segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Pelota Valenciana

Há cerca de um ano, fiz aqui um post sobre pelota basca, um esporte interessante no qual o objetivo é rebater uma bola contra uma parede usando as mãos. Fazia tempo que eu queria escrever esse post, mas não achava a melhor forma, porque queria falar também sobre outros esportes que tivessem o mesmo objetivo. Na época, cheguei a cogitar fazer uma série de posts chamados "pelota", mas depois acabei desistindo e condensando a pelota basca e vários outros esportes parecidos em um único - e imenso - post. Não fiquei muito satisfeito, porém, de forma que, mais tarde, aproveitei o segundo post sobre os esportes de demonstração das Olimpíadas para falar de mais alguns desses esportes - e, mais uma vez, o post ficou imenso. Como não dava mais para voltar atrás e fazer a série da pelota, me conformei, mesmo ainda tendo o desejo de falar de mais alguns.

Essa semana, me lembrei disso, e resolvi fazer esse novo post, falando sobre mais dois esportes semelhantes. Não são os únicos que faltam, mas são os que eu ainda estava com vontade de abordar; um deles eu havia separado para a série original da pelota, o outro eu acabei descobrindo quando escrevi sobre o kaatsen. E, já que não dá mais para fazer a série da pelota, pelo menos eu criei uma categoria "pelota", para que os três posts que falam sobre esses curiosos e interessantes esportes possam ser encontrados mais rapidamente.

Vamos começar pela pelota valenciana, o tal que eu havia separado originalmente. Assim como a pelota basca tem esse nome porque teve origem no País Basco, região que atualmente ocupa territórios que pertencem à Espanha e à França, a pelota valenciana teve origem na Comunidade Valenciana, região espanhola que ainda mantém fortes tradições culturais, incluindo um idioma próprio - mais ou menos como ocorre com a Catalunha, mas sem uma luta tão forte pela independência. Não somente a pelota valenciana é considerada o "esporte nacional" da Comunidade Valenciana, como também ele praticamente só é jogado por lá, com pouquíssimos jogadores existindo até mesmo no restante da Espanha, quem dirá no resto do mundo - e locais apropriados para sua prática profissional somente existindo nas cidades da Comunidade Valenciana, a maior parte delas em Valência, capital da região.

Assim como a pelota basca, a pelota valenciana descende do jeu de paume, também conhecido como tênis real, esporte de origem francesa semelhante ao tênis que hoje é jogado com raquetes, mas que, originalmente, era jogado rebatendo a bola com as mãos nuas. De fato, a pelota valenciana é tão parecida com o jeu de paume original que, no século XVI, o humanista Juan Luís Vives, que nasceu em Valência mas morou a maior parte de sua vida na Holanda, e hoje é considerado um dos pais da psicologia moderna, escreveu um texto no qual buscava provar que ambos eram o mesmo esporte. Também vale citar que, para diferenciá-la da pelota basca, a pelota valenciana em muitos idiomas é chamada de pilota, nome pelo qual é conhecido em sua região de origem, e que significa "bola" em valenciano - assim como pelota significa "bola" em espanhol.

Os primeiros registros da prática da pelota valenciana em Valência datam de 1391, quando o conselho da cidade proibiu sua prática nas ruas; estima-se, entretanto, que ela já era praticada, pelo menos, desde o final do século XIII. Originalmente, a pelota valenciana era apenas um passatempo, jogado nas ruas sem regras rígidas quanto ao número de participantes ou para determinar quem venceria a partida; a proibição imposta pelo conselho da cidade, porém, levaria à construção de locais próprios para a sua prática, chamados trinquets, e a uma tentativa de codificação das regras por parte dos donos desses locais - não por uma preocupação com a pureza do esporte, mas porque, além de cobrar ingressos dos espectadores e taxas dos jogadores que quisessem usar seus trinquets, muitos deles ainda incentivavam as apostas, com qualquer espectador podendo apostar em termos como qual jogador ou equipe iria ganhar, quantos pontos eles iriam fazer e quem seria o maior pontuador da partida, e com parte do dinheiro apostado indo para o dono do trinquet; diante disso, para que ninguém pudesse alegar que ganhou a aposta, mas não levou o dinheiro, era necessário que as regras ficassem bem claras para todos. Atualmente, a prática das apostas durante os jogos não somente é permitida, como também é considerada um dos principais fatores de sua popularidade.

Hoje em dia, a Comunidade Valenciana possui campeonatos disputados tanto por jogadores amadores, que praticam a pelota principalmente como atividade física, quanto por profissionais, que se dedicam integralmente ao jogo de pelota, com alguns até tendo excelentes salários. Muitas escolas e universidades da Comunidade Valenciana possuem trinquets e outras áreas próprias para a prática da pelota, e jogos profissionais e universitários costumam ser transmitidos pelo Canal Nou, o canal de TV público da Comunidade Valenciana. Também é comum que a pelota valenciana seja jogada nas ruas - prática que voltou a se popularizar após o relaxamento da proibição, em meados do século XIX - mas apenas como diversão, e na maior parte das vezes por crianças e adolescentes.

A pelota valenciana possui sete modalidades, divididas em jogo direto e jogo indireto. Nas modalidades de jogo direto, a partida se parece com uma de tênis, com um jogador ou equipe rebatendo a bola para outro, enquanto no jogo indireto a partida se parece com uma de pelota basca ou squash, com os jogadores rebatendo, alternadamente, a bola contra uma parede. Independentemente da modalidade, apenas as mãos podem ser usadas para rebater a bola, sem a ajuda de qualquer luva ou raquete - sendo usada, no máximo, uma proteção para a palma das mãos feita com esparadrapo comum.

Duas das modalidades do jogo direto são disputadas profissionalmente; a de maior prestígio é a chamada escala i corda, criada em 1910 pelo jogador Nel de Murla, que resolveu pendurar uma corda no meio de um trinquet para servir de rede. A escala i corda pode ser jogada em simples, em duplas, ou em trios, além de em uma curiosa variação de uma dupla contra um trio, sendo que, nesse caso, o trio é sempre composto por jogadores mais fracos que a dupla. Falando nisso, na escala i corda, o jogador ou time mais forte (mais bem ranqueado, com mais vitórias etc.) sempre veste vermelho, enquanto o outro sempre veste azul; as apostas se referem sempre a essas cores, nunca aos nomes dos jogadores ("vitória do azul por dois pontos", por exemplo). A escala i corda usa uma bola conhecida como pilota de vaqueta ("bola de vaca"), feita de borracha coberta com couro de vaca, com 42 mm de diâmetro e 42 g de peso.

A escala i corda é jogada em um trinquet com entre 45 e 60 m de comprimento por entre 8,5 e 11 m de largura. O trinquet é completamente fechado, tendo quatro paredes e um teto, que deve estar a, no mínimo, 6 m de altura. As duas paredes mais curtas, que delimitam o comprimento, são conhecidos como frontón, enquanto as duas mais compridas são os muralles, e todas devem ter entre 4 e 6 m de altura. No lado esquerdo de quem entra no trinquet, o que é feito por uma porta em um dos frontó, há uma espécie de arquibancada, de quatro degraus, conhecida como escala ("escada"); para todos os efeitos, a escala faz parte da área de jogo, e a bola pode quicar lá normalmente. Dividindo o trinquet bem no meio fica pendurada uma corda, a 1,80 m de altura, que divide o trinquet em dois lados distintos: o lado que tem a porta de entrada pertence ao time que está defendendo, e se chama dau, enquanto o outro lado se chama rest, e pertence ao time que está atacando. A única marcação no chão é um retângulo de 1,80 m por 2,20 m, desenhado tanto no chão quanto na parede, na quina da escala com o frontó que tem a porta de entrada, também chamado dau (palavra que significa "quadrado" em valenciano).

Uma das coisas mais curiosas na escala i corda é o posicionamento dos espectadores: a rigor, o local próprio para se assistir ao jogo é em arquibancadas presentes no alto de cada frontó, para que se possa assistir ao jogo sentado, ou em galerias existentes no alto dos muralles, de onde eles podem assistir à partida de pé. Na quina do frontó que tem a porta de entrada com o mural oposto à escala (ou seja, de frente com o dau), existe uma espécie de camarote, chamado llotgeta, que ocupa mais ou menos a metade desse frontó, onde espectadores também podem se sentar - sendo que, assim como ocorre com a escala, a bola pode quicar na llotgeta normalmente. De forma um tanto curiosa, também é permitido que os espectadores se sentem na escala, embora, em jogos profissionais, só seja permitido se sentar do lado do time que está defendendo. Extra-oficialmente, há um "grau de coragem" para avaliar os espectadores: os mais medrosos ficam nas arquibancadas e galerias, aqueles um pouco mais corajosos na llotgeta, os mais corajosos na escala, e os verdadeiramente corajosos em banquinhos posicionados abaixo da corda, dentro da área de jogo, de onde, acreditem , ou não, também é permitido assistir à partida; em partidas profissionais, entretanto, apenas os árbitros podem se sentar nesses banquinhos.

A variação mais disputada da escala i corda é a de trios. Nela, os jogadores se posicionam não um ao lado do outro, mas um atrás do outro, como se seu lado do trinquet fosse dividido em três terços no sentido da largura. O jogador responsável pelo terço mais próximo ao frontó se chama dauer, e é normalmente o melhor jogador do trio, sendo responsável por devolver a maior parte das bolas. O jogador do terço intermediário se chama mitger; poucas bolas chegarão a ele sem quicar, mas ele pode arriscar rebatê-las antes do quique, para pegar os adversários de surpresa. O jogador mais próximo à corda se chama punter ("puntêr", e não "pânter", afinal, não é inglês, é valenciano), e provavelmente será o que rebaterá menos bolas, já que elas chegarão a ele sem quicar e com bastante velocidade; punteres, portanto, costumam ser jogadores de pouca técnica, mas muita força e bons reflexos. Existe ainda uma quarta função, chamada feridor, um jogador cuja única função é sacar - o saque, na pelota valenciana, se chama ferida, no sentido de ferir o time adversário. Em torneios profissionais, cada partida conta com dois feridores especializados, que são sorteados um para cada time antes do início da partida, e só entram em jogo para sacar; em partidas amadoras, o punter costuma ser também o feridor de cada time. Caso a partida seja disputada por duplas, cada dupla será formada por um dauer e por um jogador que acumula as funções de mitger, punter e feridor, se posicionando como se fosse um mitger; em partidas individuais, evidentemente, cada jogador acumula todas as funções de sua equipe, correndo bem mais durante a partida que um jogador de duplas ou trios, mas tendo maior possibilidade estratégica.

No início de cada ponto, o feridor se posiciona o mais próximo possível da corda, quica a bola no chão e bate nela com a mão, visando fazer com que ela quique dentro do quadrado do dau, sendo que ela pode quicar uma vez na escala antes disso. Sendo o saque válido, o dauer adversário deverá devolvê-lo, e, a partir daí, os times se alternam nas rebatidas, até alguém cometer um erro ou falta. Antes de quicar no chão, é permitido que a bola quique em um dos murales, em um frontó, na escala, na llotgera, no teto (o que é raríssimo, dado sua altura) ou até mesmo em um dos espectadores (o que já foi mais comum, mas hoje os jogadores são desencorajados a usar os espectadores como área de jogo); caso a bola quique em mais de um desses lugares antes de quicar no chão, ou duas vezes no mesmo lugar (por exemplo, em dois dos degraus da escala), será ponto do adversário, mas se ela quicar duas vezes no chão antes de ser rebatida, será ponto de quem a rebateu anteriormente. Também é ponto para o adversário caso um mesmo jogador ou uma mesma equipe toque duas vezes na bola antes do adversário, caso um jogador não consiga passar a bola para o outro lado da corda, caso a bola passe por baixo da corda ao invés de por cima, ou caso o saque não alcance o dau. Um jogador não é obrigado a deixar a bola quicar em lugar nenhum antes de rebatê-la, podendo fazê-lo direto. Também pode ocorrer de a bola ir parar no meio dos espectadores e não retornar à área de jogo imediatamente, ficando presa, o que normalmente ocorre quando ela vai parar nas galerias do alto dos muralles; nesse caso, não é ponto para ninguém, sendo efetuado um novo saque. Em partidas amadoras e em partidas profissionais de simples, se um jogador conseguir mandar a bola diretamente para as galerias, as arquibancadas ou a llotgeta, marcará um ponto.

A pontuação na escala i corda é parecida com a do tênis, com os pontos sendo contados em quinzes (15, 30, val e punt), mas sem existir o deuce - ou seja, mesmo que ambos estiverem com val, o próximo a pontuar marca um punt. Cada cinco punts constituem um joc, e quem ganhar 12 jocs primeiro ganha a partida - em outras palavras, são necessários 60 punts, ou 240 quinzes. Os times se alternam no ataque e na defesa, mudando de lado a cada ponto; somente o time que está no ataque é que tem direito a sacar.

A segunda modalidade profissional se chama raspall, que é o verbo "raspar" em valenciano. A raspall é bastante parecida com a escala i corda, usando o mesmo trinquet, a mesma bola, as mesmas cores azul e vermelha para os competidores, o mesmo sistema de pontuação, as mesmas regras básicas, e também pode ser jogado em simples, duplas, trios, ou em um trio contra uma dupla; nada disso é por acaso, já que a raspall é a modalidade original que Nel de Murla adaptou para criar a escala i corda. Não se sabe quem teria criado a raspall, mas há registros de que essa modalidade já existia na época em que a pelota valenciana era jogada apenas nas ruas - de fato, ainda hoje a raspall pode ser jogada nas ruas, embora todas as partidas profissionais usem o trinquet.

A principal diferença entre a raspall e a escala i corda é que não há a corda. Aliás, não há qualquer linha para dividir o trinquet no meio, mas, mesmo assim, cada time ocupa uma das metades, com a metade do time que está atacando sendo chamada de "área de saque" e a outra de "área de devolução" – como não há linha divisória, as metades nem sempre têm o mesmo tamanho, com os times frequentemente se adiantando para diminuir a área de jogo do adversário. Na raspall, a bola não pode quicar na escala nem nos espectadores, e, portanto, toda a área da escala é livre para que eles se sentem; por outro lado, não há os banquinhos no meio da área de jogo, com o árbitro ficando na escala, próximo à metade (real) da área de jogo. Uma partida de raspall é disputada até que uma das equipes (ou um dos jogadores, no jogo individual) faça 5 jocs (o que equivale a 25 punts ou 100 quinzes); o placar menor advém do fato de que é muito mais difícil pontuar na raspall que na escala i corda.

As posições dos jogadores na raspall são bem mais flexíveis, com todos podendo se movimentar e rebater livremente, como em uma partida de tênis. Os jogadores de cada equipe se alternam no saque a cada punt, devendo se posicionar na quina entre o frontó e a escala, correr no máximo três passos, e então quicar a bola e rebatê-la para o lado adversário. A principal característica da raspall é que não há limite de vezes em que a bola pode quicar no chão antes de ser devolvida - exceto se ela bater no mural ou no frontó, quando deverá ser rebatida após seu primeiro quique no chão. Essa falta de limite de quiques pode fazer, inclusive, com que a bola corra pelo chão, sendo perfeitamente legal que o jogador se abaixe e a rebata com a mão em direção ao adversário - e é daí que vem o nome do jogo, pois muitas vezes a mão do jogador raspa no chão quando vai rebater a bola dessa forma. Como não há limite de quiques, a principal forma de pontuação é quando ocorre uma falta, caso no qual o ponto irá para a equipe ou jogador que não a cometeu. As faltas na raspall são: um mesmo jogador ou uma mesma equipe tocar duas vezes na bola antes de devolvê-la para o adversário; a bola bater no mural ou no frontó e voltar para a metade do trinquet do jogador ou equipe que a rebateu por último antes que um adversário toque nela; a bola tocar tanto no mural quanto no frontó antes de quicar no chão; e um jogador deixar a bola quicar duas vezes no chão após ela ter quicado no mural ou no frontó. Caso a bola caia no meio dos espectadores, ela será quicada pelo árbitro na metade da área de jogo, e um jogador do time que não a rebateu "para fora" poderá rebatê-la livremente após esse quique - regra estipulada para desencorajar os jogadores a jogar a bola na direção dos espectadores. Em jogos disputados nas ruas, a área de jogo é delimitada por linhas de fundo, e, se a bola sair por uma dessas linhas de fundo, também será ponto para o adversário; em partidas amadoras jogadas no trinquete essa regra costuma ser adaptada, conferindo um ponto a uma equipe ou jogador que consiga jogar a bola nas arquibancadas, nas galerias ou na llotgeta, mas essa forma de pontuação não existe no jogo profissional.

Outra das modalidades do jogo direto, chamada galotxa, não possui torneios ou campeonatos profissionais, mas pode ser disputada nas ruas, como recreação, ou em locais próprios por jogadores amadores, muitos deles filiados a clubes. A galotxa também é parecida com a escala i corda, mas mais antiga, com seus primeiros registros datando do século XVIII - muitos acreditam, inclusive, que, ao acrescentar a corda ao trinquet, Nel de Murla estaria não tentando criar um novo esporte, e sim adaptar a galotxa para o trinquet. Muitos jogadores profissionais de escala i corda, inclusive, começam suas carreiras na galotxa antes de se profissionalizar.

Assim como na escala i corda, a área de jogo da galotxa é dividida por um elemento - que, no caso da galotxa, não é uma corda, e sim uma rede, parecida com a do vôlei, mas com apenas 30 cm de altura, e pendurada de forma que seu ponto mais alto fique a 1,80 m do chão. As regras são as mesmas da escala i corda, sendo usadas a mesma bola, as mesmas cores vermelha e azul em torneios oficiais, as mesmas formas e o mesmo sistema de pontuação; a única diferença está no saque, feito de um retângulo de 1,80 m por 80 cm demarcado a aproximadamente 2 m do final da área de jogo, em direção a um dau de 1,80 m por 1 m, demarcado apenas no chão, a aproximadamente 2 m da rede. Na galotxa a disputa é sempre entre trios, não havendo jogos de simples, duplas, ou de trio contra dupla. A pontuação necessária para se vencer o jogo é maior: 14 jocs (que equivalem a 70 punts ou 280 quinzes).

A principal diferença da galotxa para a escala i corda é que ela nunca é jogada no trinquet, apenas nas ruas. Acreditem ou não, para que pudessem ser disputados torneios amadores, muitos clubes e prefeituras construíram "ruas artificiais", especiais para a prática da galotxa; essas "ruas" têm 50 m de comprimento por 7 m de largura, e contam com elementos como postes, lixeiras, caixas de correio, muros com janelas, calçadas com meio-fios e até mesmo bueiros e tampas de esgoto, tudo para que fiquem o mais parecidas possível com uma rua de verdade. Evidentemente, nenhuma delas tem escalas ou lottgetes, mas nem por isso a partida ocorre sem público: ao redor da "rua", há muros, equivalentes aos muralles e frontón, de no mínimo três metros de altura, no topo do qual há arquibancadas para o público se sentar e acompanhar o jogo. Ruas artificiais que contem com muros com janelas podem permitir que alguns espectadores assistam ao jogo por detrás delas, e alguns clubes até permitem jogadores sentados no meio da rua ou no meio-fio, como se estivessem assistindo ao jogo em uma rua de verdade. Também vale citar que a galotxa não tem árbitro, com os próprios jogadores cuidando para que o jogo se desenrole adequadamente.

A quarta modalidade do jogo direto se chama galotxetes, e, apesar do nome, tem muito pouco a ver com a galotxa. Para começar, é usada uma área de jogo própria, encontrada apenas em clubes, chamada galotxeta, que tem 20 m de comprimento, 3 m de largura e entre 4 e 6 m de altura, sendo cercada por quatro muros e tendo um teto. A galotxeta é dividida ao meio por uma rede, semelhante à do tênis, com 1 m de altura, mas não totalmente tensionada, o que faz com que seu meio seja mais baixo que suas pontas, caindo com o próprio peso da rede. Como de costume, a rede divide a área de jogo em duas metades, com a metade da equipe que está atacando sendo conhecida como rest, e a da equipe que está defendendo como traure. No rest, colado ao lado direito da rede, há uma pedra de 80 cm de altura por 30 cm de largura e 30 cm de comprimento, chamada tamboret, de onde são feitos os saques no jogo de duplas; no traure, na quina entre o frontó e seu mural esquerdo, há um retângulo de 1,50 m por 50 cm, chamado trau, onde a bola deve quicar após cada saque. Na base de cada frontó há uma "rampinha", de 45 graus de inclinação, chamada tambori, para que a bola quique de forma imprevisível ao atingi-la. Em cada uma das quatro quinas da galotxeta há uma espécie de porta nos muralles, chamadas caixonets, de 2 m de altura por 60 cm de largura. Finalmente, o frontó do lado do traure tem apenas 1,5 m de altura, com uma arquibancada sobre ele, sendo este o único local do qual é possível assistir ao jogo. A galotxetes também não tem árbitro, com os próprios jogadores cuidando do andamento do jogo, e usa uma bola própria, que quase não quica, feita pelos próprios jogadores usando tiras de borracha, trapos de pano, fios de lã e esparadrapos, com aproximadamente 70 mm de diâmetro e 60 g de peso.

A galotxetes é disputada apenas em simples e em duplas, sem a obrigatoriedade de cores vermelha e azul para as vestimentas dos jogadores. No jogo de duplas, os membros de cada dupla se alternam no saque a cada punt, e o saque deve ser feito após quicar a bola no tamboret; já no jogo de simples, a bola pode ser quicada em qualquer lugar, mas sempre o mais próximo possível da rede – em ambos os casos, para que o saque seja válido, a bola deve quicar dentro do trau, podendo quicar uma vez no mural ou frontó antes disso. No decorrer do jogo, cada jogador pode deixar a bola quicar no chão apenas uma vez antes de devolvê-la, mas ela pode quicar também apenas uma vez em um mural, frontó, tambori, no teto ou no tamboret antes de no chão. Caso a bola vá parar na arquibancada, ela é devolvida para um dos jogadores do lado que está defendendo, que deverá quicá-la no frontó e rebatê-la direto, caso ela tenha quicado no chão antes de sair, ou após ela quicar no chão, caso não tenha. Finalmente, os caixonets atuam como uma espécie de "gol": caso a bola entre em um dos caixonets, será ponto para o jogador do lado oposto ao caixonet onde a bola entrou. Assim como na escala i corda, ganha a partida o lado que primeiro fizer 12 jocs.

A quinta e última modalidade do jogo direto é a llargues, que não tem nada a ver com o llargues da CIJB, que vimos no segundo post dos esportes de demonstração das Olimpíadas, exceto pelo nome e pelo fato de que os jogadores acertam a bola com as mãos. A llargues é a mais antiga das modalidades da pelota valenciana, mas atualmente é disputada apenas como recreação, mais ou menos como ocorre com o queimado (ou queimada, dependendo de onde você more) aqui no Brasil.

A llargues é jogada apenas nas ruas, embora também possam ser usadas as "ruas artificiais" da galotxa. Seja qual for o local de jogo, ele é delimitado por duas linhas traçadas no chão, chamadas rest, do lado do time que está defendendo, e banca, do lado do time que está atacando. A única outra linha marcada no chão é a falta, a uma distância de aproximadamente 5 m da metade da área de jogo – que não é demarcada por linha nenhuma, embora a presença da falta faça com que haja uma linha de meio imaginária. A llargues é jogada sempre em equipes, de três, quatro ou cinco jogadores cada, e usa uma bola própria, chamada pilota de badana, feita de couro recheada com trapos, com 38 mm de diâmetro e 39 g de peso; a bola é macia, quase não quica, e é barata, então não faz mal se se perder durante o jogo. Evidentemente, a llargues também não tem árbitro, nem obrigatoriedade de cores vermelha e azul para os jogadores.

No saque, um dos jogadores se posiciona atrás da banca, e deve arremessar a bola (não rebatê-la) de forma que ela quique depois da falta. A partir de então, os jogadores rebaterão a bola um para o outro, até que alguém marque um ponto. É permitido que a bola quique apenas uma vez no chão antes de ser rebatida, mas ela pode quicar em qualquer outro elemento da rua – mas apenas uma vez, e apenas em um único elemento - antes de quicar no chão. O sistema de pontuação é o mesmo da escala i corda, ganhando o jogo quem primeiro fizer 10 jocs (que equivalem a 50 punts ou 200 quinzes); além das formas tradicionais de pontuação, ganha um ponto quem conseguir mandar a bola para além da linha de fundo (banca ou rest) do oponente.

A principal característica da llargues são as ratlles (“linhas” em valenciano): toda vez que a bola é "presa", indo parar em um lugar onde não quica para dentro da área de jogo – no meio dos espectadores, dentro de uma lixeira, dentro da casa de alguém etc. - é marcada no chão uma linha temporária no local onde isso ocorreu. Ninguém marca ponto, e é feito um novo saque. A cada duas ratlles, entretanto, os times mudam de lado, e entra em cena uma nova forma de pontuação: se, após o saque, a bola quicar depois de uma ratlla, o time que está sacando ganha um ponto, e aquela ratlla é apagada. As ratlles são a única forma de os times mudarem de lado, não ocorrendo a mudança após cada punt, o que significa que, no raro evento de não ocorrerem ratlles um mesmo time pode sacar do início ao final do jogo.

As duas modalidades que faltam pertencem ao jogo indireto; delas, a mais popular é o frontó (conhecido fora da Comunidade Valenciana como frontó valenciano), que, assim como a galotxa, possui campeonatos e torneios amadores, embora seja mais jogado como recreação. O frontó valenciano, que surgiu no final do século XIX, é uma adaptação da pelota basca usando as regras da pelota valenciana, e, portanto, é jogado em um espaço também chamado de frontó, que deve ter, obrigatoriamente, três muros: um muro frontal, chamado frontis, com entre 8,5 e 11 m de largura; um lateral, chamado mural, com 25 m de comprimento; e um traseiro, paralelo ao frontis e com a mesma largura deste, chamado rebote. O quarto muro, paralelo ao mural, não é obrigatório, e quase nunca existe, ficando as arquibancadas onde ele deveria estar; a área de jogo, se não houver um quarto muro, é delimitada por uma "linha de lado", paralela ao mural. O teto também não é obrigatório.

No frontis há uma linha traçada a 90 cm de altura, chamada falta, e todas as bolas que quicam nele devem quicar acima dessa linha. No rebote, colado ao chão, há uma "rampinha", de 45 graus de inclinação, chamada tambori, para que a bola quique de forma imprevisível caso a atinja. E, no mural, são traçadas dez linhas chamadas blau, de 1 m de altura cada, e espaçadas 2 m entre si, numeradas de 1 a 10, sendo que a linha 4 é a "linha de falta", e a 7 é a "linha de passe". É interessante notar que, atualmente, todos os trinquets da Comunidade Valenciana são adaptados para o jogo de frontó valenciano, contando com a linha de falta no frontó oposto ao da porta de entrada, linhas de falta a 4 m de altura (acima das quais a bola não pode quicar) caso o frontó e o mural sejam mais altos que isso, as blau estando presentes no mural, a escala servindo como arquibancada, e com um rebote removível sendo adicionado a 25 m do frontó - já que o mural do jogo de frontó valenciano tem 25 m de comprimento, mas o do trinquet tem entre 45 e 60 m.

As regras do frontó valenciano se parecem com as da especialidade pelota mano da pelota basca: cada ponto começa com um saque, que deve ser feito da blau 4, com o jogador parado sobre ela ou vindo correndo da blau 6. Após o saque, a bola deve quicar no frontis, e pode quicar no mural ou no rebote, mas não em ambos, antes de quicar no chão, o que deve ocorrer entre a blau 4 e a
blau
7, ou será ponto para o adversário. A partir de então, os jogadores se revezam nas rebatidas, devendo a bola sempre quicar no frontis após ser rebatida, e só podendo quicar no chão uma única vez após quicar no frontis - ela pode quicar no mural ou no rebote, ou até em ambos, depois de quicar no frontis e antes de quicar no chão, mas nunca antes de quicar no frontis. Toda vez que um jogador deixar a bola quicar duas vezes no chão; fizer a bola quicar no chão, no mural ou no rebote antes de no frontis; fizer a bola quicar abaixo da linha de falta inferior ou acima da superior; tocar a bola com outra parte do corpo que não as mãos; ou fizer a bola quicar além da linha de lado ou na arquibancada, será ponto para o adversário. A pontuação é contada como nos outros jogos de pelota valenciana, com o saque mudando de jogador a cada punt. Ganha a partida o jogador que primeiro fizer 8 jocs, que equivalem a 40 punts ou 160 quinzes.

O frontó valenciano pode ser jogado em simples ou em duplas, sendo que, nas duplas, os jogadores se alternam no saque a cada punt em que sua dupla for sacar, mas não precisam se alternar nas rebatidas, podendo rebater quem estiver em melhor condições para tal. Assim como nas demais modalidades com torneios oficiais, o jogador ou dupla favorito da partida veste vermelho, enquanto o outro veste azul. A bola usada se chama pilota de tec, por causa do barulho que faz ao acertar o frontis; é feita de madeira coberta com couro de cabra, tem entre 38 e 40 mm de diâmetro e pesa entre 45 e 50 g.

A segunda modalidade do jogo indireto, e sétima e última no total, se chama frare, e, assim como a llargues, atualmente só é jogada como recreação. Criado no início do século XX na província de Castelló, ao norte da Comunidade Valenciana, o frare tem as mesmíssimas regras do frontó valenciano, mas usa a pilota de badana, e é disputado em um local chamado trinquet en frares. Assim como a galotxeta, o trinquet en frares é totalmente cercado, com quatro muros e um teto, tendo 30 m de comprimento, 8 m de largura e 10 m de altura - exceto o rebote, que tem 2,5 m de altura, ficando as arquibancadas acima disso. Além da linha de falta a 90 cm no frontis, o frontis e os muralles possuem uma linha de falta a 9 m de altura, acima da qual é proibido quicar a bola. O rebote não tem tambori, só é permitido que a bola quique em até dois locais após quicar no frontis e antes de quicar no chão (sendo "locais" os dois muralles, o rebote e o teto), e jogar a bola na arquibancada também dá ponto para o adversário. A principal característica do frare, entretanto, são dois "fradinhos", de onde o jogo tira seu nome (frare significa "frade" em valenciano): duas estruturas de concreto verticais de 1,5 m de altura, um pouco mais largas na base que no topo, semelhantes a pequenas torres com uma pirâmide em cima. Posicionadas nas quinas do frontis com os muralles, os frares, para todos os efeitos, fazem parte do frontis, ou seja, quando a bola quica nos frares acima da linha de falta, é como se tivesse quicado no frontis - quando a bola bate em um dos frares, porém, ela sempre quica de forma imprevisível, o que adiciona mais emoção ao jogo.

A pelota valenciana é regulada pela Federação de Pelota Valenciana (FPV), que, a rigor, é a federação nacional da Espanha para este esporte, mas, na prática, só atua dentro dos limites da Comunidade Valenciana; a FPV também é a única federação do planeta dedicada a este esporte, não existindo federações de pelota valenciana em outros países. Atualmente, a FPV organiza apenas torneios amadores, cabendo a organização dos torneios profissionais à ValNet, uma organização privada fundada em 2005 pelos ex-jogadores Alfred Hernando e Daniel Ribera II e pelo dono de trinquet Emili Peris, visando a profissionalização e difusão do esporte. Os mais importantes torneios da ValNet atualmente são o Circuit Bancaixa, a liga profissional de escala i corda, disputada no individual desde 1986 e em trios desde 1992; e o Campionat Professional de Raspall, disputado em trios desde 1984 e no individual desde 1986. Já a FPV organiza o Trofeu El Corte Inglés, mais importante campeonato interclubes de galotxa, desde 1976, e o Campionat Autonòmic de Frontó, desde 1987, tanto em simples quanto em duplas.

A FPV é filiada à Confederação Internacional de Jeu de Balle (CIJB), órgão que reúne todas as federações nacionais de esportes em cujo objetivo seja rebater uma bola com as mãos, e que atualmente regula internacionalmente três deles, o jeu de balle, o frontón internacional e o llargues (que, como já foi dito, não é a modalidade da pelota valenciana, e sim outro esporte com o mesmo nome). A cada dois anos desde 1996, a CIJB realiza o Campeonato Mundial de Handebol, que atualmente é a competição mais importante desses três esportes, e que, desde 2002, em algumas edições teve "esportes de demonstração", escolhidos pelo país-sede, sendo que as federações nacionais desses esportes devem ser filiadas à CIJB. A pelota valenciana foi esporte de demonstração no Mundial de 2014, realizado na cidade de Massamagrell, na Comunidade Valenciana; na ocasião, foram disputados um torneio masculino de escala i corda e um feminino de raspall.

Pois bem, como vimos no post sobre os esportes de demonstração das Olimpíadas, outros quatro esportes já fizeram parte do Campeonato Mundial de Handebol como esportes de demonstração: o manito mendocino (em 2002, quando o Mundial foi realizado na Argentina), o pallapugno (em 2004, na Itália), a pelota equatoriana (em 2008, no Equador) e o kaatsen (em 2012, na Holanda, na primeira vez em que um esporte de demonstração no Mundial de Handebol teve um torneio masculino e um feminino). O kaatsen foi um dos esportes que eu abordei no já citado post sobre os esportes de demonstração das Olimpíadas; não consegui descobrir de maneira nenhuma como se joga manito mendocino; e o pallapugno eu vou deixar, talvez, para outra ocasião. A pelota equatoriana, porém, eu achei interessantíssima, de forma que vou aproveitar para falar sobre ela hoje também.

A pelota equatoriana, conhecida no Equador como pelota nacional, é um jogo de origem indígena, e antiquíssimo: há registros de que, quando os Conquistadores espanhóis chegaram aos Andes, encontraram os incas jogando pelota. Quando os colonizadores os seguiram, passaram também a praticar o esporte, que recebeu algumas modificações ao longo dos anos - provavelmente para ficar mais parecido com os esportes que eles já estavam acostumados na Espanha - mas sua essência e elementos característicos permaneceram os mesmos. Desde 1962, a pelota equatoriana é regulada pela Federação Equatoriana de Pelota Nacional (FEPN), que tem como prioridade a preservação do esporte e sua prática dentre as novas gerações, ainda não havendo um plano para difusão para outros países. A preservação da pelota equatoriana tem se mostrado difícil, pois os jovens preferem esportes mais "internacionais", principalmente o futebol - estima-se que três quartos dos jogadores de pelota equatoriana tenham entre 40 e 70 anos - mas, mesmo assim, a FEPN vem fazendo um bom trabalho: existem, no momento, espalhados pelo Equador, mais de 50 Clubes de Pelota Nacional, dedicados exclusivamente à prática desse esporte, além de duas Escolas de Pelota Nacional, uma em Quito e uma em Tulcán, dedicadas a ensinar o esporte a crianças e adolescentes.

A pelota equatoriana possui quatro modalidades, mas a única diferença entre uma e outra é o implemento usado para bater na bola, com todas as demais regras sendo comuns a todas as modalidades. A pelota equatoriana é disputada entre duas equipes de cinco jogadores cada; em torneios profissionais, cada equipe pode ter também dois reservas, mas jogadores substituídos não podem mais voltar naquela partida. O local próprio para sua prática se chama cancha, e é nada mais que uma faixa de concreto ou terra batida, com entre 100 e 120 m de comprimento por entre 8 e 10 m de largura. O meio exato da cancha é demarcado por uma linha, que dividirá a área de jogo entre as duas equipes. A 9 m e a 15 m de cada linha de fundo também são traçadas duas linhas, que delimitam uma área da cancha chamada tranca, dentro da qual cada equipe deve ter pelo menos dois jogadores a todos os momentos do jogo; a área entre a tranca e a linha de meio se chama tranquilla. Cada partida possui um único árbitro, posicionado em frente à linha de meio; como a cancha é bem comprida, os próprios jogadores costumam auxiliá-lo quando os lances ocorrem longe do meio.

No início de cada ponto, os jogadores se posicionam como se fossem o número 5 na face de um dado, ou seja, dois à frente e dois atrás, um de cada lado da cancha, e um bem no meio desses quatro. O saque é sempre feito por baixo, e sempre pelo jogador do meio, sendo que os jogadores da frente costumam devolver a bola antes que ela quique, enquanto os de trás, por estarem mais longe (e normalmente dentro da tranca) costumam rebatê-la após um quique. A pontuação é contada como no tênis (15, 30, 40, juego), mas sem deuce - mesmo no empate de 40 a 40, o próximo a pontuar leva o juego. Após cada juego, o saque muda de lado e os jogadores de ambas as equipes "rodam", como no vôlei, o que garante que cada ponto terá um jogador diferente sacando. Cada vez que uma equipe marca três juegos - mesmo que estivesse empatado em 2 a 2 - ela leva uma mesa, e as equipes trocam de lado. A primeira equipe a ganhar duas mesas ganha o jogo. As formas de pontuação são as de sempre: se uma equipe deixar a bola quicar duas vezes dentro da cancha, uma vez dentro e uma fora, tocar duas vezes seguidas na bola, ou não conseguir devolver a bola para o lado da cancha do adversário (jogando-a direto para fora, ou fazendo-a quicar dentro de seu próprio lado após rebatê-la, por exemplo), será ponto para o adversário.

As quatro modalidades da pelota equatoriana são divididas em dois grupos, sendo que cada grupo usa um tipo diferente de bola. O primeiro grupo se chama viento, tem três modalidades, e usa uma bola conhecida como pelota de caucho, feita de borracha (daí seu nome, que significa "bola de borracha"), que mede 10 cm de diâmetro e é cheia de ar (daí o nome viento), devendo a camada de borracha ter 1 cm de espessura e o peso total da bola ficar entre 800 e 900 g.

A mais popular de todas as modalidades se chama raqueta de viento ("raquete de vento"; cada modalidade recebe o nome do implemento usado para disputá-la), e usa uma raquete enorme, talvez o elemento mais característico da pelota equatoriana. A raquete é feita de madeira, tem 70 cm de comprimento, 30 cm de largura no ponto mais largo, 3 cm de espessura, pesa aproximadamente 7 Kg, e sua cabeça, de formato aproximadamente quadrado, é revestida com couro e contém 26 pupos, pequenos cones de borracha parecidos com dentes. Cada pupo tem 5 cm de diâmetro, entre 10 e 12 cm de altura, e é feito de borracha sólida. O lado oposto ao dos pupos costuma ser decorado com desenhos, pinturas e colagens, criando uma raquete personalizada para cada jogador. A raqueta de viento foi a modalidade disputada no Mundial de Handebol de 2008.

A segunda modalidade é a chamada raqueta más pequeña ("raquete menor"), e foi originalmente criada para estimular a prática da raqueta de viento dentre os jovens. Como o nome sugere, a raqueta más pequeña é menor que a raqueta de viento, tendo 60 cm de comprimento, entre 26 e 28 cm de largura, entre 2,5 e 3 cm de espessura, e apenas 21 pupos, de entre 7 e 8 cm de altura por 5 cm de diâmetro cada, sendo sua cabeça levemente trapezoidal (mais estreita onde se encontra com o cabo que na outra ponta), o que a torna também mais fácil de se manusear, devido ao menor atrito com o ar nos movimentos. Ela também é mais leve, pesando aproximadamente 5 Kg. Profissionalmente, a raqueta más pequeña é exclusivamente feminina, enquanto a raqueta de viento é exclusivamente masculina.

A terceira modalidade se chama guante ("luva"), e já foi a mais popular de todas, tendo caído em declínio a partir da década de 1970, mas ainda sendo bastante popular no norte do país. A guante é uma luva redonda, de 30 cm de diâmetro e 8 cm de espessura, feita de madeira revestida com couro e pintada com círculos concêntricos como se fosse um alvo. Nesse círculo, como se fossem os pupos, estão dispostos 18 cravos de aço, de 3 cm de diâmetro e 6 cm de altura cada, e um maior bem no meio, de 6 cm de diâmetro por 6 cm de altura. Todo o conjunto pesa entre 8 e 10 Kg. A mão dentro da luva permanece espalmada (totalmente aberta), sendo a firmeza conferida por um cadarço amarrado ao pulso. Assim como a raqueta de viento, profissionalmente a guante é exclusivamente masculina.

O segundo grupo, chamado cerda, usa a pelota de cerda ("bola de pelos"), feita de couro recheado com pelos de cavalo, com 6 cm de diâmetro e entre 1 Kg e 1,25 Kg de peso. O grupo cerda possui uma única modalidade, a raqueta de madera. Essa é a modalidade mais recente, e usa uma raquete parecida com a do frescobol, totalmente feita de madeira e com uma cabeça ovalada. A cabeça é revestida com couro e pintada com várias cores e desenhos diferentes. A raquete mede 69 cm de comprimento, 30 cm de largura no ponto mais largo, tem 6 cm de espessura, e pesa aproximadamente 3 Kg. A raqueta de madera é disputada profissionalmente tanto no masculino quanto no feminino.

A pelota equatoriana também possui uma variação, chamada chaza (pronunciado "tchássa"), jogada no norte do Equador e no sul da Colômbia - sendo que, na Colômbia, talvez apenas para confundir, a chaza é conhecida como "pelota nacional". A chaza é reconhecida pela FEPN, que inclusive organiza campeonatos desse esporte, mas sua regulação cabe à Federação Colombiana de Pelota a Mano (FCPM), também responsável pela pelota basca e pelo llargues na Colômbia. Vale aproveitar para citar que tanto a FEPN quanto a FCPM são filiadas à CIJB.

A chaza possui as mesmas regras da pelota equatoriana, mas são apenas quatro jogadores por equipe; seu posicionamento é diferente, com um ficando atrás do outro como na pelota valenciana, e cabendo o saque ao último da fila; as marcações da cancha são diferentes, sem a tranca, mas com um uma linha de saque traçada a 4 m de cada linha de fundo; e a pontuação necessária para se vencer um jogo é diferente: a contagem é 15, 30, 40, punto, sendo que, a cada punto, os jogadores "rodam", com o primeiro da fila indo para seu final e os demais se adiantando; a primeira equipe a somar 6 puntos, sendo sempre dois de vantagem sobre o oponente (se estiver empatado 5 a 5, ganha quem fizer 7), ganha um set. A cada set as equipes trocam de lado, e a primeira a ganhar dois sets ganha o jogo. A bola da chaza também é feita de couro recheado com pelos de cavalo, mas tem a metade do tamanho da pelota de cerda (3 cm de diâmetro) e é absurdamente mais leve, pesando entre 70 e 90 g.

A chaza possui duas modalidades, a chaza a mano, na qual os jogadores rebatem a bola com as mãos nuas, e a chaza tenis, na qual é usada uma raquete própria chamada bombo. O bombo possui um cabo cilíndrico de madeira sólida de 50 cm de comprimento, na ponta do qual há um aro de madeira ovalado; esse aro é revestido com couro de cabra para formar a cabeça do bombo, que tem entre 30 e 40 cm de comprimento, de forma que a parte interior da cabeça é feita apenas de couro esticado, sem madeira dentro, o que faz com que ela produza um som semelhante ao de um bumbo toda vez que a bola é atingida - por isso o nome bombo, que significa "bumbo" em espanhol.

Infelizmente, o trabalho de preservação feito pela FCPM não é tão sério ou eficiente quanto o da FEPN, de forma que a chaza está em vias de extinção - tanto na Colômbia quanto no Equador há pouquíssimos jogadores, a maior parte deles já acima dos 40 anos, e os jovens parecem não se interessar por esse esporte. Na Colômbia, ele atualmente é jogado apenas em algumas cidades do Departamento de Nariño, com poucas canchas disponíveis, e, no Equador, apenas na Província de Carchi. Embora a FEPN reconheça a chaza e organize campeonatos, é compreensível que eles prefiram concentrar esforços em preservar seu próprio esporte tradicional do que aquele do vizinho.

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