segunda-feira, 28 de abril de 2014

Motoqueiro Fantasma

Quando eu fiz o post sobre o Demolidor, há coisa de um mês, me lembrei de outro herói obscuro da Marvel - um que, inclusive, vem ganhando até mais destaque que o Demolidor ultimamente: o Motoqueiro Fantasma. Eu não me considero fã do Motoqueiro Fantasma, mas gosto muito de suas histórias clássicas, que têm um clima meio "sombrio anos 70", como as do Homem-Coisa, esse sim um dos personagens Marvel que eu mais gosto. Além disso, o Motoqueiro Fantasma possui uma história interessante, o que é o segundo principal requisito para um assunto se tornar post do átomo (o primeiro, evidentemente, é ser um assunto do qual eu goste). Pensando sobre isso, decidi fazer também um post sobre o Motoqueiro Fantasma, que vocês lerão hoje. Aliás, já estão até lendo.

O Motoqueiro Fantasma possui uma característica curiosa em se tratando de heróis Marvel das antigas: não foi criado por Stan Lee. Seus criadores foram o editor Roy Thomas, o roteirista Gary Friedrich e o desenhista Mike Ploog. O ano era 1972, e o regulamento da Comics Code Authority havia acabado de ser modificado, ficando mais flexível e permitindo outros tipos de personagens em histórias em quadrinhos de super-heróis.

Pausa para uma primeira explicação: nos primórdios das histórias em quadrinhos, as de super-heróis não eram as mais populares - a preferência do grande público era dividida entre as histórias de terror e as de piratas. Como é evidente, histórias de terror e de piratas possuíam elementos que não eram propriamente considerados adequados a jovens leitores, como violência explícita, sangue e nudez. Quando os primeiros super-heróis surgiram, algumas editoras seguiram o mesmo estilo, criando histórias que hoje estariam dentre as consideradas "para adultos", mas que eram destinadas a crianças e adolescentes.

Como estamos falando dos Estados Unidos, é lógico que logo alguém iria aparecer berrando contra isso - no caso, foi o psicólogo Fredric Wertham, que escreveu um livro exageradamente chamado A Sedução dos Inocentes, publicado em 1954. Em seu livro, Wertham classificava os quadrinhos como "uma forma negativa de literatura" e "responsáveis pela delinquência juvenil". Rapidamente, o livro se tornaria um best seller, e pais furiosos começavam a demandar mudanças nas histórias em quadrinhos, com direito a protestos, passeatas e tudo. Em meio aos protestos, seria fundada a Associação de Revistas em Quadrinhos da América (CMAA, na sigla em inglês), que chamaria para si a responsabilidade de regular o que poderia ou não aparecer em histórias em quadrinhos, o que ela fez através de um órgão chamado Comics Code Authority (CCA), que lia as histórias previamente e, se as aprovasse, colocava um selo na capa da revista.

A "aprovação" do CCA não era obrigatória, mas, sabendo que as revistas sem o selo podiam conter elementos impróprios para menores, nenhum pai deixaria seus filhos comprá-las. Isso acabou sendo uma das principais causas da derrocada das histórias de terror e piratas e da ascensão dos super-heróis, já que as revistas de terror e piratas, se submetidas ao CCA, não ganhavam o selo, e se removessem tudo o que o CCA considerava impróprio, ficavam sem pé nem cabeça - a simples retratação de vampiros, lobisomens e zumbis era proibida, não importa o que eles estivessem fazendo.

Evidentemente, o CCA não existe até hoje; foi abandonado de vez em 2011, quando duas das maiores editoras de quadrinhos dos Estados Unidos, a DC e a Archie Comics, decidiram deixar de enviar suas histórias para aprovação - coisa que a Marvel já havia feito dez anos antes, em 2001. Essa "rebeldia" não aconteceu por acaso, e sim porque as editoras consideraram que o CCA já não fazia sentido, e que as próprias editoras eram capazes de se autorregular de acordo com a reação do público às suas histórias.

Antes de acabar de vez, porém, o regulamento do CCA passou por algumas revisões, visando adequar suas regras às mudanças sociais e evitar que os quadrinhos perdessem leitores por serem anacrônicos - a primeira versão do regulamento, por exemplo, proibia que fossem retratados policiais corruptos; na primeira revisão, eles passaram a poder ser retratados, desde que ficasse claro que eram uma exceção e que fossem punidos ao fim da história. A primeira dessas revisões ocorreria em 1971, quando, dentre outras coisas, elementos de terror voltaram a ser permitidos, desde que estivessem de acordo com a tradição literária - em outras palavras, inspirados em autores consagrados como Edgar Allan Poe e H.H. Munro.

Mais ou menos nessa época, o roteirista Gary Friedrich, que escrevia a revista do Demolidor, conversava com Roy Thomas, que havia sido roteirista da mesma revista antes dele e agora ocupava o cargo de diretor, sobre um vilão que Thomas havia criado, um motociclista de show, daqueles que saltam com a moto por sobre carros e por dentro de aros flamejantes, chamado Mestre das Proezas. Friedrich, que, ao chegar à Marvel, escreveu o roteiro de uma história de um antigo personagem chamado Cavaleiro Fantasma (em inglês, Ghost Rider), queria criar um novo vilão para o Demolidor, também motociclista de show, mas com poderes sobrenaturais e também chamado Ghost Rider, nome do qual ele gostava.

Pausa para uma segunda explicação: o verbo to ride, em inglês, significa algo como "andar de alguma coisa". Andar a cavalo, portanto, é ride a horse. Andar de moto, ride a motorcycle. Andar de bicicleta, ride a bike. Andar na montanha russa, ride a rollercoaster. Por derivação, quem anda de alguma coisa é um rider - palavra que acabou ficando com difícil tradução para o português, já que "andador" não serve. É por causa disso que o Cavaleiro Fantasma e o Motoqueiro Fantasma, em português, têm nomes diferentes, mas, em inglês, ambos são Ghost Riders: em inglês, rider serve tanto para quem anda a cavalo quanto para quem anda de moto, mas, em português, usamos termos diferentes. Essa característica, aliás, acabou causando uma das traduções mais bizarras da história do cinema: no primeiro filme do Motoqueiro Fantasma, lançado em 2007 e estrelado por Nicolas Cage, há o personagem do Cavaleiro Fantasma, interpretado por Sam Elliott - o qual fizeram o favor de traduzir o nome também para "Motoqueiro Fantasma", mesmo não existindo motos no Velho Oeste.

Enfim, Friedrich queria um Motoqueiro Fantasma como vilão do Demolidor, e queria saber se era melhor criar um personagem novo ou modificar o Mestre das Proezas. Mas Thomas achou a ideia tão boa que sugeriu que ele fizesse desse personagem um novo herói, protagonista de suas próprias histórias. Os dois, então, chamaram o desenhista Mike Ploog, e se puseram a criar a aparência do personagem. Friedrich sugeriu que ele só vestisse couro, Thomas sugeriu que sua cabeça fosse uma caveira. Ploog diz que a ideia de que a caveira está em chamas foi dele, mas Friedrich contesta, dizendo que ele é que deu essa ideia. Seja como for, nascia mais um herói Marvel.

A identidade secreta do Motoqueiro Fantasma era Johnny Blaze, um motociclista de show abandonado pela mãe quando criança. Quando Blaze ainda era um adolescente, seu pai, também motociclista de show, morreu durante uma apresentação, o que fez com que ele fosse criado por um casal de amigos, Crash e Mona Simpson. Blaze considerava os Simpsons (?) como seus verdadeiros pais, e cresceu apaixonado pela filha deles, Roxanne, enquanto aprendia com Crash os truques da profissão.

Crash, porém, um dia descobriu que estava com câncer, e prestes a morrer. Desesperado por não querer perder sua família mais uma vez, Blaze tomou uma atitude impensada: ofereceu sua alma ao demônio em troca da saúde do pai adotivo. Crash realmente se curou do câncer, mas morreu no dia seguinte, assim como o pai de Blaze, durante uma apresentação. Logo após a morte de Crash, o demônio surgiu para buscar seu pagamento - alegando que, se Crash tinha morrido de outra coisa que não o câncer, não era problema dele - mas foi impedido por Roxanne, que apareceu bem na hora e o afugentou com a pureza de seu amor.

Antes de ir embora, porém, o demônio amaldiçoou Blaze: todas as noites, ao se encontrar na presença do mal, ele se transformaria no Motoqueiro Fantasma, o emissário do demônio, com a missão de enviar os maus diretamente para o inferno, aumentando o poder de seu mestre ao adicionar mais almas à sua coleção. Como Motoqueiro Fantasma, ele tem força, agilidade, vigor e resistência sobre-humanas, é imune ao fogo e capaz de controlá-lo, e sua moto - que, por alguma razão, se transforma junto com ele - pode andar sobre qualquer superfície, sem precisar respeitar as leis da física. Durante a transformação, o fogo do inferno consome o corpo de Blaze (e os pneus de sua moto), fazendo com que, por baixo de sua roupa, ele seja um esqueleto; ao retornar ao normal pela manhã, entretanto, seu corpo está sempre em perfeita saúde, como se nada tivesse acontecido. Mesmo transformado, Blaze consegue manter um pouco de sua humanidade, e decidiu usar sua maldição para proteger os inocentes.

O Motoqueiro Fantasma faria sua estreia na revista Marvel Spotlight número 5, de agosto de 1972. Após 11 edições, ele ganharia uma revista própria, chamada Ghost Rider, em novembro de 1973. Nessa nova revista, que contou com vários roteiristas e desenhistas diferentes, o Motoqueiro Fantasma agiria em conjunto com vários outros personagens de terror da Marvel, como o Homem-Coisa, Morbius e o Lobisomem. Em 1975, sob o comando do roteirista Tony Isabella, o Motoqueiro Fantasma também se tornaria um personagem bem mais heroico, chegando até mesmo a fazer parte de uma equipe conhecida como os Campeões, ao lado de Hércules, Viúva Negra, Estrela Negra, Anjo e Homem de Gelo. Os Campeões tinham sua própria revista, o que fazia com que o Motoqueiro fosse às bancas duas vezes por mês - vivendo aventuras solo em sua própria revista e ao lado de sua equipe na dos Campeões.

Isabella também escreveria uma história polêmica, na qual um personagem que se referia a si mesmo simplesmente como "o amigo" ajudaria Blaze a se livrar da influência do demônio - o que abriria caminho justamente para ele se tornar mais heroico. A polêmica ficaria por conta de que, na concepção de Isabella, "o amigo" seria Jesus Cristo, e a mensagem era de que Blaze só conseguiria se livrar da influência do demônio quando aceitasse Cristo em seu coração. O editor Jim Shooter, porém, não querendo publicar uma revista com mensagem religiosa, mudaria a história sem o consentimento de Isabella, para fazer com que "o amigo", na verdade, fosse um demônio disfarçado, e a maior liberdade de Blaze ilusória, apenas para aumentar o controle que o demônio com o qual ele fez o pacto tinha sobre ele.

Falando nisso, ao longo das edições da revista Ghost Rider, vários detalhes da origem do Motoqueiro Fantasma seriam "revelados" - na verdade, modificados retroativamente - para integrá-lo melhor ao Universo Marvel. Para começar, seria revelado que Blaze se tornava Motoqueiro Fantasma não simplesmente por uma maldição, mas porque o demônio com o qual ele fez o pacto havia fundido sua alma à do demônio Zarathos - durante o dia, Blaze vivia normalmente, mas, durante a noite, Zarathos assumia o comando; graças à extrema força de vontade de Blaze, porém, ele não era totalmente suprimido durante a noite como Zarathos era durante o dia, o que permitia que ele tivesse algum grau de controle sobre as atitudes do Motoqueiro Fantasma. Além disso, seria revelado que o demônio com o qual Blaze havia feito o pacto - até então referenciado simplesmente como "Satan" - era Mefisto, o "demônio oficial" da Marvel, criado por Stan Lee para ser antagonista do Surfista Prateado no final da década de 1960, e que já havia enfrentado Thor no início da década de 1970.

Blaze permaneceria sendo o Motoqueiro Fantasma até a edição 81, de junho de 1983, quando Zarathos deixou seu corpo para poder derrotar de uma vez por todas seu arqui-inimigo Centurious. Na verdade, essa foi uma "última edição" planejada, já que as vendas, desde 1980, estavam baixas e o personagem estava sendo considerado datado pelos críticos. Depois dessa edição, a revista Ghost Rider seria cancelada, e o Motoqueiro Fantasma deixaria de aparecer em outras publicações da Marvel.

Em 1990, porém, a Marvel decidiria dar uma nova chance ao personagem, atualizando-o para os novos tempos. Mas, ao invés de simplesmente fazer com que Zarathos voltasse ao corpo de Blaze, ela decidiria usar um novo "hospedeiro", com uma nova origem. Esse hospedeiro seria Danny Ketch, um jovem novaiorquino que, após ser atacado por uma gangue e fugir para um ferro-velho, encontra uma estranha moto, e, ao tocá-la, se transforma no Motoqueiro Fantasma. Ketch faria sua estreia em uma nova Ghost Rider número 1 (a terceira da história, pois a de Blaze era a segunda, já que a primeira foi a do Cavaleiro Fantasma), lançada em maio de 1990.

Ketch tem sua alma unida não a Zarathos, mas a um espírito conhecido apenas como Espírito da Vingança. Ele decide se tornar um herói primeiro para vingar sua irmã, morta pelo vilão Blecaute, e segundo porque, sendo um Motoqueiro Fantasma, ele passa a ser perseguido por vários vilões sobrenaturais, como Mefisto, Coração Negro e Pesadelo. O novo Motoqueiro Fantasma possuía os mesmos poderes do anterior, mais um novo, o Olhar da Punição, com o qual fazia com que malfeitores vissem todas as maldades que cometeram antes de morrer; e uma nova arma, uma corrente imbuída do fogo do inferno, controlada mentalmente. Curiosamente, ao invés de se tornar um esqueleto vestindo qualquer roupa que estivesse no momento, como Blaze, Ketch, quando se transformava, ficava vestido com o "Uniforme" do herói - basicamente uma jaqueta de couro preta cheia de espinhos, uma calça de couro cinza e botas - independentemente de qual roupa estivesse usando antes da transformação. A moto de Ketch, quando transformada, tinha um visual futurista, com uma espécie de escudo na frente.

Ketch faria parte, junto com Daimon Hellstrom, Jennifer Kale, Morbius e o Lobisomem, de um grupo de heróis sobrenaturais conhecido como Filhos da Meia-Noite. Lutaria ao lado do Homem-Aranha, dos X-Men, e, junto com o Homem-Aranha, Wolverine e Hulk, formaria o Novo Quarteto Fantástico. Ele também morreria duas vezes, uma pelas mãos do caçador de vampiros Blade, outra após uma luta contra Zarathos, sendo ressucitado pelo Espírito da Vingança após ambas as ocasiões.

Infelizmente, mesmo com essa carreira produtiva, o novo Motoqueiro Fantasma não seria um personagem de sucesso. Suas histórias seriam consideradas confusas e sua arte abaixo do padrão Marvel. Para tentar salvar a revista, os roteiristas trouxeram Blaze de volta, para atuar como uma espécie de mentor de Ketch - os dois atuariam juntos em um segundo título mensal, Spirits of Vengeance, e Blaze ganharia uma revista solo com seu nome. A estratégia não daria certo, entretanto, e a revista Ghost Rider acabaria cancelada novamente em fevereiro de 1998, após a edição 93 - que, aliás, termina com um cliffhanger, que só seria resolvido nove anos depois, com o lançamento da edição especial Ghost Rider Finale, em janeiro de 2007.

Quando a Marvel decidiu lançar seu selo Marvel Knights, que trazia histórias mais adultas que o padrão da editora, em 2001, resolveu trazer de volta o Motoqueiro Fantasma mais uma vez. E, dessa vez, seria Blaze, que se uniria a Zarathos novamente em uma minissérie em seis partes, Ghost Rider: The Hammer Lane, escrita por Devin Grayson. No final, o Motoqueiro Fantasma ficaria preso no inferno, de onde conseguiria sair após fazer um pacto com um anjo em uma nova minissérie em seis partes, Estrada para a Danação, de 2005, escrita por Garth Ennis. O sucesso dessa minissérie e a proximidade do lançamento do filme do personagem fariam com que, em 2006, fosse lançada uma nova revista chamada Ghost Rider (a quarta), com a numeração novamente recomeçando do 1, em setembro de 2006.

Curiosamente, o Motoqueiro Fantasma dessa nova revista era uma espécie de amálgama das duas encarnações do herói: ele era Johnny Blaze e ganhava seus poderes da união com Zarathos, mas, assim como Ketch, possuía a corrente, o Olhar da Punição e uma certa sincronia com sua "segunda alma" - ao invés de um suprimir o outro, ambos atuavam juntos quando Blaze estava transformado. A nova revista teria 35 edições, a última lançada em julho de 2009; em seguida, seria lançada uma nova minissérie em seis edições, Ghost Riders: Heaven's on Fire, na qual Blaze e Ketch, ambos como Motoqueiros Fantasmas, têm de deter o anjo Zadkiel antes que ele realize um ritual que trará o anticristo para a Terra.

A revista Ghost Rider seria mais uma vez relançada (pela quinta vez) durante o crossover Fear Itself, que se espalharia por diversos títulos Marvel; dessa vez, porém, o Motoqueiro Fantasma não seria Blaze nem Ketch, e sim uma mulher nicaraguense chamada Alejandra, em nove edições lançadas entre setembro de 2011 e maio de 2012. Depois disso, Blaze retornaria ao "cargo", e se uniria ao Hulk Vermelho, ao Líder, ao Justiceiro, a Deadpool e a Elektra na nova equipe dos Thunderbolts.

Como, aparentemente, a Marvel ainda estava achando que existiam poucas revistas chamadas Ghost Rider número 1, ela decidiria relançar o título mais uma vez (a sexta) em março de 2014, dessa vez como parte do selo Marvel NOW!. O Motoqueiro Fantasma do Marvel NOW! não é nem Blaze, nem Ketch, nem Alejandra, e sim Robbie Reyes, um jovem mecânico da Califórnia que, assim como Ketch, foi possuído pelo Espírito da Vingança. Reyes trará um novo desafio aos tradutores brasileiros, pois, ao invés de uma moto, ele dirige um carro customizado ("Piloto Fantasma"?). Quando está transformado, ele também tem uma aparência mais tecnológica, como se seu crânio fosse robótico.

Sei não. Pra mim, o único Motoqueiro Fantasma que presta é Johnny Blaze. O resto é querer inventar.

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