, palavra obtida adicionando ao nome da arte marcial a partícula -ka, que significa "praticante") pode alcançar o auto-aperfeiçoamento, contribuindo para uma sociedade mais justa e mais civilizada. Outra contribuição considerada fundamental foi que Funakoshi traduziu todos os nomes de todos os golpes, técnicas e kata do caratê, que originalmente eram em chinês ou no idioma de Okinawa, para o japonês. Até mesmo o próprio significado de karate seria alterado por Funakoshi: como o Japão já tinha uma grande rivalidade com a China, criada por uma guerra entre os dois países que ocorreu entre 1894 e 1895, e acreditando que nenhum japonês iria querer aprender uma arte marcial chamada "mão chinesa", Funakoshi aproveitaria que kara tinha um homônimo, e passaria a divulgar que karate significava "mãos vazias" - significado hoje considerado o oficial para o nome.

Graças às modificações feitas por Funakoshi - nem todas políticas, algumas em seus fundamentos, como as noções de distância e tempo corretos para a aplicação do golpe, inspiradas por outra arte marcial, o kendô - o caratê rapidamente se tornaria uma das artes marciais mais praticadas no Japão. Em 1924, a Universidade de Keio seria a primeira do Japão a ter o caratê como parte de seu currículo, e, em 1932, todas as principais universidades japonesas já o incluíam, e dojo onde era possível aprender o caratê se espalhavam pelas cidades do país. Nas décadas de 1960 e 1970, principalmente graças aos filmes norte-americanos, o caratê se popularizaria em todo o mundo, e, hoje, em muitos lugares, a palavra "caratê" é usada como sinônimo de "artes marciais".

O caratê usa três tipos de golpes; os principais são os chutes, sempre feitos de forma suavemente lateral, girando a perna na direção do oponente, e com as pernas bem abertas - nada de pontapés ou pisões. Com as mãos, podem ser efetuados dois tipos de golpe, os tsuki, feitos com a mão fechada, como se fosse um soco direto, sendo o oponente atingido com os dedos; e os uchi, feitos com a mão aberta, sendo o adversário atingido pela base da mão, onde ela se encontra com o punho - e não pelo lado desta como nos filmes. Em relação à posição em que acertam, os golpes podem ser jodan, feitos contra o rosto do adversário, ou chudan, feitos contra seu tórax - existem ainda os gedan, feitos contra a linha da cintura, mas, atualmente, na prática esportiva, todos os golpes devem atingir da cintura para cima. Os golpes podem ser combinados de diversas formas, como no sanbon zuki, uma sequência de três socos, sendo o primeiro jodan e os outros dois chudan. É permitido a um oponente atacado esquivar ou bloquear, sendo que o bloqueio é feito com o antebraço, com a mão estando aberta. Após um bloqueio, pode ser feito um contra-ataque.

O caratê faz uso de três disciplinas em seu treinamento: o kihon ("básico"), no qual é treinada a forma correta de se respirar durante cada soco ou chute, assim como a postura correta a ser adotada durante cada golpe; o kata ("modelo"), uma espécie de luta coreografada, que pode ser feito por um carateca sozinho contra um "oponente invisível", ou por grupos de até quatro pessoas; e o kumite ("encontro das mãos"), que é a aplicação dos golpes do caratê em uma luta real, usando de improviso ao invés dos movimentos coreografados do kata. Funakoshi era contra o uso do caratê como forma de luta ou competição esportiva, e apregoava que o kumite só deveria ser praticado entre amigos, respeitosamente, e visando não a vitória, mas o aperfeiçoamento do corpo e da mente.

Apesar da oposição de Funakoshi, o caratê começaria a ser disputado de forma esportiva na década de 1950, quando, após ser levado para a Europa por caratecas japoneses que desejavam demonstrá-lo, se tornaria bastante popular na França, o que levaria à criação da Federação Francesa de Caratê em 1961; à organização do primeiro torneio internacional de caratê da história, em Paris, 1963, com participação de caratecas da França, Grã-Bretanha e Bélgica; e à fundação, em 1965, da Federação Europeia de Caratê. Cinco anos depois, em 1970, o presidente da Federação Europeia e ex-presidente da Federação Francesa, Jacques Delcourt, decidiria fundar, também a União Internacional de Caratê, que, a princípio, congregava apenas membros europeus. Após negociações com a Federação Japonesa, fundada em 1969, o Japão também se tornaria membro, e, por sugestão dos japoneses, o nome da federação internacional seria alterado para União Mundial das Organizações de Caratê (WUKO, da sigla em inglês).

Um dos motivos pelos quais o caratê demorou tanto tempo para ser incluído nas Olimpíadas foi que ele não possui apenas uma federação internacional - e todas elas parecem brigar entre si para determinar quem regula "o verdadeiro caratê". A atual federação reconhecida pelo COI é a Federação Mundial de Caratê (WKF), que é a que tem mais membros (130 dos cinco continentes, incluindo o Brasil), e foi fundada em 1990, após uma tentativa malsucedida da WUKO de se fundir à Federação Internacional de Caratê Tradicional (ITKF), fundada no Japão em 1978, e que não concordava com a filiação da Federação Japonesa à WUKO. Tanto a ITKF quanto a WUKO existem até hoje (sendo que a WUKO mudou de nome em 2008 para WUKF, União Mundial das Federações de Caratê), assim como a Confederação Mundial de Caratê (WKC), fundada em 1996 por dissidentes da WKF. Cada uma dessas federações tem regras ligeiramente diferentes em relação ao formato dos torneios, à pontuação das lutas, e a outros detalhes. Para todos os efeitos, as regras discutidas nesse post serão as da WKF.

Da mesma forma, assim como o judô, o caratê possui diversas vertentes, oficialmente conhecidas como estilos, como o Goju-ryu, considerado o "original", por ser o mais próximo do criado por Sakukawa; o Shonin-ryu, nome dado em 1933 ao estilo criado por Matsumara; ou o Kyokushin, criado em 1957 por Masutatsu Oyama, de técnicas e golpes mais poderosos, no qual o objetivo não é vencer o oponente por pontos, e sim nocauteá-lo. Ao todo, estima-se que já existam por volta de 30 estilos de caratê, alguns mais famosos e mais praticados que os outros; de todos, o mais famoso é o Caratê Shotokan (segundo a descrição dos personagens de Street Fighter II, o estilo usado por Ryu e Ken), que é o estilo criado pelo próprio Funakoshi. A palavra shotokan significa "casa dos pinheiros ao vento", e era o nome do primeiro dojo fundado por Funakoshi, que não usava esse nome para seu estilo, chamando-o, simplesmente, de "caratê"; com a necessidade de diferenciá-lo dos demais estilos, o nome Shotokan acabou sendo usado também para esse fim. Como o Shotokan é o estilo considerado "oficial" pela WKF (e esse foi o principal motivo do surgimento da WKC, já que a WKF só aceita como membros federações nacionais de Caratê Shotokan, enquanto a WKC aceita de qualquer estilo), as referências doravante feitas ao caratê nesse post dizem respeito ao Caratê Shotokan.

A WKF reconhece duas disciplinas esportivas do caratê, o kumite e o kata. O kata, como já foi dito, é uma sequência de movimentos coreografada, cujo objetivo é ilustrar os princípios básicos do caratê, demonstrar a forma correta de se executar os golpes, e ensinar os conceitos filosóficos sobre os quais o caratê é embasado. Atualmente, a WKF reconhece um total de 75 kata diferentes; em teoria, é obrigação de todo carateca saber executar todos eles com perfeição.

Competições de kata podem ser individuais ou por equipes. Na competição individual, o carateca executa a sequência de movimentos do kata diante de um painel de cinco juízes, que atribui notas baseadas em três quesitos: performance técnica (que inclui a avaliação das posturas, dos golpes, dos movimentos transitórios, da respiração correta, do foco nos movimentos, do tempo de execução dos movimentos e da dificuldade do kata escolhido), performance atlética (força, velocidade, equilíbrio e ritmo) e conformidade (se os movimentos foram executados na ordem e na forma correta do kata). Diferentemente de, por exemplo, uma competição de patinação artística, os caratecas não se apresentam todos e o de maior nota ganha, e sim dois a dois, com o de maior nota daquela dupla avançando e o outro sendo eliminado, até que só restem dois, e o vencedor seja o campeão. É o próprio carateca quem escolhe quais kata irá apresentar, e não poderá repetir um mesmo kata em diferentes fases da competição; em uma competição com 32 caratecas diferentes, por exemplo, os que disputarem as medalhas terão apresentado cinco kata diferentes cada um. Cada apresentação deve durar seis minutos, com pontos sendo descontados caso termine antes, e o carateca sendo desclassificado caso ultrapasse esse tempo.

A competição por equipes segue as mesmas regras da individual, mas cada apresentação tem duas partes de três minutos cada: na primeira, os caratecas apresentam o kata de forma sincronizada, sendo a sincronia também avaliada pelos juízes como parte da performance técnica; na segunda parte (chamada bunkai), os caratecas devem apresentar o kata como se estivessem lutando entre si, sendo o controle dos movimentos também avaliado pelos juízes como parte da performance técnica. Uma equipe é sempre composta por três membros, sendo sempre três homens ou três mulheres, nunca equipes mistas.

Já o kumite é a "luta de caratê", na qual os caratecas se enfrentarão buscando pontuar. Para que a pontuação seja válida, o golpe deve ser efetuado conforme os princípios do caratê, com o árbitro levando em conta nada menos que seis quesitos: golpe válido, execução correta do golpe, força e velocidade corretas do golpe, distância correta em relação ao oponente para aplicar aquele golpe, desportividade (ou seja, o carateca quis pontuar, não ferir o adversário) e o zanshin, que é o carateca continuar focado na luta após aplicar o golpe, sem, por exemplo, dar as costas ao oponente ou provocá-lo. Caso o árbitro considere que algum destes seis quesitos não foi atendido, ele simplesmente não confere a pontuação ao carateca - exceto nos casos de golpe válido e desportividade: caso o carateca atinja o oponente com um golpe inválido, ou o árbitro considere que sua conduta foi antidesportiva, ele receberá uma punição, e um carateca com quatro punições está automaticamente desclassificado. Também são motivo para punição atingir o oponente abaixo da cintura; a falta de combatividade, que é quando o carateca fica só fugindo da luta, sem iniciar nenhuma ação; e sair da área de luta voluntariamente, ou seja, sem ter sido por desequilíbrio ou em decorrência de um golpe do oponente.

Caso o árbitro considere que os seis quesitos estavam presentes, a pontuação é conferida da seguinte forma: qualquer tsuki e qualquer uchi com o oponente de pé vale um ponto; um chute chudan vale dois pontos; e um chute jodan e qualquer tsuki ou uchi com o oponente caído (desde, evidentemente, que ele tenha caído em decorrência de um golpe válido, e não por ter tropeçado, perdido o equilíbrio ou ter sido empurrado) valem três pontos. Bloquear um golpe não vale nada, mas o golpe bloqueado também não. Pode ocorrer - e, aliás, é muito comum - de ambos os caratecas pontuarem simultaneamente, com um deles aproveitando o momento em que o oponente abriu a guarda para atacar para também atingi-lo; também pode ocorrer de um deles não alcançar os seis quesitos durante sua ação, e, nesse caso, ambos se atacarão simultaneamente, mas apenas um deles pontuará. Essa explicação é necessária porque, caso um dos caratecas pontue sem que o outro sequer tenha esboçado reação para bloqueá-lo ou contra-atacá-lo, diz-se que ele tem um senshu, o que é importante no caso de um desempate.

Uma luta de kumite tem duração de três minutos no masculino e dois minutos no feminino, sendo que o relógio para toda vez que a luta é interrompida, e um sinal sonoro soa quando faltam 15 segundos para o final. Caso um dos caratecas atinja 8 pontos de diferença em relação ao adversário, a luta termina imediatamente com sua vitória; caso isso não ocorra, o vencedor será aquele que tiver mais pontos ao final do tempo. Caso a luta chegue ao final empatada, será vencedor aquele que tiver o senshu; caso ambos tenham ou nenhum dos dois tenha, os juízes e o árbitro escolherão o vencedor, levando em conta as táticas e técnicas empregadas por cada carateca.

A luta é oficiada por um árbitro, que pode caminhar livremente pelo tatami, e por quatro juízes, cada um sentado em uma cadeira posicionada em cada um dos quatro cantos do mesmo; apenas o árbitro tem o poder de interromper a luta - para pedir, por exemplo, atendimento médico ou que os caratecas arrumem seus karategi - devendo os juízes apenas assisti-la, agindo apenas em caso de empate. Caso um dos lutadores precise de atendimento médico, terá direito a um minuto, sendo desclassificado caso não retorne à sua posição no tatami antes de esse tempo se esgotar.

No kumite, os caratecas são divididos em categorias de acordo com seu peso, para que as lutas sejam mais justas. Atualmente, a WKF reconhece cinco categorias de peso para o masculino (até 60 Kg, até 67 Kg, até 75 Kg, até 84 Kg e mais de 84 Kg) e cinco no feminino (até 50 Kg, até 55 Kg, até 61 Kg, até 68 Kg e mais de 68 Kg). A WKF também organiza competições de kumite por equipes, com cada equipe sendo composta por cinco caratecas, um de cada categoria de peso; a cada embate, a equipe a obter três vitórias primeiro será a vencedora.

O local onde o caratê é disputado se chama tatami, e deve ser perfeitamente quadrado. A área efetivamente usada deve ter oito metros de lado; essa área é demarcada por uma linha de um metro de espessura, conhecida como "área de segurança", e que, no kumite, também faz parte da área de luta (o que faz com que, efetivamente, a área de luta tenha 9 m de lado). Em competições de kumite, próximo ao centro do tatami há dois retângulos, de 1 m de largura por 2 m de comprimento e espaçados 1 m um do outro, da mesma cor da área de segurança; a cada início e reinício da luta, cada carateca deve ficar dentro de um desses retângulos. Em torneios oficiais, até dois tatami podem ser usados simultaneamente, devendo haver uma área de dois metros entre um e outro. No kumite, um movimento que comece dentro da área válida de luta mas termine fora dela é considerado válido, e ser empurrado para fora da área válida em decorrência de um golpe do oponente não é considerado falta. No kata, toda a apresentação deve ser feita dentro da área de 8 m de lado, sendo o carateca desclassificado caso pise na linha que a delimita ou além dela.

Torneios da WKF, tanto no kumite quanto no kata, usam a mesma fórmula dos torneios de judô da IJF, com sistema de mata-mata e repescagem. Neles, os competidores são emparelhados dois a dois, por sorteio ou por ranqueamento, sendo que, dependendo do número de competidores, os mais bem ranqueados podem estrear diretamente na segunda ou na terceira fase, e, a cada fase, os vencedores avançam para a fase seguinte, até chegar à final, na qual o vencedor será o campeão; os perdedores não são automaticamente eliminados, pois, caso o oponente que derrotou um carateca vença novamente na fase seguinte, este carateca terá direito a participar da repescagem, para tentar ganhar uma medalha de bronze contra um dos perdedores das semifinais. Assim, torneios de caratê da WKF conferem uma medalha de ouro e uma de prata, mas duas de bronze.

A roupa usada para a prática do caratê não se chama quimono, e sim karategi (pronunciado "carateguí", gi significando roupa, então é a "roupa de caratê"). O karategi é bem parecido com o judogi, sendo feito de algodão e consistindo de uma camisa aberta, de mangas compridas, e uma calça comprida que se ajusta na cintura através de um cordão interno, que deve ser amarrado, com as mulheres também podendo usar uma camiseta branca por baixo, para evitar exposições indesejadas. Como o caratê é um esporte de contato, são usados protetores de gengiva, semelhantes aos do boxe, e proteções acolchoadas nas mãos e nos pés, feitas de plástico recheado com espuma - não somente para proteger as mãos e os pés do carateca, mas também para evitar danos severos ao adversário que ele vai socar e chutar. Diferentemente do que ocorre no judô, no caratê ambos os caratecas usam karategi branco; para diferenciá-los, as proteções das mãos e pés são de cores diferentes - um usa azul, o outro usa vermelho. As faixas que os caratecas usam na cintura, cuja principal função é fechar a camisa, também seguem essas cores, sendo sempre a de um carateca azul, a do outro, vermelha, independentemente do kyudan de cada um.

O caratê, aliás, usa o mesmo sistema de kyudan do judô, mas com cores diferentes para as faixas - de fato, inicialmente Funakoshi usou o exato mesmo sistema criado por Kano para o judô, que, ao longo dos anos, sofreu modificações, até chegar ao que o caratê usa hoje. O caratê possui dez níveis iniciais chamados kyu ("classe"), contados em ordem decrescente, seguidos de outros dez níveis chamados dan ("etapa"), contados em ordem crescente; assim, todo carateca começa sua carreira no décimo kyu, passando para o nono, então para o oitavo, e assim sucessivamente, até chegar ao primeiro dan, quando então passará ao segundo, ao terceiro, e assim por diante.

Caratecas do décimo kyu devem usar uma faixa branca, para os do nono a faixa é laranja, oitavo vermelha, sétimo amarela e para os do sexto a faixa é verde. Caratecas do quinto e quarto kyu usam uma faixa azul ou roxa, enquanto os do terceiro, segundo e primeiro usam uma faixa marrom. Para todos os dan a faixa é preta. Do décimo kyu ao oitavo dan, a progressão é feita através de uma espécie de prova, sendo que o carateca deve ter uma idade mínima, um período mínimo naquele nível, e saber executar com perfeição um número mínimo de kata para poder pedir para fazer a prova; o nono e o décimo dan, por outro lado, são conferidos diretamente pelas federações nacionais com base no merecimento e contribuição do carateca para o caratê. Caratecas de nono e décimo dan também recebem o título de shihan, que significa algo como "exemplo", no sentido de que eles são um exemplo para os demais.

O principal campeonato de caratê atualmente é o Campeonato Mundial, realizado a cada dois anos desde 1970 (até 1990 organizado pela WUKO, e, desde então, pela WKF). Atualmente o Mundial conta com nada menos que 16 provas, sendo 10 do kumite individual (uma para cada categoria de peso masculina e feminina), duas do kumite por equipes (masculina e feminina) e quatro do kata (individual e por equipes, masculino e feminino). O caratê também faz parte do programa dos World Games desde a primeira edição, em 1981; já está confirmado no programa de 2017, mas, caso entre mesmo nas Olimpíadas em 2020, provavelmente não estará em 2021, já que só podem participar dos World Games esportes que não estejam nas Olimpíadas. O programa atual dos World Games conta com 12 provas, as 10 do kumite individual e as duas do kata individual; ainda não foi definido quais provas estarão no programa das Olimpíadas, mas o mais provável é que sejam essas 12.

O caratê também possui uma versão paralímpica, regulada pela própria WKF e conhecida como paracaratê. No paracaratê, os "paracaratecas" são dividos em três categorias, que, diferentemente do que ocorre com outros esportes, não são referenciadas por códigos, e sim pelo tipo de deficiência do atleta; assim, temos uma categoria para cadeirantes (na qual competem paraplégicos e amputados das pernas), uma para deficientes visuais, e uma para deficientes intelectuais (na qual estão incluídos os paralisados cerebrais, os autistas e os portadores da Síndrome de Down). Dentro de cada categoria, os paratletas são classificados por cores, de acordo com o grau de sua deficiência: os da cor azul são os que têm a deficiência menos severa, seguidos dos de cor verde, amarela, e dos de cor vermelha, que são os de deficiência mais severa - assim, por exemplo, na categoria cadeirantes, um amputado de uma das pernas abaixo do joelho seria azul, um biamputado acima do joelho seria verde, um paraplégico com controle comprometido do tronco seria amarelo, e um paraplégico com controle comprometido do tronco e dos braços seria vermelho. Todos os paratletas de uma mesma categoria competem juntos, sendo que há um modificador aplicado à nota de acordo com a classificação por cor do paratleta: paratletas de cor azul não recebem qualquer modificador, os de cor verde têm um ponto somado à sua nota final, os de cor amarela têm dois, e os de cor vermelha têm três pontos somados à sua nota final.

Todas as competições de paracaratê são de kata individual. A competição transcorre exatamente da mesma forma que uma competição de kata individual não-paralímpica, mas cada paratleta é julgado por um painel de sete juízes, sendo que a maior e a menor nota são descartadas. Evidentemente, os cadeirantes não conseguirão realizar os movimentos do kata relativos às pernas, sendo estes substituídos por movimentos próprios da cadeira de rodas, também avaliados pelos juízes como parte da performance técnica. Para garantir que todos estejam em igualdade de condições, paratletas da categoria deficientes visuais devem competir vendados, sendo usada uma faixa de cor preta sobre seus olhos.

O paracaratê faz parte do Campeonato Mundial, com seis provas disputadas (masculina e feminina de cada uma das três categorias), desde 2014. Ainda não há previsão para que ele seja incluído nas Paralimpíadas, mas a inclusão do caratê nas Olimpíadas pode ser um bom incentivo para que isso ocorra.

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