segunda-feira, 7 de abril de 2014

Pentatlo Moderno

Já há algum tempo que eu venho querendo fazer um post sobre pentatlo moderno. Não me perguntem desde quando, porque essa informação se perdeu no tempo; imagino que seja desde que vi a Yane Marques ganhar medalha nas Olimpíadas de 2012, mas, como isso é muito tempo com vontade de fazer um post sem fazê-lo, pode ser que tenha sido desde algum evento mais recente.

Seja como for, o fato é que, desde que eu jogava Decathlon no Atari que eu sou fascinado por essas competições esportivas multidisciplinares, e o pentatlo moderno é uma das mais interessantes. Por isso, hoje, enquanto pensava em um tema, decidi falar sobre ele. De quebra, vou aproveitar e falar sobre o pentatlo original, sem o qual ele não existiria. Comecemos, então.

O pentatlo original era um dos eventos das Olimpíadas da Era Antiga, disputadas na Grécia. Seu nome advém da junção das palavras pente, "cinco", e athlon, "competição", para demonstrar que uma prova do pentatlo era composta de cinco competições. A primeira menção escrita a uma competição de pentatlo data do ano 708 a.C., mas, antes disso, ele já estava presente na mitologia grega: Jasão é tido como o inventor do pentatlo, e seu amigo Peleu teria sido seu primeiro campeão, enquanto Perseu teria cumprido uma profecia ao acidentalmente matar Acrísio durante uma competição de pentatlo.

O pentatlo foi criado para se definir o atleta completo - "atleta", aliás, é outra palavra que vem de athlos, significando "competidor" - e, portanto, trazia as cinco disciplinas esportivas consideradas mais nobres pelos gregos: o lançamento de disco, o lançamento do dardo, o salto em distância, o stadion (uma corrida de aproximadamente 190 metros) e a luta (com regras parecidas com as do estilo que é chamado hoje de luta greco-romana). Curiosamente, enquanto o stadion e a luta eram disciplinas separadas nas Olimpíadas, com seus próprios vencedores, as três outras disciplinas (lançamento do dardo, lançamento do disco e salto em distância) não tinham disputas em separado, só existindo como parte do pentatlo ou de outra competição múltipla, o triagmos - o que, na prática, fazia com que o pentatlo fosse, na verdade, um triatlo, composto de triagmos, stadion e luta.

Como era uma competição difícil e vista como altamente honrosa, pentatletas eram tidos na mais alta conta pelos cidadãos gregos. Se dedicar ao pentatlo era visto como uma forma de manter o corpo plenamente saudável - até Aristóteles escreveria, em seu livro A Retórica, que "os atletas do pentatlo têm os corpos mais bonitos" - e preparado para todas as adversidades - como as cinco disciplinas do pentatlo requeriam habilidades também utilizadas na guerra, era comum que soldados se dedicassem à sua prática, visando estarem sempre em forma e bem preparados. Os campeões do pentatlo estavam dentre os mais admirados e laureados de todos os campeões olímpicos.

Infelizmente, porém, hoje não temos como saber como se definia um campeão do pentatlo. Registros das competições, dos recordes alcançados pelos atletas e dos vencedores das provas ainda existem, mas não há nenhum registro sobrevivente que explique como era determinado o vencedor. A conclusão mais óbvia é a de que quem ganhasse mais provas seria o vencedor, mas, de acordo com os registros, esse nem sempre era o caso. Também não há registro dos detalhes da competição de luta, como, por exemplo, se todos ou somente os líderes até então participavam, ou qual critério era usado para parear os atletas. De qualquer forma, sabe-se que todas as cinco provas eram disputadas em um único dia, e que, ao final de luta, estava definido o campeão do pentatlo.

Pois bem, as Olimpíadas da Era Antiga acabaram, e o evento ficou esquecido até o final do século XIX, quando o Barão Pierre de Coubertin decidiu ressucitá-lo, criando as Olimpíadas da Era Moderna. Fascinado pelo pentatlo, o Barão planejava também ressucitá-lo e colocá-lo no programa das Olimpíadas, mas as federações esportivas o achavam pouco prático e consideravam difícil que um atleta amador (no início, profissionais não podiam participar das Olimpíadas) dedicado ao atletismo quisesse se envolver, também, em uma disputa de luta greco-romana.

Um fato bizarro, entretanto, mudaria os ventos a favor do Barão: entre as Olimpíadas de 1904 e 1908, em 1906, a Grécia decidiria realizar uma "Olimpíada Extemporânea", em comemoração aos dez anos da primeira Olimpíada da Era Moderna, realizada em Atenas em 1896. Essa edição das Olimpíadas, evidentemente, não foi sancionada pelo COI, e não é vista hoje como oficial. Seus organizadores, porém, sem ter de submeter suas decisões ao COI, e visando deixar essa edição dos Jogos ainda mais parecida com os da Era Antiga, decidiriam tentar ressucitar o pentatlo, incluindo-o no programa. E, quando eu digo "ressucitar", estou querendo dizer que eles queriam um pentatlo o mais próximo possível do original: em um único dia, os atletas competiriam nas provas do salto em distância, arremesso de disco, lançamento do dardo, corrida de 192 metros e luta greco-romana. Inspirados no decatlo do atletismo, que já era popular na época nos Estados Unidos, e começava a se popularizar na Europa, os organizadores criaram tabelas que convertiam os resultados dos atletas em cada prova em pontos, para que aquele que somasse mais pontos fosse o vencedor.

Esse pentatlo também não seria incluído no programa das Olimpíadas, mas chamaria a atenção de diversas federações nacionais de atletismo, curiosas quanto ao fato de seus atletas quererem se envolver em uma competição tão complicada. Várias delas começariam a experimentar competições multidisciplinares em seus eventos. Vendo que eram um sucesso, elas convenceriam os organizadores das Olimpíadas de 1912, realizadas em Estocolmo, Suécia, a incluir não só um pentatlo, mas também um decatlo no programa.

Vale aqui fazer um parêntese para citar dois fatos: primeiro, as competições multidisciplinares já eram realizadas nos Estados Unidos, organizadas pela AAU, organização que regia o atletismo amador de lá, pelo menos desde 1880, tanto que as Olimpíadas de 1904, realizadas em St. Louis, naquele país, tiveram, em seu programa, um decatlo, embora com provas diferentes das que temos hoje, estabelecidas nos Jogos de 1912. Segundo, embora o pentatlo de 1906 tenha sido um sucesso em termos de participação, o nível do torneio de luta denunciou que talvez fosse melhor os atletas do atletismo não se atreverem a lutar entre si; portanto, o pentatlo e o decatlo de 1912, criados pelas federações de atletismo, só teriam provas que pertenciam a esse esporte.

O Barão de Coubertin, evidentemente, viu no súbito interesse do comitê organizador a oportunidade perfeita para também incluir seu pentatlo nas Olimpíadas. Já há alguns anos, entretanto, ele havia desistido de incluir o pentatlo exatamente como era, e criado uma nova versão, partindo de um raciocínio muito simples: assim como o pentatlo da Era Antiga era composto por provas que exigiam características físicas também prezadas nas guerras da antiguidade, o pentatlo moderno deveria incluir cinco provas inspiradas nas guerras da Era Moderna. Seguindo esse raciocínio, o Barão imaginaria um soldado atrás das linhas inimigas, tendo de voltar ao seu próprio batalhão para entregar uma importante mensagem: primeiro, ele se desvencilharia de seus captores usando uma espada. Em seguida, atravessaria um rio que separava sua prisão de um estábulo, onde roubaria um cavalo e fugiria pela floresta. Forçado a abandonar o animal, abriria fogo contra seus perseguidores, e completaria o percurso a pé. Os cinco esportes do pentatlo moderno deveriam ser, portanto, a esgrima, a natação, a equitação, o tiro e a corrida.

O Barão apresentaria a ideia de seu novo esporte na sessão do COI que antecedeu os Jogos de 1912, Realizada em Budapeste, Hungria, em 1911. Submetida a votação, a ideia foi aprovada e incluída no programa dos jogos vindouros, aberta à inscrição de oficiais de cavalaria dos exércitos das nações participantes - isso porque, como era um esporte novo, apenas soldados e oficiais de cavalaria teriam as habilidades necessárias para disputá-lo, mas os soldados, curiosamente, eram vistos como profissionais, enquanto os oficiais, cujas atribuições do dia a dia não envolviam as disciplinas do pentatlo, eram vistos como amadores. Também de forma curiosa, o comitê organizador dos Jogos de 2012 não reconheceu o Barão de Coubertin como o inventor do esporte, alegando que seu criador teria sido Victor Balck, o presidente do comitê, que teria se inspirado na "longa tradição sueca de eventos esportivos militares multidisciplinares". Por causa disso, até hoje, a paternidade do pentatlo moderno é vista em alguns países, especialmente a Suécia, como disputada entre Balck e o Barão.

O pentatlo moderno faria bastante sucesso em 1912, tanto que jamais sairia do programa olímpíco. Infelizmente, apesar de ser um esporte muito interessante, não está dentre os que atrai mais público, o que faz com que, frequentemente, seja alvo de votações para ser removido do programa e substituído por algum mais rentável - todas as vezes até agora, entretanto, os membros do COI preferiram optar por sua permanência. Também é interessante notar que o pentatlo moderno é um dos únicos esportes das Olimpíadas cuja maioria dos participantes é militar - embora a participação tenha sido aberta para civis em 1984, a tradição militar ainda é muito forte nesse esporte.

Originalmente, a disputa do pentatlo moderno ocupava cinco dias, com uma prova sendo realizada por dia; em 1984, os organizadores decidiram encurtar esse tempo para quatro dias, colocando tanto a natação quanto o tiro no mesmo dia. Esse formato foi adotado até 2002, quando a natação voltou a ser realizada sozinha, mas o tiro foi disputado junto com a corrida, no quarto dia. Desde 2004, para tentar atrair mais público, e mais de acordo com o espírito do pentatlo, todas as cinco provas ocorrem no mesmo dia, sendo que, desde 2009, o tiro e a corrida estão combinados em uma única prova.

Pelo formato atual de competição, a primeira prova disputada é a da esgrima. A área de embate mede 14 metros de comprimento por entre 1,5 e 2 metros de largura, e os competidores usam espadas (embora essa informação pareça óbvia, ela é necessária porque as três armas disponíveis na esgrima são a espada, o florete e o sabre, ou seja, "espada", na verdade, é o tipo de espada). O torneio coloca todos contra todos, ou seja, cada competidor vai enfrentar cada um dos adversários uma vez. Cada embate dura um minuto, sendo vencedor aquele que toca o oponente com sua espada primeiro - se ambos se tocarem simultaneamente, a vitória não é computada para nenhum dos dois e a luta continua; se o minuto se esgotar sem que um tenha tocada o outro, ambos são declarados perdedores. Vencer 70% dos embates vale 1000 pontos, com um bônus de 24 pontos para cada vitória a mais e uma penalidade de 24 pontos para cada vitória a menos que esses 70%. Penalidades em pontos também são aplicadas por pisar fora da área de embate, dar as costas ao oponente, acertá-lo com outras partes da espada que não a ponta, ou por conduta perigosa ou antidesportiva.

A segunda prova disputada é a da natação, que consiste em uma prova de 200 metros estilo livre. Os atletas nadarão em baterias, sendo usado para o sorteio que definirá cada bateria o melhor tempo oficial de cada um nessa prova (para que os melhores não nadem todos juntos na mesma bateria). Nadar os 200 m em 2 minutos e 30 segundos vale 1000 pontos, com 4 pontos sendo subtraídos para cada 0,33 segundos além desse tempo e 4 pontos sendo somados para cada 0,33 segundos a menos, arredondando sempre para cima. Penalidades em pontos também são aplicadas por queimar a largada, irregularidades na virada ou por atrapalhar os oponentes.

A terceira prova disputada é a da equitação. Diferentemente de uma prova de equitação comum, no pentatlo moderno cada atleta não possui seu próprio cavalo, sendo os cavalos sorteados antes da prova - mais uma ideia do Barão de Coubertin, que queria emular a situação na qual o soldado deve roubar um cavalo inimigo, tendo de fugir cavalgando um animal que não conhece. A prova é um concurso de saltos, com entre 350 e 450 metros de extensão e 12 obstáculos de 1,20 m de altura cada, sendo um duplo e um triplo, para um total de 15 saltos. O tempo limite para se completar o percurso é estipulado pela organização do evento, e completá-lo dentro desse tempo vale 1200 pontos, com 4 pontos sendo subtraídos por cada segundo ou fração a mais. Penalidades em pontos também são aplicadas por derrubar obstáculos, pelo cavalo se recusar a saltar um obstáculo (refugar) e por cair do cavalo. Caso o atleta caia duas vezes, o cavalo refugue duas vezes, o conjunto salte um obstáculo fora da ordem estipulada ou o atleta leve mais que o dobro do tempo limite para completar a prova, ele deverá abandoná-la imediatamente, recebendo uma penalidade de 100 pontos para cada obstáculo que deixou de pular. Como o cavalo é até então desconhecido do atleta, por razões de segurança, cada atleta possui um tempo, antes da prova começar, para percorrer o percurso a pé, conhecendo os obstáculos e sua ordem, e 20 minutos para se familiarizar com seu cavalo em uma área de aquecimento, na qual ainda terá direito a cinco saltos de treinamento.

A última prova combina 3,2 Km de corrida cross-country com quatro séries de tiro. Nela, o atleta começa tendo que acertar uma série de cinco alvos de 59,5 mm de diâmetro usando uma pistola laser. Somente após acertar os cinco, ou após um tempo de 50 segundos se esgotar, é que ele poderá dar a primeira volta na pista, que consiste em 800 metros. Essa pista não é a usada para as provas do atletismo, e sim uma pista de cross-country que imita o terreno de uma floresta, com trechos em terra batida, brita, lama, pedras e até mesmo água para imitar córregos. Após essa primeira volta na pista, o atleta retorna ao stand de tiro, onde deverá, mais uma vez, atingir os cinco alvos em 50 segundos. A prova dura até que o atleta tenha dado quatro voltas na pista (para um total de 3,2 Km), cada uma delas precedida por uma série de tiros (para um total de vinte alvos).

Diferentemente do que ocorre nas demais provas, a última não tem bônus ou penalidades em pontos - mesmo que o atleta esgote os 50 segundos sem ter acertado um único tiro. Isso porque, na última prova, os atletas não largam todos juntos, mas um de cada vez, separados por sua diferença em pontos - o atleta que estiver com a maior pontuação após a prova da equitação larga primeiro, e cada um depois dele larga 1 segundo depois para cada ponto de diferença - sendo que o relógio começa a correr na largada do primeiro, e não para cada competidor, ou seja, exceto o primeiro, todo mundo já larga em desvantagem. Esse sistema garante que o primeiro a cruzar a linha de chegada será o vencedor, independentemente de quantos pontos tinha antes de a prova começar - o que a torna mais emocionante, já que o público realmente vê quem ganhou, sem precisar ficar esperando o somatório de pontos. Eventuais penalidades - por atrapalhar os adversários, manejar a arma incorretamente ou conduta antidesportiva - são aplicadas durante a própria prova, levando o competidor a uma "área de cumprir penalidades", o que suprime segundos preciosos de seu tempo. Para efeitos de pontuação final e recordes, terminar a prova em 12 minutos e 30 segundos rende 2000 pontos, com 4 pontos sendo somados para cada segundo a mais e subtraídos para cada segundo a menos.

Antes de 2009, a prova de tiro consistia em uma disputa de pistola de ar comprimido contra um alvo a 10 metros de distância, na qual os competidores tinham direito a 20 tiros, com 40 segundos para cada tiro e o número de acertos sendo convertido em pontos; já a corrida tinha um percurso de 3 Km, e o tempo final dos atletas era convertido em pontos. Como o campeão era o que somava mais pontos no final, nem sempre quem cruzava a linha de chegada em primeiro vencia - e, algumas vezes, a distância em pontos do primeiro para o segundo colocado era tão grande que ele já entrava na corrida campeão, só deixando de ganhar se fizesse um tempo realmente horrível. Embora o novo formato tenha agradado ao público e até contribuído para uma maior presença na prova final, alguns fãs mais puristas fazem duras críticas a ele, com alguns comentaristas esportivos até sugerindo que o esporte devia mudar de nome para "tetratlo", já que, na prática, só tem quatro provas.

As únicas categorias do pentatlo moderno disputadas hoje nas Olimpíadas são a individual masculina e a individual feminina (que fez sua estreia no programa olímpico nos Jogos de 2000); outros torneios, entretanto, também possuem competições por equipes (sendo que as equipes masculinas também fizeram parte do programa olímpico entre 1952 e 1992) e de revezamento. A disputa por equipes é bem simples: somam-se os pontos de todos os atletas de um mesmo país na prova individual (sendo que cada país pode ter no máximo quatro atletas em uma mesma prova) e o país com mais pontos será o vencedor. Já a disputa de revezamento possui uma fórmula diferente: no revezamento masculino e no revezamento feminino, cada equipe possui três atletas, sendo que cada um deles nada 100 metros, salta nove obstáculos na equitação e corre duas voltas de 1 Km cada, com uma série de cinco tiros antes de cada volta - e, evidentemente, atletas da mesma equipe não se enfrentam na prova da esgrima. Os tempos e penalidades dos atletas na natação, equitação e corrida são somados para, na prática, representar o tempo de um único atleta, e só então são convertidos em pontos - ao contrário do que ocorre na disputa por equipes, onde os pontos são primeiro atribuídos e depois somados. Desde 2009, existe também o revezamento misto, que segue as mesmas regras, mas no qual cada equipe é composta por apenas dois atletas, um homem e uma mulher. O revezamento vem se mostrando bastante popular, e há uma certa vontade de incluí-lo nas Olimpíadas - que esbarra na vontade contrária de remover o pentatlo moderno delas.

Nos primeiros anos de sua existência, o pentatlo moderno seria regulado pelo próprio COI; somente em 1948 foi que os responsáveis por sua regulação decidiram fundar a União Internacional de Pentatlo Moderno (UIPM, da sigla em francês), visando um maior desenvolvimento e promoção do esporte, e que hoje conta com 114 membros, incluindo o Brasil. Já no ano seguinte, a UIPM decidiria organizar o primeiro Campeonato Mundial de Pentatlo Moderno, evento realizado anualmente e que conta hoje com disputas nas categorias individual masculina, individual feminina, equipes masculinas, equipes femininas, revezamento masculino, revezamento feminino e revezamento misto. Além das Olimpíadas e do Mundial, desde 1990 a UIPM promove, nas categorias individual masculina e feminina, a Copa do Mundo, composta de seis etapas nas quais os atletas vão somando pontos, sendo aquele com mais pontos ao final da última etapa declarado campeão.

Além do pentatlo moderno, a UIPM regula três outros esportes: o biatlo moderno é composto apenas pela natação e corrida, o triatlo moderno tem a natação e a prova combinada de corrida e tiro, e o tetratlo moderno contém a esgrima, natação, tiro e corrida de acordo com as regras antigas (anteriores a 2009). O biatlo e o triatlo são usados como introdução ou treinamento ao pentatlo, e normalmente são praticados por atletas jovens que buscam ganhar experiência em competições multidisciplinares internacionais; já o tetratlo é disputado por masters, ex-atletas de pentatlo moderno ou de suas modalidades (curiosamente, especialmente da natação) que quiseram continuar competindo. Pelas suas características, o pentatlo moderno é considerado um esporte no qual várias gerações podem competir de igual para igual - o vigor e velocidade perdidos na natação e corrida são compensados pela maior experiência na esgrima, tiro e equitação.

Logo após sua fundação, a UIPM também tentou criar um "pentatlo de inverno", para ser incluído nas Olimpíadas de Inverno. Para testá-lo, o COI o colocou como esporte de demonstração nas Olimpíadas de Inverno de 1948, em St. Moritz, Suíça. O pentatlo de inverno consistia de uma corrida de esqui cross-country, uma descida de esqui downhill, uma prova de tiro, uma prova de esgrima e um concurso de saltos da equitação - na neve. Talvez pelo fato de o tiro, a esgrima e a equitação não serem esportes de inverno, o formato não fez muito sucesso, e acabou abandonado.

Para terminar esse post, vale citar os três pentatlos militares. Como já foi dito, o pentatlo moderno tem uma grande tradição militar. Só que, depois da Segunda Guerra Mundial, muitos militares começaram a não se identificar mais com o esporte, já que ele foi originalmente concebido para emular um soldado fugindo dos inimigos para entregar uma mensagem, mas disciplinas como a esgrima e a equitação tinham pouco a ver com o treinamento que recebiam. Em 1946, um capitão francês, Henri Debrus - que, alguns anos mais tarde, seria eleito presidente do Conselho Internacional de Esportes Militares (CISM) - decidiria renovar o pentatlo, substituindo suas provas por outras que, na sua concepção, tinham mais a ver com um soldado do século XX. Debrus se inspiraria no método de treinamento dos paraquedistas holandeses da época, que, depois de saltar de paraquedas, tinham de navegar um campo de obstáculos disparando tiros e lançando granadas, mas ele removeria o paraquedismo e transformaria a segunda parte em cinco provas separadas.

O esporte criado por Debrus seria batizado como pentatlo militar, e teria as seguintes disciplinas: tiro, corrida com obstáculos, natação com obstáculos, arremesso de granada e corrida cross-country. A prova do tiro é composta de duas partes, uma na qual os competidores têm direito a 10 tiros em 10 minutos e uma na qual têm direito a 10 tiros em um minuto, a uma distância de 200 metros do alvo, usando rifles. A corrida com obstáculos se parece com aquelas que vemos em filmes, usando um percurso de 500 metros com obstáculos como cordas que devem ser escaladas, muros que devem ser saltados, arame farpado para se rastejar por baixo, tirolesa, fosso e outros, em um total de 20 diferentes. A natação com obstáculos consiste em uma prova de 50 metros estilo livre, mas com quatro obstáculos ao longo da piscina, sendo que os nadadores têm de passar por baixo deles. O arremesso de granada também é composto de duas partes: na parte da precisão, uma granada falsa de 600 g para os homens ou 400 g para as mulheres deve ser lançada de quatro distâncias diferentes (20, 25, 30 e 35 metros para os homens; 15, 20, 25 e 30 metros para as mulheres), e acertar dentro de um círculo de 4 m de diâmetro com um de 2 m de diâmetro no meio; cada competidor deve lançar quatro granadas a cada distância (para um total de 16), e, quanto mais perto do centro do círculo acertarem, mais pontos ganham. Na segunda parte, a da distância, cada competidor tem dois minutos para lançar três granadas, sendo convertido em pontos, dos três, o lançamento que alcançar a maior distância. A corrida cross-country é semelhante à do pentatlo moderno, com um percurso que imita uma floresta, mas bem mais longa: 8 Km para os homens, 6 Km para as mulheres. Os acertos do tiro e das granadas e o tempo das corridas e da natação são convertido em pontos, todos os pontos são somados, e quem tiver mais é o vencedor.

O pentatlo militar era disputado somente por membros do exército; não demoraria muito, porém, para um grupo de oficiais da marinha francesa se inspirar nele e criar um pentatlo naval, em 1947. As cinco provas do pentatlo naval são a corrida com obstáculos, a natação com salvamento, a natação utilitária, a corrida do mar e a corrida cross-country anfíbia. Como de costume, os resultados de cada atleta em cada prova são convertidos em pontos, que são somados para se determinar o campeão.

A corrida com obstáculos é semelhante à do pentatlo militar, mas mais simples, com 305 metros e 10 obstáculos para os homens e 280 metros e 9 obstáculos para as mulheres. A natação com salvamento é disputada em uma piscina de 25 metros, e envolve várias etapas: nadar 15 metros submerso, nadar 35 metros em estilo livre, tocar o fundo da piscina, "salvar" um boneco e nadar mais 25 metros com ele, percorrendo, ao todo, 75 metros. A natação utilitária é semelhante: os competidores devem nadar 25 metros, retornar carregando um rifle de 3 Kg, deixá-lo na borda, retornar passando por baixo de uma rede posicionada a 3 metros de profundidade, voltar mais uma vez passando por cima de um obstáculo flutuante, mergulhar para desatarrachar duas mangueiras presentes no fundo da piscina e retornar uma última vez, percorrendo, ao todo, 125 metros. A corrida do mar é uma corrida de barcos a remo na qual primeiro os competidores devem seguir etapas pré-determinadas de preparação do barco, percorrer duas voltas em um percurso marcado com boias, e, ao final, seguir etapas de finalização do barco corretamente. A corrida cross-country anfíbia tem um percurso de 2,5 Km, durante o qual, em intervalos pré-determinados, os competidores deverão parar em um stand, preparar um rifle (o qual deverão carregar durante o restante da prova) e disparar cinco tiros contra alvos de 11,5 cm de diâmetro a 50 metros de distância; passar por um pequena extensão de água usando um bote a remo; e lançar seis granadas (falsas) dentro de um círculo de 2 metros de diâmetro posicionado a 25 metros (15 metros para as mulheres) de distância do limite da pista. Cada tiro ou granada perdido resulta no competidor tendo de dar uma volta em um "percurso de penalidade", que tem 80 metros de extensão na prova de tiro e 100 metros na prova de granada, o que aumenta seu tempo final.

Tendo o exército e a marinha seus pentatlos, é claro que a aeronáutica não iria querer ficar de fora. Assim, em 1948, surgiu o pentatlo aeronáutico, que, apesar do nome, possui seis provas: tiro, esgrima, orientação, basquete, corrida de obstáculos e natação. Pra mim, esse é o conjunto de provas mais bizarro de todos os pentatlos, mas, segundo a aeronáutica, todas essas disciplinas possuem características essenciais ao bom piloto - o basquete, por exemplo, refina a coordenação entre a visão e o movimento das mãos, além de contribuir para a mira.

A prova de tiro envolve 20 tiros de pistola em um alvo a 10 metros de distância; a de natação usa uma piscina de 50 metros, e envolve nadar 50 metros, correr 5 metros fora da piscina, mergulhar e nadar mais 50 metros, dessa vez passando por baixo de dois obstáculos durante o percurso; a de esgrima é idêntica à do pentatlo moderno, com todos contra todos, um minuto de embate e ganhando quem tocar o outro primeiro com sua espada; a de basquete não é o jogo completo, e sim uma prova que consiste em driblar a bola por entre bastões de demarcação e arremessá-la em direção à cesta, sendo avaliados a velocidade, a habilidade e a precisão dos arremessos, com cada competidor tendo direito a 20 arremessos, 10 usando a tabela e 10 direto para a cesta; a corrida de obstáculos tem entre 300 e 400 metros e entre 10 e 12 obstáculos; e a prova de orientação envolve encontrar o caminho correto em uma trilha de floresta usando um mapa e uma bússola. Mais uma vez, os resultados dos atletas são convertidos em pontos, somados para se determinar o campeão.

Os três pentatlos militares são regulados pelo CISM, que realiza, a cada quatro anos desde 1995, os Jogos Mundiais Militares, uma espécie de Olimpíada só para atletas militares. Os pentatlos militar e naval fazem parte do evento desde a primeira edição, mas o aeronáutico só foi incluído na mais recente, em 2011, no Rio de Janeiro. O pentatlo militar também fez parte, como esporte de demonstração, dos World Games de 1997, disputados em Lahti, Finlândia. Finalmente, cada pentatlo tem seu própro campeonato mundial, realizado anualmente - o do pentatlo militar desde 1950, o do pentatlo naval desde 1954 e o do pentatlo aeronáutico desde 1957.

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