segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Mariah Carey

Mariah Carey foi a maior decepção da minha vida. Para vocês terem uma ideia do tamanho, até mais ou menos 1995, eu gostava mais de Mariah Carey do que de Tori Amos. Simultaneamente, conforme meu apreço por Tori Amos crescia, a cada novo álbum de Mariah eu achava as novas músicas mais e mais sem graça - Mariah Carey, Emotions e Music Box estavam dentre meus CDs preferidos, Daydream eu achei mais ou menos, Butterfly eu achei bem ruinzinho, e em Rainbow eu desisti. Depois disso, nunca mais comprei um CD dela, e passei a só ouvir suas músicas por acidente.

Assim como uma centena de outros cantores e bandas, eu descobri Mariah Carey através da Mtv. O ano era 1990, o canal tinha acabado de estrear no Brasil, e ela havia acabado de lançar seu primeiro álbum, também chamado Mariah Carey. A primeira música de trabalho desse álbum era Vision of Love, responsável por lançar Mariah ao estrelato já assim logo de cara, mas o primeiro clipe dela que eu vi foi o de Someday. A primeira coisa que eu reparei nesse clipe foi que ela era absurdamente linda - eu tinha 12 anos, por favor deem um desconto. A segunda coisa que eu reparei foi que ela tinha uma voz que, caramba, que voz. Acho que nunca na minha vida eu tinha ouvido uma voz como aquela. Juro que fiquei muito impressionado. E olha que nem era Vision of Love.

Como na época não tinha internet pra eu saber quais as outras músicas que ela cantava, só me restavam dois métodos. Com o primeiro, ficar catando na programação da Mtv ou do rádio, não obtive sucesso. O segundo era comprar o álbum. No sábado da mesma semana em que vi o clipe de Someday, eu e minha família fomos ao shopping Rio Sul, não me lembro fazer o quê, e eu torrei a paciência do meu pai até ele comprar uma fita cassete da Mariah Carey pra mim - CDs ainda eram raríssimos, e, como eu tinha um Moving Sound da Philips com deck cassete, minha preferência era por comprar fitas, e não LPs. Quase loja nenhuma sabia do que se tratava, e a única que tinha a fita me "corrigiu", dizendo que o nome certo era "Maria Cárei". Enfim, compramos a fita, e, de tão empolgado, abri no carro mesmo, e pedi para o meu pai colocar no toca-fitas do veículo. Logo a primeira música era Vision of Love. E aí, me apaixonei para sempre.

Ou assim eu pensava. É certo que eu ouvi aquela fita até quase fazer buraco, comprava revistas nas quais ela saía só para recortar e guardar suas fotos, pedi para meu pai comprar uma fita VHS de clipes que deve ter sido caríssima, e, quando foi anunciado o lançamento do segundo álbum, fiquei tão empolgado para ter a fita quanto havia ficado com o primeiro. Praticamente tudo o que eu via de Mariah Carey eu comprava, instantaneamente se possível. Um dia, eu e um amigo estávamos na seção de brinquedos da Mesbla, eu apontei sei lá o quê, e disse algo como "queria tanto ter dinheiro pra comprar isso", ao que ele me perguntou "o quê, uma boneca da Mariah Carey?". Nem com Tori Amos eu cheguei a me empolgar tanto, e quem me conheceu durante a época da minha empolgação máxima com Tori Amos - na qual eu tentei comprar, sem sucesso, todos os milhões de singles importados que tinham músicas dela que eu ainda não conhecia - sabe que eu me empolguei bastante.

Mas aí, a partir de Daydream, algo aconteceu. As músicas pararam de me tocar como as primeiras faziam. Já não me empolgava mais por um novo lançamento. Já não a achava tão bonita nas fotos mais recentes. Minha paixão estava morrendo, e eu sabia o porquê: aquela voz, que me impressionou tanto aos 12 anos, estava cada vez menos presente. Em Daydream, algumas faixas ainda se salvavam, mas, quando comprei Butterfly, praticamente me arrependi. Sério, comparem Vision of Love, Someday, Make it Happen e Emotions com Honey, The Roof e Breakdown. Não foi apenas a mudança de estilo - que aconteceu, mas era natural, nem era possível que ela cantasse músicas ao estilo de 1990 pelo resto da carreira - mas parece que ela, sei lá, cansou de usar a voz. A voz poderosa que havia me cativado foi substituída por gemidinhos de hip hop. Nessa época, eu não somente já havia elegido Tori Amos como minha cantora preferida de todos os tempos até o fim da eternidade, mas também já havia conhecido muitas das bandas que se tornariam minhas favoritas, de forma que passei a ouvir Mariah Carey, e a me interessar por ela, cada vez menos.

Rainbow, o álbum seguinte, eu comprei só por comprar. Ironia das ironias, esse álbum tinha como música de trabalho uma chamada Heartbreaker. Pois, quando Rainbow - no qual, ainda por cima, na capa, ela estava com um visual bem diferente daquele que eu gostava, com cabelos lisos e louros - confirmou que aquela voz provavelmente não voltaria, Mariah Carey partiu meu coração. E, como em todo caso de uma paixão muito forte que resulta em desilusão, todo aquele amor foi substituído por um ódio de igual intensidade. Não quis mais saber de Mariah Carey. Joguei fora todas as fotos que tinha. Vendi todas as fitas, VHSs e CDs; guardei só os três primeiros, Mariah Carey, Emotions e Music Box, e mesmo assim porque dois deles foram presente de uma ex-namorada que não se conformava de eu só os ter em fita, e eu fiquei meio sem graça de me desfazer deles. Deletei Mariah Carey da minha vida. Como eu disse, ouvi-la, desde então, só por acidente. Tudo o que eu soube dela desde então, aliás, foi sem querer.

Esse mundo, porém, dá umas voltas bizarras. Quando eu escrevi o post sobre INXS, há uns dois meses, falei lá que Mariah já foi minha cantora preferida, mas acabou riscada da lista por passar a gemer ao invés de cantar. Escrever sobre o INXS, porém, me trouxe uma nostalgia totalmente inesperada de músicas daquela época, de forma que acabei copiando as músicas dos CDs da Mariah Carey que eu tinha para o meu MP3, que tem umas mil músicas que eu ouço ao ir e voltar do trabalho. Eu sempre ouço essas músicas no shuffle, aquele modo no qual elas tocam em ordem aleatória, mas, por incrível que pareça - ou por armadilha do destino, conspiração do universo, sei lá - Mariah tem tocado todo dia. Todo. Dia. Às vezes várias músicas por dia. Isso também costuma acontecer com Tori Amos e Weezer, mas eu tenho 278 músicas da Tori Amos e 116 do Weezer no MP3, e só 31 da Mariah Carey. Estatisticamente, é até improvável o que vem acontecendo.

O resultado surpreendente desse shuffle bichado foi que eu, depois de anos, resolvi dar uma segunda chance para Mariah Carey. Tenho até escutado as músicas mais recentes no YouTube, e confesso que tenho até gostado de algumas - não cheguei a comprar um CD novo ainda, vamos com calma, embora confesse que já olhei diferente para um que vi vendendo. Decidi perdoar, e Mariah voltou para a minha vida. Não ainda para a minha lista de favoritos, porque ainda estamos naquele estágio de fazer as pazes com sorriso amarelo e sem saber direito como se portar um na frente do outro. Mas acho que já gosto dela de novo o suficiente para que ela ganhe um post aqui no átomo. Se por mais nada, em nome dos bons e velhos tempos. Hoje é dia de Mariah Carey no átomo.


Mariah Carey nasceu em Huntington, Nova Iorque, Estados Unidos, no dia 27 de março. De que ano, aparentemente só a mãe dela sabe: ela diz que foi em 1970, mas há quem diga que seus documentos registram o ano de 1969, o que nunca ninguém conseguiu provar. De qualquer forma, ela nasceu em uma família muito pobre. Seu pai, Alfred Roy, era filho de um imigrante venezuelano com uma afro-americana; sua mãe, Patricia Hickey, era descendente de imigrantes irlandeses. O sobrenome Carey, caso alguém esteja imaginando de onde veio, foi inventado por seu avô venezuelano, Francisco Nuñez, que se apresentava como Francis Carey porque acahava que seria mais fácil conseguir emprego se tivesse um nome em inglês, e decidiu colocar esse sobrenome nos filhos ao invés de Nuñez.

Desde o início, os pais de Mariah não tiveram um casamento fácil: sua mãe foi deserdada por seus pais por se casar com um homem negro, e os vizinhos olhavam torto para o casal, pois, na década de 1960, um casamento interracial era algo raríssimo - e mal visto. Juntos, eles tiveram três filhos, Alison, Mariah e Morgan, nessa ordem, mas, quando Mariah tinha três anos, alegando não poder mais viver sob a pressão que seu casamento lhe impunha, o pai abandonou a família, levando Alison com ele. Mariah raramente viu o pai depois disso.

A paixão de Mariah pela música veio por parte de sua mãe, que trabalhava como instrutora de canto e, ocasionalmente, tinha papéis em óperas apresentadas nos teatros novaiorquinos. Aos quatro anos, traumatizada pela separação de seus pais, ela levava o rádio para seu quarto e cantava junto com as músicas para esquecer a tristeza. No colégio, ela sempre se saiu bem em música, artes e literatura, mas era uma aluna abaixo da média nas outras matérias, por pura falta de interesse. Ao invés de estudar matemática, por exemplo, ela preferia ficar criando poemas, e imaginando melodias que pudessem ser combinadas com eles para transformá-los em músicas. Mariah tinha vergonha desses poemas, e não os mostrava a ninguém, nem mesmo a sua mãe.

Desde cedo, ela também demonstrou facilidade para alcançar o dificílimo "registro de silvo" - aquele grito super agudo parecido com um apito que hoje é praticamente marca registrada de suas canções. Ao perceber, sua mãe começou a treiná-la, embora, segundo Mariah, jamais a tenha influenciado ou forçado a buscar uma carreira na ópera ou como cantora, sempre a incentivando a fazer o que bem quisesse da vida. Coincidentemente, o que Mariah queria fazer da vida era cantar, então acabou sendo bom para todo mundo.

A carreira profissional de Mariah começaria quando ela ainda estava no High School (o Ensino Médio dos Estados Unidos), quando conheceu o cantor Gavin Christopher. Ela e Christopher começaram a compor músicas juntos, e, ao conhecer, por acidente, o produtor Ben Margulies, decidiram gravar uma fita demo para lançá-la. Para conseguir o dinheiro, Mariah se mudou para Manhattan, dividindo um apartamento com quatro outras garotas, e começou a trabalhar como garçonete. Infelizmente, ela não levava jeito para a coisa - além de estar sempre atrasada e faltando para tentar impulsionar sua carreira - de forma que era frequentemente demitida, durando, em média, duas semanas em cada emprego. Após aproximandamente seis meses, Mariah conseguiu concluir a demo, que Margulies passou a apresentar para várias gravadoras, sempre sem sucesso. Em uma dessas ocasiões, entretanto, ela conheceria a cantora Branda K. Starr, considerada uma estrela em ascenção na época.

Mariah e Starr se tornaram grandes amigas, e Starr decidiu que iria ajudá-la a se transformar em uma estrela. Em dezembro de 1988, Starr levaria Mariah a uma festa de fim de ano da indústria da música, e a apresentaria a Tommy Mottola, presidente da Columbia Records. Mariah entregaria sua fita a Mottola, que não deu muita bola, provavelmente pensando que ela era apenas "mais uma". Ao voltar para casa, porém, Mottola decidiu ouvir a fita no carro, e ficou muito impressionado com sua voz. Tão impressionado que deu meia-volta e retornou para a festa, decidido a saber mais sobre Mariah. Infelizmente, quando ele chegou lá de novo, ela já havia partido. Mottola tentaria entrar em contato com Mariah sem sucesso durante duas semanas - situação que acabaria comparada por jornalistas especializados, biógrafos e críticos de música, à da história da Cinderela - e só conseguiria por acaso, através da assessoria de imprensa de Starr. Então, Mottola já estava tão obcecado por Mariah - após ouvir a demo uma centena de vezes - que a ofereceria um contrato imediatamente, com medo de outra gravadora a descobrir e assinar com ela primeiro.

Mottola desejava nada menos do que transformar Mariah na cantora principal da gravadora, colocando-a para competir simplesmente contra Madonna e Whitney Houston, que pertenciam às suas concorrentes Sire e Arista, respectivamente. Ele ofereceria a ela os principais produtores da Columbia, mas ela faria questão de continuar trabalhando com Margulies, a quem considerava responsável por seu sucesso até então. Concordando em manter Margulies, Mottola conseguiria convencê-la a trabalhar também com Rhett Lawrence, Ric Wake e Narada Michael Walden, que já haviam produzido e escrito canções para grandes nomes como Whitney Houston, Diana Ross e Aretha Franklin. Juntos, os três e Margulies reescreveriam as quatro músicas da demo de Mariah, além de criar outras seis canções que pudessem se valer do talento vocal único da moça - muitas delas usando como base outras canções que Mariah e Margulies haviam composto mas não haviam entrado na demo.

O resultado foi Mariah Carey, álbum de estreia da cantora, lançado em 12 de junho de 1990. A confiança de Mottola no sucesso de Mariah era tão grande que ele reservou um orçamento de um milhão de dólares apenas para promover o álbum. No começo, parecia que ele iria se dar mal, já que as vendas no início foram bem baixas, mas, depois que Mariah se apresentou na cerimônia do Grammy Awards de 1991, em janeiro, no qual ela ganharia o prêmio de Melhor Artista Novo, as vendas dispararam. Tipo, muito. O suficiente para o álbum se manter no primeiro lugar da parada da Billboard por 11 semanas seguidas e ganhar simplesmente nove Discos de Platina. Mariah Carey foi considerado pelos críticos um dos melhores discos de estreia de uma cantora em todos os tempos, e sua primeira música de trabalho, Vision of Love, uma estreia como há muito não se via.

Vision of Love, aliás, renderia a Mariah seu segundo Grammy, também em 1991, o de Melhor Performance Vocal Feminina, derrotando quatro oponentes de respeito: Whitney Houston (que concorreu com I'm Your Baby Tonight), Bette Midler (com From a Distance), Sinéad O'Connor (que era a favorita, com Nothing Compares 2 U) e Lisa Stansfield (com All Around the World), além de duas outras indicações, para Melhor Canção (na qual perdeu para From a Distance) e Melhor Gravação (perdendo para Another Day in Paradise, de Phil Collins); e ficaria no primeiro lugar do Top 10 norte-americano por quatro semanas seguidas. As três músicas de trabalho seguintes, Love Takes Time, Someday e I Don't Wanna Cry, também chegariam ao topo da parada, fazendo com que Mariah se tornasse o primeiro artista desde The Jackson 5 a ter suas primeiras quatro músicas de trabalho da carreira na posição número 1. Mariah Carey - que também seria indicado ao Grammy de Melhor Álbum, perdendo para Back on the Block, de Quincy Jones - terminaria o ano de 1991 como o disco mais vendido da América, vendendo mais de 15 milhões de cópias só nos Estados Unidos.

Mariah começaria a trabalhar em seu segundo álbum ainda em 1991. Sua intenção era que ele tivesse canções no estilo das gravadas pelos artistas da lendária gravadora Motown, que embalaram sua infância e a deram forças para superar a separação de seus pais. Para isso, ela trabalharia com o compositor Walter Afanasieff, autor de Love Takes Time, que a partir de então se tornaria seu principal colaborador, e com a dupla Robert Clivillés e David Cole, responsáveis pelo C+C Music Factory. Sua relação com Margulies, porém, se deterioraria: na época em que estava gravando a demo, Mariah assinaria um contrato que garantiria a Margulies metade de tudo o que ela ganhasse com as canções produzidas ou escritas por ele, contrato esse que a Sony, dona da Columbia, se recusaria a cumprir, alegando não ter sido parte; com raiva, Margulies se afastaria cada vez mais de Mariah, até os dois passarem a ter apenas um contato mínimo.

O segundo álbum, chamado Emotions, seria lançado em 17 de setembro de 1991. Embora tenha sido considerado mais "maduro" que seu antecessor - no sentido de que Mariah estava mais à vontade cantando - e de que sua música título tenha tornado Mariah a primeira e única artista da história de quem as cinco primeiras músicas de trabalho alcançaram o primeiro lugar na parada da Billboard, o álbum, que alcançou apenas o quarto lugar, não fez tanto sucesso, vendendo oito milhões de cópias (mas ainda assim rendendo quatro Discos de Platina) e sendo considerado pela crítica especializada como inferior ao primeiro. A crítica especializada, aliás, questionava o fato de Mariah, mesmo com todo o sucesso, não ter saído em turnê para divulgar nenhum dos dois álbuns, e começava a especular se ela não era uma "cria de estúdio" - em outras palavras, se sua performance não advinha de efeitos usados na mixagem e produção do álbum, incapazes de serem repetidos em uma apresentação ao vivo. Na verdade, o que ocorria era que Mariah era extremamente tímida, tinha a síndrome conhecida como medo de palco, e se recusava a cantar para multidões. Algo, porém, precisava ser feito para mostrar que ela realmente era tudo o que a Columbia alegava, ou isso poderia influenciar negativamente as vendas dos álbuns seguintes.

Foi Afanasieff quem teve a melhor ideia: na época, estava no auge do sucesso o programa Unplugged, da Mtv (conhecido aqui como "Acústico"), no qual astros de renome apresentavam suas principais canções em uma espécie de pocket show, para uma pequena plateia e somente usando instrumentos que não fossem elétricos - daí o nome do programa, que, em inglês, significa "desplugado". Mariah ainda não era uma artista de renome, mas seu sucesso meteórico fez com que a direção da Mtv norte-americana se entusiasmasse quando a Columbia os procurou perguntando se eles topariam fazer um programa com ela. Diante de uma pequena plateia, e cercada por pessoas em quem confiava, Mariah se sentiria mais à vontade que em um grande show, e, fazendo uso de instrumentos acústicos, poderia provar que tinha mesmo todo aquele talento. Ela mesma se animou com a ideia, e preparou pessoalmente a lista das músicas que apresentaria, incluindo, por sugestão de Afanasieff, um cover de I'll Be There, dos Jackson 5 - era tradição do programa que cada artista a se apresentar cantasse também um cover, e Afanasieff pensava ser esta a música perfeita para a apresentação de Mariah.

No fim, deu mais do que certo. O programa, exibido em 16 de março de 1992 - por um dia não foi meu presente de aniversário - foi um mega sucesso de audiência, acabou reprisado três vezes mais do que a média dos anteriores, deixou os críticos boquiabertos, contribuiu para diminuir o medo que Mariah tinha do palco, fazendo com que ela, gradualmente, concordasse com apresentações maiores, e acabou gerando uma oportunidade de lucro para a Sony, que lançou suas canções em um EP - álbum mais curto e mais barato que o tradicional - tão bem sucedido que rederia mais três Discos de Platina à coleção de Mariah.

Após o fraco desempenho de Emotions (bom, "fraco" se comparado ao de Mariah Carey), Mariah e a Columbia chegaram a um acordo de que o próximo álbum deveria ter mais canções pop, para ter apelo junto a um público maior. Esse álbum, chamado Music Box, seria lançado em 31 de agosto de 1993, e alcançaria em pouco tempo o topo da parada da Billboard, mostrando que os executivos da Columbia não estava totalmente errados. A maioria das canções foi composta por Mariah em parceria com Afanasieff, mas uma das mais bem sucedidas, Can't Live, era um cover de um sucesso da banda inglesa dos anos 1960 Badfinger. Music Box dividiria a crítica, com alguns elogiando a mudança para o pop, outros criticando que ela não fazia uso de todos os seus dotes vocais como nos dois primeiros álbuns. No fim, ele se tornaria um dos álbuns mais vendidos de todos os tempos, passando dos 30 milhões de cópias e rendendo um raríssimo Disco de Diamante.

Antes do lançamento de Music Box, Mariah e Mottola, vinte anos mais velho que ela, que começaram a se envolver romanticamente durante as gravações, decidiriam se casar; assim, além da maior estrela da Columbia, ela passaria a ser também a primeira-dama. Cada vez mais segura de si, Mariah finalmente aceitaria sair em turnê após o lançamento do álbum, embora em uma pequenininha, com apenas seis shows marcados nos Estados Unidos.

Depois de um tempo longe do público, descansando após trabalhar em três álbuns de forma quase ininterrupta, Mariah voltaria em novembro de 1994 com o lançamento de Merry Christmas, seu álbum de Natal - é uma tradição nos Estados Unidos que artistas de renome lancem álbuns de Natal, com regravações de canções tradicionais natalinas e outras de sua autoria que tenham o Natal como tema; Merry Christmas, porém, se tornaria o álbum de Natal mais vendido de todos os tempos, passando dos 15 milhões de cópias, e sua música de trabalho, All I Want for Christmas is You, de autoria de Mariah e Afanasieff, se tornaria um grande sucesso, sendo considerada pela revista The New Yorker "uma das poucas adições modernas de destaque ao repertório natalino" e sendo regravada dezenas de vezes nos anos seguintes, por artistas como Michael Bublé e Shania Twain. Como dado curioso, vale citar que All I Want for Christmas is You é o ringtone natalino mais baixado de todos os tempos.

Em 3 de outubro de 1995, Mariah lançaria seu álbum seguinte Daydream, que seguiria o mesmo estilo pop de Music Box, mas já flertando com o hip hop. Daydream renderia mais um Disco de Diamante, se tornando seu álbum de maior vendagem até hoje nos Estados Unidos, e sua segunda música de trabalho, One Sweet Day, cantada por Mariah junto com a banda Boyz II Men, uma homenagem a David Cole, que faleceu naquele ano, e à irmã de Mariah, Alison, que revelou ter contraído aids, ficaria por nada menos que 16 semanas no topo da parada de sucessos norte-americana, se tornando a recordista até hoje em tempo na posição. Após seu lançamento, Mariah finalmente sairia em uma turnê internacional, com quatro shows agendados na Europa e três no Japão, todos quebrando recordes de vendas. Mottola não podia estar mais feliz de ter investido nela. Ela, porém, já começava a ter uma opinião diferente.

Tirando um ano sabático para trabalhar nas canções de seu próximo álbum e colocar a vida doméstica em ordem, Mariah começaria a chegar à conclusão de que seu casamento com Mottola estava começando a tolir sua liberdade artística. Após separar-se dele em 1997, ela começaria a experimentar também parcerias com outros compositores - "diferenças criativas" fariam com que ela encerrasse sua parceria com Afanasieff - e a introduzir outros estilos, principalmente o hip hop, em suas canções. O resultado foi seu álbum Butterfly, de 16 de setembro daquele ano, no qual ela adota um estilo de cantar totalmente diferente do que usava nos álbuns anteriores. Essa mudança, mais uma vez, dividiu a crítica: houve quem achasse que era um sinal de maturidade, como se ela dissesse que não precisava sempre usar toda sua amplitude vocal para se impor musicalmente; outros acharam que era um tiro no pé, uma negação daquilo que a fazia única; e houve até quem cogitasse que a mudança de estilo era um sinal de que Mariah estava com problemas na voz, que estava sumindo e deveria ser poupada.

Outro ponto bastante controverso seria a exploração sexual de sua imagem - até então, Mariah era vendida como uma menina bem comportada, mas, a partir do clipe de Honey, primeira música de trabalho de Butterfly, ela passaria a aparecer cada vez mais de biquini e lingerie, em poses sensuais ou em cenas quentes com modelos bonitões. Seus cabelos rebeldes e encaracolados também passariam a ser cada vez mais lisos e mais claros, como que para provar que a menina cresceu. Mariah rebateu todas as críticas, dizendo que não estava fazendo nada diferente do que sempre quis fazer, mas que apenas naquele ponto de sua carreira tinha liberdade para fazê-lo.

Em 1998, Mariah participaria, ao lado de Aretha Franklin, Celine Dion, Shania Twain, Gloria Estefan e Carole King, do projeto beneficente VH1 Divas Concert. Naquele mesmo ano, a Sony decidiria lançar uma coletânea de seus maiores sucessos para aproveitar as vendas de fim de ano. Os executivos da Columbia, que queriam que a coletânea tivesse apenas as canções que alcançaram o topo da parada de sucessos, sem nenhuma nova, e Mariah, que queria que estivessem presentes suas favoritas, mais algumas novas, demoraram para chegar a um acordo. O resultado foi #1's (pronunciado "number ones"), lançado em 17 de novembro de 1998, contendo as 13 canções de Mariah a alcançar a posição número 1, mais quatro inéditas, incluindo um dueto com Whitney Houston, When You Believe, mais tarde incluído na trilha sonora do longa de animação O Príncipe do Egito, da Dreamworks; e um cover de uma canção de Brenda K. Starr, I Still Believe, homenagem de Mariah à amiga sem a qual ela jamais teria chegado onde chegou.

Em 1999, o contrato de Mariah com a Columbia estava chegando ao fim, e a gravadora pediu para que ela preparasse um novo álbum, para ser lançado antes de seu término. Descontente com suas relações com a gravadora, Mariah gravaria o álbum em tempo recorde, levando apenas três meses. Rainbow, lançado em 2 de novembro de 1999, aproximaria ainda mais a cantora do hip hop, incluindo parcerias com os rappers Jay-Z e DJ Clue. A Sony não ficou satisfeita com o resultado, achando que o álbum não tinha nenhuma canção forte para ser lançada como música de trabalho, e praticamente não investiu em sua promoção, o que fez com que Rainbow se tornasse o álbum de pior vendagem da cantora até então. Eventualmente, os desentendimentos chegaram a um ponto insustentável, e Mariah decidiu não renovar com a Columbia; seu sucesso, porém, lhe garantiu um contrato de 100 milhões de dólares para o lançamento de cinco álbuns pela Virgin Records, assinado em 2001.

Na época, Mariah estava envolvida em um projeto pessoal de quase cinco anos, um filme protagonizado por ela, chamado Glitter, que seria lançado pela Fox, com o álbum da trilha sonora, lançado pela Virgin, sendo seu próximo álbum de inéditas. Em meados de 2001, porém, Mariah sofreu um colapso nervoso, e teve de ser internada em segredo em um hospital de Connecticut. A Virgin e a Fox decidiram adiar o lançamento de Glitter, cujo álbum acabaria, por uma coincidência infeliz, sendo lançado justamente em 11 de setembro de 2001, dia do ataque às Torres Gêmeas. As notícias desencontradas sobre o estado de saúde de Mariah, combinadas ao adiamento do lançamento do filme (que acabaria estreando em 21 de setembro) e ao péssimo timing do lançamento do álbum acabariam fazendo com que tanto o filme quanto o álbum fossem grandes fracassos de público e crítica, os primeiros verdadeiros fracassos da carreira de Mariah, que pôs a culpa na Virgin, que, segundo ela, foi a responsável pelo estresse que levou a seu colapso. Como a Virgin pôs a culpa na cantora, que, segundo eles, se portou de forma pouco profissional, o contrato de cinco álbuns acabaria cancelado, com Mariah recebendo apenas a metade do prometido, e jurando nunca mais tomar uma decisão pensando apenas no dinheiro.

Antes do final de 2001, Mariah foi procurada pela Island Records, que lhe ofereceu um contrato de 24 milhões por cinco anos, mas com total liberdade criativa, incluindo a criação de seu próprio selo, chamado MonarC. Aproveitando uma cláusula contratual que previa o lançamento de três coletâneas, a Sony colocaria no mercado, em 4 de dezembro de 2001, Greatest Hits, um álbum duplo com os maiores sucessos de seus primeiros álbuns. Em 2002, ela ganharia um novo papel no cinema, interpretando uma garçonete ao lado de Mira Sorvino em Testemunhas contra a Máfia. O filme foi um fracasso de pública e crítica, mas a atuação de Mariah foi bastante elogiada. Ela também seria convidada para cantar o Hino Nacional no SuperBowl, a grande final do campeonato de futebol americano da NFL.

Seu álbum seguinte, Charmbracelet, seria lançado em 3 de dezembro de 2002, já pela Island. Mais uma vez com fortes influências do hip hop, o álbum foi extremamente criticado pela forma pífia como Mariah usava sua voz, não lembrando em nada a cantora que construiu seu sucesso sobre seus dotes vocais. Com as vendas em baixa, Mariah aceitou pela primeira vez sair em uma grande turnê, que incluía 69 shows ao redor do mundo. Enquanto Mariah estava em turnê, foi lançado o álbum The Remixes, em 14 de outubro de 2003, apenas com versões remix de seus maiores sucessos. Esse álbum continha remixes de várias músicas que ainda faziam parte do catálogo da Sony, que concordou em trabalhar junto com a Island, e em dar permissão para que Mariah escolhesse quais músicas seriam remixadas.

Mariah decidiria passar todo o ano de 2004 trabalhando em seu álbum seguinte, The Emancipation of Mimi ("Mimi" era seu apelido de infância), lançado em 12 de abril de 2005. Na época, muitos críticos já consideravam sua carreira acabada, e achavam que dificilmente ela voltaria a ser um fenômeno de vendas como no passado. Mimi os mostraria que eles estavam enganados. Extremamente bem sucedido junto à crítica, que o considerou um "ponto de redefinição de sua carreira", o álbum, cujas canções tendiam mais para o R&B e para a soul music, seria indicado a nada menos que 10 Grammys, um recorde para a carreira de Mariah, ganhando três - Melhor Álbum de R&B, Melhor Performance Vocal Feminina de R&B e Melhor Canção de R&B, esses dois últimos para We Belong Together, segunda música de trabalho de Mimi. We Belong Together, aliás, ficaria por 14 semanas não-consecutivas no topo da parada da Billboard, sendo considerada um retorno à melhor forma da cantora. A música de trabalho seguinte, Shake it Off, ao alcançar o segundo lugar da parada enquanto We Belong Together ainda estava no primeiro, faria com que Mariah se tornasse a primeira artista feminina com duas músicas nos dois primeiros lugares da parada simultaneamente. Rendendo seis Discos de Platina e alcançando o quarto lugar na parada, The Emancipation of Mimi foi, de fato, um retorno triunfal.

Retornando com todo o gás, Mariah voltaria a colocar um álbum no topo da parada dos mais vendidos em 2008, ano de lançamento de E=MC², em 15 de abril. Sua primeira música de trabalho, Touch My Body, se tornaria a 18a canção de Mariah a alcançar o primeiro lugar da Billboard, fazendo com que ela ultrapassasse Elvis Presley e se tornasse a artista solo com o maior número de canções número um - sendo superada apenas pelos Beatles, que têm 21.

Durante as gravações de E=MC², Mariah conheceria o ator e rapper Nick Cannon, dez anos mais jovem que ela, com quem se envolveria romanticamente e acabaria se casando pouco após o lançamento do álbum, em 30 de abril. Durante a turnê de promoção do álbum, ela engravidaria e sofreria um aborto espontâneo, o que faria com que ela tivesse de cancelar vários shows. O casal tentaria novamente, e, em abril de 2011, Mariah daria a luz a um casal de gêmeos. O segundo casamento de Mariah duraria pouco mais de seis anos; em agosto de 2014, Cannon anunciaria que eles estavam se separando amigavelmente.

Em 2009, Mariah faria uma nova incursão pelo cinema, mais uma vez com uma interpretação extremamente elogiada, vivendo uma assistente social em Preciosa. Naquele mesmo ano, a Sony ressucitaria a cláusula que permitia o lançamento de três coletâneas para lançar a terceira, The Ballads, de 22 de janeiro, que a princípio contaria apenas com as baladas dos primeiros álbuns de Mariah, mas acabou tendo também faixas mais animadinhas, como Dreamlover. Ainda em 2009, ela seria convidada para cantar no tradicional baile que se segue à posse de um Presidente dos Estados Unidos, em homenagem a Barack Obama, e no funeral de Michael Jackson, onde, extremamente emocionada, cantou I'll Be There ao lado de Trey Lorenz.

Em 25 de setembro de 2009, ela lançaria mais um álbum, Memoirs of an Imperfect Angel, que dividiria a crítica - alguns o considerariam interessante e espontâneo, outros que ele era pobre e um retrocesso em relação aos dois anteriores, já que, mais uma vez, Mariah não fazia uso total de sua voz. Talvez esses últimos estivessem certos, pois o álbum vendeu pouco, e suas músicas de trabalho, incluindo um cover de I Want to Know What Love Is, da banda Foreigner, não foram especialmente bem sucedidas. Em 2 de novembro de 2010, Mariah lançaria mais um álbum de Natal, Merry Christmas II You, que não seria tão bem sucedido quanto o anterior.

Após ter de recusar mais um papel no cinema por conta de sua gravidez, de gravar um dueto para um álbum de Tom Jones, de regravar All I Want for Christmas is You em parceria com Justin Bieber para um álbum natalino, de fazer uma participação no filme O Mordomo da Casa Branca, de dublar uma personagem da série American Dad e de atuar como jurada em uma temporada de American Idol, Mariah começaria a trabalhar em seu mais recente álbum, que tem o bizarro título de Me. I Am Mariah… The Elusive Chanteuse, e foi lançado em 27 de maio desse ano pela Def Jam Records - Mariah ainda tinha contrato com a Island, mas a Universal comprou a Island e decidiu transferi-la para a Def Jam, também de sua propriedade, pois o catálogo da Def Jam era composto de artistas de R&B, soul e hip hop.

Originalmente previsto para ser lançado em 2012, o álbum acabaria sendo sucessivamente adiado depois que a que seria a primeira música de trabalho, Triumphant (Get 'Em), foi lançada como single e não fez sucesso algum. Até agora, o álbum tem tido boas críticas, mas as vendas têm sido moderadas, e suas músicas de trabalho não têm empolgado.

Em suma, Mariah tem uma carreira de altos e baixos. Potencial ela já provou que tem; tanta irregularidade, porém, parece impedir que ela se torne a maior estrela da música norte-americana de todos os tempos. E, em escala menor, impediu que ela proseguisse sendo minha cantora preferida. Embora já esteja ganhando alguns pontinhos de volta.

4 enfiaram o nariz:

edmilson disse...

Desculpa mas a informação de que a irmã de Mariah Carey faleceu é falsa, Alison Carey está viva, inclusive está até tentando se reconciliar com a irmã famosa.

1:53 AM
Guil disse...

Nesse caso, eu também peço desculpas. Fui levado ao erro pela seguinte fase mal-escrita:

"The album's second single, "One Sweet Day" was inspired by the death of David Cole, as well as her sister Alison, who had contracted AIDS."

Obrigado pela informação e um abraço!

11:35 AM
Leonardo Pires disse...

Tem algum Vinil dela dessa epoca?To atras se tiver me avisa

11:58 AM
Guil disse...

Tinha do primeiro, mas já vendi :(

Ainda tenho duas fitas VHS

1:16 PM

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