segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Arena Football

Normalmente, quando eu estou conversando com alguém que não conhece detalhes do futebol americano e começo a explicar mais ou menos como funciona a NFL, surge uma pergunta: por que os Estados Unidos, um país enorme e cheio de cidades, tem apenas 32 times de futebol americano? Eu até entendo a pergunta: o Brasil tem uns mil times de futebol, tanto que aqui até os Campeonatos Estaduais têm primeira, segunda e terceira divisão, então parece mesmo estranho um país com uma população maior que a nossa ter apenas 32 times de um determinado esporte. A resposta, porém, é muito simples: a NFL é uma liga, de forma que esses 32 times são apenas aqueles filiados a essa liga. Deduzir que os 32 times da NFL são os únicos times de futebol americano de todos os Estados Unidos seria equivalente a deduzir que os 20 times da Série A do Campeonato Brasileiro de futebol são os únicos times de futebol de todo o Brasil - algo compreensível e nem um pouco condenável caso deduzido por alguém que não conhece o esporte, vale mencionar.

Acontece, porém, que essa resposta está apenas parcialmente certa. De fato, a NFL é uma liga, e esses são os 32 times filiados a essa liga. De certa forma, porém, eles também são os únicos que existem, já que não acontece com o futebol americano o mesmo que com outros esportes, como o beisebol, o basquete e o futebol "soccer". Explico: no caso desses três esportes (e de alguns outros, mas vou usar apenas esses três como exemplo), existe uma liga "principal", mais famosa, normalmente mais rica, e com os times mais conhecidos - no caso do beisebol, é a MLB, no caso do basquete, a NBA, e, no caso do futebol, a MLS. Essas não são, entretanto, as únicas ligas que existem: no beisebol, há uma dezena de outras ligas, chamadas coletivamente de "ligas menores" - já que a MLB é a Major League Baseball, a "maior liga de beisebol" - com uma centena de outros times; no basquete, da mesma forma, existem outras ligas menos cotadas que a NBA, como a ABL, a APBL e a IBA; e o mesmo ocorre no futebol, onde a MLS está longe de ser a única liga - dois times norte-americanos muito famosos aqui no Brasil, o Fort Lauderdale Strikers (que ganhou notoriedade depois que um certo jogador do Flamengo se transferiu pra lá) e o New York Cosmos (onde Pelé jogou em 1975), não jogam na MSL, e sim na NASL, e ainda existem outras ligas, como a USL e a PDL. Em todos os casos, cada liga possui seus próprios times e seu próprio campeonato, realizado de forma totalmente independente de todos os demais, não ocorrendo, por exemplo, o que ocorre com as "divisões" dos nossos campeonatos de futebol - os primeiros da NASL não sobem para a MSL e os últimos da MSL não caem para a NASL, por exemplo.

No futebol americano, entretanto, a NFL é, atualmente, a única liga em atividade formada por times profissionais. Ao longo dos anos, várias outras ligas existiram, como a AFL, a USFL e a XFL, mas, devido à popularidade, ao prestígio, e, por que não dizer, à força da NFL, todas sumiram de uma forma ou de outra. O campeonato da NFL, portanto, é o único campeonato dentro dos Estados Unidos a contar com a participação de times profissionais de futebol americano - o que faz com que, de certa forma, os 32 times da NFL sejam os únicos times de futebol americano dos Estados Unidos.

Mas, se isso fosse uma verdade absoluta, eu não teria dito "de certa forma" duas vezes. E não fiz isso porque os times da NFL são os únicos times profissionais - como já vimos, existem também os times do futebol americano universitário, que disputam um campeonato concorrido, emocionante e de grande público; mas times universitários, por melhores que sejam, não podem ser colocados no mesmo patamar dos profissionais. Eu disse "de certa forma" porque os times da NFL são os únicos de futebol americano "de campo". Muita gente não sabe, mas existe uma segunda variedade, o futebol americano "indoor" (ou "de salão", como disse um amigo meu certa vez), disputado em uma quadra de hóquei no gelo (sem o gelo, evidentemente). Esse sim possui pelo menos sete ligas em atividade, sendo a mais famosa a Arena Football League (AFL; exceto pela sigla, nada a ver com a outra AFL que eu citei há pouco, a American Football League, que esteve em atividade de 1959 a 1970, quando foi absorvida pela NFL). Por causa dela, o futebol americano indoor é conhecido informalmente como Arena Football. E é sobre Arena Football que falaremos hoje.

O Arena Football foi inventado em 1981 por Jim Foster, na época um executivo da NFL. Foster estava no Madison Square Garden, famoso ginásio de Nova Iorque, assistindo a um jogo da MISL, a liga norte-americana de futebol indoor - esporte do qual eu já falei aqui, na minha série de posts sobre o futebol - quando percebeu que o futebol americano também poderia ser jogado da mesma forma, em um ginásio fechado, com times menores e regras levemente modificadas. Conforme assistia à partida, Foster ia tendo ideias para as regras, as quais rabiscaria rapidamente em uma daquelas pastas de papel pardo grosso usadas para guardar documentos em um arquivo - provavelmente o único papel em branco que tinha nas mãos. Esse primeiro conjunto de regras seria considerado o embrião do Arena Football, e essa pasta hoje está em exposição no Hall da Fama do esporte, na cidade de Chicago.

Essas primeiras regras, porém, eram bem simples, e, ao revê-las, Foster chegaria à conclusão de que o jogo ainda precisaria de aprimoramentos. Ele levaria nada menos que cinco anos para realizar esses aprimoramentos, durante os quais ele conversaria com outros executivos da NFL, com jogadores de futebol americano, com técnicos e treinadores, e até mesmo com donos de ginásios, visando tornar o esporte o mais parecido com o futebol americano de campo possível, apesar das limitações de espaço. No final de 1985, Foster já tinha não somente um conjunto completo de regras, que incluía especificações da área de jogo e do equipamento que deveria ser utilizado, como também um plano de negócios para a fundação de uma liga nacional desse esporte. No início de 1986, ele começaria a testá-lo, usando jogadores universitários que não haviam sido contratados por times profissionais, em uma série de jogos a portas fechadas na cidade de Rockford, próxima a Chicago, onde Foster morava e tinha seu escritório. Ele usaria esses jogos para fazer pequenos ajustes nas regras, e, quando achou que já estava tudo ok, realizou um jogo aberto ao público, em abril de 1986.

Foster se aproveitaria de seu prestígio como executivo da NFL e convidaria para esse jogo executivos do canal de TV especializado em esportes ESPN e de empresas como a companhia aérea United Airlines e a fabricante de material esportivo Wilson, buscando conseguir patrocínio e um contrato de televisão para a liga que planejava lançar ainda aquele ano. Com tudo certo, ele ainda realizaria um segundo jogo-teste, dessa vez com venda de ingressos, em Rosemont, outra cidade próxima a Chicago, após o qual fundaria a AFL, se tornando seu primeiro presidente.

A primeira temporada da AFL contaria com quatro times, que participariam de um treinamento na cidade de Wheaton (adivinhem: também próxima a Chicago) durante dois meses. O jogo de estreia ocorreria em 19 de junho de 1987, em Pittsburgh, entre o Pittsburgh Gladiators e o Washington Commandos, com vitória do time da casa por apenas dois pontos de diferença (48 a 46), diante de 12 mil espectadores. Curiosamente, Foster não quis que esse jogo fosse televisionado, pois temia que, caso algo desse errado, e fosse exibido para todo o país, o prestígio de seu esporte diminuiria; como deu tudo certo, o segundo jogo, realizado no dia seguinte, entre o Denver Dynamite e o Chicago Bruisers, seria o primeiro televisionado da história da AFL. Após 12 jogos (cada time enfrentou cada um dos outros duas vezes, uma em casa e uma fora, e os dois com mais pontos de classificaram para a final), a temporada se concluiria em 1 de agosto de 1987 com o primeiro ArenaBowl, no qual Denver venceu Pittsburgh por 45 a 16.

Desde sua primeira temporada, a AFL se mostraria um grande sucesso; hoje a liga conta com 8 times - o mais curioso deles sendo o Los Angeles Kiss, cujos donos são Gene Simmons e Paul Stanley, membros da banda de rock Kiss - mas, nas temporadas de 2001, 2004 e 2007, chegou a ter 19. Seu sucesso também motivaria a criação de várias outras ligas, como a AIF, a CIF, a IFL e a LFL, além de várias outras que já encerraram suas atividades, como a arenafootball2 (assim mesmo, em minúsculas), uma segunda liga de propriedade da AFL, que operou entre 2000 e 2009, e usava seus times como "vestibular" para jogadores que desejassem ingressar na AFL. Embora a AFL ainda seja a que atrai mais público e tem a maior renda, algumas outras ligas, por motivos vários, contam com mais times - a AIF, por exemplo, atualmente conta com 22.

À exceção da AFL e da arenafootball2, entretanto, as ligas tiveram, durante um bom tempo, um problema sério: em 1990, Foster conseguiria a patente não somente do nome Arena Football, mas também das regras do esporte - algo que eu acho muito bizarro; no Brasil, aliás, é proibido patentear regras de jogos e esportes. Isso significava que, quem quisesse fundar uma nova liga, ou deveria pagar royalties à AFL, ou mudar as regras de forma que a justiça considerasse que eram dois esportes diferentes no caso de um eventual processo movido pela AFL. A patente expirou em 2007 e a AFL não conseguiu renová-la, mas, por preferência dos jogadores, dos donos dos times ou do público, cada liga ainda mantém algumas regras próprias, que considera melhores que as da AFL. Como eu vou falar das regras a partir de agora, cabe ressaltar, portanto, que as regras que eu vou abordar são as da AFL, podendo existir regras diferentes em outras ligas. Ah, sim, e o nome "Arena Football", embora usado de forma informal para o esporte como um todo, ainda continua registrado da AFL, o que leva as outras ligas a usar o nome Indoor Football. Também vale citar que, exceto pelo exposto aqui, as regras são iguais às do futebol americano de campo.

O Arena Football é jogado em uma arena de 26 m de largura por 61 m de comprimento. Normalmente são usadas arenas de hóquei no gelo - inclusive porque o campeonato do Arena Football é jogado no intervalo entre uma temporada de hóquei no gelo e a seguinte, então aproveitam que a arena está lá parada mesmo - mas qualquer ginásio coberto do tamanho apropriado pode ser usado. A superfície é de grama sintética, e, ao redor da área de jogo, é colocada uma proteção acolchoada, o que faz com que os jogadores, e, por consequência, a bola, não possam sair pelas laterais. A área de jogo possui 50 jardas (45,72 m), com as 8 jardas (7,64 m) restantes de cada lado constituindo a end zone. A área de jogo é dividida jarda a jarda com dois traços pontilhados próximos à metade de sua largura, e com linhas cheias a cada cinco jardas. O "meio do campo" é a linha de 25 jardas, e a contagem é decrescente na direção de cada end zone - ou seja, para ambos os lados, após a linha de 25 jardas vem a de 20, a de 15, a de 10, a de 5 e a linha de gol.

Assim como no futebol americano de campo, cada time tem 4 tentativas (downs) para fazer com que a bola avance 10 jardas a partir do ponto onde a primeira tentativa se iniciou; se conseguir, ganha mais quatro; caso não consiga, a posse de bola passa para o adversário no ponto onde a bola parou após a quarta tentativa. Como o campo é curto, não existe o punt (o chute com o qual um time devolve a posse de bola para o outro na quarta tentativa para fazer com que ele comece sua primeira tentativa de mais longe), por isso, normalmente, na quarta tentativa os times já arriscam o field goal. Os gols também estão posicionados nas linhas de fundo e possuem formato de Y como os do campo, mas são mais altos (o travessão fica a 4,6 m de altura, contra 3 m no campo) e mais estreitos (2,7 m de largura, contra 5,6 m no campo). Os gols da AFL (mas não das outras ligas) ainda possuem uma curiosidade: todo o espaço entre as traves e as laterais do campo conta com uma rede; caso a bola bata nessa rede (ou nas traves) e volte para o campo, ela é considerada "viva", ou seja, o time que pegá-la pode continuar jogando normalmente - exceto se ela bater no chão antes que alguém a pegue, quando a jogada é considerada encerrada.

A principal forma de pontuação, assim como no campo, é o touchdown, que consiste em fazer com que a bola cruze a linha de gol. Um touchdown vale 6 pontos, e dá ao time que o marcou o direito a uma conversão: se, nessa conversão, o time fizer com que a bola passe novamente pela linha de gol, começando a jogada da linha (imaginária) de 2 jardas e meia, ganha mais dois pontos; se optar por um "mini field goal", com a bola partindo da linha de 2 jardas e meia para a mão de um holder (jogador que tem como função segurá-la para ser chutada) e então chutada pelo kicker para dentro do gol, ganhará mais um ponto; e, caso opte por um drop goal, com a bola partindo da linha de 2 jardas e meia diretamente para a mão do kicker, que então a quicará no chão e a chutará para dentro do gol, ganhará mais dois pontos. Caso uma tentativa de conversão seja bloqueada ou interceptada, e o time defendendo consiga levar a bola até a outra linha de gol, não marcará um touchdown, mas sim apenas dois pontos.

O touchdown é mais frequente - devido ao tamanho da área de jogo - no Arena Football que no campo, mas, mesmo assim, não é a forma mais frequente de pontuação; assim como no campo, esse posto pertence ao field goal, no qual a bola sai do ponto onde havia parado por último para as mãos do holder, e então é chutada pelo kicker. Caso o kicker acerte o gol, seu time ganhará 3 pontos. Durante o jogo, qualquer jogador também pode tentar quicar a bola no chão e chutá-la em direção ao gol, no chamado drop goal, que vale 4 pontos caso a bola acerte o gol. E, caso um jogador seja derrubado dentro de sua própria end zone enquanto está com a posse da bola, o time que o derrubou fará um safety, ganhando dois pontos.

Nos kickoffs (os chutes que dão início e reinício à partida), devido ao tamanho da área de jogo, a bola é posicionada na linha de gol, exceto após um safety, quando o time que sofreu o safety a chuta a partir da linha de 5 jardas. Caso a bola, após um kickoff, saia dos limites do campo ou acerte parte da estrutura do ginásio antes de tocar o campo ou um jogador, o time recebendo o kickoff começará sua jogada da linha de 20 jardas ou da posição onde a bola saiu, o que for mais vantajoso; caso ela quique na end zone e depois saia de campo, nas redes dos lados do gol e toque no chão antes de alguém conseguir pegá-la, ou passe por dentro do gol, o time recebendo o kickoff começará sua jogada da linha de 5 jardas; caso ela quique nas redes dos lados do gol e alguém a pegue antes de ela sair de campo ou tocar no chão, poderá sair jogando normalmente. Caso o jogador seja derrubado dentro de sua end zone após o kickoff, não será safety, e seu time começará jogando da linha de duas jardas e meia.

Cada time de Arena Football é composto de 20 jogadores, sendo que apenas 8 estão em campo de cada vez, ficando os outros 12 no banco. Diferentemente do que ocorre no campo, os jogadores não são especializados (à exceção do quarterback e do kicker), sendo comum que um mesmo jogador atue no time de ataque e no de defesa, em diferentes posições. Até 2007, as substituições na AFL eram limitadas, com cada jogador substituído devendo ficar fora do jogo até o final daquele quarto (à exceção de cinco escolhidos pelo time antes do jogo, incluindo sempre o quarterback, o kicker, dois defensive backs e um wide receiver ou running back); a partir de 2007, as substituições passaram a ser livres, o que foi alvo de muitas críticas, com muitos temendo que os times passassem a adotar especialistas para o ataque e para a defesa, como no campo; até agora, porém, essa preocupação se mostrou infundada, pois ainda há um grande número de jogadores que atuam tanto no ataque quanto na defesa.

Uma partida de Arena Football também dura quatro quartos de 15 minutos cada, mas, diferentemente do que ocorre no campo, o relógio não para, exceto a critério do árbitro para aplicar penalidades ou possibilitar atendimento médico, e no último minuto de cada quarto, em caso de passe incompleto, de a bola sair de campo ou de o time que está com a bola não conseguir fazer com que ela avance além da linha de scrimmage (a linha imaginária onde a bola é posicionada no início de cada jogada), tendo essa última regra sido criada para evitar que os times que estão ganhando fiquem esperando o relógio zerar ao invés de continuar jogando, como é comum no futebol americano de campo. Cada time tem direito a três pedidos de tempo por quarto, durante os quais o relógio também para. Caso o tempo normal termine empatado, são disputadas sucessivas prorrogações de 15 minutos cada com "morte súbita", ou seja, quem marcar primeiro vence.

Na falta de outras ligas de futebol americano profissional de campo, a AFL e as demais ligas de Arena (ou Indoor) Football preenchem um vácuo, com seus times contratando jogadores recém-saídos das universidades e que desejam continuar jogando futebol americano, mas que não conseguiram contrato com os times da NFL nem da CFL (a liga profissional de futebol americano do Canadá, que também costuma ser o destino de muitos jogadores universitários dos Estados Unidos após concluírem seus estudos). Muitos desses jogadores, inclusive, após algumas temporadas no Arena Football, conseguem migrar para a NFL ou para a CFL, e também não é incomum que ex-jogadores da NFL e da CFL passem a jogar Arena Football ao ficar sem contrato. Mas talvez a maior parte da popularidade do Arena Football ainda venha do fato de que ele não "rivaliza" com a NFL nem com o futebol americano universitário, já que a temporada do Arena Football vai de fevereiro/março a julho/agosto, enquanto as da NFL e do College vão de setembro a janeiro/fevereiro, o que dá ao fã de futebol americano a oportunidade de acompanhar seu esporte preferido durante o ano todo.

Antes de encerrar, eu gostaria de falar de uma outra liga de Arena Football, que conta com peculiaridades, digamos, bem interessantes. Essa liga se chama LFL, que, atualmente, é a sigla para Legends Football League, mas, em sua fundação, a sigla significava Lingerie Football League. E, como provavelmente eu sei o que vocês estão pensando, posso responder que esse nome era por causa disso mesmo.

Pouca gente sabe, mas existe futebol americano feminino. Com certeza ele não chega nem perto da popularidade do masculino, mas, mesmo assim, existe um Campeonato Mundial feminino (já realizado em 2010 e em 2013, ambos com os Estados Unidos terminando em primeiro, o Canadá em segundo, a Finlândia em terceiro e a Alemanha em quarto, com uma próxima edição prevista para 2017) e vários países possuem até campeonatos profissionais, incluindo os Estados Unidos, onde a principal liga é a IWFL (Independent Women's Football League), que conta com 36 times. Assim como ocorre com o futebol "normal", o futebol americano feminino usa as mesmíssimas regras do masculino, inclusive em relação às dimensões do campo e ao equipamento de proteção - ou seja, as moças também devem usar capacetes, ombreiras, protetores bucais e caneleiras.

Como os homens não têm jeito mesmo, um dia alguém deve ter pensado que não era nada sexy as atletas jogarem com os mesmos uniformes dos homens, e que o esporte seria mais atraente caso elas jogassem de lingerie. Na verdade, eu acho que até mais de uma pessoa deve ter pensado isso, mas o único que decidiu fazer alguma coisa a respeito foi o empresário Mitch Mortaza. Em 2003, ele começaria a captar patrocínio para um "Lingerie Bowl", um jogo único entre duas equipes, o Team Dream e o Team Euphoria, formado não somente por jogadoras amadoras e semi-profissionais, mas também por modelos e por basicamente qualquer uma que tivesse um corpo atraente e não se incomodasse de jogar futebol americano de sutiã e calcinha na frente de uma plateia e sendo transmitida ao vivo pela TV. Após os primeiros testes, porém, ficaria claro que jogar de lingerie não era prático - além de proporcionar lesões, ainda havia o risco de uma jogadora ficar seminua no meio da partida, o que poderia ser malvisto por canais de TV interessados em transmiti-la ao vivo - de forma que seria criado um uniforme mais “profissional”, mas, ainda assim, bastante ousado, composto por um top minúsculo e um short tão curto que deixa à mostra a maior parte das nádegas, mais vários equipamentos de segurança, como caneleiras, cotoveleiras, um capacete de hóquei (com um acrílico transparente na frente ao invés de uma grade) e ombreiras do mesmo tipo usado pelos jogadores de campo. Nos primeiros anos esse uniforme incluía uma cinta-liga, posteriormente abandonada por razões de praticidade.

O primeiro Lingerie Bowl seria um evento comercializado em pay per view, disputado em uma arena montada no gramado do Los Angeles Memorial Coliseum (Estádio Olímpico das Olimpíadas de 1984), iria ao ar durante o intervalo do Super Bowl XXXVIII, em fevereiro de 2004, contaria com celebridades como a playmate da Playboy Jenny McCarthy e o jogador de basquete Dennis Rodman como comentaristas, e faria um enorme sucesso - tanto que garantiria pelo menos mais duas edições, em 2005 e 2006. Em 2005, aliás, Mortaza teria a ideia de fazer com que os times representassem as duas maiores cidades dos Estados Unidos, renomeando-os para Los Angeles Temptation e New York Euphoria, nome que mantiveram para 2006.

Para 2007, entretanto, Mortaza não conseguiu o aluguel do Los Angeles Memorial Coliseum, e, sem conseguir um novo local de jogo a tempo, acabou tendo de cancelar o evento. Ele tentaria de novo em 2008, mas aí não conseguiria os patrocínios necessários, e acabaria cancelando novamente. Para 2009, o Caliente Resorts, localizado em uma praia de nudismo na Flórida, decidiria patrocinar o evento, montando uma arena em suas dependências. Já estava tudo certo para que o jogo ocorresse em 31 de janeiro daquele ano, com até os nomes dos times, Miami Caliente e Tampa Breeze (representando as duas maiores cidades da Flórida), já tendo sido escolhidos, mas aí o problema foi com a televisão: preocupados de que os nudistas do resort decidissem ir assistir ao jogo e acabassem aparecendo ao vivo e peladões, nenhum canal de TV aceitou televisionar o evento, que, pela terceira vez seguida, seria cancelado.

Esses três cancelamentos seguidos poderiam ter sido o fim do Lingerie Bowl, se não fosse um detalhe: Mortaza se surpreenderia não somente quanto ao interesse do público em assistir no local (ou seja, pagando ingresso) os cancelados eventos de 2008 e 2009, mas também com a quantidade de jogadoras interessadas em participar deles - assim como no masculino, aparentemente existiam mais jogadoras de futebol americano do que times para contratá-las. Após uma pesquisa de mercado, Mortaza chegou à conclusão de que uma liga feminina de Arena Football era viável, e decidiu fundar a Lingerie Football League. E, se vocês acham que o fato de ter de usar o uniforme ousado espantaria as jogadoras, saibam que, para sua primeira temporada, a LFL já contou com 10 times, todos formados por jogadoras profissionais, sem que qualquer modelo ou transeunte disposta a jogar em roupas provocantes precisasse ser contratada para completar as equipes.

A primeira temporada da LFL teria início em 4 de setembro de 2009, na cidade de Chicago, onde o Miami Caliente enfrentou o Chicago Bliss, e se concluiu com o Lingerie Bowl VII (eles decidiriam manter a numeração dos cancelados), realizado em Hollywood, Flórida (não é a mesma Hollywood dos filmes, que é um bairro de Los Angeles), com vitória do Los Angeles Temptation sobre o Chicago Bliss por 27 a 14. A partir de então, a LFL teria temporadas todos os anos, sem nenhum cancelamento - apesar de uma "reestruturação estratégica" ao final da temporada de 2011, quando a liga passou a jogar entre março/abril e agosto ao invés de entre setembro e janeiro/fevereiro, para que seus jogos não coincidissem com os de hóquei no gelo e mais arenas estivessem disponíveis; por causa disso, não houve nenhum jogo da LFL entre e 21 de janeiro de 2012 e 30 de março de 2013.

No início de 2013, buscando uma imagem mais profissional, a liga abandonaria a palavra "lingerie", passando seu primeiro L a significar "legends" ("lendas", em inglês, palavra provavelmente só escolhida porque é positiva e também começa com L) e o Lingerie Bowl passando a se chamar Legends Cup. Hoje, a LFL é um grande sucesso, e já conta com três campeonatos diferentes: o dos Estados Unidos, atualmente com oito times (mas que já chegou a ter 12, em 2011 e 2013), o do Canadá e o da Austrália, atualmente com quatro times cada. Também está em fase de planejamento a LFL Europe, que teria times de diferentes cidades europeias, e o LFL World Bowl, que reuniria os times campeões dessas quatro ligas para determinar o "campeão mundial".

As regras da LFL são praticamente as mesmas do Arena Football, mas com algumas diferenças, começando pelo fato de que não existem gols - ou seja, a única forma de se marcar pontos é fazendo um touchdown. Um touchdown vale seis pontos, e, após conseguir um, o time pode tentar uma conversão que vale um ponto extra, com a bola partindo da linha de uma jarda, ou uma que vale dois pontos extras, com a bola partindo da linha de três jardas. Só é permitido usar o punt caso a bola esteja entre a sua própria linha de 10 jardas e a sua end zone, caso contrário, o time é obrigado a tentar avançar a bola na quarta tentativa; e o kickoff só é usado no início do jogo e do terceiro quarto, com o time que sofreu os pontos já começando com a bola de sua linha de 10 jardas após cada touchdown. Os times da LFL também são menores, com apenas 14 jogadoras, sendo que apenas 7 podem estar em campo de cada vez; e os jogos são mais curtos, com quatro quartos de dez minutos cada. Caso o jogo termine empatado, é disputado mais um quarto de 8 minutos; caso o empate persista após essa prorrogação, o jogo termina empatado mesmo, exceto no caso de um jogo eliminatório, quando são jogados mais quartos sucessivos de 8 minutos cada com direito a morte súbita - ou seja, sendo declarado vencedor quem pontuar primeiro.

Em termos de popularidade, a LFL já é mais famosa e atrai mais público (e mais jogadoras) do que as ligas femininas de futebol americano de campo, e só não é hoje considerada a principal liga feminina de futebol americano por uma certa resistência de parte da imprensa esportiva, que, assim como boa parte do público, ainda considera a liga como sendo uma apelação para atrair o público masculino. O que é totalmente injusto, já que as jogadoras não estão lá para mostrar o corpo, e sim para jogar futebol americano - assim como ocorre com as ligas masculinas de Arena Football, a LFL supre uma demanda, dando oportunidade às moças que querem jogar mas não a teriam se fossem depender apenas dos times de campo. Quem assiste aos jogos, aliás, pode comprovar que elas jogam sério, e que, uniforme à parte, não há nada provocante ou sexualmente apelativo durante as partidas - e, uniforme por uniforme, o do vôlei de praia também é ousado e ninguém diminui o esporte por causa disso. A LFL pode ter começado com uma visão machista, mas a cada dia se torna um esporte feminino legítimo - aliás, não duvido nada que a opinião das jogadoras tenham tido peso na decisão de deixar de usar a palavra "lingerie", e que, em um futuro próximo, talvez elas até consigam fazer a liga aumentar o tamanho dos shorts com que jogam.

0 enfiaram o nariz:

Postar um comentário